A carta- despedida do poeta suicida Vladimir Maiakovski


O poeta e dramaturgo Vladimir Maiakovski (Georgia – antes Rússia-, 07/06/1893- Moscou, 14/04/1930) escreveu uma carta-despedida e suicidou- se com um tiro.

maiaVladimir Maiakovski

Transcrevo a carta*:


A todos

Ninguém é culpado da minha morte e, por favor, nada de fofocas. Ao defunto não lhes gostava.

Mãe, irmãs e camaradas, sinto muito, este não é o caminho- não recomendo a ninguém- mas não tenho outra saída.

Lília, ama- me.

Camarada governo: minha família é Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Veronika Vitodóvna Polánskaia. Se lhes fazes a vida suportável, obrigado.

Os poemas inacabados dá- los aos Brik. Eles os decifrarão.

Como se costuma dizer:

“Acabou- se”,

o barco do amor

   se arrebentou contra a vida cotidiana.

Estou em paz com a vida, não vale a pena recordar

sofrimentos,

desgraças

   e mútuas ofensas.

                                                        Sejam felizes.

                                                       Vladimir Maiakovski, 12-4-1930

Amigos do VAPP não penseis que sou frágil. De verdade, não podíeis me ajudar. Cumprimentos.

Dizer a Yermilov que me arrependo  de haver tirado a nota, era necesario haver lutado até o final.

                                                                                                          VM

Sobre a mesa há 2.000 rublos, para pagar os impostos.

O resto cobrar ao Giz.


Sobre as pessoas e coisas citadas na carta:

Lília Brik foi a amante de Vladimir durante muito tempo. Lilia, seu marido e Maiakovski formavam um complexo triângulo amoroso.vladimir_mayakovsky_and_lilya_brik                                                                           Lília e Maiakovski em 1915

tresOssip Brik, Lília e Vladimir, um trio amoroso que escandalizou a sociedade da época.

Verónika, outra amante, também era casada, nunca deixou o marido. Conviveu com o poeta durante o seu último ano de vida. Maiakovski parece que gostava de mulheres casadas.

VAPP era um organização de escritores proletários.

Giz era uma editora.

O poeta, tal como uma prostituta, deve ser capaz
de transar com qualquer palavra. (Vladimir Maiakovski)


  • Carta retirada do prólogo do livro “Cómo hacer versos”, de Vladimir Maiakovski, Mono Azul Editora. Livre tradução.

O “barco do amor” que se arrebentou, pode ter sido a causa do suicídio? Política, amor, nunca ficou claro qual foi a sua motivação. Ele tinha apenas 37 anos.

 

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A Minha Biblioteca Ampliada


Minhas últimas aquisições literárias: Dostoievski e Guy de Maupassant em edições em espanhol, livros comprados na Casa del Libro (Madri):

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“La mansa” de Fiódor M. Dostoievski ( “krotkaya”, título original em russo), nas traduções em português ficou como “Uma criatura gentil”, “Uma criatura dócil” ou “A dócil”, é um relato de literatura fantástica. Veja edição da Cosac Naif, na Livraria Saraiva:

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Esta obra é uma pequena obra-prima. O pêndulo da narrativa opera segundo a lógica das transações de uma caixa de penhores: na primeira parte, a heroína se entrega, penhora sua pureza e um ícone da Virgem. Na segunda, resgata a imagem, mas paga com a própria vida.

A segunda aquisição é também de Dostoievski, “Pobre gente”, o nome ficou igual em português, edição da Editora 34 vendida na Saraiva:do2Primeiro romance de Dostoiévski, gente pobre (1846) não é apenas um prenúncio do que o autor de Crime e castigo faria no futuro. Nele já se encontra um escritor com domínio pleno do seu ofício, a ponto de Bielínski, principal crítico da época, ver na obra “mistérios e caracteres da Rússia com os quais ninguém até então havia sequer sonhado” e “a primeira tentativa de se fazer um romance social” no país. 
Partindo das experiências de Púchkin, em “O chefe da estação”, e Gógol, em “O capote”, que deram ao homem comum uma nova roupagem literária, Dostoiévski criou uma narrativa epistolar que subverteu o gênero por completo e foi imediatamente aclamada pelo público, fazendo de seu autor, praticamente da noite para o dia, um escritor consagrado.
Pela troca de cartas entre Makar Diévuchkin, funcionário menor de uma repartição pública de Petersburgo, e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã injustiçada, o leitor acompanha de perto as pequenas alegrias e os constantes sofrimentos dos dois personagens. Com seu talento fora do comum, Dostoiévski explora a fundo as variações de tom e tratamento, de saltos e encadeamentos na ação, para dar voz a um universo comovente de afetos e valores, que a tradução de Fátima Bianchi soube tão bem captar.

E o último livro, é “Bel Ami- história de um sedutor”, de Guy de Maupassant, recentemente foi pras telas de cinema. A capa do livro é a foto do filme (tanto na minha edição espanhola da Alianza Editorial, quanto na brasileira da Landmark:

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Bel-Ami” é um romance realista escrito por Guy de Maupassant publicado em 1885 sob a forma de folhetim na revista literária “Gil Blas”. O romance explora a sociedade e as atitudes em relação à riqueza, ao poder e ao oportunismo, retratando a ascensão social de Georges Duroy, homem ambicioso e sedutor, além de arrivista e oportunista, lançado ao topo sociedade parisiense, graças à ajuda de suas amantes e do conluio entre a imprensa, as finanças e a política. Maupassant descreve as ligações existentes entre o capitalismo, a política e a imprensa, além da influência feminina, privadas da vida pública da época. A obra se apresenta como uma pequena monografia da imprensa parisiense, onde Maupassant retrata implicitamente a sua própria experiência como jornalista. Assim a ascensão de Georges Duroy, ou “Bel-Ami”, pode ser comparada à própria ascensão de Maupassant. De fato, “Bel-Ami” é a descrição perfeita e inversa da vida de Guy de Maupassant, onde Georges Duroy representa o contrário do autor, conforme pode ser visto ao longo do romance. Através do personagem, o autor nos faz descobrir o mundo do jornalismo e da alta sociedade, sob a ótica dos escândalos políticos e financeiros.

E você, o que anda comprando?

“A insustentável leveza do ser”, Milan Kundera


Considerado um dos melhores romances do século XX,   A insustentável leveza do ser mistura amor, sexo, política, história, tragédia, ambientados em Praga e Zurique em plena Segunda Guerra Mundial. Tudo isso contado de duas maneiras: um narrador- observador e um narrador- personagem,  duas perspectivas dos mesmos fatos sentidos de forma diferente.

Milan Kundera é checo naturalizado francês, vive em Paris desde 1975. Nasceu no Dia da Mentira (1º de abril) em 1929. (foto: papelenblanco.com)

Eu gostei mais da forma do que do conteúdo. Os personagens masculinos exageradamente sexuais, me provocaram um pouco de repulsa. Se bem que se for verdade que os homens pensam em sexo pelo menos treze vezes por dia… kundera conseguiu o seu objetivo.

A insustentável leveza do ser também me provocou em diversos momentos um certo estranhamento. O personagem de Tereza é difícil de entender, não sabemos bem se ela vive seus pesadelos, se são reais ou imaginação. O mais fácil de entender é Karenine, sua cadela.

O tema do Comunismo também está muito presente no livro, e é narrado como uma coisa muito negativa, como não poderia deixar de ser na época em que retratou o escritor: o comunismo fascista de Stalin, que implantou o terror na União Soviética.

A palavra “kitsch” provavelmente foi popularizada por causa de Kundera que usa e dissemina o termo em vários momentos do livro. Destaco um trecho que serve para o Brasil nesse momento, em época eleitoral: ” O ‘kitsch’ é o ideal estético de todos os políticos, de todos os partidos e de todos os movimentos políticos”, são bregas, fora de moda?

O livro foi adaptado ao cinema por Philip Kaufman, aqui podemos ver um trecho:

O livro é rico em referências, principalmente filosóficas. O autor cita Parmenides, Nietzsche, Heráclito, Platao…e ainda Sthendal, Beethoven, Tolstói, Sófocles. Um autor culto e bem documentado.

O peso pode ser positivo e a leveza, negativa. A dualidade de Parmenides, peso negativo e leveza positiva, é contradita no livro de Kundera. Tomas, Teresa, Sabina e Franz experimentaram as duas vertentes do peso e as duas vertentes da leveza. A liberdade pode ser ruim, o compromisso pode ser bom e vice- versa. De tudo, eu fico com a primeira página do livro que cita o “eterno retorno” de Nietzsche, e com o título, que são geniais.

Preço: 20 euros

Lev Tolstoi: “A morte de Ivan Ilitch”


Impressionante e intenso livro condensado em apenas 91 páginas desse gênio da literatura russa e mundial, Lev (ou Liev, Leo, León, Leão) Tolstoi (1828-1910) mais conhecido pelos romances “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”.

António Lobo Antunes escreveu o prefácio dessa edição da Leya e se declara completamente maravilhado com a obra, que já leu mais de 30 vezes e confessa que lerá “até o fim dos seus dias” (p. 5).

O livro começa com o velório do personagem e logo vem a apresentação da vida de Ivan Ilitch, que é um cidadão comum, trabalhador, casado e pai de dois filhos,  com problemas como todo mundo, dos mais tristes aos mais cotidianos. De repente a dor, a descoberta da doença misteriosa, sem nome, até o seu final. Todas as suas sensações e medos são descritos de forma magistral que nos fazem sentir a sua agonia. O sofrimento de Ivan é também o nosso. Passamos a partilhar o seu medo, que vai do desespero à esperança muito rápido. A dor física inferior a dor da alma: a solidão, a vontade de um abraço que nunca chega , a insensibilidade da família que vai ao teatro enquanto Ivan geme de dor. A doença que incomoda a mulher e os filhos, que têm pena, mas ao mesmo tempo querem se livrar de tudo aquilo.  Os anos de luta,  e agora a certeza da morte próxima. A saúde alheia que ofende, que machuca. A confusão e a busca de respostas.

A hora da morte é solitária, embora rodeada de pessoas. As recordações da infância e a busca de sentido para tanta dor, Ivan se pergunta se viveu como devia ter vivido, foi feliz? A resposta pode ser muito triste.

Sentimentos que esperamos não passar, mas que é comum para todos (a morte), contados de uma forma que nos deixa com um nó na garganta e lágrimas insistentes nos olhos. Depois de tudo, de tanto sofrimento, a morte deixa de parecer tão ruim.

A morte é “luz”.

Tolstoi, L. A morte de Ivan Ilitch, Portugal, Leya, 2008.

Preço: 5,95 euros