Noite de São João para além do muro do meu quintal


Só Fernando Pessoa (na voz de Alberto Caeiro) para exprimir o sentimento de quem ama São João, mas não pode participar da festa (no meu caso, o “exílio” madrilenho). Só a poesia salva!

Felipe Aristimuño (carioca que estudou em Lisboa) criou uma animação com o poema:

Noite de São João para além do muro do meu quintal 

Do lado de cá, eu sem noite de São João.
Porque há São João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

(Em 12-4-1919, Poemas Inconjuntos. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa, 1946 )

 

 

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Resenha: A hora do diabo, de Fernando Pessoa


A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. (Fernando Pessoa, p.44)

Este livro, “A hora do diabo”, são folhas soltas escritas por Fernando Pessoa, fazem parte do espólio do autor depositado na Biblioteca de Lisboa. Foram organizadas pela professora portuguesa e especialista no autor,Teresa Rita Lopes, também é escritora.

Teresa Rita Lopes2Teresa Rita Lopes, estudiosa da obra de Pessoa.

O prefácio “História e Alcance de A Hora do Diabo” é mais extenso que a própria obra, Teresa explica que essas folhas soltas faziam parte de um projeto de um conto que se chamaria “Devil’s voice”. Pessoa foi educado em inglês na África do Sul, era fluente nesse idioma, escreveu seus primeiros poemas em inglês. Apesar desse título, o texto está em português. A presença satânica se faz presente em vários textos do escritor ainda adolescente, entre os 14 e 17 anos ele começou a questionar a religião católica praticada por sua família, isso depois de ter visitado o avô judeu em Portugal. Pessoa faz uma defesa do diabo, que não é tão ruim como parece e quer fazer ver a Igreja Católica. Não terminei de ler o prefácio, porque esmiuçava muito o que estava por vir, o spoiler estraga o prazer da descoberta. Melhor ler o prefácio depois da leitura do texto de Pessoa. Gênio não se faz, parece que já nasce:

É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? (p. 44)

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Fernando Pessoa adolescente. Bonitinho,não?! Foi nessa época em que morava em Durban (África do Sul) que escreveu os textos de “A hora do diabo”.

Maria emplaca uma conversa com o Diabo, ela estava na estação do trem, e de repente, apareceu na sua casa. Nessa atmosfera meio onírica, sobrenatural, mística, o Diabo apresenta- se, diz que é irmão de Deus, um anjo sem sexo, do início dos tempos. Sente- se injustiçado, não considera- se ruim, considera- se até melhor que Deus, inclusive:

(…) Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior- num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. Passam. (p. 47)

O Diabo é a imaginação; Deus, a própria Criação. O Diabo é a luxúria, a volúpia, o desejo, a serpente. Duas criações do Diabo: o luar e a ironia. O Diabo é o “esquecimento de todos os deveres, a hesitação de todas as intenções” (p.49). O Diabo é a dúvida que atormenta o homem. É o “Deus da Imaginação”, como se auto denomina:

Corrompo mas ilumino. (p.53)

O conto é muito filosófico, fora que dá vontade de chorar de tão bem escrito. Será que foi um menino mesmo que escreveu?! Pessoa consegue convencer que o Diabo não é tão ruim não, além de ser lúcido e inteligente.

(…) Todo este universo, com seu Deus e o seu Diabo, com o que há nele e de coisas que eles vêem, é um hieróglifo eternamente por decifrar. (p. 51)

O Diabo diz que todas as religiões são iguais, cultuam símbolos diferentes, mas que falam da mesma coisa, por mais opostas que sejam. E todas as futilidades, desejos infundados, aborrecimentos, tédio, é o pensamento do Diabo que não sabe de nada, ele desce sobre a alma dos homens. Ai, que medinho, não?! Mas o próprio Diabo nega a sua existência, o Diabo é o vazio, não existe, como Deus, que são criações para preencher lacunas, veja:

A verdade, porém, é que não existo- nem eu, nem outra coisa qualquer. Todo este universo, e todos os outros universos, com seus Criadores e seus diversos Satãs- mais ou menos adestrados- são vácuos dentro de vácuo, nadas que giram, satélites, na órbita inútil de coisa alguma. (p. 55)

Entre os textos há uma desconexão, uma sensação de escritura inacabada (terá sido engavetado?). E também muita poesia:

(…) Felizes os que dormem, na sua vida animal, – um sistema peculiar de alma, velado em poesia  ilustrado por palavras. (p. 59)

O único defeito desse livro? Ser muito curto. Ele desestrutura, faz sair do lugar comum, sacode as nossas crenças e faz pensar… pensar na ordem estabelecida. E se tudo for uma grande balela? Quem sabe da verdade mesmo?! Tudo, tudo, tudo é só questão de fé, é pegar ou largar!

(…) Tudo é muito mais misterioso do que se julga, e tudo isso aqui- Deus, o universo e eu- é apenas um recanto mentiroso da verdade inatingível. ( p.60)

Fernando Pessoa A Hora do Diabo

Pessoa, Fernando. A hora do diabo. Assírio & Alvim, Lisboa, 2004. 69 páginas

Um dia, quando eu tinha vinte e poucos, um professor da universidade disse na sala de aula: “é impossível escrever algo substancial antes dos quarenta”, possivelmente reproduziu o que leu de algum crítico. E eu pensei: ‘para quê escrever, então, se tudo o que eu fizer vai ser ruim?’. Uma pena que eu tenha acreditado nele, esse pensamento deve ter sido o Diabo pessoniano tolhendo o sonho criativo alheio.

O bom sonhador nunca acorda. Eu nunca acordei. (p.45)

Preste atenção nos seus sonhos!

Escritores do mundo (2): Leonard Cohen (Canadá)


Leonard Cohen (Montreal, 1934) é um escritor e músico canadense de origem polaca, mais conhecido no mundo da música, embora venha publicando livros desde 1956. Em 2011 ganhou o importante prêmio Príncipe de Astúrias das Letras na Espanha.

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Um livro interessantíssimo e que anda na minha cabeceira é o “Livro do desejo”. A obra é poética e cheia de desenhos, uma mistura que adoro. Esse livro demorou 20 anos para ficar pronto. Impressiona! A pena é que a tradução dessa edição seja ao português de Portugal e sem a correção para a nova ortografia, tudo estranho, expressões como “fui dar uma mija”, por exemplo, que não utilizamos. Há um grupo de “intelectuais”portugueses fazendo campanha contra a nova ortografia (que os lusos chamam de “AO”). Se eles vendem seus livros no mercado brasileiro, que se adaptem ou não vendam, que fiquem só em Portugal. Se lhes parece tão ruim tirar os “cês” e “pês”, consoantes mortas do meio de suas palavras e para nós brasileiros não nos pareceu ruim tirar nossos acentos das nossas “ideias” igualando à grafia lusa, que tirem também seus livros do mercado do Brasil. Já que é “humilhante” e um acinte à cultura portuguesa igualar a ortografia aos países colonizados por eles, então que não aceitem esse dinheiro sujo, não é? O tempo da “casta” já acabou, o mundo dá voltas. Aviso às livrarias e editoras: eu não compro mais nenhum livro que não esteja com a nova ortografia, boicote mesmo! Livro sem a nova ortografia? Ficará na prateleira. Mas esse tema é papo para outro post.

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ESCREVI POR AMOR (p.89)

Escrevi por amor.
Depois escrevi por dinheiro.
Para alguém como eu
é a mesma coisa.
 

Cohen e U2 cantando “Tower of song” música que fechou o documental sobre a vida do artista Leonard Cohen: I’m Your Man:

http://www.youtube.com/watch?v=7KwmRxrPgn4

“O tempo envelhece depressa”, Antonio Tabucchi


Perguntei- lhe por aquele tempo, de quando éramos ainda realmente jovens, ingénuos*, arrebatados, patetas, incautos. Alguma coisa ficou, a juventude não- respondeu. (p. 11)

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O escritor italiano morava em Lisboa e era apaixonado pela língua portuguesa. Tabucchi morreu no ano passado de câncer.

Conheci a obra de Tabucchi depois de sua partida no ano passado (Vecchiano, Pisa, Itália 24/ 09/ 1943 – Lisboa, Portugal 25/ 03/ 2012). O primeiro livro que li foi Requiem: uma alucinação, uma obra muito interessante, sobrenatural, mística. Fiquei com vontade de conhecer mais e comprei “O tempo envelhece depressa”, um título que me identifico muito, porque ultimamente é uma preocupação e luta constantes na minha vida essa briga com o tempo mais veloz que eu. Trata- se de uma obra composta por nove contos que falam disso, do tempo que passa rápido demais em diversos contextos e esferas, o tempo real e o psicológico, a memória e a consciência. São histórias que existiram na realidade antes da ficção, como diz o próprio autor no final do livro. Veja essa interessante passagem:

– Nefelomancia, respondeu o homem, é uma palavra grega. nefelos significa nuvem e mancia adivinhar, a nefelomancia é a arte de adivinhar o futuro observando as nuvens, ou melhor, a forma das nuvens, porque nesta arte a forma é a substância (…) ( “Nuvens”, p. 59)

Adoro essa capa bela e triste, dois palhaços de partida para nenhum lugar, já que observam o mar. O tempo envelheceu cedo, esgotou cedo demais para Tabucchi, esse foi o seu último livro. O nome do autor era cogitado para o prêmio Nobel de Literatura, ele nos deixou 25 livros traduzidos no mundo todo. “O tempo envelhece depressa” é um livro bonito com uma ponta de tristeza…mas, sem dúvida, belo.

‘Nunca acreditei que a vida imitasse a arte’, é uma daquelas frases que pegaram porque é fácil, a realidade ultrapassa sempre a imaginação, por isso é impossível escrever certas histórias, pálida evocação daquilo que de facto* aconteceu. (“Entre generais”, p.85)

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Tabucchi, Antonio. O tempo envelhece depressa. Dom Quixote, Portugal, 2012. 145 páginas

*português de Portugal

“A estátua e a pedra”, o novo livro de José Saramago


 

 

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A Fundação Saramago (leia- se Pilar del Rio, a viúva) lançou no último mês de abril na Feira do Livro de Bogotá essa nova obra póstuma “A estátua e a pedra”. A edição é bilingue espanhol/ português. O prólogo da editora:

Um texto em que, de forma clara e fluida, José Saramago traça um percurso simples, sem artifícios e bem-humorado, pelos seus diferentes livros para acabar concluindo que até a “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” havia estado descrevendo a estátua e que a partir desse livro, que é fronteira, a sua tentativa foi a de descrever a pedra de que é feita a estátua, fase que se inicia com “Ensaio Sobre a Cegueira”. Tudo isto fica explicado de uma forma clara e o leitor adquire uma nova dimensão sobre os livros de José Saramago que já conhece e um desejo de se aproximar dos que ainda estão por conhecer, revisitados pelo Autor neste texto. “A Estátua e a Pedra” apresenta prefácios de Luciana Stegagno Picchio e Giancarlo Depretis e de um epílogo de Fernando Gómez Aguilera e é publicado em edição bilingue – Português e Espanhol.

Boa pedida desse gênio das letras portuguesas, que no último dia 18 de junho, infelizmente, completou 3 anos da sua morte.

Os heterônimos de Fernando Pessoa


Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

(“O guardador de rebanhos”, Alberto Caeiro)

Fernando Pessoa (Lisboa, 13/ 06/1888- Lisboa, 30/11/ 1935) considerado um dos maiores poetas do mundo, era tão vasto, que não podia ser um só,  então ele criou alguns heterônimos , que são autores fictícios para assinar seus poemas. Seus heterônimos têm personalidade própria, como se realmente fossem autores independentes. Os personagens criados por Pessoa são Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos.

Fernando Pessoa na Baixa de Lisboa, onde costumava passear e tomar um café na cafeteria “A Brasileira” no Chiado, onde hoje existe uma estátua na mesa que costumava sentar. Foto: Wikipédia

Fernando Pessoa criou biografias para seus heterônimos. Alberto Caeiro era um camponês sem estudos, mas com um vasto mundo interior, filosófico, do signo de leão, um pensador da vida. Na sua simplicidade, era claro e profundo na sua observação do mundo. Morreu de tuberculose. Em “O guardador de rebanhos” (1911- 1912), um longo poema atribuído a Alberto, onde ele descreve- se assim:

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.
O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.
Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.

Ser um só poeta já é difícil, mas o genial Fernando Pessoa conseguiu administrar seus quatro “eus” com maestria, talvez ele mesmo, talvez não, quem sabe? Como nos contou o próprio Fernando em Autopsicografia, O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.

Fernando Pessoa era fluente na língua inglesa, escrevia e lia nesse idioma. Foto da contra- capa do livro “A First Latin Course”, onde ele coloca a data em números romanos. Esse livro fazia parte da sua biblioteca pessoal, esse e outros livros estão hoje na Casa- Museu Fernando Pessoa, em Lisboa, onde há vasto material sobre o escritor.

Deixo aqui a estrofe final do poema de Alberto Caeiro, com toda a verdade das coisas simples, “O guardador de rebanhos”:

XLIX

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Amor de perdição, Camilo Castelo Branco


Considero- te perdida, Teresa. O sol de amanhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. (p.123)

Se você gosta de narrativas de amor tipo “Romeu e Julieta”, de histórias de amores impossíveis, você vai gostar desse livro, que está claramente inspirado na obra mais famosa de Shakespeare. Essa é uma edição portuguesa da editora Leya, comprada na Fnac de Lisboa:

Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privariam de ti. Só o receio de perder- te me mata. (Simão, p. 123)

Escrita em 1862, Amor de Perdição conta a história de amor entre Teresa e Simão, filhos de duas famílias inimigas, eles tinham só 16 anos quando surgiu o amor . Tudo acontece em Viseu, Portugal, no século XVIII, na época em que os casamentos ainda eram feitos por conveniência. Simão Botelho, um jovem universitário rebelde, conflitivo, filho de um comendador, apaixonou- se pela vizinha Teresa de Albuquerque, uma menina que só tinha duas opções: casar com seu primo Baltasar Coutinho ou ir para um convento, só que ela também apaixona- se pelo vizinho rebelde. Teresa contrariou a vontade do pai, Tadeu de Albuquerque, e decidiu não casar, foi para o convento. Essa parte da história chega a ser cômica: as freiras que têm vocação para tudo, menos para a vida religiosa, surpreendem e enojam Teresa, pois vivem envoltas em fofocas, são adeptas do vinho como “remédio estomacal”,  num ambiente cheio de intrigas e línguas viperinas, nada a ver com a vida cheia de virtudes, caridosa e espiritual que sempre ouviu dizer que havia nos conventos.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

(Lisboa, 16/03/1925- São Miguel de Seide, 01/06/1890) 

“Amor de perdição” é um romance romântico, que o autor contou com conhecimento de causa, ele mesmo viveu um amor impossível, apaixonou- se por Ana Plácido que era casada com o brasileiro Pinheiro Alves. Camilo rapta Ana, mas o adultério naquele tempo era crime e os dois foram presos no Porto, onde ele escreveu o romance Memórias do cárcere. Camilo e Ana ficaram juntos, tiveram muitos filhos, daí a produção tão intensa do escritor, que teve que trabalhar muito para sustentar a família numerosa. Camilo Castelo Branco foi o primeiro escritor português a viver exclusivamente de literatura.

O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ela. (p. 123)

Simão amava Teresa com toda a sua alma e estava disposto a morrer por ela, não mediu nenhuma consequência, foi extremamente valente, enfrentou o pai da moça (Um déspota) o prometido de Teresa e com a impossibilidade quebrando seus desejos. Foi preso por um assassinato, ganhou o ódio dos seus pais, ficou sem família, mas sentia- se digno e forte pra enfrentar a morte, já que a vida lhe privou do seu amor.

O destino há- de cumprir- se…Seja o que o Céu quiser. (p. 126)

O ferreiro Joâo da Cruz e sua bela filha Mariana, ajudaram a Simão em seus encontros com Teresa, com dinheiro, além de o terem ajudado a curar- se de um tiro que sofreu numa emboscada com o primo prometido de Teresa e que continuaram ajudando Simão enquanto esteve preso, já que a sua família não quiser saber mais nada dele. A mãe, D. Rita Preciosa, foi impedida pelo marido corregedor a ajudar o filho que havia sido condenado à forca, em sua fúria dizia que a “lei era para todos”. Antonio da Veiga, um tio- avô octagenário usou um argumento muito convincente que obrigou ao corregedor ir ao socorro do filho. Simão era muito forte e mantinha- se forte, mesmo com a condena á forca, mas desabou quando teve certeza que Mariana, a linda e doce Mariana, chorava e queria morrer caso Simão morresse. Por um momento ele esqueceu de Teresa e chorou pelos tristes desígnios da vida e do amor, falou do amor de Teresa e Mariana:

Uma, morrendo amada, outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra “amor” dos lábios que escassamente balbuciavam palavras de gratidão. (p. 147)

Simão ficou sem ver Mariana durante sete meses e Teresa estava num convento no Porto. Simão começou a ficar muito confuso e pensava mais em Mariana que em Teresa, e quis partir a cabeça na parede. Mariana ali, sempre a seu lado, e ele não a via. Ele e Mariana sentiam a mesma dor do amor impossível. Ele podia ter ficado com Mariana que era linda e completamente apaixonada por ele, mas quem manda no coração?

Simão preso e Teresa definhando no convento do Porto durante 7 meses, estava doente, tísica e à beira da morte. Seu pai disse que assim era mais digno do que ter desonrado a família. Teresa escreve uma carta belíssima a Simão, romântica até não poder mais, não vou colocar os trechos mais bonitos para vocês ficarem com vontade de ler:

“Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos?!… Por que não merecemos nós o que tanta gente tem?! (…) O pior sãos as saudades. (…) Ao menos morrer é esquecer.” (Teresa em carta para Simão, p. 153)

Simão envia uma carta de volta, suplicando que Teresa viva, que se agarre ao último fio de vida, pois ele ainda tem esperança de que irão ficar juntos. Será que ficaram? Vou parar de contar, agora é com vocês!

Só no final do livro que descobrimos que o narrador é o sobrinho de Simão, filho do seu irmão Manuel. Leitura super recomendada, o livro não é nada monótono, tem um ritmo bem legal, emocionante e escrito num português luso rico, com os diálogos “de época”, mas muito naturais, entramos na história e passamos a fazer parte dessa linda e extremamente triste história de amor.

A desgraça afervora ou quebranta o amor? (p. 197)