“A expulsão do diferente”, do filósofo Byung- Chul Han


O filósofo sul-coreano Byung- Chul Han (Seul, 1959), foi um grato descobrimento. O autor fala sobre problemas dos nossos dias e eu acabei fazendo uma reflexão sobre alguns deles. Ele começa dizendo em “La expulsión de lo distinto” (“A expulsão do diferente”), que “o corpo social” está doente.

A padronização de condutas e comportamentos está orquestrada para eliminar os diferentes, porque o diferente não convém ao sistema. A proliferação do igual está provocando patologias, porque a essência humana é heterogênea.

A doença social é gerada por um excesso de informação e um excesso de permissividade, curiosamente.  Mas não é o que vem de fora o nosso principal algoz. Segundo o autor, não é a proibição ou a repressão o motivo da depressão nos tempos atuais: a pressão não vem do outro, vem do interior. Ou seja, o pior inimigo do sujeito é ele próprio:

A depressão como pressão interna desenvolve traços autoagressivos. O sujeito que, sentindo- se obrigado a mostrar rendimento, torna- se depressivo em certa maneira e se mói a pauladas ou se asfixia a si mesmo. (p.10)

Vou mostrar algo mais prático: existe uma expressão em inglês para o fato de assistir séries sem parar, “binge watching”. É o consumo de vídeos e filmes sem limite temporal. Há pessoas que assistem uma série inteira em um fim de semana. É como se a pessoa entrasse “em coma”, segundo o filósofo. A pessoa fica indefesa.  Isso é o “excesso do igual”. Todo mundo faz, parece legal, então você faz também.

Outro exemplo que o autor dá: as viagens. A maioria das pessoas viaja só para subir fotos nas redes sociais e para contabilizar países visitados. É como se viajasse sem viajar, porque a maioria não adquire nenhum conhecimento.

E ele fala das redes sociais, que é o meio mais anti- social que existe. Engraçado que eu comentei recentemente exatamente este fato com três amigas. O autor diz que “os meios sociais representam um grau nulo do social”.

No Brasil, poucos se expõem no Facebook, por exemplo, por medo de serem julgadas, por medo de que algo dito seja usado contra elas, por medo de serem prejudicadas profissionalmente, por medo de discussões…resumindo: por medo. Por medo de serem quem são e desagradar. “O que eu ganho com isso?!”, ainda que percam a si mesmos, porque agradar o outro é mais importante. É um padrão comportamental nas redes e na vida. Há algo de superstição também, pode “dar azar” ou atrair inveja, olho gordo, essas coisas. Negar o diferente é essencial. Fazer parte da corrente e encaixar é o que importa, ainda que o pé seja 38 e o sapato um 35.

As pessoas se reprimem e ficam doentes. A expressão é uma das funções básicas e primárias do ser humano. Ser humano baú fica pesado e sufocado. O que o outro pensa importa tanto assim? Claro. A aprovação alheia, a popularidade, o sentir- se querido, a imagem projetada, ainda que irreal (e surreal muitas vezes) é o que motiva as pessoas à padronização. Essas pessoas negam o diferente, e a essência disto é a dor (leia na página 12).

Vivemos na era da contradição. Com tanta informação e redes sociais, mas estamos cada vez mais mudos e sozinhos. Falar virou tabu. O silêncio está sobrevalorizado.

A qualidade da informação que nos é fornecida também é questionada pelo autor. Não há causa e efeito, “é assim e pronto”. As pessoas estão saturadas, nem se dão o trabalho de averiguar a causa e efeito das coisas, por isso é tão fácil eleger um presidente inepto através de redes sociais, porque os algoritmos estão feitos para encontrar pessoas que pensam igual, com os mesmos interesses, uma espécie de auto- doutrinação, já que só chega até a pessoa “notícias” que lhes são afins, como se fossem verdades únicas e incontestáveis. Os macro- dados correlacionam tudo e fazem supérfluo o pensamento.

Eu amo a Filosofia, porque é o ramo que melhor nos explica.

O pensamento tem acesso ao completamente diferente. Pode interromper o igual (p.13).

Por isso, pense, por favor. Não seja só leitor de manchetes. Abra os links, leia a notícia, preste atenção no autor, para quem ele trabalha e na intencionalidade do texto. Observe o outro e o porquê dele pensar como pensa. Se forem pensamentos destrutivos a si mesmo e aos demais, só a palavra pode salvar. A omissão vem destruindo e matando. Nós podemos romper essa cadeia de pensamento vicioso, circular, destrutivo, de que o outro é inimigo. Não é. Essa semente do mal foi plantada e vem sendo cultivada para dividir. O outro é projeção do que você tem dentro.

O autor cita Heiddeger, o filósofo alemão, que diria hoje sobre esse barulho todo das redes sociais, que “nos converte em surdos diante da verdade e para o seu silencioso poder violento (p.14). Surdos e mudos, digo eu.

Ele fala do hiperconsumo, da hipercomunicação, da hipervisibilidade, da hiperprodução do corpo como objeto funcional e culpa o neoliberalismo, as pessoas têm que render, são só números para este sistema econômico feito para hiperfaturar.

Esse universo neoliberal, que pode ser um pesadelo, foi retratado no filme “Anomalisa”, dica do autor. O neoliberalismo padroniza, nos quer transformar a todos em iguais. O protagonista, Michael Stone, dá palestras de motivação empresarial com muito sucesso, escreveu um livro, mas deprime- se, deixa de ver sentido em tudo. Ele ouve vozes iguais e rostos iguais. Não consegue distinguir adultos de crianças. É como se fosse uma sociedade de clones. Ele viaja para uma palestra e encontra uma mulher diferente, Lisa. Ele é a única que tem a voz diferente, considera- se feia, está acima do peso e tem uma cicatriz no rosto. Está fora dos padrões. Ele apaixona- se por ela. É a única diferente. Esse filme é interessantíssimo. Em japonês, “anomalisa” significa a “deusa do céu”. Ela, que parecia “anormal”, foi a salvação do palestrante, que antes era um fantoche controlado à distância.

Creio que se não formos nós mesmos, seja na vida diária ou nas redes sociais, não somos nada. Quando deixamos de pensar e de nos expressar por medo do que pensem sobre nós e para atender os esquemas pré- determinados, que beneficiam só aos próprios, estamos mortos e enterrados em vida. Perfeito para o poder: uma legião de zumbis.

O filósofo aponta coisas interessantíssimas sobre as consequências negativas que o neoliberalismo provoca nas pessoas. Esse sistema incita a que as pessoas sejam autênticas e criativas. A princípio isso parece muito bom, não é? E deveria ser, mas o que fazem com isso é que é ruim. Nos “ensinam” que devemos ser criativos, inovadores, empreendedores, sermos livres dos esquemas e criarmos a nós mesmos.

Você estudou, virou adulto, e só pensa em si, no seu umbigo, questionando- se e vigiando- se o tempo todo, tornou- se um narcisista, nunca foi programado para pensar na coletividade. Isso é que o neoliberalismo no Brasil fez com gerações e gerações: obrigou que cada brasileiro fosse produtor de si mesmo. Isso gerou uma pressão interior tremenda e as patologias psicológicas que meio Brasil sente. “Eu sou mercadoria, sou autêntico, preparado, e se ninguém me compra? Não valho nada!”.

Entendeu?

Para entender mais, porque tem MUITO mais, leia esta brilhante obra. O autor correlaciona padrões sociais super- destrutivos dissimulados no tecido social e que explicam comportamentos suicidas, depressivos e terroristas.

Não se engane: nada é por acaso. Tudo, absolutamente tudo na vida, é causa e efeito.

 

 

Esta foi a edição lida
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A cultura dos macacos


Quanto mais eu vejo os resultados do que fizeram conosco, mais acho necessária a literatura, que descortina e faz pensar.

Digo “eles”, esses poucos que detém o grande volume de dinheiro e que manipulam “a massa” como bem entendem. “Massa” é uma expressão detestável. Massa não tem forma, é homogênea, sem vontade, sem importância, inanimada, tal como o poder pensa mesmo da sociedade. Massa serve para ser moldada. Nós temos que ter consciência de que somos parte desse processo “invisível”, cruel e imperceptível para uma grande parte da população mundial.

Li recentemente um livro sobre gestão de conhecimento de um cubano radicado nos Estados Unidos, um manual de como os empresários devem proceder para ter êxito no uso e organização do Conhecimento. Até isso (ou principalmente) os capitalistas selvagens conseguiram colocar preço. Eles decidem que tipo de Conhecimento interessa  e o que não. Mas veja: muitos usam a Filosofia para sustentar suas teorias, até o capital precisa das Ciências Humanas muitas vezes ridicularizadas e desvalorizadas por eles mesmos.

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Empresários em suas escolas de negócios caríssimas, exclusivas para poucos, são programados para a desumanização. Pessoas são números ou siglas,  e são utilizadas para gerar  lucros. “Útil” é a palavra essencial. Um clássico. Desumanizam- se para que nada atrapalhe a sua escalada profissional. Se a mãe ligar: ignore; se o filho cair doente, outra pessoa deve resolver esse “percalço”. Responder amigos? Nem pensar. A história do “time is money” é levada a sério. Você pensa que o mundo é como é, tão violento e desigual, por acaso? Não, isso é trabalhado diariamente.

Este é um assunto complexo. Eu só vim para acender uma faísca, comece a pesquisar sobre o assunto: como o Conhecimento é gerido pelo poder.

Vou deixar um texto retirado deste mesmo livro e que ensina o valor do (mau) hábito. O autor foca como algo negativo, mas no sentido de que tal comportamento empresarial pode barrar a criatividade. Mas eu observei sobre outro ângulo: o do empregado e da passividade da população diante das injustiças. É um texto que serve para a vida de um modo geral:

“Um grupo de cientistas colocou cinco chimpanzés em uma jaula e no centro foi colocada uma escada e, sobre esta, uma penca de bananas.

Quando pela primeira vez um chimpanzé subiu a escada para pegar as bananas, os cientistas jogaram um jorro de água gelada sobre os macacos que ficaram no chão.

Passado algum tempo, quando um chimpanzé subia as escadas, os outros bateram nele.

Depois, nenhum macaco tentou mais subir a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos macacos.

A primeira coisa que o novo chimpanzé fez foi subir a escada, mas foi rapidamente retirado na base de murros pelos outros.

Depois de mais algumas porradas, o novo macaco não tentou subir mais as escadas.

Um segundo macaco foi substituído e ocorreu a mesma coisa. O primeiro macaco substituído participou com entusiasmo da surra ao novato.

Um terceiro chimpanzé foi substituído e os fatos se repetiram.

Os cientistas chegaram a ter cinco chimpanzés que, ainda que nunca receberam o jato de água fria, continuaram batendo em quem tentasse pegar as bananas. No final, nenhum macaco daquele grupo tentou comer as bananas.

Se fosse possível perguntar aos macacos o porquê de baterem em quem tentasse subir a escada, certamente a resposta seria:

Não sei! Aqui as coisas sempre foram assim!”

Esses macaquinhos fazem coisas mecânicas, repetitivas sem saber o motivo,  porque foram manipulados a fazer isso.

Não seja como esses macacos em nenhuma circunstância da sua vida, porque é perder- se de si mesmo, é não ter personalidade, isso sim é não ser ninguém.

Se te jogarem um balde de água fria para evitar que você suba em algum lugar, não desista, procure outro caminho, não se deixe intimidar. Eles são experts em bloquear o caminho dos macacos ou moldá- los de acordo às suas necessidades, por isso eles têm o poder. Macaco amestrado não pensa e obedece.

Sim, nós podemos fazer diferente e nadar contra a corrente.

 

Daqui a 100 anos: a minha cápsula do tempo


Estou pensando em uma questão transcendental e inexorável: eu vou passar e esse blog vai ficar aqui. E eu acho isso genial! Será que no futuro esses blogs terão alguma importância? Formarão  parte do conjunto do pensamento 2.0? Dos anos 2000, digo?

Eu vou passar, mas as opiniões sobre todos os livros que li aqui ficarão. Pelo menos para que a minha filha leia. Oi, filha, será que você está lendo isso? E os meus netos? Oi, queridos netos, vovó já os amava antes mesmo de serem projeto de gente! hahaha.

Que importância isso pode ter? Não sei. Nenhuma, provavelmente, a não ser para deixar uma marca pública da minha passagem pela Terra. Gosto da ideia de deixar algum pensamento meu plantado para o futuro. Isso é um livro virtual. É sim.

É legal dialogar com o futuro. Durante uma fase eu pensava mais no passado do que no futuro, isso era meio deprimente e nostálgico; pensar no futuro é mais interessante, porque tudo é possibilidade e sonho. Tudo pode acontecer. O passado já está sacramentado, nada pode ser diferente, cristalizou. A única coisa ruim do tempo é que a gente vai tendo menos tempo. Morrer só é ruim, porque dá pena deixar as pessoas e coisas que amamos. “Coisas”, como tomar um café gostoso ao acordar, ler um bom livro, caminhar ouvindo minhas músicas preferidas, olhar as estrelas…  esse tipo de “coisa”, nada material. A morte em si não é ruim, deve ser uma aventura, uma viagem onde a alma viaja livre, sem a limitação do corpo. Eu acredito na imortalidade da alma. A morte deveria ser matéria na escola e ninguém deveria sentir medo. Deveriam preparar- nos pra morrer e para perder quem amamos. E isso não é nada mórbido, evitaria muito sofrimento inútil. Por que falar de morte é tabu?

Daqui a 100 anos, creio que tudo vai estar muito parecido, algumas coisas melhores outras piores, mas algumas serão geniais. A Ciência e a Tecnologia irão evoluir bastante, mas as desigualdades sociais, catástrofes naturais e meio ambiente, estarão piores. O homem, o mundo,  são feitos mesmo de contrastes.

Acho que ninguém irá morrer por causa de câncer, mesmo em estágios avançados, porque a regeneração celular será possível em qualquer tempo; a natureza estará muito mais deteriorada e algumas pessoas irão morrer de calor ou de frio, as temperaturas serão extremas no verão ou inverno. Haverá mais catástrofes naturais.

As guerras no Oriente Médio serão as mesmas; a fome na África, idem. Os ricos estarão mais ricos que nunca e os pobres, já sabem.

Novas profissões irão surgir, como os “coaches” mentais, que ensinarão as pessoas o domínio próprio e alheio das forças da mente. Será possível mover objetos e controlar doenças psicológicas como as depressões e ansiedade, porque os cientistas irão descobrir o ponto exato do cérebro, poderemos dominar essas esferas. A alma será cada vez mais paupável.

O catolicismo estará agonizando e o Brasil será uma grande maioria evangélica.

Todos os carros serão elétricos. Sou mais realista que Marty MacFly (do filme “De volta para o futuro”) que pensou que em 21 de outubro de 2015 existiria carros voadores, skates voadores e afins.

Veneza estará abaixo do mar.

Livro em papel será objeto de museu.

Daqui a 3, 4 gerações (mais de 100 anos), metade da população mundial terá sangue chinês.

O Brasil terá outra moeda, o real será coisa do passado.

Mas, agora vou parar de falar de como acho que será o futuro e vou falar como é o presente para que os nossos descendentes não repitam os mesmos erros.

Um dos piores problemas do nosso tempo é a solidão e o desamor. Tentem não ficar sozinhos e cultivem amores, de todos os tipos.

Aqui no nosso tempo, todo mundo só pensa em dinheiro. Todos, sem exceção. Dinheiro é o início, meio e fim de tudo. E ninguém é feliz.

O consumismo impera, não existe consciência ecológica.

Ainda existe petróleo e pouco pensa- se em energias renováveis. A água anda escassa em vários lugares do mundo. Ninguém está preocupado, exceto os cientistas sem voz.

Não existe pensamento de bem-estar  comum. O ser humano e seu umbigo.

O político corrupto é problema generalizado no mundo.

A honestidade vira notícia  de jornal.

Mata- se e rouba- se por muito pouco.

O casamento é uma instituição falida. A maioria finge que é feliz, conforma- se, leva dupla vida ou empurra com a barriga. Ah, e mais da metade acaba em divórcio pra casar de novo e ser infeliz mais uma vez. Espero que vocês aí do futuro tenham encontrado alguma forma de relacionamento mais honesta e sincera, sem papéis, prisões e promessas impossíveis de serem cumpridas.

O funcionalismo público no mundo funciona mal por causa da burocracia e incompetência.

As pessoas estudam pouco, lêem pouco e muitas fingem que o fazem. O mesmo serve para o trabalho.

A vida cotidiana é tremendamente injusta; alguns terão tudo sem fazer nada, nem merecer. Merecimento aqui no nosso tempo não vale muita coisa.

As pessoas trabalham muito, divertem- se pouco, dormem pouco. Em contrapartida, muita gente está desempregada.

Todas as coisas, as mais importantes, são conseguidas por uma rede de amizade e de favores.

A sinceridade é considerada falta de educação.

O otimismo está em baixa. Mas a esperança ainda continua firme e forte.

As relações virtuais substituíram as reais. As crianças, principalmente nas grandes cidades, brincam mais com máquinas, que com outras crianças, desde muito cedo.

O sintético e a estética são mais importantes que a ética.

Espero que vocês aí no ano 2115 sejam mais espertos, mais humanos, mais saudáveis, que as estruturas sociais sejam mais justas e que não impeçam ninguém de serem quem são e que tudo de ruim que eu comentei aqui seja só coisa do passado.

A estrutura do pensamento na escrita, por Rômulo Pessanha


Texto enviado por Rômulo Pessanha, formado em Letras,  que veio contribuir com a nossa Oficina de Escritura Criativa. Sobre o pensamento e o ato de escrever. Muito bom, não deixe de ler!


 

A estrutura do pensamento na escrita

Inicialmente observemos um pequeno trecho do texto do livro Livro de José Luís Peixoto:

“Maman.

O toque do xaile em que me embrulhava.

Oui, maman.

Baixa as pálpebras. Sai do quarto. Devagar. A porta a fechar-se como quando me deixava a adormecer.

Abro o livro e leio a primeira frase:

A mãe pousou o livro nas mãos do filho.”

(…)

Até aqui, como podemos verificar, tudo não passa de uma breve descrição do filho sendo coberto pela mãe ou o filho lembrando a cena da mãe que coloca o personagem para dormir. Seria apenas a lembrança de um personagem contando para nós um fato de seu passado mas, como se trata de um personagem ele é fruto da imaginação de quem o criou. Ou seja, poderia ser dito que o personagem enquanto criação ficcional do autor, estaria aos poucos se desprendendo de seu criador e tomando vida própria. A criação passa a criar e a pensar por si mesma e assim uma nova vida surge já adulta contando o seu passado quando era bebê. Então, poderíamos supor que a imaginação criaria novas vidas que seguiriam autônomas e independentes de quem as criou. Prossigamos:

“Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. É a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, têm para sugerir eternidade. Se acaba conforme começa é porque não acaba nunca. Mas tu, eu, os Flauberts, os Joyces, os Dostoievskis sabemos que, para nós, acaba. Com um ligeiro desvio, os círculos transformam-se em espirais e, depois, basta um ponto como este: . O bico de uma caneta espetada no papel. Um gesto a acertar na tecla entre , e -. Um movimento entre um quadradinho de plástico. Isto: . Repara Como é pequeno, insuficiente para espreitarmos através dele, floco de cinza a planar, resto de formiga esmagada. Se o pudéssemos segurar entre os dedos, não seríamos capazes de senti-lo, grão de areia. Mas tu ainda estás aí, olá, eu ainda estou aqui e não poderia ir-me embora sem te agradecer.”

Escrever é um ato de agradecimento para todos aqueles que irão um dia, nos ler. É uma forma de pela escrita, pelo tecido do texto, (que até mesmo parece redundância falar em texto e em tecido numa mesma frase) de nos tornarmos imortais. Esse agradecimento só é possível se nos tornarmos criação, personagens feitos por nós.

Cada ponto é um ato de bravura e de luta da parte de quem viveu para contar. A nossa voz poderá ser um ponto de vista a partir do olhar do outro. Dessa forma, acabaríamos, acabaremos, sendo criação dos leitores, entendidos como aqueles outros que nos leem, mesmo que falássemos em primeira pessoa. Como dar forma à nossas vidas? Algo sobre isso nos fala Georg Lukács em “As almas e as formas literárias”:

El valor vital de um gesto. Dicho de outro modo: el valor de la forma em la vida, el valor de las formas, que crea vida y la exalta. El gesto es solo el movimento que expressa claramente lo inequívoco, y la forma es el único caminho de lo absoluto em la vida; el gesto es lo único que es consumado em sí mismo, uma realidade y más que mera possibilidade. Sólo el gesto expressa la vida. Pero?se puede expressar uma vida? ? No es ésta la tragédia de todo arte vital, que quiere construir com aire um castillo de cristal, que quiere construir entre los hombres el puente de sus formas mediante el encuentro y la separación de las almas? ?Puede haber gestos? ?Tiene sentido el concepto de forma desde la perspectiva de la vida?”

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Como permanecer vivo? Escrevendo, criando, seria uma resposta simples. O pensamento situando-se nas palavras e as palavras carregadas de sentido e esse sentido criando formas de expressão seria, e aqui poderíamos dizer praticamente de forma afirmativa, que a própria pessoa estaria desdobrada na sua forma de escrever. A nossa existência se completaria com a forma que damos ao nosso texto. E tomando o texto que escrevemos como decorrência do que somos no que diz respeito a todos os aspectos da personalidade humana, somos exatamente aquilo que escrevemos. Escrevendo permaneceríamos eternamente pensando com as mentes dos leitores que por sua vez multiplicariam a nossa existência em várias outras da mesma forma que criamos personagens e lhes damos vidas independentes. O problema é que o pensamento é rápido e a escrita deve ser moldada para captar tal fenômeno. Outro problema é que a vida humana também é rápida e sendo apenas um instante em que se escreve, a vida deve possuir um objetivo para que possa ser dado um impulso criador e iniciante dessa vida que se pretende começar e iniciar na escrita. Escrever é um momento de uma vida de um autor real. O personagem vive para sempre, ele e a forma que o autor lhe deu.

Assim, a professora Cinda Gonda* nos diz então que:

“Dois princípios — continuidade e descontinuidade —  parecem presidir o percurso da existência. Talvez aí, na tensão de limites fixados por Eros e Thánatos, resida a noção de insólito. Insólita é a vida, insólito é o pacto com o instante, aquele que, na condição de mortais, nos foi concedido. Variados caminhos, feitos de desvios e atalhos, se delineiam à nossa frente, na tentativa fugaz de assegurarmos a permanência. A arte é um deles. Se insólita é a vida, a arte seria o seu duplo.”

Aqui devemos perceber que talvez Thánatos possua um valor de destruição dos tecidos criadores da vida. Eros construiria enquanto Thánatos destruiria. Entendo que Eros é dualidade e se ele, que pode ser vida e morte, se junta à destruição que é a Thánatos, então Eros seria a força que levaria todos os seres vivos somente para a morte. Deixo bem claro que os conceitos de Thánatos, Eros e Psyché devem ser bem detalhadamente estudados para que não seja feita confusão entre seus sentidos ou conceitos. Aqui são vistos apenas superficialmente.

Prefiro dizer ainda aqui em primeira pessoa, que acredito muito mais na arte como vida. Então Eros se casaria perfeitamente com a Psiché. Se a vida é pura forma de pensamento então a existência humana não é nem morte nem vida, o que estaria de acordo com o par Eros – Thánathos, porém seria apenas um vir a ser, uma possibilidade de ser e nunca uma certeza de morte absoluta. Mas, a partir do momento em que percebemos que através da forma escrita sobrevivemos à destruição da vida causada pela morte, então a Psiché humana sobrevive de uma forma que vai muito além da dualidade morte-vida contida em Eros. A Psiché se torna quintessência de pensamento que não pode ser destruída nem pela forma de expressão mesmo que ela seja até mesmo impedida de se manifestar e concretizar pelo aspecto material, como palavras, sons, pinturas, pois sendo quintessêncializada a Psiché, se indentificando com a consciência ou o pensamento humano possuria uma força criadora muito mais potente e eficaz para se manifestar e criar a sua forma de expressão que seria a princípio, a nossa velha vontade de arte, a vontade de criar arte. A arte estaria escrita no pensamento como a vontade ou impulso como uma construção a imagem e semelhança de si mesma.

A ficção então é insólita porque a vida é insólita. Qual o sentido da vida? Qual o sentido do tempo de vida que possuímos? Porque aceitamos tão fielmente como realidade aquilo que já nos é dado a conhecer de antemão como ficção? Por que se podemos dar vida aos nossos personagens, não conseguimos controlá-los? Por que, se somos donos de nossos destinos e dos rumos de nossas próprias vidas, não conseguimos planejar tudo certinho como queremos? Enfim, se por um lado nem conseguimos controlar as nossas criações ficcionais pelo outro, não conseguimos manter um controle total sobre nossas vidas pelo menos o tempo todo.

Porque:

“Agradeço-te por teres aceitado que este livro se transformasse em ti e pela generosidade de te teres transformado nele, agradeço-te pela claridade que entra por esta janela e por tudo aquilo que me constitui, agradeço-te por me teres deixado existir, agradeço-te por me teres trazido à última página e por seguires comigo até à última palavra. Sim, tu e eu sabemos, isto: . Insignificância, pedaço de nada, interior da letra ó. Mas isso será daqui a pouco. Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui.”

Aqui quero fazer uma observação quanto à “isto: .”. Repare que só coloquei ponto depois das aspas. É porque “Isto: .” é especial. “isto”, escrito como está com dois pontos, me passa a ideia de que entre “isto”, ou seja, aquilo que queremos apresentar ou dizer e o ponto, que sempre é a marca de final das orações, existe justamente aquilo que se gostaria de dizer: a vida, a nossa oração. Ou porque não, nossas vidas poderiam começar de uma insignificância: .

A construção do ser é uma permissão. É facultado à nós todos que lemos e escrevemos, terminar ou continuar a escrita e a leitura do texto. Não significaria, por tudo que foi dito acima, em suicídio, apesar de todas as interpretações serem possíveis. Seria apenas uma interrupção. Uma busca por outro caminho. Mas devemos sempre agradecer por fazer parte de uma construção.

Assim sendo, a nossa vida seria escrita com a estrutura do nosso pensamento que sendo substância quintessêncializada, se materializaria pela nossa força de vontade e desejo de construção, em escrita, texto, literatura, arte e a vida eterna tecida na estrutura do texto, e este na estrutura do pensamento e na estrutura do pensamento, a escrita da vida.

*Cinda Gonda: É professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e eu fui seu aluno da graduação no curso de letras. Aprendemos juntos.

BIBLIOGRAFIA:

José Luís Peixoto. Livro. Páginas 262 e 263. (sem data, sem edição e editora, apenas uma folha contendo a cópia dessas duas páginas.)

Georg Lukács. La forma se rompe al chocar com la vida. (Sören Kierkegaard y Regina Olsen). Página 57. (sem data, edição ou editora, o texto utilizado está sem bibliografia.)

Cinda Gonda. O insólito pacto com o instante. Página 157. (sem data, edição, editora, apenas a cópia do texto sem bibliografia.)