A 1ª Oficina “Falando em Literatura” em Madri: sucesso!


Ontem aconteceu em Madri, a primeira oficina de leitura e escrita “Falando em Literatura”. O evento aconteceu na Casa do Brasil e reuniu um grupo seleto de pessoas que amam a boa literatura. Resultado: duas horas de bom papo sobre Clarice Lispector. Construímos um ambiente agradável, onde as ideias, impressões e troca de experiências foram surgindo naturalmente.

Os participantes produziram microcontos muito interessantes!

Na próxima semana tem mais! Quinta- feira, dia 10/11, das 19-21h, será a vez do grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Inscreva- se logo, é gratuito e as vagas são limitadas, o grupo é bastante reduzido, pois a intenção é que haja interatividade e que todos possam expressar as suas ideias.

 img_2270Os participantes da 1ª Oficina “A literatura psicológica de Clarice Lispector. Como construir e identificar narrativas interiores”.

img_2277-2Da esquerda para a direita: Simone Schwambach, Renata Barbalho (que ganhou um livro de contos de Clarice no sorteio), Deborah Cole, Cristina Pacino (atrás), Luz Bastos, Mila Paiva, Sherlen Sarmento acompanhada da pequena Helena, que com apenas três meses, comportou- se como uma mocinha; e eu, Fernanda Sampaio. Ah, o único rapaz (que aparece na foto anterior), é Rafael Manjares, marido de Sherlen e pai de Helena. O crédito dessa foto vai para ele.

Agradeço a presença simpática de todos os participantes! Fiquei muito feliz com o resultado. Realmente um grupo nota dez!

Lembrando que o evento foi possível devido ao incentivo do Itamaraty com o apoio do Consulado do Brasil em Madri.

Veja abaixo o cronograma com os seguintes eventos, inscreva-se pelo e-mail: falandoemliteratura@gmail.com

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Nos vemos na próxima quinta!

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Como escrever? O processo de escritura criativa


Como escrever?

Por Rômulo Pessanha, colaborador

Fiz- me essa pergunta e imaginei- me caminhando numa rua de um lugar desconhecido, mas desconhecido porque ficcional. Escrever é como imaginar que uma vida nova está se tornando uma realidade.

A pergunta contém a resposta: como escrever? É o como escrever.

Percorri então a rua: era eu, único que ditava o ritmo de toda a situação. Assim supunha. Através de minha imaginação a rua ganhava mais e mais passantes, andarilhos e personagens desconhecidos, transeuntes e figurantes para uma vida que julgamos que somos, cada um de nós, protagonistas de uma longa história fictícia?, sem fim.

A rua ainda sem cor ganhava alguma tonalidade negra. Estava ficando boa e tudo estava ficando perfeito e quando percebi, reparei que outras vozes também queriam falar: eram outros personagens que surgiam no caminho.

Sendo eu quem dá as regras do jogo, cada um poderia ter sua existência confirmada ou negada. Os personagens precisamente deviam estar ali para serem cúmplices de um ato de existir e não meramente rebeldes sem causa e se rebeldes fossem, melhores ainda seriam tanto a história como os personagens.

Uma personagem surgiu de repente. Seus olhos negros, cabelos negros que continha algum fio ou outro de cabelo branco, pele branca, lábios pálidos, mas que me provocavam atração como o imã atrai o metal, ela era rebelde, eu queria ser seu súdito. Ainda seu corpo, magro, lembrava vela acesa e que a luz era calor transmitido a mim diretamente só pelo olhar que me endereçava. Andava até a mim, conversávamos um pouco e pelos gestos e palavras suas sempre dizia não, não ao que dizia eu com minhas atitudes de apaixonado, palavras que não são ditas nem escritas, mas que podem ser lidas no corpo, sem embargo, de tudo em mim dizer sim, ela era sempre o não.

Sim e não se atraem, porque se anulam. Não há resistência e tudo pode fluir perfeitamente como na imaginação daquele que vive um sonho bom, assim é viver um grande amor ainda que inventado pela imaginação devaneante, nada melhor do que viver imaginando do que imaginar viver um grande espetáculo.

Escrever deve ser algo que penso dizer ou que digo enquanto penso. Quando escrevo penso que estou a pensar o que estou a escrever, ou, que por já ter pensado me pus a escrever. Escrever é sempre o registro de algo passado e acontecido e que futuramente nos tornará realizado, pois esse fazer, de palavrear num papel é manter acesa nossa luz no mundo sem que ela esmaeça e se apague por ter tremeluzido. Luz forte como sol, a minha língua renasce sempre mais forte, cada dia, luminoso arrebol.

Queria então que a misteriosa moça passasse a escrever toda minha vida. Desejava mesmo que minha vida fosse reescrita por completo, mas ela parecia não aceitar a tarefa. Então desejei que essa personagem sumisse de meu pensamento, na minha história mando eu.

Ela não ia embora e entre uma esquina e outra, novamente surgia e também ao fim de uma estrada ou de uma rua sem saída ela, sempre ela, inominável desejo que insiste em fazer parte do que crio mesmo sem ter sido chamada.

Ela era a página para cada nova história que eu criava, meu desejo de possuí-la era para também registrá-la em meu corpo arenoso e evanescente de memória, cada grão de areia um acontecimento longínquo. Como pode a nossa criação tomar juízos e nos desobedecer? É porque ela não sabe que foi inventada por mim ou talvez ela tenha inventado o amor e colocou no meu coração. Eu, apaixonado, coloquei tudo no papel. A mesma coisa que fazê-la interpretar o papel que lhe dei, ela age assim personalíssima sempre contraditória ao que digo. Se eu falo sim, ela diz não. Outra página em branco e outra vez ela retorna, mas para quê? Talvez já não seja ela, a paixão de fato, mas a loucura insana da criação decadente e terrena que não vislumbra teor de vida no lugar que paira ideias. Assim é a vida, página em branco para preencher, num corpo vermelho de paixão, inspiração, oxigênio da alma, quando escreve, sangue, a alma falando ao corpo seu desejo.

Na minha filosofia, a minha razão. Na minha vida, e na falta dessa racionalidade, tudo que for sem razão deverá fazer parte de um raciocínio maior: acrescente um pouco mais de chocolate ao leite diante de uma tela impressa com texto, ou como uma tela, o texto, ou o livro, e dirá você meu leitor, que delícia é isto, pois eu também lhe digo que fazer você ler isso e fazer seu pensamento dizer o que digo e imaginar o que eu imagino, só que à sua maneira e modo é que é para mim, grande delícia, prazer saboroso.

Assim deve ser escrever, desejo selvagem e indomável, víbora venenosa essa a do escrever, cavalo que não se deixa montar e veloz e furioso corre e foge se transformando em altaneiro pássaro anunciando que o amor é livre expressão do que sonha a alma e do que deseja o corpo: ser aprisionado pelas palavras de amor quando se está amando livremente e a declaração de amor que ganho a cada página que escrevo, como nova possibilidade de amar.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2016.

Oficina de escritura criativa: “A escrita do ser”, por Rômulo Pessanha


Mais um excelente texto do nosso colaborador Rômulo Pessanha. Não deixe de ler! Você pode encontrar os textos anteriores da Oficina de Leitura Criativa AQUI.

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A escrita do ser 

Tudo na vida deve ser simples. Escrever é uma das coisas mais simples que podemos pensar como algo tão acessível a nós como o ar, a água e a pressão atmosférica.

Escrever é um ato de prazer, de amor e de raiva. Nunca está solitário aquele que escreve: escrevendo, criamos um mundo em diálogo permanente com nosso interior, com a nossa própria significação humana e artística e certamente com o nosso prazer de escrever e de pensar em cada linha que podemos modificar e alterar os significados do nosso mundo, do nosso amor, da nossa vida e alterar as palavras que melhor se encaixariam naquilo que estaríamos interessados em escrever como quem deseja alterar e alongar cada vez mais o caminho para nunca chegar a lugar algum.

Amar é como escrever: você se declara ao mundo e depois se apaixona e se arrepende sem perceber que tudo isso é criação sua, você, leitor que me lê, agora e até mesmo aquele que escreve, óbvio, é um autor, é escritor, todo mundo cria, todo mundo é autoral.

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Muitos escritores famosos que pudéssemos estudar os caminhos pelos quais começaram a escrever, nada nos diriam sobre como se tornar um bom escritor ou como escrever aquela história ou aquela poesia ou aquela ficção que marcaria uma época, uma geração.

O problema dos grandes sucessos da literatura mundial é que parece quase impossível ser escritor e ser publicado. O problema da indústria dos livros é que todo mundo lê a mesma coisa. Ninguém lê o vizinho, os amigos, os professores, ninguém lê o pai ou a própria mãe e ninguém lê a si mesmo por não se jugar competente para escrever boas histórias. Eu me pergunto o que é ser escritor? É vender muitos livros e dar muito lucro para editoras? Temos um escritor que apesar de não ter escrito uma linha sequer, escreveu. O importante é a mensagem, a roupagem pouco importa. O ser humano necessita de informação, de comunicação. Por isso as mensagens de pessoas que se amaram olhando a luz da lua e das estrelas sobrevivem até hoje pintada nas cavernas como dois bonequinhos pintados com algum tipo de tinta na parede de pedra informando que o que a humanidade quer escrever é só sobre o amor da mesma forma que deseja descobrir se existe vida em outro lugar e lança foguetes com desenhos engenhosos de figuras geométricas, o desenho de um homem e de uma mulher gravados num disco de ouro contendo todos os sons que foram possíveis gravar, para informar à quem encontrar, que em algum lugar do universo a vida deseja ser espalhada e compartilhada, talvez.

Se os céus e as estrelas mais a lua e o sol pudessem falar dos apaixonados que passaram pelo planeta, descalços sem abrigo e que ainda continuam sem voz e sem abrigo ainda hoje, atualmente, diariamente, constantemente, mas isso será assim, eternamente?

A nossa história a ser contada deve ser o nosso prazer e surge de qualquer lugar: pode ser um rosto de um desconhecido, um beijo inesquecível ou aquela vontade de que tudo fosse real. A vontade de que tudo fosse real: o sonho é uma vontade real que realizamos em forma de guerras e amor. E tudo não é real? O problema é que não sabemos o que é a realidade. Apenas supomos, medimos e calculamos. Porém, não penetramos ainda no real objetivo ou razão de ser das coisas.

Se eu posso escrever, sou escritor, posso imprimir o que escrevo e começar a vender por aí dando muito lucro para mim mesmo e muito prejuízo para as editoras em geral e o meu objetivo não é dar prejuízos à alguém mas quero apenas compartilhar a minha arte, a minha coisa toda minha feita na mão nem que seja de lápis como uma pintura ou um livro todo escrito com caneta azul.

O que parece ser geral quando o assunto é como se tornar um escritor é que parece que escrevemos as coisas que nos interessam. Se eu posso falar de baleias isso não me levaria a me tornar um Charlie Dickens Ou Graciliano Ramos. Ao descobrir nossa voz musical, a nossa pequena música, baixinha, num tom de sussurro como sendo as coisas que mais prezamos e necessitamos de que sejam escritas como quem deseja ser salvo de um delírio de alguém a dizer me salve porque eu não suporto mais, me ouça agora! Esse tom é que nos faz ir muito além do que poderíamos pensar ou julgar que somos capazes. É um ponto de maturação em que a pessoa descobriu que sabe escrever e que ninguém poderá detê-la e que alguns elementos estarão sempre presentes em tudo aquilo que escreverem. Por exemplo, para alguns escritores, o elemento que sempre surge em suas obras ou os leva a inspiração para escrever, pode ser a imagem do texto inicial e final já escrito sem saber ainda o conteúdo, o para onde a história será direcionada. Outros escritores se inspiram no som, em sonhos, lembranças, etc. Não existe uma fórmula para se tornar escritor. Um escritor pode ser pobre ou rico tanto quanto pode já de início ser rico e, por um ou outro motivo, morrer na absoluta penúria.

Escrevemos sem perceber, com características e sobre coisas que nos agradam ou nos marcam de alguma forma e não existe uma fórmula para que alguém se torne escritor até porque se pudéssemos retirar de qualquer escritor, nas suas obras, algo que indicasse o caminho para o sucesso literário todo mundo seria um grande escritor.

Cada um escreve e deve escrever como gosta. Tanto é verdade que se em alguns casos conhecidos da literatura (e não darei exemplos), de pessoas que criam a sua base gramatical ou recriam uma nova estrutura sintática aproveitando conhecimentos das línguas que sabem falar fluentemente e até mesmo criam ou inventam novos idiomas fictícios e não podemos ignorar o fato de que a própria literatura se poderia considerar uma linguagem dentro do idioma de que se utilizou para ser escrita.

O mundo precisa entender que não é o caso de sair distribuindo livros por aí. Cada um pode escrever numa folha de papel aquilo que mais gosta e distribuir para a pessoa mais próxima. A literatura deve ser feita na mão, de próprio punho, com os dedos nas teclas, à lápis ou até mesmo impresso e distribuído.

Hoje em dia queremos falar de arte, fazer arte sem saber o que é o artesanato. O mundo parece cheio de informação, mas nada sabemos sobre as pessoas. Sabemos apenas das pessoas que parecem personagens e que nem parecem existir. A amizade é muito visual e menos sentimento do que poderia ser.

Para ser escritor não precisamos de ligar coisas ou ligar na tomada ou recarregar baterias. Ninguém liga o livro na tomada ou vai recarregar o seu livro com créditos. Precisamos recarregar a nossa vontade de querer desvendar mundos contidos nos livros, livros que somos nós mesmos, histórias que nos habitam e que desejam se tornarem maiores que nós, desejam pertencer ao mundo todo e à toda humanidade. Não permitir à um ser humano o hábito da leitura é um crime inafiançável e permitido por lei atualmente. A lei da compra, do consumo. Todo mundo tira a sua própria foto mas, ninguém sabe a forma da sua escrita porque a preguiça está impregnada na mente de todo mundo. É mais fácil distribuir imagens de graça do que escrever, exercitar o pensamento, de graça, apenas a imaginação, um lápis e um papel em branco que pode se transformar num barquinho cheio de palavras navegáveis iluminadas pelas luz das palavras do idioma da luz: a língua portuguesa, por palavras que surgem nas ondas da nossa vontade e de repente um pássaro bobo surge na parede branca do quarto e percebemos que era apenas a sombra do nosso casaco dando o formato, pelo nosso ângulo de visão, a imagem daquilo que conhecemos no mundo: seria um pássaro, um avião, uma garotinha andando pelas nuvens numa rua feita de bolinhos de chuva porque as nuvens dão chuva e quando as travessas caírem será aquela trovoada medonha chovendo bolinhos para todo lado e quando fechamos os olhos o arco-íris nos mostra um sol mal feito, umas nuvens enfim, um desenho feito por uma criança, a criança que fomos e esquecemos debaixo do travesseiro da lembrança que sempre surge de vez em quando para brincar quando escrevemos, para mostrar que com as palavras falamos muito mais do que palavras e as palavras dizem e certamente também nós, dizemos muito mais sobre a gente do que queríamos realmente dizer, aprendemos a utilizar o que somos, aprendemos a ser, e isso falando no mundo de hoje, e de todos os tempos: o que somos escrevemos e nunca deixamos de aprender e de ser pequenos aprendizes que pintam e fazem do mundo um grande rascunho em permanente reformulação para que possamos expressar de alguma forma, se é que sabemos uma forma, de dar forma àquilo que sentimos e pensamos. O que nós somos? O que nós podemos expressar e contar?

O que somos fica em algum lugar que parece tão real que quando dormimos e acordamos parece até que viajamos para outro mundo só que na verdade, apenas sonhamos com o texto do livro que estávamos lendo na véspera, antes de dormir. Assim é escrever, dar forma aos sonhos que são as mensagens na sua forma ainda intraduzível em textos e palavras, primitiva e talvez a mais eficaz ou ainda a mais incompreensível de todas. E assim, nós somos sempre uma possibilidade de existência, uma criação sempre para o futuro pois, é sempre como que uma incompreensão, uma suspensão sublimada da própria realidade, é como um ato de contemplação quando do momento de sua estruturação e formulação: a arte é o que somos e não sabemos o que somos. Por isso mostramos para nós mesmos que tudo o que existe de real é fruto da imaginação. A imaginação seria única possibilidade de decifrar todos os mistérios que existem e que no próprio ato de decifração, criaria outros, consequentemente.

Rômulo Pessanha

 

 

 

A estrutura do pensamento na escrita, por Rômulo Pessanha


Texto enviado por Rômulo Pessanha, formado em Letras,  que veio contribuir com a nossa Oficina de Escritura Criativa. Sobre o pensamento e o ato de escrever. Muito bom, não deixe de ler!


 

A estrutura do pensamento na escrita

Inicialmente observemos um pequeno trecho do texto do livro Livro de José Luís Peixoto:

“Maman.

O toque do xaile em que me embrulhava.

Oui, maman.

Baixa as pálpebras. Sai do quarto. Devagar. A porta a fechar-se como quando me deixava a adormecer.

Abro o livro e leio a primeira frase:

A mãe pousou o livro nas mãos do filho.”

(…)

Até aqui, como podemos verificar, tudo não passa de uma breve descrição do filho sendo coberto pela mãe ou o filho lembrando a cena da mãe que coloca o personagem para dormir. Seria apenas a lembrança de um personagem contando para nós um fato de seu passado mas, como se trata de um personagem ele é fruto da imaginação de quem o criou. Ou seja, poderia ser dito que o personagem enquanto criação ficcional do autor, estaria aos poucos se desprendendo de seu criador e tomando vida própria. A criação passa a criar e a pensar por si mesma e assim uma nova vida surge já adulta contando o seu passado quando era bebê. Então, poderíamos supor que a imaginação criaria novas vidas que seguiriam autônomas e independentes de quem as criou. Prossigamos:

“Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. É a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, têm para sugerir eternidade. Se acaba conforme começa é porque não acaba nunca. Mas tu, eu, os Flauberts, os Joyces, os Dostoievskis sabemos que, para nós, acaba. Com um ligeiro desvio, os círculos transformam-se em espirais e, depois, basta um ponto como este: . O bico de uma caneta espetada no papel. Um gesto a acertar na tecla entre , e -. Um movimento entre um quadradinho de plástico. Isto: . Repara Como é pequeno, insuficiente para espreitarmos através dele, floco de cinza a planar, resto de formiga esmagada. Se o pudéssemos segurar entre os dedos, não seríamos capazes de senti-lo, grão de areia. Mas tu ainda estás aí, olá, eu ainda estou aqui e não poderia ir-me embora sem te agradecer.”

Escrever é um ato de agradecimento para todos aqueles que irão um dia, nos ler. É uma forma de pela escrita, pelo tecido do texto, (que até mesmo parece redundância falar em texto e em tecido numa mesma frase) de nos tornarmos imortais. Esse agradecimento só é possível se nos tornarmos criação, personagens feitos por nós.

Cada ponto é um ato de bravura e de luta da parte de quem viveu para contar. A nossa voz poderá ser um ponto de vista a partir do olhar do outro. Dessa forma, acabaríamos, acabaremos, sendo criação dos leitores, entendidos como aqueles outros que nos leem, mesmo que falássemos em primeira pessoa. Como dar forma à nossas vidas? Algo sobre isso nos fala Georg Lukács em “As almas e as formas literárias”:

El valor vital de um gesto. Dicho de outro modo: el valor de la forma em la vida, el valor de las formas, que crea vida y la exalta. El gesto es solo el movimento que expressa claramente lo inequívoco, y la forma es el único caminho de lo absoluto em la vida; el gesto es lo único que es consumado em sí mismo, uma realidade y más que mera possibilidade. Sólo el gesto expressa la vida. Pero?se puede expressar uma vida? ? No es ésta la tragédia de todo arte vital, que quiere construir com aire um castillo de cristal, que quiere construir entre los hombres el puente de sus formas mediante el encuentro y la separación de las almas? ?Puede haber gestos? ?Tiene sentido el concepto de forma desde la perspectiva de la vida?”

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Como permanecer vivo? Escrevendo, criando, seria uma resposta simples. O pensamento situando-se nas palavras e as palavras carregadas de sentido e esse sentido criando formas de expressão seria, e aqui poderíamos dizer praticamente de forma afirmativa, que a própria pessoa estaria desdobrada na sua forma de escrever. A nossa existência se completaria com a forma que damos ao nosso texto. E tomando o texto que escrevemos como decorrência do que somos no que diz respeito a todos os aspectos da personalidade humana, somos exatamente aquilo que escrevemos. Escrevendo permaneceríamos eternamente pensando com as mentes dos leitores que por sua vez multiplicariam a nossa existência em várias outras da mesma forma que criamos personagens e lhes damos vidas independentes. O problema é que o pensamento é rápido e a escrita deve ser moldada para captar tal fenômeno. Outro problema é que a vida humana também é rápida e sendo apenas um instante em que se escreve, a vida deve possuir um objetivo para que possa ser dado um impulso criador e iniciante dessa vida que se pretende começar e iniciar na escrita. Escrever é um momento de uma vida de um autor real. O personagem vive para sempre, ele e a forma que o autor lhe deu.

Assim, a professora Cinda Gonda* nos diz então que:

“Dois princípios — continuidade e descontinuidade —  parecem presidir o percurso da existência. Talvez aí, na tensão de limites fixados por Eros e Thánatos, resida a noção de insólito. Insólita é a vida, insólito é o pacto com o instante, aquele que, na condição de mortais, nos foi concedido. Variados caminhos, feitos de desvios e atalhos, se delineiam à nossa frente, na tentativa fugaz de assegurarmos a permanência. A arte é um deles. Se insólita é a vida, a arte seria o seu duplo.”

Aqui devemos perceber que talvez Thánatos possua um valor de destruição dos tecidos criadores da vida. Eros construiria enquanto Thánatos destruiria. Entendo que Eros é dualidade e se ele, que pode ser vida e morte, se junta à destruição que é a Thánatos, então Eros seria a força que levaria todos os seres vivos somente para a morte. Deixo bem claro que os conceitos de Thánatos, Eros e Psyché devem ser bem detalhadamente estudados para que não seja feita confusão entre seus sentidos ou conceitos. Aqui são vistos apenas superficialmente.

Prefiro dizer ainda aqui em primeira pessoa, que acredito muito mais na arte como vida. Então Eros se casaria perfeitamente com a Psiché. Se a vida é pura forma de pensamento então a existência humana não é nem morte nem vida, o que estaria de acordo com o par Eros – Thánathos, porém seria apenas um vir a ser, uma possibilidade de ser e nunca uma certeza de morte absoluta. Mas, a partir do momento em que percebemos que através da forma escrita sobrevivemos à destruição da vida causada pela morte, então a Psiché humana sobrevive de uma forma que vai muito além da dualidade morte-vida contida em Eros. A Psiché se torna quintessência de pensamento que não pode ser destruída nem pela forma de expressão mesmo que ela seja até mesmo impedida de se manifestar e concretizar pelo aspecto material, como palavras, sons, pinturas, pois sendo quintessêncializada a Psiché, se indentificando com a consciência ou o pensamento humano possuria uma força criadora muito mais potente e eficaz para se manifestar e criar a sua forma de expressão que seria a princípio, a nossa velha vontade de arte, a vontade de criar arte. A arte estaria escrita no pensamento como a vontade ou impulso como uma construção a imagem e semelhança de si mesma.

A ficção então é insólita porque a vida é insólita. Qual o sentido da vida? Qual o sentido do tempo de vida que possuímos? Porque aceitamos tão fielmente como realidade aquilo que já nos é dado a conhecer de antemão como ficção? Por que se podemos dar vida aos nossos personagens, não conseguimos controlá-los? Por que, se somos donos de nossos destinos e dos rumos de nossas próprias vidas, não conseguimos planejar tudo certinho como queremos? Enfim, se por um lado nem conseguimos controlar as nossas criações ficcionais pelo outro, não conseguimos manter um controle total sobre nossas vidas pelo menos o tempo todo.

Porque:

“Agradeço-te por teres aceitado que este livro se transformasse em ti e pela generosidade de te teres transformado nele, agradeço-te pela claridade que entra por esta janela e por tudo aquilo que me constitui, agradeço-te por me teres deixado existir, agradeço-te por me teres trazido à última página e por seguires comigo até à última palavra. Sim, tu e eu sabemos, isto: . Insignificância, pedaço de nada, interior da letra ó. Mas isso será daqui a pouco. Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui.”

Aqui quero fazer uma observação quanto à “isto: .”. Repare que só coloquei ponto depois das aspas. É porque “Isto: .” é especial. “isto”, escrito como está com dois pontos, me passa a ideia de que entre “isto”, ou seja, aquilo que queremos apresentar ou dizer e o ponto, que sempre é a marca de final das orações, existe justamente aquilo que se gostaria de dizer: a vida, a nossa oração. Ou porque não, nossas vidas poderiam começar de uma insignificância: .

A construção do ser é uma permissão. É facultado à nós todos que lemos e escrevemos, terminar ou continuar a escrita e a leitura do texto. Não significaria, por tudo que foi dito acima, em suicídio, apesar de todas as interpretações serem possíveis. Seria apenas uma interrupção. Uma busca por outro caminho. Mas devemos sempre agradecer por fazer parte de uma construção.

Assim sendo, a nossa vida seria escrita com a estrutura do nosso pensamento que sendo substância quintessêncializada, se materializaria pela nossa força de vontade e desejo de construção, em escrita, texto, literatura, arte e a vida eterna tecida na estrutura do texto, e este na estrutura do pensamento e na estrutura do pensamento, a escrita da vida.

*Cinda Gonda: É professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e eu fui seu aluno da graduação no curso de letras. Aprendemos juntos.

BIBLIOGRAFIA:

José Luís Peixoto. Livro. Páginas 262 e 263. (sem data, sem edição e editora, apenas uma folha contendo a cópia dessas duas páginas.)

Georg Lukács. La forma se rompe al chocar com la vida. (Sören Kierkegaard y Regina Olsen). Página 57. (sem data, edição ou editora, o texto utilizado está sem bibliografia.)

Cinda Gonda. O insólito pacto com o instante. Página 157. (sem data, edição, editora, apenas a cópia do texto sem bibliografia.)

 

 

1. Oficina de escritura criativa: a estrutura do poema


Sonha em ser escritor, mas não escreve? O primeiro passo é decidir o tipo de escritor que você quer ser. Prosista ou poeta? Gosta de versos, histórias curtas ou longas? Pensa. Pensou? Ah, quer ser poeta! Então vamos ver que tipo de gênero literário é esse.

Os gêneros literários provocam debates desde Platão até os dias atuais, existem parâmetros de diferenciação entre uns e outros,  a grosso modo, o gênero narrativo engloba os romances, fábulas, lendas, crônicas e contos; o gênero poético, os poemas. No entanto, a literatura é uma arte e não é precisa, pode haver poesia na narrativa e vice- versa. Independente do gênero, a literatura exige uma linguagem adequada.

A linguagem literária é especial, foge do usual, da forma de falar cotidiana, ela é rica em metáforas. Eu não quero entrar numa linguagem muito acadêmica e nem ficar colocando aqui conceitos e definições, quem quiser se aprofundar em teoria, procure algum manual de Teoria da Literatura  ou os livros de Roman Jakobson, como por exemplo, “O que é poesia?” ou “Linguistica e poética” (veja PDF em espanhol) ele fala sobre a função poética, estética, referencial e expressiva da linguagem, sobre a linguagem literária. Num próximo post falarei sobre as figuras de linguagem.

Quer escrever poesia e não tem noção da estrutura do poema? Um poema é um texto escrito em versos; verso é cada linha do poema e as estrofes são os conjuntos de versos, geralmente separadas por uma linha. O poeta tenta nos contar o que passa no seu interior e suas percepções sobre o mundo, é o lirismo, a forma de expressão dos sentimentos.

Vamos ver um soneto, a forma clássica de composição. O poema famoso de Vinícius de Moraes, Soneto da Fidelidade é formado por duas estrofes de quatro versos (quartetos), e duas estrofes de três versos (tercetos) num total de 14 versos. As sílabas poéticas não são contadas iguais às sílabas gramaticais, são pela sonoridade. As rimas são as coincidências de sons que dão um tom musical, melódico ao poema. O poema abaixo é um hendecassílabo (versos com onze sílabas). Perceba que Vinícius de Moraes, poeta modernista não segue a linha de muitos de seus contemporâneos que usaram versos brancos, sem rimas e estruturas menos tradicionais. As tônicas (sílabas mais fortes) caem na segunda, sexta e décima sílabas:

De/tu/doao/meu/a/mor/se/rei/a/ten/to
An/tes/e/com/tal/ze/loe/sem/pree/tan/to
Que/mes/moem/fa/ce/do/ma/ior/en/can/to
De/le/seen/can/te/mais/meu/pen/sa/men/to

Que/ro/vi/vê/loem/ca/da/vão/mo/men/to
Eem/seu/lou/vor/hei/dees/pa/lhar/meu/can/to
E/rir/meu/ri/soe/der/ra/mar/meu/pran/to
Ao/seu/pe/sar/ou/seu/con/ten/ta/men/to

Eas/sim/quan/do/mais/tar/de/me/pro/cu/re
Quem/sa/bea/mor/tean/gús/tia/de/quem/vi/ve
Quem/sa/bea/so/li/dão/fim/de/quem/a/ma

Eu/pos/sa/me/di/zer/doa/mor/que/ti/ve
Que/não/se/jai/mor/tal/pos/to/queé/cha/ma
Mas/que/se/jain/fi/ni/toen/quan/to/du/r

Com tudo isso, eu não estou te ensinando a ser poeta, os poemas nascem sem pensar nessa parte técnica, só estou descrevendo e dando nomes às coisas. Conhecimento sempre é bom, estudar nunca é demais. Sempre que escrever um poema, leia em voz alta, deixe fluir seu pensamento e escreva. Reescreva quantas vezes forem necessárias.

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Vou deixar um exercício para casa: escreva um poema, conte quantos versos e estrofes, recite em voz alta e tente contar as sílabas poéticas, pratique poesia!