Uma resenha e algo mais: “O mal- estar global”, de Noam Chomsky


Já ouviu falar do “efeito borboleta”? Esse efeito faz parte da “teoria do caos” do metereologista e filósofo americano Edward Lorenz. O mundo está ligado em todos os seus aspectos, é como se tivesse um fio elétrico invisível interligando tudo. Lorenz diz que, por exemplo, se uma borboleta bater as asas no Brasil, isso pode provocar um tufão no Japão. Ler Chomsky nos aproxima dessa teoria mostrando que somos responsáveis pelo mal- estar no mundo atual.

O americano Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) é o “pai da linguística moderna”, também é filósofo e ativista de esquerda. Esta obra, El malestar global, conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia, recém editada na Espanha, reúne doze entrevistas de Chomsky com suas preocupações da atualidade: o aquecimento global, o armamento nuclear, o ascenso do terrorismo islâmico, os conflitos no Oriente Médio, o mal- estar social provocado pelas políticas econômicas, a desigualdade social e Donald Trump. Também conta sobre a sua infância em Nova York e  a relevância de uma livraria de livros usados para a sua formação. David Barsamian é o radialista americano de origem armênia que o entrevistou.

A intenção de Chomsky com essas entrevistas é chamar a nossa atenção, pois precisamos fazer uma mudança radical no nosso modo de vida, na forma como nos relacionamos com o outro e mudar os nossos hábitos de consumo. Nós criamos problemas que não estamos conseguindo solucionar. Falo no plural, já que, em maior ou menor grau, todos nós temos a culpa.

Na entrevista número nove (p.127),  com o título de “À uma sociedade melhor” (Cambridge, Massachussets, 11/03/2016), Chomsky fala da América do Sul, da Venezuela e do seu fracasso, uma mistura de corrupção e incompetência, e especificamente do Brasil, foco desta resenha. No próximo domingo o Brasil terá, possivelmente, a sua eleição mais complicada, já que, tudo indica (salvo aconteça alguma surpresa), a maioria dos eleitores preferem um candidato com ideias fascistas e totalmente imorais. E por que eles preferem isso?

(…) Se não abordarmos as raízes do problema, surgirá algo pior que as mesmas causas. (p.115)

Corrupção e incompetência são problemas comuns em toda a América Latina de um modo geral. Veja como o autor compara o Brasil com os Estados Unidos. O primeiro estancou no subdesenvolvimento e o segundo é um dos mais ricos do mundo (p.129):

Trata- se de uma região muito rica, com países que deveriam ser prósperos e desenvolvidos. Faz um século considerava- se o Brasil “o colosso do sul”, em analogia com o colosso do norte.

Chomsky diz que o Brasil näo desenvolveu- se por causa de uma principal razão interna (p.129):

É comum tratar- se de países dominados por pequenas elites europeizadas, maioritariamente brancas, muito poderosas e vinculadas economicamente e culturalmente ao Ocidente. Ditas elites não assumem a responsabilide de seus próprios países, o que conduz a uma opressão e uma pobreza assustadoras. Aconteceram tentativas de romper esta pauta, mas foram esmagados.

E continua (p. 129/130):

No entanto, durante os últimos quinze anos vários países- Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai e Argentina, tentaram abordar o estes problemas em que se denominou “guinada à esquerda” (em espanhol, “marea rosa”), com resultados diferentes. Quando se alcança algo de poder, acontece uma enorme tentação de colocar  a mão na caixa e viver como as elites, algo que minou a esquerda várias vezes. A Venezuela é um exemplo que serve de paradigma. O Brasil, outro. O Partido do Trabalhadores teve uma excelente oportunidade de mudar não só o Brasil, como toda a América Latina. Conseguiu algumas coisas, mas perdeu outras.

No período do Lula (p. 130):

(…) o Brasil, em muitos aspectos, era um dos países mais respeitados do mundo. O próprio Lula era muito respeitado, também por mim, tenho que dizer. Creio que é um líder mundial muito honroso. Sorpreenderam- me as acusações de corrupção e desconfio um pouco delas. Desconheço até que ponto é um golpe de Estado da direita e até que ponto se trata de algo real. As acusações que se fizeram públicas não são muito convincentes. De modo que esperaremos para ver o que acontece. Não creio que por agora tenham esclarecido os fatos. Mas é certo que a corrupção era muito grave.

Tal como Chomsky, eu creio que a prisão de Lula foi bastante duvidosa. E já minha opinião: foi orquestada para tirá- lo dessas eleições, pois seria um claro vencedor. Se o Brasil fosse um país sério, Lula, possivelmente, estaria livre. Nunca vi a “Justiça” brasileira trabalhar tão rápido, alguém já?

Ninguém compactua com a corrupção do PT, somos conscientes que muitos membros do partido erraram. Mas, foram punidos, inclusive alguns até mais da conta.

Pense bem em quem você vai dar carta branca governar o nosso país, no domingo (21/10), eleição de segundo turno no Brasil. As duas opções são:

  • Fernando Haddad, um professor universitário socialista, advogado, já foi Ministro da Educação, prefeito de São Paulo e tem experiência suficiente para assumir a administraçäo do Brasil. Casado há trinta anos, ficha limpa, respeita todas as pessoas e quer proteger a parte mais frágil da sociedade. Com um excelente plano de governo (já determinado e que podemos cobrar depois), com foco na Educação e Trabalho, e ainda a extinçäo da pobreza, também com a isenção de impostos para quem ganha até cinco salários mínimos. Progressista e com uma vice  jovem e gente finíssima, Manuela D’ávila. Teve o seu curto tempo de campanha infestado de fake news,  notícias falsas comprovadas e proibidas pelo TSE. Quer manter as empresas e o funcionalismo público. É contra a legalização de porte de armas e quer delegar mais tarefas à Polícia Federal, pretende coordenar todas as polícias para combater as redes criminosas em todo o Brasil (como funciona na Europa), #Haddad13 ou…
  • …um ex- militar expulso do Exército por “indisciplina” (algo mais que isso), parlamentar há 29 anos, deputado irrelevante em uma das cidades mais violentas do Brasil, o Rio de Janeiro, mas nunca fez nada. Prega a “moral e bons costumes”, mas faz justamente o contrário. Escondeu patrimônio, trocou a esposa de quarenta por duas de vinte, as conheceu no seu ambiente de trabalho (uma delas fugiu para o exterior ameaçada, segundo declararam amigos da mesma na Europa). Pretende vender o Brasil ( por isso o mercado financeiro aquece quando ele sobe nas pesquisas, os especuladores doidos para comprar nosso patrimônio público a preço de banana). Quer liberar armas para a população, inclusive para crianças, disse que os filhos começaram a atirar com cinco anos. Foge de debates, justificando problemas de saúde, mas faz lives diárias na internet, por horas, sem nenhum problema. O seu “plano de governo” é inexistente, obscuro e indefinido. O pouco que sabemos, como dar aulas virtuais para crianças, ao invés de irem para escola, é, no mínimo, patético. Sem esquecer dos ataques fascistas às minorias, da incitação à violência e ainda o seu vice, que é um sujeito para lá de inadequado e incompetente como o próprio. Segundo este artigo (com documentos), o candidato da ultradireita (assim denominado por toda a comunidade internacional) planejou um ataque terrorista em 1986, na cidade do Rio de Janeiro, quando era capitäo do Exército:

Também planejou ações terroristas. Iria explodir bombas em quartéis do Exército e outros locais do Rio de Janeiro, como na principal adutora de água da capital fluminense, para demonstrar insatisfação sobre índice de reajuste salarial do Exército.

Surpreendementemente, foi absolvido. O motivo da ameaça terrorista foi pelos baixos salários do Exército. Parece que virou herói entre os seus. Esse, sujeito que idolatra torturadores.

Ah, e um mentiroso, disse que não gastava dinheiro com sua campanha, mas foi financiado por empresas, que desembolsaram DOZE milhões de reais para mandar mensagens falsas no WhatsApp: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml

Para mim parece bastante fácil a escolha, mas como o Brasil passa por uma profunda crise de valores, então os prognósticos são péssimos, fato que anda me provocando um profundo mal- estar.

Chomsky, Noan. Malestar global- conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia. Ensayo Sexto Piso, Madrid, 2018. Tradutora Magdalena Palmer. Páginas: 199


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Resenha: “Intimidade”, do inglês Hanif Kureishi


“Ferir alguém é um ato de involuntária intimidade” (p.08)

Ler esse livro foi como entrar em um profundo transe, um abandono completo do mundo exterior. Poucos livros têm me despertado essa sensação, terminei impressionada. Isso sim é boa literatura, intensa e o motivo de manter esse blog há nove anos!

Hanif fez o difícil parecer muito fácil. É um dos melhores livros que li nos últimos tempos. A resenha saiu grande, tenha paciência, quando o livro é bom eu me empolgo. Nem falei sobre a bio do autor, fica para um próximo post.


Como é acabar um casamento? O que passa pela cabeça das pessoas que querem se separar?

Esse é um romance psicológico que faz refletir muito sobre sentimentos, necessidades e relações, o fim de um relacionamento importante e tudo o que isso implica. A maior parte da narrativa o autor nos joga dentro dos pensamentos do protagonista. A história descreve a agonia de um homem, Jay, de quarenta e poucos anos, que deseja acabar com o seu casamento de seis, com dois filhos pequenos. Luta entre a necessidade do ser e a obrigação, a pena contra a ânsia de liberdade. A estabilidade contra a falta de desejo. A hipocrisia contra a verdade. O imposto pelo real. O real: um amor do passado, que nunca passou.

Conforme vai contando os detalhes do seu casamento, compreendemos o que sente e entendemos que ninguém merece viver dessa forma. A maioria das pessoas julga o fracasso de um casamento, “qual o problema deles?”, sem nenhum conhecimento de causa. Ah, levianos…

“Será amanhã”, está convencido da decisão, mas não encontra a melhor forma, a que provoque menos dor. Tem consciência que vai machucar a família, mas é inevitável. E fica a briga entre a razão e a emoção. Começa a argumentar, encontra vários motivos e vê que ele não é um louco irresponsável. Muitos casamentos, cada vez menos (ainda bem) são uma cárcere de pena perpétua, asfixiam.

Jay não suporta Susan, está cansado fingir, de não poder ser realmente quem é. A mulher é do tipo de pessoa que sempre fala mal de alguém, porque assim parece que ela é melhor, sabe? Susan é exigente com os outros, cheia de cobranças.

O narrador- personagem com pretensão à fuga começa a descrever a vida familiar, a intimidade do casal, o dia a dia maçante. As crianças pedem biscoitos, ele as serve como se fosse um mordomo, elas não agradecem e nem tiram os olhos do televisor.  A casa confortável, mas não tem nada a ver com ele, tudo do gosto da mulher, com os móveis e objetos que ela gosta.

“Mas não me sinto em casa na minha casa, Amanhã pela manhã abandonarei tudo isso. definitivamente. Adeus.” (p. 14)

Ele senta no chão ao lado das crianças. Quer gravar bem na memória todo o mal estar que sente para poder recordar depois, na casa do amigo Victor, para não voltar atrás. Sente até náuseas, vontade de gritar. Sabe que vai poder ver os filhos quantas vezes quiser, mas também é consciente que vai sentir falta de algumas coisas, a voz filhos, vê- los andar de bicicleta, por exemplo,  tudo relacionado com as crianças.

Ele, com a vida acomodada, roteirista de televisão e cinema, “tem tudo para ser feliz”, como costumam dizer…mas e os sentimentos? Essa parte as pessoas normalmente não levam em consideração, como se o mundo interior fosse menos importante, fraqueza, por isso a depressão vem sendo um grave problema. Sentimento é tabu.  Fingir que não sente é como se estivesse tudo resolvido. Não está.

(…) é melhor que as coisas nos provoquem medo, que tédio. A vida sem amor é um tédio inacabável. (…) É fácil matar- se sem morrer. (p.17)

Ele conta o tempo que passou deprimido, anos, e chega à conclusão que foi maior que todo o prazer sexual que sentiu no casamento. Ele não quer ser como muitos que “aceitam um estado de relativa infelicidade, como se fosse uma obrigação”. (p.17)

E até por preguiça, não é? Por acomodação, falta de coragem, medo, covardia, por achar que o padrão se repetirá. Ele compara a esposa com a mãe. Muitas esposas, com fim de manter seus casamentos falidos, assumem esse papel. Problemas de auto- estima/dignidade/valores caducos ou falta de recursos financeiros- estas últimas estão perdoadas, as primeiras, não.

Uma frase que achei muito interessante, quando Jay fala da vulgaridade da televisão e sobre uma coisa que  detesta: “a democratização forçada do intelecto“. Os governos populistas tentam democratizar a universidade, mas esse é um caminho equivocado. A universidade não deve ser democrática,  é uma das poucas coisas que não devem ser assim, pois precisa ser um campo de excelência e das ciências superiores, onde devem estar os melhores. Não fomentemos a era da mediocridade também nas universidades.

Voltando ao nosso protagonista: ele começa a somatizar a ansiedade, vai para o corpo toda a agonia de viver uma vida que não quer. As coisas do coração deixam marcas profundas, as melhores e piores na vida das pessoas.

“Me palpita o nervo ocular. Parece que tremem as minhas mãos. Me sinto vazio e os nervos em carne viva, como se me tivessem enfiado algo mortal. Meu corpo sabe o que passa (…) (p. 25)

Jay recorda um amor do passado, não consegue esquecer Nina;

(…) sempre estará comigo de certa forma (…). Ainda sou incapaz de deixá- la ir embora. (p.26)

Ele perdeu o apetite. A esposa acaricia o seu rosto, enquanto ele pensa em Nina. Essa traição (involuntária e incontrolável), talvez seja a pior, a física não é nada perto disso. Mas Susan é muito perspicaz, como a maioria das mulheres:

 “Talvez ela perceba a velocidade e confusão dos meus pensamentos”. (p.26)

Se ela fosse irresponsável, seria mais fácil, mas Jay não encontra argumentos práticos: ela é uma esposa fiel, excelente dona de casa, ótima cozinheira e mãe. Um “eu sempre amei mais outra pessoa que você”, bastaria?

Ela é uma mulher eficaz e organizada. Nossas geladeiras e congeladores sempre estão cheios de sopa, verduras, vinho, queijos e sorvetes; as flores e arbustos do jardim estão perfeitamente classificados; a roupa das crianças, lavada, passada e dobrada (…) (p.29)

Outro dia eu li algo interessante sobre os diferentes tipos de amor (desculpe a falta de referência bibliográfica, foi folheando um livro na biblioteca),  classificando- o em dois tipos: “o amor de alma” e o “amor funcional”. O amor de alma (a “alma- gêmea”) é um amor que quase nunca dá certo, porque ambos não conseguem administrar a intensidade. É algo tão forte e incontrolável que assusta (sorte de quem consegue, é o sentimento mais incrível e inexplicável que existe!); já o amor funcional, a grande maioria dos casos, é aquele que funciona, justamente porque é morno, fácil de controlar, previsível, o amor funcionário público, mas também não é pra todo mundo, muita gente não suporta.

O nosso protagonista não conseguiu ficar nesse tipo de amor funcional,  ele escolheu o movimento, preferiu desconstruir para construir algo melhor. Cita um verso de um poema que leu na juventude, “Em movimento”, de Thom Gunn (p.28):

Alguém sempre está mais perto quando não fica quieto.

A mulher é muito previsível e isso o irrita. Eles se conhecem desde crianças. Começa a descrever o psicológico da mulher. Ela sempre pensando em reformas da casa. Lê livros sobre culinária. No casamento está tudo muito bem dividido, cada um com suas tarefas. E confessa (p.31):

Não foi sua inteligência nem beleza que me fascinaram. Nunca houve uma grande paixão; talvez esse seja o problema. Mas houve satisfação. Eu gostava da sua destreza e habilidade para sair de problemas. Não estava indefesa diante o mundo, diferente de como eu me sentia. Ela era sincera e firme, sabia como fazer as coisas bem; sempre invejei a sua capacidade; me conformaria em possuir só metade do que ela tem. (…) Se eu fosse muito forte e capaz, não precisaria dela e teríamos que nos separar.

Isso é típico do “amor” funcional: a utilidade. O coração é que deve escolher.

No trabalho, Susan é cruel com quem é inseguro e não tem nenhuma piedade em fazer com que o outro se sinta inútil. O vigor de Susan é esgotador, ela não cansa de repetir mil vezes sobre o esplendor da sua alma e mente. É implacável, mas fingida, sempre tem no rosto um sorriso (falso). É tão auto-suficiente, nunca se decepciona consigo mesma, jamais vai cair num caos interior, porque calcula tudo muito bem, é fria, quase maquiavélica.

É tirana, dura, severa, raramente chora, mas estoura com facilidade. É esnobe e fútil, adora títulos e admira quem tem classe social superior. Jay odeia isso, detesta a “putrefata” casta social, que ela adora participar ativamente.

Jay nunca tem tempo para os próprios pensamentos e a satisfação de não fazer nada. “Não fazer nada era a melhor maneira de fazer algo” (p.52). Ele percebe um certo desespero na hiperatividade da esposa, “como se fosse o seu trabalho o que a mantivesse inteira.” (p.52).

As coisas e pessoas frágeis não se sustentam por si sós, usam escudos: trabalho, religião, casamento, esportes (em excesso). Pensar e perceber as mataria.

Foi a esposa que o afastou do seu auto- conhecimento, de ter opinião, decisão e necessidades próprias, porque foi se acostumando a todas as situações que lhe foram sendo impostas, ou seja, uma marionete, subterfúgio, escada para as necessidades da mulher.

Jay repete toda hora: “hoje é o ultimo dia”, “amanhã acaba tudo”. Ele quer se livrar das ordens da esposa tirana, que ele não gosta e sempre acaba fazendo tudo o que ela quer.  A mulher nota que o marido está deprimido e o chama para conversar. Cobra coisas e até uma foto dela na sua escrivaninha. Mas a foto que ele deseja é a de Nina (p.40):

Se tão só eu pudesse ver o seu rosto outra vez. Mas nem sequer tenho uma fotografia.

(…) Minha infelicidade não beneficia a ninguém, nem a Susan, nem aos meninos, nem a mim mesmo. Mas, talvez a felicidade- esse estado que se experimenta uma satisfação global, em que a pessoa tem tudo, incluída a música- é o resultado de uma aprendizagem. E é óbvio que não encontrei nesta casa. Talvez não tenha procurado ou não soube assimilá- la.” (p.41)

Eu poderia destacar o livro todo, muito bom! Ele dá respostas sobre a infelicidade em casamentos aparentemente estáveis. O personagem não estava disposto a cumprir as expectativas sociais, as aparências, em detrimento da sua morte diária como homem, como pessoa, como ser independente. Matar a pessoa como se isso fosse obrigação, um assassinato consentido, é caro demais, não acha? Ele mesmo se faz a pergunta e dá a resposta (p.42):

Quando as coisas começaram a ir mal com Susan? Quando eu tirei a venda dos olhos, quando decidi que queria ver as coisas.

Fingir que as coisas não existem, não as farão desaparecer. Que bom seria se todos nós afrontássemos as verdades com todas as suas consequências. O casamento como forma de controle, não de prazer. Adivinha quem inventou essas regras? Na minha opinião, a instituição mais fake e desmoralizada que já inventaram (p.44):

O povo não quer que desfrutes demais, acreditam que é ruim para você. Poderíamos começar a desejar todas as horas. Que perturbador é o desejo! É um demônio que nunca dorme nem está quieto. O desejo é travesso e não se dobra aos nossos ideais e por isso temos tanta necessidade dele. O desejo zomba dos nossos esforços humanos e os fazem dignos de consideração. O desejo é o anarquista mais antigo e o primeiro agente secreto (…). E justo quando acreditamos que o temos baixo controle , nos decepciona e nos enche de esperança.

São os homens que têm que ir embora. A culpa fica com eles, como culpariam a mim. Entendo a necessidade de culpabilizar; a ideia de que alguém com mais vontade, coragem ou sentido do dever havia agido de outra maneira. Tem que haver, em alguma parte, a vulneração deliberada da moral que vá mais longe que a simples anarquia, para preservar a ideia de justiça e de sentido no mundo”.

Sobre “são os homens que têm que ir embora”, não concordo, isso independe do gênero. Uma escolha errada é fácil de acontecer por muitos motivos, mas isso não tem que ser cadeia perpétua, sempre é tempo de ratificar.

Jay começa a pensar no seu (excelente) pai e no que ele pensaria se estivesse vivo. Começam os problemas de consciência. Sabe que seu pai ficaria horrorizado com a sua fuga escondida, indigno, desleal. Susan procurava o sogro quando eles brigavam e o homem repreendia o filho em prol da mulher, “ela é uma joia” (p. 54). O senhor, machista, achava que as mulheres não podiam valer- se sozinhas, o filho herdou um pouco isso também. O pai de Jay, falecido há seis anos, era funcionário público e escritor. O fracasso fazia mais fortes as convicções do homem, “Era um tipo duro” (p. 55). Para o seu pai tudo devia ser feito sem nenhuma espécie de recompensa, assim pensava:

“O matrimônio proporciona poucos prazeres. Não podes ir embora e aproveitar a vida. Tanto ele como mamãe estavam frustrados e eram incapazes de encontrar uma maneira de conseguir aquilo que desejavam, fosse o que fosse. Mas mantinham a fidelidade e honestidade um com o outro. Mas infiéis e desonestos consigo mesmos.” (p. 56)

Um casal de classe média baixa dos anos cinquenta jamais teria se separado. Meus pais permaneceram debaixo do mesmo teto a vida inteira. (p.57)

 Grave é que isso continue acontecendo em 2017, não é? A mãe de Jay preferia passar o dia todo fora, que em casa com o marido, estar com outras pessoas era mais agradável.

Susan o acusa constantemente de falta de entrega. Ele tentava, mas… (p.59)

Creio que a mente sempre está concentrada..em alguma coisa que interessa (…) como o rosto de Nina e as carícias dos seus dedos compridos.”

(…) Continuo considerando minha falta de amor por Susan uma fragilidade, um fracasso de que sou responsável.

E mais uma parte do drama sentimental e dos absurdos que as pessoas se submetem (p.62):

 – Quando penso que minha mulher e eu estivemos juntos todas aquelas noites e aqueles anos estéreis e complicados, não entendo nada. talvez fosse uma espécie de idealismo louco. Eu havia feito uma promessa que teria que cumprir a qualquer preço. Mas, por quê? O mundo jamais se recuperaria com o fim do meu casamento (…) era uma obsessão absurda e cega”.

Jay começa a pensar em coisas triviais como a roupa que vai levar na sua fuga. A única coisa que pensa são em alguns ternos (ele foi indicado a um Oscar), sapatos elegante e confortáveis, a fotografia autografada de John Lennon e alguns discos.

Não pense que ele quer desfazer seu casamento por Nina. Jay tem consciência que ninguém vai substituí- la. Ele quer ir embora por si mesmo e para acabar com a farsa. Antes,  pediu Nina em casamento. Ela não quis.

Jay não leva muito em conta a opinião de sua mãe, ela também queria fugir no seu tempo, mas não tinha dinheiro. Sabe que a mãe vai dizer que é ruim para as crianças. O machismo vomitivo:

“Susan se sentia orgulhosa de mim. Um homem pode proporcionar a uma mulher dignidade e status”

“Ela preferia uma relação desequilibrada e deteriorada a não ter nenhuma” (p.71)

Susan trabalha muito e mesmo muito cansada, mas não falta aos muitos eventos sociais que é convidada. Adora ser popular e requisitada, ter muitos contatos, pois para ele isso é símbolo de um bom status. Jay sabe que ser uma mulher separada será um drama para Susan.

Uma mulher de meia idade com filhos não tem muito “charme” e Susan sabe disso. (p.70) Eu usei um eufemismo para “charme”, na verdade, o autor usou “cachê”. Jay e Susan são misóginos e sexistas. Pior é a mulher, porque joga pedra no próprio telhado. Mas a história é reflexo, não poderia ser diferente.

Ele não suporta a mulher, mas continua pensando em ter relações sexuais com Susan. Esse é um tabu desfeito, creio. As pessoas já sabem diferenciar um desejo físico de amor até nos últimos minutos antes de dormir, na sua última noite na casa; aliás, a história toda acontece nessa noite. Jay dá exemplo da cultura indiana: os casais “copulam” quando sentem necessidade e depois cada um vai para o seu lado, que nessa cultura as relações não são muito românticas.

Jay é completamente apaixonado por Nina. Ele não entende o motivo. O amor quando chega, não se explica, é impossível, às vezes nada tem a ver com o que desejamos. O amor é um bicho desgovernado. Ele se entregou à Nina, inevitável.

Eu podia ter me esforçado mais com Susan? (p.86)

Nenhum esforço é suficiente, é só um prolongamento da mentira, das aparências. Amor não se força, se o amor dependesse da nossa vontade, que maravilha seria!

Caros amigos e amigas, não desanimem. O amor, o dos bons, existe sim.  Reciprocidade é a chave. Todo mundo deseja esse tipo de amor, nada é tão incrível e fascinante como ele. Quando você estiver com alguém que algo consiga parar os ponteiros do relógio no seu mundo, preste muita atenção. É ele ou ela. 

Esse livro me escolheu, não fui eu quem o escolhi. O caixa da Casa del Libro que me indicou: “quer ler um livro fantástico sobre o amor?”. Eu não sabia que esse livro, assim do acaso, se tornaria um dos meus preferidos.

Pessoal, o final me fez chorar.


Abaixo, Hanif Kureishi. Eu o conheci pessoalmente em Madri. Tenho outros dois livros do autor autografados, veja aqui, que espero ler o mais brevemente possível.

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E essa é a edição espanhola lida, espero que você o encontre na sua cidade, um dos livros mais fantásticos da vida! O nome original em inglês é “Intimacy”.

18768621_800383593450536_9012993706213832746_oKureishi, Hanif. Intimidad. Anagrama, Edição limitada, Barcelona, 2015. Páginas: 143

Um Fernando Pessoa nada brilhante (resenha)


O poeta português Fernando Pessoa foi um escritor brilhante? Sem dúvida! Mas nem tudo o que ele escreveu foi assim.

Folheando a meia dúzia de livros que existe em português na biblioteca municipal Eugénio Trías, no Parque del Retiro em Madri, encontrei “Cantares- Quadras”, de Fernando Pessoa.

O livro é composto por mais de duzentas quadras, a grande maioria com temáticas amorosas. Quadras são estrofes de quatro versos, as rimas no primeiro e terceiro verso, e no segundo e quarto, em redondilha maior, ou seja, os versos têm sete silabas (heptassílabos). É uma forma clássica e antiga de composição, remonta à época dos trovadores, justamente pela musicalidade e facilidade de composição.

Mas as quadras de Fernando, a maioria deste livro, são extremamente bestas, parecem ter sido escritas por alguma criança. Eu separei as que menos me aborreceram:

O livro ficou lá na biblioteca. Creio que deveria ter feito ao contrário, ter mostrado as piores quadras e rimas. A impressão que tive é que Fernando forçou o heptassílabo, talvez isso seja o mais difícil nesse tipo de composição. Inclusive, no final do livro, tem um capítulo especial com “quadras” incompletas, algumas que ficaram com três versos, outras que faltaram as palavras exatas no meio do verso. Forçar a forma comprometeu o sentido. Realmente curioso. Veja:

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Enfim, nem todos os escritores brilhantes escrevem coisas brilhantes e o ofício de escritor não é fácil pra ninguém. Em se tratando de escritores míticos, unanimidade como Fernando Pessoa, raramente lemos alguma crítica negativa. Mas é isso: TODOS, todos os escritores de primeira linha, até os geniais, também cometeram falhas.

Pessoa, Fernando. Cantares (Quadras). Edição bilingue, Hiperión, Madri, 2006.

UPDATE: as quadras estão disponíveis gratuitamente aqui. Os textos foram escritos dois anos antes do falecimento de Fernando Pessoa.

 

Resenha: “A casa da paixão”, de Nélida Piñón


Eu me sacrificarei ao sol. Meu corpo está impregnado de musgos, ervas antigas, fizeram mazelas e chá do meu suor, todos da minha casa. (p. 49)

Esse é um trabalho fino de escritura. A obra “A casa da paixão” fala sobre sexualidade e erotismo, mas contada figurativamente (longe da pornografia) e até um certo hermetismo, um livro que faz o leitor pensar e imaginar o que é que o texto quer dizer, é muito metafórico, cheio de imagens poéticas e silêncios. A intimidade contada por imagens escritas, cinematográficas.

As primeiras páginas deixaram- me a impressão de que se tratava de um incesto entre pai e filha, depois vi que não, que era uma moça se masturbando (e o pai fingia que não via). Marta, o seu nome. A mãe faleceu no seu parto. Marta cresceu cuidada pelo pai, que sente uma estranha atração pela filha (quando adulta) e vice- versa.

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Nélida Piñón é solteira e sem filhos, uma vida dedicada à literatura (foto: Facebook da autora)

Marta vê o mundo com seu órgão sexual. O dela e o dos outros. Ela vê sexo em tudo e em todas as partes. Freud explicaria com propriedade (eu não!) (p.22):

Pela manhã, Antônia recolhia o leite. Tocava o ubre da vaca como se o amasse, fazia uma espécie de amor naquela carne caída, lembrando a máquina do homem. Marta ruborizava- se com a comparação. Que o modo de Antônia extrair leite mais parecesse uma formosa ejaculação.

A estrutura, o bom trabalho linguístico é incontestável, mas o enredo em si provocou-me aversão em muitos momentos. Essa oba lembrou- me o estilo é de Clarice Lispector, seu livro “A paixão segundo G.H.” foi publicado em 1964, “A casa da paixão” em 1972. Não sei se serviu de inspiração ou influência. Em “G.H” há uma barata, em “A Casa”, há uma galinha ou uma mulher galinha, a criada, descrita quase como um animal imundo e mal cheiroso, mas que ainda assim provoca uma atração na pervertida Marta. Também lembre de Clarice em “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1969.

Nélida colocou Marta observando a velha criada Antônia recolhendo ovos do galinheiro, mais que isso, Antônia queria ser a própria galinha (p.28):

Ela contemplava o feno quente, justamente onde o bicho encostara a parte mais vil do seu corpo, para Marta a mais grata, ardente, a ponto de querer enfiar o dedo pelo mesmo caminho que o ovo conheceu, não para sentir o calor que a coisa fechada e silenciosa conservava, mas reconstruir de algum modo a aprendizagem da galinha, que Antônia talvez esclarecesse o domínio do seu amor. (…)

Antônia agarrava o ovo trazendo- o ao nível do rosto, cheirava a coisa entumecida, recém- abandonada na terra e, além de cheirar, beijou o ovo com sacrifício (…). Sem suportar, no entanto, o amor que desprendia daquela coisa quente, úmida, que uma galinha entre tantas ali manufaturara (…)

Antônia foi escorregando para o centro da terra, onde a galinha também nascia, todos da sua espécie (…) Antônia absorvera e agora vivia em sua pele. Ali ela ficava muito tempo, severa, até que as pernas sobre o feno se escancararam e imitaram uma galinha na postura do ovo.

Esse livro está com o título errado, deveria ser “A casa da perversão”, pois ver erotismo em coisas opostas a isso, é  perversão. Qual o limite do desejo? Existe limite? Existe dentro da nossa cultura ocidental, socialmente; individualmente, na solidão (ou não) já é outra história. Quem pode dizer o contrário?

“A casa da paixão” é considerada por muitos a obra- prima de Nélida Piñón. Não sei, porque ainda me falta muito por ler.

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Nélida Piñón na sua casa no Rio de Janeiro com a sua cachorrinha Suzy Piñón (foto: Facebook da autora)

Marta estabelece uma batalha silenciosa com o pai. O provoca sexualmente, fica nua e ele percebe que é de propósito. Que estranho triângulo esse de Marta, o pai e Antônia, que é tratada como bicho. O pai toma uma resolução (p.40):

Quase extinguindo- se a consciência jurou vingar- se. Perdão ainda preciso, resmungava. Recordou o homen da igreja, mão de árvore, ele o julgara então severamente.

–Se é de macho que ela precisa, eu lhe darei.

Entra em cena Jerônimo, trazido pelo pai, futuro pretendente de Marta. Pai e filha não mantém nenhum tipo de contato físico, temem, judiam- se, vingam- se. A filha quer ser livre e o pai tenta contê- la, sem sucesso, ela detesta Jerônimo porque foi o pai que o trouxe. Uma moça virgem que só pensa em sexo e se acha a mais desejada de todas, nem o seu pai escapa. Essa parte é  irritante. Tanta malícia pode existir em uma moça jovem e que nunca transou? Parece que sim, ela mesma se autodenomina “selvagem” (p.55).

O corpo nessa obra é o centro do mundo. Marta ama o corpo masculino como objeto de prazer, nada mais, pois detesta o que pensam, o que são (p.53):

(…) Odeio os homens desta terra, amo os corpos dos homens desta terra, cada membro que eles possuem e me mostram, para que eu me abra em esplendor, mas só me terão quando eu ordenar.

Há uma reiteração das palavras “sol”, “virgem” e “nudez”, que vão e voltam, vão e voltam, insistentemente, entre o “abrir de pernas”, que mudam de ordem na sentença, mas dizem sempre a mesma coisa. O narrador- personagem, a 1ª pessoa fez o personagem soar com muita prepotência. Marta cai antipática, com um excesso de confiança para a sua condição (a inexperiência e a juventude), pensamentos laboriosos demais (que soam estranhos), que beiram à inverosimilhança. O ritual prévio ao acasalamento é quase o livro inteiro.

Que acontecerá com o casal Jerônimo e Marta? E Antônia e o pai? Já contei demais, agora é contigo!


Nélida Piñón é carioca, descendente de espanhóis da Galiza. Possivelmente, a escritora brasileira mais premiada e internacional que o Brasil tem. Foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. Aqui na Espanha, toda (ou quase toda) a sua obra está traduzida ao espanhol.

Essa é a edição portuguesa lida. O romance é curto, pouco mais de 100 páginas, nessa edição tem um posfácio de Sônia Régis, escritora de alguns estudos literários, não achei muita coisa sobre ela, nem sua biografia na Internet,  o próprio livro não informa.

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Piñón, Nélida. A casa da paixão. Bertrand Editores, Lisboa, 2007. 136 páginas