O encantador de pássaros


A observação de pássaros remonta à Idade da Pedra. Os homens pré- históricos desenhavam aves nas cavernas demonstrando assim, o seu interesse e fascínio por esses animais deixando gravados seus dados empíricos. Aristóteles, 350 a.C., possivelmente, tenha sido o primeiro ornitólogo da humanidade. Os ornitólogos e os poetas, veja Manoel de Barros, encarregam- se de estudar o comportamento dos pássaros. Mas hoje, um homem é que foi observado.

Madri é uma cidade encantadora no outono. A estação começa em meados de setembro, mas é só em novembro que as folhas começam a cair formando um tapete amarelinho, amarelinho. E essa paisagem convida- me a dar longos passeios pelo Parque do Retiro, que fica no centro da cidade. O parque é um remanso de paz, é como cruzar para outra dimensão, esqueço dos barulhos da cidade.

Costumo ir de ônibus, a linha 146, e desço na Calle Alcalá. Frequento a biblioteca que fica dentro do Retiro. Tenho que cruzar metade do parque até chegar ao meu destino.

No caminho, encontrei um senhor carregando uma sacola de supermercado cheia de migalhas de pão. Ele andava rápido, ia jogando o pão e uma revoada de pássaros o seguia; vez por outra, parava e alguns pássaros comiam diretamente da palma de sua mão.

Pintassilgos, alvéolas- brancas e estorninhos, muito comuns na Europa, periquitos, pardais e pombas, esses todo mundo conhece no Brasil, todos sob a batuta do homem. Os pássaros dançavam, o homem e sua orquestra de pássaros. Era um tal de piu, piu, gru gru, crá crá, aquela algazarra.

Eu fui andando atrás, incrédula, tentando não fazer ruído para não espantar a orquestra. Os pássaros seguiam o homem, sem medo, pareciam íntimos, um diálogo muito fluido interespécies.  Os que não voavam, caminhavam atrás do homem, tal como o Flautista de Hamelin faz com os ratos, só que com finalidades bem diferentes. Tive a certeza que, enquanto aquele senhor viver, os pássaros têm em quem confiar.

O mundo é mágico sim, Rosa. Só que, perdoe- me um adendo: algumas pessoas ficam encantadas enquanto vivas também. Hoje eu conheci o Encantador de Pássaros e eu tenho a prova:

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Resenha, “Banguê”, de José Lins do Rego


A ideia da morte como renascimento, Bangüê, de José Lins do Rego.

Um dos livros mais completos em termos técnicos e argumentativos, a descrição fiel do Brasil dos engenhos de cana- de – açúcar na visão do fazendeiro, do dono da Casa- Grande; a narrativa contundente convence e nos transporta aos latifúndios do interior do Brasil.

Tempo e espaço do romance: a fazenda Santa Rosa na época pós- colonial brasileira, o personagem Carlos chega à fazenda a qual estava ausente há dez anos. A fazenda do avô Zé Paulino e o estranhamento aos olhos do jovem advogado:  a casa- grande sem luxo algum, muito diferente do que ele contava aos amigos da universidade, o jeito grosseiro do avô, a falta de modos, os escarros, a tosse incessante e os gritos aos trabalhadores, os açoites aos ladrões de galinhas, estavam muito longe do “glamour” e luxo que Carlos gostaria de viver. Para ele “Nada mais triste do que um retorno a esse paraíso desfeito” (pág. 10); tais elementos misturavam- se com a admiração pelo  homem  rude  e forte que o mandou estudar fora e que conseguiu um imenso latifúndio com  a força do seu trabalho, e o respeito dos “cabras” tão fiéis e serviçais que trabalhavam com ele na fazenda.

A apatia total pelas coisas do avô e pelo Direito acabou por deixá- lo encerrado no quarto com seus livros, preguiçoso e lento, sem rumo na vida. Até a chegada de Maria Alice, que era uma conhecida da família, casada, e que precisava recuperar- se de uns problemas nervosos. Carlos e Maria Alice têm a mesma paixão pelos livros, gostam de passear pela fazenda, apaixonaram- se e passaram a dormir todas as noites juntos escondidos do velho Zé Paulino. O marido avisou que vinha buscá- la e ela simplesmente foi embora, deixando Carlos louco e desvairado, correndo pela fazenda, sem dormir e nem comer. É a sua primeira morte:

“Queria dormir. O que eu queria era dormir, cair como uma pedra, ficar morto, sem nenhum sentido desperto”. (pag. 99)

Carlos precisou morrer para renascer, recuperou- se na fazenda do tio até decidir voltar para Santa Rosa e continuar com o legado que havia deixado o seu avô. Agarrou-se no trabalho e conseguiu sobreviver sem Maria Alice que nunca voltou.

A ideia da morte colocada como renascimento aparece explicitamente com a morte de José Paulino:

“De longe, esperava que cavassem sete palmos. Não queria ver o fim. Mas tinha que ver. Todos os parentes ficaram com ele no último encontro. O padre fazia o sinal da cruz. A chuva fina não cessara ainda. Vi o batuque das pás dos coveiros e a queda do caixão no fundo da terra.Tinham plantado o meu avô.” (126)

Uma das ideias mais belas e místicas apresentadas pelo autor é essa de que um corpo plantado possa transformar- se em outra  coisa, como se a vida não acabasse com o corpo físico, transmitindo uma sensação de continuidade dessa mesma vida. O avô enterrado e plantado como uma semente iria gerar um novo Zé Paulino? Tudo o que morre, não morre,  continua vivo, já que só se planta algo que possa nascer (ou renascer).

A mesma ideia foi apresentada por Gilberto Gil com a música “Drão”, composta para a mulher, que fala sobre a  perda do filho do casal num acidente de carro:

Drão! Não pense na separação

O amor da gente é como um grão

Uma semente de ilusão

Tem que morrer para germinar

Plantar nalgum lugar

Ressuscitar do chão”

Carlos morreu pela segunda vez quando seu fiel capataz foi assassinado à foice para defendê- lo, por lutar pelos direitos do dono do engenho. A visão do “negro” morto não o deixava dormir, os olhos de Nicolau o acompanhavam, entrou em paranóia e pensou em fugir, em entregar a fazenda à fábrica e deixar Santa Rosa para trás. A covardia e a vergonha de si mesmo fizeram com que Carlos chegasse ao fundo do poço, mais uma vez, como na época de Maria Alice.

A morte como renascimento também pode ser vista no filme já consagrado “Avatar”, de James Cameron, onde as energias vitais estão implicitamente ligadas à terra, numa árvore, que guarda o segredo da vida e da morte, e que tem o poder de curar e fazer renascer, mostrando que esse pensamento da natureza mística acontece em todos os tempos e passa por todas as artes, seja a música, a literatura ou o cinema.

José Lins do Rêgo usa uma linguagem regional para falar de coisas universais, inerentes a qualquer ser humano: o amor, a vida e a morte, o erotismo, a paixão, o fracasso, as vaidades, o misticismo, o bem e o mal chocando- se em todo momento.  Carlos não pôde e não conseguiu imitar o seu avô, fracassou e precisou construir o seu próprio caminho, enfrentar os seus próprios medos e morrer, para renascer no que ele realmente era, mostrando que é impossível fugir de si mesmo.

Rego, José Lins do. Bangüê, Livros do Brasil, Lisboa.

Faleceu Dorival Caymmi


“É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã”

Ele que imortalizou esses versos do poeta Vinícius, com sua voz pura-poesia, com ar de maresia da Bahia, decidiu ir embora no Rio de Janeiro.

Ele que cantou todas as meninas, as Marinas Morenas, que embalou a minha juventude de amar-mar-sonhar e que nunca esqueceu da sua terra natal com a música “Saudades da Bahia”; também mostrou pro Brasil (e pro mundo) “o que é que a baiana tem?”:

Como dizer adeus a Dorival Caymmi?

Gente assim nunca morre.