Foi você quem disse, Drummond?! Quiz!


O que você sabe sobre um dos maiores escritores modernistas do Brasil? O mineiro Carlos Drummond de Andrade nos deixou uma obra preciosa e que vale a pena ser lida e relida. Preparei um quiz rápido, sete perguntas para você testar os seus conhecimentos sobre o autor. Vamos brincar?!

Segue o link. clica aqui.

estátua ItabiraEstátua de Drummond na sua cidade natal, Itabira- Minas Gerais

No próximo post irei explicar cada uma das questões.

 

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A 1ª Oficina “Falando em Literatura” em Madri: sucesso!


Ontem aconteceu em Madri, a primeira oficina de leitura e escrita “Falando em Literatura”. O evento aconteceu na Casa do Brasil e reuniu um grupo seleto de pessoas que amam a boa literatura. Resultado: duas horas de bom papo sobre Clarice Lispector. Construímos um ambiente agradável, onde as ideias, impressões e troca de experiências foram surgindo naturalmente.

Os participantes produziram microcontos muito interessantes!

Na próxima semana tem mais! Quinta- feira, dia 10/11, das 19-21h, será a vez do grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Inscreva- se logo, é gratuito e as vagas são limitadas, o grupo é bastante reduzido, pois a intenção é que haja interatividade e que todos possam expressar as suas ideias.

 img_2270Os participantes da 1ª Oficina “A literatura psicológica de Clarice Lispector. Como construir e identificar narrativas interiores”.

img_2277-2Da esquerda para a direita: Simone Schwambach, Renata Barbalho (que ganhou um livro de contos de Clarice no sorteio), Deborah Cole, Cristina Pacino (atrás), Luz Bastos, Mila Paiva, Sherlen Sarmento acompanhada da pequena Helena, que com apenas três meses, comportou- se como uma mocinha; e eu, Fernanda Sampaio. Ah, o único rapaz (que aparece na foto anterior), é Rafael Manjares, marido de Sherlen e pai de Helena. O crédito dessa foto vai para ele.

Agradeço a presença simpática de todos os participantes! Fiquei muito feliz com o resultado. Realmente um grupo nota dez!

Lembrando que o evento foi possível devido ao incentivo do Itamaraty com o apoio do Consulado do Brasil em Madri.

Veja abaixo o cronograma com os seguintes eventos, inscreva-se pelo e-mail: falandoemliteratura@gmail.com

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Nos vemos na próxima quinta!

114 anos de Carlos Drummond de Andrade


No próximo dia 31 de outubro, o escritor mineiro de Itabira, completará 114 anos de nascimento. Jornalista,  funcionário público, poeta, contista e cronista, Drummond deixou uma marca forte e inexorável na literatura brasileira. Não entrou para a Academia Brasileira de Letras, mas é mais imortal que muitos imortais. Drummond teve 13 irmãos e seus pais eram primos.

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Casou uma vez e teve dois filhos. Um menino que faleceu recém- nascido e Maria Julieta, paixão do escritor. Ela também foi escritora, mas sem o sucesso do pai. Morreu de câncer aos 57 anos. Drummond, de enfarte doze dias depois, não aguentou a perda da filha.

O autor fez parte do movimento modernista brasileiro (1922- 1960), que é dividido em três períodos com características diferentes. Carlos Drummond fez parte da segunda geração, publicou seu primeiro livro em 1930, “Alguma poesia”, oito anos depois da Semana de Arte Moderna, que inaugurou o Modernismo no Brasil. Os poemas de Drummond falavam da condição do homem, seus sentimentos e problemas cotidianos com muito “lirismo”. A poesia lírica comunica através de ritmo e imagens os sentimentos e emoções do poeta, seu interior.

Há críticos (acabei de ler Jorge Henrique Bastos) que consideram que Drummond foi a voz mais importante da poesia brasileira do século XX.

De hoje até o dia 31, irei postar poemas de Drummond no Facebook, acompanha lá!

O que escolhi para hoje:

NÃO PASSOU

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

Resenha: Balada da infância perdida, de Antônio Torres


O meu pai não veio e não virá jamais. Odeia todas as cidades, sem distinção de tamanho, situação geográfica, renda ‘per capita’ ou densidade populacional. Diz que são invenções do diabo. Elas roubaram todos os seus filhos. (p.7)

Ler Antônio Torres é ler o insondável. Encontrei alguns elementos surpreendentes nessa narrativa do grande mestre Antônio Torres, imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Baiana de Letras.

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Antônio Torres no Corcovado, Rio de Janeiro (foto de André Correa)

Balada da infância perdida (1986) é o sétimo livro da carreira de Antônio Torres (Sátiro Dias, 13/09/1940), que sabe escolher título de livro, não é?! Lindo esse! Tem um quê de nostalgia, lirismo, um título poético. Esse é um dos livros que mais gostei do autor, tem uma variedade de elementos incríveis: prosa poética, alguns poemas, imagens bem construídas, algo de tragicomédia, família, o rural e a cidade, política, o sobrenatural, o onírico que faz o personagem entrar numa festa do “The great Gatsby”, sonhar reiteradamente com caixões, com sua mãe, sua tia e com o primo Calunga, todos falecidos. A magia de uma narrativa escrita há quase 30 anos, mas que continua atual. No que se refere às tecnologias, aquela época era diferente, mas não parece, só faltou citar o Facebook. Os fatos, os problemas sociais e existenciais, parecem que não mudaram muito, aliás, certas coisas nunca mudam. Por isso Antônio Torres é um clássico, porque seus livros são  atemporais, chegaram até aqui sem perder seu valor e podem tocar gente muito diferente, independente de classe social e de qualquer nacionalidade, tanto que já foi traduzido em vários países.

Falando em tradução, saiu a versão francesa de “Meu querido canibal”(“Mon cher cannibale”), traduzido por Dominique Stoenesco, com prefácio de Rita- Olivieri Godet. O lançamento acontecerá durante o Salon du Livre de Paris que começa hoje até o dia 23 de março, com a presença do autor, que já está em Paris. Voilà!

Como o nosso país vive tempos convulsos, escândalos de corrupção, o país dividido, cortado em duas bandas em pé de guerra, sempre é bom recordar que a ditadura deve ficar no passado, só na história e na ficção Independente do que aconteça, a democracia jamais deve ser tocada. Como disse Cervantes, “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens deram aos céus.”. Não percamos o bom senso e nem entremos em estado de histeria coletiva, radicais de ambas tribos. Equilíbrio é a palavra. Ninguém está tão certo, nem tão errado. Abaixo, o protagonista recordando tempos amargos:

Quarenta anos.

Aos vinte, me enfiaram uma ditadura pela garganta.

Agora que chego à idade madura, tenho de aguentar o peso do meu cansaço. Qual é a graça?

Em “Balada da infância perdida” há muitas citações e referências literárias, o espanhol Garcia Lorca, Charles Baudelaire, Scott Fitzgerald, o cineasta Carlos Saura, Gregório de Matos, Marcel Proust, Jacques Brel, Christiane Rochefort (“O repouso do guerreiro”, anotei na minha lista) e também Castro Alves, justo o poema que o menino Antônio Torres recitou em plena praça pública lá no Junco (hoje Sátiro Dias), ele sempre conta este “causo” nas suas entrevistas, dá uma olhada na web do escritor. Mas nesse caso, Calunga, Luis Carlos Luna, seu primo beberrão, que poderia ter um futuro “lindo”, mas não teve,  foi que quem recitou o poema, nervoso, diante da ovação dos presentes.

Torres encontrou uma forma muito criativa de separar os capítulos, de arquitetar a obra: o primeiro capítulo é introduzido com uma canção de ninar, que depois a gente vai entender o motivo, os próximos quatro são numerados, o sexto: Primeira hipótese: MAMÃE; o sétimo, Segunda hipótese: TIA MADALENA, A MÃE DE CALUNGA.

A mãe falecida bate altos papos com o filho vivo. Isto é, o narrador acredita nisso, parecem alucinações. As histórias da família começam a ser desenhadas: Zé, o pai manco e sua mãe foram capazes de gerar vinte e quatro filhos! A origem e as memórias rurais do autor acabam presentes em vários dos seus livros, dando um ar nostálgico, um memorial de sensações sofridas e alegres, contraditórias, nesse também. Antônio Torres é a memória de muitos imigrantes que abandonaram suas terras natais para tentar encontrar o seu lugar no mundo. As obras de Antônio Torres sempre estão em movimento.

Doce família baiana. Adora ser visitada. Principalmente pelos que moram longe e podem chegar de uma hora para outra, cheios de novidades. A porta estará sempre aberta e a mesa já vai estar posta. Hoje é dia de feijoada, caruru, vatapá, sarapatel ou o quê? (p.88)

E a tia Madalena defunta, “uma sargentona nata” (p.78) aparece nos sonhos do narrador, que ressuscita a tia através da descrição tão real que faz dela. Papo bem terrenal, a tia defunta protesta com o sobrinho por ainda não tê- la levado ao Mc Donald’s. Achei a cara do Modernismo! Eu classificaria essa obra de Antônio Torres como patafísica. É isso, é uma narrativa cheia de elementos patafísicos, surrealismo em estado puro. Transcende a narrativa linear, o espaço é um terreno inóspito, desconhecido, o da memória, talvez. Esse livro daria uma fantástica adaptação teatral. Veja o trecho abaixo (p.159), Che Guevara repousava no quarto do narrador, se a imprensa descobrisse, ele seria homenageado aonde? Na Academia Brasileira de Letras, entre outros lugares. Antônio Torres visionário? Aguentou firme os “quarenta discursos”, mestre?! 

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Em A terceira hipótese, (p.86) pode ser o capítulo que explique o porquê de tantos sonhos e caixões. A notícia sobre o primo Calunga morto prematuramente aos quarenta anos por causa da bebida. Até então os diálogos (ou monólogos?) com os defuntos pareciam acontecer no plano onírico, mas a história muda de dimensão. A conversa começa a acontecer com o narrador acordado. A realidade do absurdo.

 Um livro imprevisível, o que vem depois?! Talvez venha a saudade:

Você, em cima da carga, ia deixando o seu velho mundo para trás. Aqui e ali umas vaquinhas, umas ovelhas, uns cavalos. Pastos. Roças de mandioca. Uma casa com varanda. Uma casinha caiada, com uma árvore na porta. Quintais de bananeira. E o sol, morrendo no poente, dourando tudo. Era um pôr-do-sol amarelo com riscas vermelhas: uma pintura. Linda. Bateu uma coisa estranha dentro de você. O que era aquilo? Uma dor? Uma saudade? A partida. Você estava indo embora. Para sempre. (p.95)

O narrador- personagem não tem nome, só sabemos que é redator e casado com Cris, ele é o alter-ego de Antônio Torres, possivelmente, já que muitos trechos são autobiográficos (inclusive a profissão). A cidade venceu Calunga, que mergulhou no álcool para amortecer a vida que não queria ter. Muita gente imigra, sofre e sente- se só. Que aconteceu com Calunga? Foi vencido. Como ele, muitos. Para Calunga os versos de Alexandre O’Neill (p. 155). O último capítulo, Boi, boi, boi/boi da cara preta. Começa assim: Vai ver a minha tia é quem tem razão: – A culpa é dos comunistas. Calunga foi empregado por um comunista. Tudo é culpa dos comunistas, a mãe os culpou pelo deterioro e morte precoce do filho. O narrador faz uma defesa do Comunismo (p.178) lista uma série de dados e estatísticas que os comunistas denunciam sobre tudo de errado que acontecia no Brasil.

Contexto histórico: pós- ditadura, 1986. Um dos dados: “Que só existe um médico para cada 1700 pessoas?”, argumenta com a tia Madalena, que detesta comunistas. E “Que, no ano da graça de 1986, temos 38 milhões de pessoas na mais completa miséria?”. E segundo dados do IPEA de 2014, 0 Brasil ainda tem 26,24 milhões de pessoas que vivem em extrema pobreza. Outro dado: “Que 40% da população está desempregada?”.

E infelizmente, tenho que dizer, que quase 30 anos depois e 12 anos do governo do Partido dos Trabalhadores, com tendência comunista, esses dados melhoraram, mas não o suficiente, ainda existe no país muita gente abaixo da linha da pobreza. Segundo os dados do IBGE (2014), no Brasil existe 1,95 médicos por mil habitantes, mesmo com o programa “Mais Médicos”, um dos maiores absurdos da história brasileira, a “importação” de médicos cubanos, a modo reféns no país. Metade do dinheiro fica em Cuba e os médicos só receberão a outra parte, se e quando, regressarem ao país, que vive uma ditadura. O governo brasileiro amicíssimo dos Castro e fazendo pactos com a ditadura e troca de favores estranhíssimos. No Maranhão, só existe meio médico para cada 1000 habitantes, 0,68%. Sobre o desemprego, o dado oficial, que agora é de 6,8% é uma número mascarado, já que as pessoas que não procuram emprego e estão desempregadas não entram para essas estatísticas e nem as pessoas que exercem ofícios informais (que são muitas!). Segundo o economista Ricardo Amorim, o número real de desempregados no Brasil é quase a metade da população em idade para trabalhar:

Pelos dados oficiais do IBGE, de cada 100 brasileiros em idade de trabalho, 53 trabalham, três procuram emprego e não encontram e 44 não trabalham nem procuram emprego. É considerado desempregado quem procura emprego e não encontra (3%) sobre o total dos que procuraram emprego (56%): 3% / 56% = 5%. Quem não procura (44%) tecnicamente não está desempregado. Esta não é uma manipulação estatística feita pelo governo brasileiro. O mesmo conceito vale no mundo inteiro. Porém, se a estatística não é manipulada, sua interpretação é. Baseado na estatística de desemprego, o governo sugere que quase todos os brasileiros têm emprego. Na realidade, quase metade (47%) não tem.

Falta transparência e honestidade. Essencial é ajudar as pessoas que estão na miséria no país, o que se faz ainda é insuficiente e da forma equivocada. Provoca- me repulsa que cobrem 25% dos aposentados que moram no exterior, fora o imposto “normal” que todos pagam. E mais, agora cortaram 50% da pensão por viuvez. Além de perderem marido ou esposa, ainda levam uma cacetada destas! Por que mexer com esse coletivo tão frágil? A maioria dos aposentados e pensionistas no Brasil não recebe o suficiente para a própria sobrevivência, justamente na fase que pode precisar de mais de cuidados e tratamentos médicos. Isso não é fazer socialismo, tirar de pobre, aonde já se viu?! Karl Marx deve estar se revirando na tumba! Os fins não justificam os meios, as coisas podem e devem ser feitas de outra maneira. Afinal, O SHOW TEM QUE CONTINUAR (título do último capítulo, pg. 172).

Eu quero um novo partido socialista no Brasil, que não prejudique aos pobres, aos remediados e nem aos ricos, bom senso! Eu quero um governo socialista que promova ações de integração e de eliminação da miséria reais e duradouras, que não classifique as pessoas pela sua cor  e que una o país por um objetivo comum e não fragmente uma nação gigante como a nossa! A esquerda “endireitou”, estão todos iguais, inclusive no quesito corrupção. O comunismo se perdeu, anda perdido. Com esse a parte, seguimos…

Antônio Torres escreveu obras, pelo menos as que li até agora, que podem encaixar- se na tradição modernista (o regionalismo, o surrealismo, por exemplo), principalmente de terceira geração, mas Balada da Infância Perdida também tem elementos muito pós- modernos. Essa obra me deixou confusa (no bom sentido). Talvez a pós- modernidade seja isso, confusão. Mas… como seria uma obra de Antônio Torres escrita hoje? Já existe uma literatura pós- moderna com características comuns a todas as obras ou paramos no Modernismo? Já dá para definir a literatura de hoje? Ou a literatura contemporânea ainda é a de antes? A crítica deu fim ao Modernismo lá pela década de 70 (serve como marco, mas isso não é exato, cada crítico dá uma data diferente). Mas será que vivemos um Modernismo tardio? As vanguardas persistem e resistem? Por que não conseguimos definir e nomear o que anda acontecendo? Ainda continuamos na fase da “literatura de permanência” de Antônio Cândido? Por que é tão difícil ver com clareza o que acontece agora? Já sei, é a “era da modernidade líquida”, uma época de crise de identidade das Letras, Artes, Ciências Humanas e Sociais, em resumo: da espécie humana. Se eu achei essa obra “atual”, e esse é um livro modernista (escrito 16 anos depois do fim dessa escola, “oficialmente”), não saímos do Modernismo, então? Eu fico tentando procurar diferenças entre as duas “escolas”. A Literatura Contemporânea ainda é coisa para se definir, inclusive o próprio termo é inexato e inadequado. Vamos pensar nisso?

Anota esse na sua lista, livraço!

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Torres, Antônio. Balada da infância perdida. Record, Rio de Janeiro, 2011. ePub. 178 páginas (edição não corrigida segundo com o novo acordo ortográfico).

É o silêncio…de Pedro Kilkerry


A Bahia é a capital cultural do Brasil. Respira talento nas mais variadas disciplinas, música, literatura, dança, artes plásticas, cinema, arte dramática, só para citar alguns dos grandes: João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Antônio Torres, Antônio Brasileiro, Juracy Dórea, Caetano Veloso, João Gilberto, Castro Alves, Glauber Rocha, Othon Bastos, Regina Dourado, Chica Xavier…

Pedro Kilkerry (Santo Antônio de Jesus, 10/03/1885 – Salvador, 25/03/1917), mistura de um irlandês com uma escrava baiana alforriada, foi um grande poeta, mas totalmente desconhecido na época, teve um reconhecimento tardio. Nunca publicou um livro, seus escritos foram dispersos em revistas e jornais da época, depois recolhidos por Andrade Muricy em “Panorama do movimento simbolista brasileiro” e foi objeto de estudo de Augusto de Campos. Poeta simbolista e moderno, usa “aliterações, homofonias, onomatopéias, no campo sonoro; palavras- chave e neologismos, no léxico; e, o que lhe dá uma feição muito atual, a capacidade de distanciar- se da matéria literária para poder referir- se a ela, metalinguísticamente:” (Bosi, 2004, p. 286)

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É o Silêncio…

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.

Olha-me a estante em cada livro que olha.

E a luz nalgum volume sobre a mesa…

Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha

A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.

Penso um presente, num passado. E enfolha

A natureza tua natureza.

Mas é um bulir das cousas… Comovido

Pego da pena, iludo-me que traço

A ilusão de um sentido e outro sentido.

Tão longe vai!

Tão longe se aveluda esse teu passo,

Asa que o ouvido anima…

E a câmara muda. E a sala muda, muda…

Àfonamente rufa. A asa da rima

Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda

Novo, um fantasma ao som que se aproxima.

Cresce-me a estante como quem sacuda

Um pesadelo de papéis acima…

……………………………………………………………..

E abro a janela. Ainda a lua esfia

últimas notas trêmulas… O dia

Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego…

Vês? Colaboram na saudade a aranha,

Patas de um gato e as asas de um morcego.

 

Três poemas concretos


A poesia concreta é uma espécie de poesia experimental em forma de ideogramas. São textos visuais que exprimem ideologias, ideias. As letras e as formas se complementam formando um todo cheio de significados.

José Paulo Paes (Taquaritinga, 1926 – São Paulo, São Paulo, 9 de outubro de 1998).

José Paulo

Veja como a força dos cincos versos de uma palavra só podem expressar toda a frieza e caráter dos banqueiros:

Epitáfio Para Um Banqueiro

Negócio 
Ego 
Ócio 
Cio 
O

Décio Pignatari (Jundiaí, 20 de agosto de 1927 – São Paulo, 2 de dezembro de 2012)

Décio Pignatari 10

Esse é um poema que dá para gente brincar, fazer várias interpretações, ler de baixo para cima, de cima para baixo, ler intercalando versos, é um poema vivo, que parece que se movimenta mesmo:

(sem título)

PV Rio de Janeiro (RJ) 06/12/2012 Poema de Décio Pignatari Foto: Divulgação

Augusto de Campos (São Paulo, 14 de fevereiro de 1931)

augusto de campos

Brincar com palavras, a fragmentação enigmática. O fagote é um instrumento de sopro e o esôfago faz parte do aparelho digestivo. O poema vai descendo, descendo…as palavras vão sendo degustadas, digeridas. O poema é muito longo, aí está a metade:

Bestiário para fagote e esôfago

sim
poeta
infin
itesi
(tmese)
mal
(em tese)
existe
e se mani
(ainda)
festa
nesta
ani
(triste)
mal
espécie
que lhe é
funesta
 
ao ver- se
perse
guido
bufa
lo se
esconde
flor de
estufa
sua
língu
a  conde
corada
a extingu
ir- se
 
ou
para
sita
para 
li
ti
co
se
equi
[con
dor]
para
[no
vôo]
libr
brisa]
ista
à
seca
lista
de
zebra
em 
zoo
 
se
tem
fome
come
fama (…)