Bem- vindo, Angola!


Bem- vindo pessoal de Angola, que está descobrindo a nossa página! Um prazer tê- los aqui, Angola é um país lindo, de gente encantadora e uma literatura forte. Uma das minhas poetisas favoritas é a angolana Ana Paula Ribeiro Tavares (Huíla, Angola, 30/10/1952).


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Algumas obras de Ana Paula Ribeiro Tavares:

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Ex- voto

O tempo pode medir- se 

No corpo

As palavras de volta tecem cadeias de sombra

Tombando sobre os ombros

A cera derrete

No altar do corpo

Depois de perdida, podem tirar- se 

Os relevos

(Ana Paula Ribeiro Tavares, in “Ex- votos”)


Esse foi o post nº 500! Viva! Quinhentas tentativas de levar a literatura para algum lugar do mundo. Tentaremos quinhentas mais!

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O poeta louco e maldito: Leopoldo Maria Panero


Faleceu nesse mês de março o poeta Leopoldo Maria Panero  (Madri,16 de junho de 1948 – Ilhas Canárias, 5 de março de 2014). Seus pais, Leopoldo Panero e Felicidad Blanc, também eram poetas, assim como seu irmão Juan Luis Panero. Panero formou- sem em Letras na Universidade Complutense de Madri e Filologia francesa na Universidade Central de Barcelona. Foi nessa época que o escritor provou várias drogas, entre elas a heroína, que foi fonte de inspiração para vários de seus poemas. A heroína é uma das drogas mais viciantes e prejudiciais ao organismo, não provem crianças! Com duas ou três vezes a pessoa já se vicia e há quem diga que é quase impossível deixá- la. Panero viveu a maior parte da sua vida internado em hospitais psiquiátricos, entrou a primeira vez com 19 anos,  morreu na mais absoluta solidão num deles, já não tinha mais ninguém da sua família. Ele foi apaixonado pela escritora Ana María Moix, que faleceu uma semana antes do Leopoldo.

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Leopoldo María Panero, sentado num bar na ‘Plaza de las Palomas’ na cidade de León em maio de 2011. (foto: José Ramón Vega González)

Panero era da esquerda radical, anti- franquista (Francisco Franco, ditador da Espanha), ao contrário do seu pai, foi um rebelde nos anos 60 e 70, sua obra poética é singular, ele foi marginado e marginalizado, escritor (e pessoa) tabu na sua geração.

DEDICATORIA

Más allá de donde
aún se esconde la vida, queda
un reino, queda cultivar
como un rey su agonía,
hacer florecer como un reino
la sucia flor de la agonía:
yo que todo lo prostituí, aún puedo
prostituir mi muerte y hacer
de mi cadáver el último poema.

DEDICATÓRIA

Mais além do onde
ainda se esconde a vida, fica
um reino, falta cultivar
como um rei sua agonia,
fazer florescer como um reino
a suja flor da agonia:
eu que tudo prostituí, ainda posso
prostituir a minha morte e fazer
do meu cadáver o meu último poema.
 

Abaixo, dois documentários  (em espanhol): “Depois de tantos anos” (1994, de Ricardo Franco), que fala sobre a família Panero, e em seguida, “O desencanto” (1976, de Jaime Chávarri) , sobre a vida de Leopoldo Panero, pai de Leopoldo Maria, que era “falangista” ( a favor da ditadura):

 
http://www.youtube.com/watch?v=MfJ2l_dVliQ

Leopoldo Panero: a loucura que se fez poesia ou a poesia que fez a loucura? O certo é que seu pai era alcoólatra e uma tia era esquizofrênica, a sua loucura podia ter origem genética.

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Mas, o importante mesmo, é que esse poeta louco nos deixou uma obra importante e visceral, das mais profundas. A bibliografia (em espanhol) do autor:

Por el camino de Swan (1968)

Así se fundó Carnaby Street (Ocnos, 1970).

Teoría (Lumen, 1973)

Narciso en el acorde último de las flautas (1979)

Last River Together (1980)

El que no ve (1980)

Dioscuros (1982)

El último hombre (1984)

Antología (1985)

Poesía 1970–1985 (1986)

Contra España y otros poema de no amor (1990)

Agujero llamado Nevermore (Selección poética, 1968–1992) (1992)

Heroína y otros poemas (1992)

Piedra negra o del temblar (1992)

Orfebre (1994)

Tensó (1996).

El tarot del inconsciente anónimo (1997)

Guarida de un animal que no existe (1998)

Abismo (1999)

Teoría lautreamontiana del plagio (1999)

Poemas del manicomio de Mondragón (1987)

Suplicio en la cruz de la boca (2000)

Teoría del miedo (2000)

Poesía completa (1970–2000) (2001)

Águila contra el hombre: poemas para un suicidamiento (2001)

Me amarás cuando esté muerto (2001).

¿Quién soy yo?: apuntes para una poesía sin autor (2002).

Buena nueva del desastre (2002)

Poemas del manicomio del Dr. Rafael Inglot (2002)

Conversación (2003).

Esquizofrénicas o la balada de la lámpara azul (2004)

Erección del labio sobre la página (2004)

Danza de la muerte (2004)

CD-Libro Moviedisco (2004)

Poemas de la locura seguido por El hombre elefante (2005)

Presentación del superhombre (2005)

Visión (2006)

Outsider, un arte interior (2007)

Páginas de excremento o dolor sin dolor (2008)

Sombra (2008)

Escribir como escupir (2008)

«Conjuros contra la vida» (2008)

Voces en el desierto (2008)

Esphera (2009)

Tango (2009)

La tempesta di mare (2009)

Reflexión (2010)

Locos de altar (2010)

La flor en llamas (2011)

Traducciones / Perversiones  (2011)

Territorio del miedo / Territoire de la peur  (2011)

Cantos del frío (2011).

Poesía completa. 2000-2010 (2013).

Sua obra narrativa:

El lugar del hijo (1976)

Dos relatos y una perversión (1984)

Y la luz no es nuestra (1993)

Palabras de un asesino (1999)

Los héroes inútiles (2005)

Papá, dame la mano que tengo miedo (2007)

Cuentos completos (2007)

Ensaio:

Mi cerebro es una rosa (1998)

Prueba de vida. Autobiografía de la muerte (2002)

A grande Hilda Hilst


Andei lendo essa grande escritora brasileira e acabei fascinada. Coisa linda a escritura dessa mulher. Hilda Hilst era uma mulher à frente do seu tempo, transgressora, inovadora, corajosa, uma mulher admirável. Quebrar regras moralistas na conservadora sociedade brasileira não é fácil. Descendente de portugueses por parte de mãe e de germano- franceses por parte de pai, filha única de um fazendeiro, ela foi uma das representantes mais importantes da literatura brasileira do século XX, uma Guimarães Rosa de saia.

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Hilda Hilst, Jaú, 21 de abril de 1930 — Campinas, 4 de fevereiro de 2004


“Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.”

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Original do poema “Amavisse” (10-12-1987)

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Veja o poema do livro “Do desejo”:

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

I
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.


III

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

IV

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

DA NOITE

III

Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.

IV

Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda Vida.
E se te digo que estavas a meu lado
E eloqüente e amante e de palavras ávido
Dirás que menti? Mas não. Alguém gritava:
Palavras… apenas sons e areia. Acorda.
Acorda Vida.

V

Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crespusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiqüíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.

VI

O que é a carne? O que é esse Isso
Que recobre o osso
Este novelo liso e convulso
Esta desordem de prazer e atrito
Este caos de dor dobre o pastoso.
A carne. Não sei este Isso.

O que é o osso? Este viço luzente
Desejoso de envoltório e terra.
Luzidio rosto.
Ossos. Carne. Dois Issos sem nome.

Veja o vídeo do Programa Entrelinhas na época dos 80 anos de Hilda Hilst, onde podemos conhecer mais sobre a complexa vida e obra da escritora. Também podemos ver a chácara onde ela morava em Campinas, “A casa do sol”, que foi tombada pelo patrimônio histórico e virou museu.

Veja essa maravilhosa entrevista que a Hilda concedeu, ela dá uma “banana” aos editores, ela disse que escreveu um livro pornográfico para agredir, “Lori Lamby”, um livro “repugnante, de humor”, um livro pra incomodar, pra ser lido, porque ela estava cansada de ser uma “maravilhosa escritora” não lida. Faz uma crítica duríssima aos editores, que “cuspiram na sua cara”, não tem como não ajoelhar- se aos pés da Hilda assistindo essa entrevista. Ela era um barato, o off da entrevista é engraçado:

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Esse post é só o primeiro de uma série que pretendo fazer sobre Hilda Hilst, muito material fascinante para falar num post só. Hilda faria 83 anos no dia 21 de abril, uma pena ela não estar mais aqui. Como ela previu na entrevista acima, que ia ser um barato quando ela estivesse na cova e super famosa. Sim, Hilda, você conseguiu.

Resenha: “Navegações”, de Sophia de Mello Breyner Andresen


Com esse nome extenso e multicultural, Sophia pertenceu à aristocracia portuense e foi uma das poetisas mais importantes do século XX, além de tradutora e política socialista. Nasceu no Porto, neta de um dinamarquês que imigrou para essa cidade.  Seu tio comprou a “Quinta de Campo Alegre”, hoje o Jardim Botânico do Porto, ambiente onde aconteceram as suas doces recordações de infância.

A autora estudou Filologia Clássica em Lisboa, mas não  terminou o curso, pois voltou ao Porto para casar- se. Faleceu aos 84 anos em Lisboa.

Comendo uma pizza no Loures Shopping, li o pequeno, mas intenso volume com poesias de Sophia. “Navegações”, cujo tema era um dos seus preferidos: o mar com todas as suas metáforas; também fala sobre Lisboa, nem sempre tão doce e amigável. Nota- se nos seus versos a vasta leitura, com muitas referências históricas e literárias. Destaco dois poemas, meus preferidos:

XIV

Através do teu coração passou um barco

Que nao pára de seguir sem ti o seu caminho

1982

Esse poema é uma referência ao poeta e político Jorge de Sena, que lutou pela liberdade numa época de ditadura em Portugal.

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O segundo poema evoca a Fernando Pessoa, o poeta dizia que pertencia à classe de portugueses que ficaram sem emprego depois da descoberta das Índias:

XIII

Canção rente ao nada

Do silêncio quieto

Da noite parada


Como se buscasse

Seu rosto e o errasse

1982

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Aqui um vídeo, um documental sobre poesia feito pela RTP, televisão portuguesa, onde mostra a Sophia e seu “Navegações” recitado por Rosa Lobato Faria, maravilhosa escritora, infelizmente falecida em fevereiro deste ano.

Andresen, Sophia. Navegações. Lisboa. Caminho, 2004.

Preço: 5.90 euros