Adeus, Carlos Heitor Cony


Faleceu na noite de ontem no Rio de Janeiro, o cronista e imortal Carlos Heitor Cony, aos 91 anos. Ele passou por uma cirurgia no intestino e faleceu por causa de uma infecção generalizada. A notícia foi divulgada hoje pela Academia Brasileira de Letras:

O Acadêmico, jornalista e escritor Carlos Heitor Cony morreu, vítima de falência múltipla de órgãos, ontem, dia 5 de janeiro, sexta-feira, às 23 horas, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Samaritano, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde estava internado.

Assim que foi informado do falecimento de Carlos Heitor Cony, Marco Lucchesi determinou o cumprimento de luto de três dias e que a bandeira da Academia fosse hasteada a meio mastro. E complementou: “Carlos Heitor Cony integra a família dos grandes escritores do século XX. Criou um continente literário fascinante, sagaz, imprevisível. Homem de vasta cultura, jamais se desligou do presente, do Brasil e do mundo. Quase memória é um de seus livros mais visitados e redesenha a figura do pai na literatura brasileira”.

Quinto ocupante da Cadeira nº 3, eleito em 23 de março de 2000, na sucessão de Herberto Sales e recebido em 31 de maio de 2000 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony foi redator da Rádio Jornal do Brasil. De 1958 a 1960, tornou-se um dos jovens escritores que colaboram no SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil), com contos, ensaios, traduções. Em 1961, começou a trabalhar no Correio da Manhã, do qual foi redator, cronista, editorialista e editor.

Colaborou por mais de 30 anos na revista Manchete e dirigiu Fatos & Fotos, Desfile, Ele Ela. De 1985 a 1990, foi diretor de Teledramaturgia da Rede Manchete, produzindo e escrevendo sinopses das novelas A Marquesa de Santos, D. Beja, Kananga do Japão. Em 1993, substituiu Otto Lara Resende na crônica diária do jornal Folha de S. Paulo, da qual era membro do Conselho Editorial. Foi comentarista diário da CBN, participando do Grande Jornal com o programa “Liberdade de Expressão”.

Entre seus prêmios estão: o Prêmio Manuel Antônio de Almeida, com os romances A Verdade de Cada Dia, em 1957, e Tijolo de Segurança, em 1958; Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1996; Prêmio Jabuti de 1996, da Câmara Brasileira do Livro, pelo romance Quase Memória; Prêmio Nacional Nestlé de Literatura, de 1997, pelo romance O Piano e a Orquestra; Prêmio Jabuti de 1997, pelo romance A Casa do Poeta Trágico; Prêmio Jabuti 2000, concedido ao Romance sem Palavras; Os romances Quase Memória e A Casa do Poeta Trágico ganharam o Prêmio “Livro do Ano”, em 1996 e 1997, conferido pela Câmara Brasileira do Livro.

Carlos Heitor Cony (Foto: Folha de São Paulo)

Carlos Heitor Cony (Foto: Folha de São Paulo)

O escritor Antônio Torres lamentou a morte do amigo no Facebook:

Ah, a falta que o Cony já me faz. Grande escritor, grande amigo, grande companheiro de viagens e palestras (Paris, Natal, Guadalajara, Rio), sempre levantando as plateias com tiradas como esta: “O otimista é um mal-informado”. Em tudo que escreveu, deu um fino trato à última flor do Lácio, de que é exemplo a crônica abaixo, extraída do livro “Os anos mais antigos do passado”, publicado pela Record.


Abaixo, a última crônica de Cony no jornal Folha de São Paulo (31/12/2017). Bela e triste, parece mesmo uma despedida.

Uma carta e o Natal

Este será o primeiro Natal que enfrentaremos, pródigos e lúcidos. Até o ano passado conseguimos manter o mistério —e eu amava o brilho de teus olhos quando, manhã ainda, vinhas cambaleando de sono em busca da árvore que durante a noite brotara embrulhos e coisas. Havia um rito complicado e que começava na véspera, quando eu te mostrava a estrela onde Papai Noel viria, com seu trenó e suas renas, abarrotado de brinquedos e presentes.

Tu ias dormir e eu velava para que dormisses bem e profundamente. Tua irmã, embora menor, creio que ela me embromava: na realidade, ela já devia pressentir que Papai Noel era um mito que nós fazíamos força para manter em nós mesmos. Ela não fazia força para isso, e desde que a árvore amanhecesse florida de pacotes e coisas, tudo dava na mesma. Contigo era diferente. Tu realmente acreditavas em mim e em Papai Noel.

Na escola te corromperam. Disseram que Papai Noel era eu —e eu nem posso repelir a infâmia e o falso testemunho. De qualquer forma, pediste um acordeão e uma caneta— e fomos juntos, de mãos dadas, escolher o acordeão.

O acordeão veio logo, e hoje, quando o encontrar na árvore, já vai saber o preço, o prazo de garantia, o fabricante. Não será o mágico brinquedo de outros Natais.

Quanto à caneta, também a compramos juntos. Escolheste a cor e o modelo, e abasteceste de tinta, para “já estar pronta” no dia de Natal. Sim, a caneta estava pronta. Arrumamos juntos os presentes em volta da árvore. Foste dormir, eu quedei sozinho e desesperado.

E apanhei a caneta. Escrevi isto. Não sei, ainda, se deixarei esta carta junto com os demais brinquedos. Porque nisso tudo o mais roubado fui eu. Meu Natal acabou e é triste a gente não poder mais dar água a um velhinho cansado das chaminés e tetos do mundo.

 

Anúncios

Dez filmes românticos com encanto


Sexta- feira, 13, mas hoje não é dia de falar de terror e sim de amor: amanhã é o “Dia dos Namorados” na Europa (“San Valentín na Espanha), Estados Unidos, países da América Central e alguns da América do Sul como a Venezuela e o Uruguai. Para comemorar essa data com uma alta dose de romantismo, escolhi dez filmes com magia e encanto para assistir acompanhado(a) ou sozinho(a)…

Continue lendo o post original lá no PalomitaZ, Revista Brazil com Z.

CasablancaPoster-Gold

Resenha: Uma criatura dócil, Fiódor Dostoiévski


…Enquanto ela estiver aqui, tudo vai bem: a cada instante chego perto para vê- la, mas que será de mim quando a levem amanhã e eu fique sozinho? (p. 15)

Esse livro começa com uma nota do próprio Dostoievski explicando um pouco sobre o gênero do relato, que ele classifica de “fantástico”, mas com um grande fundo realista. Eis aí uma grande contradição. Eu acho muito bacana essa conversa direta com o leitor, alguns escritores também fizeram isso, dirigiram- se diretamente ao leitor, como Saramago e Machado de Assis. O escritor diz que demorou quase um mês para escrever esse texto. A narrativa trata de uma jovem mulher que havia se jogado de uma janela há algumas horas e seu marido fica aturdido, dando voltas, sem saber o que fazer ou pensar. Ele chegou cinco minutos tarde. O homem quarentão, militar retirado, tem uma loja de penhores e é hipocondríaco. Fala consigo mesmo, não está bem psicologicamente e tem que lidar com essa situação, sua esposa morta. Ela, uma órfã com 16 anos incompletos, estendida em cima de duas mesas durante seis horas. Dostoiévski explica que é uma narrativa contraditória nos aspectos psicológico e sentimental, o pensamento debatendo- se até encontrar a verdade. O autor mesmo qualifica esse embate de “confuso”Por que a mulher suicidou- se? Quando temos a notícia de algum suicídio, não é sempre essa pergunta que nos passa pela cabeça?

dosto3

Fiódor Dostoiévski nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscovo, Rússia e  faleceu em 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, Rússia. Escritor existencialista, sua obra considera o homem como centro e todo o conjunto de suas emoções e pensamentos. Jean- Paul Sartre também seguia essa linha, ele disse: “A existência precede e governa a essência.
Dostoiévski nos mostra a intimidade de um casamento por conveniência, ela muito pobre, ele muito solitário. Ele, o poderoso; ela, a submissa. Conheceram- se quando ela o levava objetos de muito pouco valor para penhorar.

(…) as pessoas boas e submissas não resistem muito e, ainda que não sejam muito expansivas, não sabem esquivar uma conversa: respondem com sobriedade, mas respondem, e quanto mais avança o diálogo,  mais coisas dizem; basta não cansá- los, se você quer conseguir algo. (p. 19)

A moça vendia seus poucos pertences para colocar anúncios no jornal “A voz” oferecendo- se para trabalhar como institutriz, caseira, costureira, cuidadora de doentes… até desespero chegar e  pedir um trabalho por casa e comida. Ela queria sair da casa das tias que a maltratavam e que queriam vendê- la a um homem que já havia matado, à base de surras, suas duas esposas anteriores.

Durante o casamento era ele que ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo achava- se um tirano e a moça doce, mansa e angelical, mas ele não conseguia mudar de atitude, talvez essa seja uma das contradições que Dostoiévski comentou. O homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, instinto, ações. Mesmo sentindo- se culpado pela morte da esposa, tentava justificar- se e colocar a culpa na defunta.

A vida dos homens, em geral, está maldita! (p.43)

Até as pessoas mais calmas e mansas têm um limite. A esposa adolescente era empregada do marido na loja de empenhos. Ela fez um mal negócio para um viúva idosa e o marido reclamou. A moça esbravejou, perdeu a serenidade, ficou uma fera. Deixou de falar com o marido e sumiu por dois dias. Nesse tempo a moça mudou bastante aos olhos do marido. Ou ela sempre foi assim, espirituosa, violenta, agressiva?

Ler Dostoiévski é sempre uma incursão ao interior do ser humano, uma evocação do que existe de mais profundo, como a abertura de um porão abandonado e esquecido. Ele liberta o fluxo do pensamento antes da ação, mostra o plano mental e emocional do homem.

E0702 MAX 14680

Esse quadro de Gabriel Von Max, “O anatomista” (1869), retrata perfeitamente a cena do homem e da mulher morta que Dostoiévski narrou em “Uma criatura dócil”.

O amor às vezes chega tarde demais…e não há mais salvação, só resta a dúvida.

“O último dia de um condenado à morte”, de Victor Hugo. Livro citado por Dostoievski nessa obra,  já está na minha lista de desejos.

Edição brasileira à venda na livraria Cultura:

30759786

A edição em espanhol que eu li:

mansa

Dostoievski. Fiódor M., La mansa, Alba Brevis, Barcelona, 2012. 90 páginas

 

Resenha: Um táxi para Viena d’Áustria, de Antônio Torres


Longe é qualquer lugar perto do paraíso (p. 219)

Não adianta fugir Watson Rosalveti Campos (Velti ou Veltinho para os íntimos) você saiu lá do Rio Grande do Norte, foi morar no Rio de Janeiro/São Paulo, virou publicitário de sucesso, mas agora está desempregado, está sozinho, os amigos desapareceram, só te resta a parede te cercando. Teu maior medo? Morrer sem dinheiro. E agora?

Desemprego. Ai, que horror. Até parece sinônimo de Lepra. (p.138)

Corre na escadaria, foge, voa num táxi, escreve para se despedir da mãe. “Não matarás”, mas você matou Cabralzinho, matou seu amigo de 25 anos. Agora o rosto dele vai contigo, a culpa vai na sua cacunda gritando no seu ouvido, não adianta fugir de táxi para Viena D’Áustria, só porque lá tem música nas ruas.

Porque só a morte é perfeita. A vida é que é cheia de imperfeições. (p. 93)

O fluxo de consciência do narrador- personagem, Watson, nos remete a uma sensação onírica, o fantástico mistura- se com a realidade, não sabemos se é sonho, alucinação ou se entramos no pensamento de um psicopata assassino. A narrativa não é lineal, vai e volta no tempo, e assim, podemos ir colocando forma no personagem. Ele lembra da infância, do pai morto, assassino e ex- policial que foi preso por plantar maconha. A linguagem é coloquial, escrachada, sexual (sem a finura do erotismo), enfim, um homem comum (o cara pensa muito em sexo) ou melhor, um homem que parece ser comum, mas que de repente, sem querer, sem planejar, converteu- se num assassino. Instinto assassino, temos todos? Cuidado, o assassino mora ao lado.

Táxi levanta vôo. Ganha altura com uma rapidez de sonho. Entra numa nuvem pesada. Táxi em zona de turbulência, sacolejando assustadoramente. (p. 78)

Você não resistiu, viu seu velho amigo escritor na tv, envelhecido e… bum…bum! Acabou com a vida dele. Matar é tão doce, não é Watson? Quem disse que é díficil… Hitchcock? Você sentiu um prazer inenarrável matando.

Não deu para fugir dessa interação dialógica com o personagem Watson. Intriga pura durante a narrativa, mas “por quêêê, Watson!”. A personalidade de Cabralzinho também foi sendo construída, eita Cabralzinho sem vergonha, beberrão, caloteiro!

Um burro velho de carga e ainda dependendo da caridade pública ou privada. É, bolsa me cheira à filantropia, esmola, por aí vai. (p. 144)

E esse papo de morte, de assassinato é tabu, não? “Não matarás” é um dos mandamentos que Jesus nos deixou, fora que pode ser caro, você pode ir preso e o conjunto de seus princípios morais te fazem acreditar que matar não compensa, afinal, quem suporta carregar o peso de ter cometido um crime hediondo? Mas, surpreenda- se: segundo o maior estudo realizado sobre fantasias homicidas, 91% dos homens e 84% das mulheres admitiram já ter pensado (em minúcias) como se livrar de outra pessoa. Essa pesquisa foi coordenada por David Buss, do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade do Texas e virou o livro The Murderer Next Door. Exceto os psicopatas, ninguém admitiu que o assassinato é algo aceitável socialmente. Ufa! Mas você, Watson, qual é a sua? Você está sonhando, está delirando, tem problemas mentais? Sua consciência pesada indica que não é um psicopata.

– Pai, por que está demorando tanto de você arranjar um emprego? (p. 171)

Quem é você, Watson? Por que matou Cabralzinho? Mesmo sabendo, eu não acredito, deve ter outra razão! Cabralzinho ficava insuportável quando bebia:

No primeiro copo, começava a crescer e ficar com os cabelos louros e lisos. No segundo, começava a se achar um homem alto, de olho azul. No terceiro, estava convencido de que nenhuma mulher resistia a seus dotes físicos. (p.105)

Uma narrativa surreal, com um final inusitado.

O autor: romancista, contista e cronista, o baiano Antônio Torres (Sátiro Dias, 13 de setembro de 1940) foi publicitário e jornalista, Antônio Torres publicou sua primeira obra, “Um cão uivando para a Lua” em 1972 e foi muito bem aceita pela crítica e público.  O escritor é o autor de uma obra- prima da literatura brasileira, “Essa Terra”, que é um dos  meus livros preferidos, uma fantástica história, emotiva, de uma família nordestina, onde um dos seus filhos migra para São Paulo, retorna à sua terra natal e acaba suicidando- se. Torres é um escritor versátil, também escreveu o livro “Meu querido canibal”, obra que ganhou tradução na Espanha, é uma mistura de história do Brasil com ficção, muito diferente de “Um táxi para Viena D’Áustria”, que é um romance urbano. Uma das qualidades da escritura de Antônio Torres é que não sofremos para ler seus livros. Temos a possibilidade de aprender, nos emocionar, mas também de rir e evadir da realidade. Não são nada chatos e aborrecidos seus livros, como há “grandes” obras por aí. Ler Antônio Torres é ler com prazer. Aprendi com o mestre Antônio um termo que não conhecia ainda: “literatice” (p. 108), que parece literatura com chatice, mas é “Literatura ridícula; mania ridícula da literatura”, dava um bom nome para blog, não?!

– O normal não tem graça- ele disse. (p. 109)

Antônio Torres reside hoje em Petrópolis, Rio de Janeiro. Casado com a professora doutora Sônia Torres desde 1972, ela é escritora do livro “America Íbrida” (publicado na Itália), eles têm um filho que também é escritor e mora nos Estados Unidos, Gabriel Torres (7 de julho de 1974). Ele já escreveu 22 livros sobre informática. E o caçula, Tiago Torres (29 de março de 1977), parece que não gosta de aparecer nas redes sociais.

487434_608122575864889_93359484_nAntônio Torres num evento literário em Salvador, Bahia, no último dia 07 de maio, “Conversas Plugadas”, no TCA. (foto: Cristiana Alves)

Antônio Torres é um escritor brilhante, mas é muito acessível, de uma simpatia ímpar, ele tem uma página web, um perfil pessoal no Facebook, uma fan page (administrada por mim e pelo próprio autor, que responde perguntas e interage com as pessoas).

Eu tive o prazer e o privilégio de ganhar de Antônio Torres um exemplar autografado de “Um táxi para Viena D’Áustria”, um verdadeiro tesouro. Muito obrigada, mestre Antônio!

IMG_8066 IMG_8065 IMG_8064

Torres, Antônio. Um táxi para Viena D’Áustria. Record, SP- RJ, 2005. 222 páginas