A “transparência” como linguagem


Observando as redes sociais, adivinha quem tem mais seguidores em se tratando de empresas e/ou pessoas? Os que aparentam ser mais transparentes. Detalhe importante: isso não tem a ver, necessariamente, com a verdade. A imprensa brasileira que o diga. A era da privacidade acabou e se você quiser “existir” no mundo virtual, conquistar clientes e pessoas, tem que parecer o mais natural possível.

As empresas mais sólidas e confiáveis são as mais transparentes; os bloggers e personalidades mais seguidos e amados (odiados também, sempre há “haters”) são os que mostram a “realidade” de suas vidas. Mesmo que seja uma realidade inventada.

No nosso tempo há uma contradição iminente, a hipocrisia em duas faces: pessoas que só mostram uma vida idílica de viagens, restaurantes caros, amores perfeitos e sucesso profissional e, em contrapartida, o do naturalismo pós- moderno, onde a escatologia reina junto com um excesso de linguagem de baixo calão. Certos personagens filmam- se na privada, na cama, em situações íntimas familiares, seus excessos, seu tédio, suas dores, fragilidades e também doenças.

Ninguém é tanto, nem tão pouco. Todos criam falsas situações para vender e conquistar seus objetivos. Em ambos, há encenação.

A tal da “naturalidade” é muito subjetiva. Quanto mais sucesso, mais surgem situações pré-fabricadas e cada vez vão mais longe em suas tentativas.

Ainda assim, com situações forçadas, a “transparência” é a linguagem que dá certo nas redes sociais. Só não sei qual é o limite, se é que existe, e também não sei se as pessoas estão preparadas para pagar o preço dessa ultra- exposição.

Tudo fica gravado na internet. Com as capturas de tela e vídeos, nada mais fica impune. Portanto, cuidado com a encenação que faz de si mesmo, porque pode ter o efeito contrário ao esperado.

O discurso que querem emitir com imagens ou textos tão forçados, desesperados até…qual a intenção por trás? O que nos querem vender? Saber ler além do evidente, saber ler as entrelinhas, é importantíssimo para não se deixar enganar ou manipular. Isto, em todos os aspectos da vida…e mais do que nunca.

 

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Uma reflexão sobre o tempo


Quem conseguir responder o que é o tempo, terá conseguido solucionar um dos grandes enigmas da humanidade. Parece fácil se pensarmos no tempo cronológico, nas horas, mas eu falo do tempo baixo uma perspectiva filosófica/antropológica/sociológica/psicológica/histórica e até científica. E sem citar a questão mitológica do tempo. É muito pensar…

Nós passamos, o universo não. Somos provisórios, o tempo não. O nosso entendimento sobre o perene é muito limitado. O nosso alcance também. Só entendemos do tempo sobre o que vemos no nosso mundo. Descartamos outros espaços, universos, atmosferas, dimensões, essas coisas nem são consideradas. Não temos como comparar, nem como entender melhor o que é o tempo. O homem é um bicho muito limitado.

O tempo na natureza parece ter uma ordem. Amanhece, anoitece, as quatro estações se sucedem, o ciclo das plantas e animais, inclusive o nosso, mas isso tudo não tem muita precisão. Há países em que o sol nunca se põe e nesses mesmos países polares, a noite dura mais de 24 horas. Há pessoas que vivem quase o dobro da média. O tempo, vejam só, foge às suas próprias regras.

Quanto tempo vamos estar por aqui é uma preocupação comum, conscientemente ou não. Organizamos o nosso tempo em horas, dias, meses, anos, colocamos nomes e obrigações para cada dia do ano. Há o tempo certo para batizar, entrar na escola, trabalhar, namorar, casar, ter filhos, netos, o nosso tempo todo compartimentalizado, numa tentativa de organizar todo o  ciclo de vida e aproveitá- lo da melhor forma, segundo convenções, religiões, governos, diferentes tipos de poder. O tempo também é uma forma de prisão e controle.

O tempo tem muitas subdivisões, o tempo do universo, o pessoal, o  social, o psicológico, o objetivo, o místico e o biológico. A crítica é feroz quando não se cumpre o especificado para cada questão.

Existe até o tempo certo para as roupas, digo, a idade certa para vestir cada tipo de peça. As pessoas vestem- se, normalmente, de acordo à idade que têm. Pura bobagem.

Existe a hora específica para comer e o quê comer. Outra bobagem.

A idade influencia na percepção do tempo: para as crianças e  jovens, o tempo passa devagar; para adultos e idosos, o tempo passa mais rápido. Talvez a biologia tenha a ver com essa mudança de percepção, que é real.

Quando vivemos situações desagradáveis, o tempo parece não passar; quando vivemos momentos de felicidade, êxtase, prazer, parece que o tempo voa, ou seja, as emoções mudam a nossa percepção sobre o tempo.

E a crença sobre as reencarnações? A alma sempre viva em todas as eras rompendo com a finitude do tempo físico dos corpos.

Quem nunca ouviu falar nessa frase: “pra tudo tem o tempo certo” ou “tudo só acontece na hora certa” ou “tudo acontece no tempo de Deus”. Como se existisse uma força controladora do tempo e das pessoas. O que se pode chamar também de destino, algo fixo, estipulado, que foge ao controle do sujeito.

O tempo também é médico, curandeiro: “o tempo cura tudo”, “não há mal que dure para sempre”. Eu acho frases bem cretinas.

Todos os povos e religiões têm teorias sobre o tempo e seus deuses que criaram o mesmo. A maioria delas solucionou a questão da mortalidade dando a imortalidade à alma.

E a tentativa de viajar no tempo é um desejo de muitos cientistas. Viajar ao passado é possível através da memória. Ao futuro, só com o sonho e a imaginação.

Na literatura, a questão do tempo é assunto primordial, mas essa coletânea fica para outro post, só vou deixar um fragmento do mítico “Retrato” , de Cecília Meireles:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Na música  também, o tempo é tema recorrente:

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final  (“Sobre o tempo”, Pato Fu)

XXX

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo (“Tempo perdido”, Legião Urbana)

XXX

Vi o tempo passar
O inverno chegar
Outra vez mas desta vez
Todo pranto sumiu
Um encanto surgiu
Meu amor (“Você”, Tim Maia)

XXX

Mais um ano que se passa
Mais um ano sem você
Já não tenho a mesma idade
Envelheço na cidade (“Feliz aniversário”, Ira)


Do tempo, quem há de fugir?

Esse é um texto aberto, infinito, mesmo quando não estivermos mais aqui.

Daqui a 100 anos: a minha cápsula do tempo


Estou pensando em uma questão transcendental e inexorável: eu vou passar e esse blog vai ficar aqui. E eu acho isso genial! Será que no futuro esses blogs terão alguma importância? Formarão  parte do conjunto do pensamento 2.0? Dos anos 2000, digo?

Eu vou passar, mas as opiniões sobre todos os livros que li aqui ficarão. Pelo menos para que a minha filha leia. Oi, filha, será que você está lendo isso? E os meus netos? Oi, queridos netos, vovó já os amava antes mesmo de serem projeto de gente! hahaha.

Que importância isso pode ter? Não sei. Nenhuma, provavelmente, a não ser para deixar uma marca pública da minha passagem pela Terra. Gosto da ideia de deixar algum pensamento meu plantado para o futuro. Isso é um livro virtual. É sim.

É legal dialogar com o futuro. Durante uma fase eu pensava mais no passado do que no futuro, isso era meio deprimente e nostálgico; pensar no futuro é mais interessante, porque tudo é possibilidade e sonho. Tudo pode acontecer. O passado já está sacramentado, nada pode ser diferente, cristalizou. A única coisa ruim do tempo é que a gente vai tendo menos tempo. Morrer só é ruim, porque dá pena deixar as pessoas e coisas que amamos. “Coisas”, como tomar um café gostoso ao acordar, ler um bom livro, caminhar ouvindo minhas músicas preferidas, olhar as estrelas…  esse tipo de “coisa”, nada material. A morte em si não é ruim, deve ser uma aventura, uma viagem onde a alma viaja livre, sem a limitação do corpo. Eu acredito na imortalidade da alma. A morte deveria ser matéria na escola e ninguém deveria sentir medo. Deveriam preparar- nos pra morrer e para perder quem amamos. E isso não é nada mórbido, evitaria muito sofrimento inútil. Por que falar de morte é tabu?

Daqui a 100 anos, creio que tudo vai estar muito parecido, algumas coisas melhores outras piores, mas algumas serão geniais. A Ciência e a Tecnologia irão evoluir bastante, mas as desigualdades sociais, catástrofes naturais e meio ambiente, estarão piores. O homem, o mundo,  são feitos mesmo de contrastes.

Acho que ninguém irá morrer por causa de câncer, mesmo em estágios avançados, porque a regeneração celular será possível em qualquer tempo; a natureza estará muito mais deteriorada e algumas pessoas irão morrer de calor ou de frio, as temperaturas serão extremas no verão ou inverno. Haverá mais catástrofes naturais.

As guerras no Oriente Médio serão as mesmas; a fome na África, idem. Os ricos estarão mais ricos que nunca e os pobres, já sabem.

Novas profissões irão surgir, como os “coaches” mentais, que ensinarão as pessoas o domínio próprio e alheio das forças da mente. Será possível mover objetos e controlar doenças psicológicas como as depressões e ansiedade, porque os cientistas irão descobrir o ponto exato do cérebro, poderemos dominar essas esferas. A alma será cada vez mais paupável.

O catolicismo estará agonizando e o Brasil será uma grande maioria evangélica.

Todos os carros serão elétricos. Sou mais realista que Marty MacFly (do filme “De volta para o futuro”) que pensou que em 21 de outubro de 2015 existiria carros voadores, skates voadores e afins.

Veneza estará abaixo do mar.

Livro em papel será objeto de museu.

Daqui a 3, 4 gerações (mais de 100 anos), metade da população mundial terá sangue chinês.

O Brasil terá outra moeda, o real será coisa do passado.

Mas, agora vou parar de falar de como acho que será o futuro e vou falar como é o presente para que os nossos descendentes não repitam os mesmos erros.

Um dos piores problemas do nosso tempo é a solidão e o desamor. Tentem não ficar sozinhos e cultivem amores, de todos os tipos.

Aqui no nosso tempo, todo mundo só pensa em dinheiro. Todos, sem exceção. Dinheiro é o início, meio e fim de tudo. E ninguém é feliz.

O consumismo impera, não existe consciência ecológica.

Ainda existe petróleo e pouco pensa- se em energias renováveis. A água anda escassa em vários lugares do mundo. Ninguém está preocupado, exceto os cientistas sem voz.

Não existe pensamento de bem-estar  comum. O ser humano e seu umbigo.

O político corrupto é problema generalizado no mundo.

A honestidade vira notícia  de jornal.

Mata- se e rouba- se por muito pouco.

O casamento é uma instituição falida. A maioria finge que é feliz, conforma- se, leva dupla vida ou empurra com a barriga. Ah, e mais da metade acaba em divórcio pra casar de novo e ser infeliz mais uma vez. Espero que vocês aí do futuro tenham encontrado alguma forma de relacionamento mais honesta e sincera, sem papéis, prisões e promessas impossíveis de serem cumpridas.

O funcionalismo público no mundo funciona mal por causa da burocracia e incompetência.

As pessoas estudam pouco, lêem pouco e muitas fingem que o fazem. O mesmo serve para o trabalho.

A vida cotidiana é tremendamente injusta; alguns terão tudo sem fazer nada, nem merecer. Merecimento aqui no nosso tempo não vale muita coisa.

As pessoas trabalham muito, divertem- se pouco, dormem pouco. Em contrapartida, muita gente está desempregada.

Todas as coisas, as mais importantes, são conseguidas por uma rede de amizade e de favores.

A sinceridade é considerada falta de educação.

O otimismo está em baixa. Mas a esperança ainda continua firme e forte.

As relações virtuais substituíram as reais. As crianças, principalmente nas grandes cidades, brincam mais com máquinas, que com outras crianças, desde muito cedo.

O sintético e a estética são mais importantes que a ética.

Espero que vocês aí no ano 2115 sejam mais espertos, mais humanos, mais saudáveis, que as estruturas sociais sejam mais justas e que não impeçam ninguém de serem quem são e que tudo de ruim que eu comentei aqui seja só coisa do passado.