Resenha: “A livraria”, de Penelope Fitzgerald


Depois de ter assistido o filme (leia a resenha aqui), fiquei com vontade de ler a obra que inspirou a diretora espanhola Isabel Coixet, “A livraria”.

“A livraria” (1996) foi dividida em dez capítulos e é uma obra com fundo autobiográfico. A autora, Penelope Fitzgerald, mudou nomes e alguns dados nesse seu primeiro romance (de oito escritos), e o mais importante da narrativa tem a ver com a sua própria vida. No posfácio ilustrado com gravuras da autora e intitulado “A comédia humana”, o genro de Penelope nos deixa dados curiosos sobre a semelhança da obra e a vida da sogra. Penelope escreveu esta história quando tinha 61 anos, seu marido havia falecido há pouco tempo, como a personagem principal, Florence Green.

Florence é descrita como uma mulher sem grandes atributos físicos, nem financeiros, pouco vaidosa e que leva uma vida, digamos, “medíocre”, sobrevivendo com a pensão de viúva. É comum as pessoas se acomodarem em situações ruins, por medo de que fique pior, caso tentem algo diferente. Florence era assim também, prudente, só que ela decidiu que era primordial comprovar se era capaz de sobreviver com o próprio esforço. É um motivo excelente para uma mudança. E assim o fez. Comprou uma casa velha de frente para a praia, com muita dificuldade, pedindo um empréstimo ao diretor do banco, que não estava muito convencido do sucesso do seu empreendimento.

Entendo o sentimento de Florence. Há coisas aparentemente absurdas que temos que fazer sim ou sim, independende das consequências. Ao montar a livraria “Old House” numa casa caindo aos pedaços e cheia de mofo, a possibilidade de sucesso num povoado frio e ventoso da costa inglesa, era mínima. Em Hardborough (que significa “Cidade dura”) não é que existissem muitos leitores. A autora passou por circunstâncias similares vinte anos antes de escrever este livro, tempos duros, só que na cidade Suffolk e depois em Southwold. O marido, um advogado sem sucesso, trabalhava em Londres e ela arranjou um trabalho de meio período na livraria “Sole Bay Books” (fechada em 1990), foi essa livraria e sua dona, Neame, as inspirações dessa obra. Na Sole Bay rondavam fantasmas, um “poltergeist” citado no livro. No filme de Coixet esses fantasmas não tiveram protagonismo e, de um modo geral, os filmes são só “baseados” em obras, são sempre diferentes dos livros. Esse não é diferente.

A notícia de que Florence iria abrir uma livraria correu como o vento. E isso despertou muita inveja.

“Old House”, uma casa que já havia sido alagada várias vezes e resistiu, além de ser mal- assombrada, era a segunda casa mais antiga do povoado, só perdia para a casa do senhor Brandish, a “Holt House” (“A casa do bosque”), construída há 500 anos. Os fantasmas são chamados de “rappers” (golpeadores) na cidadezinha. E por isso a casa tinha ficado abandonada vários anos, ninguém quis comprar por causa dos fantasmas.

Os seres humanos são muito piores que os fantasmas, são terríveis. Bastou alguém se interessar pela casa abandonada que outros colocaram o olho em cima também. Acontece na vida constantemente, reparou? Você se interessa por algo ou alguém, aparecem vários querendo o mesmo; o moço (ou moça) lá sozinho, basta alguém se interessar, que vem alguém querendo o que é de outro. Parece que desperta a cobiça, a maldade ou a inveja mesmo.

Abaixo, a edição espanhola lida, muito caprichada, com cartas manuscritas, além de várias fotos e outros documentos reais da personagem protagonista retratada, o alter ego da autora. Não vou colocar todas para preservar os direitos da autora.

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30629497_974289716059922_4084566975701843968_nFitzgerald, Penelope. La librería. Editora Impedimenta, 2ª edição, Madrid, 2017. Páginas: 202

Ps: Obrigada a todos que enviaram mensagens nesse período ausente (quase quatro meses). Sou uma bloqueira nata, eu vou, mas sempre volto. Valeu!

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Resenha: “Gente feliz com lágrimas”, do português João de Melo


A primeira resenha do ano! Essa obra eu comecei a ler em dezembro, pensei que conseguiria postar no ano passado, mas a resenha saiu agora. Por isso, este livro não está na minha Lista de vinte e quatro livros para 2018. Serão, pois, vinte e cinco resenhas (espero e no mínimo),  neste ano.

Este é o título de livro mais incrível que já vi: “Gente feliz com lágrimas”… que beleza, carregado de significados! Como uma frase tão pequena pode dizer tanto?!  Não só diz, comove e acerta direto no coração. Um autor com essa inteligência e sensibilidade para resumir a sua história desta maneira já lhe outorga, de antemão, muita credibilidade. Decretado o título mais bonito de todos os livros do mundo, vamos ao autor e à obra:

João de Melo, 68 anos, nasceu em Achadinha, Ilha de São Miguel, Açores (Portugal). É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e foi professor nos ensinos secundário e superior. Já morou em Madri (inclusive tem um livro chamado “Mar de Madri”), trabalhou na Embaixada de Portugal como conselheiro de cultura, mas agora vive em Lisboa. Publicou mais de vinte livros.

Joao de Melo novembro 2017João de Melo e seus olhos azuis, tal como seu personagem Nuno. (foto: Facebook do autor)

Li em algum lugar no seu Facebook, que “Gente feliz com lágrimas”(1998) mudou a sua vida. Eu creio nisso, nesse poder transformador da literatura em vários âmbitos, tanto pessoal, quanto coletivo. A obra vai completar 30 anos em 2018. Na Espanha, o livro foi apresentado em 1992 e o autor estava acompanhado adivinha por quem? José Saramago. 

Na terra do autor. (foto: Paulo Nóbrega- Facebook)

A obra está organizado assim em cinco “livros” e com um epílogo, o “Livro Zero” chamado “A felicidade sábia”.

O enredo: saem de barco dos Açores até Lisboa, Nuno Miguel, de dez anos, e Amélia, de dezesseis. O menino vai para um seminário estudar para padre por ordem do pai e a moça com o sonho de  cursar enfermagem, ela vai para um convento. Eles são da zona rural, um lugar chamado Rozário.

O mal estar da viagem e as impressões ao chegar em Lisboa pela primeira vez, é uma bela descrição fotográfica. O menino, deslumbrado com a cidade, desperta ao lembrar que “meu destino não era Lisboa, e sim, o seminário”. (p.18) O menino ia num táxi do porto ao seminário sofrendo, o seminário fica a três horas de Lisboa. :

“Deus pode certamente expulsar- nos da infância.” (p.21)

Para Amélia, foi a maior alegria da sua vida chegar em Lisboa, mas esse bom sentimento não a acompanha ao entrar no convento:

“Nunca mais a minha vida ia ser fechada nessa redoma invisível, de onde apenas se viam o mar, as nuvens paradas e a distância infinita.”(p. 21)

Ambos, Nuno e Amélia, têm a sensação de serem estrangeiros no próprio país. A distância geográfica, o sotaque e o léxico insular são diferentes do continente.

A sensação de Nuno no continente pode ser similar a de um português no Brasil ou vice- versa. A mesma língua, mas há dificuldade de entendimento. A sensação é de estranhamento e desorientação. Nossa vasta língua e suas variantes.

Sobre as palavras “imigrar” ou “emigrar” há diferenças: o imigrante sai da sua terra com caráter definitivo e o emigrante sai da terra com caráter provisório (Priberam). Mas, como saber quando é um ou quando é outro? A vida é muito surpreendente e imprevisível para saber. Há outro tipo definição, que eu gosto mais: o imigrante sai do seu país, e o emigrante move- se dentro do seu próprio país. Uma coisa é certa: sair da zona de conforto transforma, modifica. Nuno, (p. 26):

Para não ter de continuar a responder- lhes e não ser compreendido, decidiu agarrar na almofada e comprimi- la à volta dos ouvidos. A sua vida ia assim mergulhar num subterrâneo sem fundo nem altura. Nunca mais ele voltaria a ser igual a si mesmo. (…)

“Gente feliz com lágrimas” é literatura emocional, interior, psicológica. A maior parte do romance acontece no mundo interior dos personagens, por isso é universal. Tanto faz a nacionalidade do autor ou dos personagens. Mas, também é um retrato de uma boa parte da sociedade portuguesa, que sai das ilhas ou do interior, e imigra para fugir das dores e conseguir melhores condições de vida.

Nuno, já adulto, não tem boas recordações dos pais. Ele recorda o pai com ressentimento, a sua indiferença, frieza, o seu esquecimento quando partiu para Lisboa. A mãe era uma figura ausente, cumpria as ordens do marido. Ia tendo os filhos e o mais velho cuidava do mais novo. A família morava numa casa pequena, apertada, os filhos ouviam os pais terem relações sexuais e Nuno ouvia o irmão deitado ao seu lado, masturbando- se. Nuno sabia tudo que ia acontecer, passo a passo, no quarto dos pais. Como pode influenciar na vida de um filho, presenciar a sexualidade dos pais? Nuno casou- se com Marta, o romance não deu certo e  teve que procurar um psicólogo.

No segundo capítulo, “Nuno Miguel”, o próprio nos faz um convite (p.60):

Fui pai de mim mesmo, sabe? E pai de filhos só meus. Sei que viver não é diferente de criar. E penso, em última análise, que ninguém resite à sabedoria do Bem dos escritores: são anjos e os demônios da pequena vida. Por isso aqui estou. Para lhe dar conta, como diria o poeta O´Neill, da minha santa e ternurenta vidinha…Topa?

Topamos, Nuno, aqui estamos.

O terceiro capítulo, “Maria Amélia”. Ela recorda a casa que viviam quando era pequena, “com chão de terra batida e escura como breu”(p.61). A vida dos pais na roça não era nada fácil cuidando das vacas esquálidas. Amélia dormia num quarto de madeira no alto da casa, muito baixo, tinha que entrar de cócoras, “naquele barraco escuro e desprotegido”, havia ratos e ferrugem. Ela dormia com a cabeça tapada, pelo medo e para esquentar. Coisa que nunca deixou de fazer,  adulta e casada. A infância realmente marca condutas do futuro (p.63):

(…) Now, after all this time, a minha vida parece continuar assim, rasteira e aflita sob o peso e o escuro dessas multidões de nuvens, eternamente levada pelo vento.

Havia escassez de comida para ela e os quatro irmãos. Mas ela recorda com carinho do pão de trigo ou milho, com açúcar ou mel, e a manteiga, que tinha “um sabor delicioso”.

O texto de Amélia é cheio de frases em inglês. Ela imigrou para o Canadá e recorda como apanhou, com quatro anos e meio, por abrir a porta à prima Manuela, brincar de casinha e esquecer de cuidar dos irmãos menores. A mãe deu- lhe uma surra, passou a tarde toda levando beliscões, puxões de cabelo e bofetões. Teve que parar de chorar, porque o pai estava para chegar. Pais violentos em palavras e ações (p.67):

– Tal excomungada! Berrona do inferno: se te ponho as mãos em cima, deixo- te negra de pancadaria.

A criança desacostumou de brincar, cresceu rápido demais. Ela descreve os gêmeos, Nuno e Carlos. Escolheu cuidar de Nuno, porque parecia mais frágil, e Domingas, cuidou do outro pequeno, que apesar da aparência robusta, faleceu quatro semanas depois, ambos estavam com tosse. A mãe havia pedido que Deus levasse uma das crianças, porque o dinheiro com remédios os estava arruinando. Chocante, não? Mas, quando não se tem o básico para sobreviver, há que ser prático. Mas Amélia já amava a Nuno e daria sua vida pela dele.

Amélia ficava entre o ódio e o amor pelo pai. Odiava a sua frieza, mas o admirava pela sua fortaleza. Ele escolhia as madeiras e pregos para fazer os caixõezinhos dos filhos mortos, Carlos, Vítor Primeiro e Vítor Segundo. Nunca viu o pai chorar, mas ele não comia quando sabia da morte dos filhos. A mãe e as vizinhas agradeciam a morte dos anjinhos, porque morriam sem pecado.

Luís Miguel, um dos filhos, também tem voz. O livro inteiro é uma obra- prima , eu o destacaria inteiro, pura arte literária (p.73):

Nascíamos em segredo. De partos apenas um pouco queixosos, como murmúrios de gente soterrada.

O rapaz também não tem boas recordações da infância (p. 76):

A minha e a infância dos meus irmãos ficou apagada no tempo e do luxo dos retratos. Nunca fomos de anjo nas procissões, e nunca os meus pais se comoveram com a voz suplicante dos retratistas de fora da terra que garantiam a perfeição humana e a arte de emprestar à vida um pouco de sabor e saudade.

Luís tinha estrabismo e  dentes tortos, que o próprio pai tratava de arrumar arrancando- lhe sangue. Também imigrou para o Canadá. Considera- se “O palhaço pobre da família”. O personagem conta sobre a sua única foto de família tirada por um tio, que reuniu os dezessete sobrinhos. Ele descreve- se e conta sobre o seu olho preguiçoso.

Espiando entre as fotos dos familiares do autor, descobri uma muito interessante, antiga, com uma menino usando um tampão no olho. O dono da foto é Jorge de Melo, reproduzo aqui, porque a foto é pública:

Seria Jorge de Melo, irmão do autor,  o alter- ego de Luís Miguel no romance? Não sei se o menino com o tampão no olho é o dono da foto ou é um irmão… ou seria o próprio autor? João de Melo, “magro de olhos azuis”, o alter- ego de Nuno? Tal como o personagem, João de Melo entrou para um seminário aos 11 anos. Possivelmente, um romance com tintas autobiográficas. É preciso sentir para saber, não é?

Jorge, tal como Luís (o personagem) mora no Canadá. Na foto, o primeiro da direita deve ser o autor de “Gente feliz com lágrimas”. São coisas que nós, leitores, pensamos e especulamos, mas nada disto importa. Nunca devemos confundir autor com os personagens, mesmo que haja coincidências. É ficção.

As vozes dos três narradores vão se intercalando: Nuno Miguel, Luis Miguel e Maria Amélia.

Nuno recorda (p.87) que nunca houve festa alguma na sua casa de infância, nada de presentes de Natal, nem os aniversário eram lembrados. Os brinquedos eram feitos por eles mesmos com cascas de frutas, galhos de árvores e afins. Andavam descalços, sapatos só aos domingos. O pai cortava os cabelos das crianças com um “tesourão enferrujado”. Os pais não eram tremendamente pobres, mas sim, muito avarentos.

Os pais morreram precocemente e Maria Amélia acredita que só o tempo fará com que as memórias de infância sejam vistas com mais claridade. Ela começa a narrar como foi mudar para uma casa nova. Amélia recorda dos gritos do pai quando ela precisou usar óculos, como se fosse culpa dela. Para o pai, “óculos eram um luxo” e quis tirá- la da escola para não ter essa despesa. Apesar das dores, a filha consegue enxergar o lado humano dos pais e suas preocupações. Sob a sua visão, o pai era extremamente trabalhador e a família era o mais importante para ele, que era carpinteiro.

Os filhos começavam a trabalhar muito cedo, mas frequentavam a escola. Apanhavam muito, trabalhavam muito, estudavam e não brincavam. Maria Amélia, Domingas, Nuno, Luís Miguel, Linda, Flor e Jorge.

Não sei dizer como nem quando os sonos da infância se converteram  na insônia da minha vida. (Nuno Miguel, p.115)

O pai morreu em Vancouver devido a um câncer e orgulhoso por ter deixado “duas terras a cada filho e um montinho de ‘dolas’ nos bancos canadianos. Não têm de se queixar de mim…”. O valor que cada um dá as coisas, não é? O material sobrevalorizado.

O professor de Nuno e Amélia chama- se “Quental”. Pode ser uma referência e/ou homenagem ao grande poeta açoriano Antero de Quental (1811-1876), um escritor para colocar já na sua lista!

Nuno levou uma bofetada por não querer escrever uma carta para a tia. O analfabetismo na zona rural, os homens que viajavam para o Brasil ou a América, a necessidade e a saudade. No coração de quem vai sempre há algo de “vontade arrependida”, adorei este termo. A complicação de ser imigrante:

“Quem me dera a mim”, diziam, “poder voltar atrás no tempo, regressar a esse borralhinho*. Comer pão de milho amarelo com inhame ou toucinho, sem dúvida, mas não ter que chorar estas lágrimas nem estar tao longe desse mar e duma terra onde toda a gente se conhece…” Arrependidos como cães por terem atravessado tanto mar, do qual continuavam enjoados e em agonia- e nós a pensar que eles se riam de nós à distância, gordod, luzidios, finando- se tão só num riso de lágrimas trocistas… (p.111-112)

Mais algumas coincidências do autor com o personagem Nuno: ambos são professores e escritores, formados em Letras.

Nuno sentiu uma necessidade imperiosa de escrever. Escrever exige solidão e esquecimento do mundo. Os melhores escritores são e foram um pouco (ou muito) misantropos. É meio inconciliável ter família, trabalhar oito horas e ainda conseguir ser um escritor de primeira linha. Não dá pra fazer tudo bem. É bem assim mesmo, pelo menos provisoriamente, a pessoa tem que se afastar:

– Tenho um livro aberto dentro de mim. Se não puder escrevê- lo agora, corro o risco de naufragar. Asseguras sozinha as despesas da casa, ou decidimos pôr- nos de acordo quanto ao divórcio? (Nuno para Marta, p.116)

Curiosidade lexical: “vavó” é um jeito açoriano de falar “vovó”. A “vavó” da família chama- se “Olinda”, era coxa e morreu dormindo aos noventa e nove anos (p.226); e o “vavô”, Botelho, meio brigado com o filho.

Tem até um biscoito da ilha chamado “Biscoitos da Vavó Sol Nascente”. Os Açores são um arquipélago formado por quinze ilhas. Clique aqui e veja se não dá vontade de ir conhecer!

Um das recordações mais tristes foi uma surra homérica que Nuno recebeu do pai em meio à chuva. O menino chegou em casa semi- morto, desmaiou, ficou com febre, quase morreu. Ressuscitou quando o pai, talvez pelo remorso, foi carinhoso:

– Papá quer ver- te comer aluma coisa, meu filho. Quando não, vais morrer de fraqueza, sem ação nos ossos. Vá lá, Nuno. Anda, meu homem. Há- de um pai deixar o filho morrer à fome, com tanto que há para se comer na casa? (p. 231)

E Nuno Miguel comeu.

“E os olhos dele, rasando- se de lágrimas, eram afinal olhos felizes com lágrimas (…)

Quando Nuno voltou aos Açores, foi recebido pelos muitos tios, já idosos: Sônia, Esperança, Urânia, Horácia, Jaime, Mercês, Olímpia, menos tio Zacarias, em paradeiro desconhecido e as outras tias que imigraram para o Brasil, esses da parte do pai; da parte da mãe, imigraram para “Toronto, Vancouver e Boston”. A tia dos afetos é a Olímpia, a que o faz sentir que ainda vale a pena voltar para casa:

– Descansa, que eu ainda cá estou para tomar conta de ti, sobrinho- diz. E, depois de lhe envolver o rosto com as mãos, estuda- lhe o olhar, abana a cabeça e acrescenta: – O que tu tens é uma grande ferida nesses olhos, filho da minha alma. (p.517)

Já contei demais, não é? Não vou contar qual é o destino dos personagens. Agora é com você!

Melo, João de. Gente feliz com lágrimas. Dom Quixote- Booket, Lisboa, 2008. Páginas: 524

A edição lida acima foi abocanhada pelo Lolo, o meu cachorrinho. Ficou sem capa, mas é a edição comemorativa da Booket (2008) dos 25 anos do romance.

Deixo aqui o link da melhor livraria online portuguesa, caso você queira comprar uma das várias edições de “Gente feliz com lágrimas”; também há e-books para quem estiver fora da União Europeia e quiser ler esta obra magistral sem pagar o frete.

Se preferir comprar na Amazon, clique no link: Gente Feliz com Lágrimas

É um desejo meu que “Gente feliz com lágrimas” seja conhecido e lido no Brasil. Alô, editores!

Obra recomendadíssima, coloque aí na sua lista!

*sinônimo de “lar”.

Era bruxa Clarice Lispector?


Um livro curioso me chamou bastante atenção e quero compartilhar com vocês: O segredo de Clarice Lispector, de Marcus Deminco.

Sinopse:

A verdade sobre Clarice Lispector que ninguém jamais contou.

Mas afinal, por que a autora era conhecida como A Grande Bruxa da Literatura Brasileira? Que espécie de vínculo Clarice teria estabelecido com o universo mágico da feitiçaria? Por que seu próprio amigo Otto Lara Resende advertia aos leitores para tomarem cuidado com Clarice, afirmando não se tratar apenas de literatura, mas de bruxaria? “O 7 era meu número secreto e cabalístico. Há 7 notas com as quais podem ser compostas todas as músicas que existem e que existirão, e há uma recorrência de adições teosóficas que podem ser somados para revelar uma quantia mágica […] Eu vos afianço que 1978 será o verdadeiro ano cabalístico. Portanto, mandei lustrar os instantes do tempo, rebrilhar as estrelas, lavar a lua com leite, e o sol com ouro líquido. Cada ano que se inicia, começo eu a viver outra vida”. E apesar de ter morrido algumas semanas antes de iniciar o então ano cabalístico, decerto todos esses seus hábitos ritualísticos, esclareçam porque Clarice teria aceitado com presteza e entusiasmo o inusitado convite do ocultista colombiano Bruxo Simón, para participar como palestrante do 1º Congresso Mundial de Bruxaria.


Para quem quer conhecer o lado místico da autora, parece que esse livro (apesar do tom sensacionalista) pode ajudar.

Você pode comprar baratinho, com desconto, aqui no Falando em Literatura (EUR 4,21, cerca de 16 reais), “O segredo de Clarice Lispector”, de qualquer lugar do mundo, já que está em formato digital. Você pode ler através do Kindle, iBooks ou qualquer e-reader, no celular, tablet, computador ou iPad. É só clicar no link abaixo:

O Segredo de Clarice Lispector (Portuguese Edition)

Depois me diz o que achou. Boa leitura!

Resenha: “Intimidade”, do inglês Hanif Kureishi


“Ferir alguém é um ato de involuntária intimidade” (p.08)

Ler esse livro foi como entrar em um profundo transe, um abandono completo do mundo exterior. Poucos livros têm me despertado essa sensação, terminei impressionada. Isso sim é boa literatura, intensa e o motivo de manter esse blog há nove anos!

Hanif fez o difícil parecer muito fácil. É um dos melhores livros que li nos últimos tempos. A resenha saiu grande, tenha paciência, quando o livro é bom eu me empolgo. Nem falei sobre a bio do autor, fica para um próximo post.


Como é acabar um casamento? O que passa pela cabeça das pessoas que querem se separar?

Esse é um romance psicológico que faz refletir muito sobre sentimentos, necessidades e relações, o fim de um relacionamento importante e tudo o que isso implica. A maior parte da narrativa o autor nos joga dentro dos pensamentos do protagonista. A história descreve a agonia de um homem, Jay, de quarenta e poucos anos, que deseja acabar com o seu casamento de seis, com dois filhos pequenos. Luta entre a necessidade do ser e a obrigação, a pena contra a ânsia de liberdade. A estabilidade contra a falta de desejo. A hipocrisia contra a verdade. O imposto pelo real. O real: um amor do passado, que nunca passou.

Conforme vai contando os detalhes do seu casamento, compreendemos o que sente e entendemos que ninguém merece viver dessa forma. A maioria das pessoas julga o fracasso de um casamento, “qual o problema deles?”, sem nenhum conhecimento de causa. Ah, levianos…

“Será amanhã”, está convencido da decisão, mas não encontra a melhor forma, a que provoque menos dor. Tem consciência que vai machucar a família, mas é inevitável. E fica a briga entre a razão e a emoção. Começa a argumentar, encontra vários motivos e vê que ele não é um louco irresponsável. Muitos casamentos, cada vez menos (ainda bem) são uma cárcere de pena perpétua, asfixiam.

Jay não suporta Susan, está cansado fingir, de não poder ser realmente quem é. A mulher é do tipo de pessoa que sempre fala mal de alguém, porque assim parece que ela é melhor, sabe? Susan é exigente com os outros, cheia de cobranças.

O narrador- personagem com pretensão à fuga começa a descrever a vida familiar, a intimidade do casal, o dia a dia maçante. As crianças pedem biscoitos, ele as serve como se fosse um mordomo, elas não agradecem e nem tiram os olhos do televisor.  A casa confortável, mas não tem nada a ver com ele, tudo do gosto da mulher, com os móveis e objetos que ela gosta.

“Mas não me sinto em casa na minha casa, Amanhã pela manhã abandonarei tudo isso. definitivamente. Adeus.” (p. 14)

Ele senta no chão ao lado das crianças. Quer gravar bem na memória todo o mal estar que sente para poder recordar depois, na casa do amigo Victor, para não voltar atrás. Sente até náuseas, vontade de gritar. Sabe que vai poder ver os filhos quantas vezes quiser, mas também é consciente que vai sentir falta de algumas coisas, a voz filhos, vê- los andar de bicicleta, por exemplo,  tudo relacionado com as crianças.

Ele, com a vida acomodada, roteirista de televisão e cinema, “tem tudo para ser feliz”, como costumam dizer…mas e os sentimentos? Essa parte as pessoas normalmente não levam em consideração, como se o mundo interior fosse menos importante, fraqueza, por isso a depressão vem sendo um grave problema. Sentimento é tabu.  Fingir que não sente é como se estivesse tudo resolvido. Não está.

(…) é melhor que as coisas nos provoquem medo, que tédio. A vida sem amor é um tédio inacabável. (…) É fácil matar- se sem morrer. (p.17)

Ele conta o tempo que passou deprimido, anos, e chega à conclusão que foi maior que todo o prazer sexual que sentiu no casamento. Ele não quer ser como muitos que “aceitam um estado de relativa infelicidade, como se fosse uma obrigação”. (p.17)

E até por preguiça, não é? Por acomodação, falta de coragem, medo, covardia, por achar que o padrão se repetirá. Ele compara a esposa com a mãe. Muitas esposas, com fim de manter seus casamentos falidos, assumem esse papel. Problemas de auto- estima/dignidade/valores caducos ou falta de recursos financeiros- estas últimas estão perdoadas, as primeiras, não.

Uma frase que achei muito interessante, quando Jay fala da vulgaridade da televisão e sobre uma coisa que  detesta: “a democratização forçada do intelecto“. Os governos populistas tentam democratizar a universidade, mas esse é um caminho equivocado. A universidade não deve ser democrática,  é uma das poucas coisas que não devem ser assim, pois precisa ser um campo de excelência e das ciências superiores, onde devem estar os melhores. Não fomentemos a era da mediocridade também nas universidades.

Voltando ao nosso protagonista: ele começa a somatizar a ansiedade, vai para o corpo toda a agonia de viver uma vida que não quer. As coisas do coração deixam marcas profundas, as melhores e piores na vida das pessoas.

“Me palpita o nervo ocular. Parece que tremem as minhas mãos. Me sinto vazio e os nervos em carne viva, como se me tivessem enfiado algo mortal. Meu corpo sabe o que passa (…) (p. 25)

Jay recorda um amor do passado, não consegue esquecer Nina;

(…) sempre estará comigo de certa forma (…). Ainda sou incapaz de deixá- la ir embora. (p.26)

Ele perdeu o apetite. A esposa acaricia o seu rosto, enquanto ele pensa em Nina. Essa traição (involuntária e incontrolável), talvez seja a pior, a física não é nada perto disso. Mas Susan é muito perspicaz, como a maioria das mulheres:

 “Talvez ela perceba a velocidade e confusão dos meus pensamentos”. (p.26)

Se ela fosse irresponsável, seria mais fácil, mas Jay não encontra argumentos práticos: ela é uma esposa fiel, excelente dona de casa, ótima cozinheira e mãe. Um “eu sempre amei mais outra pessoa que você”, bastaria?

Ela é uma mulher eficaz e organizada. Nossas geladeiras e congeladores sempre estão cheios de sopa, verduras, vinho, queijos e sorvetes; as flores e arbustos do jardim estão perfeitamente classificados; a roupa das crianças, lavada, passada e dobrada (…) (p.29)

Outro dia eu li algo interessante sobre os diferentes tipos de amor (desculpe a falta de referência bibliográfica, foi folheando um livro na biblioteca),  classificando- o em dois tipos: “o amor de alma” e o “amor funcional”. O amor de alma (a “alma- gêmea”) é um amor que quase nunca dá certo, porque ambos não conseguem administrar a intensidade. É algo tão forte e incontrolável que assusta (sorte de quem consegue, é o sentimento mais incrível e inexplicável que existe!); já o amor funcional, a grande maioria dos casos, é aquele que funciona, justamente porque é morno, fácil de controlar, previsível, o amor funcionário público, mas também não é pra todo mundo, muita gente não suporta.

O nosso protagonista não conseguiu ficar nesse tipo de amor funcional,  ele escolheu o movimento, preferiu desconstruir para construir algo melhor. Cita um verso de um poema que leu na juventude, “Em movimento”, de Thom Gunn (p.28):

Alguém sempre está mais perto quando não fica quieto.

A mulher é muito previsível e isso o irrita. Eles se conhecem desde crianças. Começa a descrever o psicológico da mulher. Ela sempre pensando em reformas da casa. Lê livros sobre culinária. No casamento está tudo muito bem dividido, cada um com suas tarefas. E confessa (p.31):

Não foi sua inteligência nem beleza que me fascinaram. Nunca houve uma grande paixão; talvez esse seja o problema. Mas houve satisfação. Eu gostava da sua destreza e habilidade para sair de problemas. Não estava indefesa diante o mundo, diferente de como eu me sentia. Ela era sincera e firme, sabia como fazer as coisas bem; sempre invejei a sua capacidade; me conformaria em possuir só metade do que ela tem. (…) Se eu fosse muito forte e capaz, não precisaria dela e teríamos que nos separar.

Isso é típico do “amor” funcional: a utilidade. O coração é que deve escolher.

No trabalho, Susan é cruel com quem é inseguro e não tem nenhuma piedade em fazer com que o outro se sinta inútil. O vigor de Susan é esgotador, ela não cansa de repetir mil vezes sobre o esplendor da sua alma e mente. É implacável, mas fingida, sempre tem no rosto um sorriso (falso). É tão auto-suficiente, nunca se decepciona consigo mesma, jamais vai cair num caos interior, porque calcula tudo muito bem, é fria, quase maquiavélica.

É tirana, dura, severa, raramente chora, mas estoura com facilidade. É esnobe e fútil, adora títulos e admira quem tem classe social superior. Jay odeia isso, detesta a “putrefata” casta social, que ela adora participar ativamente.

Jay nunca tem tempo para os próprios pensamentos e a satisfação de não fazer nada. “Não fazer nada era a melhor maneira de fazer algo” (p.52). Ele percebe um certo desespero na hiperatividade da esposa, “como se fosse o seu trabalho o que a mantivesse inteira.” (p.52).

As coisas e pessoas frágeis não se sustentam por si sós, usam escudos: trabalho, religião, casamento, esportes (em excesso). Pensar e perceber as mataria.

Foi a esposa que o afastou do seu auto- conhecimento, de ter opinião, decisão e necessidades próprias, porque foi se acostumando a todas as situações que lhe foram sendo impostas, ou seja, uma marionete, subterfúgio, escada para as necessidades da mulher.

Jay repete toda hora: “hoje é o ultimo dia”, “amanhã acaba tudo”. Ele quer se livrar das ordens da esposa tirana, que ele não gosta e sempre acaba fazendo tudo o que ela quer.  A mulher nota que o marido está deprimido e o chama para conversar. Cobra coisas e até uma foto dela na sua escrivaninha. Mas a foto que ele deseja é a de Nina (p.40):

Se tão só eu pudesse ver o seu rosto outra vez. Mas nem sequer tenho uma fotografia.

(…) Minha infelicidade não beneficia a ninguém, nem a Susan, nem aos meninos, nem a mim mesmo. Mas, talvez a felicidade- esse estado que se experimenta uma satisfação global, em que a pessoa tem tudo, incluída a música- é o resultado de uma aprendizagem. E é óbvio que não encontrei nesta casa. Talvez não tenha procurado ou não soube assimilá- la.” (p.41)

Eu poderia destacar o livro todo, muito bom! Ele dá respostas sobre a infelicidade em casamentos aparentemente estáveis. O personagem não estava disposto a cumprir as expectativas sociais, as aparências, em detrimento da sua morte diária como homem, como pessoa, como ser independente. Matar a pessoa como se isso fosse obrigação, um assassinato consentido, é caro demais, não acha? Ele mesmo se faz a pergunta e dá a resposta (p.42):

Quando as coisas começaram a ir mal com Susan? Quando eu tirei a venda dos olhos, quando decidi que queria ver as coisas.

Fingir que as coisas não existem, não as farão desaparecer. Que bom seria se todos nós afrontássemos as verdades com todas as suas consequências. O casamento como forma de controle, não de prazer. Adivinha quem inventou essas regras? Na minha opinião, a instituição mais fake e desmoralizada que já inventaram (p.44):

O povo não quer que desfrutes demais, acreditam que é ruim para você. Poderíamos começar a desejar todas as horas. Que perturbador é o desejo! É um demônio que nunca dorme nem está quieto. O desejo é travesso e não se dobra aos nossos ideais e por isso temos tanta necessidade dele. O desejo zomba dos nossos esforços humanos e os fazem dignos de consideração. O desejo é o anarquista mais antigo e o primeiro agente secreto (…). E justo quando acreditamos que o temos baixo controle , nos decepciona e nos enche de esperança.

São os homens que têm que ir embora. A culpa fica com eles, como culpariam a mim. Entendo a necessidade de culpabilizar; a ideia de que alguém com mais vontade, coragem ou sentido do dever havia agido de outra maneira. Tem que haver, em alguma parte, a vulneração deliberada da moral que vá mais longe que a simples anarquia, para preservar a ideia de justiça e de sentido no mundo”.

Sobre “são os homens que têm que ir embora”, não concordo, isso independe do gênero. Uma escolha errada é fácil de acontecer por muitos motivos, mas isso não tem que ser cadeia perpétua, sempre é tempo de ratificar.

Jay começa a pensar no seu (excelente) pai e no que ele pensaria se estivesse vivo. Começam os problemas de consciência. Sabe que seu pai ficaria horrorizado com a sua fuga escondida, indigno, desleal. Susan procurava o sogro quando eles brigavam e o homem repreendia o filho em prol da mulher, “ela é uma joia” (p. 54). O senhor, machista, achava que as mulheres não podiam valer- se sozinhas, o filho herdou um pouco isso também. O pai de Jay, falecido há seis anos, era funcionário público e escritor. O fracasso fazia mais fortes as convicções do homem, “Era um tipo duro” (p. 55). Para o seu pai tudo devia ser feito sem nenhuma espécie de recompensa, assim pensava:

“O matrimônio proporciona poucos prazeres. Não podes ir embora e aproveitar a vida. Tanto ele como mamãe estavam frustrados e eram incapazes de encontrar uma maneira de conseguir aquilo que desejavam, fosse o que fosse. Mas mantinham a fidelidade e honestidade um com o outro. Mas infiéis e desonestos consigo mesmos.” (p. 56)

Um casal de classe média baixa dos anos cinquenta jamais teria se separado. Meus pais permaneceram debaixo do mesmo teto a vida inteira. (p.57)

 Grave é que isso continue acontecendo em 2017, não é? A mãe de Jay preferia passar o dia todo fora, que em casa com o marido, estar com outras pessoas era mais agradável.

Susan o acusa constantemente de falta de entrega. Ele tentava, mas… (p.59)

Creio que a mente sempre está concentrada..em alguma coisa que interessa (…) como o rosto de Nina e as carícias dos seus dedos compridos.”

(…) Continuo considerando minha falta de amor por Susan uma fragilidade, um fracasso de que sou responsável.

E mais uma parte do drama sentimental e dos absurdos que as pessoas se submetem (p.62):

 – Quando penso que minha mulher e eu estivemos juntos todas aquelas noites e aqueles anos estéreis e complicados, não entendo nada. talvez fosse uma espécie de idealismo louco. Eu havia feito uma promessa que teria que cumprir a qualquer preço. Mas, por quê? O mundo jamais se recuperaria com o fim do meu casamento (…) era uma obsessão absurda e cega”.

Jay começa a pensar em coisas triviais como a roupa que vai levar na sua fuga. A única coisa que pensa são em alguns ternos (ele foi indicado a um Oscar), sapatos elegante e confortáveis, a fotografia autografada de John Lennon e alguns discos.

Não pense que ele quer desfazer seu casamento por Nina. Jay tem consciência que ninguém vai substituí- la. Ele quer ir embora por si mesmo e para acabar com a farsa. Antes,  pediu Nina em casamento. Ela não quis.

Jay não leva muito em conta a opinião de sua mãe, ela também queria fugir no seu tempo, mas não tinha dinheiro. Sabe que a mãe vai dizer que é ruim para as crianças. O machismo vomitivo:

“Susan se sentia orgulhosa de mim. Um homem pode proporcionar a uma mulher dignidade e status”

“Ela preferia uma relação desequilibrada e deteriorada a não ter nenhuma” (p.71)

Susan trabalha muito e mesmo muito cansada, mas não falta aos muitos eventos sociais que é convidada. Adora ser popular e requisitada, ter muitos contatos, pois para ele isso é símbolo de um bom status. Jay sabe que ser uma mulher separada será um drama para Susan.

Uma mulher de meia idade com filhos não tem muito “charme” e Susan sabe disso. (p.70) Eu usei um eufemismo para “charme”, na verdade, o autor usou “cachê”. Jay e Susan são misóginos e sexistas. Pior é a mulher, porque joga pedra no próprio telhado. Mas a história é reflexo, não poderia ser diferente.

Ele não suporta a mulher, mas continua pensando em ter relações sexuais com Susan. Esse é um tabu desfeito, creio. As pessoas já sabem diferenciar um desejo físico de amor até nos últimos minutos antes de dormir, na sua última noite na casa; aliás, a história toda acontece nessa noite. Jay dá exemplo da cultura indiana: os casais “copulam” quando sentem necessidade e depois cada um vai para o seu lado, que nessa cultura as relações não são muito românticas.

Jay é completamente apaixonado por Nina. Ele não entende o motivo. O amor quando chega, não se explica, é impossível, às vezes nada tem a ver com o que desejamos. O amor é um bicho desgovernado. Ele se entregou à Nina, inevitável.

Eu podia ter me esforçado mais com Susan? (p.86)

Nenhum esforço é suficiente, é só um prolongamento da mentira, das aparências. Amor não se força, se o amor dependesse da nossa vontade, que maravilha seria!

Caros amigos e amigas, não desanimem. O amor, o dos bons, existe sim.  Reciprocidade é a chave. Todo mundo deseja esse tipo de amor, nada é tão incrível e fascinante como ele. Quando você estiver com alguém que algo consiga parar os ponteiros do relógio no seu mundo, preste muita atenção. É ele ou ela. 

Esse livro me escolheu, não fui eu quem o escolhi. O caixa da Casa del Libro que me indicou: “quer ler um livro fantástico sobre o amor?”. Eu não sabia que esse livro, assim do acaso, se tornaria um dos meus preferidos.

Pessoal, o final me fez chorar.


Abaixo, Hanif Kureishi. Eu o conheci pessoalmente em Madri. Tenho outros dois livros do autor autografados, veja aqui, que espero ler o mais brevemente possível.

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E essa é a edição espanhola lida, espero que você o encontre na sua cidade, um dos livros mais fantásticos da vida! O nome original em inglês é “Intimacy”.

18768621_800383593450536_9012993706213832746_oKureishi, Hanif. Intimidad. Anagrama, Edição limitada, Barcelona, 2015. Páginas: 143

Quatro anos sem Autran Dourado


Eu busco nesses livros as respostas para as minhas inquietações. E acredito que, quando a pessoa conhece bem a minha obra, me conhece mais do que se me conhecesse. O autor pouco importa. O mundo real tem menos importância que o mundo imaginativo. Eu procuro, sobretudo, recriar o real, para dar um outro real carregado de sentido; aliás, a literatura é a linguagem carregada de sentido. É isso que é a literatura. (Autran Dourado, em entrevista ao Programa Leituras, 2001)

Hoje, 30 de setembro, completa quatro anos da partida do jornalista, advogado e escritor mineiro Autran Dourado, que foi um dos grandes escritores da literatura brasileira. Ganhou o Prêmio Camões no ano 2000, o maior da nossa língua, além dos prêmios Goethe (1981), Jabuti (1982) e Machado de Assis (2008). Faltou a Academia Brasileira de Letras, cadeira mais que merecida, uma pena não ter recebido esse reconhecimento, mas já é imortal de todas as formas. Fora que é necessário uma candidatura para ingressar na ABL e concorrer a uma vaga. Não sei se o autor estava disposto a isto. Autran Dourado foi casado por mais de 60 anos com Maria Lúcia (já falecida), é pai de Lúcio, Henrique, Inês e Ofélia. Veja a família completa:

10407885_1001101346607402_2119325514998502499_nWaldmiro Autran, Henrique, Inês, Ofélia e o bebê Lúcio no colo da mamãe Maria Lúcia.

14469689_1185619938171642_1518301183645816907_nLúcio e Autran Dourado.

14517578_1185619568171679_2861844779776697864_nAs fotos são do arquivo da família Autran.

“A ópera dos mortos” é uma das obras reconhecidas mundialmente, tanto, que foi escolhida pela UNESCO para integrar a sua coleção de obras representativas da literatura mundial, além de ser objeto de estudo em universidades. O livro foi dedicado ao também escritor mineiro, Otto lara Resende.

A maior parte de sua bibliografia é composta de romances, mas também há ensaios, contos e crônicas e um livro de memórias chamado Gaiola aberta (2000).

Se você nunca ouviu a voz de Autran Dourado, veja esse vídeo de 2001 do programa Leituras, adorável! Nos deixa uma lição sobre literatura (minuto 4:47):

Esse vídeo também é incrível. O programa Revista Literária promoveu um encontro, um bate- papo entre os mineiros Autran Dourado e Silviano Santiago (que exerce de entrevistador) em uma chácara no Rio de Janeiro. Autran classificou os escritores em três tipos (e deu alguns exemplos): os artesãos (Flaubert), os gigantes (Balzac) e os gênios (Miguel de Cervantes). Machado de Assis para o Brasil é gênio, mas ele achava mesmo que era artesão.

Silviano: – O que é escrever prosa pra você?
Autran: – É conseguir ordenar uma história.(...) O enredo não tem muita 
importância no romance.
É uma maneira que o escritor tem de entreter o leitor, enquanto ele bate 
a carteira.
É realmente uma maneira de prender o leitor. (...) O que é importante 
no romance é o ritmo.

E nesse dia de pesar, principalmente para a família, não existe melhor homenagem da nossa parte que ler Autran Dourado. A sua obra está publicada pela Editora Rocco (clique aqui), também em e-books, que podem ser comprados no iTunes ou em livrarias online (clica).

Eu comecei agora mesmo o “A ópera dos mortos”, vamos?!

Hoje: um texto por hora e aniversário de Antônio Torres!


Hoje, lá no nosso Facebook, haverá postagens de hora em hora. Como o nosso fuso é espanhol, já começou! Curta nossa página e nossos posts, isso é importante para motivar e saber se estamos pelo caminho certo ou não. Clarice vai estar por lá.

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Espero que os trechos de livros te inspirem e alguns deles entrem para a sua lista de leitura.

Hoje o dia é especial, pois é aniversário do grande escritor Antônio Torres, ele completa 76 anos. Imortal da ABL, com livros traduzidos em vários idiomas e uma obra narrativa interessantíssima, é um dos escritores brasileiros que mais amo.

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Veja a lista de livros que o presidente Obama está lendo no verão


O presidente Barack Obama dos Estados Unidos é uma simpatia, não?! Adoro a sua postura sempre correta e respeitosa, mesmo com os que o ofendem; sempre alegre, bem humorado, simples e atencioso com os cidadãos; o mesmo para a primeira- dama, Michelle.

E Obama também é um bom leitor, entre avião e avião deve abrir algum livro. Veja a lista de leituras do presidente nesse verão (inverno no Brasil):

  1. O primeiro livro da lista, de William Finnegan, não tem tradução brasileira*, nem espanhola. O autor é jornalista internacional e escreve sobre racismo, os conflitos na África do Sul e México. Quem souber ler em inglês, coloca na lista “Barbarian days: A surfing list”.
  2. “The underground railroad” também não tem tradução, ainda, em português e espanhol. Mas tem tradução de um outro livro do autor, “A intuicionista”, que parece bem interessante.  O americano está ganhando vários prêmios literários.
  3. O terceiro já tem tradução: “F de Falcão”, de Helen MacDonald. Baseado na história da autora que perde o pai, entra em depressão e para superar o luto, começa a adestrar um falcão.
  4. “A garota no trem”, de Paula Hawkins. Esse livro de suspense  está fazendo muito sucesso no momento. Está na minha lista.
  5. “Seveneves”, de Neal Stephenson, foi um dos mais vendidos nos Estados Unidos no ano passado. Não achei tradução brasileira, mas tem espanhola. É um livro de ficção científica que me lembrou “Star Trek”. No livro,  sete civilizações vivem fora da Terra 5000 anos depois do apocalipse. Esse também quero ler.

lista

Você pode saber também o que escuta o presidente americano, veja aqui a sua playlist, que inclui o brasileiro Caetano Veloso.

essaBarack e as filhas Sasha e Malia em uma livraria em Washington.

Fonte: Casa Branca

*A minha busca foi feita na livraria Saraiva.