Quarenta (e um) passos para ser bastante infeliz


Existe muito livro de auto- ajuda e textos pela Internet dando lições sobre como ser feliz. Coisa que eu acho impossível, já que as pessoas são felizes (ou infelizes) de formas muito diferentes. Mas, sobre como ser infeliz ninguém fala. É tão óbvio como cavar a própria infelicidade, mas passa por alto. Hoje estava pensando nas coisas cotidianas que podem tornar as pessoas bastante infelizes sem perceberem; às vezes, entram por caminhos sinuosos e inecessários, apenas com pensamentos recorrentes, ações diárias e a percepção que têm sobre os demais. Eu comecei a escrever e saiu quarenta (e um) itens que devemos evitar a todo custo. Caramba, parece auto- ajuda, mas lá vai:

  1. Pense em todos, menos em você.
  2. Pense só em você, esqueça os demais.
  3. Mantenha relacionamentos que não deseja.
  4. Coloque doses diárias de pessimismo em tudo o que fizer.
  5. Conforme- se, não faça nada, fique parado assistindo TV ou Netflix.
  6. Escute todo mundo, menos o seu coração.
  7. Pense em futilidades e não cultive o seu mundo interior.
  8. Acredite em tudo o que os outros falam.
  9. Trabalhe em algo que detesta.
  10. Não trabalhe ou estude, não faça nada produtivo e que possa te sustentar no presente ou futuro.
  11. Tenha muito medo de errar.
  12. Tenha medos infundados e deixe que te dominem.
  13. Crucifique- se por suas falhas.
  14. Não aprenda nada novo.
  15. Viva no passado.
  16. Culpe os outros por tudo.
  17. Espere que outros façam tudo por você.
  18. Não assuma os seus erros.
  19. Seja invejoso.
  20. Nunca cante e dance.
  21. Viva isolado, seja bastante antissocial.
  22. Não viaje, não conheça outras culturas.
  23. Seja racista e preconceituoso.
  24. Coma muito e de tudo sem se preocupar com amanhã.
  25. Nunca faça revisões médicas.
  26. Viva na sujeira e desordem.
  27. Tenha muitos pensamentos derrotistas.
  28. Olhe a todos como se fossem inimigos.
  29. Seja desconfiado sempre.
  30. Dê muitas facadas pelas costas (cuidado, no sentido figurado!) e cuspa no prato que comeu.
  31. Economize sorrisos. Gargalhadas nem pensar.
  32. Seja perfeccionista e não tolere erros próprios e alheios.
  33. Cobranças são algo que incomodam bastante. Então, incomode muito a sua família, marido, esposa, mãe, pai, irmãos, filhos, com elas.
  34. Não tenha empatia nem solidariedade pela dor alheia, quanto mais frio, melhor.
  35. Julgue muito e, na dúvida, sempre condene.
  36. Nunca beije, muito menos abrace.
  37. Corra dos problemas alheios, vai que precisam de sua ajuda.
  38. Finja muito, nunca seja verdadeiro, nunca diga a verdade.
  39. O ódio é algo a ser cultivado, quanto mais odiar, mais infeliz será.
  40. Sempre queira algo em troca por tudo que fizer.
  41. Essa vai de lambuja: mande bastante indiretas no Facebook, nunca fale abertamente sobre o que te incomoda.

Se você conhecer alguém que se encaixa em dez itens pelo menos…xiiii….compartilha!

 

 

 

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Resenha: “A última palavra”, de Hanif Kureishi


O filósofo e escritor Hanif Kureishi (Londres, 05/12/1954), de pai paquistanês e mãe inglesa, ainda não é um autor muito conhecido no Brasil, mas foi editado no país,  “A última palavra”, pela Companhia das Letras, além dos livros citados abaixo. Coloquem esse autor na lista, ele é MUITO BOM!

11156338_446205912201641_8415280381686851083_nEssa foto é minha (2015). O autor é de pouco sorrisos. Dei uma “googleada” e vi que ele quase sempre tem o semblante sério.

Hanif é romancista, contista e roteirista de televisão, teatro e cinema. O seu romance “o buda do subúrbio” virou série no Reino Unido pela BBC ; o autor escreveu quatorze roteiros, inclusive “Intimidade”, livro que gostei muito, leia a resenha aqui. Também escreveu uma espécie de autobiografia “Meu ouvido no seu coração”. E “minha adorável lavanderia”, por exemplo, que conta a história de uma família paquistanesa que imigra para Londres numa tentativa de melhorar de vida.

1610964_10153373690816885_5147794014020518013_nFoto do perfil de Hanif no Facebook. Sensualizando? 🙂

A família Kureishi. Os meninos maiores parecem gêmeos (foto do The Telegraph). E por causa dessa foto, vi uma reportagem de 2013 que o autor perdeu 120 mil libras de suas economias em um golpe que recebeu do seu contador. Duro, hein?!

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E do Facebook, as seguinte fotos de Kureishi com os filhos (sim, gêmeos), Sachin e Carlo:

10730928_10154727509965052_8613435098420266183_nHanif e Carlo em 2014 (Facebook de Carlo). “A última palavra” está dedicado a este filho. Ele atuou em um filme com roteiro do pai, “Recomeçar” (2003, original “The mother”).

1461668_10202864347473898_1053907125_n Hanif e Sachin em 2013 (Facebook de Sachin). Ele é casado com Electra Simon, uma londrina que mora em Madri (segundo seu Facebook).

Só não achei fotos mais atuais do filho caçula e nem da esposa. E agora que já conhecemos um pouquinho mais da vida pessoal do autor, vamos à obra, “A última palavra” (2014):

O indiano Mamoon Azam é um escritor consagrado, mas que deixou de vender livros. Ele é casado com uma italiana chamada Liana Luccioni, vivem numa bela casa de campo na Inglaterra chamada “Prospects House”. Como manter esse padrão de vida sem vender livros? O autor decide contratar um jovem biógrafo chamado Harry Johnson, muito culto, para escrever a sua história e tentar alavancar as vendas.

A história começa assim: Harry viajando de trem até a casa de Mamoon, autor que admira desde a adolescência; para ele, apaixonado por literatura, Azam é um deus. Harry, 30 anos, não só é apaixonado por literatura, estudou, preparou- se justamente para o momento que estava prestes a acontecer.

Rob Devereaux, um respeitado editor, acompanha Harry na viagem. O sujeito é alcoólatra, desbocado, descuidado com a aparência e asseio pessoal.

Rob considerava a escritura uma forma de combate extremo e a “salvação” da humanidade. Para ele, o escritor deveria transformar- se no próprio demônio, um perturbador de sonhos e destruidor de fátuas utopias, o portador da realidade e o rival de Deus no seu desejo de forjar mundos.” (p. 13)

O editor, que é mau caráter, tem um plano de marketing totalmente canalha. Deseja que Harry escreva uma biografia “louca e selvagem”, para agitar a vida de Mamoon com a intenção de que seja convidado para muitos eventos literários e divulgado na  imprensa. Resumindo: quer que o biógrafo consiga confissões escandalosas do escritor, todos os seus “podres”, aproveitando- se da fragilidade atual do autor e de seu passado de mulherengo, promíscuo, mesquinho, machista e biriteiro. Além das duas esposas, teve uma terceira, Marion.

Liana adverte que deseja uma biografia “gentil”, que não prejudique a reputação do marido. Mas quer que o marido vire uma “marca”, já que constatou que o autor não recebia tanto quanto pensava. Ter prestígio nem sempre traz dinheiro. A italiana pensa em mil formas de como pode rentabilizar a escrita do indiano.

A mulher também vai usar o biógrafo como empregado doméstico. Harry irá carregar compras e afins, buscar lenha, carregar caixas, além de reler toda a obra do prolixo escritor, os diários muito tristes da sua primeira mulher suicida, muito material armazenado num arquivo insalubre. O rapaz está preparado, vem de uma família com tradição acadêmica.

As pessoas mais cultas, infelizmente, e contraditoriamente ao que deveria ser, não têm bons trabalhos, muitas vezes, e precisam fazer coisas que não se orgulham para sobreviver. Harry irá obedecer o editor por dinheiro ou irá prevalecer o amor pela literatura e a admiração por um dos melhores escritores do mundo? E Mamoon, será que vai cair na armadilha ou será ele que irá armar a arapuca?

O homem mais valente se acovardará diante da perspectiva de ter que levantar o véu do passado, a menos que esse passado seja de uma pureza excepcional (p. 28)

É uma obra cheia de… humanidade! O que nos torna melhores ou piores são as nossas escolhas. Qual é a última palavra que você diria a alguém sabendo que jamais a veria de novo? Qual o seu legado?

Gosto muito da escrita de Hanif Kureishi, recomendo este livro, gostei bastante!

O meu exemplar autografado:

19274963_813315418824020_8094196274227269396_nMinha edição autografada em 2015, poucos meses depois da edição inglesa, quando o autor esteve em Madri na altura do Dia Internacional do Livro.

Essa é a edição espanhola que eu li:19225994_813315422157353_971265382701067722_nKureishi, Hanif. La última palabra. Anagrama, Barcelona, 2014. Páginas: 295