Alberto Vázquez Figueroa, pioneiro no livro horizontal


Conheci pessoalmente na última Feira do Livro de Madri, o simpaticíssimo Alberto Vazquez Figueroa, importante escritor contemporâneo espanhol.

Ele trouxe uma inovadora forma no seu mais recente livro, “O mar em chamas”, que foi impresso na forma horizontal. As vantagens do novo formato é que, além de economizar papel e ser mais ecológico, a iluminação também é melhor. O escritor patenteou um separador para segurar as folhas do seu livro horizontal.

Claro que eu vou querer um exemplar desse livro, pioneiro no formato horizontal, diferente de todos os que vêm sendo editados nos últimos 500 anos.

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O dia em que te esqueci


Esse foi o primeiro livro que li da portuguesa Margarida Rebelo Pinto (Lisboa, 1965): O dia em que te esqueci. Para todas as mulheres que viveram um grande amor. A todos os homens que o perderam.

Se fosse mais leve,  bem- humorado e fashion eu o classificaria de chick- lit, mas não é o caso. A autora conta a história de um amor que não deu certo. O cara levava uma vida paralela com outra mulher, que nunca abandonou. Esse homem foi o grande amor da sua vida (fala em 1ª pessoa) talvez a história da própria escritora. Ela escreve uma carta dirigida a esse homem contando a sua vida sem ele, seus sentimentos e romance com outro homem, que ela achou que poderia substitui- lo, mas não foi assim. O príncipe virou um sapo intragável. A primeira parte do livro é a mais interessante, o resto é só uma coleção de clichês e frases prontas, onde primam a falta de originalidade e recursos literários.

É só mais uma história de amor e desamor, comum, como milhares que há na rede e na nossa “vida real”, mas que ainda assim, pode ser recomendável para leitores principiantes, porque é uma leitura fácil, que pode servir de introdução para algo mais substancial.

Uma coisa que me chamou a atenção em Margarida é que ela escreve com um português bastante legível para os leitores brasileiros, inclusive cita Elis Regina e também fala da forma como os brasileiros usam o verbo “ser ligado à paixão. Eles dizem ‘sou apaixonado por você’ para distinguir de ‘estou apaixonado por você’.” (p.39) Não é uma coisa genérica para a autora ter estipulado dessa forma. É uma coisa pessoal e não coletiva.

Acho um excelente caminho o utilizado por Margarida Rebelo, o de usar uma língua inteligível nos dois países, sem tantas peculiaridades portuguesas, para que os brasileiros tenham um acesso fácil. Essa deveria ser a tendência das editoras portuguesas, já que somos um mercado enorme de leitores, muito maior que o português.

O amor aparece para alterar o rumo da tua vida, e acaba sempre por conseguir quer queiras, quer não. (p. 31) Pena que não podemos prever se para bem ou para o mal. Se ela esqueceu aquele amor? Acho que não. Cada pessoa é única e ninguém pode substituir ninguém.

Pinto, Margarida R. O dia em que te esqueci. Portugal. Oficina do Livro, 2010. 171 páginas

Preço: 12.92 euros

Tristessa, Jack kerouac


Tristessa (1955- 1956), podia ser felicidade com tristeza, mas é só tristeza. Foi o primeiro e mais querido livro de Jack Kerouac (Lowell, Massachusets, 12/03/1922- St. Petersburg, Flórida, 21/10/1969), sua família de origem francesa, idioma que dominava totalmente.

Tudo o que faço, colho (p. 29)

Jack Kerouac não sabia falar espanhol. Escreveu Tristessa e publicou sem emendas e orgulhava- se disso. O espanhol escrito no livro é o falado, o idioma tal como ele o entendia: “Eztô duenté” (“Estoy enferma”, “estou doente”) queixava- se Tristessa, que era viciada em morfina. O livro foi escrito em duas partes: a primeira, em 1926 e a segunda, um ano depois.

Os personagens principais são Jack (mesmo nome do autor), um americano que viaja para o México e Tristessa, uma “índia asteca, com olhos de misteriosas pálpebras à Billy Holliday, (…) uma tez de penugem de pêssego” (p. 16).

O ambiente é de pobreza e decadência no submundo mexicano das drogas, prostituição e falta de recursos.

Os animais: o gato pulguento e magro, a galinha tão querida, a pomba e o cachorro Chihuahua moram com Tristessa e  sua família. Gente e animal se confundem, convivem como iguais, dormem nas mesmas camas, comem a mesma comida, comportam- se por instinto e sobrevivência. Ocorre uma espécie de troca sinestésica, animal racional pelo irracional e vice- versa, um estágio intermediário: homem quase animal e animal quase humano. No entanto, tudo é feito com naturalidade, naquela realidade que poderia ser só de infelicidade, mas não é isso que acontece e Jack usa um tom que hoje seria considerado “politicamente incorreto”, generalizado: “Tudo é tão pobre no México, as pessoas são pobres, e, todavia, fazem tudo com ar feliz e despreocupado, seja lá o que for.” (p. 34).

Kerouac explica no vídeo (legendado em português) o que é a “Geração Beat”, termo inventado por ele para designar o movimento artístico- literário, hippie, que acontecia na época:

Jack estava apaixonado por Tristessa e entrou no seu mundo. Realidade ou delírio provocados pelo “whiskey” misturado com a morfina e o amor, Jack (personagem e autor parecem confundir- se) interage com os animais e a sensação é de caos total.

Verdades que Jack aprendeu na Cidade do México: todas as pessoas nascem para morrer e para amar…Jack: “La vida es dolor” (A vida é feita de dor). Tristessa: “mas a vida também é amor”. (p. 56)

Tristessa na realidade chamava- se “Esperanza” e era uma prostituta que Jack Kerouac se relacionou. Jack, autor e personagem, não disse que amava Tristessa/ Esperanza e foi tarde demais para salvá- la. Há quem diga que o amor é mais forte que tudo.

Essa história é um triste tratado de como destruir- se com as drogas e, provavelmente, um tratado de arrependimento. Kerouac morreu de um ataque cardíaco aos 47 anos, já bem envelhecido, por causa das drogas.

Desde o começo insondável dos tempos até o futuro infinito, os homens têm amado as mulheres sem lhes dizerem (…) (p.61)

Kerouac, Jack. Tristessa. Lisboa, Relógio D’água, 2009. ( 97 páginas)

Preço Wook (Portugal): 14,13 euros

Esse post vai dedicado à Francine Ramos, menina cheia de histórias pra contar 🙂

Cidades Inventadas, Ferreira Gullar


Em dezembro do ano passado assisti ao seminário “Cidades Míticas e exóticas”, na Universidade Complutense de Madri; por isso, o título da obra de Gullar me chamou a atenção quando eu passeava pelas estantes da Bertrand em Lisboa no último Natal.

Todos os estudantes brasileiros já leram alguma vez os poemas de Ferreira Gullar, porque são habituais nos livros didáticos do Brasil. Consagrado pela crítica e pelo público como um dos grandes, senão o maior poeta vivo brasileiro, Gullar se aventurou no mundo dos contos extraordinários, sobrenaturais e absurdos com “Cidades Inventadas” (Publicado pela primeira vez em 1997).

A obra reúne 25 contos curtos, muitos dão a impressão de inacabados, ligeiros demais. Há algumas críticas que poderíamos transportar para a “vida real” e outros contos absolutamente incríveis, verdadeiros disparates. Outros chegam a ser infantis, como uma criança que imagina um mundo fantástico, numa brincadeira de faz- de- conta.

O que eu mais gostei, para não dizer o único que eu gostei, porque soltei umas boas gargalhadas, foi a cidade de Tyfw (p. 47), que nasceu por acaso e que era dominada por duas tribos: os Budhun, que odeiam banho, e a tribo dos al-fhaz- enz, que se perfumavam demais. Fedidos e cheirosos viviam em guerra e se odiavam.

Muita imaginação com os nomes de pessoas e lugares, nomes impossíveis de pronunciar, pouco verossímil, literatura absurda, fantástica. Não é o meu estilo. Prefiro muito mais o Gullar poeta. E na pouquíssima poesia que tem no livro, ele soltou uma frase que mostra o porquê dele ser um grande escritor. No último conto “Tuyutuya”, penúltimo parágrafo, quando um rei sente medo da morte e quer a imortalidade, mas acabou mudando de ideia quando viu a beleza da natureza, onde “as coisas todas pareciam tocadas pela eternidade” (p. 126):

“A existência é para sempre em cada momento”.

Gullar, Ferreira. Cidades Inventadas, Lisboa, Ulisseia, 2010.

Preço Bertrand (Lisboa): 14.00 euros

Poema sujo, Ferreira Gullar


Nasceu em São Luis do Maranhão, José Ribamar Ferreira (10 de setembro de 1930) e virou um dos maiores escritores brasileiros: Ferreira Gullar (pegou o sobrenome da mãe “Goulart” e simplificou a grafia).

 

 

 

 

 

Escreveu Poema Sujo ( 1976)  durante o exílio em Buenos Aires. O desabafo no poema concreto, obsceno, sexual, ousado. Primeiros versos:

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: [menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? Como pluma? Claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando [desde as entranhas

Recitado, abstenham- se puritanos:


Feira do Livro de Madri 2011


Já na sua 70ª edição, a Feria del Libro de Madrid” recebe todos os anos um país ou uma região como convidados e esse ano será a Alemanha. A Feira acontecerá no Parque del Retiro entre os dias 27 de maio a 12 de junho.

No ano passado, a Feira trouxe escritores dos países nórdicos, com a presença de Jostein Gaarder (“O mundo de Sofia”) Åsa Larsson, Henning Mankell, Leif Davidsen e Saabye Christensen.

A intenção de Dieter Lehmann, Presidente del Goethe-Institut, é promover a Alemanha na Espanha de uma forma livre de estereótipos e ideias preconcebidas. Vai haver um stand da Alemanha aberto, onde irão acontecer vários eventos, além da apresentação de autores e livros.

 

O ar em seu estado natural


Um lançamento imperdível é o livro do escritor mineiro Darlan Cunha, “O ar em seu estado natural”. O livro reúne crônicas e poemas sobre as letras do “Clube da Esquina”. Darlan é um frequentador dos botecos mineiros onde se reúnem artistas de todas as disciplinas como o grupo Giramundo (grupo de bonecos) o Sepultura, o Skank, e claro, o Clube da Esquina (Flávio Venturini, Tavinho Moura, Toninho Horta, Beto Guedes, Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Milton Nascimento, Lô Borges e outros).

 

 

foto: Darlan Cunha

 

 

 

Sim, escrever este livro foi como bebericar uma cachaça com torresminhos, comer ora pro nobis com angu, algo assim de frango ao molho pardo, isto se o pão de queijo deixar espaço na já volumosa pança dos glutões e glutonas. (Darlan Cunha)

 

 

 

 

 

 

Foto: http://www.flickr.com/darlanmc

Darlan Cunha nasceu em Medina, mas vive atualmente em Belo Horizonte. Aqui o blog de Darlan, o Paliavana4, onde você pode conhecer mais sobre o autor e sua obra.