Xícaras literárias da Vista Alegre, porcelana portuguesa


A fábrica portuguesa de porcelanas Vista Alegre é uma das mais famosas e prestigiosas do mundo. A fábrica (1920) fica na cidade de Ílhavo (Aveiro) e suas peças estão espalhadas pelo mundo todo, expostas em museus e usadas pela realeza. No entanto, essa plebeia, não resistiu e trouxe de Lisboa para o Falando em Literatura esse conjunto de “chávenas” para café com caricaturas de escritores consagrados. As peças sempre levam a assinatura de algum artista. A fábrica tem um museu, mas agora está em reformas, fechado para visitas.

As xícaras fazem parte de uma coleção chamada “A viagem”, do artista António Antunes (Vila Franca de Xira, 1953). Ele é diretor do Salão de Humor Gráfico World Press Cartoon. António fez uma série de desenhos que podem ser vistos na estação Aeroporto do Metrô de Lisboa. São 50 figuras em 49 painéis espalhados pela estação e estão divididas em músicos, escritores, atores e pintores, que também foram parar nas porcelanas da tradicional Vista Alegre.

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Os escritores são:

Natália Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, 13/09/1923 — Lisboa, 16/03/1993), consagrada escritora portuguesa de prosa e verso, deixou uma rica e vasta obra. Foi política, presa, teve sua obra censurada. Casou quatro vezes, trabalhou na tv, foi jornalista. Com um pé no surrealismo, era amiga de Mário Cesariny, outro escritor que também faz parte dessa séria de “xícaras literárias”. Uma vida muito intensa, refletida nas suas escrituras, e arrebatada, repentinamente, por um ataque ao coração. Conheça mais sobre essa grande escritora portuguesa aqui.

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De amor nada mais me resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto;
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

(in, «Poesia Completa», D. Quixote, Lisboa, 1999)


José Saramago (Azinhaga, Portugal, 16/11/1922 – Lanzarote, Espanha, 18/06/2010), esse dispensa apresentações, não é? Creio que é o mais conhecido escritor português, junto a Fernando Pessoa. O único escritor em língua portuguesa que ganhou um Nobel de Literatura. Sua escritura é caracterizada pela falta de pontuação e sua crítica ácida à sociedade portuguesa, que considerava passiva, parece que mantinha uma relação amor- ódio com o seu país. Eu sou absolutamente apaixonada pela obra de Saramago. “Claraboia” (primeira foto) foi seu publicado postumamente. Foi o seu segundo livro, mas parece que o autor não gostava muito e o deixou engavetado. O viúva tratou de publicá- lo depois de sua morte. Leia mais sobre ele aqui.  Veja a resenha do último livro de Saramago, “Alabardas”, romance que, infelizmente, ficou inacabado. Saramago sai com a cara meio enfezada na caricatura, mas era bem o contrário, era uma pessoa doce, bem humorada e simpática:

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E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar? (in, “A maior flor do mundo”, José Saramago)


Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 02/06/2004) foi uma escritora de prosa e verso, dessas imperdíveis, seus versos são cânticos às memórias da sua infância e da sua terra. O mar é um tema constante na sua escritura. Foi a primeira portuguesa a ganhar o Prêmio Camões. Professora universitária, formada em Letras e mãe de cinco filhos.

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Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

(in No Tempo Dividido, 1954, Sophia de Mello)


Mário Cesariny (Lisboa, 09/08/1923 – Lisboa, 26 de Novembro de 2006) poeta e pintor, principal representante do surrealismo português.  Anarquista, revolucionário e questionador, de humor ácido. Fascinante! Coloca na sua lista.

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Eu, Sempre…
Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.
( in “O Virgem Negra”, Mário Cesariny)


O Facebook de António Antunes, clique aqui.

A web da Vista Alegre, clique aqui.


Estás convidada e convidado para um café literário aqui no Falando em Literatura. Vem!

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Fofoca literária: Mario Vargas Llosa e a ex de Julio Iglesias juntos?


A notícia hoje em todas as revistas e programas de fofocas na Espanha: Isabel Presley (64 anos, há 9 meses viúva de Miguel Boyer, político, economista e professor espanhol), a primeira esposa de Julio Iglesias, mãe do famoso cantor Enrique Iglesias, mantém uma relação estreita com o Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa (79), que acabou de completar bodas de ouro com Patrícia Vargas Llosa e celebraram em Nova York junto com toda a família.

patricia-vargas-llosa--644x362Patrícia e Llosa (foto: Efe)

A Hola diz que Vargas Llosa está separado da mulher e que ambos mantém uma relação magnífica. Só que a mulher já saiu dizendo que ficou surpresa com as fotos e sentiu pena (veja as fotos da celebração dos 50 anos do casamento do casal).

Estranho é Vargas Llosa ter acompanhado a Presley em um evento benéfico no Palácio de Buckingham, a cara da Presley, que já foi casada com três milionários. Depois, já em Madri, foram fotografados saindo de um restaurante de braços dados. O novo casal (?) se conhece há mais de 20 anos, quando Isabel entrevistou Llosa para a Revista Hola.

Verdade ou mentira? Logo vamos saber.

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O coração é assim, não, quem manda nele? Eu admiro gente que tem coragem de assumir o que sente e enfrenta as suas consequências. Viva el amor!

Resenha de filme: “A família Bélier”


Essa é uma produção francesa, que conta a história de uma família: mãe, pai, filha mais velha e filho caçula. Vivem em um sítio no interior da França, fabricam queijo e depois vendem em uma feira. A moça tem 15 anos e leva uma vida típica de adolescente, exceto por uma coisa: ela serve de intérprete da linguagem de sinais para os seus pais e irmão, que são surdos- mudos. Ela é a única que fala e ouve na casa.

Leia o post completo lá no PalomitaZ, na Revista BrazilcomZ.

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10 escritoras que participarão da Feira do Livro de Madrid 2015


Existe uma avalanche de oportunistas na Espanha, escritores de ocasião, gente da mídia, que aproveita a sua popularidade para vender livros. Para selecionar as dez escritoras abaixo, tive que passar por dezenas deles. Uma sensação estranha de invasão, de desrespeito à arte literária. Escrevi essa outra lista (clique) de escritores- estrelas, há mulheres, que não repeti nessa nova lista. Das selecionadas, as mais interessantes para o meu gosto são as escritoras nº1 e 2, veja:

1. A espanhola Mercedes Vega (Madri, 1960) é socióloga e cientista política. Romancista, escreveu “O professor de inglês” e seu último livro “Quando estávamos vivos”, narrativa de época que conta uma história de amor antes da guerra civil espanhola.

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2. A chilena Carla Guelfenbein (Santiago, 1959) formada em Biologia na Inglaterra,  ganhou o Prêmio Alfaguara  2015 (130 mil euros) com o romance “Contigo na distância”, inspirado na nossa ilustre Clarice Lispector. A história foi a  escolhida entre 707 manuscritos. Esse livro eu quero!

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3. A argentina Agustina Guerrero, radicada na Espanha,  é desenhista e criou um romance gráfico (um livro em quadrinhos) chamado “Diário de uma volátil”, que parece muito interessante.

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4. A espanhola Emilia Luna Martín (Emy Luna) é professora, radialista e contista premiada. Seu livro é “Olhos de menina sobre o estreito”.

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5. A peruano- canadense Gloria Macher também virá à Madri apresentar seu último livro ambientado no Peru “Minha rainha”. Ela escreveu também “As artérias de Dom Fernando”.

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6. A espanhola Susana Pérez de Pablo (Cuenca 1965, Sue Pérez) é jornalista e chefe de Ciências e Tecnologia do El País, também especialista em Educação. Curiosamente, seu livro não tem nada a ver com isso: escreveu um livro de receitas de pães junto com seu marido Jesús Cerezo, “Pan Con Webos Fritos”.

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7. A espanhola Dolores Redondo (San Sebastián, 1969) estudou Direito e é especialista em livros de suspense/terror. Sua última obra: “Oferenda à tempestade”.

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8. A americana Laura Rojas Marcos (Nova York, 1970) residente na Espanha desde 1978, é psicóloga e escreve livros, digamos, de auto- ajuda. Seu último,  “A família”, fala das relações tóxicas entre familiares e como mudar isso. Ela também escreveu um livro “Sentimento de culpa”. Esses livros não têm valor artístico, mas em determinados momentos podem ajudar pessoas que passam por dificuldades.

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9. A espanhola Nieves Concostrina (Madri, 1961) é jornalista (um predomínio notável dos escritores que têm essa profissão) já escreveu sete livros, o último, “Antonia”, ambientado em Madri de 1930.

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10. A espanhola Aloña Fernández Larrechi também é jornalista. Ela escreveu um guia interessante sobre os lugares que aparecem nas séries ambientadas na Big Apple, “Nova York em séries”, ou seja, Aloña é especialista em séries americanas. Ela trabalha em programas de rádio falando sobre esse assunto.

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Peneirando e ainda assim passaram algumas que não são escritoras literárias, literatura arte, digo. Tenho que pensar sobre o assunto. Não sei, às vezes tenho a impressão que a ficção está morrendo e a poesia, principalmente, está em seus últimos suspiros. Uffff…

Aqui você pode consultar horários e stands para os autógrafos.

O Falando em Literatura virou tinta e papel: estreia na Revista BrazilcomZ


É pessoal, o Falando virou tinta e papel! O primeiro convite da Revista BrazilcomZ foi para escrever o blog sobre cinema, “PalomitaZ”, que começou no dia 30 de janeiro (gracias, Luzie!). Depois o convite estendeu- se à revista impressa, uma coluna mensal sobre literatura, que também chama “Falando em Literatura”. Muito bom poder levar um pouco do blog a outro tipo de público e em formato impresso. O primeiro artigo saiu nesse mês de abril, descontraído e em tom de humor: Você sofre de bibliofilia?

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E para arrematar, o pessoal da revista (Renata Barbalho, diretora e João Compasso, o editor) decidiu mudar de última hora a matéria de capa desse mês, por conta da participação do nosso editor no Big Brother Vip da Espanha. Ele entrou por alguns dias para enganar os participantes da casa (todo o público sabia), em um falso intercâmbio com os brothers do Brasil. E lembraram de mim para escrever o artigo. Se eu aceitei? Na hora! Honrada e agradecida pela oportunidade. Está aí, o moço bonito é o João Compasso, um big brother além da tela da tv. João, além de editor da BrazilcomZ, é advogado e ator. Mas não só: ele é muito solidário, criou o Silent Voices junto com Fábio Nilo, um projeto que visa ajudar pessoas, principalmente crianças, abandonadas na África e Ásia. Eles já foram voluntários em ambos continentes e fizeram coisas incríveis. Dá uma olhada no site dos meninos- Lá também você pode contribuir com ajuda financeira ou de outro tipo.

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Estreia em grande estilo, matéria de capa!

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O projeto Silent Voices

Aonde tem brasileiro na Espanha, tem a revista BrazilcomZ. Você pode encontrá- la gratuitamente no consulado do Brasil, em vários comércios e associações de brasileiros. Mas você que está fora da Espanha também pode ler a revista impressa de um modo virtual, clica aqui e conheça os brasileiros que andam fazendo e acontecendo na terra de Cervantes! Ah, e a revista tem duas capas, a contra- capa é na verdade, o ínício da revista em espanhol, espaço reservado também para os hispano- falantes.

A primeira escritora clássica do nosso século?


Meu presente do Dia do Livro foi “O pintassilgo”, tradução literal de “The Goldfinch”, de Donna Tartt, ainda não saiu tradução em português no Brasil, nem em Portugal. A edição em espanhol da Lumen chama- se “El jilguero”. Essa obra ganhou o Prêmio Pulitzer de Literatura 2014:

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O absurdo não liberta, prende. (Albert Camus)

A norte- americana Donna Tartt (Greenwood, Mississippi, 23/12/1963) tem os elementos ideais para virar uma das grandes estrelas literárias do século. Dizem que a escritora é uma verdadeira enciclopédia, tem uma memória de elefante, declama poemas inteiros e cita romances franceses com grande profundidade. Seus livros viram best- sellers, são campeões de vendas, mas com qualidade, segundo críticas. Ela tem um ar misterioso, silencioso, lúgubre com seus olhos verdes, quase nunca sorri. Desde o seu primeiro romance em 1992, O segredo, Donna Tartt vem sendo apontada como uma escritora clássica da nossa época:

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Donna Tart de 49 anos é comparada com Paul Auster e Dickens.

Tartt demora cerca de uma década para escrever seus livros, todos são extensos, The Goldfinch de 2014, saiu com 1147 páginas, portanto, a leitura é demorada, exige tempo e dedicação. Ela escreveu parte de The Goldfinch na biblioteca pública de Nova York na 5ª Avenida.

Uma escritora e um livro para colocar na nossa lista!

 

Claraboia, José Saramago


“Claraboia” (palavra que perdeu o acento depois da reforma ortográfica) é o segundo romance de José Saramago, escrito há 40 anos, assinado por um pseudônimo e que nenhuma editora quis publicar. A  Editorial Caminho lançou o romance agora, eis a sinopse escrita pela editora:

A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho – nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma “mulher por conta” no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.

O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate – debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis– com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?

Quer comprar? Pré- venda na Livraria Bertrand e FNAC. O livro começará a ser vendido a partir do dia 17 de outubro.