Resenha: 24 horas na vida de uma mulher”, de Stefan Zweig


Essa é a primeira obra que li de Stefan Zweig (1881- 1942), escritor austríaco, que faleceu em Petrópolis (Rio de Janeiro) junto à esposa Lotte. O casal judeu cometeu suicídio motivado pela guerra (Holocausto) que acontecia na Europa. A obra agradou- me muito, recomendo!

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Stephen Zweig com a esposa Lotte Altmann

Veja a carta  de despedida que o autor deixou:


DECLARAÇÃO

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.

Stefan Zweig


O poema abaixo, o autor escreveu no seu aniversário de 60 anos, poucos meses antes do suicídio, uma declaração do que pretendia:


Pressentimento

As horas dançam com langor
Sobre os cabelos cinza-prata;
Só quando a taça é esvaziada,
O fundo de ouro mostra a cor.

Sentir tão perto o mais profundo
Dos sonos não transtorna… acalma.
Só quem já sossegou a alma
Contempla satisfeito o mundo.

Do que alcançou não mais duvida;
Não mais lamenta o que perdeu.
Sabe que envelhecer é seu
Caminho para a despedida.

Na derradeira luz do dia
É que a paisagem se libera;
E o homem ama a vida à vera
Quando, no escuro, a renuncia.

Trad. André Vallias


Vamos ao livro, “24 horas na vida de uma mulher”.

A história acontece dez anos antes da II Guerra Mundial, em uma pensão em Monte Carlo com vistas ao mar, um anexo do Palace Hotel, onde moram sete personagens burgueses: um casal alemão, um dinamarquês, uma inglesa, um casal italiano e o narrador, parece ser o alter ego do autor, não há detalhes sobre ele. Reunidos em uma mesa, estão exaltados e tentam entender um episódio que acaba de ocorrer. Vamos aos fatos.

A chegada de um jovem francês belíssimo, que inspira confiança e simpatia, revolucionou o lugar em apenas alguns dias. Ele alugou um quarto de frente ao mar, se enturmou rapidamente e também foi embora apressadamente em um trem. Desaparece a senhora Henriette, uma mulher casada de 33 anos e mãe de duas filhas. O marido encontra uma carta: a mulher o tinha abandonado.

A turma da pensão começa a especular se a senhora Henriette fugiu para ir atrás do vigarista, ela tinha conversado com ele durante apenas duas horas;  já o conhecia anteriormente? O narrador acha que a mulher fugiu de um casamento entediante. Os dois homens casados ofendem- se e contra- atacam “dizendo que só podia falar assim quem avaliava a psique feminina segundo conquistas casuais e baratas feitas por solteirões” ( p. 21). A discussão ganhou tom de ofensa.

Todos especulam sobre as razões que uma mulher como a srª Henriette abandone tudo sem se despedir. Vítima de um vigarista ou “espírito de prostituta”? Falta de liberdade, tédio? Apaixonou- se? Leviana, um espírito fraco? O narrador defende a mulher, acredita que a opinião pública é a pior e mais cruel das “justiças”, a mais severa. O julgamento moral é mortal muitas vezes.

E essa discussão toda e eles nem sabem realmente se a mulher casada foi atrás do moço bonito. São só suposições. E o espírito de união do grupo foi quebrado. Ficaram frios e distantes uns com os outros.

O narrador tem mais simpatia pela senhora inglesa, Mrs. C,  de 67 anos e viúva aos 40. Ela tem algo que contar- lhe, uma confidência, trocam bilhetes e marcam um encontro no apartamento da mulher. A história que ela quer contar é a sua, “apenas 24 horas dentro de 67 anos”. Ela repetiu a vida toda: “que importa ter uma vez agido com insensatez?” (p.37)

Mrs. C. autoacusa- se há 25 anos. Ela acha que contar esse único dia da sua vida, que aconteceu quando tinha 42 anos,  será uma forma de libertação ou de consolo. Que a inglesa fez nesse dia para ter problemas de consciência diariamente durante tanto tempo?

Ela frequentava cassinos, costume herdado do marido falecido; também aprendeu a ler as mãos, não como as ciganas que “preveem” o futuro. Ela lia as mãos, seu formato e gestos, acreditava que se sabia mais da pessoa assim, que olhando para o seu rosto. Fixou- se em umas mãos que jogavam e ficou extasiada. Teve que ver de quem pertenciam. Resultado: eram de um moço de 24 anos, que ela observou por uma hora e leu que ele iria cometer suicídio depois de ter perdido tudo no jogo. “Fiquei petrificada. Pois logo compreendi para onde ia essa pessoa: para a morte.” (p. 62)

Decidiu correr atrás do rapaz, um polonês ludomaníaco, para tentar impedir o que havia previsto.

O homem sentou num banco, imóvel. Começou a chover, ele continuou imóvel. A mulher abrigou- se debaixo de uma marquise. O homem derrotado desistiu da vida ali debaixo do dilúvio. A inglesa ganhou coragem, venceu a timidez,  correu na chuva até o rapaz e o levou para um hotel. Eu não posso dizer o que ela fez a noite toda com o rapaz, pois seria spoiler.

A intensidade dos sentimentos não entende de tempo. Mr. C. viveu mais em 24 horas, que em toda a sua vida. “Acaso alguma vez na vida fui mais feliz do que naquela hora?” (p.110). Para ela foi “felicidade em excesso” (116).

A despedida foi decepcionante. O abraço não dado às vezes é mais marcante do que os que já aconteceram, porque fica o desejo:

“…porque aquele jovem fora embora tão obedientemente…sem nenhuma tentativa de ficar comigo… que ele obedecesse humilde e respeitoso à minha primeira tentativa de me afastar… em vez de tentar me abraçar (…). ” Eu teria ido com ele até o fim do mundo, desonrando meu nome e o dos meus filhos, indiferente aos mexericos das pessoas e à sensatez delas, eu teria fugido com ele como aquela Madame Henriette com o jovem francês (…) (p.121)

Houve um último encontro, e esse, lhe revelou toda a verdade.

É uma história comovente. Como a solidão e o desejo de amar podem armar arapucas, ilusões. E como a mentira pode ser fator cotidiano na vida de determinadas pessoas.

Este era um dos livros favoritos de Freud, porque os personagens têm perfis psicológicos bem interessantes.

A tradução é de Lya Luft, o que é de se agradecer, muito bem feita.


Zweig foi um escritor prolixo e teve uma vida muito intensa, há muito do que se falar sobre ele. Volto com mais em outro post.

A casa de Stefan Zweig virou museu, você pode visitá- la em Petrópolis, veja mais detalhes aqui.

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Zweig, Stefan. 24 horas na vida de uma mulher, L&PM Pocket Plus, Epub. Páginas: 112

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Resenha: Os melhores contos de Lima Barreto


Affonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13/05/1881- Rio de Janeiro, 01/11/1922) foi um grande escritor, da altura de Machado de Assis, por exemplo, só que de uma forma mais moderna, sua linguagem é mais próxima à realidade do povo. Ele falou dos pobres e seus subúrbios, deu voz à essa gente; falou das classes sociais, políticos e a maneira pouco honesta de conquistarem o poder. Isso deve ter incomodado muita gente da recente república brasileira (decretada em 1889 com Marechal Deodoro). Affonso foi excluído das rodas literárias mais seletas, da Academia Brasileira de Letras, por exemplo. Candidatou- se três vezes.

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Além de tudo, era mulato. Raros eram os escritores mestiços no seu tempo, a abolição da escravatura era coisa recente. Teve uma vida difícil, de ascendência humilde, nasceu na rua Ipiranga, nº 18, em uma casa que já não existe mais no Rio de Janeiro. A mãe, dona Amália, era professora de escola pública. Ela faleceu quando Lima tinha 7 anos; e o pai, João, era tipógrafo e depois administrou uma colônia de “alienados” na Ilha do Governador.

Lima teve um padrinho rico que lhe custeou os estudos, o Visconde de Ouro Preto, um advogado, político abolicionista e senador do Império. Lima recebeu uma boa educação, estudou em bons colégios. Em 1903, seu pai enlouqueceu. Terá sido influenciado pelo ambiente do seu trabalho? Nessa época, com 22 anos, Lima teve que parar de estudar engenharia em uma escola técnica e foi trabalhar para sustentar a família numerosa. Trabalhou como professor particular e funcionário público, mas não foi feliz. Ele era um artista e não se adaptou ao ambiente nada criativo de uma repartição pública. No começo, foi um bom trabalhador, mas com o tempo, ficou difícil suportar, faltava, até que deixou o trabalho e entregou- se à vida boêmia entre botequins. Sua vida particular destruiu o escritor, que morreu muito cedo, aos 40 anos. O pai doente mental, a carga familiar, o mulato Lima Barreto sentia- se discriminado, o alcoolismo, a depressão, a tristeza, que o fazia sofrer alucinações. Lima foi internado algumas vezes em um hospício. Possivelmente, também devia ter alguma predisposição genética herdada do pai, que faleceu dois dias depois do escritor de “O triste fim de Policarpo Quaresma”.

Publicou contos em pequenas revistas e o seu primeiro romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1907)  começou a ser publicado na revista “Floreal”, mas só apareceu em livro dois anos depois, editado em Portugal. É considerado um autor pré-modernista (ele faleceu no ano da famosa “Semana de Arte Moderna”, que tem como marco o início do Modernismo no Brasil).

Lima critica bastante a sociedade carioca nos seus textos, foi pioneiro no Brasil em escrever  literatura de crítica social em uma linguagem mais acessível, menos portuguesa e mais brasileira, o que provocou, tudo indica, a repulsa dos literatos da época. Infelizmente, a crítica que ele fazia ainda continua muito atual na sociedade brasileira. A trambicagem e falta de honestidade é coisa enraizada. O dinheiro gera influência e poder, o que faz deixar pra trás quem tem competência e mérito.

Faleceu na casa que morou por vinte anos, na rua Major Mascarenhas nº 26, subúrbio carioca de Todos os Santos.

Vamos ao livro. A obra consta de dezenove contos:

  1. Numa e a Ninfa

De origem modesta, Numa Pompílio de Castro, ascende a cargos públicos e políticos por amizade e indicação, nunca por mérito. Casou- se com Gilberta por interesse financeiro e social. Com o casamento e o prestígio que consegue com a união, elege- se deputado. Sua mulher é muito mais preparada que o marido e escreve os seus discursos, que são um sucesso. Numa descobriu- se corno, mas deixou para lá, não queria escândalos e nem perder a sua “ghost- writer” (que não ficou muito claro se é a mulher ou o amante dessa, que é poeta). Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência? Será que Lima quis mandar uma indireta para alguém da época? Eu acho que sim! Um conto fantástico e muito atual!

  1. O único assassinato de Cazuza

Hildegardo Brandão (Cazuza), cinquenta e três anos, não conseguiu ter êxito na vida, apesar de muitos esforços. Solitário, sem família, doutor Ponciano era um dos poucos amigos. Ambos reuniam- se na casa do médico aos domingos para ler os jornais. Vou destacar um trecho, parece que foi escrito hoje:

­- Mata- se à toa por dá cá aquela palha. As paixões, mesquinhas paixões políticas, exaltam o ânimo de tal modo, que uma facção não teme eliminar o adversário por meio de assassinato, às vezes o revestindo da forma mais cruel. O predomínio, a chefia política local é o único fim visado nesses homicídios, quando não são questões de família, de herança, de terras, e às vezes, de causas menores. Não leio os jornais que não me apavore com tais notícias. Não é aqui nem ali; é em todo o Brasil, mesmo às portas do Rio de Janeiro. É um horror! Além desses assassinatos, praticados por capangas – que nome horrível! -, há os praticados pelos policiais e semelhantes nas pessoas dos adversários dos governos locais, adversários ou tidos como adversários. Basta um boquejo, para chegar uma escolta, varejar fazendas, talar plantações, arrebanhar gado, encarcerar ou surrar gente que, pelo seu trabalho, devia merecer mais respeito. Penso, de mim para mim, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na câmara, no senado, nos ministérios, até na presidência da república se alicerça no crime, no assassinato. Que acha você? (Hildegardo para Ponciano, p.21)

Imagino a cara dos políticos da época lendo esse texto na Revista Souza Cruz (1922). Lima era muito corajoso!

  1. O homem que sabia javanês

Um texto irônico, engraçado e que critica, também, a sociedade carioca (publicado na Gazeta da Tarde em 1911). O charlatão Castelo encontra seu amigo Castro em uma confeitaria e começa a contar uma de suas peripécias. Tinha sido adivinho em Manaus e depois professor de javanês. Castelo estava na pindaíba, não tinha emprego nem dinheiro para pagar a pensão onde estava hospedado. Vê um anúncio no jornal pedindo “professor de javanês”. Quem sabe javanês a não ser os de Java? Isso ele pensou. E foi atrás do emprego. Fingindo saber falar javanês chegou a ser diplomata. A crítica? Quanta gente finge ser o que não é consegue chegar mais longe, muitas vezes, do que quem realmente entende da matéria…. Quem disse que a vida é justa? Lima cita “Gil Blas”, uma obra para colocar na lista. Trata- se do romance satírico do francês Alain-René Lesage (1668-1747) que conta uma história sobre um sujeito parecido com Castelo.  Depois de muitas agruras na sua vida consegue vencer pela astúcia, enganando quem era muito poderoso e que se achava muito inteligente.

Esse conto virou filme em 2004, com Carlos Alberto Riccelli como Castelo e Sérgio Mamberti no papel de Castro.

4. O jornalista

Este conto foi dedicado ao escritor sergipano Ranulfo Prata, que anda esquecido. O autor já está na minha lista para pesquisa e leitura (anota na sua também!).

Essa é a história de Salomão Nabor de Azevedo, um jornalista muito popular da cidade de Sant’Ana dos Pescadores. O jornalista provoca um incêndio no prédio mais importante da cidade para ter notícia de um grande acontecimento no seu jornal. Foi preso. (Publicado em julho de 1921)

5. Um músico extraordinário

O narrador Mascarenhas conta a história de Ezequiel Beiriz, um colega de internato da adolescência. O rapazinho era franzino, triste, retraído, adorava as histórias de Jules Verne e sonhava viajar pelo mundo. Adultos, 30 anos maios ou menos, encontraram- se no bonde em uma situação inusitada: Ezequiel não tinha dinheiro para pagar a passagem e travou uma discussão com o “recebedor”. Foi Mascarenhas que pagou a passagem. Ezequiel contou todas as peripécias que viveu até então, todas as profissões e lugares que andou. A impressão que fica é que é tudo mentira, como toda a ficção que lia quando menino ou ao contrário, que ele conseguiu materializar de alguma forma os sonhos de criança. Foi tudo sem nunca ter sido, tal como o título do conto.

Lima também frequentou um internato. Pode ser alguma memória da adolescência.

6. Porque não se matava

A vida continuava sem esmorecimentos, indiferente que houvesse tristes e alegres, felizes e desgraçados, aproveitando a todos eles para o seu drama e a sua complexidade. (p.48)

O narrador conta a história de um amigo muito enigmático e muito contraditório. Esse amigo acha que não tem motivos para viver, mas não tem coragem de suicidar- se. A conversa acontece no bar do Adolfo, entre chopes, que pode ser mesmo um bar que existiu no centro do Rio, chamado Bar Adolph em 1915. Hoje ainda existe, chama- se Bar Luiz e tem 120 anos, vai ser tombado como patrimônio histórico da cidade.

Pode ser que Lima tenha tomado uns chopes nesse boteco com Olavo Bilac (falecido no final do ano de 1918, membro da ABL). Tal como o “amigo” do conto, Bilac, nosso poeta parnasiano, faleceu solteiro aos 53 anos. Era boêmio e gostava de um chopinho. Ele bateu seu carro numa árvore, foi o primeiro caso de acidente automobilístico no Brasil.

7. O cemitério (sem data)

Passeando entre túmulos de um cemitério da Rua do Ouvidor, o narrador (parece alter ego do autor) depara- se com o retrato de uma linda mulher enterrada ali:

Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo , e fugaz.

8.  A biblioteca

Dedicado a Pereira da Silva. Suponho que tenha sido o poeta e jornalista Antônio Joaquim Pereira da Silva, falecido em 1944 (membro da ABL).

Comum em quase todos os contos, é a descrição das ruas do Rio de Janeiro, bondes, casas, casarões, comércio. Um rico material histórico nos deixou Lima Barreto sobre a cidade carioca. Nesse, o narrador, Fausto Carregal, descreve um casarão na Tijuca, recordação de infância, a casa onde morou e todos os seus objetos. E a biblioteca.

A biblioteca do seu pai, o Conselheiro Carregal, era muito rica, cheia de tesouros literários antigos. Esse conto serve para anotar referências bibliográficas.

Fausto guardou a biblioteca do pai, ele não dera para as letras, não entendia os livros, para repassá- la a um dos quatro filhos. Os três mais velhos também não deram para as letras e a sua última esperança era Jaime, o caçula. Mas o menino não conseguia aprender a ler. O que fez então com a biblioteca?

O final desse conto é inusitado.

9. O feiticeiro e o deputado

De “seu Ernesto” o povo dizia que era feiticeiro e que tinha um passado de criminoso. Cultivava uma horta, cortava lenha e era muito misterioso. Não havia sido bandido, mas sim, entendia de “mandingas”. As pessoas iam pedir- lhe ajuda. Seu Ernesto “curou” até um alcoólatra. Era um “feiticeiro” do bem.

O deputado Braga foi visitar o feiticeiro achando que iria encontrar algum degenerado. Saiu de lá encantado também.

10. A doença do Antunes

O médico clínico dr. Gedeão era uma verdadeira celebridade, saía mais nos jornais que o próprio presidente. A consulta com o médico era caríssima, mas valia a pena uma consulta com o milagroso médico.

José Antunes Bulhões, dono de um armazém de secos e molhados, sofria uma dor de estômago incurável, já havia consultado vários, médicos, curandeiros e afins, mas não tinha dado resultado, a dor persistia. Consultou o milagroso doutor Gedeão. Mas para saber qual é a doença de Antunes…leia! 🙂

11. A nova Califórnia (10/11/1910)

Um conto muito criativo. O misterioso Raimundo Flamel encomendou ao pedreiro Fabrício a construção de um forno dentro da sua sala. O trabalhador viu na casa muitos livros e recipientes para experimentos químicos. O povo da pequena vila de Tubiacanga entrou em polvorosa tentando adivinhar o que faria o forasteiro.

O boticário Bastos acalmou o povo dizendo que devia ser algum sábio. Era um alquimista. Três cidadãos ilustres da cidade foram convidados por Raimundo Flamel para serem testemunhas de uma descoberta que havia conseguido.

Algumas tumbas da pacata cidade de três mil habitantes foram violadas. O alquimista transformava ossos em ouro. Quando a população descobriu foi uma verdadeira loucura. Começou uma caça aos ossos. Todo mundo queria o ouro fácil. E isso acabou trazendo a desgraça para Tubiacanga.

O único que sobrou foi o bêbado Belmiro.

12. O falso Dom Henrique V- Episódio da História de Bruzundanga

Lima era muito criativo e hilário na escolha dos nomes dos seus personagens e cidades fictícias. Essa é uma história que acontece na República de Bruzundanga (lembra o Brasil, óbvio).

A história acontece em um reino e a sua transição à monarquia através de um golpe.

No país monárquico, havia paz e os camponeses viviam bem, não passavam fome. O imperador Dom Sajon não gostava de luxos, usava carros antigos e obrigava que os nobres não explorassem os camponeses, tinha um bom coração. O único filho, o príncipe Dom Henrique, que nem queria ser rei, foi assassinado. E o neto de Sajon de 8 anos, sequestrado. Passou a governar Trétreth, da dinastia mais próxima à família. O povo empobreceu, adoeceu, andava quase nu, ficou miserável e os ricos, cada vez mais ricos exportando cana-de-açúcar.

Qualquer semelhança com a realidade não foi mera coincidência. Por isso Barreto não era muito popular entre a classe privilegiada do seu tempo.

13. Um e outro (1913)

Dedicado a Deodoro Leught, achei com a grafia “Leucht”. Não descobri quem foi, se alguém souber deixe nos comentários, por favor.

Esse conta a história da prostituta Lola de 50 anos, amante de Freitas, que a sustentava junto com a filha. Mas ela saía com outro, um “chauffeur” de carro de luxo.

É o primeiro conto do livro com um narrador- personagem feminino. O ambiente, como sempre, é o Rio de Janeiro, o bonde, suas ruas e o cais.

Freitas usava a mulher como um troféu. Ter uma amante dava um certo prestígio. E Lola o usava para dar- lhe boa vida, mas estava apaixonada pelo motorista…ou pelo seu carro? É um conto engraçado, embora um pouco machista. Aquele clichê que as mulheres só amam homens com bons carros (no caso de Lola sim). Comprovo que esse pensamento vem de longas datas.

14. Miss Edith e o seu tio (1914)

Um conto engraçado. A história acontece na pensão familiar “Boa Vista”, no bairro do Flamengo, dirigida por Madame Barbosa, uma mulher de 50 anos, “gorda e atochada”. Teve vários filhos e tinha uma ainda solteira “Dona Irene”, que vez por outra ficava noiva de um dos hóspedes. O casarão é feio e lúgubre.

A moça já tinha sido noiva de um estudante de Direito, um de Medicina, outro de Engenharia e também um dentista. Sem sucesso, então a moça voltou- se para os funcionários públicos. Irene sonhava em casar. “A preta” Angélica era o braço direito direito e confidente da Madame Barbosa.

Chegou um casal de ingleses, tio e sobrinha, Edith. Causaram reboliço  entre os hóspedes e a dona da pensão encantada com os gringos ricos. Cada hóspede criou uma história imaginária a respeito dos “ilustres” hóspedes. Tio e sobrinha? Será? Imagina aí…

15. O pecado (1924)

Esse conto é uma porrada. Curto e forte. Acontece no céu com São Pedro que faz a seleção de almas: as que vão para o purgatório e as que ficarão “à direita do altíssimo”. Um homem é julgado. Ele tem um expediente perfeito, é bom, humilde e honesto. Mas vai para o purgatório, porque é preto.

É como um protesto, um grito de dor. Ser preto era um pecado. 😦

16. Uma noite no lírico

Acontece no Teatro Pedro II. O narrador, Frederico Bastos, sente um certo incômodo em estar em um ambiente que não é o seu. O seu colega Cardoso o introduziu “nesse mundo” (da alta sociedade) frequentado por fidalgos, desembargadores, comandantes  e dos poderosos novos ricos.

Ao entrar na sala encontra um amigo rico, Alfredo Costa, mas que detesta esse mundo e os dois começam a zombar de todos os presentes. Com muito desdém, Alfredo vai contando como cada um alcançou a riqueza, revelando seus “podres” e toda a hipocrisia da sociedade carioca. Quantos deles se identificaram, colocaram a carapuça? Não me estranha que Lima tenha sido persona non grata entre eles, por revelar essas verdades.

17. Como o “Homem” chegou.

Esse conto vem com esse prólogo de Nietzsche:

Deus esta morto; a sua piedade pelos homens matou- o.

Começa elogiando a polícia da república, no seu trato igualitário entre pobres e ricos, o que soa bastante irônico. Acho que quis dizer exatamente o contrário. E também é uma crítica ácida em relação à imprensa, que publica só o que pode beneficiar certos setores.

Uma cidadezinha pacata, onde não havia roubos nem violência. O delegado só aparecia de mês em mês e chamava- se “Cunsono” (sacou, né?). Ele recebeu ordens de prender um louco, que era empregado da delegacia fiscal. A partir daí começa uma verdadeira saga para ir prender o homem em Manaus.

18. Um especialista

Conto dedicado a Bastos Tigre, que foi um homem das letras, escritor, humorista, bibliotecário e publicitário de sucesso. Lembra do slogan: “Se é Bayer é bom”? É dele.

A história começa num bar no largo da Carioca entre “cafés e licores”, charutos e o bilhar. O Comendador, casado, 50 anos, e o coronel Carvalho, viúvo, ambos portugueses, são os protagonistas. Os compadres batiam ponto no boteco todas as tardes para conversar sobre tudo. O casado adorava as mulatas; o viúvo, ao contrário, adorava as estrangeiras. Ambos burgueses.

Uma das mulatas, Alice, vida muito sofrida, “comeu o pão que o diabo amassou”, por acaso, encontrou o seu pai: um dos portugueses.

19. O filho da Gabriela

Dedicado a Antônio Noronha dos Santos, escritor e melhor amigo de Lima Barreto. Conheceram- se na época da Escola Politécnica (que Lima abandonou, pois teve que trabalhar). Há semelhanças com a história da infância de Lima, como a perda da mãe muito cedo e os padrinhos ricos.

A narrativa começa com um discussão entre a “ama”, dona Laura, e a criada Gabriela. O filho desta está doente e ela precisa levá- lo ao médico no dia seguinte, mas patroa nega, não permite que a criada se ausente.

Gabriela pediu demissão e durante um mês ficou procurando trabalho. Enquanto isso, o filho estava de favor na casa de uma amiga, um quarto tão úmido que parecia uma “masmorra” e sendo maltratado pela dona da casa. O menino sentia muito medo, ficava calado e sofria todos os tipos de privações, sede e fome. O que modificou o caráter do menino.

No final, Gabriela aceitou voltar para a casa da antiga ama como cozinheira. Dona Laura e o Conselheiro Calaça pediram para batizar o menino, Horácio (4 anos), pois sentiram piedade do menino que estava pedindo esmola na rua. O casal não teve filhos e dona Laura tinha amantes.

A mãe de Horácio faleceu quando ele tinha 6 anos, o menino fechou- se ainda mais e perdeu toda a alegria. Sentia falta dos carinhos da mãe. O ambiente escolar hostil, o padrinho severo e distante. Tudo foi contribuindo para a tristeza de Horácio. O autor descreve o seu processo de depressão. Horácio delira, tem alucinações. As mesmas vividas pelo escritor. 😦


A novela da Globo “Fera Ferida” (1993) foi baseada na obra de Lima Barreto, em contos citados nessa resenha como “A nova Califórnia”, “Numa e a Ninfa”, “O homem que sabia javanês”, e os romances “Clara dos Anjos”, “Memórias do escrivão Isaías Caminha”, “Triste fim de Policarpo Quaresma” e”Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá”. A princípio, a novela iria chamar- se “A nova Califórnia”. A novela completa está disponível no YouTube.

Os dados biográficos citados a princípio  constam nessa edição lida. Altamente recomendada para estudantes, pois é bastante didática, vem com biografia, bibliografia, inclusive possui um questionário de sondagem no final do livro e o custo é baixo. Fiquem de olho na editora Martin Claret e nessa coleção “Obra-prima de cada autor”, mas não esperem uma encadernação bonita, pois é a mais simples possível, edição de bolso.

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Barreto, Lima. Os melhores contos de Lima Barreto. Martin Claret, São Paulo, 2005. Páginas: 159

A obra de Lima Barreto, assim como a de Machado de Assis, Joaquim Nabuco e Fernando Pessoa, por exemplo, já estão livres de direitos autorais e estão disponíveis em www.dominiopublico.gov.br . Portanto, só gasta dinheiro quem preferir os livros em papel;  mas só fica sem ler grandes obras quem quiser, já que o investimento é zero. Os arquivos estão em PDF e podem ser lidos em computadores, notebooks, tablets ou smartphones.

Foi você quem disse, Drummond?! Quiz!


O que você sabe sobre um dos maiores escritores modernistas do Brasil? O mineiro Carlos Drummond de Andrade nos deixou uma obra preciosa e que vale a pena ser lida e relida. Preparei um quiz rápido, sete perguntas para você testar os seus conhecimentos sobre o autor. Vamos brincar?!

Segue o link. clica aqui.

estátua ItabiraEstátua de Drummond na sua cidade natal, Itabira- Minas Gerais

No próximo post irei explicar cada uma das questões.

 

Hoje: um texto por hora e aniversário de Antônio Torres!


Hoje, lá no nosso Facebook, haverá postagens de hora em hora. Como o nosso fuso é espanhol, já começou! Curta nossa página e nossos posts, isso é importante para motivar e saber se estamos pelo caminho certo ou não. Clarice vai estar por lá.

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Espero que os trechos de livros te inspirem e alguns deles entrem para a sua lista de leitura.

Hoje o dia é especial, pois é aniversário do grande escritor Antônio Torres, ele completa 76 anos. Imortal da ABL, com livros traduzidos em vários idiomas e uma obra narrativa interessantíssima, é um dos escritores brasileiros que mais amo.

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Resenha: “A República dos Sonhos”, de Nélida Piñón


– Cuidado, Eulália, desconfie das palavras. Elas tanto afirmam quanto desdizem. E isto por conta da nossa vaidade. ( p.14)

Ler “A república dos sonhos” é ler uma vida inteira. É ler a saga de uma família, três gerações. É ler a história do Brasil, sua política, usos e costumes. É desvendar o sentimento imigrante não importando a nacionalidade, há um sentimento comum a todos. É ler a história da Galiza, suas gentes, lendas e superstições. É descobrir que a família pode ser amor e ódio.

Ler esse livro mostrou- me que o Brasil já está errando há tempo demais. A leitura do Brasil nação é atual e acaba sendo triste. Não evoluímos, o tempo não jogou a nosso favor. Ainda falta muito pra melhorar em todos os setores e temo que esteja muito distante.

De que me vale a riqueza de ter duas pátrias, se as duas me querem dividir, ambas me fazem sentir que não pertenço a lugar nenhum. (p. 182)

A memória, as vozes do passado, raízes, família, pátria, amor e ódio dão o tom da narrativa.

Com esse livro, Nélida Piñon alcançou o nível máximo na excelência da arte literária. Não se pode escrever melhor! Eu havia lido seus contos e “A casa da paixão”, mas essa narrativa prolixa e excepcional, me conquistou completamente! Posso compará- la e colocá- la no mesmo patamar de Marcel Proust, Machado de Assis ou Dostoiévski, nível A. Nélida Piñón é a Proust brasileira! Fiquei muito impressionada com essa obra.  Ah, também lembra “Cem anos de solidão”, de Gabo. Nélida Piñón tem uma escritura fina, rica e elegante. Veja como começa:

Eulália começou a morrer na terça- feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. (…) (p.7)

O primeiro capítulo serve como apresentação do casal protagonista, já idoso, que prepara- se para o final de Eulália, que pressente a morte e prepara- se para tal. Essa obra trata da história dessa família de imigrantes galegos que foram para o Brasil em busca de um sonho. O povo da Galiza tem essa vocação imigrante, na própria Espanha são conhecidos assim. Essas terras galegas não oferecem (até hoje) as melhores condições de vida e trabalho, o tempo inclemente, muita gente vive do mar e da terra, ofícios duros e sem boas  expectativas de futuro, o que os empurra a sair da sua terra. A neta Breta tenta reconstruir a saga da sua família.

– O mar é a minha memória, Venâncio. (…) (Madruga, p. 11)

Alguns personagens:

Eulália: imigrante galega (espanhola), casada com Madruga. Muito religiosa, mãe dedicada, submissa ao marido, resignada, misteriosa. Forte e frágil ao mesmo tempo. Preparou caixinhas com recordações para cada um dos filhos.

Madruga: imigrante galego (espanhol), casado com Eulália. Imigrou adolescente para  Rio de Janeiro com muita força e ganância. Teve sorte, começou a trabalhar em um hotel de um espanhol e logo passou a ser sócio do negócio. Assim começou o seu império. Machista, frio com os filhos e a esposa, os filhos o consideram um déspota.

Venâncio: velho amigo de Madruga e Eulália, chegaram juntos no Brasil em um navio inglês, no ano de 1913. Ao contrário de Madruga, não teve êxito financeiro, era seu empregado. Seus valores e sentimentos eram muito diferentes, mas mantiveram- se unidos até o final. Escreveu um diário, dessa forma podemos conhecer quem é e o que pensa.

Dom Miguel: pai de Eulália

Odete: a servente de Eulália. Apesar da abolição da escravatura em meados do século XIX, a escravidão no Brasil continuou no século XX. Até hoje vemos e sentimos as consequências.

Breta: neta de Eulália e Madruga, filha de Esperança, que morre (“spoilerzinho”!)

Xan: avô de Madruga, distante, mas sempre presente

Urcesina: mãe de Madruga

Ceferino: pai de Madruga

Antônia: filha de Madruga e Eulália

Tobias: o filho mais velho de Madruga e Eulália.

Amália: esposa de Tobias

Esperança: filha de Madruga e Eulália

Bento: filho de Madruga e Eulália

Miguel: filho de Madruga e Eulália

Luís Filho: genro de Madruga e Eulália, casado com Antônia

Tio Justo: irmão de Madruga

Dona Aquilina: a bruxa, uma “meiga” da Galiza

Maria e Viriato, imigrantes portugueses, pais de Cláudio, soldado brasileiro na Itália na II Guerra Mundial. Ele volta, mas sofre problemas mentais provocados pela guerra.


O segundo capítulo começa com a história da família contada em 1º pessoa por Madruga, que nasceu em Sobreira, Pontevedra (Espanha). Com 13 anos, planeja a viagem ao Brasil, a América é o seu sonho, acha que não tem o que fazer naquele povoado, mata virtualmente os pais, tenta retirar todo o vínculo emocional, só assim poderia sobreviver na nova terra. Quem vai e fica emocionalmente dependente dos que ficam, não consegue enfrentar a dor da separação. Ele pede ajuda financeira (a passagem de navio) ao tio Justo, um sujeito solitário e irascível, que migrou para o Brasil, mas retornou, não deu certo.

O livro inteiro é destacável, são 705 páginas magistrais, por motivos óbvios, não vou poder destacar tudo o que eu gostaria. O trecho abaixo, tão atual (a obra foi escrita em 1984, mas poderia ser hoje) dito pelo filho de Madruga, é advogado e está muito insatisfeito com a falta de valores nobres que rege o país:

“– As nossas franquias institucionais sempre representaram uma farsa, padrinho. Começando pelo aparato jurídico que é capenga, amolece diante dos regimes fortes. Por isso nos tornamos todos tiranos. Da estirpe de Getúlio, Médici e outros mais. Oferecemos cafezinho às visitas, que mal nos chegam na soleira da porta, com a chibata na mão. Não temos feito outra coisa que dilapidar um patrimônio que uns chamam de nação, outros de país, ou de pátria. O Brasil vem mentindo para si mesmo a cada hora. E não existe pior elite que a nossa. Ela condena os fracos e os miseráveis ao extermínio ou ao exílio. O exílio do silêncio e da não participação social. Da privação dos direitos humanos.”
(Tobias ao padrinho Venâncio, p. 36)

O advogado Tobias defende as pessoas sem recursos contra a ditadura. Tem muitos problemas econômicos, enfrenta a mulher, pede empréstimos bancários, vai contra o pai, com quem não se dá bem, não gosta do seu autoritarismo, o considera um déspota. Tobias ia na contra- mão dos seus irmãos que acatavam as ordens do pai, que trabalhavam nos negócios dele junto com o genro puxa- saco Luís Filho. Madruga fez fortuna no Brasil.

No entanto, ser imigrante não é nada fácil, uma verdade transportada à ficção de Nélida:

Ganhar a vida, em um país estrangeiro, equivalia no início a dolorosas amputações. A perda da alma e da língua ao mesmo tempo. (p.67)

Essa obra nos conta costumes brasileiros e espanhóis, sob a ótica dos galegos (nascidos na Galiza). O sentimento imigrante é muito parecido, não importa a nacionalidade. Em muitos momentos identifiquei- me, infelizmente, com algumas coisas que não são muito agradáveis de sentir na própria pele, trechos da página 173:

O peso:

“(…) Parecia, então, estar arrastando Espanha às costas, como se fosse uma mochila de couro. Enquanto o Brasil, a despeito do seu conteúdo jovem e falsamente lírico, igualava- se em peso a uma pedra que devesse deslocar sozinho do chão.”

Só o esquecimento salva do mal- estar diário:

“– Não se pode conviver intensamente com dois países mortíferos como o Brasil e a Espanha. Você terá que abrandar um deles dentro da alma. De outro jeito, eles terminam por mata- lo (…)

A sensação de ser um forasteiro, ainda que morando há muitos anos fora:

“(…) Pondo os pés num país que, em movimentos díspares, retinha- o e expulsava- o seguidamente. Somos e não pudesse esquecer que o Brasil não fora a sua primeira manjedoura.”

Venâncio imigrou junto com Madruga. Ele era empregado deste, que enriqueceu com um hotel. Sorte de um e falta da mesma para outro. Venâncio é melancólico, não acaba de arraigar- se no Brasil e sofre. Não tem família, não tem riqueza, parece viver sem esperança. Madruga tem o consolo do dinheiro, do êxito, do sonho cumprido e a ainda família numerosa para completar.

A história acontece na década de 30, períodos políticos complicados, tanto no Brasil quanto na Espanha. No Brasil, o suicida e ditador Getúlio Vargas teve quatro mandatos como presidente que duraram 15 anos. Um golpe militar depôs o então presidente Washington Luiz para entrar Getúlio. Anos de revoltas e assassinatos da oposição, uma história confusa e complexa; na Espanha, também acontecia uma guerra civil (1936- 1939). Ganhou a pior parte, o ditador Francisco Franco, que governou o país durante 36 anos, até a sua morte em 1975. Um longo período em que a Espanha não teve liberdade de expressão, não teve imigração, também não existiam homossexuais e nenhum opositor, já que esses eram eliminados. O mundo estava em pé- de- guerra, em 1939, também explodiu a II Guerra Mundial. Veja (p.176):

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Quem quiser conhecer melhor a história de Olga Benário leia “Olga”, de Fernando Morais. Esse é um livro que ainda quero fazer uma resenha. A história trágica dessa mulher (e de muitos outros) foi promovida por Getúlio Vargas.

A diferença entre o Brasil e a Espanha? O brasileiro parece desconhecer a história do próprio país. Uma das principais ruas da cidade que eu morava em Feira de Santana, adivinha? “Avenida Getúlio Vargas”. Tenho certeza que a população pensa que foi algum herói. Já na Espanha, os símbolos franquistas da ditadura foram retirados das ruas, praças, cidades.

Os personagens estão inseridos nesse contexto político- social e suas vidas, medos, condutas são influenciados por esses fatos. Venâncio temia que a ditadura brasileira o expulsasse para a ditadura espanhola.

Passado e presente vão intercalando- se entre os cenário do Rio de Janeiro e de Sobreira, na Galiza.

Merece destaque a relação da galega Eulália com a sua fiel empregada Odete, negra, órfã, pobre e totalmente serviçal, sem vida própria. Vivia entregada a servir a patroa sem horários e direitos, muito menos comer à mesa com os patrões. Em 2016, continua igual em muitos lares do Brasil. Na realidade baiana que conheço mais, afirmo sem medo de errar, que muitas faxineiras, cozinheiras, babás, lavadeiras e passadeiras são tratadas praticamente como se não fossem seres humanos. O lugar delas é na cozinha, a relação não é como a de outro profissional qualquer, são tratadas de cima pra baixo, como era a relação do senhor da Casa Grande e do escravo da senzala, de Brasil Colônia. Eu vi, presenciei, ninguém me contou. Espero que algum com essa doença psicológica/social/moral leia isto e caia a cara de vergonha.

Outra coisa: “pegar pra criar” alguma criança pobre, como se fosse um favor, para usá- la como escrava na sua casa, para fazer todas as tarefas domésticas não é ser “irmão ou irmã de criação”, isso tem outro nome: ESCRAVIDÃO! Pois é, na Bahia isso ainda acontece. Irmão é irmão, não é escravo.

Eulália mantinha- se alheia aos acontecimentos políticos brasileiros e do mundo, centrava- se nos afazeres domésticos: “(…) Nada escraviza mais que a devoção integral às panelas, à roda de fiar, aos utensílios, que põem uma tela escura à vista.” (p.376)

A relação entre Madruga, a esposa Eulália e o amigo Venâncio era estranha. Fiquei desconfiada que Venâncio era apaixonado por Eulália e vice- versa, e que o filho mais velho de Eulália era dele, não de Madruga. Venâncio não casou, era muito reservado, solitário e muito preocupado com a situação política da Espanha, não conseguia esquecer da terra natal. Madruga o recriminava o tempo todo,  achava que isso o impedia de ser feliz no Brasil, queria que arranjasse uma mulher, tivesse família, mas Eulália desculpava o amigo e colocava panos quentes. Madruga acabou descobrindo que o amigo adoeceu. Quando o sonho se transforma em pesadelo, Venâncio (p. 183):

– Será que não existe na terra um só lugar que acalme um homem ferido?

Nem todo mundo tem estrutura emocional para ser imigrante. Já vi brasileiros na Espanha perderem a paz, a saúde, o juízo diante do fracasso, seja qual for. Muitos ficam prisioneiros das próprias decisões, não podem ir e nem ficar, mesmo porquê, muitos já nem têm para onde ir. Conheci brasileiros que ficaram com depressão, que se auto- mutilavam, que tiveram derrame, que entristeceram tanto afundando na depressão, que já nem sabiam quem eram. O lado B da imigração que ninguém conta. Se olhar nas redes sociais, parece que todos são ricos e felizes, enquanto carregam uma mochila de fracassos. E presta atenção: nem sempre é questão de dinheiro. Vi gente enlouquecer com a conta bancária recheada. Imigração é assunto complexo que mexe com perdas, como a convivência com a família. Uma ruptura com o passado e todo o conhecido, entre muitas outras coisas, que as pessoas mais sensíveis podem não suportar. Venâncio internou- se na Beneficência Espanhola (p. 185):

– Não estou louco, Eulália. Só preciso adaptar- me à realidade feita por homens como Madruga.

Esse livro fez- me pensar sobre a minha própria condição. A conclusão foi muito positiva. Eu venho de uma tradição imigrante, pais e avós, não somos de criar limo; aliás, a hera, o musgo me remete sempre à sujeira, parasitas, grude, feiúra. Eu deixo o musgo para as pedras, que acumulam taturanas, escorpiões, aranhas e lacraias. Descobri- me uma imigrante orgulhosa. A única coisa que me arrependo é de não ter mudado mais. Além das mudanças interiores, que devem ser constantes, como a de escolher quem deve estar ao meu lado.  A vida é movimento desde que o mundo é mundo; o contrário é a morte.

A história pula para 1969, o golpe militar no Brasil. Breta era militante e teve que exilar- se na Europa. Primeiro na Espanha com o avô, depois foi para a França.

A obra é contada sob várias perspectivas, em primeira e terceira pessoa. “É preciso sentir para saber”. O outro que vê de fora, julga e vê sem conhecimento de causa. Pode mudar a história inteira! As verdades mudam, depende de quem conta.

Há muitos trechos que desvendam a conduta sexual dos personagens, que tem relação direta com suas condutas sociais, psicológicas. Inclusive, daria uma tese interessante “A sexualidade na obra de Nélida Piñón”. Nesse livro e em “A casa da paixão”, já dá um bom material. Deixo como sugestão para quem tiver interesse na área.

A relação entre os irmãos é complicadíssima, amor e ódio. A relação entre os filhos e Madruga, idem. Não é uma história alegre, é triste e complexa. O que me fez chegar à conclusão: a família pode ser a pior inimiga.

O que senti falta nesse livro é uma mais descrição física mais detalhada dos personagens, houve pinceladas, mas tive dificuldade em imaginar a maioria deles. Venâncio magro e de nariz adunco; Madruga, encorpado, de olhos azuis, bonito, o mais bonito da família. Miguel, o mais bonito dos filhos, e pouco mais, não há muitos detalhes para ajudar na visualização dos personagens.

A dificuldade com a nossa língua, do diário de Venâncio, que serve como reflexão (p. 376):

A conquista desta língua portuguesa me é penosa. Trava- me a língua, quando falo. Ela é tirânica e traiçoeira, e não basta conhecê- la. sobretudo devo vencer aqueles sentimentos subalternos, disciplinares e canónicos, de que ela se reveste. Esta língua lusa, como todas as outras, organizou- se de forma a impedir que o povo tome a si e rompa- lhe os grilhões. Os senhores da língua sempre temeram que o povo convivesse com aquela camada subjacente da língua, capaz de conduzi-lo à apostasia do imaginário. À liberdade.

O Brasil tem um “karma”, uma sorte, destino ruim, não pelo seu início, mas porque ainda não se redimiu dos seus pecados. Estagnou. Os ricos de sempre, as famílias tradicionais, conquistaram a sua riqueza com sangue e exploração dos escravizados, mais frágeis e desvalidos; os novos ricos, idem, exploram a riqueza e mão-de-obra barata. Sempre desconfio dos que fazem fortuna, porque essa sempre depende da pobreza alheia. Infelizmente, isso está instituído. O Brasil não é um país justo. O abismo social e financeiro, o apartheid  continua no ano 2016. Tais diferenças são mais notórias ainda no norte- nordeste do país.

Tobias considera Venâncio o seu pai, na verdade, o seu padrinho. Ele não gosta, tal como Venâncio, de como Madruga fez a sua fortuna. Eles têm consciência dos problemas do Brasil e de como foi construído.

(…) O Brasil era todos nós. Desgarrados e melancólicos. Seríamos, em conjunto, as falências e aspirações desta nação. (p.385)

 Temos a sensação de que o brasileiro estende tapete vermelho para os estrangeiros, mas não é bem assim. Depende. Depende do bolso do estrangeiro. Se for recheado é bem aceito. Vemos a imigração pobre que chega da América do Sul e os haitianos, depois do terremoto, serem desprezados, mal recebidos. O mito do brasileiro “acolhedor e gente boa”, é isso, só um mito, já que é seletiva. Venâncio (p. 574):

– Quando desembarquei no Rio de Janeiro, lá pelos idos de 1913, fui recebido com suspeitas. Como se fosse um salteador, um assassino. O Brasil tinha vergonha da própria origem. E demonstrava um sentimento de oposição ao estrangeiro.

Esse livro me fez pensar sobre a história do nosso país. Quem somos? De quantas nacionalidades somos feitos? O Brasil composto de imigrantes de todas as raças, privilegiando umas mais que outras. O resultado não está sendo bom. O Brasil está em dívida, uma dívida muito alta e difícil de saldar. Viramos o século, mas parece que certas coisas nunca mudam.

A obra também vai te levar até a Galiza. Para quem se interessa por essa região da Espanha (ou não) é muito interessante.

A sina do imigrante, sair de onde saiu, mas não saber aonde irá terminar:

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Parece que a república dos nossos sonhos, de estrangeiros e nacionais, ainda é um projeto para as futuras gerações.


Nélida Piñón (Rio de Janeiro, 03/05/1937) é filha de Lino Piñon Muiños e Olivia Carmen Cuiñas Piñon, galegos. A sua origem foi o motivo da escritura dessa obra. Nélida entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1989 e foi a primeira mulher a presidi- la. Ganhou prêmios importantes como o Jabuti no Brasil e o Príncipe de Astúrias na Espanha.

Veja aqui a resenha de “O calor das coisas”, contos de Nélida e “A casa da paixão”.

A autora com sua cadelinha Susi (ela tem outro chamado “Gravetinho”. A escritora é solteira e não tem filhos, optou pela liberdade (inteligente e esperta!). As fotos foram tiradas na sua casa no Rio de Janeiro com vistas à Lagoa.

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img-645729-nelida-pinon20141125151416937558Fotos de Cadu Pilotto para a revista Caras


Nélida é uma das escritoras brasileiras mais lidas na Espanha. Aqui é possível encontrar sua obra em português e espanhol. Veja aqui nessa livraria em Madri seus livros na estante.

Eu tive o privilégio e  orgulho de entrevistar a autora para a Revista BrazilcomZ, no último mês de março. Linda entrevista, Nélida deu uma aula de literatura, de vida e humildade, realmente uma pessoa e escritora muito especial! Você pode ler online a revista (páginas 13-17):

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Eu sempre me sinto realizada depois de ler um livro assim, uma obra “master blaster”. A edição lida foi essa, da editora portuguesa Círculo de Leitores, que precisa ser revisada, há erros, não da autora, mas de quem diagramou o livro. Há palavras separadas inadequadamente, deslizes de revisão.

pinonPiñón, Nélida. A república dos sonhos. Círculo de Leitores, Lisboa, 2014. 705 páginas

Ps: Estou de férias e escrevi esse post do celular. De antemão, peço desculpas pelos eventuais erros no texto. Quando chegar em casa irei revisar.

Resenha: A poesia da notícia, de Thiago David


Quem planta violência/ não colhe cidadão. (Thiago David)

Um pouco de literatura brasileira contemporânea. Thiago David estreia com “A poesia da notícia”. Ele é um jovem poeta e compositor carioca nascido em 1987. É publicitário, mas não exerce, sonha em poder viver só de literatura.

Esse livro foi uma grata surpresa, principalmente por se tratar de poesia. Estamos carentes de bons poetas na pós- modernidade (desculpe a quem ofender possa). Thiago conseguiu algo que eu desejava há tempos: um reflexo do nosso tempo, a nossa cara, – mais que isso- , a representação de um pensamento coletivo, é algo mais profundo ( e nem sempre agradável de se constatar). Acho que ele conseguiu de uma forma bem interessante com versos simples e eficazes. Parece que tudo está no lugar, não sobra nem falta.

Thiago resgata o que há de humano em nós. O problema do outro… é do outro?

thiagoFoto: Facebook do autor

Notícia pode virar poesia? Claro! O consagrado modernista Manuel Bandeira fez isto, veja o “Poema tirado de uma notícia de jornal”.

O cotidiano está cheio de poesia, mas as notícias são descartáveis, amanhã terá uma nova e a de hoje estará na cesta de lixo. A poesia é uma boa tentativa de imortalizar o “banal”. A repetição torna as pessoas insensíveis, o comovente não comove mais ninguém, exceto quando o fato acontece com elas ou alguém próximo. A poesia é uma forma de reeducação sentimental.

Vamos à obra:

“A poesia da notícia” está dividida em 13 temas: Cotidiano e Sociedade, Policial, Política, Eleições, Internacional, Esporte, Cultura, LGBT, Racismo, Mulher, Saúde, Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia, ou seja, abarca uma boa parte dos fatos sociais.

Os títulos dos poemas são manchetes de jornais. No poema abaixo, uma notícia tão repetida, mas interpretada com um olho poético, veja como muda. Essa manchete carrega um verdadeiro drama. Veja (p.10):

PREÇOS DE IMÓVEIS EM SP NÃO VÃO PARAR DE SUBIR, DIZ ESPECIALISTA

Olhando os classificados,
pensando de onde tirar tanto dinheiro
(em comparação com meu salário),
torço imensamente pra que essa alta de preços,
não afete o mercado 
que vende papelão.
É bom ter a certeza de que algo cobrirá o chão.

Muita gente passou por isso. Perder um objeto é muito mais que uma questão financeira. Nisso mora a diferença entre o preço e o apreço, o valor real das coisas. Outro ponto que chama a atenção no título é o “circula livremente”. Como se livro e biblioteca não precisassem de atenção, cuidado e vigilância (p.12):

BANDIDO INVADE BIBLIOTECA NACIONAL NA MADRUGADA, CIRCULA LIVREMENTE E ROUBA COMPUTADOR E MONITOR

Roubaram um laptop
e um monitor de madrugada.
Mas não sabem como foi difícil encontrar a versão original
de Macunaíma e Na estrada.
A antologia poética de Drummond era pesada
a do Pessoa, impossível de ser carregada.
Coube no laptop todas as obras
oficiais, traduzidas e raras
para serem levadas 
digitalizadas

No poema acima, vejo a preocupação do poeta com a musicalidade, as rimas, a cadência do poema. As palavras foram escolhidas e estudadas para ficarem no lugar correto, não é aleatório, nota- se o trabalho.


O próximo poema parte de uma notícia que chocou muita gente. Vocês devem lembrar do adolescente que foi amarrado em um poste no Rio de Janeiro, não? Alguns festejaram o ato de barbárie. O castigo foi inválido, o menor voltou a roubar. Leia a sábia conclusão do poeta:

MENOR PRESO AO POSTE É FLAGRADO EM NOVO ROUBO

Suponho, observando aqui,
que esses tais "justiceiros"
imaginaram ter dado uma grande lição.
Mas pelo que eu entendo,
chicote deixa marca,
mas a marca mais a raiva
do que qualquer instrução.
Quem planta violência
não colhe cidadão.

E o absurdo do nosso tempo, todo mundo colado nas redes sociais, na internet, até numa situação extrema (p.129):

FACEBOOK CRIA BOTÃO PARA SOBREVIVENTES DE DESASTRES

De baixo da lama
da terra, da lava,
da bomba, da água,
da chuva, da pedra,
do fogo, na queda,
no susto, no escuro,
no meio do medo,
uma reza em silêncio
insiste:
– Que ainda haja internet! –


Eu gostei muito desse livro, uma leitura agradável, corre fácil, ao mesmo tempo que te faz pensar. É dos poucos que tenho lido onde a literatura é genuinamente nacional. Alguns escritores brasileiros escrevem como europeus. E eu não vejo nenhum europeu escrevendo como brasileiro. Ainda se faz literatura europeia no Brasil. Isso era para ter acabado no Romantismo.

“A poesia da notícia” é também um documento histórico do nosso tempo (por causa dos títulos), mas, por causa da poesia, atemporal. Vou arriscar com essa afirmação: daqui a 20, 30, 50 anos, vai continuar atual. Thiago acertou com esse livro.

Quem é brasileiro vai se identificar e quem é estrangeiro vai aprender como é o Brasil.

Habemus poeta!

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David, Thiago. A poesia da notícia. Editora Oito e Meio, Rio de Janeiro, 2016. Páginas: 148