PDF grátis: “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector


Nesta obra, “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, que você pode baixar gratuitamente aqui, há um dos melhores contos da literatura brasileira: “Felicidade clandestina”, que deu nome ao livro.

Clarice Lispector

Que felicidade ter um livro querido e desejado nas mãos, não é? A menina do conto, talvez a voz da menina Clarice, sentiu essa “felicidade clandestina” ao conseguir o livro de sua “algoz”. Não deixe de ler!

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Resenha: “Memorial de Aires”, de Machado de Assis


(…) Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem se pensa nada. (p.66)

Com o preceito fundamental acima, o da democracia e o direito de expôr o que se pensa, vamos à obra, “Memorial de Aires, escrita em forma de diário entre 1888 e 1889, enquanto Machado matava o tempo no barco durante as travessias de Petrópolis, em horas mortas. Ele mesmo explica no prólogo, que nessa época, seu livro de trabalho era “Esaú e Jacó”. Ler Machado é sempre um prazer, uma delícia! Ele é o santo graal das letras brasileiras, único e inimitável, faz o difícil parecer fácil, um mago. Nao é à toa que ele era conhecido como o “bruxo de Cosme Velho”.

A leitura passou massageando as minhas retinas cansadas de ler tantas sandices nestes últimos tempos nas redes sociais. Por certo: #EleNão! Fiz alguns links com o presente, Machado atualíssimo.

“Memorial de Aires” conta as memórias do Conselheiro Aires (ele é o narrador- personagem), um diplomata que retornou do exterior ao Rio de Janeiro há um ano.

Creio que todo imigrante, até mesmo os diplomatas cheios de regalias, facilidades e privilégios, muito diferente das dificuldades do imigrante comum, temem a volta depois de uma estância longa fora de casa. Alguns sentem- se até estrangeiros no próprio país. Não foi o caso do Conselheiro, depois de mais de trinta anos na Europa:

(…) Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois, acabei. Certamente, ainda me lembram coisas* e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudade por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei. (p.9)

Aires é viúvo, sua esposa faleceu em Viena e ele não a levou para o Brasil,  por algo místico, espiritual, deixou a cargo do destino (p.13):

Os mortos ficam bem onde caem (…)

– Quando eu morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela virá ao meu encontro.

Você acredita que temos um destino predeterminado ou somos responsáveis por tudo que nos acontece? Uma mistura de ambos? Acredita em outras vidas ou a morte é o fim de tudo?

A irmã de Aires, Rita, o convida para celebrar o seu primeiro ano de retorno… no cemitério! A principal e mais dolorida perda do imigrante: a família. Primeiro a convivênvia, e depois, os entes queridos, de fato. Muitos só podem revê- los dentro de um jazigo. Esse pensamento é horrível, mas é verdadeiro e nenhum imigrante está preparado para ele. No caso do diplomata, perdeu os pais e o cunhado. O futuro é longe demais, parece distante, mas chega.

No cemitério, além das lágrimas de Rita, também há espaço para a fofoca. Típico, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Há gente que invade espaços pessoais e familiares alheios, inclusive velórios,  só para espiar e confabular contra a vida do outro em seu momento de maior fragilidade. Acredite, há gente ruim assim, dou fé. É fato que há muitos espíritos inferiores pululando ao nosso redor, mas nunca impunes, tenho certeza. Essa irônia machadiana tão certeira e catártica, muito mais sutil que a minha, isso é certo.

Os irmãos espiam uma moça bonita perto de um jazigo e Rita reconhece a mulher que foi casada com um médico, a viúva Noronha, “filha de um fazendeiro da Paraíba do Sul, o Barão de Santa- Pia.” (p.11)

A viúva Noronha, ao contrário de Aires, transportou “os restos” (essa é uma expressão muito espanhola) do marido falecido em Lisboa para o Rio de Janeiro. Machado devia ser um sujeito curioso em pessoa. No texto, ele caçoa do nome da viúva pela boca de Aires: Fidélia. Os irmãos fizeram uma espécie de aposta: Aires disse que a viúva casaria de novo, e Rita, que Fidélia continuaria sozinha. Fidélia vem do adjetico latino “fidelia”= “fidelidade”. O diplomata iria tentar conquistar a senhora, viúva fiel e convicta.

A política separando pessoas desde sempre, na vida real e na ficção; aliás,  literatura é imitação da realidade, portanto, não vou mais fazer distinção, vou embolar tudo mesmo, porque a literatura é vida, e vida é literatura, são a mesma coisa e ponto final. Os autores sempre contam a história de alguém, ainda que essa história seja apenas fruto da sua imaginação.

Voltando à política e ao amor: o romance de Fidélia é bem shakesperiano. Seu pai e marido eram inimigos políticos. O pai de Fidélia a levou para uma fazenda para separá- la de Ricardo e ameaçou expulsá- la de casa se desobedecesse. A moça começou a adoecer, não parava de chorar e não queria comer. A mãe, com medo de alguma “moléstia” (lembrei do professor Ernani Terra, conversamos sobre esta palavra, que na Espanha é utilizada para qualquer espécie de incômodo, mas no Brasil é usada para doenças graves)…então, a mãe, preocupada, começou a intervir, mas o pai continuou firme e disse que a filha poderia até morrer ou ficar doida, mas  que não permitiria a mistura do seu sangue  com os dos Noronha. “Bonzinho” o pai.

A moça realmente ficou gravemente doente. Com a intervenção da mãe, o pai cedeu em parte, mas nunca mais quis ver a filha; e o pai de Ricardo, o filho. O casal ficou junto, mas a felicidade durou pouco com a morte inesperada de Ricardo em Lisboa. Aires é cínico e cruel, chega a questionar se valeu a pena brigar com o pai por um amor tão fugaz, que “se aposentou na morte”.  Nesse momento, já comecei a pegar abuso de Aires.

Não há nada mais tenaz que um bom ódio (p.36)

Mas não posso negar, que Aires tem uma personalidade autêntica, espirituosa, engraçadinha e realista/prática: Quando eu morrer podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem ele, e a minha pele com o resto; não é nova, não é bela, não é fina, mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rústico. (p.44)

Com todo esse drama, essa paixão quase mortal, será que Fidélia continuará fiel ao seu defunto marido ou cairá na lábia de Aires, que fez uma aposta com a irmã Rita?

Um verso não saía da sua cabeça “I can give not what men call love” (“Eu não posso dar o que os homens chamam de amor”). Há canalhas assim, tanto homens quanto mulheres, que divertem- se machucando o outro com planos premeditados e extremamente daninos. Aires chamou Fidélia de seu “objeto de estudo” e cogitou a ideia de colocar lenha na fogueira e que ela não se reconciliasse com o pai.

Aires vai à festa de bodas de prata do casal Aguiar só para ver Fidélia. Tanto o casal, quanto Aires e Fidélia, não tiveram filhos, tal como Machado e Carolina. Aires nunca os quis ter, ao contrário dos demais.

É chocante ler as palavras “mucama”  e “tronco” (p.32), em “Memorial de Aires”, testemunhando o seu tempo. Aires cita várias vezes a iminente abolição dos escravos  e a possível república. O Rio de Janeiro já foi uma “corte”, só que sem o glamour das cortes europeias, mas igual de cruel.

Que coisa… não me acostumo com a história da escravidão no Brasil e que não tenha sido devidamente reparada até hoje, ao contrário. Mas dá para entender o motivo conhecendo o perfil da metade, pelo menos, da população brasileira, apoiando e aplaudindo um candidato à presidência segregacionista, além de outros tantos qualificativos que vão em contra aos princípios de decência, ética e humanidade. Sei que todos estão cansados da violência e corrupçao, só que um remédio pior que a doença, não é a solução. A via militar é a pior escolha.

Machado, ainda bem, foi bem crítico irônico contra a escravidão e a hipócrita sociedade carioca. Corajoso, não omitiu- se como anda fazendo a nata erudita do Brasil. Machado foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. A omissão dos bons ajuda a criar monstros. As pessoas começam a pensar mal e errado, sem ter pautas confiáveis, agarram- se a salvadores da pátria. Nosso país é composto por poucos e maus leitores (e feitores). A maioria é leitor de manchetes de meios de procedência duvidosa e fake news.

Voltando ao romance… há um personagem muito citado, “Tristão”, que é afilhado do casal que comemorou as bodas de prata, lembra? Ainda menino, foi morar em Lisboa com os pais a contragosto da madrinha, D. Carmo. Formou- se em Medicina e esqueceu dos padrinhos durante muitos anos, o que os entristeceu bastante. Já doutor, retorna ao Rio. O nome do personagem nos remete à história de “Tristão e Isolda”, uma lenda medieval de um amor trágico. Tristão e Fidélia são os dois filhos “postiços” do casal. Tenho que concordar com Tristão (p.78):

– A gente não esquece nunca a terra em que nasceu, concluiu com um suspiro.

Tenho nacionalidade portuguesa (raízes familiares) e em vias de obter a espanhola (por residência), serei uma mulher multinacional, mas o sentimento de pertencer, sem dúvida, é por minha terra. Aires continua o pensamento do moço, concordo plenamente:

(…) a adoção de uma nacionalidade é ato político, e muita vez pode ser dever humano, que não faz perder o sentimento de origem, nem a memória do berço.

Em um sonho, Fidélia vê o sogro e o pai, já falecidos, reconciliando- se (p.70):

A morte os reconciliara para nunca mais se desunirem: reconheciam agora que toda a hostilidade não vale nada, nem a política nem outra qualquer.

Pois é…essa briga política no Brasil, que já chegou a extremos com falecidos e feridos, tem que acabar. Não vale a pena, é preciso bom senso e respeito, mesmo que a opinião alheia nos machuque. É um principío básico da civilidade e da democracia, o diálogo, violência nunca!

Lá pela página 80, já ansiosa para ver se o romance entre o idoso Aires e a jovem viúva iria acontecer, se ele seria o alcoviteiro de Fidélia e Tristão, ou se iria acontecer um triângulo amoroso, ele brinca com o leitor dizendo que está com os olhos cansados, que “velhice quer descanso” e  diz que pensa parar de escrever o diário. Mas, claro, continuou.

Amigos e amigas, não esqueçam que Machado era um escritor realista. Só vou dizer que o final é feliz e triste, como a vida mesmo.

Abaixo, a edição portuguesa lida:

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Assis, Machado de. Memorial de Aires, Cotovia, Lisboa, 2003. Páginas: 177

* Fiz algumas adaptações à nova ortografia, exemplo “cousa= coisa”.


Machado cita autores e livros ( e música, Wagner). Anota, são dicas de leitura do grande mestre: “Fausto”, de Goethe; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; Percy Shelley, poeta, marido de Mary Shelley, de Frankstein e William Thackeray, escritor inglês, de “Vanity Fair” e outras tantas obras famosas. Podíamos aqui fazer uma maratona “Thackeray”, quem se interessar me escreve, que a gente encontra uma forma, meu Instagram: @falandofernanda

Até a próxima!

 

O nicaraguense Sergio Ramirez ganha importante prêmio literário na Espanha


Qual a primeira coisa que você lembra quando ouve “Nicarágua”? Guerra, fome, violência? Creio que para a maioria das pessoas, sim, infelizmente. A América Central, talvez, seja a mais complicada e desconhecida das Américas. Composta por sete países: a citada Nicarágua, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá, El Salvador e Belice, países com belezas naturais exuberantes, praias paradisíacas, mas governados por políticos inescrupulosos, muitas vezes, com falta de democracia e liberdade; também há guerrilhas e guerras civis. Ramirez foi vice- presidente da Nicarágua e lutou contra a ditadura no seu país. É um tema muito amplo e complicado, voltemos ao literário.

O escritor e político Sergio Ramirez (Masaya, 05/08/1942), ganhou ontem o prêmio Cervantes na Espanha, considerado o Nobel das letras hispanas, é um prêmio muito importante  (125 mil euros, além do prestígio) e Ramirez foi o primeiro escritor, não só do seu país, mas da América Central a ganhar o Cervantes.

O escritor Sergio Ramirez

O escritor Sérgio Ramirez (Facebook)

Ramirez é prosista e tem uma obra prolixa, veja aqui a sua bibliografia completa.  O jurado considerou que o autor tem a capacidade de “transformar a realidade em obra- de- arte”.

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Sérgio Ramirez em sua casa em Manágua, ontem (El País)

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Sergio Ramirez e Nélida Piñón (sentada). A foto está no Facebook da autora, que está na Espanha agora: “Nélida Piñon, em Madrid, está exultante. Seu amigo, escritor nicaraguense, Sérgio Ramirez é o vencedor do Prêmio Cervantes de 2017, considerado o Nobel das letras castellanas. Em 2015, Sérgio Ramirez dedicou seu livro Sara à Nélida Piñon.

Seu último livro, “Ya nadie llora por mí” (“Já ninguém chora por mim”) foi lançado o mês passado. Mais um autor para a lista!

Resenha: “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury


451° Fahrenheit: a temperatura que o papel dos livros se inflama e queima. (epígrafe)

 


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O americano Ray Bradbury (1920- 2012) foi romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e roteirista, publicou “Fahrenheit 451” em 1953, livro considerado a sua obra- prima. Ray casou- se em 1947 com “Maggie” (Marguerite, falecida em 2003), o casal morava em Los Angeles com muitos gatos, quatro filhos e oito netos.

“Fahrenheit 451”, junto com “1984”, de George Orwell e “Um mundo feliz”, de Aldous Huxley,  foram as obras que popularizaram o termo “distopia”, que é contrário à utopia.  Um romance “distópico” acontece em um universo, país, mundo imaginário criado de uma forma que ninguém deseja, são horrendos, infelizes, tenebrosos. A maioria da obra de Bradbury encaixa- se no gênero ficção científica.

Enredo, personagens, estrutura e impressões sobre Fahrenheit 451

Não podemos perder de vista que esse livro foi publicado em 1953. Tudo o que o autor imaginou realmente foi incrível, um visionário, tudo verossímil.

A obra é dividida em três capítulos (a edição lida foi espanhola, com minha livre tradução ao português, então, algum termo pode estar diferente das edições brasileiras ou portuguesas). São eles:  1º- A chaminé e a salamandra; 2º- A peneira e a areia e o 3º- Fogo vivo.

O personagem principal é Guy Montag. O trabalho dele lhe provoca um grande prazer: destruir a história e o pensamento de gerações, queimar livros. Ele trabalha em um corpo de bombeiros muito estranho, contrário ao que conhecemos, o dos nossos heróis que enfrentam as chamas para salvar pessoas, animais, bens e natureza, mas isso na terra de Montag é lenda urbana. O personagem usa uniforme com uma salamandra na manga, o número 451 bordado (a temperatura em fahrenheit que o papel incendeia- se) e uma fênix no peito. Ele tem trinta anos, casado com Mildred e trabalha há dez no quartel. Os bombeiros são temidos pela população.

Logo na primeira página, o autor revela a função do personagem provocando nessa leitora a intriga, os questionamentos: “Por que ele queima livros, qual o objetivo?”, “Que lugar é esse?”, “Como seria um mundo sem livros? “Como se armazena, então, o conhecimento humano?”.

A estrutura social no mundo de Montag é parecida com a nossa, só que no futuro. Não há seres estranhos, exceto robôs (agora também já existe, mas na época que foi escrito há 64 anos, imaginar o futuro era pura especulação, nem internet tinha), nem um mundo fantástico, é como se fosse a Terra, só que com tecnologias mais avançadas. No país dele tem metrô propulsado por ar, que o deixa em uma plataforma depois de uma rajada de vento e os carros são “retro propulsados”. A jornada de trabalho é tal como conhecemos. Cada dia um autor (livros) está destinado à fogueira.

A vizinha de Montag é Clarisse McClellan, vai completar dezessete anos e pergunta a Montag (p.20):

" - Você lê alguma vez os livros que queima? Ele começou a rir:
- Está proibido por lei!"

Clarisse é o contra- ponto, a sensatez, a alegria e a sensibilidade. Não se deixou contaminar pelo mundo triste que essa sociedade do futuro criou (muito parecida com a nossa, infelizmente). Ela observa que as pessoas voam nos seus carros e nunca reparam nas flores, na grama abaixo, na lua, no sereno. A adolescente pensa e isso incomoda o bombeiro, que começa a pensar também sobre a sua existência.

A narrativa é poética na descrição das paisagens, pessoas e silêncios da cidade, gosto muito da atmosfera de mistério, contada com cuidado, esmero, as palavras pensadas e justas. É um excelente livro. Confesso que eu tinha um certo preconceito em relação a esse gênero literário, mas a história convence. Caí completamente na história de Ray Bradbury.

No país de Montag, as crianças se matam entre si. Há professores virtuais nas escolas, são quatro horas assistindo um aparelho eletrônico. Falta calor humano, debates, não se pode perguntar nada, questionar, tudo já está pronto e imposto. As crianças, pelo menos os filhos da dona Bowles, ficam vinte e sete dias na escola, só os vê três dias ao mês, para ela “suportável”. Nasceram de cesárea, os partos normais praticamente não existem e a natalidade é baixa.

As pessoas que escondem bibliotecas em casa são levadas para um manicômio e suas casas são queimadas. Montag, por influencia de Clarisse, desperta a vontade de ler um livro. Ele nunca leu nenhum, só uma linha de um conto de fadas. Beatty é o capitão do quartel e está totalmente doutrinado, não questiona nada.

A lei é incendiar os livros com querosene e dizer que tudo  neles é mentira, inclusive os autores, que nunca existiram. Normalmente, a polícia evacua os donos das casas e os bombeiros queimam tudo quando estão vazias. Mas nem sempre é assim. Encontraram uma mulher. Ela recusou- se a sair da casa, e por dignidade, ela mesmo acendeu o fósforo que incendiaria tudo, inclusive a si mesma. O índice de suicídios nesse lugar é altíssimo. Muita gente prefere morrer que viver numa ditadura sem esperança. Nesse incêndio, Montag levou um livro consigo, o primeiro da sua vida. O olhar dessa mulher e esse livro mudam a história toda do bombeiro.

Montag quer saber como, quando e porquê começou a sua profissão. A partir daí (p. 66) nós vamos descobrindo com ele as razões de tudo. Em alguns momento a narrativa é vertiginosa, confusa, intensa, labiríntica, viajamos com Montag na busca de respostas.

Em 1953, Ray Bradbury descreveu o que está acontecendo atualmente conosco. Há um excesso de distração inútil, há coisas idiotizantes demais e os livros estão ficando cada vez mais curtos, com muitas imagens (lembra do estouro dos “livros” para colorir?) e esquecidos. As escolas adotam livros clássicos “adaptados” por serem mais “fáceis” de ler. Uma ministra do governo Dilma quis proibir Monteiro Lobato nas escolas. Resistiremos?

Na obra, (pequeno SPOILER!), a desaparição dos livros não foi culpa do governo, como muitos podem pensar. A última escola de Artes no país fechou há quarenta anos por falta de alunos. O professor Faber, que aparece no segundo capítulo, ensinou nessa escola.

A culpa dessa sociedade triste e absurda, foi da população, que preferiu ler títulos, resumos, frases feitas e deixou de pensar e criar, além de comportamentos inaceitáveis de intolerância ao outro. O homem foi ficando vazio, vazio, vazio…esvaziou- se tanto de tudo, que ficou isolado, só. E há outros motivos, a universidade é apontada como uma das grandes culpadas (p.71). Bradbury disse em uma de suas entrevistas, “que acredita nos livros, não nas universidades”.

A universidade destrói a criatividade e padroniza os alunos? Minha experiência pessoal: eu era muito mais criativa, escrevia muito mais, poemas, contos, crônicas, antes de entrar na universidade, tive até um livrinho de poesias. Depois dela…temo escrever, uma espécie de respeito exacerbado pela literatura. Acabou- se. É um fato, virei uma Bartleby (escritora que não escreve). Se aconteceu algo parecido contigo, deixa aí nos comentário.

Fragmento do trecho onde Beatty explica a sociedade deles, creio que é uma crítica extrema esquerda (p.71) e logo depois vem uma crítica à extrema direita:

(…) Não nascemos livres e iguais, como afirma a Constituição, senão que nos transformamos em iguais. Todo homem deve ser a imagem do outro. Então todos são felizes, porque não podem estabelecer diferenças nem comparações desfavoráveis. Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queimá- lo. Tira o projétil da arma. Domina a mente do homem. Quem sabe qual poderia ser o objetivo de um homem culto?

Quando a população cresce, há muitas minorias, e nesse trecho, creio que é uma crítica aos extremistas. No final, os extremos, direita ou esquerda, não são a mesma coisa? A mesma crueldade imposta, violenta e excludente?

 – Deves aprender que nossa civilização é tão vasta que não podemos impedir que nossas minorias se alterem e rebelem (…)

– O povo de cor não  gosta de ‘O negrinho Sambo’. Queimemo- los. O povo branco sente- se incômodo com ‘A cabana do tio Tom’. Queimemo- los. (p. 72)

Na civilização de Montag tudo foi destruído para não ter divergências, já que essas ficaram incontroláveis. Ou seja, todos os extremistas são verdadeiros descerebrados intolerantes, tanto no passado, quanto no presente, no futuro, na ficção como na vida, porque cega e imbeciliza. São esses que impulsionam as guerras e conflitos, e conseguem conduzir bandos de cordeirinhos. Nada na vida pode ser preto ou branco. Há mil tons de cinza (e não falo daquele livro ruim). O mundo deveria ter espaço para todos, independente do que pensem, amem, pratiquem, acreditem ou desacreditem.  Isso não seria… a democracia?!

A intolerância, o pensamento totalitário, estão levando muita gente para a tumba de várias maneiras. Venezuela que o diga. E a Síria?! E o nosso Brasil dividido, uma gincana torpe, cada um puxando a corda do seu lado, e dessa forma, nunca haverá vencedores. O máximo que pode acontecer é que todos caiam. É necessário aparecer alguém que estabeleça a ordem e o consenso.

Na civilização de Montag, a vida humana também vale muito pouco, ninguém se comove mais. Morrer é banal. Nesse país, os carros esmagam coelhos e cachorros, isso também já não importa. E no nosso mundo, as pessoas param para socorrer animais que atropelam ou que foram atropelados?

Lembra que Montag escondeu um livro e o levou consigo para não ser queimado? A curiosidade é inerente ao humano; infringir as regras também (que não tem porquê ser negativo, quando essas são injustas). Ele e a esposa começaram a ler (segundo capítulo).

Ouve- se explosões de bombas constantemente. Essa civilização vive em guerra há muitos anos. Não há comoção com as mortes que acontecem nas guerras.

Estudar, investigar, criar é coisa clandestina, faz- se na escuridão dos porões.

(…) Quem sabe os livros possam nos tirar da nossa ignorância. Talvez pudéssemos impedir que cometêssemos os mesmos funestos erros (…) p.87

Um dos problemas da falta de prática leitora é que a interpretação de texto fica deficiente; portanto, quanto mais leitura, mais entendimento. Montag teve dificuldade para entender o  livro que salvou, teve que pedir ajuda ao professor Faber.

Na obra há bastante diálogos. Outros personagens: as senhoras Phelps e Bowles, amigas de Mildred (apelido Millie).

Montag e sua redenção, de carrasco a messias. “há tempo para tudo…uma época para destruir e outra para construir”.

Ray Bradbury é atualíssimo! E triste, porque há muita semelhança com a nossa realidade. Já não estamos vivendo em um mundo distópico?

Esse foi para a lista de favoritos. Já contei demais, agora é com você, LEIA!

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Bradbury, Ray. Fahrenheit 451. Debolsillo,  Penguin Randon House, Barcelona, 1993. Páginas: 185- Preço: 9,95€ na La Central (Callao, Madri).

Quer saber mais sobre Ray Bradbury? Baixe aqui gratuitamente o livro “O zen e a arte da escrita” e leia Os onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos.

 

 

 

 

 

 

 

“O amor assim, cura tudo”, uma análise do conto”Substância”, de Guimarães Rosa


Por Rômulo Pessanha

Essência

O texto que segue é sobre um pouco de brincadeira e diversão sobre Substância, conto que integra Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa.

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Ah, o amor! Ai dessas claridades que nos deixam vislumbrar caminhos invisíveis. A pergunta essencial: você emitiu sua luz? Ou será quando toda luz que vem do alto se mistura com a que vem de dentro?

Ao brilharmos viemos ao mundo ou, nos dando a luz, nossa mãe, nascemos? A luz é a nossa mãe iluminada, luz pura das épocas do amor. Quando os pássaros sobejam no céu é porque os rebuliços na terra sucedem aos amantes e só beijam querendo voar os sentimentos que os namorados abraçam com todo olhar, amor é amar e amar é luzir.

Ah, o mês das noivas, dos apaixonantes apaixonados. É a riqueza mais viva que a vida assim é o amor quando ao nosso se junta mais, número infinito, o verdadeiro amor, a bem querência nossa e a da pessoa que amamos. Diria até ser primavera, mas todas as cores se perdem nos olhos dela, que é a mais bela, na fruta doce da vida, esperando por nós ser colhida, para cearmos da farta ceia o amor, nossa colheita que nada ceifa a não ser o amor, que nem perece até mesmo quando a dor nos enegrece e amarga a vida, porém a calmaria vem, pois tudo é certo: se há noite no dia quando tristes, dia virá para nossa noite, pois felizes estaremos. As coisas são assim eternamente intercalações. E se amor é eterno é só porque está em algum lugar dentro entre os corações.

Os três personagens Sionésio, Maria Exita e Nhatiaga caminham num palco iluminado do quê mesmo? Talvez pela sua própria existência e cada um executa o seu papel. Sionésio duvida, faz questões, se pergunta e se interroga, exita? Maria Exita não exita, responde logo e desconcerta e faz perceber que ela já sabia das intenções de Sionésio. Olhos firmes no trabalho que é sustento, fonte e luz para vida.

O amor pega Sionésio de jeito de forma tal que se o amor o incomodava, ao final, juntou-se a ele, e, perto, aconchegou-se: será? Será que Maria Exita sabia mesmo das intenções de seu patrão Sionésio?

Ah, todo amor tem sua luz, e toda vida seu amor para quem quiser experimentar seu lume. Amar no debaixo do ouro quente do meio-dia e encima da prata refletora do amido é como ter na mente a imagem de uma jóia viva: quando percebemos o amor não apaga sua luz dentro de nós e queremos apenas viver assim quando mesmo até dizemos perecer dela, em verdade vivemos dela e por ela, para ela, as portentosas luminosidades de amar, é alvo que não se apaga.

O pó nos lembra vida, quanto a morte nem nada é, e sendo menos que possibilidade de fato, ela, a de todos certa sorte, nem existe. A energia do amor contida ali nos luzentes: a amada e o amante. Mexendo e tornando pó a energia pura e verde da vida da planta da vida, a energia do amor armazenada e dispendida: quanto mais amor mais acúmulo de energia. Fartura em nós é o alimento do estado de graça, transcendências de nossas humanas sensações. O amor assim, cura tudo. A vida é para a vida toda? Exita nem pisca responde: claro que é, é claro que eu quero. Parece irreflexão responder assim tão rápido ou foi demorada a pergunta? O amor é um espelho em que a gente nem se vê direito o que a gente é, o que gente foi e nem o como a gente está.

O amor é afetuoso raciocínio e por isso a tal vez chega na hora de se pensamor nos raciocínios dos coraçãomentes modos de ver as coisas. Apaixonar e amar é nossa condição, somos do amor a sub instância em forma viva e pensante que igual ao sentimento não sabe ponderá-lo nem dizê-lo apenas se vive e se ama: você me quer? E como resposta: por demais da conta e para até nos depois de sempre. O lugar principal de nossa existência é o amor e seu palco é todo iluminado: o amor é o lugar que une os que amam. É algo que atua em nós de modo brusco, supetão, subitamente enquanto interpretamos nos palcos da vida seu significado intentando significá-lo e dar-lhe consistência.

Assim é quando amamos, ficamos percebendo e padecendo a luz do outro, um ponto num tempo infinito que percorre todos os caminhos de nossa existência e nos faz querer ter para nós somente aquele luminar de olhos que se remexem ao nos ver e a gente vendo assim, ficamos a brotar amor, nos fazendo estremecer, fazem nossos pássaros brilharem, e todo nosso ser voar pelos ares, todos percebem a festa e o sagrado do momento: joguem arroz!, joguem o pó!, trabalhem!, festejem! E mais a Nhatiaga servindo ali de vigia, para tornar abençoado o sagrado do momento. Enfim, ao final podemos dizer: se um dia estive aceso foi só porque amei alguém e esse alguém que amei me deu essa sua luz que entreguei novamente em forma de amor. E assim sendo, dois, que se amam para sempre muito, e para muitos e para todos o amor é a substância essencial de um ato para além das cortinas que se fecham ante o palco que aplaude.

Rio de Janeiro, Capital, 22 de Maio de 2016.

 

 

Análise da obra “Vidas secas”, de Graciliano Ramos


Por Rômulo Pessanha

O fim

Quando pensamos no tempo, nem lembramos que tudo no mundo parece ter uma tendência ao círculo. A circunferência nos recorda os aspectos cíclicos da vida presente em tudo e de como tudo se renova e se torna ainda assim, diferente. Lembra frase de pensador famoso, aquele que dizia que quem mergulha os pés num rio nunca poderá mergulhá-los novamente nesse mesmo rio. Assim é a vida, nada se perde e tudo se aproveita como diria Lavoisier. A vida é um círculo e a única mudança é seguir em frente sob alguma perspectiva nova que ilumine novos caminhos para um ponto de fuga ou de tangência para uma nova vida, pois se a figura da vida é plana cabe a nós pensar nossa felicidade e a felicidade é sonhar sempre de forma diferente.

Me refiro aqui nesse texto ao capítulo inicial de Vidas Secas, de Graciliano Ramos denominado “Mudança”. O que quero dizer quando dou o título deste texto de “O fim”? Quero dizer com isso que tanto o primeiro, quanto o último capítulo são tal e qual. Em “Fuga”, o último capítulo, pode ser observado os mesmos elementos, retornando, e se fechando novamente em esperança, nada de desfechos mirabolantes, mas uma espécie de calmaria. Voltando ao primeiro capítulo, Mudança, também pode ser traduzida em ponto de fuga, porquanto numa circunferência toda força centrípeta tracionada e acumulada gera, posso talvez assim dizer, um ponto de fuga em que o objeto acaba saindo pela tangente e o objeto no caso é a família que observamos nessa obra de Graciliano como objeto de fuga para uma sempre tentativa de vida melhor, um sonho, em vários atos, mas o caminho como já disse não é reto, é dado em curvas que não se fecham num ponto específico, porém posso dizer que pode convergir para um ponto central, no caso, não falarei aqui desse ponto central. Acredito poder ser dito que Vidas Secas segue uma estrutura em espiral.

A paisagem vermelha e o céu azul, as rachaduras do solo seco lembram toda a fisionomia do personagem Fabiano, ruivo, olhos azuis ou também até mesmo lembra a sinhá Vitória ou a ela se refere enquanto terra atrativa ou não quando a voz narrativa a descreve ora magra ou a mostra nos pensamentos de Fabiano quando diz que ele estaria querendo que a sinhá ficasse com as nádegas carnudas, seios firmes tal qual a própria natureza parece estar vez outra ao longo da obra, ora é seca, ora é de uma fertilidade avassaladora e perigosa a vida, pois quando a água é demais a cheia se faz presente, natureza selvagem é um perigo para a sobrevivência. Também as aves, os urubus, voando em círculos igualmente como a água, cercando tudo em redor lembra que o perigo os cerca por todos os lados.

Um narrador, como uma lâmpada acesa apresenta cada um dos personagens, seus pensamentos e sonhos, devaneios e medos. Como se fosse um refletor num teatro iluminando a face de cada personagem mostrando o que cada um pensa. A narrativa apresenta a paisagem ora cheia de luz do dia, ora com algumas estrelas apenas, quando está de noite.

A morte é comida, na forma de uma ave, ser que nem voa e, sabemos, nem fala, um papagaio foi papado. A morte, no negro das asas do urubu, a morte sob as cabeças dos integrantes dessa família é o que resta depois do verde da cor das penas do papagaio, o verde que significaria a esperança, o verde de uma paisagem convidativa ao descanso, passa a representar o desespero e a urgência por abrigo e sobrevivência. Enfim, o fim é sempre um novo começo para busca por novas soluções para o sustento da família.

Os pés são importantes também e se assemelham ao próprio solo que pisam: rachados, feridos, com vermelhidão de machucado que dói até mesmo pela simples descrição, assim também são os pés de Fabiano identificado com a terra em que caminha, a dor está no andar no solo que pisa e também a dor está nas feridas dos seus pés e também a dor do cansaço por verificar toda sua família sobrevivendo àquela situação narrada. Baleia se alimenta dos pés do papagaio e isso também é a terra, Baleia se alimenta da terra que não pode chegar ao céu por intermédio da evaporação da água e, o que não voa, pelo menos deve servir como alimento nem que seja simples poça d’água como o conjunto familiar peregrino nos faz imaginar como sendo pequenas gotas de vida caminhando numa chapa seca cheia de rachaduras.

O “menino mais velho” e o “menino mais novo” são assim chamados, talvez para demarcar a passagem do tempo. Os filhos de Fabiano são preservados em sua identidade, porém até Baleia possui nome, mas nome de bicho, animal de mares que talvez o céu anilado possui somente a cor. Talvez Fabiano desejasse que a vida fosse um arrebol eterno, róseo, temperatura agradável e paisagem amena e que todo o azul do céu fosse o da água correndo como ele no solo, sob a terra divertindo e refrescando a vida de seus filhos, sua mulher, toda sua família.

Os Nomes também são importantes: o que significa Fabiano, sinhá Vitória? Pesquisei rapidamente num site na internet o nome Fabiano. Significa “dotado de sorte e prosperidade”, mas provém do latim, da palavra fava, e então pensei: o que é fava? Pelo o que diz a rede virtual significa algo como sementes comestíveis. Continuando, Sinhá era a forma como os escravos tratavam suas patroas ou senhoras, geralmente sinhá, mas aqui Vitória é chamada sinhá, dá certo tom de apelido carinhoso quase como algo da fala popular, mas também pode ser indício de decadência social. O significado do nome Vitória é vencedora, pessoa que triunfa sobre um inimigo e talvez tenha derivado da forma Victor, do latim que significa vencedor. Quanto a palavra Baleia, vem do grego phállaina e também do latim ballaena. Não encontrei o significado da palavra phállaina. Ballaena não pesquisei por achar óbvio, mas verifiquei e pelo pouco que vi significa baleia mesmo, um dos maiores animais existentes atualmente. Enfim, se isto tudo sobre esses nomes não esclarece nada sobre o estudo de Vidas Secas, pelo menos fica como fonte de informação.


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Cada um possui o seu momento de iluminação. E, se Baleia não aparece na última parte da obra é somente porque ela agora conseguiu evaporar-se e seguir caminho para o céu com aura de um ser tão humano quanto um urubu pode ser. Baleia parecia gente, os urubus também. Cada um com um aspecto da dualidade humana: Baleia nos remete ao companheirismo, fidelidade, amizade, ingenuidade, simplicidade, enquanto os urubus são carniceiros apenas para sua sobrevivência. Essa família é um exemplo do que pode significar sobreviver diante das questões da vida. Nem sempre sobreviver é viver, mas lutar nutrindo forças com a vontade que os sonhos nos proporcionam e fazem que seres humanos como os apresentados na obra de Graciliano se tornem sobre humanos, com uma força tirada de sua própria natureza que é a natureza de continuar sonhando mesmo quando tudo em derredor diz não. O fim não se acaba nem com o nosso fim, pois com o nosso fim, mudamos, fugimos para outro lugar onde a luta continua sendo a realidade nesse momento, o próprio sonho que se pensava, mas também o sonho que se vive e se e se habita, desejo que em nós habita é o nosso futuro lar, novo mundo.

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Ramos, Graciliano. Vidas secas, Record, 89ª edição, Rio de Janeiro, 2003. 176 páginas

Resenha: “Sagarana”, de João Guimarães Rosa


Esse livro é essencial na biblioteca de todo bom leitor. É simplesmente um LIVRAÇO! Uma celebração à literatura, essa arte maior, que podia ser apreciada por muitos, mas poucos ainda entram para esse mundo mágico. Por isso o Falando em Literatura existe: para puxar a sua orelha. Que tal começar?! Larga aí esse vídeo- game, o celular, sai do Facebook, do Instagram, Snapchat, Twitter, deixa esses best- sellers bobos e pega um livro de verdade! Quando o professor da escola pedir, você já vai ter lido e não vai precisa usar o Mr. Google para fazer um trabalhinho superficial. As resenhas servem como guias, mas você precisa ter a sua própria opinião sobre as obras. #atitudeinteligente

E para os maiorzinhos que estejam procurando uma excelente leitura: anotem esse.

O doutor João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27/06/1908 – Río de Janeiro, 19/11/1967) foi um dos grandes, um escritor sui generis, único, difícil de aparecer outro similar. Atordoou e atordoa ainda com a sua genial literatura, dá “coisa” por dentro (será Síndrome de Stendhal?). A escritura de Rosa contem elementos raros na literatura: originalidade, criatividade e inovação, desses, quem sabe, o primeiro seja o mais difícil.

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João Guimarães Rosa era estiloso, sempre com essa gravata borboleta

No âmbito familiar, Rosa foi casado duas vezes, a primeira com Lygia (de apenas 16 anos), tiveram duas filhas, Vilma e Agnes. Vilma, a mais velha,  diz que era muito carinhoso, brincalhão e atencioso com as filhas.

Também foi casado com uma mulher incrível, Aracy Rosa, que conheceu quando foi vice-cônsul em Hamburgo (Alemanha) entre 1938-1942. Ambos ajudaram alguns judeus a escaparem da morte certa. Aracy é considerada uma heroína contra o antissemitismo.

Para entender um pouco como é a escritura de Guimarães Rosa: ele era um cara super culto, diplomata, médico, um poliglota, erudito, aprendeu muitos idiomas sozinho, um autodidata. Ele misturou essa erudição, seu conhecimento amplo de vários idiomas, usou isso tudo misturado com o português oral, reproduziu o falar do sertanejo, arquitetou enredos fantásticos e foi assim que produziu a magia. O que Rosa conseguiu foi espetacular, o colocou no patamar dos clássicos, dos imortais.

Existe um dicionário do léxico de Rosa, de Nilce Sant’Anna Martins, para ajudar a entender muitos vocábulos da obra, mas notei que o conhecimento de outros idiomas ajuda na compreensão do texto, por exemplo, “volva” ( do verbo “volver”, “voltar”, p.16), que consta no nosso dicionário, mas pouco usado no Brasil,  é muito utilizado em espanhol; portanto, um outro idioma ajuda na compreensão da nossa própria língua materna. Estudem idiomas, o nosso em primeiro lugar.

Segundo Vilma Rosa nessa entrevista, seu pai nunca havia estado no sertão quando escreveu seus primeiros livros. Quem o ajudava com dicas era o pai do autor. Ou seja, ele reproduziu o sertão mineiro sem nunca ter estado. A imaginação é a solução. Eu não acho que para escrever seja necessário viajar (viajar enriquece muito, mas para a literatura, seu instrumento é a imaginação e a memória, a criatividade e a capacidade de criação). Ainda segundo Vilma, os personagens dessa obra existiram realmente, são antepassados de personalidades da cidade de Itaguara, cidade natal do seu avô que era caçador, coronel, dono de uma venda, vereador e juiz de paz, ou seja, alguém muito importante na época. Rosa teve uma boa fonte de inspiração.

A escritura de Rosa tem o poder de mostrar o desconhecimento que temos sobre o nosso próprio idioma, o leque de opções é imenso, mas a opção, normalmente, é caminho batido. Abrir o dicionário é coisa de sábios. 

“Sagarana” é a junção de duas palavras, um neologismo, “saga”, que é uma palavra envolta em misticismo, pertence à mitologia escandinava, pode ser bruxa ou feiticeira, também o traje do guerreiro, e que usamos normalmente para designar narrativas lendárias ; e  “rana”, que no livro “O léxico de Guimarães Rosa”, de Nilce Martins, diz que é de origem tupi, mas a origem é mais antiga, vem do Latim, “ragire”, uma onomatopeia, não só referente ao coaxar das rãs, mas de outros animais como frangos e tigres (tem onça , sapo- bezerro e sapo em Sagarana, no primeiro conto que abre o livro), também é o nome de uma planta rasteira que cobre lugares pantanosos (veja aqui). O nome do livro e o seu significado dão o tom, condensam bem a essência dessa obra.

O seu único romance é uma obra- prima “O grande sertão: veredas” (leia resenha), mas os contos, não ficam atrás não, Rosa era um contista de primeira grandeza. “Sagarana” (1946) foi a sua primeira obra publicada quando tinha 38 anos, consta de nove contos.

“Sagarana” foi escrito antes do ano de 1938, nesse, ele participou de um concurso de contos, Guima usou o pseudônimo de “Viator” e o livro “Contos”, ficou em segundo lugar. Luis Jardim ficou em primeiro com “Maria Perigosa”, foi um escritor de muita relevância, mas já não é muito citado. Anotado na minha lista.

Vamos pincelar os contos, cada um deles dá uma tese de doutorado, são muitos os aspectos interessantes:

1. O burrinho pedrês

Lendo esse conto de umas 60 páginas, dá vontade de incorporar algumas expressões do “rosês”: “Manhã noiteira” (p.13), não é lindo isso? Aquelas manhãs que custam a clarear. Literatura- arte é isso:  trabalhar a linguagem e tornar o comum muito mais bonito, interessante.

Rosa deu voz, sentimento, coração a um burrinho chamado “Sete-de-ouros”, de estimação,  já está muito velho e quase cego, mas foi convocado para “tocar boiada”, motivo de chacota entre as mulheres da casa. O burrinho é o narrador em alguns momentos. Como ver os homens da perspectiva de um animal?

Major Saulo (o dono da boiada), Sinoca, Zé Grande, Tote, João Manico, Francolim, Benevides, Sebastião dos Lados, Leofredo, Raymundão, Juca Bananeira, Cata-Brasa, Silvino, Badu (Balduíno), Sebastião, que toca o berrante e evoca cantigas sertanejas, iniciando a marcha para trazer a boiada, 460 bois. João Manico vai montado em Sete-de-Ouros, o burrinho. No final do conto, montado por Badu. Ninguém queria montar o burrinho, dava vergonha, ele só era a opção quando não havia escolha.

Os vaqueiros vão contando seus “causos”: “Eu estou quase não creditando mais, Raymundão…”(p.37)

E essa sabedoria mística do homem do sertão (Rosa também acreditava): “(…) A lua não é boa…Ano acabando em seis…” (p.37).

Esse conto narra o difícil trabalho dos boiadeiros que cruzam o gado por rios, sol, chuva, frio, lama, condições adversas, profissão tão sacrificada e pouco reconhecida, ainda muito presente no sertão brasileiro.

–Escuta uma pergunta séria, meu compadre João Manico: você acha que burro é burro?(p.40)

E o touro bravo, assassino, o Calundu, amansado com simpatia e morto por um espírito ruim. E o pretinho chorão com sua cantiga bonita que emocionou os peões , “Aquilo parecia: que a vaqueirada toda virando mulher” (p.64). O menino, parece, lançou um feitiço que botou o gado todo a perder, “Causos” da roça contados com muita graça, apesar de serem trágicos.

O burrinho, que vive de teimoso, entre a “morrência” (essa não está no dicionário formal e nem no de Guimarães Rosa) e a vontade de querer viver, emociona. Sete-de- Ouros no tarot é representada por um jardineiro que está parado observando as suas plantas. Misticamente, significa uma análise do passado e seus resultado no futuro, o que vivemos é o resultado das nossas escolhas.  Esse naipe pode significar doçura, inocência, purificação. O lado negativo é a lentidão, a inatividade, a falência. Como em Guimarães Rosa nada é por acaso, esse nome também não é.

2. Traços biográficos de Lalino Salathiel ou A volta do marido pródigo:

Esse conto também começa com um burrinho. O cenário é rural,  trabalhadores extraem amianto de uma jazida nas terras de “Seo” Remígio. Constroem uma estrada. Brasileiros e espanhóis, negros e brancos, “seo” Marra (“Marrinha”) é o chefe. Os trabalhadores: Pintão, Laio, Lalino (Eulálio de Souza Satãthiel, Laio), Correia, Generoso, Tercino, Sidu, Waldemar, o espanhol Ramiro. Comem em marmitas e as esquentam em um foguinho improvisado. “Lalino trouxe apenas um pão-com-linguiça.”(p.82)

Laio é um sonhador. Ele quer montar uma peça de teatro na roça. “Ou então, seo Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher…Fica até bom…” (p.86)

E o sonhador Laio também quer comprar umas terrinhas e conta tudo o que vai plantar nelas.Quem sonha e luta, pode realizar, independente do ambiente em que se encontre. O sonho modifica tudo. Quem tem a cabeça povoada de bons propósitos, contagia:

–Mulatinho levado! Entendo um assim, por ser divertido. E não é adulador, mais sei que não é covarde. Agrada a gente, porque é alegre e quer ver todo-o-mundo alegre, perto de si. Isso, que remoça. Isso é reger o viver. (p.87)

O capítulo encerra como se fosse tudo tivesse sido uma peça de teatro, isso dá uma remexida, uma reviravolta em tudo o que havia pensado antes. Um parágrafo de duas linhas quebrou o esquema todo, fantástico!

É um conto cheio de referências raciais, de cor. Hoje, quem sabe, Rosa não teria a mesma liberdade de escrever esse conto na era do politicamente correto. Ou sim? Não sei. Os tempos andam estranhos, há gente radical com poder que mistura ficção com realidade, e devia cuidar é da vida (real) para que a literatura não reflita realidades ruins.

Voltando ao conto, eu dei umas boas risadas com esse.

3. Sarapalha

“Sarapalha” é um lugar perto do cenário desse conto.

A história começa em “Tapera do Arraial”, uma povoado no Pará que está abandonado por causa de uma epidemia de malária. O povo debandou com medo da doença que dava uma “tremedeira que não desmontava” (p.127). Mosquito tinhoso, são as fêmeas as portadoras da doença.

Esse conto é uma aula de botânica, da flora e da fauna paraense. Que beleza. A descrição da paisagem é uma aula prática do que deve ser uma excelente descrição. Prestem atenção, meninos e meninas.

Perto de Sarapalha tem uma fazenda com alguns habitantes remanescentes: “uma negra” e “dois homens”, dois velhos, que não são velhos. A preta que passa um bom tempo sem nome e os primos Argemiro e Ribeiro. A empregada é “Ceição”. Os dois estão com malária, o médico deu um ano de vida. Eles vão vivendo entre as lembranças, a esperançada cura e a resignação da morte anunciada. E o sonho, o amor:

(…) Se ela chegasse, até a febre sumia… (p.136).

Ela o abandonou por outro, com ele já doente. Ele era obrigado a matar os dois, mas com a doença não poderia mesmo ficar com ela, então a deixou partir ilesa.

É um dos melhores contos escritos em língua portuguesa! É também uma história de desamor e de um amor impossível.

4. Duelo

Turíbio Todo, nascido em Borrachudo e seleiro de profissão. Um sujeito ruim, “mas no início dessa história ele estava com a razão”. (p.151)

Turíbio foi pescar, voltou antes do tempo e encontrou a sua mulher fisgada, dona Silivana (“a com belos olhos grandes, de cabra tonta”), por um cabo do Exército, Cassiano Gomes de 28 anos. Foi embora em silêncio para matutar uma vingança. Só que a vingança saiu mal executada. Xiiii….esse era o tempo em que vingança era feita com sangue.

O caçador virou o caçado. Só que o caçado, Turíbio, inventou uma estratégia para matar sem matar. Deu certo? Pensa que vou contar é? Leia!

5. Minha gente

José Malvino chega de trem a um arraial para empreender, a cavalo, o resto da viagem até a fazenda do tio Emílio do Nascimento. Ia passando Santana, inspetor escolar, que percorre povoados a trabalho. Decidiram ir juntos para Tucanos, 4 horas de viagem. Santana é viciado em xadrez e leva consigo um tabuleiro e muita literatura sobre o jogo. Os dois, um montado em um cavalo e o outro em um burro, vão jogando xadrez pelo caminho.

O tom e o léxico desse conto é totalmente diferente dos anteriores. É mais erudito, o narrador é Malvino, que é um “capiau” letrado, e Santana, seu interlocutor, fala “corretamente”. A paisagem é rural, mas os homens são sertanejos escolarizados, estudaram, Santana mais que o outro. Malvino sabe dos perigos do mato, do que pode ou não pode fazer ou comer, mas aprendeu o jeito da cidade.

O aprendizado do “capiau” vem da observação da natureza ou de casa, dos pais e mais velhos. Disse o pescador Bento:

– Ai, que mundo triste é este, que a gente está mesmo nele só p’ra mor de errar!…E quando a gente quer concertar*, ainda erra mais…” (p.205, “concertar” com “c” mesmo).

Esse é o conto mais enigmático. Não dá pra prever nada do que vai acontecer. A vida mansa dá uma reviravolta e um acontecimiento inusitado abala a paz da fazenda, mas a história segue ainda cheia de elementos inesperados.

O amor sempre andando e desandando tudo. Esse texto, nas últimas páginas, principalmente, tem um lirismo romântico, trechos de prosa poética, doces.  A vida e o amor, vistos como um jogo de xadrez.

6. São Marcos

É um dos contos que mais gosto, ri muito e li em voz alta. Tente sempre fazer isso, a literatura quando ganha voz acontece uma aura mágica. Começa engraçado, depois fica sério.

O narrador- personagem dessa história é o José (“Zé”) e é uma das mais engraçadas. Fala das superstições do povo da roça, Zé acredita, mas diz não acreditar. Existe uma série de palavras proibidas, porque atraem maus sortilégios e lugares também proibidos, passar depois da meia- noite nem pensar!

Você tem que ler esse conto, o livro todo na verdade, com calma, se pular um trecho faz falta, tudo é essencial.

E se você ficasse cego no meio do mato, sozinho, e não pudesse esquivar- se dos perigos? A causa e a solução? Só lendo! Fantástico!

7. Corpo fechado

Esse conto começa com um fato trágico, mas contado de forma tão engraçada que não dá pra evitar a gargalhada. Rosa era muito brincalhão e divertido (segundo Vilma Rosa) e isso está sim refletido na sua obra. Ele tinha bom humor, um sujeito divertido.

Pra você aí, o sujeito que coça a cabeça… é piolho ou sinal de indecisão? Morro com o Guima! hahaha

Manuel Fulô foi contando sobre os valentões, os que bebiam cachaça, aprontavam, matavam e que morreram de forma trágica, todos castigados, lá no povoado de Laginha, onde mora. Lugar “monótono” (como?!), olha essa sinestesia que engraçada:

–Mas, gente, que é que vocês fazem de noite?

–De noite, a gente lava os pés, come leite e dorme. (p.271)

Mané Fulô também gostava de cachaça, de mulheres, de conversa fiada e de não trabalhar. O narrador- personagem, a voz que trava os diálogos com Fulô é o doutor do povoado. Mané Fulô, dona da égua Beija- Flor ou Beija- Fulô, vivia de aparências, “tira onda” montado na sua mula e diz que é filho do maior comerciante do local. Um trambiqueiro. Trabalhou para os ciganos, que eram mais trambiqueiros que ele, depois quis se vingar. Algumas partes hilárias, ele contratou dois homens e foi até o dentista deles, modificando seus dentes para que se parecessem ciganos, para enganá- los vendendo cavalos ruins. E enganou. Ninguém queria mais fazer negócio com Fulô, pois ele “enganava até cigano”.

Targino, o valentão local, se engraçou com a das Dor, a moça que Fulô estava de casamento marcado. Fulô amarelou, mas usou uma estratégia para vencer o adversário poderoso. Magia!

8. Conversa de bois

Manuel Timborna, das Porteirinhas, afirma que os bichos falam com os humanos. E ele toca a contar “um caso que se deu”. Quem frequenta ou frequentou alguma roça no interior do Brasil, sabe: as rodas de “causos” são bem comuns.

Para os bois, o bicho é o homem:

– O homem é um bicho esmochado, que não devia de haver. Não convém espiar muito para o homem. É o único vulto que faz ficar zonzo, de se olhar muito. é comprido demais, para cima, e cabe todo de uma vez, dentro dos olhos da gente. (p.312)

Eu nunca ouvi um boi falar, mas que eles falam, falam.

9. A hora e a vez de Augusto Matraga

O tom desse conto é um pouco mais sério, com passagens emotivas.

Matraga não é Matraga, não é nada. Matagra é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonso de Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto (…) (p.335)

Casado com dona Dionóra, pai de Mimita de 10 anos. Um homem poderoso, com muitos capangas, anda entre as fazendas e com outras mulheres, não dá atenção à esposa e filha. A esposa teme o marido.

Levaram duas mulheres para serem leiloadas para a igreja. Como?! hahaha…sim. Augusto ficou com a capenga e foi assim que tratou a pobrezinha:

(…) Você tem perna de manuel- fonseca, uma fina e outra seca! E está que é só osso, peixe cozido sem tempero…Capim p’ra mim, com uma assombração dessas!… Vá- se embora, frango- d’água! Some daqui! (p. 339)

Disse o tio de Dionóra:

–Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos…Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio- dia… (p.341)

Ovídio Moura levou embora as duas pra viver com ele e mandou Quim Recadeiro avisar Augusto, que está endividado, prestes à falência e os capangas correram, não quiseram “justiçar” o patrão, foram todos com Major Consilva. Antes de matar Ovídio e Dionóra, ele tem que matar primeiro o Major e os capangas. Mas foi executado pelos mesmos- isto é- foi o que pensaram. Pensa que vou contar o resto? Não! 🙂

-Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria…Cada um tem sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. (p.350)

Esse é um conto que trata de honra, da redenção pelo arrependimento e pela fé.

11402998_619363471499347_2017071032095490125_nRosa, J. Guimarães, Sagarana, Nova Fronteira, 28ª edição. Rio de Janeiro, 1984. 380 páginas

Na verdade, eu já tinha lido essa obra na época de estudante universitária. Quando você pega um livro que leu há muito tempo e relê, você é outra pessoa e o livro também, é como se fosse a primeira vez. Livros como esse são fontes inesgotáveis, sempre há algo novo.

Esse livro exige esforço. E isso é bom. Pela minha experiência, ler livros ruins, “fáceis”, não é melhor do que não ler nada. Literatura ruim não proporciona benefícios, nem mesmo os cognitivos, pois não desafiam o cérebro. Você vai desperdiçar dinheiro e tempo, que é a coisa mais preciosa que temos na nossa vida. Repense suas escolhas! E não venham me dizer o contrário, “que ler qualquer coisa é melhor que não ler nada”, já tem gente demais defendendo isso. A nossa praia aqui do Falando em Literatura é outra. Nossa defesa é em prol da literatura- arte.

Eu não sei, só sei que Guima deve estar feliz, aonde estiver, sentindo as vibrações que provoca a sua literatura nas pessoas. Fazer sorrir, fazer gargalhar em literatura é muito difícil. Passei dias divertidos  e emocionantes lendo esses contos.

“Sagarana” está sempre em movimento, as pessoas sempre de passagem nas suas paisagens sacramentadas, incorruptíveis, perenes. Uma metáfora para a própria vida. O homem, só de passagem, vira história.