Resenha: 24 horas na vida de uma mulher”, de Stefan Zweig


Essa é a primeira obra que li de Stefan Zweig (1881- 1942), escritor austríaco, que faleceu em Petrópolis (Rio de Janeiro) junto à esposa Lotte. O casal judeu cometeu suicídio motivado pela guerra (Holocausto) que acontecia na Europa. A obra agradou- me muito, recomendo!

d792d798d799-3278815

Stephen Zweig com a esposa Lotte Altmann

Veja a carta  de despedida que o autor deixou:


DECLARAÇÃO

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.

Stefan Zweig


O poema abaixo, o autor escreveu no seu aniversário de 60 anos, poucos meses antes do suicídio, uma declaração do que pretendia:


Pressentimento

As horas dançam com langor
Sobre os cabelos cinza-prata;
Só quando a taça é esvaziada,
O fundo de ouro mostra a cor.

Sentir tão perto o mais profundo
Dos sonos não transtorna… acalma.
Só quem já sossegou a alma
Contempla satisfeito o mundo.

Do que alcançou não mais duvida;
Não mais lamenta o que perdeu.
Sabe que envelhecer é seu
Caminho para a despedida.

Na derradeira luz do dia
É que a paisagem se libera;
E o homem ama a vida à vera
Quando, no escuro, a renuncia.

Trad. André Vallias


Vamos ao livro, “24 horas na vida de uma mulher”.

A história acontece dez anos antes da II Guerra Mundial, em uma pensão em Monte Carlo com vistas ao mar, um anexo do Palace Hotel, onde moram sete personagens burgueses: um casal alemão, um dinamarquês, uma inglesa, um casal italiano e o narrador, parece ser o alter ego do autor, não há detalhes sobre ele. Reunidos em uma mesa, estão exaltados e tentam entender um episódio que acaba de ocorrer. Vamos aos fatos.

A chegada de um jovem francês belíssimo, que inspira confiança e simpatia, revolucionou o lugar em apenas alguns dias. Ele alugou um quarto de frente ao mar, se enturmou rapidamente e também foi embora apressadamente em um trem. Desaparece a senhora Henriette, uma mulher casada de 33 anos e mãe de duas filhas. O marido encontra uma carta: a mulher o tinha abandonado.

A turma da pensão começa a especular se a senhora Henriette fugiu para ir atrás do vigarista, ela tinha conversado com ele durante apenas duas horas;  já o conhecia anteriormente? O narrador acha que a mulher fugiu de um casamento entediante. Os dois homens casados ofendem- se e contra- atacam “dizendo que só podia falar assim quem avaliava a psique feminina segundo conquistas casuais e baratas feitas por solteirões” ( p. 21). A discussão ganhou tom de ofensa.

Todos especulam sobre as razões que uma mulher como a srª Henriette abandone tudo sem se despedir. Vítima de um vigarista ou “espírito de prostituta”? Falta de liberdade, tédio? Apaixonou- se? Leviana, um espírito fraco? O narrador defende a mulher, acredita que a opinião pública é a pior e mais cruel das “justiças”, a mais severa. O julgamento moral é mortal muitas vezes.

E essa discussão toda e eles nem sabem realmente se a mulher casada foi atrás do moço bonito. São só suposições. E o espírito de união do grupo foi quebrado. Ficaram frios e distantes uns com os outros.

O narrador tem mais simpatia pela senhora inglesa, Mrs. C,  de 67 anos e viúva aos 40. Ela tem algo que contar- lhe, uma confidência, trocam bilhetes e marcam um encontro no apartamento da mulher. A história que ela quer contar é a sua, “apenas 24 horas dentro de 67 anos”. Ela repetiu a vida toda: “que importa ter uma vez agido com insensatez?” (p.37)

Mrs. C. autoacusa- se há 25 anos. Ela acha que contar esse único dia da sua vida, que aconteceu quando tinha 42 anos,  será uma forma de libertação ou de consolo. Que a inglesa fez nesse dia para ter problemas de consciência diariamente durante tanto tempo?

Ela frequentava cassinos, costume herdado do marido falecido; também aprendeu a ler as mãos, não como as ciganas que “preveem” o futuro. Ela lia as mãos, seu formato e gestos, acreditava que se sabia mais da pessoa assim, que olhando para o seu rosto. Fixou- se em umas mãos que jogavam e ficou extasiada. Teve que ver de quem pertenciam. Resultado: eram de um moço de 24 anos, que ela observou por uma hora e leu que ele iria cometer suicídio depois de ter perdido tudo no jogo. “Fiquei petrificada. Pois logo compreendi para onde ia essa pessoa: para a morte.” (p. 62)

Decidiu correr atrás do rapaz, um polonês ludomaníaco, para tentar impedir o que havia previsto.

O homem sentou num banco, imóvel. Começou a chover, ele continuou imóvel. A mulher abrigou- se debaixo de uma marquise. O homem derrotado desistiu da vida ali debaixo do dilúvio. A inglesa ganhou coragem, venceu a timidez,  correu na chuva até o rapaz e o levou para um hotel. Eu não posso dizer o que ela fez a noite toda com o rapaz, pois seria spoiler.

A intensidade dos sentimentos não entende de tempo. Mr. C. viveu mais em 24 horas, que em toda a sua vida. “Acaso alguma vez na vida fui mais feliz do que naquela hora?” (p.110). Para ela foi “felicidade em excesso” (116).

A despedida foi decepcionante. O abraço não dado às vezes é mais marcante do que os que já aconteceram, porque fica o desejo:

“…porque aquele jovem fora embora tão obedientemente…sem nenhuma tentativa de ficar comigo… que ele obedecesse humilde e respeitoso à minha primeira tentativa de me afastar… em vez de tentar me abraçar (…). ” Eu teria ido com ele até o fim do mundo, desonrando meu nome e o dos meus filhos, indiferente aos mexericos das pessoas e à sensatez delas, eu teria fugido com ele como aquela Madame Henriette com o jovem francês (…) (p.121)

Houve um último encontro, e esse, lhe revelou toda a verdade.

É uma história comovente. Como a solidão e o desejo de amar podem armar arapucas, ilusões. E como a mentira pode ser fator cotidiano na vida de determinadas pessoas.

Este era um dos livros favoritos de Freud, porque os personagens têm perfis psicológicos bem interessantes.

A tradução é de Lya Luft, o que é de se agradecer, muito bem feita.


Zweig foi um escritor prolixo e teve uma vida muito intensa, há muito do que se falar sobre ele. Volto com mais em outro post.

A casa de Stefan Zweig virou museu, você pode visitá- la em Petrópolis, veja mais detalhes aqui.

22089838_869750983180463_21648247798255661_n

Zweig, Stefan. 24 horas na vida de uma mulher, L&PM Pocket Plus, Epub. Páginas: 112

Anúncios

Resenha: “Boa noite a todos”, de Edney Silvestre


Em “Boa noite a todos” (2014), o escritor, apresentador e jornalista Edney Silvestre (Valença, Rio de Janeiro, 27/04/1950) conseguiu encontrar um ponto de intersecção importante, onde todos somos iguais, sujeitos despidos de vestes (literalmente), convenções, dinheiro e poder. Nada material importa. O autor resgatou o Humanismo, colocou o ser humano sozinho no palco, na sua essência original, na hora inevitável: a morte,  motivada pela solidão e a enfermidade. O misticismo e a moral, que podem ser muito variáveis, deram lugar à ética. Edney opta pela dignidade do ser humano, empurrando Maggie em um precipício antes que ela se perdesse. Trágico? Sim, mas o personagem labiríntico não tem outra alternativa.


iedne-silvestre

Edney Silvestre em setembro do ano passado no lançamento do livro, que teve leitura dramatizada pela grande Fernanda Montenegro. A obra também foi protagonizada no teatro por Christiane Torloni (foto: Blog Lu Lacerda)


A leitura começa pelo título e a capa do livro (fantástica por sinal, de Leonardo Iaccarino), que não nos deixa dúvidas: alguém se despede, um sapato feminino elegante assomado no parapeito de um edifício e vários outros prédios entrelaçados abaixo, confusos, dando a impressão de vertigem.  O personagem é uma mulher suicida. As primeiras páginas deram- me uma impressão equivocada da obra, achei que era uma dondoca fútil que iria cometer suicídio por falência financeira. Não. Maggie (Margareth) divorciada três vezes, não teve filhos por infertilidade, foi deixada por um dos maridos que se apaixonou por outro homem, o último marido a deixou por uma jovenzinha, Maggie estava sim falida e sozinha, mas a motivação do suicídio foi a doença. Ela planeja a sua morte antes que perca totalmente a memória e a sanidade. Em nenhum momento o autor cita o Alzheimer, mas os sintomas de Maggie são parecidos, ela começa a esquecer fatos da sua vida, nome de pessoas, esquece que tem que pegar um avião, esquece até do nome do seu pai e sua mãe, começa a perder o controle das funções fisiológicas voluntárias do corpo.

A história toda acontece em poucas horas, começa no táxi durante o trajeto até o hotel que escolheu para morrer. O hotel foi escolhido porque ela acha que ali antes estava construída a casa da sua família. Ela vai tentando reconstruir a sua vida, já não sabe o que é real ou imaginação. Ela dialoga com uma voz, que pode ser o resto de lucidez que lhe sobra, que vai corrigindo os lapsos e dados incertos. A linguagem, muitas vezes repetitiva, acompanha o fluxo do pensamento da personagem, ela esquece o que acabou de dizer, então reitera. Muito fidedigno.

O livro é dividido em três partes: primeiro o romance, depois a peça teatral só em 1ª pessoa, há acréscimos de dados sobre a vida de Maggie e uma terceira parte onde Edney explica como surgiu Boa noite a todos.  muitas referências musicais, livros, poemas, filmes, citações de nomes de atrizes, tudo comentado pelo autor nessa última parte. Ednei explica que Maggie é uma conjunção de várias mulheres, concentra no personagem o drama de muitas pessoas. Geralmente ele leva pra ficção pessoas conhecidas, aconteceu em obras anteriores. Não se preocupe se não entender as citações em inglês e alemão, está tudo no final.

Uma música que acompanha Maggie durante a sua despedida é de Richard Strauss, “Quatro últimas canções”. Strauss  musicou um poema de Herman Hesse, “Ao dormir”:

Depois que o dia exausto me deixou,
amavelmente a noite constelada
há de acolher meu ardente desejo
como a uma criança fatigada.

Mãos, esquecei todos os afazeres!
Rosto, deixa o pensar ao abandono!
Agora todos os sentidos meus
querem afundar no sono.

A alma, sem ter quem tome conta dela,
em vôos libérrimos quer flutuar
e no circulo mágico da noite
a vida de mil formas esgotar.

Hermann Hesse


 É um livro que mexe com nossos medos, pelo menos os meus, um deles é o de perder a noção da realidade, a loucura ou o esquecimento. O medo de não ter o controle de si mesmo, alienar- se, no sentido original do termo. É o medo de Maggie, ela não tinha saída. Uma pessoa sem memória está morta. Maggie planejou a sua morte e estava tranquila. Maggie sofria alucinações e decidiu voar.

edney-2

Para conhecer um pouco mais sobre o autor, leia essa interessante entrevista, onde Edney revela fatos tristes e marcantes da sua vida, e mostra- se uma pessoa de gostos simples, que prescinde de luxos, o que o faz realmente feliz é escrever.

edney-1

Edney na biblioteca do seu apartamento no Leblon no Rio de janeiro. (Revista Quem)

Eu li “Vidas provisórias” e fiquei impressionada com a obra (leia a resenha). Em “Boa a noite a todos” o personagem principal também é uma imigrante, que trouxe na sua bagagem de vida (desculpem- me o clichê fácil) todas as experiências que viveu nos países que morou e escolheu morrer na cidade e local onde a viu crescer. A gente pertence mesmo ao lugar que nos viu nascer?

Ednei teve coragem de tocar em um tema tabu, o suicídio. Muitas vezes visto como sinal de fraqueza e condenado pelo lado místico, “é falta de Deus”. O suicídio vai muito além dessas análises superficiais e até cruéis ( motivadas pelas religiões). Sempre há muita dor de viver e sentimento de impotência, de fim de linha, motivados por doenças físicas ou psicológicas, quase sempre. Não quero falar muito sobre esse tema, porque daqui a pouco vai aparecer algum maluco achando que estou fazendo apologia ao suicídio. Ao contrário, gostaria que as pessoas prestassem mais atenção nas outras; se bem que, na maioria das vezes, a fatalidade é inevitável, se o sujeito realmente tem o firme propósito. A opção sempre deve ser a vida, no caso da Maggie, ela não tem escolha, é irreversível.

E para finalizar, quero acrescentar que Edney Silvestre está ganhando um posto importante na nossa literatura contemporânea. Seus romances urbanos, bem alinhavados, ricos em referências e cultura geral, com doses fortes de emoção, corajosos, cheios de humanidade, colocando um espelho diante das nossas faces, vieram para enriquecer a nossa biblioteca. Voilà! Perfeito!

jjjjjSilvestre, Edney. Boa noite a todos. Record, Rio de Janeiro, 2014. ePub, 168 páginas

“Uma vida filosófica”, Gilles Deleuze- PDF grátis


O filósofo francês Gilles Deleuze morreu o passado sábado em Paris, vítima de lesões causadas ao atirar- se da janela de seu apartamento na Avenida de Niel. Aposentado desde 1987 e professor emérito, Deleuze tinha 70 anos e há tempos sofria de uma grave insuficiência respiratória. Com ele desaparecem um dos mais importantes filósofos franceses deste século, e quem sabe, o mais heterodoxo. Junto a Michel Foucault (morreu por causa da AIDS em 1984), Louis Althusser (morreu em 1990, depois de ter assassinado sua mulher) ou Guy Debord (também escolheu o suicídio), a morte violenta de Deleuze soma- se à trágica estatística da escola parisiense. Sobre Deleuze disse Foucault que era ‘o único espírito filosófico da França’.

Assim o El País anunciou a morte de Gilles Deleuze em 6 de novembro de 1995.

deleuze_

O PDF ” Una vida filosofica” (em espanhol) está disponível para você baixar no seu computador. Esta obra é um conjunto de textos, conferências de Deleuze, reunidos e publicados depois de um encontro em homenagem ao autor no Rio de Janeiro e São Paulo em 1996.

CLIQUE AQUI.

PDF grátis: Florbela Espanca


Florbela Espanca, poetisa portuguesa, nasceu e morreu no mesmo dia 8 de dezembro (Vila Viçosa, 1894- Matosinhos, 1930). Seu nome de batismo: Flor Bela Lobo, filha de Antonia da Conceição Lobo e pai desconhecido. Sofria de neurastenia, casou duas vezes e divorciou- se duas vezes. Perdeu a mãe que sofria de neurose e perdeu também o seu irmão, o que agravou seus problemas psicológicos, além de um edema pulmonar. Suicidou- se no dia que nasceu e dia também do seu primeiro casamento. (fonte: citi.pt)

180px-Espanca_Florbela Florbela Espanca images (2)

Viveu pouco, mas muito intensamente os seus 36 anos. Sua primeira obra “O livro das mágoas”, versos sofridos, doídos:

A MINHA DOR
À você

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal …
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias …
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve … ninguém vê … ninguém …

Sua obra caracteriza- se pelas fortes emoções, pela dor e pelo desejo de ser feliz. Florbela tornou- se uma das escritoras portuguesas mais conhecidas e até de culto, possivelmente porque conseguiu colocar nos seus versos a dor e a esperança de muita gente.

PDF grátis do livro “O livro de mágoas” (1919)

Resenha: Uma criatura dócil, Fiódor Dostoiévski


…Enquanto ela estiver aqui, tudo vai bem: a cada instante chego perto para vê- la, mas que será de mim quando a levem amanhã e eu fique sozinho? (p. 15)

Esse livro começa com uma nota do próprio Dostoievski explicando um pouco sobre o gênero do relato, que ele classifica de “fantástico”, mas com um grande fundo realista. Eis aí uma grande contradição. Eu acho muito bacana essa conversa direta com o leitor, alguns escritores também fizeram isso, dirigiram- se diretamente ao leitor, como Saramago e Machado de Assis. O escritor diz que demorou quase um mês para escrever esse texto. A narrativa trata de uma jovem mulher que havia se jogado de uma janela há algumas horas e seu marido fica aturdido, dando voltas, sem saber o que fazer ou pensar. Ele chegou cinco minutos tarde. O homem quarentão, militar retirado, tem uma loja de penhores e é hipocondríaco. Fala consigo mesmo, não está bem psicologicamente e tem que lidar com essa situação, sua esposa morta. Ela, uma órfã com 16 anos incompletos, estendida em cima de duas mesas durante seis horas. Dostoiévski explica que é uma narrativa contraditória nos aspectos psicológico e sentimental, o pensamento debatendo- se até encontrar a verdade. O autor mesmo qualifica esse embate de “confuso”Por que a mulher suicidou- se? Quando temos a notícia de algum suicídio, não é sempre essa pergunta que nos passa pela cabeça?

dosto3

Fiódor Dostoiévski nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscovo, Rússia e  faleceu em 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, Rússia. Escritor existencialista, sua obra considera o homem como centro e todo o conjunto de suas emoções e pensamentos. Jean- Paul Sartre também seguia essa linha, ele disse: “A existência precede e governa a essência.
Dostoiévski nos mostra a intimidade de um casamento por conveniência, ela muito pobre, ele muito solitário. Ele, o poderoso; ela, a submissa. Conheceram- se quando ela o levava objetos de muito pouco valor para penhorar.

(…) as pessoas boas e submissas não resistem muito e, ainda que não sejam muito expansivas, não sabem esquivar uma conversa: respondem com sobriedade, mas respondem, e quanto mais avança o diálogo,  mais coisas dizem; basta não cansá- los, se você quer conseguir algo. (p. 19)

A moça vendia seus poucos pertences para colocar anúncios no jornal “A voz” oferecendo- se para trabalhar como institutriz, caseira, costureira, cuidadora de doentes… até desespero chegar e  pedir um trabalho por casa e comida. Ela queria sair da casa das tias que a maltratavam e que queriam vendê- la a um homem que já havia matado, à base de surras, suas duas esposas anteriores.

Durante o casamento era ele que ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo achava- se um tirano e a moça doce, mansa e angelical, mas ele não conseguia mudar de atitude, talvez essa seja uma das contradições que Dostoiévski comentou. O homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, instinto, ações. Mesmo sentindo- se culpado pela morte da esposa, tentava justificar- se e colocar a culpa na defunta.

A vida dos homens, em geral, está maldita! (p.43)

Até as pessoas mais calmas e mansas têm um limite. A esposa adolescente era empregada do marido na loja de empenhos. Ela fez um mal negócio para um viúva idosa e o marido reclamou. A moça esbravejou, perdeu a serenidade, ficou uma fera. Deixou de falar com o marido e sumiu por dois dias. Nesse tempo a moça mudou bastante aos olhos do marido. Ou ela sempre foi assim, espirituosa, violenta, agressiva?

Ler Dostoiévski é sempre uma incursão ao interior do ser humano, uma evocação do que existe de mais profundo, como a abertura de um porão abandonado e esquecido. Ele liberta o fluxo do pensamento antes da ação, mostra o plano mental e emocional do homem.

E0702 MAX 14680

Esse quadro de Gabriel Von Max, “O anatomista” (1869), retrata perfeitamente a cena do homem e da mulher morta que Dostoiévski narrou em “Uma criatura dócil”.

O amor às vezes chega tarde demais…e não há mais salvação, só resta a dúvida.

“O último dia de um condenado à morte”, de Victor Hugo. Livro citado por Dostoievski nessa obra,  já está na minha lista de desejos.

Edição brasileira à venda na livraria Cultura:

30759786

A edição em espanhol que eu li:

mansa

Dostoievski. Fiódor M., La mansa, Alba Brevis, Barcelona, 2012. 90 páginas

 

Veronika decide morrer, Paulo Coelho


Paulo Coelho não pode ser considerado um escritor canônico, pois a linguagem utilizada em seus livros é simples, coloquial demais, carece de tropos, linguagem mais elaborada, mas os temas que aborda são sempre interessantes, tocam na alma das pessoas e isso acaba superando a falta de ingênio literário; assim acontece com “Verônica decide morrer”.

A história começa pesada, triste: Veronika decide morrer e tenta o suicídio com tranquilizantes. Tomou duas caixas e ficou esperando a morte chegar. Quais são os pensamentos de uma pessoa que está provocando a própria morte e sabe que vai morrer depois de uns minutos?

A tentativa falhou. Ela não morreu, mas foi internada num hospício. Antigamente era assim que faziam com os depressivos no Brasil, eram internados como loucos. Com o próprio Paulo Coelho aconteceu isso, só que ele nem deprimido estava, era só um adolescente rebelde. Ele prometeu que ia escrever sobre o tema, mas só depois que os seus pais morressem, pois sentiam muito arrependimento e Paulo não queria vê- los sofrer.

“Veronika decide morrer”, Paulo Coelho, ed. Pergaminho, Portugal.