Como escrever? O processo de escritura criativa


Como escrever?

Por Rômulo Pessanha, colaborador

Fiz- me essa pergunta e imaginei- me caminhando numa rua de um lugar desconhecido, mas desconhecido porque ficcional. Escrever é como imaginar que uma vida nova está se tornando uma realidade.

A pergunta contém a resposta: como escrever? É o como escrever.

Percorri então a rua: era eu, único que ditava o ritmo de toda a situação. Assim supunha. Através de minha imaginação a rua ganhava mais e mais passantes, andarilhos e personagens desconhecidos, transeuntes e figurantes para uma vida que julgamos que somos, cada um de nós, protagonistas de uma longa história fictícia?, sem fim.

A rua ainda sem cor ganhava alguma tonalidade negra. Estava ficando boa e tudo estava ficando perfeito e quando percebi, reparei que outras vozes também queriam falar: eram outros personagens que surgiam no caminho.

Sendo eu quem dá as regras do jogo, cada um poderia ter sua existência confirmada ou negada. Os personagens precisamente deviam estar ali para serem cúmplices de um ato de existir e não meramente rebeldes sem causa e se rebeldes fossem, melhores ainda seriam tanto a história como os personagens.

Uma personagem surgiu de repente. Seus olhos negros, cabelos negros que continha algum fio ou outro de cabelo branco, pele branca, lábios pálidos, mas que me provocavam atração como o imã atrai o metal, ela era rebelde, eu queria ser seu súdito. Ainda seu corpo, magro, lembrava vela acesa e que a luz era calor transmitido a mim diretamente só pelo olhar que me endereçava. Andava até a mim, conversávamos um pouco e pelos gestos e palavras suas sempre dizia não, não ao que dizia eu com minhas atitudes de apaixonado, palavras que não são ditas nem escritas, mas que podem ser lidas no corpo, sem embargo, de tudo em mim dizer sim, ela era sempre o não.

Sim e não se atraem, porque se anulam. Não há resistência e tudo pode fluir perfeitamente como na imaginação daquele que vive um sonho bom, assim é viver um grande amor ainda que inventado pela imaginação devaneante, nada melhor do que viver imaginando do que imaginar viver um grande espetáculo.

Escrever deve ser algo que penso dizer ou que digo enquanto penso. Quando escrevo penso que estou a pensar o que estou a escrever, ou, que por já ter pensado me pus a escrever. Escrever é sempre o registro de algo passado e acontecido e que futuramente nos tornará realizado, pois esse fazer, de palavrear num papel é manter acesa nossa luz no mundo sem que ela esmaeça e se apague por ter tremeluzido. Luz forte como sol, a minha língua renasce sempre mais forte, cada dia, luminoso arrebol.

Queria então que a misteriosa moça passasse a escrever toda minha vida. Desejava mesmo que minha vida fosse reescrita por completo, mas ela parecia não aceitar a tarefa. Então desejei que essa personagem sumisse de meu pensamento, na minha história mando eu.

Ela não ia embora e entre uma esquina e outra, novamente surgia e também ao fim de uma estrada ou de uma rua sem saída ela, sempre ela, inominável desejo que insiste em fazer parte do que crio mesmo sem ter sido chamada.

Ela era a página para cada nova história que eu criava, meu desejo de possuí-la era para também registrá-la em meu corpo arenoso e evanescente de memória, cada grão de areia um acontecimento longínquo. Como pode a nossa criação tomar juízos e nos desobedecer? É porque ela não sabe que foi inventada por mim ou talvez ela tenha inventado o amor e colocou no meu coração. Eu, apaixonado, coloquei tudo no papel. A mesma coisa que fazê-la interpretar o papel que lhe dei, ela age assim personalíssima sempre contraditória ao que digo. Se eu falo sim, ela diz não. Outra página em branco e outra vez ela retorna, mas para quê? Talvez já não seja ela, a paixão de fato, mas a loucura insana da criação decadente e terrena que não vislumbra teor de vida no lugar que paira ideias. Assim é a vida, página em branco para preencher, num corpo vermelho de paixão, inspiração, oxigênio da alma, quando escreve, sangue, a alma falando ao corpo seu desejo.

Na minha filosofia, a minha razão. Na minha vida, e na falta dessa racionalidade, tudo que for sem razão deverá fazer parte de um raciocínio maior: acrescente um pouco mais de chocolate ao leite diante de uma tela impressa com texto, ou como uma tela, o texto, ou o livro, e dirá você meu leitor, que delícia é isto, pois eu também lhe digo que fazer você ler isso e fazer seu pensamento dizer o que digo e imaginar o que eu imagino, só que à sua maneira e modo é que é para mim, grande delícia, prazer saboroso.

Assim deve ser escrever, desejo selvagem e indomável, víbora venenosa essa a do escrever, cavalo que não se deixa montar e veloz e furioso corre e foge se transformando em altaneiro pássaro anunciando que o amor é livre expressão do que sonha a alma e do que deseja o corpo: ser aprisionado pelas palavras de amor quando se está amando livremente e a declaração de amor que ganho a cada página que escrevo, como nova possibilidade de amar.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2016.

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É nosso aniversário: oito anos falando sobre boa literatura!


Quem me avisou hoje foi o WordPress:

wordpress

Nesse mundo virtual tão volátil, onde tudo dura pouco, orgulho- me em celebrar 8 anos no ar! E sem apelação, sem best- sellers, sem mentiras, aqui realmente os livros são lidos, não lemos apenas sinopses ou Wikipédia. Infelizmente, nem todo mundo leva a literatura a sério nesse meio virtual, tanto em blogs, no YouTube e nas redes sociais, muitos estão apenas para conquistar seguidores e faturar com isso. Contudo, até isso eu vejo positivamente. Melhor falar de livros, mesmo que superficialmente, sem propriedade nenhuma, do que de outras coisas ruins, não?

Fico feliz sim, quando um post tem muitas visualizações, comentários, curtidas, compartilhamentos, mas a opinião alheia não é o que me motiva. No fundo, eu faço por mim mesma. Esse é o meu diário de leituras, a minha memória. Eu amo os livros, a literatura. Além disso, é a minha profissão. Eu tenho que viver no mundo das Letras para ser feliz. É um estilo de vida, independe de números, dinheiro, muito menos fama. É só amor. Amor não se explica.

Eu vou “comemorar” dividindo minha última leitura poética, que me rompeu por dentro, Drummond me faz chorar de beleza.

Essa semana achei umas coisas bacanas em um sebo ao lado da minha casa. Um dos livros é uma coletânea de Carlos Drummond de Andrade com seus mais lindos poemas. É uma edição argentina de 1978, bilingue espanhol- português. Chama assim “Amar- amargo y otros poemas”, com o “Soneto da esperança perdida” (belíssimo, primeiro verso “Perdi o bonde e a esperança”), “Mãos dadas” ( Adoro: “Não serei poeta de um mundo caduco”), “O lutador” (“Lutar com palavras/É a luta mais vã”), enfim, a mais bela coletânea que achei até agora.

Vou deixar aqui um fragmento de “Nosso tempo”, que é do livro “A rosa do povo” de 1945, mas que poderia ter sido escrito hoje para a atual situação política do Brasil, cai como uma luva:

I

Este é tempo de partido
Tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha- se em pó numa rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve- se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor do meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar- me
a cidade dos homens completos

Calo- me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam sentido, apenas querem explodir.

IV
É tempo de meio silêncio
de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele e a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

Agradeço a todos vocês que nos acompanham há tantos anos e também aos novos leitores/blogueiros que estão conhecendo o Falando agora. Fico feliz em conhecer tanta gente na mesma onda.

Muita coisa aconteceu nesses anos todos, nem dá pra contar tudo. Mas o saldo é muito positivo. E continuamos…

Um abraço a todos!

Fernanda Sampaio

“O amor assim, cura tudo”, uma análise do conto”Substância”, de Guimarães Rosa


Por Rômulo Pessanha

Essência

O texto que segue é sobre um pouco de brincadeira e diversão sobre Substância, conto que integra Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa.

primeiras-estorias

Ah, o amor! Ai dessas claridades que nos deixam vislumbrar caminhos invisíveis. A pergunta essencial: você emitiu sua luz? Ou será quando toda luz que vem do alto se mistura com a que vem de dentro?

Ao brilharmos viemos ao mundo ou, nos dando a luz, nossa mãe, nascemos? A luz é a nossa mãe iluminada, luz pura das épocas do amor. Quando os pássaros sobejam no céu é porque os rebuliços na terra sucedem aos amantes e só beijam querendo voar os sentimentos que os namorados abraçam com todo olhar, amor é amar e amar é luzir.

Ah, o mês das noivas, dos apaixonantes apaixonados. É a riqueza mais viva que a vida assim é o amor quando ao nosso se junta mais, número infinito, o verdadeiro amor, a bem querência nossa e a da pessoa que amamos. Diria até ser primavera, mas todas as cores se perdem nos olhos dela, que é a mais bela, na fruta doce da vida, esperando por nós ser colhida, para cearmos da farta ceia o amor, nossa colheita que nada ceifa a não ser o amor, que nem perece até mesmo quando a dor nos enegrece e amarga a vida, porém a calmaria vem, pois tudo é certo: se há noite no dia quando tristes, dia virá para nossa noite, pois felizes estaremos. As coisas são assim eternamente intercalações. E se amor é eterno é só porque está em algum lugar dentro entre os corações.

Os três personagens Sionésio, Maria Exita e Nhatiaga caminham num palco iluminado do quê mesmo? Talvez pela sua própria existência e cada um executa o seu papel. Sionésio duvida, faz questões, se pergunta e se interroga, exita? Maria Exita não exita, responde logo e desconcerta e faz perceber que ela já sabia das intenções de Sionésio. Olhos firmes no trabalho que é sustento, fonte e luz para vida.

O amor pega Sionésio de jeito de forma tal que se o amor o incomodava, ao final, juntou-se a ele, e, perto, aconchegou-se: será? Será que Maria Exita sabia mesmo das intenções de seu patrão Sionésio?

Ah, todo amor tem sua luz, e toda vida seu amor para quem quiser experimentar seu lume. Amar no debaixo do ouro quente do meio-dia e encima da prata refletora do amido é como ter na mente a imagem de uma jóia viva: quando percebemos o amor não apaga sua luz dentro de nós e queremos apenas viver assim quando mesmo até dizemos perecer dela, em verdade vivemos dela e por ela, para ela, as portentosas luminosidades de amar, é alvo que não se apaga.

O pó nos lembra vida, quanto a morte nem nada é, e sendo menos que possibilidade de fato, ela, a de todos certa sorte, nem existe. A energia do amor contida ali nos luzentes: a amada e o amante. Mexendo e tornando pó a energia pura e verde da vida da planta da vida, a energia do amor armazenada e dispendida: quanto mais amor mais acúmulo de energia. Fartura em nós é o alimento do estado de graça, transcendências de nossas humanas sensações. O amor assim, cura tudo. A vida é para a vida toda? Exita nem pisca responde: claro que é, é claro que eu quero. Parece irreflexão responder assim tão rápido ou foi demorada a pergunta? O amor é um espelho em que a gente nem se vê direito o que a gente é, o que gente foi e nem o como a gente está.

O amor é afetuoso raciocínio e por isso a tal vez chega na hora de se pensamor nos raciocínios dos coraçãomentes modos de ver as coisas. Apaixonar e amar é nossa condição, somos do amor a sub instância em forma viva e pensante que igual ao sentimento não sabe ponderá-lo nem dizê-lo apenas se vive e se ama: você me quer? E como resposta: por demais da conta e para até nos depois de sempre. O lugar principal de nossa existência é o amor e seu palco é todo iluminado: o amor é o lugar que une os que amam. É algo que atua em nós de modo brusco, supetão, subitamente enquanto interpretamos nos palcos da vida seu significado intentando significá-lo e dar-lhe consistência.

Assim é quando amamos, ficamos percebendo e padecendo a luz do outro, um ponto num tempo infinito que percorre todos os caminhos de nossa existência e nos faz querer ter para nós somente aquele luminar de olhos que se remexem ao nos ver e a gente vendo assim, ficamos a brotar amor, nos fazendo estremecer, fazem nossos pássaros brilharem, e todo nosso ser voar pelos ares, todos percebem a festa e o sagrado do momento: joguem arroz!, joguem o pó!, trabalhem!, festejem! E mais a Nhatiaga servindo ali de vigia, para tornar abençoado o sagrado do momento. Enfim, ao final podemos dizer: se um dia estive aceso foi só porque amei alguém e esse alguém que amei me deu essa sua luz que entreguei novamente em forma de amor. E assim sendo, dois, que se amam para sempre muito, e para muitos e para todos o amor é a substância essencial de um ato para além das cortinas que se fecham ante o palco que aplaude.

Rio de Janeiro, Capital, 22 de Maio de 2016.

 

 

Análise da obra “Vidas secas”, de Graciliano Ramos


Por Rômulo Pessanha

O fim

Quando pensamos no tempo, nem lembramos que tudo no mundo parece ter uma tendência ao círculo. A circunferência nos recorda os aspectos cíclicos da vida presente em tudo e de como tudo se renova e se torna ainda assim, diferente. Lembra frase de pensador famoso, aquele que dizia que quem mergulha os pés num rio nunca poderá mergulhá-los novamente nesse mesmo rio. Assim é a vida, nada se perde e tudo se aproveita como diria Lavoisier. A vida é um círculo e a única mudança é seguir em frente sob alguma perspectiva nova que ilumine novos caminhos para um ponto de fuga ou de tangência para uma nova vida, pois se a figura da vida é plana cabe a nós pensar nossa felicidade e a felicidade é sonhar sempre de forma diferente.

Me refiro aqui nesse texto ao capítulo inicial de Vidas Secas, de Graciliano Ramos denominado “Mudança”. O que quero dizer quando dou o título deste texto de “O fim”? Quero dizer com isso que tanto o primeiro, quanto o último capítulo são tal e qual. Em “Fuga”, o último capítulo, pode ser observado os mesmos elementos, retornando, e se fechando novamente em esperança, nada de desfechos mirabolantes, mas uma espécie de calmaria. Voltando ao primeiro capítulo, Mudança, também pode ser traduzida em ponto de fuga, porquanto numa circunferência toda força centrípeta tracionada e acumulada gera, posso talvez assim dizer, um ponto de fuga em que o objeto acaba saindo pela tangente e o objeto no caso é a família que observamos nessa obra de Graciliano como objeto de fuga para uma sempre tentativa de vida melhor, um sonho, em vários atos, mas o caminho como já disse não é reto, é dado em curvas que não se fecham num ponto específico, porém posso dizer que pode convergir para um ponto central, no caso, não falarei aqui desse ponto central. Acredito poder ser dito que Vidas Secas segue uma estrutura em espiral.

A paisagem vermelha e o céu azul, as rachaduras do solo seco lembram toda a fisionomia do personagem Fabiano, ruivo, olhos azuis ou também até mesmo lembra a sinhá Vitória ou a ela se refere enquanto terra atrativa ou não quando a voz narrativa a descreve ora magra ou a mostra nos pensamentos de Fabiano quando diz que ele estaria querendo que a sinhá ficasse com as nádegas carnudas, seios firmes tal qual a própria natureza parece estar vez outra ao longo da obra, ora é seca, ora é de uma fertilidade avassaladora e perigosa a vida, pois quando a água é demais a cheia se faz presente, natureza selvagem é um perigo para a sobrevivência. Também as aves, os urubus, voando em círculos igualmente como a água, cercando tudo em redor lembra que o perigo os cerca por todos os lados.

Um narrador, como uma lâmpada acesa apresenta cada um dos personagens, seus pensamentos e sonhos, devaneios e medos. Como se fosse um refletor num teatro iluminando a face de cada personagem mostrando o que cada um pensa. A narrativa apresenta a paisagem ora cheia de luz do dia, ora com algumas estrelas apenas, quando está de noite.

A morte é comida, na forma de uma ave, ser que nem voa e, sabemos, nem fala, um papagaio foi papado. A morte, no negro das asas do urubu, a morte sob as cabeças dos integrantes dessa família é o que resta depois do verde da cor das penas do papagaio, o verde que significaria a esperança, o verde de uma paisagem convidativa ao descanso, passa a representar o desespero e a urgência por abrigo e sobrevivência. Enfim, o fim é sempre um novo começo para busca por novas soluções para o sustento da família.

Os pés são importantes também e se assemelham ao próprio solo que pisam: rachados, feridos, com vermelhidão de machucado que dói até mesmo pela simples descrição, assim também são os pés de Fabiano identificado com a terra em que caminha, a dor está no andar no solo que pisa e também a dor está nas feridas dos seus pés e também a dor do cansaço por verificar toda sua família sobrevivendo àquela situação narrada. Baleia se alimenta dos pés do papagaio e isso também é a terra, Baleia se alimenta da terra que não pode chegar ao céu por intermédio da evaporação da água e, o que não voa, pelo menos deve servir como alimento nem que seja simples poça d’água como o conjunto familiar peregrino nos faz imaginar como sendo pequenas gotas de vida caminhando numa chapa seca cheia de rachaduras.

O “menino mais velho” e o “menino mais novo” são assim chamados, talvez para demarcar a passagem do tempo. Os filhos de Fabiano são preservados em sua identidade, porém até Baleia possui nome, mas nome de bicho, animal de mares que talvez o céu anilado possui somente a cor. Talvez Fabiano desejasse que a vida fosse um arrebol eterno, róseo, temperatura agradável e paisagem amena e que todo o azul do céu fosse o da água correndo como ele no solo, sob a terra divertindo e refrescando a vida de seus filhos, sua mulher, toda sua família.

Os Nomes também são importantes: o que significa Fabiano, sinhá Vitória? Pesquisei rapidamente num site na internet o nome Fabiano. Significa “dotado de sorte e prosperidade”, mas provém do latim, da palavra fava, e então pensei: o que é fava? Pelo o que diz a rede virtual significa algo como sementes comestíveis. Continuando, Sinhá era a forma como os escravos tratavam suas patroas ou senhoras, geralmente sinhá, mas aqui Vitória é chamada sinhá, dá certo tom de apelido carinhoso quase como algo da fala popular, mas também pode ser indício de decadência social. O significado do nome Vitória é vencedora, pessoa que triunfa sobre um inimigo e talvez tenha derivado da forma Victor, do latim que significa vencedor. Quanto a palavra Baleia, vem do grego phállaina e também do latim ballaena. Não encontrei o significado da palavra phállaina. Ballaena não pesquisei por achar óbvio, mas verifiquei e pelo pouco que vi significa baleia mesmo, um dos maiores animais existentes atualmente. Enfim, se isto tudo sobre esses nomes não esclarece nada sobre o estudo de Vidas Secas, pelo menos fica como fonte de informação.


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Cada um possui o seu momento de iluminação. E, se Baleia não aparece na última parte da obra é somente porque ela agora conseguiu evaporar-se e seguir caminho para o céu com aura de um ser tão humano quanto um urubu pode ser. Baleia parecia gente, os urubus também. Cada um com um aspecto da dualidade humana: Baleia nos remete ao companheirismo, fidelidade, amizade, ingenuidade, simplicidade, enquanto os urubus são carniceiros apenas para sua sobrevivência. Essa família é um exemplo do que pode significar sobreviver diante das questões da vida. Nem sempre sobreviver é viver, mas lutar nutrindo forças com a vontade que os sonhos nos proporcionam e fazem que seres humanos como os apresentados na obra de Graciliano se tornem sobre humanos, com uma força tirada de sua própria natureza que é a natureza de continuar sonhando mesmo quando tudo em derredor diz não. O fim não se acaba nem com o nosso fim, pois com o nosso fim, mudamos, fugimos para outro lugar onde a luta continua sendo a realidade nesse momento, o próprio sonho que se pensava, mas também o sonho que se vive e se e se habita, desejo que em nós habita é o nosso futuro lar, novo mundo.

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Ramos, Graciliano. Vidas secas, Record, 89ª edição, Rio de Janeiro, 2003. 176 páginas

A descoberta da vida, do amor em Clarice Lispector


Por Rômulo Pessanha

Começo pelo começo que ninguém sabe quando começou. A busca pela origem da matéria que contém a vida é algo que nos causa medo e paixão, terror e medo, sensação de aventura e medo, tudo porque a origem da vida é como uma massa misteriosa, a vida não para de nascer a cada instante dentro de nós.
A Clarice Lispector apresenta-nos aqueles momentos de descoberta que as pessoas comuns sabem bem quando estão descobrindo algo, como a descoberta do amor, da solidão, do desejo, mas a descoberta da vida, essa sim, ninguém ainda ousou dizer sua forma e sua luz.

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A constatação de que apenas baratas estariam presentes no momento que surgiu o primeiro ser humano é algo bíblico. Só as baratas seriam nossas testemunhas: onde se encontraria o evangelho segundo a barata? Estaria na sua massa branca interior, com aquele cheiro de barata? qual a semelhança entre a massa branca e o cheiro da barata com o cheiro das escrituras sagradas que ninguém nunca sentiu? Qual a relação entre sentir a massa gosmenta de uma barata esmagada contra uma porta de um armário qualquer e verificar ali, um ser vivo te observando com a metade de seu corpo esmagado, que a vida também é uma massa sagrada, como as escrituras que saíram de dentro do mistério dos fatos ocorridos no mundo real ou talvez das intenções subjetivas de quem as escreveu?
Ninguém sabe quem esteve presente ao nascimento da primeira barata … Talvez Deus? … Sim, porque nós nos consideraríamos mais importantes? Quem esteve presente ao nascimento de Deus? Deus é maiúsculo ou minúsculo? Se antes de sua criação nada existia então Deus ou deus não era. Era apenas o nada. Deus era apenas o nada, quando nada estava criado. Se nada existia, se nada era regido então sua existência era nula. Qual a massa de deus, ou Deus?
Em Clariceanos aspectos, a religião é uma vida. A vida se origina apenas para falar de sua banalidade, de como ela frágil, pode ser ficcionada em tragédia reconhecíveis pelo mais banal ser humano baratizável, ou, melhor dizendo, que se considere barata perante o mundo banalizável, como no mundo moderno a preocupação com sobreviver se torna mais importante do que o viver. Mais para além de ficção tudo pode ser reduzido ao nada. Assim é o que se quer chegar: o ponto final que deu início a tudo o que não existe. Teorias se tornam matérias para discussões.
Discutir o invisível é o deleite de quem procura saborear o invisível da vida.

O amor surge como descoberta de que dentro de alguém algo desperta mais vida em nós. Passamos de leve a compreender que em alguns momentos estamos presentes no nosso próprio nascimento: é quando a paixão surge. Mas nós talvez nem teríamos consciência do momento de nossa origem. Para isso seria preciso voltar atrás, no tempo, no passado e constatar que nem esforço para isso seria preciso, pois o guardamos conosco em algum ponto inscrito no branco da vida, como papel para ser escrito, vida para ser vivida.

Oficina de escritura criativa: “A escrita do ser”, por Rômulo Pessanha


Mais um excelente texto do nosso colaborador Rômulo Pessanha. Não deixe de ler! Você pode encontrar os textos anteriores da Oficina de Leitura Criativa AQUI.

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A escrita do ser 

Tudo na vida deve ser simples. Escrever é uma das coisas mais simples que podemos pensar como algo tão acessível a nós como o ar, a água e a pressão atmosférica.

Escrever é um ato de prazer, de amor e de raiva. Nunca está solitário aquele que escreve: escrevendo, criamos um mundo em diálogo permanente com nosso interior, com a nossa própria significação humana e artística e certamente com o nosso prazer de escrever e de pensar em cada linha que podemos modificar e alterar os significados do nosso mundo, do nosso amor, da nossa vida e alterar as palavras que melhor se encaixariam naquilo que estaríamos interessados em escrever como quem deseja alterar e alongar cada vez mais o caminho para nunca chegar a lugar algum.

Amar é como escrever: você se declara ao mundo e depois se apaixona e se arrepende sem perceber que tudo isso é criação sua, você, leitor que me lê, agora e até mesmo aquele que escreve, óbvio, é um autor, é escritor, todo mundo cria, todo mundo é autoral.

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Muitos escritores famosos que pudéssemos estudar os caminhos pelos quais começaram a escrever, nada nos diriam sobre como se tornar um bom escritor ou como escrever aquela história ou aquela poesia ou aquela ficção que marcaria uma época, uma geração.

O problema dos grandes sucessos da literatura mundial é que parece quase impossível ser escritor e ser publicado. O problema da indústria dos livros é que todo mundo lê a mesma coisa. Ninguém lê o vizinho, os amigos, os professores, ninguém lê o pai ou a própria mãe e ninguém lê a si mesmo por não se jugar competente para escrever boas histórias. Eu me pergunto o que é ser escritor? É vender muitos livros e dar muito lucro para editoras? Temos um escritor que apesar de não ter escrito uma linha sequer, escreveu. O importante é a mensagem, a roupagem pouco importa. O ser humano necessita de informação, de comunicação. Por isso as mensagens de pessoas que se amaram olhando a luz da lua e das estrelas sobrevivem até hoje pintada nas cavernas como dois bonequinhos pintados com algum tipo de tinta na parede de pedra informando que o que a humanidade quer escrever é só sobre o amor da mesma forma que deseja descobrir se existe vida em outro lugar e lança foguetes com desenhos engenhosos de figuras geométricas, o desenho de um homem e de uma mulher gravados num disco de ouro contendo todos os sons que foram possíveis gravar, para informar à quem encontrar, que em algum lugar do universo a vida deseja ser espalhada e compartilhada, talvez.

Se os céus e as estrelas mais a lua e o sol pudessem falar dos apaixonados que passaram pelo planeta, descalços sem abrigo e que ainda continuam sem voz e sem abrigo ainda hoje, atualmente, diariamente, constantemente, mas isso será assim, eternamente?

A nossa história a ser contada deve ser o nosso prazer e surge de qualquer lugar: pode ser um rosto de um desconhecido, um beijo inesquecível ou aquela vontade de que tudo fosse real. A vontade de que tudo fosse real: o sonho é uma vontade real que realizamos em forma de guerras e amor. E tudo não é real? O problema é que não sabemos o que é a realidade. Apenas supomos, medimos e calculamos. Porém, não penetramos ainda no real objetivo ou razão de ser das coisas.

Se eu posso escrever, sou escritor, posso imprimir o que escrevo e começar a vender por aí dando muito lucro para mim mesmo e muito prejuízo para as editoras em geral e o meu objetivo não é dar prejuízos à alguém mas quero apenas compartilhar a minha arte, a minha coisa toda minha feita na mão nem que seja de lápis como uma pintura ou um livro todo escrito com caneta azul.

O que parece ser geral quando o assunto é como se tornar um escritor é que parece que escrevemos as coisas que nos interessam. Se eu posso falar de baleias isso não me levaria a me tornar um Charlie Dickens Ou Graciliano Ramos. Ao descobrir nossa voz musical, a nossa pequena música, baixinha, num tom de sussurro como sendo as coisas que mais prezamos e necessitamos de que sejam escritas como quem deseja ser salvo de um delírio de alguém a dizer me salve porque eu não suporto mais, me ouça agora! Esse tom é que nos faz ir muito além do que poderíamos pensar ou julgar que somos capazes. É um ponto de maturação em que a pessoa descobriu que sabe escrever e que ninguém poderá detê-la e que alguns elementos estarão sempre presentes em tudo aquilo que escreverem. Por exemplo, para alguns escritores, o elemento que sempre surge em suas obras ou os leva a inspiração para escrever, pode ser a imagem do texto inicial e final já escrito sem saber ainda o conteúdo, o para onde a história será direcionada. Outros escritores se inspiram no som, em sonhos, lembranças, etc. Não existe uma fórmula para se tornar escritor. Um escritor pode ser pobre ou rico tanto quanto pode já de início ser rico e, por um ou outro motivo, morrer na absoluta penúria.

Escrevemos sem perceber, com características e sobre coisas que nos agradam ou nos marcam de alguma forma e não existe uma fórmula para que alguém se torne escritor até porque se pudéssemos retirar de qualquer escritor, nas suas obras, algo que indicasse o caminho para o sucesso literário todo mundo seria um grande escritor.

Cada um escreve e deve escrever como gosta. Tanto é verdade que se em alguns casos conhecidos da literatura (e não darei exemplos), de pessoas que criam a sua base gramatical ou recriam uma nova estrutura sintática aproveitando conhecimentos das línguas que sabem falar fluentemente e até mesmo criam ou inventam novos idiomas fictícios e não podemos ignorar o fato de que a própria literatura se poderia considerar uma linguagem dentro do idioma de que se utilizou para ser escrita.

O mundo precisa entender que não é o caso de sair distribuindo livros por aí. Cada um pode escrever numa folha de papel aquilo que mais gosta e distribuir para a pessoa mais próxima. A literatura deve ser feita na mão, de próprio punho, com os dedos nas teclas, à lápis ou até mesmo impresso e distribuído.

Hoje em dia queremos falar de arte, fazer arte sem saber o que é o artesanato. O mundo parece cheio de informação, mas nada sabemos sobre as pessoas. Sabemos apenas das pessoas que parecem personagens e que nem parecem existir. A amizade é muito visual e menos sentimento do que poderia ser.

Para ser escritor não precisamos de ligar coisas ou ligar na tomada ou recarregar baterias. Ninguém liga o livro na tomada ou vai recarregar o seu livro com créditos. Precisamos recarregar a nossa vontade de querer desvendar mundos contidos nos livros, livros que somos nós mesmos, histórias que nos habitam e que desejam se tornarem maiores que nós, desejam pertencer ao mundo todo e à toda humanidade. Não permitir à um ser humano o hábito da leitura é um crime inafiançável e permitido por lei atualmente. A lei da compra, do consumo. Todo mundo tira a sua própria foto mas, ninguém sabe a forma da sua escrita porque a preguiça está impregnada na mente de todo mundo. É mais fácil distribuir imagens de graça do que escrever, exercitar o pensamento, de graça, apenas a imaginação, um lápis e um papel em branco que pode se transformar num barquinho cheio de palavras navegáveis iluminadas pelas luz das palavras do idioma da luz: a língua portuguesa, por palavras que surgem nas ondas da nossa vontade e de repente um pássaro bobo surge na parede branca do quarto e percebemos que era apenas a sombra do nosso casaco dando o formato, pelo nosso ângulo de visão, a imagem daquilo que conhecemos no mundo: seria um pássaro, um avião, uma garotinha andando pelas nuvens numa rua feita de bolinhos de chuva porque as nuvens dão chuva e quando as travessas caírem será aquela trovoada medonha chovendo bolinhos para todo lado e quando fechamos os olhos o arco-íris nos mostra um sol mal feito, umas nuvens enfim, um desenho feito por uma criança, a criança que fomos e esquecemos debaixo do travesseiro da lembrança que sempre surge de vez em quando para brincar quando escrevemos, para mostrar que com as palavras falamos muito mais do que palavras e as palavras dizem e certamente também nós, dizemos muito mais sobre a gente do que queríamos realmente dizer, aprendemos a utilizar o que somos, aprendemos a ser, e isso falando no mundo de hoje, e de todos os tempos: o que somos escrevemos e nunca deixamos de aprender e de ser pequenos aprendizes que pintam e fazem do mundo um grande rascunho em permanente reformulação para que possamos expressar de alguma forma, se é que sabemos uma forma, de dar forma àquilo que sentimos e pensamos. O que nós somos? O que nós podemos expressar e contar?

O que somos fica em algum lugar que parece tão real que quando dormimos e acordamos parece até que viajamos para outro mundo só que na verdade, apenas sonhamos com o texto do livro que estávamos lendo na véspera, antes de dormir. Assim é escrever, dar forma aos sonhos que são as mensagens na sua forma ainda intraduzível em textos e palavras, primitiva e talvez a mais eficaz ou ainda a mais incompreensível de todas. E assim, nós somos sempre uma possibilidade de existência, uma criação sempre para o futuro pois, é sempre como que uma incompreensão, uma suspensão sublimada da própria realidade, é como um ato de contemplação quando do momento de sua estruturação e formulação: a arte é o que somos e não sabemos o que somos. Por isso mostramos para nós mesmos que tudo o que existe de real é fruto da imaginação. A imaginação seria única possibilidade de decifrar todos os mistérios que existem e que no próprio ato de decifração, criaria outros, consequentemente.

Rômulo Pessanha

 

 

 

A voz da memória africana, por Rômulo Pessanha


 Provavelmente tudo pode ser feito através da repetição uma vez que não nos damos conta de que para cada ato de fala, articulamos de forma praticamente inconsciente as palavras e o som que pronunciamos.

Toda lembrança constitui uma imagem nas nossas mentes. Essas imagens geralmente se alteram com o tempo e ficam por debaixo dos escombros que o tempo derrubou por cima da imagem da lembrança original, aquela imagem que é a perfeita reprodução de um momento exato de um fato específico na vida de alguém.

Contar uma história requer habilidade da fala e um idioma previamente aprendido. Dar voz à criações, inventar histórias ou simplesmente dizer umas mentiras dependem do uso da imaginação.

Memória e imaginação se unem para satisfazer a vontade de quem irá contar uma história. A história pode ser ficcional, um relato verídico de algum acontecimento ou pode ser a transmissão de alguma informação previamente estudada e interiorizada para em seguida, ser repassada aos ouvintes que serão os ouvintes e leitores dessa história.

Quando lemos ouvimos uma voz. A voz que se ouve na mente é a criação da imaginação de quem escreveu. A imaginação é uma força vital que dá vida aos impulsos da nossa vontade. Antes das palavras existirem, existiam apenas as formas-pensamento. As formas-pensamento são os próprios neurotransmissores ativos trabalhando, esperando um comando como em um computador só que de uma maneira totalmente diversa.

Uma vez que um idioma é aprendido e interiorizado pela pessoa, essas formas-pensamento se associam às palavras transformando-se em imagens mentais que são num primeiro momento impressões dos neurônios ativando o mecanismo da memória e quanto mais uma pessoa tiver o hábito de leitura, maior será a quantidade de neurônios disponíveis para eventuais consultas como já saber previamente o significado de determinada palavra ou simplesmente lembrar o que foi lido e criar novas associações com outras ideias interagindo consequentemente com os neurônios originados de outras leituras.

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“Escuta”, diz a África milenar.

“Tudo fala. Tudo é palavra. Tudo busca nos transmitir um estrado de ser misteriosamente enriquecedor. Aprende a escutar e descobrirás que é música.”

Temos sempre a impressão de que as lembranças são apenas imagens vagas e apagadas sem som. Eventualmente quando vamos contar à alguém essas mesmas lembranças elas se tornam palavras sonoras se forem contadas de viva voz ou se forem escritas e aí, passaram a ter voz mental com associações mentais decorrentes do que foi escrito.

A memória é uma espécie de matéria que não se pode reter por completo mas, fica arquivada de alguma forma. Onde aparentemente não há voz, a imaginação cria a sua forma de expressão. Segundo Amadou Hampâté Bâ*,

“A tradição bambara do Komo Ensina que a palavra (Kuma) é uma força fundamental que emana do Ser supremo, Maa Ngala, criador de todas as coisas. É próprio instrumento da criação:”O que Maa Ngala diz, é!”, proclama o sacerdote cantor do deus Komo.

Tem sido dito e ensinado que Maa Ngala depositou no homem (Maa) as três potencialidades do poder, do querer e do saber. Mas todas essas forças de que o homem é herdeiro jazem nele como forças mudas, em estado estático, antes que a palavra as venha pôs em movimento. Graças à vivificação da palavra divina, tais forças começam a vibrar. Em uma primeira etapa, convertem-se em pensamento; em uma segunda etapa, em som: e em uma terceira, em palavra.

Assim, uma vez que a palavra é a exteriorização das vibrações das forças, toda manifestação de força, não importa em que forma, será considerada sua palavra. Por isso no universo tudo fala, tudo é palavra que tomou corpo e forma.”

E como força criadora a palavra possui o seu oposto que é a destruição. Se por um lado em nós a memória fica deteriorada com o passar dos anos, por outro, a imaginação tem o poder de aniquilar ao esquecimento a si mesma, deixando-a por debaixo dos escombros do esquecimento que a idade e o tempo impõe à nossa mente.

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Através da palavra a vida ficcional é criada pois, segundo Amadou:

“Se a palavra é força, é porque cria um vinculo de vaivém gerador de movimento e ritmo, consequentemente de vida e ação.”

(…)

“À imagem da palavra de Maa Ngala, da qual é um eco, a palavra humana põe em movimento as forças latentes, aciona-as e suscita-as, como ocorre quando um homem se levanta ou se volta ao ouvir o próprio nome”.

Enfim, é a palavra humana que cria ou destrói alguma coisa. Através dela, no texto que escrevemos, criamos o nosso próprio ritmo, a nossa cadência mágica ficcional como num ritual mágico como dizer ”abracadabra” e então, automaticamente algo é criado.

E se a palavra atua em nós modificando-nos e alterando nossas emoções ou estado de espírito é porque as palavras são forças geradoras de movimentos que atuam em nós, e nós por sua vez interagimos com essas forças como agentes criadores de novas palavras e novas forças.


* “Amadou Hampâté Bâ, escritor, historiador e filósofo malês. Foi uma das personalidades que mais contribuíram, principalmente na UNESCO (cujo Conselho executivo integrou de 1962 a 1970), para que as culturas orais africanas fossem reconhecidas no mundo inteiro.

O Fundo Amadou Hampâté Bâ, monumental acervo de arquivos manuscritos, é fruto de meio século de pesquisas sobre as tradições orais africanas.

Quase metade dos documentos desse acervo já está inventariada e microfichada. Os documentos abrangem praticamente todos os aspectos da sabedorias tradicional da África subsaariana (história, religiões, mitos, contos e lendas, literatura oral, sociologia, etc.). Concluída a tarefa, serão encaminhados conjuntos completos de microfichas às principais bibliotecas da França e da África, onde ficarão à disposição dos pesquisadores, como queria Amadou Ampâté Bâ. No momento, os interessados em consultar os documentos podem dirigir-se à Sra. Hélène Heckmann*, 10-12 Villa Threton 75015 Paris, França.”

* “Hélène Heckman, da França, ex-funcionária do Senado, é a testamenteira literária de Amadou Hampâté Bâ e responsável pelo acervo dos arquivos de seus manuscritos. Colaborou com Amadou Hampâté Bâ durante mais de 20 anos na França e durante determinados períodos da África.”

Bibliografia: O correio da UNESCO. Paris, Rio. Ano 21. N° 11. Nov. 1993, pp. 16-17.