Resenha: “A cidade Sitiada”, de Clarice Lispector


Perder- se também é caminho (p.138)

Na minha conversa diária com os escritores através de suas vivas literaturas, é onde encontro respostas para as minhas diversas inquietações. Há mais diálogo produtivo e interessante com os mortos, do que com os vivos.

Estado de sítio, segundo a Constituição do Brasil:

Art. 137 – O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para decretar o estado de sítio nos casos de:

I – comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa;

II – declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira.

Parágrafo único. O Presidente da República, ao solicitar autorização para decretar o estado de sítio ou sua prorrogação, relatará os motivos determinantes do pedido, devendo o Congresso Nacional decidir por maioria absoluta.


O terceiro romance de Clarice Lispector, “A cidade sitiada” (1949),  “é considerado por muitos o melhor romance de Clarice”, segundo o editor. É uma obra fascinante!

Este é bem diferente dos romances “A paixão segundo G.H.” ou “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” (meus preferidos), que são uma imersão profunda na alma dos personagens, são romances psicológicos, um espaço atemporal, muito característicos da autora. Em “A cidade sitiada”,  a temática é político- social vista pelo lado do proletariado, primeiro, e depois visto pelo lado emergente.

Na minha procura por dados históricos deste período, constatei que existe muita literatura escrita pelos filhotes da ditadura, muita obra maquiada, desconfie de todas, prestem atenção em quem as escreve.

A autora usou uma técnica interessante que, a priori, pensei que iria aborrecer esta leitora: a descrição. É como se ela tivesse uma fotografia ou um quadro na sua frente.

A  voz narrativa não julga muito os personagens, é objetiva, mas com o desenrolar da história vamos conhecendo o interior da personagem principal, Lucrécia Neves. E existe, na própria obra, até uma justificação para o livro ter sido escrito assim, a precisão:

História que poderia ser vista de modos tão diversos que a melhor maneira de não errar seria a de apenas enumerar os passos da moça e vê- la agindo assim como se apenas se diria: cidade. (p.72)

O título resume a essência da obra, “A cidade sitiada”. O estado de sítio acontece em ditaduras e guerras, uma medida excepcional, onde as forças armadas estão a postos para reprimir a democracia, como aconteceu no Brasil em várias ocasiões, o militarismo no Brasil sempre fracassou e sucumbiu o país num caos social, político e financeiro, além da democracia. A população das periferias vive esse estado muito cotidianamente e quebrar essa barreira é para muito poucos.

O prólogo do livro situa a história em 1920, época do Tenentismo, do golpe militar seguido da Era Getúlio Vargas (1930-1945). Sempre foram os comunistas, “os vermelhos” temidos pelos fascistas, que iam para a linha de frente lutar pela classe trabalhadora, pelos direitos trabalhistas e pela liberdade. O brasileiro é um ingrato.

Esse ditador, o Getúlio (que deveria ter seu nome retirado de instituições, escolas e afins, a apologia à fascistas fez muito mal ao Brasil) comungava com os nazistas / fascistas europeus Mussolini e Hitler. O seu lema, “o perigo vermelho”, incitava o ódio aos comunistas/socialistas, havia censura, repressão e violência. O sujeito acalmou as massas instituindo um salário mínimo (miserável, que contentou os empresários) e a jornada de trabalho de oito horas por dia. “Tudo pelo progresso”. Ele queria a modernidade que o pobre não tinha acesso, com mão -de -obra baratíssima.

Assim é o momento histórico da escritura do livro, o pós- ditadura de Vargas, a obra retrata o estado de sítio que viveu o Brasil em dois momentos antes da publicação deste livro, em 1930 e 1935; em 35, durou um ano inteiro. A obra, visto do lado da periferia transpira militarismo, uma atmosfera tensa, de medo:

Seu modo de ver era tosco, rouco, recortado: os soldados! (p.35)

Passara o perigo. Era noite. (p.41)

-A pancada súbita do casco! (p.51)

Lá estava a cidade. (…)
Se ao menos a moça estivesse fora de seus muros.
Mas näo havia como sitiá- la. Lucrécia Neves estava dentro da
cidade. (p.52)

O romance é ambientado no subúrbio carioca de São Geraldo, um lugar bem precário, sujo, insalubre, cheio de animais peçonhentos e esgoto.  A protagonista é Lucrécia Neves, uma jovem que sonha melhorar de vida, casar e sair desse buraco.

Ana é a mãe de Lucrécia. A página abaixo diz coisas importantes, Lucrécia pode ser comunista. Observe, “mais uma vez ela voltara ferida”. Ou ela volta arrebentada depois de recusar o beijo do militar Felipe, que, humilhado, se vingou?  “Os cabelos escondiam metade da cara ferida”:

Só como curiosidade: preste atenção no primeiro parágrafo da imagem acima, que fala de “cravos boiando nos esgotos”.  Nessa época, o meio de transporte era o cavalo, também usado pelo Exército. Cravo sinônimo de prego e não de flor. Os ferreiros batiam na ferradura primeiro, antes de martelar o casco para assustar menos o cavalo. Esse é o sentido literal, e tem uma expressão figurada, um provérbio português: “Uma no cravo, outra na ferradura”, que significa fazer algo bom e em seguida algo ruim, similar ao “morde e assopra”:

Será Lucrécia uma espiã ou só observadora consciente da vida?

Espiando. Porque alguma coisa não existiria senão sob intensa atenção. (p.74)

Lucrécia vivia numa casa lúgubre e sua mãe quase não saía. A moça fazia uma espécie de vigilia, assustava- se com o bater dos cascos dos cavalos dos militares. Andava sempre sobressaltada. Numa noite, chegou um homem para entregar “carvão”. É como se o tempo todo ela temesse que os militares viessem prendê- la. Tudo é escrito em forma de códigos e enigmas:

Os cavalos de Napoleão estremeciam impacientes. Napoleão sobre o cavalo de Napoleão estava parado de perfil. Olhava para a frente no escuro. Atrás a tropa em silêncio.

Mas não amanhecia. Eles esperavam a noite toda. (p.64)

Não é uma leitura fácil. A impressão que fica é que Clarice escreveu para não ser entendida, mas sentida. É necessário muito conhecimento prévio para entender este livro, o que é um desafio delicioso. Este livro não se trata de uma “moça pobre que quer casar”, isto é secundário. Ele trata sobre fascimo no Brasil que destruía as pessoas dos subúrbios. Elas viviam massacradas e sem esperança.

Clarice não era do proletariado, ela era esposa de um cônsul, morou em vários países, mas era amiga de comunistas. Será que Clarice falou de si mesma? Será que sofreu este dilema?

Também Lucrécia Neves se esforçava para se exteriorizar, sem saber se devia se dirigir à esquerda ou à direita. De súbito acordou.

A moça paquerou Perseu Maria, apaixonado por ela, mas pobre e o Tenente Felipe, o que lhe proporcionava segurança para andar nas ruas e o que poderia ser um marido que lhe tiraria do seu bairro imundo, mas ele não queria casar. Felipe a humilhou devido à sua condição social pela recusa de seu beijo, só quis se “aproveitar” da moça. Depois ela apareceu com a cara quebrada.

Lucrécia acabou cedendo ao mais fácil: casou com Mateus, um advogado muito mais velho que ela. Cansou da luta, entregou- se. Foi morar na capital, mas não se acostumou, quis voltar para S. Geraldo, que se transfigurava dia a dia. Os cavalos foram dando lugar às máquinas e bondes, restaurantes e cinemas. O passado começou a ser demolido sem nenhum critério ou piedade, “tudo pelo progresso”.

Lucrécia acostumou- se com a vida de classe média alta. É rica. O dinheiro dá a falsa impressão de que as pessoas podem ser tudo o que quiserem. Lucrécia agora tem empregada e as manda embora por qualquer pretexto, até por “um queijo desaparecido” (p.110).

Ela, que não casou por amor, o encontrou pelo caminho. O doutor Lucas  inesperadamente apareceu para quebrar o esquema da sua vida “perfeita”.

Mateus faleceu e a viúva alegre não demorou muito em se animar e pensar em um segundo marido. O pensamento arraigado, machista e  muito brasileiro, de que as mulheres só podem ser felizes com um homem ao lado.

Clarice tomou partido publicamente. A foto abaixo é de 1968, em uma manifestação contra os militares, ao lado do pintor Carlos Scliar e o arquiteto Oscar Niemeyer (foto: Editora Rocco):

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Havia muitas obras no bairro de S. Gonçalo. Os militares prometiam progresso. Os fios, edifícios, usinas, avenidas começavam a aparecer da noite para o dia diante dos olhos incrédulos dos moradores, que nem luz tinham em casa. Trabalhadores que construíam o “progresso” com as próprias mãos, mas que não tinham acesso a ele.

Alguma coincidência com a realidade? Os militares melhoraram a vida de quem mesmo?

img_3867Lispector, Clarice. A cidade sitiada, Relógio D’água, Lisboa, 2009. Páginas: 147 páginas


Há que se respeitar mais os escritores. Principalmente os grandes. Você pode fazer isso, lendo- os, o que serve como antídoto contra a burrice. Os clássicos têm uma situação complicada. Como estäo sacramentados, contraditoriamente, são menos lidos. É como se tudo já tivesse sido dito sobre eles. Não. A opinião do outro não sacramenta nada (mesmo que seja especialista), é só uma opinião e muitas vezes nem é certa. Li prólogos e resumos absurdos sobre este livro. Gente que passou muito longe da essência dessa obra “uma jovem cansada do subúrbio e que queria casar”, dizer isso é muito simplista, a obra é muito mais profunda e retrata vários motivos do Brasil ser como é, tão desigual.

Leia, sinta, comprove você mesmo, investigue, pense, duvide de tudo que te contarem. Abra caminhos novos.

Amigos e amigas, amanhã será um dia muito importante na história brasileira. É incrível que nesses últimos dias eu tenha tentado convencer pessoas a não votar num fascista. É surreal! Pelo menos quem lê e sabe interpretar textos e o passado, não deveria ter caído nessa.

Deixo aqui um link “Resistir é preciso”, um documentário sobre pessoas torturadas no golpe de 64. Um deles é meu tio. Sabe qual foi o “crime” dele? Ser presidente de uma associação de estudantes. Ele foi preso e torturado no porão de um quartel que hoje funciona como o “Palácio do Menor”, na cidade de Feira de Santana.

O nosso voto sempre tem que ser pela democracia e pela liberdade de expressão, o contrário disso é a barbárie. Temos que evoluir e não regredir!

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Poesia concreta brasileira


O Concretismo no Brasil “impôs- se” em 1956, segundo Alfredo Bosi. Antes disso, em 1952, surgiu uma antologia “Noigrandes”, composta por Haroldo Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, creio que os escritores mais importantes e, digamos, “puros” nesse gênero, pois desenharam uma poesia carregada de significados, poesia pra ver. Veja alguns exemplos:

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Essa é uma das minhas preferidas, de Décio Pinatari. Vai continuar tomando Coca- Cola?!décio

Essa também é de Décio Pignatari:

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A leitura de poesia concreta é diferente da poesia convencional, porque a forma é muito importante. As palavras soltas no espaço têm muito mais liberdade artística e de significado. Elas podem ser lidas de baixo pra cima, do meio pro final, de trás para frente, não têm uma ordem, os versos podem ser livres, fixos, sem rimas, com rimas, não têm sistema definido. O leitor é convidado à anarquia, à rebelião e é um sujeito muito ativo no processo leitor, na construção de significados. A forma do poema antecede a leitura convencional. O leitor pode até parar por aí, se quiser, só na forma do poema. Os modernistas vieram para isto, para quebrar esquemas, ritmos, leituras, tradições, destruir e recriar  algo novo, diferente.

Referência bibliográfica: Bosi, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira, Cultrix, 36ª ed., SP, 1994.

Existe diferença entre ser “autor” e “escritor”?


Existe diferença entre ser “autor” e “escritor”? Já parou alguma vez para pensar nessa questão ou sempre considerou sinônimos os termos?

Segundo Affonso Romano Sant’Anna, existe diferença. Veja:

(…) Chamo autor àquele que publica um texto no qual o objetivo é escrever algo relacionado com sua trajetória pessoal ou sobre um tema, despreocupado das qualidades estéticas e literárias. O objetivo da obra, neste caso, é servir de veículo e de meio. Mas com um escritor a coisa  é diferente. Além de a obra ser um veículo, um meio, ela também é um fim em si mesma. Ou seja: ela tem uma finalidade estética, artística, histórica e social. O escritor está voltado fundamentalmente para a questão da linguagem. E é no trato com a frase, com os recursos estilísticos e expressivos, que ele vai aprendendo a reconstruir a si mesmo e a refletir sobre o mundo.

Gostei muito distinção de Affonso, que nos ajuda a separar o joio do trigo com mais clareza. A partir de agora nas minhas resenhas irei fazer essa distinção. Se for literatura menor, “autor; se for literatura artística e bem cuidada, “escritor”.

Você que gosta de escrever pensa: quer ser autor ou escritor?

A cita foi retirada do livro “Como se faz literatura”, de Affonso Romano Sant’Anna, da Rocco (e-book):

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PDF grátis: “O Zen e a Arte da Escrita”, de Ray Bradbury


Esta semana será dedicada ao escritor americano Ray Bradbury.

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Ray Bradbury, autor de “Crônicas marcianas”.

Se você não leu o post de ontem: “Onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos”, dá uma olhada, vale a pena!

E vocês, leitores fiéis do Falando em Literatura, merecem um presentinho: PDF totalmente gratuito do livro “O Zen e a Arte da Escrita”, que reúne onze ensaios de Bradbury, onde o autor fala sobre o prazer de escrever. Ele desfruta do seu ofício e explica como e porquê. Clique no link abaixo e salve o arquivo no seu computador:

O Zen e a Arte da Escrita – Ray Bradbury

Ah, dê uma olhada na lista de e-books já postados aqui no blog para ver se algum te interessa.

Enjoy!

 

Resenha: “O estrangeiro”, de Albert Camus


Essa é uma das leituras mais complicadas que já fiz. A análise não está completa, talvez nunca esteja, ainda estou pensando.

Depois de ter lido “A queda” e ter adorado, emendei com “O estrangeiro”, que é uma das obras mais conhecidas de Albert Camus. História complexa. Confesso que me faltam recursos “técnicos” em Psicologia para descrever a profundidade do personagem Meursault.

O livro é dividido em duas partes: a primeira nos conta quem é o personagem principal, suas relações, sentimentos e modo de vida; a segunda, as consequências do assassinato que cometeu.

Esse romance transcende tudo o que eu já li até agora, vai mais além do que eu conheço e entendo.  É uma parábola da condição do homem. Uma alegoria da fatalidade que resulta viver como se vive.

A história acontece na Argélia (terra natal do autor). Começa com a notícia do falecimento da mãe de Meursault comunicada através de um telegrama. Ele mora em Argel e a mãe em Marengo, distante duas horas. Ela morreu num asilo. Parece que a relação entre eles não era muito fluida, não se falavam todos os dias, ele não sabe ao certo o dia de sua morte. Assim começa o livro (p.11):

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe falecida. Enterro amanhã. Sentido pêsames”. Nada quer dizer. Talvez foi ontem.

Parece frieza, mas quem era sua mãe? Cuidou dele ou o abandonou? Em um brevíssimo momento cita o seu pai, nunca o conheceu. Ele pagava o asilo para a mãe, não a deixou desamparada. Mas, dependendo da sua visão do mundo, se tem a sua mãe em um pedestal e a considera um ser santificado, vai julgar e condenar Meursault como a maioria faz. Asilo virou sinônimo de coisa ruim, abandono, descaso, mesmo que a pessoa esteja sendo muito bem tratada, cuidada e amada. Camus era inteligentíssimo. “Brincou” com muitos dos pré- conceitos das pessoas.

Mersault é um ser racional, que aceita sem dramas as coisas ruins da vida. As boas, tampouco lhe emocionam. Um ser que parece carecer de sangue nas veias, mas isso tudo tem a ver com a verdade. Ele não teatraliza a sua existência.

No dia do velório da mãe, ele pensa em coisas triviais, a hora que vai pegar o ônibus, pensa no chefe que o dispensou do trabalho com má vontade e nem sequer deu os pêsames. Ele resolve essas coisas, viaja, almoça, com uma sensação de não acreditar ainda na morte de sua mãe. Pode ser um mecanismo de defesa, a negação. Quando você não pensa em algo, ela não existe.

A mãe estava há três anos no asilo. A relação entre eles era incômoda, não tinham assunto. Ela gostava de ficar no asilo, estava adaptada e tinha até um namorado.

Durante o processo judicial Meursault sofreu um julgamento paralelo mais forte em relação a sua mãe, do que o do assassinato do árabe. O crime não foi premeditado, foi em legítima defesa. Meursault foi ofuscado pelo sol na praia e disparou mais tiros do que os necessários. Mas ele já estava condenado antes de ser julgado.

Muitas resenhas por aí dizem que o protagonista é frio e que não ligou para a morte da mãe. Isso é ter lido O estrangeiro muito superficialmente, não leu as entrelinhas, não interpretou e isso é o mais importante de uma obra literária. Ler ao pé- da- letra não é ler.  Nem sei se vou conseguir me fazer entender aqui, mas sei que não foi simplesmente frieza.

Pensei em muitas coisas, até em sociopatia e psicopatia, no final, mas ainda refletindo, creio que Meursault é o mais equilibrado dos personagens, pelo menos age de acordo com o que pensa e sente, não como a maioria das pessoas na vida mesmo. Ser verdadeiro é coisa muito mal vista, todos estão para as aparências e para agradar os demais, não? Meursault é um símbolo de algo maior. A liberdade? A clareza, a sinceridade?

Não tenho capacidade para adivinhar o que quis dizer Camus com esse personagem, mas vou dar a minha opinião: todos somos Meursault. Quantas vezes você sorriu sem vontade? Fez muitas coisas sem vontade, porque era o estabelecido, você não tem liberdade de ser quem quer, quem é, por causa de regras sociais de conduta. Quantas vezes esteve com pessoas e lugares que não queria estar? Muitas, não? A diferença é que  Meursault não faz isso, ele nos revela atos e verdades incômodas, consegue ser livre dentro da prisão que é o viver. Isso fica bem claro no final. Na prisão, mas livre.

A linha entre ser “uma pessoa normal” e um assassino é muito sutil. Se você tem uma arma na mão e uma pessoa quer te machucar, porque já te machucou antes…se ela viesse na sua direção com uma faca, o que você faria? Esperaria ser esfaqueado ou atiraria na pessoa?

Não o condenaram pelo ato de matar alguém, mas por quem ele aparentava ser durante a sua vida. Foi julgado até por ter tomado um café- com- leite no velório da sua mãe e por não ter chorado. Por ter ido à praia e ao cinema com a sua namorada no dia seguinte. Tudo isso o condenou.

Tudo o que você pensa é bom? Você, leitor, também julgou Mersault.

Analise os seus pensamentos e ações e veja o quanto de Meursault existe em você. Ainda bem que o pensamento é livre, senão estaríamos todos, eu digo todos, condenados.

Quando você não demonstrar algo que a sociedade espera, será esmagado. Continue fingindo. Meursault é inocente. Ou somos todos culpados?

Leia  e coloque o personagem no banco dos réus. Brinque de juiz.

A edição espanhola lida:

13418727_619713974850833_7974081358851172287_nCamus, Albert. El extranjero. Alianza Editorial, Madrid, 2015. Páginas: 122

O que é Arte? O que é Literatura?


Eu vejo muita gente falando sobre literatura nas redes sociais, blogs, vlogs, páginas no Facebook, Instagram, Twitter, Snapchat e afins. A maioria (dá para notar fácil) não lê o livro, pois é impossível, fisicamente, ler e resenhar um ou mais livros por dia como alguns querem nos fazer acreditar. Leitura, leitura…não. Não mesmo. O que eu vejo é que lêem as sinopses. Isso é falar sobre Literatura mesmo?

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Literatura é uma Arte. E a Arte vem sofrendo tentativas de definições desde a Antiguidade. Aristóteles, por exemplo, disse que  a Arte é mimesis, uma imitação da realidade, essa é a que eu mais gosto; Kant falou que a Arte não tem que ter nenhuma utilidade, ela é movida pela beleza, pelo prazer que proporciona. Os filósofos, principalmente, estudam a Estética, que é o belo, o bom, o feio, o ruim, e tudo isso está implicitamente ligado à Literatura.

É impossível citar todos os teóricos que tentaram definir a Arte, porque praticamente todos de todos os tempos deram a sua opinião sobre o assunto. Eles estão certos e estão errados, porque a Arte não é uma única coisa, acho que ela é tudo junto, todas as definições juntas, ainda que contraditórias, porque a Arte é assim mesmo, um reflexo do ser humano cheio de beleza e horror, de alegria e tragédia, de sutileza e aberração, de pureza e malícia, de bondade e mesquinhez. Eu acho que a arte literária reflete bem tudo isso, literatura é espelho, é desbravar a alma, cenários, pensamentos, sentimentos, experiências  humanas contadas de diferentes formas, material inesgotável e que expõe os feitos de épocas e sociedades, ficção sim, mas reflete verdades. Quando a gente lê Machado de Assis, por exemplo, dá para imaginar como viviam e pensavam as pessoas na época.

Mas nem tudo o que está na livraria é Arte. Muita coisa vendida como Literatura não é. As obras literárias artísticas têm estruturas, formas de desenvolver o texto, de construir cenários e personagens, tempos, narradores, de trabalhar a linguagem, isso você pode aprender estudando em uma universidade ou estudando sozinho. Mas estude. A intuição ajuda, mas se você se propôs a criar um blog ou vlog literário, que pelo menos saiba do que está falando. Muitos livros nos blogs e vlogs que andei vendo não podem ser considerados Literatura, porque não são Arte. É urgente a necessidade de criar- se um termo para a não- literatura fantasiada de literatura. Porque a Literatura exige um tipo de linguagem figurada, tropos, recursos linguísticos que a torna isso, Arte. O diálogo pode ser até coloquial em algum momento, mas não o tempo todo. Isso empobrece o texto, o torna menor. A boa literatura está intimamente ligada com a prosa poética. Quando mais a prosa tenha ares poéticos, mais rica e sublime fica. Aí já é opinião pessoal. Nem todo mundo tem talento (aliás, a maioria não tem) ou a capacidade para escrever textos sublimes, com sutilezas, inovações e vernizes que fazem estremecer o nosso interior de beleza ou de qualquer coisa. São textos assim que eu desejo.

Você que fala sobre Literatura na Internet precisa, pelo menos, saber o que são os gêneros literários e as figuras de linguagem, é só consultar em livros de colégio ou em qualquer manual de teoria de literatura.

Fica a dica.

PDF grátis de Antônio Cândido (corre!)


Antônio Cândido é a minha bíblia. Quando tenho alguma dúvida teórica ou preciso de algum esclarecimento é o primeiro a quem recorro, depois parto para Massaud Moisés, normalmente. Encontrei um livro grátis BACANA para a turma de Letras ou qualquer leitor interessado em teoria da literatura. Esses textos não se diferenciam muito das resenhas (dou esse nome aqui, mas na verdade são ensaios) que costumo escrever aqui no Falando em Literatura, no que se refere à forma de direcionar as questões literárias.

14032013Prof_antoniocandidofotomarcosfoto005Antônio Cândido (Rio de Janeiro, 24/06/ 1918),  96 anos, é o maior crítico brasileiro da atualidade. Professor, poeta e ensaísta.

A obra A educação pela noite & Outros ensaios reúne textos de palestras e artigos diversos, que estão organizados em três partes e “não há ordem necessária de leitura”. A primeira parte analisa o teatro e obra de Álvares de Azevedo; a segunda parte fala sobre a obra do italiano Giraldi Cintio e ainda  sobre os críticos Sílvio Romero e Sérgio Milliet; na terceira parte, ele fala sobre o subdesenvolvimento  e sua relação direta com a falta de leitura, a baixa produção literária e cultural da América Latina e encerra com a “nova narrativa”, a literatura contemporânea.

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Antônio Cândido lê “Maíra”, romance de Darcy Ribeiro, citado nessa obra, “A educação pela noite & outros ensaios”

Corra e salve no seu computador.

UPDATE: o link acima já não está funcionando (eu avisei que tinha que ser rápido, esse livro custa quase 50 reais). Enquanto a literatura não for democrática e para todos, continuarei divulgando esses links. Existe outra forma de “pegar” o livro: vá no Google e digite “Antônio Cândido PDF A Educação pela noite”, vai aparecer na lista e por aí você consegue entrar e voilà! 

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