“A morte do leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade


  Morte do Leiteiro (Carlos Drummond de Andrade)

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha

vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,  a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

(in: “A rosa do povo”, 1945)

Anúncios

Manuel Bandeira e Drummond no Parque dos Poetas em Portugal


Alguns sonhadores pensaram que seria uma boa ideia criar um parque onde a poesia fosse a grande atração. E realmente foi uma excelente ideia! Alguns dos idealizadores do parque:  Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras (1985-1989), o poeta e escritor David Mourão-Ferreira e o escultor Francisco Simões.

IMG_3881

Poesia com vistas ao mar. Esse é o labirinto.

O Parque dos Poetas é grande, tem “22 hectares de área verde. Quarenta artistas plásticos. Sessenta esculturas dos maiores poetas de sempre. Um museu ao ar livre. Equipamento desportivos, infantis, lúdicos. O magnífico Templo da Poesia. O único parque de poesia no mundo está em Oeiras.” É o único parque do mundo dedicado só à poesia!

leitura

O parque tem um edifício para exposições. No último andar, um mirador com vistas ao mar e uma sala de leitura com alguns livros, onde também se pode tomar um cafezinho e descansar.

Nele estão representados os 20 maiores poetas portugueses do século XX, 13 trovadores e poetas do Renascimento e 27 esculturas de poetas.

As  informações acima estão num planfleto informativo/mapa, que peguei quando visitei o parque nesse mês. Quem assina o texto é o atual presidente da Câmara, Paulo  Vistas. Ele esqueceu de mencionar os poetas de outros países lusófonos. Brasileiros há dois: Carlos Drummond de Andrade, que vai ficar para uma próxima visita (o parque é gigante, não deu tempo!) e Manuel Bandeira, que tem um cantinho muito especial no parque.

IMG_3914

O pernambucano Manuel Bandeira (Recife, 19/04/1886- Rio de Janeiro, 13/10/1968) foi poeta, cronista, tradutor, imortal da ABL (1940). Dele é o famoso poema “Vou- me embora pra pasárgada”:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

 E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Pasárgada foi uma cidade persa que não existe mais, hoje é território do Irã; um lugar, ironicamente, não muito conhecido por ser pacífico. A Pasárgada de Bandeira é mais idílica.

Escultura

Versos de Manuel Bandeira no Parque dos Poetas (Portugal)

Quem criou o conjunto de esculturas de Manuel Bandeira no Parque dos Poetas foi também um pernambucano, o fantástico Francisco Brennand (11/06/1927):

Francisco Brennand

O artista plástico pernambucano Francisco Brennand (Facebook)

Conheça um pouquinho mais do parque no vídeo abaixo (é curtinho). No chão do monumento à Bandeira está o poema “Canção das duas Índias”:

Entre estas Índias de leste
E as Índias ocidentais
Meus Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medeias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela d’alva
Longínquos como Oceanias
— Brancas, sobrenaturais —
Oh inacessíveis praias!…

Para a web do Parque dos Poetas, clique aqui.

Veja os finalistas do Prêmio Jabuti 2017


O Prêmio Jabuti já está na sua 59ª edição, é a mais importante premiação literária do Brasil. Dá prestígio, mas muito dinheiro não. O maior prêmio (bruto) é de 35 mil reais. Divulgaram os finalistas de 2017, são muitas categorias, vou listar abaixo só algumas,  mas você pode ler todas AQUI.

header-59-Premio-jabuti

Já temos listas de bons livros para colocar na nossa estante:

Romance

Título: A Tradutora – Autor(a): Cristovão Tezza – Editora: Record

Título: Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas – Autor(a): Elvira Vigna – Editora: Companhia das Letras

Título: Descobri que Estava Morto – Autor(a): J. P. Cuenca – Editora: Tusquets

Título: Machado – Autor(a): Silviano Santiago – Editora: Companhia das Letras

Título: O Marechal de Costas – Autor(a): José Luiz Passos – Editora: Companhia das Letras

Título: O Tribunal da Quinta-feira – Autor(a): Michel Laub – Editora: Companhia das Letras

Título: Outros Cantos – Autor(a): Maria Valéria Rezende – Editora: Companhia das Letras

Título: Simpatia Pelo Demônio – Autor(a): Bernardo Carvalho – Editora: Companhia das Letras

Título: Soy Loco Por Ti America – Autor(a): Javier Arancibia Contreras – Editora: Companhia das Letras

Título: Tristorosa – Autor(a): Eugen Weiss – Editora: @linkeditora


Contos e Crônicas

Título: Caixa Rubem Braga – Crônicas – Autor(a): Rubem Braga (autor), André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda, Carlos Didier (organização) – Editora: Autêntica

Título: Diário das Coincidências – Autor(a): João Anzanello Carrascoza – Editora: Companhia Das Letras

Título: O sucesso – Autor(a): Adriana Lisboa – Editora: Companhia das Letras

Título: Receita para se fazer um monstro – Autor(a): Mário Rodrigues – Editora: Record

Título: Rio em shamas – Autor(a): Anderson França – Editora: Companhia das Letras

Título: Se for pra chorar que seja de alegria – Autor(a): Ignácio de Loyola Brandão – Editora: Global

Título: Somos mais limpos pela manhã – Autor(a): Jorge Ialanji Filholini – Editora: Selo Demônio Negro

Título: Sul – Autor(a): Veronica Stigger – Editora: Editora 34

Título: Trinta e Poucos – Crônicas – Autor(a): Antonio Prata – Editora: Companhia das Letras

Título: Vossos velhos – Autor(a): Dayse Torres – Editora: Edição do Autor


Poesia

Título: A Palavra Algo – Autor(a): Luci Collin – Editora: Iluminuras

Título: Carcaça – Autor(a): Josoaldo Lima Rêgo – Editora: 7 Letras

Título: Dobres Sobre a Luz – Autor(a): Thiago Ponce de Moraes – Editora: Lumme Editor

Título: Identidade – Autor(a): Daniel Francoy – Editora: Urutau

Título: Livro das Postagens – Autor(a): Carlito Azevedo – Editora: 7letras

Título: Madrigaes Tragicomicos – Autor(a): Glauco Mattoso – Editora: Lumme Editor

Título: O Mar e o Búzio – Autor(a): Bruno Palma – Editora: Com-arte

Título: Quase Todas as Noites – Autor(a): Simone Brantes – Editora: 7letras

Título: Rol – Autor(a): Armando Freitas Filho – Editora: Companhia das Letras

Título: Tempo de Voltar – Autor(a): Mariana Ianelli – Editora: Edições Ardotempo


Teoria/Crítica Literária, Dicionários e Gramáticas

Título: Armas de Papel: Graciliano Ramos, as Memórias do Cárcere e o Partido Comunista Brasileiro – Autor(a): Fabio Cesar Alves – Editora: Editora 34

Título: Corpo no Outro Corpo. Homoerotismo na Narrativa Portuguesa Contemporânea – Autor(a): Jorge Vicente Valentim – Editora: EDUFSCAR

Título: De Volta ao Fim: O “Fim das Vanguardas” Como Questão da Poesia Contemporânea – Autor(a): Marcos Siscar – Editora: 7letras

Título: Graciliano Ramos e a Cultura Política: Mediação Editorial e Construção do Sentido – Autor(a): Thiago Mio Salla – Editora: Editora da Universidade de São Paulo / FAPESP

Título: Machado de Assis e o Cânone Ocidental: Itinerários de Leitura – Autor(a): Sonia Netto Salomão – Editora: EDUERJ

Título: Murilo Rubião e as Arquiteturas do Fantástico – Autor(a): Ricardo Iannace – Editora: Editora da Universidade de São Paulo / FAPESP

Título: Mutações da Literatura no Século XXI – Autor(a): Leyla Perrone-Moisés – Editora: Companhia das Letras

Título: O Mundo Sitiado: A Poesia Brasileira e a Segunda Guerra Mundial – Autor(a): Murilo Marcondes de Moura – Editora: Editora 34

Título: O Simbolismo: Uma Revolução Poética – Autor(a): Álvaro Cardoso Gomes – Editora: Editora da Universidade de São Paulo

Título: Sinuca de Malandro: Ficção e Autobiografia em João Antônio – Autor(a): Bruno Zeni – Editora: Editora da Universidade de São Paulo


Reportagem e Documentário

Título: A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih – Autor(a): Vicente Vilardaga – Editora: Record

Título: A Molécula Mágica – A Luta de Cientistas Brasileiros por um Medicamento Contra o Câncer – Autor(a): Carlos Henrique Fioravanti – Editora: Manole

Título: A Tortura como Arma de Guerra: da Argélia ao Brasil – Autor(a): Leneide Duarte-Plon – Editora: Civilização Brasileira

Título: Correspondente de Guerra – Autor(a): Diogo Schelp e André Liohn – Editora: Editora Contexto

Título: Era Um Garoto – O Soldado Brasileiro de Hitler – Autor(a): Tarcísio Badaró – Editora: Vestígio

Título: Ladrões de Bola – Autor(a): Rodrigo Mattos – Editora: Panda Books

Título: Nazistas entre nós: A trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra – Autor(a): Marcos Guterman – Editora: Editora Contexto

Título: O Livro dos Bichos – Autor(a): Roberto Kaz – Editora: Companhia das Letras

Título: Petrobras: Uma história de Orgulho e Vergonha – Autor(a): Roberta Paduan – Editora: Companhia das Letras

Título: Turno da Noite – Autor(a): Aguinaldo Silva – Editora: Companhia das Letras


E aí, quais as suas apostas? Boa sorte a todos!

Bernardo Guimarães sogro do sobrinho Alphonsus Guimarães


O escritor mineiro Bernardo Guimarães (1825- 1884), quase foi genro do seu sobrinho, o poeta Alphonsus Guimarães (1870-1921). Bernardo casou- se tarde, aos quarenta e dois anos e teve oito filhos. A filha Contança morreu com dezessete por causa de uma tuberculose. Ela era noiva do poeta Alphonsus Guimarães, seu primo. Alphonsus era filho da irmã de Bernardo. Compreendeu? Talvez você tenha que ler outra vez 🙂

icon960833_029

Acima, retrato de Alphonsus Guimarães feito por M.J. Garnier, de escritores nascidos entre 1870 e 1872. Veja o fac- símile, na Fundação Biblioteca Nacional. Há outros trinta e nove retratos, a maioria eu não conheço e fiquei com vontade de conhecer. Só há quatro mulheres , Ibrantina Cardona, Amelia Alves, Elvira Gama e Julia Cortines. É uma pena não saber mais detalhes sobre esse livro, se os escritores posaram para o desenhista. Creio que os retratos devem ser bem fidedignos, já que foi publicado em 1920 (Alphonsus morreu em 1921). Nesse anno de 1920, “ano” escrevia- se com dois enês. Outro detalhe: vejo em muitos sites e livros a grafia de “Guimarães” escrita “Guimaraens”, o que não confere com esse livro contemporâneo do autor.

Voltando ao caso ABL. No site dos imortais, cita o verso que o poeta apaixonado, Alphonsus, dedicou à namorada falecida: “se morreu fulgente e fria”. Veja o poema na íntegra:


Hão de chorar por ela os cinamomos

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. .
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — “Por que não vieram juntos?”

O soneto é lindo, não? (não esqueça: soneto é um poema de quatorze versos, dividido em quatro estrofes, dois quartetos e dois tercetos).
Esse amor passou e veio a Zenaide. A família Guimarães cresceu bastante, o poeta de “Ismália” (obra- prima!) teve quinze filhos.
Eu achei esse artigo  comentando que a ABL repassou o erro de um crítico, e que a palavra original no poema realmente é silente. Se a ABL repassou mesmo o erro, por que ainda permanece nele?
Eu sempre consulto a ABL para biografias e afins, por considerar a fonte mais fiável, por isso acho estranho tudo isso. Ficou a dúvida.
A única forma de conferir é consultando alguma primeira edição, um fac- símile, coisa que eu não encontrei.
Você aí, tem alguma edição antiga com esse poema? Vamos caçar esse livro?!

 

Você sabe o que significa “serendipity”?


O termo “serendipidade” vem do inglês “serendipity”. A palavra foi inventada pelo escritor britânico Horace Walpole (século XVIII), ela apareceu em um dos seus contos.

O “serendipismo” acontece quando algo muito legal surge por acaso. Exemplo: um físico está estudando sobre a teoria de cordas e descobre um novo elemento químico, que não tem nada a ver com seu estudo inicial; você está procurando o fio do seu computador e encontra os seus óculos perdidos há meses; a moça cruzou a rua fugindo do ex- namorado e esbarra no seu novo amor. A história está cheia de casos de cientistas que estudavam uma coisa e encontraram outra.

“Serendipity” está relacionada com acontecimentos bons e agradáveis, então é uma palavra feliz. Em espanhol, “serendipia”. Esse post surgiu, serendipitosamente, quando eu procurava ontem um romance clássico na livraria e encontrei esse de poesia contemporânea espanhola:

 

20292955_835630809925814_2228474037094248917_n

20376048_835630786592483_3204756588155701777_n.jpg“Descobrimento feliz e inesperado que acontece quando se está procurando outra coisa diferente”.

20374781_835630789925816_6829196623110258514_n“Eu me perdi./ No caminho/ descobri alguém.// Era eu.// Não tenhas/ medo de procurar respostas.// Porque, do contrário,/ terás uma vida/ cheia de perguntas.”

12279156_10205192228144605_8350898324068306919_n

David Sadness  (nome artístico de David Olivas) é um jovem fotógrafo e poeta de Albacete, Espanha.

Onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos


Em 2001, Ray Bradbury participou de um simpósio de escritores na PLNU (Universidade de Point Loma Nazarene- San Diego, Califórnia), deixando onze conselhos para escritores novatos.

20ventura600Ray Bradbury, aos 88 anos (junho 2009), para o NYT: “Eu não acredito em escolas e universidades. Eu acredito em livrarias”

Se você tem 15 ou 75 anos e sonha em ser escritor, dá uma olhada nesses excelentes conselhos para sonhadores de todas as idades:

1– Comece pelos contos curtos
Bradbury aconselha a não começar pelo romance. “O problema com os romances é que você  pode ficar um ano escrevendo um e pode não ficar bom, já que você ainda não aprendeu a escrever”. O ideal é escrever muitos contos curtos, mesmo que sejam ruins, servem para treinar. “Te desafio a escrever cinquenta e dois contos ruins. Não se pode”. E praticando… “certamente chegará uma história maravilhosa”.

2. Não tente imitar os seus autores favoritos
Procure o seu próprio estilo. Bradbury cita como um erro da sua juventude, quando tentava imitar os autores que ele admiraba, entre os quais, Julio Verne, Arthur Conan Doyle e H.G. Wells. “Você não pode ser nenhum deles” (…) “você pode amá- los, mas não pode vencê-los”.

3. Aprenda com os grandes contistas
Bradbury cita como mestres dos contos curtos: Roald Dahl, Guy de Maupassant, John Cheever, Nigel Kneale, Edith Wharton e John Collier, que o aspirante a escritor deve ler e estudar. Também aconselha afastar- se das histórias contemporâneas como as publicadas pela revista New Yorker, pois “carecem de metáforas”, só retratam a vida cotidiana.

4. Use muitas metáforas
“Metáfora” é uma figura retórica de pensamento e talvez seja o recurso mais utilizado pelos escritores, de um modo geral (quer um post sobre as metáforas? Se sim, escreva seu desejo nos comentários!).

Bradbury não se considera um romancista nato, mas um “colecionador de metáforas”. Por isso,  o escritor novato tem que “engolir” obras literárias clássicas, para ampliar os seus recursos, que serão depois utilizados para criar as suas próprias histórias.  O autor sugere a leitura, todas as noches, de um conto, um poema e um ensaio, especialmente os de George Bernard Shaw. Segundo Bradbury, com essa rotina você vai acabar  “cheio de ideias e metáforas” na cabeça,  que combinadas com sua perspectiva e experiências de vida irão gerar novas metáforas e ideias.

5. Afaste- se das pessoas que não acreditam em você
Está cercado de pessoas que não acreditam no seu sonho de ser escritor e até tiram sarro disto? Conselho de Bradbury: “Chame- os hoje mesmo e despeça- se deles. Serve para qualquer coisa.

6. Visite a biblioteca com frequência
Bradbury não tinha nível superior, não pode pagar seus estudos, foi autodidata, se formou na biblioteca. Ele ia três, quatro vezes por semana, durante dez anos. “Viva na biblioteca, não no seu computador”. Sim pessoal, ler um livro é muito mais confiável, estimulante e completo, que pegar textos mastigados, curtos e duvidosos da internet. Vá direto na fonte: os livros. E o mais legal: viciam.

7. O cinema como fonte de inspiração
Bradbury frequentou cinemas desde criança. Cinema é magia pura e uma incrível fonte de inspiração para novos escritores. Procure os filmes clássicos, principalmente.

8. Divirta- se criando e escrevendo
Escreva para divertir- se, não se leve tão a sério, relaxe. Se começar a escrever e a história transformar- se em “trabalho”, jogue no lixo e tente outra vez. “Se a mente ficar em branco no meio de uma história, é o seu subconsciente te dizendo que não gosta do que está fazendo”.

9. Esqueça o dinheiro
Bradbury  foi valente e recusou grandes quantidades de dinheiro, quando lhe ofereceram para escrever sob encomenda, sabia que isso lhe “destruiria”, porque iria escrever o que não desejava. “Minha esposa e eu tínhamos  trinta e sete anos quando pudemos comprar o nosso primeiro carro”. Quem te disse que seria fácil?

10. Escreva duas listas
O que você ama e o que você odeia? “Escreva uma lista com dez coisas que ama apaixonadamente e escreva sobre elas. Faça uma lista com dez coisas que você odeia e as mate”. Escreva sobre as personas que você odeia, sobre seus medos, pesadelos e os mate.

11. Escreva sobre a primeira coisa que vier na sua cabeça
“Quando começo a escrever nunca sei aonde vou, todos meus livros foram surpresas”. O autor recomenda começar associando palavras que venham na cabeça. “Com sorte, no final da segunda página, começarão a aparecer personagens” provenientes da sua “verdadeira essência”. Dessa forma, você irá descobrir coisas sobre si mesmo que não sabia.

Deixo aqui a conferência de Ray Bradbury na íntegra. Mesmo que você não entenda inglês, vale a pena dar uma olhada, pelo menos para conhecer a voz do autor, muito simpático por sinal. Espero que estes conselhos te ajudem. Se você colocar esses exercícios de escritura criativa em prática venha me contar se funcionaram.

Ah, e volte rapidinho aqui, pois a resenha de “Fahrenheit 451”, a obra- prima de Bradbury, está para sair!

 

 

 

 

 

 

Um dos maiores escritores espanhóis na prisão


O poeta e dramaturgo madrilenho Lope de Vega (Madri, 25/11/ de 1562 – Madri, 27/08/1635) de origem humilde, com uma vocação muito forte para as Letras, ainda com cinco anos já lia em espanhol e latim. Na adolescência, com 15 anos, tentou vender joias e prata na cidade de Segóvia junto com uns amigos. Surgiu a desconfiança de que eram peças roubadas. Não ficou claro se eram ou não. Não encontrei muitos detalhes, mas é sabido que ficou preso alguns dias na prisão da ” Calle Juan Bravo” esquina com Calle de la Herrería “, conhecida como “Prisão Real” ou “Prisão velha”, edifício do século XVI, que pertence à prefeitura. Hoje funciona como casa de leitura “Lope de Vega”. Quem diria, não?

Neste edifício, antiga cárcere da cidade, hoje destinado à biblioteca, esteve preso o poeta e dramaturgo Lope de Vega.

O edifício mantem as características originais, as grades nas janelas.

Segóvia é uma cidade que fica na província de Castela e Leão (“Castilla y León”), a 90 Km de Madri,  com 52 mil habitantes, população que deve triplicar com o turismo diário. A cidade tem um aqueduto construído pelos romanos no século II d.C., foi construído sem nenhum tipo de argamassa, é pedra sobre pedra. Uma edificação muito engenhosa e que está intacta há 1800 anos. O aqueduto transporta a água das montanhas para abastecer a cidade. Foi tombado patrimônio da humanidade pela UNESCO. Minha reverência e respeito aos nossos antepassados, ao povo romano, sem eles, sem dúvida, os avanços para o progresso da humanidade teriam sido muito mais lentos.

Além do aqueduto, há o Castelo de Alcázar, que é aquele típico castelo de contos de fadas. Inclusive o  da Disney foi inspirado nele.

Uma das vistas do castelo, ontem, 12 de março.

A cidade inteira é um cenário de filme medieval. Há um bairro judeu com comidas típicas, as casas , praças, igrejas, tudo muito bem conservado. O povo espanhol sabe preservar a sua memória histórica. Também há que se provar a gastronomia local, um prato tradicional de feijão branco gigante, os “judiones” e seus doces típicos, como o “ponche”, um bolo de amêndoas com creme, simplesmente delicioso! Então, fica a dica de uma cidade que você não pode deixar de visitar na Espanha, Segóvia. 

Proibida cópia e reprodução de texto e fotos sem autorização prévia.