149 anos de Olavo Bilac


O poeta e jornalista Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 16/12/1865 – 28/12/1918) foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras e pertencente ao parnasianismo, um movimento literário que começou na França no século XIX e que tinha como lema “a arte pela arte”, contradizendo as ideologias e excesso de sentimentos do Romantismo e o tom político do Modernismo. Um dos poemas mais conhecidos de Bilac é “Língua Portuguesa”, que inspirou a Caetano Veloso e Gilberto Mendonça, ele mostra a nossa língua como sendo contraditória, complexa, difícil e bela:

LÍNGUA PORTUGUESA (Olavo Bilac)

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

E um dos meus favoritos, vamos “ouvir estrelas”?

OUVIR ESTRELAS

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

(Poesias, Via-Láctea, 1888.)

No próximo dia 28 completa 96 anos do seu falecimento. Grande poeta, viva Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac!

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Resenha: Matéria de Rascunho, de Eduardo Tornaghi


E a alegria chega sempre em forma de livro. Dessa vez do poeta e ator Eduardo Tornaghi, “Matéria de Rascunho”, LIVRAÇO! Comecei a folhear e só parei no fim. E na apresentação (p. 9) ele fala sobre a necessidade da arte ser exposta, escrever para ninguém ler não faz sentido, assim como a interação ator- público, a poesia também deve ser vista, lida, conhecida, cantada:

A expressão é uma necessidade básica do ser humano, tal como beber ou respirar. mas só se completa no outro. O palco me ensinou que só podemos nos conhecer por completo, ouvindo a reação do público. Metade da coisa é você se perceber, a outra metade é aceitar o como os outros te percebem.

E no envelope, a mensagem de Eduardo muito apropriada para os tempos que vivemos:

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Então, vou apresentar o “Currículo” (p. 37) de Eduardo Tornaghi, um poema fantástico, que você também pode assistir recitado pelo autor/ator no seu canal do Youtube. Um primoroso poema tanto na forma como conteúdo:

Currículo- soneto sincopado

Já soquei tijolo já virei concreto
Já comi do bom e já passei sem teto
Já passei vazio ja sonhei repleto
Só me falta chorar para ser completo
Já banquei o bobo me julgando esperto
Já fechei a porta e inda restei aberto
Já comprei a banca- já fui objeto
Só me falta chorar para ser completo
Já plantei a dor tentando ser correto
Já tive razão mesmo sem estar certo
Já me fiz sublime- já fui abjeto
Já clamei por voz em um pleno deserto
Já me atrapalhei com tudo que é afeto
Só me falta chorar pra ser completo

https://www.youtube.com/watch?v=3LMp-OJTSGE&feature=youtu.be

A obra consta de 93 poemas (contei, não estão numerados) divididos em quatro capítulos, sendo que o último “E família (parte dela)” com a participação das filhas, do pai e outros, bem emotivo.

E mais um pouco da apresentação (p. 10). Totalmente de acordo:

Todo ser humano tem a obrigação de ser feliz. É pra isso que serve a poesia como toda arte. É mapa e veículo pra uma vida plena. Por isto esse livro é familiar. Meus pais nos ensinaram que todo mundo tem que praticar uma arte. Então, lá em casa, todo mundo experimentou todas. Cada um descobriu a sua, mas não deixou de brincar com as outras. Porque é bom e faz bem.

Eduardo Tornaghi faz um sarau poético, “Pelada poética”, toda quarta- feira no Rio de Janeiro, na praia do Leme, Quiosque Estrela da Luz, a partir das 19 horas. Esse livro você pode pedir direto com o autor no seu Facebook, vale a pena! Olha o meu:

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Obrigada, Eduardo, pela gentileza de enviar o livro e pela dedicatória. Além de talentoso e criativo, sua obra me fez refletir, possui uma espécie de humanismo clássico, ressaltando as qualidades humanas e responsabilizando o homem pela sua própria felicidade. Siga em frente e viva a poesia!

Ainda vou falar muito dos poemas do Eduardo, muita coisa boa!

Tornaghi, Eduardo. Matéria de Rascunho. 2ª edição, 00 Duplo Zero, Rio de Janeiro, 2011. 91 páginas

Eduardo Tornaghi e sua Pelada Poética


Assisti ontem um vídeo no Youtube sobre os atores dos anos 80. Jovens, bonitos, galãs, muitos já falecidos, outros “desaparecidos”, pelo menos da tv. Esse aqui:

Comecei a “googlear” os nomes dos atores que nunca mais tinha ouvido falar numa espécie de sessão nostalgia. Levei alguns sustos, atores que nem sabia que haviam morrido. E também algumas alegrias, descobri que Eduardo Tornaghi, que eu vi tantas vezes na tv durante a minha infância e adolescência, hoje é um poeta e agitador cultural.

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Eduardo Tornaghi e Sandra Bréa em “Memórias de amor”, 1979.

Procurei o nome de Eduardo Tornaghi (Rio de Janeiro, 26/09/1952) no Facebook com o perfil do Falando em Literatura e ele foi bem simpático (tem dois perfis, o primeiro já está lotado), enviou mensagem privada com um link para o seu canal no Youtube, o Papo Poético. Vi o primeiro vídeo e disse “opa, aí tem coisa boa!”. Por mais simpático que ele fosse, se não tivesse qualidade literária eu não estaria escrevendo esse post agora. Comecei a ver os vídeos um atrás do outro e fiquei encantada! Sobre os poemas de Eduardo irei fazer um post especial sobre eles depois. O vídeo abaixo foi um dos que me encantaram, o poeta e suas lindas filhas Kalu e Bibi (em 2010). É uma pena que não exista programas assim na tv, com pais e filhos vivendo, lendo, recitando, criando literatura. Já pensou que legal seria?! Educativo, divertido, belo. Parabéns, Eduardo, bela educação e herança que as suas filhas estão tendo o privilégio de receber! Isso é amor…

Manuel Bandeira foi uma inspiração na poesia e na vida de Eduardo, que teve o privilégio de conhecer Bandeira quando menino. Veja o vídeo:

O Eduardo criou um sarau poético que acontece todas as quartas- feiras no Rio de Janeiro, A Pelada poética a partir das 19:00h, no quiosque Estrela da Luz, na praia do Leme (Av. Atlântida- Posto 1- em frente ao restaurante Fiorentina).

Você aí do Rio de Janeiro, aparece por lá e conta depois o que achou da Pelada Poética. Combinado?!

Resenha: “Grande Sertão: veredas”, João Guimarães Rosa, no dia da morte do escritor


Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.( p. 30)

Eu também desconfio de muita coisa, até dessa incrível “coincidência”, postar ao acaso essa resenha (cheia de “anotamentos”) justo hoje: data do falecimento de Guimarães Rosa. A vida é mesmo mística.

O escritor, ministro, diplomata e médico João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967) foi também membro da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira nº 2, eleito em 6 de agosto de 1963. Morreu precocemente de enfarto, morte misteriosa e anunciada. Ele recusou- se a tomar posse na Academia Brasileira de Letras, porque disse que se o fizesse iria morrer. Acabou cedendo quatro anos depois e entrou para a Academia. No seu discurso de posse falou: “A gente não morre. Fica encantado”. Sua premonição/ profecia se cumpriu e três dias depois da posse, Rosa faleceu. Arrepia, não?!

“O grande sertão: veredas”, uma autobiografia irracional, palavras do próprio autor foi dedicado à sua esposa Aracy Guimarães Rosa, sua segunda esposa (ela merece um post à parte) trabalhou no consulado de Hamburgo na época do Holocausto e ajudou a enviar ilegalmente judeus ao Brasil. Foi uma grande mulher. Faleceu aos 102 anos no dia 3 de março de 2011. Aracy e Rosa viveram por 30 anos a sua história de amor.

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(…) Era assim: eu ia indo, cumprindo ordens; tinha de chegar num lugar , aperrar as armas; acontecia o seguinte, o que viesse vinha; tudo não é sina? (p. 220)

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Aracy, “Ara”, era paranaense, é a única mulher mencionada no Museu do Holocausto, em Israel e nos Estados Unidos por sua ajuda na fuga de judeus. Foi uma mulher valente e admirável!

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…e o homem do campo, sertanejo:kovadloff-guimaraes20rosa204

A posse na Academia Brasileira de Letras:
Guimarães Rosa, 3

Um post é ínfimo para tentar falar sobre a grandeza desse livro. Grande sertão: veredas é a obra- prima de Guimarães Rosa e um patrimônio da literatura brasileira. Não é uma leitura fácil a princípio, ler Rosa é bastante intenso, dentro da “simplicidade complexa” do falar do homem sertanejo, que muita gente pode necessitar de um dicionário à parte, pois é um léxico que a maioria do povo da cidade não domina. A primeira palavra do primeiro parágrafo é “nonada”, que é de origem crioula, significa “insignificante”, “pouco”, não é um neologismo como já li por aí. A ordem lexical da obra é caótica, oral, as frases são desconstruídas. Contudo, o cérebro se acostuma e a leitura começa a deslizar “fácil”, é rica, divertida, surpreendente. O cenário cheira  à natureza, ao rio Urucúia, ao sertão mineiro e ao baiano, às agruras da terra seca. Os personagens retratados no seu habitat, sem correções gramaticais, com suas superstições, mil seres estranhos e endemoniados, mas isso não impede que estejam impregnados de sabedoria, onde se fazem presentes Deus e o Diabo, os saberes da vida,  o plantar e o colher, o tempo, a vida e a morte, os segredos da fauna e da flora, um povo místico que acredita na magia da vida. E os neologismos, como “fantasiação”, “estranhez”, “desenormes”, “afamilhado”, “demudou”, “babeja”, “nuelo”, “gasturado”, “duvidação”, “deslúa”, “conhecença”, “tãomente”, “vivimento”…são uma atração à parte, tente imaginar o que significa cada uma delas. Os tradutores dessa obra devem ter arrancado os cabelos. Esse livro não é nada previsível, existe uma certa fragmentação, se você pular algum trecho vai fazer falta no decorrer da leitura, cada parágrafo é essencial. O narrador é Riobaldo, que um dia foi jagunço, conversa com o compadre Quelemém, homem “estudado”, amigo, mas forasteiro, por isso achou bom contar a sua história, já que o homem iria embora mesmo. Quelemém é um ouvinte mudo durante todo o romance e ouve atentamente todos os “causos” do amigo jagunço. Riobaldo é um filósofo do sertão, suas falas são carregadas de sabedoria. Fiz uma seleção de citas:

O senhor não duvide- tem gente neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta… (p.28)

O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. (p. 32)

Viver é muito perigoso…Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. (p. 32)

Deus é paciência. O contrário, é o diabo. (p. 33)

Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e se carece. (p. 33)

Me fez um receio, mas só no bobo do corpo, não no interno das coragens. (p. 34)

Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. (p. 35)

(…) O senhor sabe: há coisas de medonhas demais, tem. Dor do corpo e dor da idéia* marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio. (p.37)

(…) Eu confiro com mu compradre Quelemém,o senhor sabe: razão da crença mesma que tem- que, por todo mal, que se faz, um dia se repaga, o exato. (p. 38)

(…) Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas- mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é as brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro- dá gosto! A força dele, quando quer- moço! me dá até pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho- assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. (p. 39)

(…) E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um pensa: ah, alma absoluta! (p. 41)

(…) Se sonha; já se fez… (p. 41)

(…) Perto de muita água, tudo é feliz. (p. 45)

Moço: toda saudade é uma espécie de velhice. (p. 56)

O amor, já de si, é algum arrependimento. (p. 57)

Para trás, não há paz. (p. 58)

Guerra diverte- o demo acha. (p. 75)

Viver é um descuido prosseguido. (p. 86)

O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem que ter um triste amor à honestidade. (p. 88)

Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.. Mas, se não tem Deus, há- de a gente perdidos no vai- vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar- é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. (p. 76)

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. (p. 80)

Despedir dá febre. (p.81)

O sertão é do tamanho do mundo. (p. 89)

Qual é o caminho certo da gente? Nem para frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito esperando. Mas, quem e que sabe como? Viver… (p. 110)

A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não se misturam. (p. 115)

Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa idéia me pões susto. (p. 142)

Homem como eu, tristeza perto de pessoa amiga afraca. Eu queria mesmo algum desespero. (p. 169)

Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência. (p. 201)

 Ator - Atriz

A Rede Globo de televisão (Brasil) produziu uma minissérie baseada em Grande sertão: veredas, protagonizada por Toni Ramos (Riobaldo) e Bruna Lombardi (Diadorim), exibida em 1985.

A obra também é engraçada, os nomes dos personagens citados, as histórias são hilárias: Pedro Pindó, Valtêi (um nome considerado “muderno”),  Jisé Simpilício, Joãozinho Bem- Bem, Zé- Bebelo, Sô Candelário, Antônio Dó, Andalécio, Urutú- Branco, Jazevedão, Olivino Oliviano, Joé Cazuzo, Piolho- de- Cobra, Ana Duzuza, entre outros.

Riobaldo começa a contar ao compadre Quelemém a sua amizade com Diadorim, filho de Joca Ramiro. Diadorim é o seu melhor amigo, mas ele sente uma atração inexplicável muito mais além de uma amizade, é paixão, amor. Jagunço e homossexual são coisas incompatíveis e isso o deixa agoniado :

Diadorim  e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros- porque jagunço não é muito de conversa continuada nem amizades estreitas: a bem eles se misturavam e desmisturavam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo, podia morrer. (p. 44)

Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria a boca; mas era um delém que me tirava para ele- o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto. (p. 45)

(…) Quem sabe, podia ser, eu estava enfeitiçado? (p. 51)

(…) meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. (p. 55)

Noite essa, astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando debaixo de um arco- íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele- os gostares… (p. 66)

Meu corpo gostava do corpo dele (…) (p. 198)

Riobaldo já idoso, também conta histórias da sua infância, de um passeio de barco no rio São Francisco quando menino, uma bela narrativa sobre a coragem e o medo; também sobre quando faleceu a sua mãe e ele foi morar com o padrinho rico, Selorico Mendes, foi só então que aprendeu a ler. Conta como começou a ser jagunço, o dia a dia dessa vida e os seus problemas de consciência.

Desculpa me dê o senhor, sei que estou falando demais, dos lados. Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também, o que é que vale e o que é que não vale? Tudo. (p. 160)

Riobaldo era homossexual ou bissexual, pelo menos, já que também se apaixonou por uma mulher, Otacília (ou foi pela impossibilidade de consumar seu amor com Diadorim?):

Ela era risonha e descritiva de bonita. (p.205)

Toda moça é mansa, é branca e delicada. Otacília era a mais. (p. 206)

Riobaldo sente atração por um homem, situação inaceitável num meio altamente machista/homófobo como era o do cangaço, o sertanejo “cabra- macho”. Ele viu  o amigo Reinaldo tomar banho no rio, tirou a roupa e iria tomar banho também, só que sentiu uma “alegria”. Ficou bravo consigo mesmo, vestiu a roupa. Contou ao compadre Quelemém, negou o óbvio, mas se contradisse ao mesmo tempo:

Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. (…) Era ele estar longe, e eu só pensava nele. (…) Acho que. Aquela meiguice (…) E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente- tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. (…) Conforme, por exemplo, quando eu lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. (p. 163)

Foi Reinaldo que apresentou Joca Ramiro (pai de Diadorim) a Riobaldo. Reinaldo, na verdade, era o “menininho” corajoso que encantou Riobaldo na travessia do rio na infância deles. Reinaldo não se chama Reinaldo, seu nome verdadeiro é Diadorim. Diadorim não é homem, Diadorim é mulher, mas Riobaldo se apaixonou por ele (ou ela) pensando que era homem. Diadorim mudou de gênero desde criança, alma de menino preso num corpo feminino. Diadorim disse a Riobaldo:

Mulher é gente tão infeliz! (p. 188)

Zé Bebelo e Joca Ramiro eram rivais. Riobaldo era amigo de Bebelo e achava que ele tinha razão, mas estava apaixonado pelo filho de Ramiro, homem rico e cheio de posses. O que vai decidir Riobaldo? Que bando vai escolher? E Diadorim que não queria ser mulher, se apaixonou por Riobaldo? Ficaram juntos? E Otacília? Só lendo!

Viver é muito perigoso, frase repetida muitas vezes durante toda a narrativa. É uma obra genial tanto na forma quanto no conteúdo. Todo ser humano, não só brasileiro, deveria ler essa obra!

(…) minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? (…) Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for…Existe é homem humano. Travessia. (p.624)

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Rosa, João G.. Grande sertão: veredas.  Nova Fronteira, São Paulo, 2005. 624 páginas

*O editor preferiu manter a ortografia original que usou Guimarães Rosa, sem as correções da nova ortografia.

Centenário do nascimento de Vinícius de Moraes


Hoje, 19 de outubro de 2013, completa 100 anos do nascimento do escritor de prosa e verso, Vinícius de Moraes. Ele nasceu no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Um dos mais populares poetas e compositores do Brasil, quem nunca leu/ ouviu algum verso do Vinícius?

1916

 

Vinícius de Moraes aos 3 anos.

Vinicius de Moraes

Vinícius de Moraes

Uma das mais belas composições de Vinícius de Moraes junto com o seu amigo Antonio Carlos Jobim:

A FELICIDADE

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

Um trio espetacular, Tom, Vinícius e Toquinho cantando “A felicidade”:

 

 

“Iaiá Garcia”, Machado de Assis


“(…) essa mulher vale mais que seu destino e a lei do coração é anterior e superior às outras leis (…) escuta a voz de Deus e deixa aos homens o que vem dos homens.” (p. 86)

Que  Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/06/1839 – Rio de Janeiro, 29/ 09/ 1908) foi um dos maiores escritores da língua portuguesa, todos sabemos. Eu só não sabia muito da sua vida pessoal: foi casado com Carolina Novais Machado de Assis, portuguesa, por mais de 30 anos. Segundo as biografias espalhadas pela internet, Carolina era de família nobre, culta e era ela que corrigia os textos de Machado. Até que ponto ela “mexeu” nos textos do escritor? Foi por causa dela, dizem, que ele conheceu escritores do mundo todo e que pôde publicar seus livros. Xiiiii! Machado era Machado mesmo ou Machado era Carolina? Ou os dois? Pensem que no século XIX o machismo predominava, as mulheres tinham um segundo plano. Dúvida plantada. A sua linguagem primorosa terá sido escrita a quatro mãos? Possivelmente, estou blasfemando…tomara! Mas sempre é bom duvidar das coisas sacramentadas. Não toda, mas pelo menos a segunda metade da sua obra deve ter tido interferências de Carolina, segundo relatos de amigos do casal. Carolina e Machado:

Fotos: ABL

Bem, mas vamos com Iaiá Garcia (a Lina, “Iaiá” era seu apelido), filha de Luís Garcia, um funcionário público viúvo, muito reservado e antissocial, amigo da também viúva Valéria Gomes, uma das poucas amizades que mantinha. Ela é mãe de Jorge,  apaixonado por Estela, filha de um ex- empregado da família. Depois da morte de sua mãe, Estela foi viver na casa de Valéria, que a educava. Valéria, descontente com esse romance entre seu filho e Estela,  pois considera a moça inferior, prefere que o filho vá para a guerra do Paraguai com a intenção de separá- los. Jorge, num trecho romântico vai até a casa de Estela para despedir- se antes de ir para a guerra (p.84):

“- Embarco amanhã para o sul. Não é patriotismo que me leva, é o amor que lhe tenho, o amor grande e sincero, que ninguém poderá arrancar- em do coração. Se morrer, a senhora será o meu último pensamento; se viver, não quero outra glória que não seja a de me sentir amado. Uma e outra coisa dependem só da senhora. Diga- me; devo morrer ou viver?”

O pai de Estela, Sr. Antunes, enviava cartas a Jorge quando ele estava na guerra, verdadeiros “epitalâmios” (hinos nupciais), tentava convencer o jovem que sua filha era uma boa opção. Jorge continuava amando Estela e sentiu necessidade de contar sobre esse amor a alguém. Escreveu ao pai de Iaiá Garcia: Luis Garcia. Começaram o trocar cartas, onde Luis dava conselhos ao rapaz e o fazia refletir sobre sua condição de homem e soldado. Numa das cartas, já no final, depois de dar notícias da mãe de Jorge, contou que havia “contraído segundas núpcias com a filha do Sr.Antunes”. A mãe de Jorge, Valéria, foi a madrinha. Estela havia casado com o pai de Iaiá Garcia depois de todas as artimanhas de Valéria, inclusive foi ela que pagou o dote da moça. Jorge odiou a todos, a guerra acabou,  sua mãe faleceu e depois de quatro anos ele voltou ao Rio de Janeiro.

O coração humano é a região do inesperado.” (p. 63)

O engraçado desse livro é que nas 100 primeiras páginas, Iaiá praticamente não aparece, já que na primeira parte do livro ela ainda era menina. Iaiá ajudou a unir seu pai e Estela, de quem gostava muito. A união de Estela e Luis foi “uma viagem com os olhos abertos e o coração tranquilo”. Ambos conscientes que esse casamento por conveniência os faria bem.

A obra de Machado de Assis é dividida em duas fases: a primeira, romântica e a segunda, realista. Iaiá Garcia (1878) é o último livro da sua fase romântica. Interessante ler os usos e costumes da época, o contexto histórico e social, um retrato da sociedade carioca do século XIX, incluindo fuxicos, intrigas e romances por conveniência. A incerteza do que iria acontecer no Brasil por causa da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), a guerra contra o Paraguai e como iria ficar as fronteiras e a questão da navegação entre os países. Outras curiosidades, como os nomes dados às refeições naquele tempo, que eram diferentes e que pode provocar estranhamento no leitor atualmente, veja:

Almoço: era o nosso café- da- manhã, refeição feiita por volta das 8 horas.

Jantar: é o almoço, refeição feita por volta das 14 horas naquele tempo.

Merenda: uma refeição leve, geralmente no final da tarde.

Ceia: a última refeição do dia, por volta das 21 horas.

Machado cita uma revista, o Almanaque de Laemmert (p. 64), que fazia muito sucesso entre os anos de 1844 e 1889, que tinha um formato de livro com várias seções com temáticas diversas e bastante extenso. O anúncio abaixo* é de uma edição de 1880, página 870:

O romance romântico tem uma teia amorosa interessante, envolvente. Parece uma dessas novelas da Globo, só que bem escrita, sem possibilidade de saber logo no início o final da história. Não desista nas 100 primeiras páginas, o melhor vem depois. Como foi o reencontro de Jorge e Estela? Como foi o encontro de Jorge e Iaiá? O enredo é imprevisível, uma das coisas bacanas. Não consegui adivinhar o que aconteceria no final. Não vou contar mais, agora é com vocês!

Eterno! Sabes quanto durou essa eternidade de alguns anos. É duro de ouvir, minha filha, mas não há nada de eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas paixões morrem com o tempo. (p. 208)

Assis, Machado de, Iaiá Garcia. L&PM, Porto Alegre, 2011. 219 páginas

*Fonte: http://www.jangadabrasil.com.br/

Concurso de ensaios sobre Oscar Niemayer


Oscar Niemayer (clique aqui para ver a fundaçao Oscar Niemayer) é o arquiteto brasileiro mais internacional, consagrado por suas obras originais, criativas, inovadoras. Foi o arquiteto que projetou Brasília, a capital do Brasil e que mais recentemente fez um projeto arrojado, um edifício futurista, o Mac (Museu de Arte Contemporânea que fica em Niterói, no Rio de Janeiro).

Oscar vai fazer 100 anos e a Universidade do Porto lançou um concurso de ensaios para comemorar a data, destinado a estudantes brasileiros e portugueses, ao que transcrevo abaixo:

No âmbito da celebração do 100º aniversário de Oscar Niemeyer a Faculdade de Arquitectura lança um concurso para elaboração de um texto de reflexão teoria/crítica, em português, aberto a todos os estudantes de arquitectura de faculdades portuguesas e brasileiras e a todos os estudantes da Universidade do Porto.

OBJECTIVO
Elaboração de um texto original (não publicado) de reflexão sobre a obra e/ou vida de Oscar Niemeyer.

APRESENTAÇÃO
O texto não poderá exceder os 7.500 caracteres (notas e eventuais legendas incluídas); o título será destacado; fonte Times New Roman 12; a 1, 5 espaços; justificado.
Serão entregues cinco impressões do ensaio (texto e imagens) em papel A4 branco; todas as páginas serão identificadas pelo mesmo número de código no canto superior direito e numeradas (1/x, 2/x(…), x/x) no canto inferior direito.
Imagens (facultativo): as imagens ou serão directamente integradas no corpo do texto ou se forem enviadas em folhas próprias, estas deverão ser numeradas e identificadas pelo mesmo número de código, acompanhadas ou não de legenda(s).

DATA LIMITE
A data limite para entrega dos ensaios é 15 de Setembro de 2008 (carimbo dos correios).

MAIS INFORMAÇÕES:
Serviço de Relações Públicas e Internacionais
Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
T: +351 22 605 71 03/15
F: +351 22 605 71 98
Email: sre@arq.up.pt
http://sigarra.up.pt/faup/noticias_geral.ver_noticia?P_NR=566