Como foi a vida de Elis Regina?


Ontem em Madri, assisti o filme “Elis”, de Hugo Prata. Uma sessão gratuita promovida pela Fundação Cultural Hispano- Brasileira e a Embaixada do Brasil, foi a XI NOVOCINE- Mostra de Cine Brasileiro (encerra hoje, 29 de novembro). A sala do “Palacio de la Prensa”, um cinema que fica na Gran Vía, centro da cidade, estava lotada.

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Um resumo do filme baseado na vida de Elis:

Elis Regina (Porto Alegre, 17/03/1945- São Paulo, 19/01/1982), viaja com seu pai de Porto Alegre até o Rio de Janeiro, para gravar um disco, só que não deu certo. Teriam que esperar alguns meses, mas não havia dinheiro, não tinham recursos para manter- se, precisavam de dinheiro urgentemente. O pai, sempre apoiando a filha, mas com os pés no chão, sugere que voltem ao sul. Elis insiste, quer ficar alguns dias no Rio, o pai acaba cedendo. Vai a uma apresentação de Nara Leão em uma casa de shows noturna no Beco das Garrafas; e assim, acaba conhecendo Miéle, o primeiro a dar- lhe uma oportunidade. Depois conhece o sócio deste, Ronaldo Bôscoli, que a assedia e ela o repudia.

Elis começa a ficar famosa depois que ganha um festival com a música “Arrastão”. O pai começa a administrar o dinheiro que entra, Elis irrita- se, não quer ser mais controlada. E o pai, magoado, volta para o Sul. Os filhos são ingratos, realmente.

Elis faz sucesso no Brasil inteiro e começa a apresentar um programa na TV com Jair Rodrigues. Inaugura a MPB, sai do gênero Bossa Nova, comum na época. Ela era muito agitada para ficar sentadinha num banco cantando algo intimista. Ela mexia os braços, dançava.

A Pimentinha começa a fumar, a beber e a usar drogas. No filme, quem oferece droga a primeira vez, a mescalina (a droga que Sartre usava), é Lennie Dale, um coreógrafo americano. Ele também a ensina dançar. Lennie morreu em consequência da AIDS em Nova Iorque quando tinha 57 anos (essa parte não aparece no filme, leia aqui.)

Bôscoli, produtor musical e  incentivador da Bossa Nova, é super mulherengo, tem casos com todas as cantoras da época, Nara Leão e Maísa, por exemplo. Acaba casando- se com Elis, mas é um péssimo marido e pai, totalmente irresponsável e descomprometido com o casamento e a paternidade. Deixa Elis e o bebê João sempre sozinhos. O casamento vai mal e Elis tem um caso com Nelson Motta, produtor de seus discos.

O Brasil vive a ditadura militar e com ela, a censura. Muitos artistas estão exilados,  presos e são torturados. Um dia, os militares batem à porta de Elis e pedem para que ela os acompanhe. Ela sofre uma espécie de interrogatório muito intimidante, o militar pergunta por seu filho e também pergunta porque ela chamou de “gorilas” os militares brasileiros quando estava em Paris (ela fez muitos shows no exterior). Para provar que não é comunista (mas era) aceita fazer um show para os militares que foi emitido em rede nacional.

A classe artística não perdoa e nem o seu público. Elis é vaiada e Henfil publica uma caricatura enterrando a cantora. Talvez aí ela tenha começado uma espécie de processo depressivo.

Betinho, irmão de Henfil, foi torturado e exilado. Depois houve uma reconciliação entre a cantora e o cartunista, Elis gravou “O bêbado e o equilibrista” (1979) e mostrou para Henfil. A letra é altamente “subversiva”, mas os censores, burros que deviam ser, não souberam interpretar e deixaram passar. A letra pede a volta do “irmão de Henfil”, entre outras passagens bem explícitas, fala de “Clarices e Marias que choram no solo do Brasil”.

A cantora divorcia- se de Bôscoli e casa com César Camargo Mariano, pianista. Tiveram dois filhos, Pedro e Maria Rita. César Camargo parece ser um bom marido, mas não aguentou conviver com Elis sempre bêbada, no limite. Acabou indo embora.

Elis é muito exigente consigo mesma, exige perfeição e parece viver num constante processo de ansiedade. Ela vive insatisfeita com seus discos, gravadoras e mídia. Ela quer desvincular- se disso tudo e ser livre, fazer só o que deseja.

O final todo mundo já sabe: Elis faleceu com 36 anos. Na versão do filme, Elis embriagada e chorando telefona para seu advogado para pedir socorro, mas desmaia. O homem corre para o apartamento, as crianças estão brincando no playground com a babá. E ele a encontra falecida no quarto ( a cena só sugere, não vemos nada).

Divulgaram na época “parada cardíaca”, e logo depois, um laudo com morte provocada por overdose de cocaína. Elis deixou os filhos com 11, 6 e 4 anos.

No Brasil, “Elis” foi lançado no ano passado. Veja o trailer do filme:

Menção honrosa para a atriz mineira Andreia Horta, que interpretação sublime! Ela conseguiu todos os trejeitos de Elis, fantástica atuação!

O filme é bom e a trilha sonora dessas que fazem qualquer imigrante exilado chorar. Consegui apaixonar- me tardiamente, é verdade, por Elis. Acho que consegui compreender perfeitamente tudo o que aconteceu com ela. Nunca usei drogas, não bebo, não fumo, mas posso entender o porquê dela ter caído nessa; em parte, porque era intensa demais, queria viver tudo, ter tudo, sem limites e isso é impossível, não soube administrar. Era uma Pimentinha mesmo. Humana, muito humana.

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A famosa Charlie Hebdo nº 1178


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Demorei para escrever sobre a Charlie, que continua firme depois da tragédia sofrida. A revista francesa Charlie Hebdo foi alvo de um covarde atentado terrorista no último dia 7 de janeiro com 12 pessoas falecidas. A maioria dos componentes do jornal foram vítimas, inclusive o editor da revista Stéphane Charbonnier, o Charb.

Ao contrário do que os radicais islamistas imaginaram, os sobreviventes não se intimidaram. Lançaram a edição habitual da revista só que com uma tirada de 7 milhões de exemplares, em 17 idiomas e foi distribuída em vários países. A edição 1178 será vendida até 10 de março, enquanto isso a redação está se recompondo da tragédia:

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A Charlie Hebdo é uma revista satírica, que debocha das ações alheias. Não inventa nada gratuitamente. Se a Charlie fala sobre algum tema, tenha certeza que o “alvo” deu motivo para isso. As pessoas interpretam de maneira equivocada, chocam- se com as charges da capa, mas não procuram entender a motivação das mesmas e acusam a revista de racista ou que não tem respeito pelas religiões. Nada disso. O brasileiro caiu na onda do “Eu não sou Charlie”, por ignorância, por desconhecer os fatos. Quando a Charlie colocou a ministra francesa como macaca, foi um ataque ao partido nacionalista francês, que colocou na sua revista a ministra e ofereceu- lhe uma banana. Ao contrário do que muitos pensaram, a capa da Charlie denunciou o partido Front National, esse sim racista. Leia este artigo muito bom, explica essa história com detalhes. Algo parecido acontece com as charges religiosas.

A Charlie desenhou uma suposta santa trindade em posição sexual. A capa foi feita na época da discussão do casamento homossexual na França, a Igreja foi contra e na mesma época surgiram vários escândalos de padres homossexuais dentro da instituição, casos sabidos e consentidos. A charge foi para denunciar a hipocrisia da Igreja. Há muitas reportagens e notícias no exterior sobre padres, bispos e freiras homossexuais, curiosamente em português não existe quase nada.Tema tabu no Brasil. Ou será que no Brasil não há gays na igreja?

O mesmo com a religião islâmica, que comete absurdos e atrocidades em nome de Alah, Maomé. Os radicais acreditam que matar lhes garantirá um lugar num paraíso cheio de virgens. Como não fazer piada com isso?! Seria engraçado se não fosse trágico.

Veja o interior da edição pós- ataque terrorista:

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As pessoas e instituições é que dão material para as revistas de humor. O absurdo da vida transformado em sátira. Je suis Charlie!