Vamos dar um rolezinho? ou “O dia seguinte”, de Moacyr Scliar


Fantástico conto de Moacyr Scliar (Porto Alegre, 23 de março de 1937 – Porto Alegre, 27 de fevereiro de 2011) que exemplifica bem a soberba da classe- média brasileira que não quer misturar-se com “os pobres”, quer manter seu “status” custe o que custar, até perder uma excelente empregada doméstica. Um texto que cai bem nessa época dos “rolezinhos“, leia, é curtinho:

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A televisão, como sempre, muito “educativa” tratou logo de criminalizar o que não é crime: se fosse reunião de jovens ricos seria chamado de “festa”, mas como é reunião de jovens pobres, o nome é “invasão”.

O dia seguinte (Moacyr Scliar)

Se há alguma coisa importante neste mundo, dizia o marido, é uma empregada de confiança. A mulher concordava, satisfeita: realmente, a empregada deles era de confiança absoluta. Até as compras fazia, tudo direitinho. Tão de confiança que eles não hesitavam em deixar-lhe a casa, quando viajavam.Uma vez resolveram passar o fim de semana na praia. Como de costume a empregada ficaria. Nunca saía nos fins de semana, a moça. Empregada perfeita.

Foram. Quando já estavam quase chegando à orla marítima, ele se deu conta: tinham esquecido a chave da casa da praia. Não havia outro remédio. Tinham de voltar. Voltaram.

Quando abriram a porta do apartamento, quase desmaiaram: o living estava cheio de gente, todo mundo dançando no meio de uma algazarra infernal. Quando ele conseguiu se recuperar da estupefação procurou a empregada:

— Mas que é isso, Elcina? Enlouqueceu?

Aí um simpático mulato interveio: que é isso, meu patrão, a moça não enlouqueceu coisa nenhuma, estamos apenas nos divertindo, o senhor não quer dançar também? Isso mesmo, gritava o pessoal, dancem com a gente.

O marido e a mulher hesitaram um pouco; depois — por que não, afinal a gente tem de experimentar de tudo na vida —aderiram à festa. Dançaram, beberam, riram. Ao final da noite concordavam com o mulato: nunca tinham se divertido tanto.

No dia seguinte despediram a empregada.

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Dois anos da morte de Moacyr Scliar


Reinventar-se: eis aí um bom lema para o ano que se aproxima. Reinventar-se como profissional, como cônjuge, como pai ou mãe ou filho ou filha, reinventar-se como amigo, reinventar-se como cidadão ou cidadã, reinventar-se como pessoa. Num mundo em que a invenção é um acontecimento contínuo, em que as mudanças se sucedem de maneira vertiginosa, mexer um pouco com nós mesmos pode ser algo muito bom, um grande começo de ano, um grande recomeço de vida. (Zero Hora (RS), 26/12/2010)

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Dia de lembrar o grande escritor gaúcho, membro da Academia Brasileira de Letras, Moacyr Scliar, falecido há 2 anos, aos 73 anos.

Descansa em paz, mestre!

Moacyr Scliar


O médico e escritor Moacyr Jaime Scliar (Porto Alegre, 23/03/1937) está passando por uma fase complicada de saúde, está internado no Hospital das Clínicas em Porto Alegre.

Scliar é o sétimo ocupante da cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras, com mais de 70 livros publicados e muitos prêmios literários. Também é colunista da Folha de São Paulo.

Foto: Folha de SP

Uma entrevista concedida ao programa Roda Viva da Tv Cultura, de 17 de agosto de 2010, programa que o escritor se declara  fã e que sente muita alegria em participar. Um dos jornalistas  na “roda” é o escritor e amigo, Inácio de Loyola Brandão, com a participação também do chargista Caruso:

E aqui uma música que Scliar cita no seu texto “As memórias do amor”, uma música que ele considera uma das possíveis respostas para a pergunta “O que é o amor?”, John Denver e Plácido Domingos, “Perhaps Love”:

O amor, tema recorrente nos seus contos, como em “A mulher dos meus sonhos” (leia na íntegra) onde Scliar aconselha a sonhar, “encomende o seu sonho”, para não acontecer o ocorrido com o personagem, que simplesmente deixou de acreditar, desistiu de encontrar a mulher dos seus sonhos :

Silenciosamente entrou no quarto, olhou para a mulher: era linda. E então avistou, sobre a mesa de cabeceira, um papel cuidadosamente dobrado. Não precisava abri-lo para saber o que ali estava escrito: “Quero encontrar o homem dos meus sonhos”.
Com um suspiro, deitou-se. E, tendo tomado um sonífero, adormeceu. Um sono bruto, pesado. Um sono sem sonhos.

Espero que Scliar se recupere e continue sonhando, vivendo e amando por muito tempo.

UPDATE: hoje, 27-02-2011, o meu querido escritor decidiu descansar…Descanse em paz, Moacyr!