Resenha: “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón


Este é um dos melhores livros escritos em português. “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón é comparável ao “Livro do desassossego”, de Fernando Pessoa.

Narrar é prova de amor. O amor cobra declarações, testemunho do que sente. Fala da desesperada medida humana. Como amar sem os vizinhos saberem? Sem tornar pública a paixão que alberga os corpos na penumbra do quarto? (“Prova de amor, p.71)

Nélida Piñón passou um ano em Lisboa e acabou de voltar ao Rio de Janeiro neste mês de março de 2019. Nélida publicou este livro em terras lusas. Uma obra emotiva e transparente. Ela tem outros livros com teor biográfico, mas este é o mais íntimo e revelador.

A antologia consta de 146 textos (se não contei mal), com temáticas bastante diversas. Nélida narra em primeira pessoa, “Falar em primeira pessoa requer audácia” (“Sou múltipla”, p.197). E generosidade, completo. Nélida contou- se nesse livro. E contou a história dos seus ancestrais. Acredito nisto também, que somos multidão, carregamos na memória dos nossos gens, todos os que nos antecederam, além de carregar todas as leituras que fizemos. Ela mesma nos convida a vê- la sem véus, “vejam- me como sou” (“Eternidade”, p.97).

Nélida fala da sua infância no Rio de Janeiro, sua terra natal citada muitas vezes, dos passeios que fazia com a tia Teresa pelo centro do Rio. Teatro, cinema, o lanche na Americana. O sabor de um Rio de Janeiro mágico (em “A primeira vida”, p. 63).

“Uma furtiva lágrima” é uma aula magna sobre literatura. Nélida conta- nos sobre a sua profissão. Leia “Meu ofício” (p.18).

“Não há poesia na Morte” (p.19).

Concordo, a morte é dor. Nélida, no final de 2015, recebeu uma sentença de morte, “de seis meses a um ano”. O oncologista a sentenciou antes mesmo dos exames definitivos. Nélida pensou em escrever um diário, um resumo do seu final. Dá para entender o motivo da força deste livro, a autora acreditava que estava nos seus últimos dias, despedia- se da vida. Ela recebeu consolo dos seus dois cachorrinhos, Suzy e o falecido Gravetinho, sua paixão, seu “amuleto” (p.71), citado várias vezes. Esta obra é dedicada a ele. Nélida “contava os dias”, os que acreditava últimos. E pouca gente soube. Graças a Deus, o médico estava errado.

Viajamos com Nélida. Viagens “reais” a países e cidades; e viagens até os mitos gregos. O rastro de todas as suas leituras nos deixa uma rica bibliografia a ser anotada. “A imaginação é razão de viver.” (p.22)

A família é um assunto importante neste livro. E foi justamente um texto sobre este tema que me fez desmanchar, literalmente, em lágrimas. Eu li, reli, li de novo, e se ler agora outra vez, será pranto. É lindo, verdadeiro, mexeu com as minhas mais profundas emoções. Esta beleza chama- se “Estatuto do amor” (p.25).

Nélida é descendente de espanhóis. Em “Minhas quimeras (p.80), a autora declara o seu amor ao Brasil e reivindica suas raízes “recentes”, como qualificou no seu discurso da Academia Brasileira de Letras. No entanto, aqui meio que arrependida, talvez, finca seu pé no Brasil, terra de seus plenos direitos:

(…) Brasil agora é meu naufrágio, minha salvação, meu amor. E as raízes que brotam de qualquer rincão do país aninham- se igualmente no meu peito. E falo dele agora sem sanções, adquiri todos os direitos. Sou tão arcaica quanto quem aqui esteve no albor desta terra. (“A civilização do mundo”, p.92)

Por certo: Clarice e Nélida eram amigas. Clarice é citada nesta obra também, ela gostava de se olhar no espelho, tal como Lygia Fagundes, outra amiga de Nélida. (p.78).

Nélida fala sobre muitos outros autores. Machado de Assis, autores estrangeiros, e de João Cabral de Melo Neto (que morou na Espanha), disse que o autor de “Morte e vida severina”(clica), era “peculiar, que odiava música” (p.58); conta sobre a confissão de Carlos Heitor Cony (clica), que jamais havia amado tanto alguém como a sua cachorra Mila e ela a ele (p.60).

“Uma furtiva lágrima” será publicado no Brasil em abril pela Record:

A mais recente obra de Nélida Piñón (2019) publicada em Portugal.

Nélida fala da Bíblia, que a “deleita”. Fala no seu sentido narrativo e como ela inspira o escritor moderno (p.86). Cita Eclesiastes e Machado, que dominava estes textos. Sobre religião, Nélida declara- se “às vezes panteísta” (p.88). Eu também, só que sempre. Acho que é a definição perfeita de como sinto a vida.

Nossa melhor escritora brasileira perdeu bastante visão. Isso eu já sabia por ela mesma, mas agora contou em “Olhos” (p.167). A autora teme não poder ler nem escrever, que são a sua vida. Deus queira que isto não chegue a acontecer.

Nélida Piñón em Madri (Palace Hotel), no dia 25/11/2017. (foto: Fernanda Sampaio)

Depois de ler esta obra, estou com um livro sobre mitos gregos na cabeceira para reavivar a memória; esta, que também é mito representado pela deusa Mnemósine. A memória prodigiosa de Nélida Piñón a caracteriza, embora ela tenha dito num texto que “a memória é frágil”. (p.126). Que seria dos humanos, sobretudo se são autores, sem a memória?

A arte narrativa, além de avaliar o que foi pretérito e hoje é presente, perpetua a fala da alma, restaura a crença no que há por trás da harmonia e da discórdia. (p.71)

A obra pode ser lida sem ordem, os textos são independentes. Eu me apaixonei por muitos, li e reli, porque me seduziram completamente. Fazia tempo que eu não sentia pena ao acabar um livro.

Não esqueça que esta obra será lançada no Brasil no próximo mês de abril. Anota na sua lista, este você precisa ter, garanto que você vai gostar.

Nesta obra há muitos outros tesouros, alguns eu quero guardar só para mim. Encontre os seus também. Boa leitura!


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Nelson Rodrigues traduzido na Espanha


Uma coletânea de trinta e nove textos do pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) foi publicada na Espanha em 2018, sob o nome: “No tengo culpa de que la vida sea como es” (“Não tenho a culpa de que a vida seja como ela é”). Com tradução do consagrado artista Pablo del Barco e prefácio do escritor e jornalista Manuel Jabois, ou seja, uma edição caprichada. O livro segue a linha editorial de um volume publicado no Rio de Janeiro em 2009, pela Agora Editora; na Espanha, a editora “Días Contados” abriu as portas ao nosso doce “Anjo pornográfico”, taxado em outras épocas como “obsceno” e “vulgar”. A coletânea reúne textos publicados originalmente no jornal “Última hora” entre 1952 e 1955.


Los lectores hispanos tendrán la oportunidad de leer en el idioma de Cervantes a uno de los más irreventes escritores brasileños: Nelson Rodrigues, que era un verdadero bocazas, vamos. Utilizó el idioma de la calle para expresar de forma fidedigna el arte del pueblo brasileño.


Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo, já foram para o teatro, a TV e o cinema, como “A dama da lotação” e “Vestido de noiva”. E agora seus contos “viajaram” para a Espanha.

É uma satisfação saber que a nossa literatura foi bem tratada no exterior com uma obra assim. A pena é que ainda sejam muito escassas.

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O fomento da nossa língua e literatura no exterior nunca foi prioridade dos governos brasileiros, em todos os tempos, em toda a nossa história. Parece que a ignorância faz pensar que não seja um bom negócio. Se o Brasil fosse um país comprometido com a Educação e a Cultura pensaria diferente e já teria um Instituto como outros países. Portugal, do tamanho da Bahia, fomenta o português através do Instituto Camões gerando negócios e empregos no próprio país e no exterior. É o nosso idioma? Sim e não. Eles puxam a brasa para a variante deles. Precisamos de um Instituto com o nosso sotaque e cultura.

A Espanha tem o Instituto Cervantes, que, com sua força, conseguiu ultrapassar o português em número de falantes no mundo. Se o Brasil tivesse boa vontade estaríamos em melhor posição, o Brasil podería ter o segundo idioma ocidental mais falado do mundo, só atrás do inglês; mas o país está em franco retrocesso…e em todos os setores.

Se você quiser comprar o livro citado, ele está sendo vendido nas melhores livrarias da Espanha, é só clicar neste link.

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em “Cidade de Deus”, por Ísis Moraes


Você sabe o porquê do Brasil ser tão violento? O colonizador saiu do Brasil, mas a mentalidade da colônia permanece. Leia o irretocável e esclarecedor texto de Ísis Moraes:


 

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em Cidade de Deus

As margens da sociedade sempre reservaram aos seus inquilinos uma ampla galeria de privações. Da miséria mais sofrível à mais abjeta ausência de cidadania, despossuídos de toda sorte viram-se, no largo curso da História da humanidade, animalizar e coisificar em favor das elites. Subjugados por um poder que esteve quase sempre além de uma compreensão por vezes tolhida pela fome, pela jornada exaustiva de trabalho, pela inacessibilidade ao sistema educacional, pela dor física e moral, pelo medo e outras formas de coerção, esses condenados à marginalidade viveram quase sempre em função de um único mediador: a violência. Da mais cordial à mais dolosa, é a voz dela que os embala desde o berço até as valas onde depositam seus corpos anônimos e espoliados.

Não é de se estranhar, então, que a linguagem que lhes soa mais familiar seja aquela que ajusta a palavra “defesa” à lâmina afiada que se insurge contra a garganta do opressor. Assim, se por um lado é a voz da violência que os conduz ferozmente à servidão silenciosa, é a sua força que os liberta e os põe de novo frente a frente com a humanidade perdida. Como assinala Jean-Paul Sartre, no prefácio do livro Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, “na falta de outras armas, a perseverança da faca será suficiente” para resgatar aquilo que nunca deveria ter sido usurpado:

Encontramos a nossa humanidade do lado de cá da morte e do desespero, ele a encontra do lado de lá dos suplícios e da morte. Fomos os semeadores de ventos; ele é a tempestade. Filho da violência, extrai dela a cada instante a sua humanidade; fomos homens à custa dele; ele se faz homem à nossa custa. Um outro homem, de melhor qualidade. (SARTRE, Jean-Paul. In: FANON, 1979, p.16)

Na visão de Sartre, o temor que os explorados experimentam diante dos inesgotáveis meios de repressão do dominador surge como o responsável direto pelo furor que os inspira a reclamar o que lhes é de direito. Encurralados entre as armas que apontam contra eles e os “desejos de carnificina” que lhes tomam, acabam por explodir veementemente contra o seu antagonista, devolvendo-lhe a sua própria crueldade, que se avoluma e os dilacera. A imagem que se vê, então, assemelha-se a de mendigos “lutando, em sua miséria, contra ricos poderosamente armados”, na tentativa desesperada de fazer a violência “cicatrizar as feridas que ela mesma fez”.

No vermelho do sangue opressor que se derrama – produto de duas violências que se chocam e se equiparam – nasce a consciência de que os pobres nem sempre precisam ser “desamparados” e “dóceis”. É através da arma que muitos descobrem que também podem ser terríveis. E que a “liberdade”, forjada a quente no seio do embate, é um privilégio que também lhes cabe. A partir disso, o dominador jamais deixa de ser o oponente. Mais que isso. Frantz Fanon o coloca na alça de mira da “coisa colonizada, oprimida, espoliada”: será sempre “o homem a abater”. Isto porque o explorado é um perseguido que acalenta constantemente o sonho de comandar a caçada. E não se trata de competir com o inimigo: quer o lugar dele. As disparidades entre os dois universos não permitem, em hipótese alguma, a coexistência. Em sendo assim, não hesitará um segundo em matá-lo, sobretudo porque desde muito cedo percebe claramente que o mundo estreito e semeado de interdições que o aflige não pode ser reformulado senão pela violência absoluta, afinal, como constata Fanon, “o colonialismo só larga a presa ao sentir a faca na goela”. É, pois, uma violência em estado bruto, que só se curva frente a uma violência ainda maior. Trata-se de tomar tudo aquilo que sempre foi negado pelo poder:

A cidade do colono é uma cidade sólida, (…) iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. A cidade do colono é uma cidade saciada, indolente, cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. (…) é uma cidade de brancos, de estrangeiros./ A cidade do colonizado (…) é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. (…) é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. (…) O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se à mesa do colono, com a mulher deste, se possível. O colonizado é um invejoso. O colono sabe disto; surpreendendo-lhes o olhar, constata amargamente, mas sempre alerta: ‘Eles querem o nosso lugar’. É verdade, não há um colonizado que não sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar no lugar do colono. (FANON, 1979. pp. 28-29)

Mas só há um meio de se conseguir isso: assumir a identidade forjada pelo opressor. Esse título, porém, trará sempre consigo a marca da ambigüidade. Isto porque se por um lado o bandido é visto como nada mais que um criminoso comum pelos olhos da lei que protege os ricos, por outro será encarado como o herói de uma gente pobre e humilhada, que vê na sua insubordinação o seu próprio triunfo. Inimigo do senhor e do Estado, o bandoleiro torna-se, pois, o campeão e o vingador dos desprovidos. E uma vez figurando no imaginário coletivo popular como símbolo de protesto e rebelião social, este líder da “libertação” será amplamente admirado, ajudado e sustentado por sua gente, sobretudo porque a sua revolta – salvo nos casos de delação – não costuma atingir seus iguais, apenas os que se encontram do lado oposto da miséria:

O indivíduo que sucumbe numa peleja depois de ter abatido quatro ou cinco policiais, o que se suicida para não denunciar seus cúmplices, constituem para o povo guias, esquemas de ações, ‘heróis’. E é inútil, evidentemente, dizer que tal herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o ato pelo qual este homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é (…) dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, (…) O processo de identificação é imediato. (FANON, 1979, p. 53)

Legítimos representantes de um mundo em dissolução, os bandidos sociais não são apenas homens fisicamente aptos que, a passar fome, preferem tomar pelas armas aquilo de que necessitam. Surgem como sintomas de uma grave crise, imbuídos da missão de desagravar as injustiças. Sonhando com um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, onde a submissão não mais seja imposta como norma da vida humana – o que dificilmente sairá do plano da idealização –, quase sempre ajudam a gente humilde que os acolhe e admira. Roubando dos ricos para dar aos pobres, muitos bandidos acabam por encarnar o mito do Robin Hood, o ladrão nobre. Mas, de acordo com Eric Hobsbawm, em sendo a realidade como é, poucos deles possuirão a abnegação, o idealismo ou a consciência social para exercer esse papel. Assim, tirar dos ricos é uma certeza; dar aos pobres, nem sempre. De toda sorte, representam o produto da contrapartida da passividade geral dos necessitados e, portanto, afirmam-se como seus “legítimos” defensores.

Fenômeno universal, nascido das entranhas de todas as épocas de pauperismo e cerceamento, o banditismo social não encontrou, no entanto, seu lugar na contemporaneidade. É, pois, no dizer de Eric Hobsbawm, um fenômeno do passado: “O mundo moderno o matou, substituindo-o por suas próprias formas de rebelião e de crime” (HOBSBAWM, 1975, p. 18), diz ele, como que a reiterar que, num tempo regido pela voracidade de um capitalismo que nega em absoluto toda uma legião de miseráveis, colocando-a sob suspeição e vigilância constantes e empurrando-a cada vez mais contra as suas margens, até o sufocamento completo, não há mais espaço para delito algum que conserve o menor resíduo de nobreza.

No encalacrado mundo das grandes metrópoles, despossuídos, subnutridos, e também negros e mestiços, são as vítimas preferenciais de uma violenta política de saneamento social que visa unicamente a sobrevivência da dita sociedade “sã”: endinheirada, poderosa e branca. Os que não se encaixam neste perfil devem permanecer isolados, acuados nos becos das neofavelas, que nada mais são do que depósitos de gente, uma gente enquadrada pelo sistema como portadora de uma “identidade social maléfica” (ZALUAR, 1987). Para esses suspeitos em potencial, cruzar a fronteira que leva à “cidade ideal” significa quase sempre ser eliminado: ou será preso, ou será morto.

Essa nova forma de “colonização” acende o estopim de uma violência ainda mais apta a passar por cima de todas as barreiras interiores. Mais uma vez é ela a mediadora do conflito. E é exatamente sobre esse novo estágio de rebelião – e por que não dizer descolonização? – que a narrativa de Paulo Lins se debruça. Intitulado Cidade de Deus, o romance desnuda os conflitos existentes no tecido social do país e aponta uma arma para a cara da sociedade brasileira. Encurralada, esta já não tem outra alternativa senão enfrentar os fantasmas que ela mesma criou. Afinal, o tempo da indiferença foi “passado” e o crime nos diz, altissonante, que não há mais conciliação possível. Decretando a morte do malandro, o livro indica que o que nos identifica hoje é tão somente uma rasura e esclarece que a explosão da violência não mais nos permite pensar o país pelos moldes da “cordialidade” e da “harmonia”. O tempo presente refuta idealizações desta ordem, insurgindo-se veementemente contra a pseudotranqüilidade de uma identidade nacional forjada ao longo da história.

Nascido da truculência colonialista, o Brasil revelado por Paulo Lins parece não mais aceitar refletir imagens distorcidas pela conveniência. O seu retrato de agora é nítido e estampa sorrisos caídos de bocas sem dentes, que tramam a morte nos conchavos de becos. Nesse sentido, Cidade de Deus ilumina os labirintos de um conjunto habitacional do Rio de Janeiro criado parra “conter” não seres humanos dotados, cada um deles, de identidades individuais, mas uma massa de miseráveis forjada pelo Estado e homogeneamente marcada pelo signo da “delinqüência”. O que se vê, então, e de dentro, é um “retrato hediondo” de um Brasil que, acossado pela pobreza, pela discriminação e pela indigência, mata, assalta, estupra, trafica e se vê obrigado a fugir constantemente de uma polícia igualmente violenta e quase sempre corrupta. Mais do que nunca, viver, em Cidade de Deus, é não morrer, mesmo para aqueles que não abraçam a carreira do crime. Sim, sempre haverá os “otários”, que trabalham honestamente mesmo sabendo que jamais irão a lugar algum com a “merreca” que lhes pagam. Já os “bichos-soltos” optarão sempre por cobrar na bala o que julgam que a sociedade lhes deve:

Lembrou-se (…) daquela safadeza do incêndio, quando aqueles homens chegaram com saco de estopa ensopado de querosene botando fogo nos barracos (…). Fora nesse dia que sua vovó rezadeira, a velha Benedita, morrera queimada. (…) ‘Se eu não fosse molequinho ainda’, pensava Inferninho, ‘eu tirava ela lá de dentro a tempo e, quem sabe, ela tava aqui comigo hoje, quem sabe eu era otário de marmita e o caralho, mas ela não tá, morou? Tô aí pra matar e pra morrer.’ Um dia após o incêndio, Inferninho foi levado para a casa da patroa de sua tia. (…) Ficava entre o tanque e a pia o tempo todo e foi dali que viu, pela porta entreaberta, o homem do televisor dizer que o incêndio fora acidental. Sentiu vontade de matar toda aquela gente branca, que tinha telefone, carro, geladeira, comia boa comida, não morava em barraco sem água e sem privada. (…) Pensou em levar tudo da brancalhada, até o televisor mentiroso e o liquidificador colorido. (CD, p.23)

Como se pode notar, o “favelado” também lança sobre a cidade dos ricos aquele mesmo olhar invejoso que deseja arrancar dela tudo o que ele nunca teve, e sobre os seus donos aquele mesmo ódio que ambiciona exterminá-lo. Se o bandido social não mais existe nas modernas sociedades, os resquícios de seu levante ainda permeiam o cotidiano daqueles que se revoltam frente às injustiças. A sua carabina pode ter mudado de mãos, mas o alvo ainda é o mesmo. Desse modo, a bala freqüentemente vem a substituir a palavra que o “bicho-solto” é obrigado a engolir a seco: Falha a fala. Fala a bala. (CD, p. 21)

Mas o caminho trilhado por essa neodescolonização é ainda mais sangrento, sobretudo porque tem de lidar com um esquema muito bem montado de alienação, que, por vezes, desvia o foco da violência do explorado, fazendo-a recair sobre ele próprio. Trata-se de um jogo, que leva o oprimido a incidir numa sangrenta guerra contra os seus. Retomando Fanon, exposto a tentativas diárias de morte, à fome, à expulsão do quarto não pago, à falta de oportunidade de trabalho digno, à bala perdida que cruza os becos em busca de um corpo, o espoliado chega a ver seu semelhante como um inimigo implacável. E nessas circunstâncias o assassinato é só mais um passo. O próximo, talvez. Além disso, no mundo do crime urbano, diferentemente do que ocorre no universo rural do banditismo social, proteger os inocentes já não é mais um requisito moral. Se os “bichos-soltos” o fazem, é puramente por interesse. E num ambiente em que “é mais seguro atirar primeiro e fazer perguntas depois”, este costuma ser altamente volúvel. Por isso, entre a arma e a sina que ela terá de cumprir, o inocente é quase sempre um obstáculo a ser derrubado em favor da demanda individual.

Em Cidade de Deus, Paulo Lins evidencia o horror de um campo de batalha onde não apenas traficantes se entrematam e espalham o terror entre os seus irmãos “favelados”, transformando-os em vítimas e cúmplices do seu ódio, mas onde homens simples também se revelam capazes de assassinar cruelmente, e por motivos muitas vezes tomados como banais. Contudo, alerta Sartre, que ninguém se iluda: “não se creia que um sangue demasiado ardente ou desventuras da infância lhe tenham dado para a violência não sei que gosto singular: ele se faz o intérprete da situação, nada mais”. E não se trata de defender o crime, mas apenas de não submetê-lo às leis sumárias da conivente justiça das elites. É preciso entender que, em um contexto miserável, ser bandido quase nunca é uma opção. É, antes, uma estratégia de sobrevivência. Por isso, em Cidade de Deus, não há “bandidos” nem “heróis”, há homens, mulheres e crianças lutando para resgatar a humanidade usurpada.

De qualquer modo, é este cenário caótico, movimentado pela antiética do lucro que rege as sociedades capitalistas, que vai minando vorazmente os poucos resíduos do banditismo nobre. Se num primeiro momento Inferninho reparte o butim igualitariamente entre o bando, posteriormente Zé Miúdo não hesitará em matar um comparsa para ficar com a sua parte do roubo. Se em dado momento um “bicho-solto” pede aos seus comandados para só matar para não morrer, mais adiante assassinato será a palavra de ordem para ganhar prestígio. Se um marginal-malandro como Pardalzinho pede pela vida de inocentes e pela não violação das mulheres em certa fase do romance, depois da sua morte Zé Miúdo não pensará duas vezes em matar o avô e estuprar a noiva de Zé Bonito, um “otário” que, frente à injustiça cometida, abraçará a carreira do crime ressuscitando e encarnando, embora não por muito tempo, um dos tipos mais significativos que se inserem na linhagem dos bandidos sociais: o vingador.

Para se transformar no pesadelo de um dos mais cruéis criminosos de Cidade de Deus, Zé Bonito – até então trabalhador honesto, homem pacato, de boa família e conduta – se alia a Sandro Cenoura, traficante da região que disputa com Miúdo a liderança das bocas-de-fumo. Revoltado, irá firmar seu direito de ser respeitado pela luta declarada e se insurgirá para constituir a exceção numa comunidade em que os senhores do tráfico substituem o Estado.

Bonito manuseou a pistola 45 com a agilidade que adquirira no tempo em que servira na brigada de pára-quedistas do exército. (…)/ O volume da arma alertou os amigos:/ – Vai aonde?/ – Vou matar aquele desgraçado!/ – Meu irmão, tu não pode ir lá sozinho não, rapá! O cara é matador! Esquece isso! (…) Tu é um cara pintoso, tem tudo pra se dar bem, não entra numa de bandidagem, não…/ Bonito não dava ouvidos. Percorreu toda a rua do Meio, (…) entrou por duas vielas a passos largos, na terceira diminuiu as passadas, tirou a arma da cintura, engatilhou-a e entrou na viela (…) onde Miúdo costumava ficar. Avistou seu inimigo e mais três quadrilheiros, apontou a arma e atirou seguidamente./ Miúdo riu fino, estridente e rápido e devolveu os tiros (…), os outros dois também atiraram e acompanharam o estuprador, o terceiro tentou trocar tiros com o vingador e foi atingido fatalmente na testa./ Bonito aproximou-se do cadáver (…) colocou o pé esquerdo em cima da cabeça, o direito em cima da barriga e gritou:/ – Esse é o primeiro! Quem quiser seguir esse desgraçado vai ter o mesmo fim desse aqui! (CD, pp. 313-315)

Como todo bandido social, o destemido rival do traficante Zé Miúdo (que também não deve ser condenado nem olhado de esguelha pelo leitor, já que é tão “vítima” da situação quanto seu adversário) ganha o apoio inequívoco de sua comunidade: ferido em combate, será acolhido, tratado e amparado pelo povo do lugar, que o respeita e reverencia não só pela bravura, mas também por se configurar como um restaurador da moralidade que o tráfico apagou. Contudo, esse mesmo justiceiro não demorará a perceber que “Onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”. (HOBSBAWM, 1975, p. 56)

Isto porque, ao pôr em curso o programa de sua “descolonização”, Zé Bonito desencadeou uma verdadeira guerra em Cidade de Deus. Só não imaginava que o desagravo de sua injustiça solaparia os últimos sinais de um banditismo que inicialmente mostrara-se nobre, mas que logo se perderia nas trincheiras do crime. Por várias vezes, Bonito tentará honrar seus princípios, que em vários aspectos se igualam aos que regem a carreira do vingador nobre. Nunca matar, a não ser em legítima defesa ou por vingança justa, será o principal deles. E também o primeiro a tropeçar nas valas abertas pelo tráfico.

A partir daí, o Zé Bonito que, num primeiro instante, estranha as gírias dos marginais, que não usa drogas, que se recusa a concordar com a arregimentação de crianças para o tráfico por acreditar que o lugar delas é na escola, que proíbe a violação de mulheres e que não se esconde da polícia por não se achar um delinqüente se verá obrigado a liberar os estupros e assaltos na área do inimigo e a permitir que crianças tenham seus crânios estourados pelos fuzis dos traficantes que se arriscam a enfrentar. E como se isso não bastasse, consumirá desesperadamente a cocaína que tanto renegou. Entretanto, este bandido social pós-moderno, assim como seus “antepassados”, jamais deixará de lamentar o destino que o levou a compactuar com a instauração daquela “febre de morte” entre os homens.

Sentado num banco, as lágrimas se destroçavam no chão de cimento cru. (…) Era um bandido, um matador, um formador de quadrilha, um desencaminhador de menores. E não fora para isso que aprendera a orar quando criança, não fora para isso que sempre tinha sido o melhor aluno na escola, não fora para isso que se resguardara das amizades de rua. O curso superior em educação física havia ido para a casa do caralho, assim como a lua-de-mel com sua amada, depois de testemunhar o pênis de Miúdo na vagina dela feito retroescavadeira, o corpo do avô ensangüentado, a casa cheia de buracos de balas, a mãe de Filé com Fritas recolhendo os pedaços da cabeça destroçada do filho no asfalto quente. As lágrimas avolumaram-se. (…) A noite foi em claro. (CD, pp. 346-347)

Na reflexão de Bonito, a constatação de que um bandido, mesmo determinado a não dobrar a cerviz, não consegue fugir tão facilmente à lógica da vida numa sociedade minada pela exploração se desnuda violentamente. Depois disso, tendo cumprido, ainda que atropelado pelos percalços do crime, quase toda a sina do vingador clássico, só lhe restava o único fim destinado aos emissários do banditismo social: a morte por traição; já que, a exemplo do que afirma Hobsbawm, nenhum membro decente da comunidade auxiliaria as autoridades – sejam as do tráfico, sejam as do Estado – contra bandoleiros de sua estirpe.

O viciado olhou para trás, para os lados; não vendo ninguém, disparou três vezes nas costas de Bonito, que ainda se virou, apontou o revolver na tentativa de matá-lo. O viciado deu-lhe mais um tiro. Zé Bonito caiu. (CD, p. 375)

Mas a morte de Zé Bonito não legará aos moradores de Cidade de Deus um exemplo de coragem e honra a ser seguido. O tempo do banditismo social que inspira a admiração das massas passou. As páginas nada conciliatórias do romance de Paulo Lins não farão sucessores para este vingador. Elas vieram pelo crime. Para dizer que do ventre dele só nascem “anjos”, aqueles que cada vez mais cedo virão para cobrar da sociedade sua impagável conta.

** Este artigo está publicado em: BOTELHO, Marcos (org). Seis Passeios por Cidade de Deus. Feira de Santana: UEFS, 2007.


Ísis Moraes Ramos é jornalista e editora do Jornal Tribuna Feirense. isis.m.ramos@bol.com.br

Resenha: “Memorial de Aires”, de Machado de Assis


(…) Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem se pensa nada. (p.66)

Com o preceito fundamental acima, o da democracia e o direito de expôr o que se pensa, vamos à obra, “Memorial de Aires, escrita em forma de diário entre 1888 e 1889, enquanto Machado matava o tempo no barco durante as travessias de Petrópolis, em horas mortas. Ele mesmo explica no prólogo, que nessa época, seu livro de trabalho era “Esaú e Jacó”. Ler Machado é sempre um prazer, uma delícia! Ele é o santo graal das letras brasileiras, único e inimitável, faz o difícil parecer fácil, um mago. Nao é à toa que ele era conhecido como o “bruxo de Cosme Velho”.

A leitura passou massageando as minhas retinas cansadas de ler tantas sandices nestes últimos tempos nas redes sociais. Por certo: #EleNão! Fiz alguns links com o presente, Machado atualíssimo.

“Memorial de Aires” conta as memórias do Conselheiro Aires (ele é o narrador- personagem), um diplomata que retornou do exterior ao Rio de Janeiro há um ano.

Creio que todo imigrante, até mesmo os diplomatas cheios de regalias, facilidades e privilégios, muito diferente das dificuldades do imigrante comum, temem a volta depois de uma estância longa fora de casa. Alguns sentem- se até estrangeiros no próprio país. Não foi o caso do Conselheiro, depois de mais de trinta anos na Europa:

(…) Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois, acabei. Certamente, ainda me lembram coisas* e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudade por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei. (p.9)

Aires é viúvo, sua esposa faleceu em Viena e ele não a levou para o Brasil,  por algo místico, espiritual, deixou a cargo do destino (p.13):

Os mortos ficam bem onde caem (…)

– Quando eu morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela virá ao meu encontro.

Você acredita que temos um destino predeterminado ou somos responsáveis por tudo que nos acontece? Uma mistura de ambos? Acredita em outras vidas ou a morte é o fim de tudo?

A irmã de Aires, Rita, o convida para celebrar o seu primeiro ano de retorno… no cemitério! A principal e mais dolorida perda do imigrante: a família. Primeiro a convivênvia, e depois, os entes queridos, de fato. Muitos só podem revê- los dentro de um jazigo. Esse pensamento é horrível, mas é verdadeiro e nenhum imigrante está preparado para ele. No caso do diplomata, perdeu os pais e o cunhado. O futuro é longe demais, parece distante, mas chega.

No cemitério, além das lágrimas de Rita, também há espaço para a fofoca. Típico, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Há gente que invade espaços pessoais e familiares alheios, inclusive velórios,  só para espiar e confabular contra a vida do outro em seu momento de maior fragilidade. Acredite, há gente ruim assim, dou fé. É fato que há muitos espíritos inferiores pululando ao nosso redor, mas nunca impunes, tenho certeza. Essa irônia machadiana tão certeira e catártica, muito mais sutil que a minha, isso é certo.

Os irmãos espiam uma moça bonita perto de um jazigo e Rita reconhece a mulher que foi casada com um médico, a viúva Noronha, “filha de um fazendeiro da Paraíba do Sul, o Barão de Santa- Pia.” (p.11)

A viúva Noronha, ao contrário de Aires, transportou “os restos” (essa é uma expressão muito espanhola) do marido falecido em Lisboa para o Rio de Janeiro. Machado devia ser um sujeito curioso em pessoa. No texto, ele caçoa do nome da viúva pela boca de Aires: Fidélia. Os irmãos fizeram uma espécie de aposta: Aires disse que a viúva casaria de novo, e Rita, que Fidélia continuaria sozinha. Fidélia vem do adjetico latino “fidelia”= “fidelidade”. O diplomata iria tentar conquistar a senhora, viúva fiel e convicta.

A política separando pessoas desde sempre, na vida real e na ficção; aliás,  literatura é imitação da realidade, portanto, não vou mais fazer distinção, vou embolar tudo mesmo, porque a literatura é vida, e vida é literatura, são a mesma coisa e ponto final. Os autores sempre contam a história de alguém, ainda que essa história seja apenas fruto da sua imaginação.

Voltando à política e ao amor: o romance de Fidélia é bem shakesperiano. Seu pai e marido eram inimigos políticos. O pai de Fidélia a levou para uma fazenda para separá- la de Ricardo e ameaçou expulsá- la de casa se desobedecesse. A moça começou a adoecer, não parava de chorar e não queria comer. A mãe, com medo de alguma “moléstia” (lembrei do professor Ernani Terra, conversamos sobre esta palavra, que na Espanha é utilizada para qualquer espécie de incômodo, mas no Brasil é usada para doenças graves)…então, a mãe, preocupada, começou a intervir, mas o pai continuou firme e disse que a filha poderia até morrer ou ficar doida, mas  que não permitiria a mistura do seu sangue  com os dos Noronha. “Bonzinho” o pai.

A moça realmente ficou gravemente doente. Com a intervenção da mãe, o pai cedeu em parte, mas nunca mais quis ver a filha; e o pai de Ricardo, o filho. O casal ficou junto, mas a felicidade durou pouco com a morte inesperada de Ricardo em Lisboa. Aires é cínico e cruel, chega a questionar se valeu a pena brigar com o pai por um amor tão fugaz, que “se aposentou na morte”.  Nesse momento, já comecei a pegar abuso de Aires.

Não há nada mais tenaz que um bom ódio (p.36)

Mas não posso negar, que Aires tem uma personalidade autêntica, espirituosa, engraçadinha e realista/prática: Quando eu morrer podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem ele, e a minha pele com o resto; não é nova, não é bela, não é fina, mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rústico. (p.44)

Com todo esse drama, essa paixão quase mortal, será que Fidélia continuará fiel ao seu defunto marido ou cairá na lábia de Aires, que fez uma aposta com a irmã Rita?

Um verso não saía da sua cabeça “I can give not what men call love” (“Eu não posso dar o que os homens chamam de amor”). Há canalhas assim, tanto homens quanto mulheres, que divertem- se machucando o outro com planos premeditados e extremamente daninos. Aires chamou Fidélia de seu “objeto de estudo” e cogitou a ideia de colocar lenha na fogueira e que ela não se reconciliasse com o pai.

Aires vai à festa de bodas de prata do casal Aguiar só para ver Fidélia. Tanto o casal, quanto Aires e Fidélia, não tiveram filhos, tal como Machado e Carolina. Aires nunca os quis ter, ao contrário dos demais.

É chocante ler as palavras “mucama”  e “tronco” (p.32), em “Memorial de Aires”, testemunhando o seu tempo. Aires cita várias vezes a iminente abolição dos escravos  e a possível república. O Rio de Janeiro já foi uma “corte”, só que sem o glamour das cortes europeias, mas igual de cruel.

Que coisa… não me acostumo com a história da escravidão no Brasil e que não tenha sido devidamente reparada até hoje, ao contrário. Mas dá para entender o motivo conhecendo o perfil da metade, pelo menos, da população brasileira, apoiando e aplaudindo um candidato à presidência segregacionista, além de outros tantos qualificativos que vão em contra aos princípios de decência, ética e humanidade. Sei que todos estão cansados da violência e corrupçao, só que um remédio pior que a doença, não é a solução. A via militar é a pior escolha.

Machado, ainda bem, foi bem crítico irônico contra a escravidão e a hipócrita sociedade carioca. Corajoso, não omitiu- se como anda fazendo a nata erudita do Brasil. Machado foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. A omissão dos bons ajuda a criar monstros. As pessoas começam a pensar mal e errado, sem ter pautas confiáveis, agarram- se a salvadores da pátria. Nosso país é composto por poucos e maus leitores (e feitores). A maioria é leitor de manchetes de meios de procedência duvidosa e fake news.

Voltando ao romance… há um personagem muito citado, “Tristão”, que é afilhado do casal que comemorou as bodas de prata, lembra? Ainda menino, foi morar em Lisboa com os pais a contragosto da madrinha, D. Carmo. Formou- se em Medicina e esqueceu dos padrinhos durante muitos anos, o que os entristeceu bastante. Já doutor, retorna ao Rio. O nome do personagem nos remete à história de “Tristão e Isolda”, uma lenda medieval de um amor trágico. Tristão e Fidélia são os dois filhos “postiços” do casal. Tenho que concordar com Tristão (p.78):

– A gente não esquece nunca a terra em que nasceu, concluiu com um suspiro.

Tenho nacionalidade portuguesa (raízes familiares) e em vias de obter a espanhola (por residência), serei uma mulher multinacional, mas o sentimento de pertencer, sem dúvida, é por minha terra. Aires continua o pensamento do moço, concordo plenamente:

(…) a adoção de uma nacionalidade é ato político, e muita vez pode ser dever humano, que não faz perder o sentimento de origem, nem a memória do berço.

Em um sonho, Fidélia vê o sogro e o pai, já falecidos, reconciliando- se (p.70):

A morte os reconciliara para nunca mais se desunirem: reconheciam agora que toda a hostilidade não vale nada, nem a política nem outra qualquer.

Pois é…essa briga política no Brasil, que já chegou a extremos com falecidos e feridos, tem que acabar. Não vale a pena, é preciso bom senso e respeito, mesmo que a opinião alheia nos machuque. É um principío básico da civilidade e da democracia, o diálogo, violência nunca!

Lá pela página 80, já ansiosa para ver se o romance entre o idoso Aires e a jovem viúva iria acontecer, se ele seria o alcoviteiro de Fidélia e Tristão, ou se iria acontecer um triângulo amoroso, ele brinca com o leitor dizendo que está com os olhos cansados, que “velhice quer descanso” e  diz que pensa parar de escrever o diário. Mas, claro, continuou.

Amigos e amigas, não esqueçam que Machado era um escritor realista. Só vou dizer que o final é feliz e triste, como a vida mesmo.

Abaixo, a edição portuguesa lida:

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Assis, Machado de. Memorial de Aires, Cotovia, Lisboa, 2003. Páginas: 177

* Fiz algumas adaptações à nova ortografia, exemplo “cousa= coisa”.


Machado cita autores e livros ( e música, Wagner). Anota, são dicas de leitura do grande mestre: “Fausto”, de Goethe; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; Percy Shelley, poeta, marido de Mary Shelley, de Frankstein e William Thackeray, escritor inglês, de “Vanity Fair” e outras tantas obras famosas. Podíamos aqui fazer uma maratona “Thackeray”, quem se interessar me escreve, que a gente encontra uma forma, meu Instagram: @falandofernanda

Até a próxima!

 

Congresso literário na Espanha contará com a presença de Nélida Piñón e Domício Proença


O I Congresso Internacional de Literatura Brasileira em Salamanca, na Espanha, contará com a presença de dois imortais brasileiros: Nélida Piñón e Domício Proença, ambos já foram presidentes da Academia Brasileira de Letras, o atual é Marco Lucchesi. Esse primeiro congresso literário dedicado à nossa literatura, homenageia à Nélida Piñón, as linhas de pesquisa estão voltadas para a sua obra.

Nélida Piñón é filha de espanhóis e tem uma ligação forte com o país de Cervantes. Ela é a autora brasileira mais lida e reconhecida no país, inclusive ganhou o prêmio “Príncipe de Asturias” (2005), além de ser a melhor escritora do Brasil, na minha opinião. Ah, e não deixem de ler “A república dos sonhos”, uma obra- prima!

E quem já não estudou com algum livro de Domício Proença Filho?! O autor tem livros didáticos, de poesia, ensaios, contos, já escreveu para cinema e televisão.

Vamos aos dados importantes:

O Congresso acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de novembro de 2018, em Salamanca.

Quem quiser apresentar uma comunicação, pode enviar a proposta até o dia 3 de setembro, um resumo com até 120 palavras ao e-mail: literaturabrasileira@usal.es, em espanhol ou português. O custo é de 80 euros para comunicantes e 60 euros para estudantes.

Para todas as demais informações e dúvidas, não duvide em escrever para Esther, que vai te ajudar com tudo o que precisar. Clica aqui.

Manuel Bandeira e Drummond no Parque dos Poetas em Portugal


Alguns sonhadores pensaram que seria uma boa ideia criar um parque onde a poesia fosse a grande atração. E realmente foi uma excelente ideia! Alguns dos idealizadores do parque:  Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras (1985-1989), o poeta e escritor David Mourão-Ferreira e o escultor Francisco Simões.

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Poesia com vistas ao mar. Esse é o labirinto.

O Parque dos Poetas é grande, tem “22 hectares de área verde. Quarenta artistas plásticos. Sessenta esculturas dos maiores poetas de sempre. Um museu ao ar livre. Equipamento desportivos, infantis, lúdicos. O magnífico Templo da Poesia. O único parque de poesia no mundo está em Oeiras.” É o único parque do mundo dedicado só à poesia!

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O parque tem um edifício para exposições. No último andar, um mirador com vistas ao mar e uma sala de leitura com alguns livros, onde também se pode tomar um cafezinho e descansar.

Nele estão representados os 20 maiores poetas portugueses do século XX, 13 trovadores e poetas do Renascimento e 27 esculturas de poetas.

As  informações acima estão num planfleto informativo/mapa, que peguei quando visitei o parque nesse mês. Quem assina o texto é o atual presidente da Câmara, Paulo  Vistas. Ele esqueceu de mencionar os poetas de outros países lusófonos. Brasileiros há dois: Carlos Drummond de Andrade, que vai ficar para uma próxima visita (o parque é gigante, não deu tempo!) e Manuel Bandeira, que tem um cantinho muito especial no parque.

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O pernambucano Manuel Bandeira (Recife, 19/04/1886- Rio de Janeiro, 13/10/1968) foi poeta, cronista, tradutor, imortal da ABL (1940). Dele é o famoso poema “Vou- me embora pra pasárgada”:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

 E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Pasárgada foi uma cidade persa que não existe mais, hoje é território do Irã; um lugar, ironicamente, não muito conhecido por ser pacífico. A Pasárgada de Bandeira é mais idílica.

Escultura

Versos de Manuel Bandeira no Parque dos Poetas (Portugal)

Quem criou o conjunto de esculturas de Manuel Bandeira no Parque dos Poetas foi também um pernambucano, o fantástico Francisco Brennand (11/06/1927):

Francisco Brennand

O artista plástico pernambucano Francisco Brennand (Facebook)

Conheça um pouquinho mais do parque no vídeo abaixo (é curtinho). No chão do monumento à Bandeira está o poema “Canção das duas Índias”:

Entre estas Índias de leste
E as Índias ocidentais
Meus Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medeias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela d’alva
Longínquos como Oceanias
— Brancas, sobrenaturais —
Oh inacessíveis praias!…

Para a web do Parque dos Poetas, clique aqui.

Como foi a vida de Elis Regina?


Ontem em Madri, assisti o filme “Elis”, de Hugo Prata. Uma sessão gratuita promovida pela Fundação Cultural Hispano- Brasileira e a Embaixada do Brasil, foi a XI NOVOCINE- Mostra de Cine Brasileiro (encerra hoje, 29 de novembro). A sala do “Palacio de la Prensa”, um cinema que fica na Gran Vía, centro da cidade, estava lotada.

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Um resumo do filme baseado na vida de Elis:

Elis Regina (Porto Alegre, 17/03/1945- São Paulo, 19/01/1982), viaja com seu pai de Porto Alegre até o Rio de Janeiro, para gravar um disco, só que não deu certo. Teriam que esperar alguns meses, mas não havia dinheiro, não tinham recursos para manter- se, precisavam de dinheiro urgentemente. O pai, sempre apoiando a filha, mas com os pés no chão, sugere que voltem ao sul. Elis insiste, quer ficar alguns dias no Rio, o pai acaba cedendo. Vai a uma apresentação de Nara Leão em uma casa de shows noturna no Beco das Garrafas; e assim, acaba conhecendo Miéle, o primeiro a dar- lhe uma oportunidade. Depois conhece o sócio deste, Ronaldo Bôscoli, que a assedia e ela o repudia.

Elis começa a ficar famosa depois que ganha um festival com a música “Arrastão”. O pai começa a administrar o dinheiro que entra, Elis irrita- se, não quer ser mais controlada. E o pai, magoado, volta para o Sul. Os filhos são ingratos, realmente.

Elis faz sucesso no Brasil inteiro e começa a apresentar um programa na TV com Jair Rodrigues. Inaugura a MPB, sai do gênero Bossa Nova, comum na época. Ela era muito agitada para ficar sentadinha num banco cantando algo intimista. Ela mexia os braços, dançava.

A Pimentinha começa a fumar, a beber e a usar drogas. No filme, quem oferece droga a primeira vez, a mescalina (a droga que Sartre usava), é Lennie Dale, um coreógrafo americano. Ele também a ensina dançar. Lennie morreu em consequência da AIDS em Nova Iorque quando tinha 57 anos (essa parte não aparece no filme, leia aqui.)

Bôscoli, produtor musical e  incentivador da Bossa Nova, é super mulherengo, tem casos com todas as cantoras da época, Nara Leão e Maísa, por exemplo. Acaba casando- se com Elis, mas é um péssimo marido e pai, totalmente irresponsável e descomprometido com o casamento e a paternidade. Deixa Elis e o bebê João sempre sozinhos. O casamento vai mal e Elis tem um caso com Nelson Motta, produtor de seus discos.

O Brasil vive a ditadura militar e com ela, a censura. Muitos artistas estão exilados,  presos e são torturados. Um dia, os militares batem à porta de Elis e pedem para que ela os acompanhe. Ela sofre uma espécie de interrogatório muito intimidante, o militar pergunta por seu filho e também pergunta porque ela chamou de “gorilas” os militares brasileiros quando estava em Paris (ela fez muitos shows no exterior). Para provar que não é comunista (mas era) aceita fazer um show para os militares que foi emitido em rede nacional.

A classe artística não perdoa e nem o seu público. Elis é vaiada e Henfil publica uma caricatura enterrando a cantora. Talvez aí ela tenha começado uma espécie de processo depressivo.

Betinho, irmão de Henfil, foi torturado e exilado. Depois houve uma reconciliação entre a cantora e o cartunista, Elis gravou “O bêbado e o equilibrista” (1979) e mostrou para Henfil. A letra é altamente “subversiva”, mas os censores, burros que deviam ser, não souberam interpretar e deixaram passar. A letra pede a volta do “irmão de Henfil”, entre outras passagens bem explícitas, fala de “Clarices e Marias que choram no solo do Brasil”.

A cantora divorcia- se de Bôscoli e casa com César Camargo Mariano, pianista. Tiveram dois filhos, Pedro e Maria Rita. César Camargo parece ser um bom marido, mas não aguentou conviver com Elis sempre bêbada, no limite. Acabou indo embora.

Elis é muito exigente consigo mesma, exige perfeição e parece viver num constante processo de ansiedade. Ela vive insatisfeita com seus discos, gravadoras e mídia. Ela quer desvincular- se disso tudo e ser livre, fazer só o que deseja.

O final todo mundo já sabe: Elis faleceu com 36 anos. Na versão do filme, Elis embriagada e chorando telefona para seu advogado para pedir socorro, mas desmaia. O homem corre para o apartamento, as crianças estão brincando no playground com a babá. E ele a encontra falecida no quarto ( a cena só sugere, não vemos nada).

Divulgaram na época “parada cardíaca”, e logo depois, um laudo com morte provocada por overdose de cocaína. Elis deixou os filhos com 11, 6 e 4 anos.

No Brasil, “Elis” foi lançado no ano passado. Veja o trailer do filme:

Menção honrosa para a atriz mineira Andreia Horta, que interpretação sublime! Ela conseguiu todos os trejeitos de Elis, fantástica atuação!

O filme é bom e a trilha sonora dessas que fazem qualquer imigrante exilado chorar. Consegui apaixonar- me tardiamente, é verdade, por Elis. Acho que consegui compreender perfeitamente tudo o que aconteceu com ela. Nunca usei drogas, não bebo, não fumo, mas posso entender o porquê dela ter caído nessa; em parte, porque era intensa demais, queria viver tudo, ter tudo, sem limites e isso é impossível, não soube administrar. Era uma Pimentinha mesmo. Humana, muito humana.