Bernardo Guimarães sogro do sobrinho Alphonsus Guimarães


O escritor mineiro Bernardo Guimarães (1825- 1884), quase foi genro do seu sobrinho, o poeta Alphonsus Guimarães (1870-1921). Bernardo casou- se tarde, aos quarenta e dois anos e teve oito filhos. A filha Contança morreu com dezessete por causa de uma tuberculose. Ela era noiva do poeta Alphonsus Guimarães, seu primo. Alphonsus era filho da irmã de Bernardo. Compreendeu? Talvez você tenha que ler outra vez 🙂

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Acima, retrato de Alphonsus Guimarães feito por M.J. Garnier, de escritores nascidos entre 1870 e 1872. Veja o fac- símile, na Fundação Biblioteca Nacional. Há outros trinta e nove retratos, a maioria eu não conheço e fiquei com vontade de conhecer. Só há quatro mulheres , Ibrantina Cardona, Amelia Alves, Elvira Gama e Julia Cortines. É uma pena não saber mais detalhes sobre esse livro, se os escritores posaram para o desenhista. Creio que os retratos devem ser bem fidedignos, já que foi publicado em 1920 (Alphonsus morreu em 1921). Nesse anno de 1920, “ano” escrevia- se com dois enês. Outro detalhe: vejo em muitos sites e livros a grafia de “Guimarães” escrita “Guimaraens”, o que não confere com esse livro contemporâneo do autor.

Voltando ao caso ABL. No site dos imortais, cita o verso que o poeta apaixonado, Alphonsus, dedicou à namorada falecida: “se morreu fulgente e fria”. Veja o poema na íntegra:


Hão de chorar por ela os cinamomos

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. .
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — “Por que não vieram juntos?”

O soneto é lindo, não? (não esqueça: soneto é um poema de quatorze versos, dividido em quatro estrofes, dois quartetos e dois tercetos).
Esse amor passou e veio a Zenaide. A família Guimarães cresceu bastante, o poeta de “Ismália” (obra- prima!) teve quinze filhos.
Eu achei esse artigo  comentando que a ABL repassou o erro de um crítico, e que a palavra original no poema realmente é silente. Se a ABL repassou mesmo o erro, por que ainda permanece nele?
Eu sempre consulto a ABL para biografias e afins, por considerar a fonte mais fiável, por isso acho estranho tudo isso. Ficou a dúvida.
A única forma de conferir é consultando alguma primeira edição, um fac- símile, coisa que eu não encontrei.
Você aí, tem alguma edição antiga com esse poema? Vamos caçar esse livro?!

 

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Foi você quem disse, Drummond?! Quiz!


O que você sabe sobre um dos maiores escritores modernistas do Brasil? O mineiro Carlos Drummond de Andrade nos deixou uma obra preciosa e que vale a pena ser lida e relida. Preparei um quiz rápido, sete perguntas para você testar os seus conhecimentos sobre o autor. Vamos brincar?!

Segue o link. clica aqui.

estátua ItabiraEstátua de Drummond na sua cidade natal, Itabira- Minas Gerais

No próximo post irei explicar cada uma das questões.

 

114 anos de Carlos Drummond de Andrade


No próximo dia 31 de outubro, o escritor mineiro de Itabira, completará 114 anos de nascimento. Jornalista,  funcionário público, poeta, contista e cronista, Drummond deixou uma marca forte e inexorável na literatura brasileira. Não entrou para a Academia Brasileira de Letras, mas é mais imortal que muitos imortais. Drummond teve 13 irmãos e seus pais eram primos.

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Casou uma vez e teve dois filhos. Um menino que faleceu recém- nascido e Maria Julieta, paixão do escritor. Ela também foi escritora, mas sem o sucesso do pai. Morreu de câncer aos 57 anos. Drummond, de enfarte doze dias depois, não aguentou a perda da filha.

O autor fez parte do movimento modernista brasileiro (1922- 1960), que é dividido em três períodos com características diferentes. Carlos Drummond fez parte da segunda geração, publicou seu primeiro livro em 1930, “Alguma poesia”, oito anos depois da Semana de Arte Moderna, que inaugurou o Modernismo no Brasil. Os poemas de Drummond falavam da condição do homem, seus sentimentos e problemas cotidianos com muito “lirismo”. A poesia lírica comunica através de ritmo e imagens os sentimentos e emoções do poeta, seu interior.

Há críticos (acabei de ler Jorge Henrique Bastos) que consideram que Drummond foi a voz mais importante da poesia brasileira do século XX.

De hoje até o dia 31, irei postar poemas de Drummond no Facebook, acompanha lá!

O que escolhi para hoje:

NÃO PASSOU

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

Entrevista com o poeta Lúcio Autran (filho de Autran Dourado)


Para quem ainda não sabe, eu escrevo uma coluna literária (também chamada “Falando em Literatura”) na revista BrazilcomZ (impressa) na Espanha e que também pode ser lida online nesse link aqui (veja). A matéria de capa é sobre um debate polêmico, a legalização da maconha no Brasil.

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Na Falando em Literatura desse mês de outubro saiu uma entrevista muito bacana que eu fiz com o grande poeta Lúcio Autran, filho do saudoso e maravilhoso Autran Dourado, com fotos lindíssimas da família, a opinião de Lúcio sobre o mercado editorial no Brasil, sobre poesia, sobre a Espanha e muito mais. A versão online saiu a entrevista na íntegra, na impressa foram quatro páginas, veja só o início:

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Mas não esquece de passar lá na revista online, lá dá pra ver melhor e assim nos incentiva a continuar falando sobre literatura. E para quem está em Madri ou Barcelona, você pode pegar a revista no consulado do Brasil nessas cidades e nos pontos de distribuição.

Resenha: “Grande Sertão: veredas”, João Guimarães Rosa, no dia da morte do escritor


Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.( p. 30)

Eu também desconfio de muita coisa, até dessa incrível “coincidência”, postar ao acaso essa resenha (cheia de “anotamentos”) justo hoje: data do falecimento de Guimarães Rosa. A vida é mesmo mística.

O escritor, ministro, diplomata e médico João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967) foi também membro da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira nº 2, eleito em 6 de agosto de 1963. Morreu precocemente de enfarto, morte misteriosa e anunciada. Ele recusou- se a tomar posse na Academia Brasileira de Letras, porque disse que se o fizesse iria morrer. Acabou cedendo quatro anos depois e entrou para a Academia. No seu discurso de posse falou: “A gente não morre. Fica encantado”. Sua premonição/ profecia se cumpriu e três dias depois da posse, Rosa faleceu. Arrepia, não?!

“O grande sertão: veredas”, uma autobiografia irracional, palavras do próprio autor foi dedicado à sua esposa Aracy Guimarães Rosa, sua segunda esposa (ela merece um post à parte) trabalhou no consulado de Hamburgo na época do Holocausto e ajudou a enviar ilegalmente judeus ao Brasil. Foi uma grande mulher. Faleceu aos 102 anos no dia 3 de março de 2011. Aracy e Rosa viveram por 30 anos a sua história de amor.

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(…) Era assim: eu ia indo, cumprindo ordens; tinha de chegar num lugar , aperrar as armas; acontecia o seguinte, o que viesse vinha; tudo não é sina? (p. 220)

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Aracy, “Ara”, era paranaense, é a única mulher mencionada no Museu do Holocausto, em Israel e nos Estados Unidos por sua ajuda na fuga de judeus. Foi uma mulher valente e admirável!

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…e o homem do campo, sertanejo:kovadloff-guimaraes20rosa204

A posse na Academia Brasileira de Letras:
Guimarães Rosa, 3

Um post é ínfimo para tentar falar sobre a grandeza desse livro. Grande sertão: veredas é a obra- prima de Guimarães Rosa e um patrimônio da literatura brasileira. Não é uma leitura fácil a princípio, ler Rosa é bastante intenso, dentro da “simplicidade complexa” do falar do homem sertanejo, que muita gente pode necessitar de um dicionário à parte, pois é um léxico que a maioria do povo da cidade não domina. A primeira palavra do primeiro parágrafo é “nonada”, que é de origem crioula, significa “insignificante”, “pouco”, não é um neologismo como já li por aí. A ordem lexical da obra é caótica, oral, as frases são desconstruídas. Contudo, o cérebro se acostuma e a leitura começa a deslizar “fácil”, é rica, divertida, surpreendente. O cenário cheira  à natureza, ao rio Urucúia, ao sertão mineiro e ao baiano, às agruras da terra seca. Os personagens retratados no seu habitat, sem correções gramaticais, com suas superstições, mil seres estranhos e endemoniados, mas isso não impede que estejam impregnados de sabedoria, onde se fazem presentes Deus e o Diabo, os saberes da vida,  o plantar e o colher, o tempo, a vida e a morte, os segredos da fauna e da flora, um povo místico que acredita na magia da vida. E os neologismos, como “fantasiação”, “estranhez”, “desenormes”, “afamilhado”, “demudou”, “babeja”, “nuelo”, “gasturado”, “duvidação”, “deslúa”, “conhecença”, “tãomente”, “vivimento”…são uma atração à parte, tente imaginar o que significa cada uma delas. Os tradutores dessa obra devem ter arrancado os cabelos. Esse livro não é nada previsível, existe uma certa fragmentação, se você pular algum trecho vai fazer falta no decorrer da leitura, cada parágrafo é essencial. O narrador é Riobaldo, que um dia foi jagunço, conversa com o compadre Quelemém, homem “estudado”, amigo, mas forasteiro, por isso achou bom contar a sua história, já que o homem iria embora mesmo. Quelemém é um ouvinte mudo durante todo o romance e ouve atentamente todos os “causos” do amigo jagunço. Riobaldo é um filósofo do sertão, suas falas são carregadas de sabedoria. Fiz uma seleção de citas:

O senhor não duvide- tem gente neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta… (p.28)

O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. (p. 32)

Viver é muito perigoso…Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. (p. 32)

Deus é paciência. O contrário, é o diabo. (p. 33)

Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e se carece. (p. 33)

Me fez um receio, mas só no bobo do corpo, não no interno das coragens. (p. 34)

Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. (p. 35)

(…) O senhor sabe: há coisas de medonhas demais, tem. Dor do corpo e dor da idéia* marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio. (p.37)

(…) Eu confiro com mu compradre Quelemém,o senhor sabe: razão da crença mesma que tem- que, por todo mal, que se faz, um dia se repaga, o exato. (p. 38)

(…) Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas- mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é as brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro- dá gosto! A força dele, quando quer- moço! me dá até pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho- assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. (p. 39)

(…) E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um pensa: ah, alma absoluta! (p. 41)

(…) Se sonha; já se fez… (p. 41)

(…) Perto de muita água, tudo é feliz. (p. 45)

Moço: toda saudade é uma espécie de velhice. (p. 56)

O amor, já de si, é algum arrependimento. (p. 57)

Para trás, não há paz. (p. 58)

Guerra diverte- o demo acha. (p. 75)

Viver é um descuido prosseguido. (p. 86)

O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem que ter um triste amor à honestidade. (p. 88)

Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.. Mas, se não tem Deus, há- de a gente perdidos no vai- vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar- é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. (p. 76)

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. (p. 80)

Despedir dá febre. (p.81)

O sertão é do tamanho do mundo. (p. 89)

Qual é o caminho certo da gente? Nem para frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito esperando. Mas, quem e que sabe como? Viver… (p. 110)

A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não se misturam. (p. 115)

Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa idéia me pões susto. (p. 142)

Homem como eu, tristeza perto de pessoa amiga afraca. Eu queria mesmo algum desespero. (p. 169)

Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência. (p. 201)

 Ator - Atriz

A Rede Globo de televisão (Brasil) produziu uma minissérie baseada em Grande sertão: veredas, protagonizada por Toni Ramos (Riobaldo) e Bruna Lombardi (Diadorim), exibida em 1985.

A obra também é engraçada, os nomes dos personagens citados, as histórias são hilárias: Pedro Pindó, Valtêi (um nome considerado “muderno”),  Jisé Simpilício, Joãozinho Bem- Bem, Zé- Bebelo, Sô Candelário, Antônio Dó, Andalécio, Urutú- Branco, Jazevedão, Olivino Oliviano, Joé Cazuzo, Piolho- de- Cobra, Ana Duzuza, entre outros.

Riobaldo começa a contar ao compadre Quelemém a sua amizade com Diadorim, filho de Joca Ramiro. Diadorim é o seu melhor amigo, mas ele sente uma atração inexplicável muito mais além de uma amizade, é paixão, amor. Jagunço e homossexual são coisas incompatíveis e isso o deixa agoniado :

Diadorim  e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros- porque jagunço não é muito de conversa continuada nem amizades estreitas: a bem eles se misturavam e desmisturavam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo, podia morrer. (p. 44)

Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria a boca; mas era um delém que me tirava para ele- o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto. (p. 45)

(…) Quem sabe, podia ser, eu estava enfeitiçado? (p. 51)

(…) meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. (p. 55)

Noite essa, astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando debaixo de um arco- íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele- os gostares… (p. 66)

Meu corpo gostava do corpo dele (…) (p. 198)

Riobaldo já idoso, também conta histórias da sua infância, de um passeio de barco no rio São Francisco quando menino, uma bela narrativa sobre a coragem e o medo; também sobre quando faleceu a sua mãe e ele foi morar com o padrinho rico, Selorico Mendes, foi só então que aprendeu a ler. Conta como começou a ser jagunço, o dia a dia dessa vida e os seus problemas de consciência.

Desculpa me dê o senhor, sei que estou falando demais, dos lados. Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também, o que é que vale e o que é que não vale? Tudo. (p. 160)

Riobaldo era homossexual ou bissexual, pelo menos, já que também se apaixonou por uma mulher, Otacília (ou foi pela impossibilidade de consumar seu amor com Diadorim?):

Ela era risonha e descritiva de bonita. (p.205)

Toda moça é mansa, é branca e delicada. Otacília era a mais. (p. 206)

Riobaldo sente atração por um homem, situação inaceitável num meio altamente machista/homófobo como era o do cangaço, o sertanejo “cabra- macho”. Ele viu  o amigo Reinaldo tomar banho no rio, tirou a roupa e iria tomar banho também, só que sentiu uma “alegria”. Ficou bravo consigo mesmo, vestiu a roupa. Contou ao compadre Quelemém, negou o óbvio, mas se contradisse ao mesmo tempo:

Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. (…) Era ele estar longe, e eu só pensava nele. (…) Acho que. Aquela meiguice (…) E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente- tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. (…) Conforme, por exemplo, quando eu lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. (p. 163)

Foi Reinaldo que apresentou Joca Ramiro (pai de Diadorim) a Riobaldo. Reinaldo, na verdade, era o “menininho” corajoso que encantou Riobaldo na travessia do rio na infância deles. Reinaldo não se chama Reinaldo, seu nome verdadeiro é Diadorim. Diadorim não é homem, Diadorim é mulher, mas Riobaldo se apaixonou por ele (ou ela) pensando que era homem. Diadorim mudou de gênero desde criança, alma de menino preso num corpo feminino. Diadorim disse a Riobaldo:

Mulher é gente tão infeliz! (p. 188)

Zé Bebelo e Joca Ramiro eram rivais. Riobaldo era amigo de Bebelo e achava que ele tinha razão, mas estava apaixonado pelo filho de Ramiro, homem rico e cheio de posses. O que vai decidir Riobaldo? Que bando vai escolher? E Diadorim que não queria ser mulher, se apaixonou por Riobaldo? Ficaram juntos? E Otacília? Só lendo!

Viver é muito perigoso, frase repetida muitas vezes durante toda a narrativa. É uma obra genial tanto na forma quanto no conteúdo. Todo ser humano, não só brasileiro, deveria ler essa obra!

(…) minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? (…) Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for…Existe é homem humano. Travessia. (p.624)

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Rosa, João G.. Grande sertão: veredas.  Nova Fronteira, São Paulo, 2005. 624 páginas

*O editor preferiu manter a ortografia original que usou Guimarães Rosa, sem as correções da nova ortografia.

Escritor brasileiro contemporâneo: Darlan de Matos Cunha


Nem todos os escritores têm a facilidade da palavra. Parece uma sentença absurda em se tratando justamente disso, de escritores. Muitos trabalham muito para escolher a palavra certa, a metáfora justa, a emoção correta.

Não é o caso do escritor mineiro Darlan de Matos Cunha, filho de Maria José Matos Cunha e Elviro Ferreira Cunha, onde as letras escorregam fácil e explodem em textos ricos em figuras e imagens, tanto na prosa como na poesia.

Ele tem editado um livro: “Esboços e Reveses: O Silêncio”  (Câmara Brasileira de Jovens Escritores, Rio de Janeiro, 2004)  escrito em tao só quatro dias e é uma jóia da poesia brasileira contemporânea. Darlan fala de alma, sentimento em  uma viagem interior escrita com muita erudiçao e elegância:

ANATOMIA DE UMA ESPERA
tropeça em avarias o silêncio
escondendo algo
foge com as montanhas
o amor, vá
(você) fundo, se
nem remorso há com que lembrar de tal
fome, agora
repousas ao lado
meu, querendo ambos mais do sal
do que do mar

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Aqui um texto publicado hoje no seu Flickr, onde ele une fotografia e textos:

NOVAS NOTÍCIAS DO CÉU… DA BOCA*

Preciso dos teus pés e das tuas mãos e do teu tronco
para amassar o barro com que concretizar as verticais
da casa, preciso dos teus olhos, para ferver com eles
o rumor mais tenaz que houver contra esta edificação
à alegria destinada, por isso e por mais é que necessito
sejam de duro metal os pregos para pregar em nós a ilusão
tão necessária a quem vive na brisa sempre verde e azul
do bemquerer, sim, necessito urgente que me tragas
certa água (não a das lágrimas, por salgada e, portanto,
corrosiva) para imantar com ela o bolo de barro da sala
e da varanda de onde se poderá ver o mundo exterior,
e dele inferir, talvez, mais lições de como não ser igual

a ele, o mundo exterior, é isso, preciso de fato da tua boca
com gritos metuendos ou sussurrando bolas de algodão doce
com que encher travesseiros e colchão, a faca mais afiada
fazendo ecos nas cenouras e batatas, pepinos e palmitos,
ecos de peixe e salsa, coentro e manjericão, alecrim e ovos
de codorna, sim, cá estamos que te esperamos para o fino
som da bossa, nova é a arquitetura que aqui farei vigir,
aqui é o novo mundo muito além do brave new world, já
começa o estalar dos brotos, em surdina medram as plantas,
são delicadas as vozes, guturais, a madeira para o assoalho
é a mesma das estantes onde muitas histórias descansarão
no dorso de alguma canção espalhando-se pela casa que
a partir de hoje (ou já faz tempo ?), tu e eu, construímos,
mas preciso dos teus haveres, das tuas colagens, arbítrios
e devassas, necessito daquela loucura inerente aos que amam,

e todo o cabedal feminino faz-se necessário para se vestir
de fato uma casa, preciso que os pássaros e répteis e besouros
que convoquei aqui estejam, sem falta, devemos obrar juntos
para a felicidade geral, e já a saparia e as rãs garantiram
presença, um bando de borboletas enviou-me tela a óleo
e escultura em baixo-relevo, madeira pura de amor deslavado,
tudo isso e mais para que a casa se faça mais que sonho, nada
de se parecer com o que está num poema que li (fiz ?), falando
da naturalidade desfeita pela usura, ora, a casa está quase
pronta, falta ainda um nexo para cada palavra interditada
logo à porta (não se admitirá sobre o dorso da alegria as patas
da alergia), o samba é bemvindo, de leve, a boca boa do rumor
feito de seda e caipirinha, benvindas a esta casa as águas

de março e a marca do sol subindo nos urros da vizinha, suco
de açaí, abacate talhado ao meio e comido com açúcar, limão
e gula, nada de lavoura arcaica e seu copo de cólera (a não ser
os livros homônimos), essa é a casa, sou o cara, és o som
que, tanto lá nas bandas brasilienses quanto nas dunas
de jericoacoara, assanha os cabelos da alvorada e dorme
com a noite, ou seja, dorme natural, natural, como se espera
de uma flor oblíqua ou, melhor dizendo, mais dissimulada
do que a machadiana, absurda como a gargalhada fecunda
de macunaíma (eu, macunaíntimo de mim, procuro lições),
a vida aqui e ali, sempre aberta em leque, como uma canção
de minas, um leito de rio arrastando e guardando lembranças,
flor de trapézio, florama, florália, florestrábica, flormana, flor
ou hera subindo nas paredes do coração da novíssima casa

que para a minha futura solidão, ou sensatez, construí,
quase toda pintada de amarelo – cor do dia, cor claro-enigma.

* inhttp://www.flickr.com/photos/darlanmc/3810247019/