Vinte e quatro livros para 2018


Numa tentativa de ser mais disciplinada, listei vinte e quatro livros que eu tenho grande vontade de ler e resenhar neste ano que vai começar amanhã. Alguns deles não são nada populares no Brasil, inclusive nem têm edição brasileira, por isso mesmo o meu interesse. Vamos colocar no ar novidades e não livros mais que mastigados, não é?! Fora que há que se traduzir mais e mais autores estrangeiros no Brasil, como há que se traduzir muito mais literatura brasileira no exterior. Forçar esse intercâmbio faz circular autores, idiomas, livros e mais conhecimento.

E como sugestão: aprenda idiomas! Espanhol e inglês são obrigatórios se você quiser ser um cidadão do mundo, além de expandir seu próprio universo interior, também para a sua vida profissional.  Saber idiomas é a chave para entender melhor outras culturas e saberes. E no âmbito literário, saber inglês, francês, espanhol, fora o nosso português, te abre um leque imenso de opções literárias, ainda mais com a Internet e a possibilidade de ler em e-books. E você, estrangeiro, que está lendo isto com tradutor, aprenda também português. 🙂

Vamos às minhas escolhas (as capas são as edições que eu tenho).

  1. “A ópera dos mortos”, de Autran Dourado

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Este é um livro que quero ler há muito tempo, por isso é o primeiro da fila. O mineiro Autran Dourado, falecido em 2012,  foi um dos maiores escritores do Brasil. O romance “A ópera dos mortos” (1967), é considerado por muitos a obra- prima do autor.
Ópera dos mortos. Romance. [Tapa blanda] by DOURADO, Autran.-

2. “A grama vermelha” (“L’erbe rouge”/ “La hierba roja”), de Boris Vian.

La hierba roja

Esse não achei tradução em português, mas não deve demorar. O francês Boris Vian (1920-1959), morreu com 39 anos, foi engenheiro, cantor, músico, tradutor, inventor entre outros, uma vida intensa. Ele tem uns títulos de livros “curiosos”: “Escupiré sobre vuestra tumba (Pocket) (“Irei cuspir- vos nos túmulos” ou “Que Se Mueran Los Feos ” (Qu”e morram os feios”). Eu tenho outro que está na lista Espuma dos Dias (Em Portuguese do Brasil), esse com edição brasileira da finada Cosac Naify.

3. “Contigo na distância” (“Contigo en la distancia”), de Carla Guelfenbein.

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A autora é chilena e Contigo En La Distancia (Premio Alfaguara 2015)” (“Contigo na distância”) ganhou um prêmio literário importante na Espanha, o Alfaguara (2015). A história foi baseada na vida de Clarice Lispector.

4. “A cidade sitiada”, de Clarice Lispector.

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Livro sem ler de Clarice não dá! A autora é para ser lida e relida, sempre. “A cidade sitiada” é o terceiro romance da autora.

A cidade sitiada

6. “Grandes esperanças”, de Charles Dickens

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Este clássico do inglês Dickens deve ser daqueles que provocam lágrimas. Conta a história de um órfão, Pip e as dificuldades que enfrenta na vida.

Grandes esperanzas (El Libro De Bolsillo – Literatura)

7. “A camisa do marido”, de Nélida Piñón

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São nove contos da grande Nélida Piñón, escritora carioca, uma das minha autoras favoritas.

A Camisa do Marido (Em Portuguese do Brasil)

8. Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

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Esse já comecei a ler várias vezes e não avancei por problemas alheios ao livro.

Ciranda de Pedra

9. Paris não acaba nunca (livre tradução), de Enrique Vila- Matas

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O escritor espanhol me contou na Feira do Livro de Madri (2017), que estava em negociações com uma editora brasileira. Algumas de suas obras fora editadas pela finada Cosac Naify. Por enquanto, você pode ler em espanhol.

 París No Se Acaba Nunca (CONTEMPORANEA)

10. “1984”, de George Orwell

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Eu li “A revolução dos bichos” em 1996, lembro o ano, e adorei. Este, “1984”, está na lista há milênios, não pode passar de 2018.

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11. “13,99€”, de Frédéric Beigbeder

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Eu não tenho nenhuma referência do autor nem do livro, exceto o que conta na contracapa. A gente tem que fazer isso sim, “comprar livros pela capa”. Fiquei curiosa na livraria e vou pagar (já paguei, literalmente) pra ver.

13,99 Euros (Compactos)

12. “O grande Gatsby”, de F.S. Fitzgerald

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Outro clássico que está na estante faz tempo. Achei uma edição bilingue português- inglês baratinha:

O Grande Gatsby: The Great Gatsby: Edicao Bilingue

13. “Elegia”, de Philip Roth
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Elegía (CONTEMPORANEA)

14. “O clube da boa estrela”, de Amy Tan

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Conheci essa autora americana de origem chinesa, aqui em Madri. Tenho duas obras autografadas.

El Club de la Buena Estrella

15. “Matar um rouxinol”, de Harper Lee
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Matar a un ruiseñor: SERIE: CINE

16. “Trópico de capricórnio”, de Henry Miller

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17. “Um mundo feliz”, de Aldoux Huxley

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18.”O buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi

El Buda De Los Suburbios (Otra vuelta de tuerca)

19. “Os maias”, de Eça de Queirós

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Os Maias

20. Os filhos da América, de Nélida Piñón

Outro da Nélida. A edição que eu tenho é a espanhola. O nome ficou muito diferente: “La épica del corazón”

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La épica del corazón

21. “Em busca do tempo perdido- À sombra das meninas em flor”, de Marcel Proust

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Li a primeira parte e adorei! Veja aqui a resenha.

En busca del tiempo perdido. Estuche (13/20)

22. “Viagens na minha terra”, de Almeida Garrett

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Viagens na Minha Terra (Completo) (Portuguese Edition)

23. “Memorial de Aires”, Machado de Assis.

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Memorial de Aires (Série Machadiana Livro 4) (Portuguese Edition)

24. “Onde andará Dulce Veiga”, de Caio Fernando Abreu

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Onde Andará Dulce Veiga ? (Em Portuguese do Brasil)

A lista é muito otimista, são vinte e quatro livros, dois por mês, mas alguns são bem extensos, como “Grandes esperanças”, com quase 800 páginas, “Os Maias”, com mais de 700 e assim por diante, mas a intenção é administrar o tempo para dar certo.

O que você achou das minhas escolhas? Vamos embarcar comigo nessas leituras?!

Aproveito para desejar um feliz 2018, espero que você comece o ano com esperanças renovadas, com projetos, sonhos, e que ao longo do ano, todos eles se realizem com alegria e saúde!

 Em 2018, mais e melhor! Feliz ano novo!

 

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Resenha: “Liberação”, de Luis Goytisolo


Começo contando uma historinha: na Feira do Livro de Madri de 2014, pensei encontrar uma fila quilométrica no estande de Luis Goytisolo Gay (Barcelona, 17/03/1935), afinal, é um dos expoentes da literatura na Espanha, membro da Real Academia Española, desde 1994, é o Proust espanhol. Goytisolo escreveu o prolixo “Antagonía”, são mais de 1000 páginas de luxuosa narrativa. Quando cheguei no seu estande, estranhei:  o autor estava sozinho. Contei sobre a minha surpresa e ele respondeu: “nunca vou ser um escritor popular”. Concordo. Literatura artística, bem elaborada, infelizmente, nunca será popular. Quase sessenta anos de excelente literatura e não havia ninguém na fila!

Já que estávamos sozinhos, aproveitei para pedir que autografasse vários livros , o que fez com toda a gentileza e simpatia:

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Luis Goytisolo, Feira do Livro de Madri, 2014. Foto: Fernanda Sampaio

Luis pertence à uma família literária. Seus dois irmãos também são escritores, José (poeta) e Juan (narrativa), este último, premiadíssimo, inclusive recebeu o Príncipe de Astúrias. Juan Goytisolo, infelizmente, faleceu em junho deste ano.

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Fernanda Sampaio e Luis Goytisolo na Feira do Livro 2014. Foto: Antonio Jiménez

A impressão que tive de Luis Goytisolo é que nunca vai envelhecer, tem o espírito jovem.

O meu exemplar com dedicatória:

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Saiba mais detalhes do meu encontro com Luis Goytisolo, aqui.

A obra

Como “Liberación” não está editado em português, uso “Liberação” (2014), ao pé da letra, mas poderia ser também “Libertação”. Este é o antepenúltimo livro de Luis Goytisolo, o mais recente é de 2016, “El atasco y demás fábulas ” (“O bloqueio e demais fábulas”). A sua primeira obra publicada é de 1958, “Las afueras”, ( “Os arredores”, algo como “A periferia”).

“Liberação” está dividido em nove capítulos numerados, com subcapítulos titulados. O primeiro capítulo possui nove histórias (aparentemente) independentes, a primeira: “Resumo do ano” (p.13), encontrei logo de cara umas linhas duras, lembrou- me o naturalismo de Aluísio de Azevedo. O protagonista chama- se Ricardo, é casado com Magda. A família tem uma casa de campo chamada “A Nogueira”. Ele fala da tosse incômoda dos pedestres exalando bacilos.

A  demolição de um edifício vai liberar o espaço, não só de uma edificação em ruínas, mas de tudo o que está implícito nele, “(…) eflúvios cuja carga de miséria, enfermidade, sofrimento e desgraça institui- se contagiosa, assim a inquietação do ser humano ante qualquer decidida revisão de seu passado individual ou coletivo que deixe descoberta a realidade mais profunda, mas irrevogável.” 

O narrador, em primeira pessoa, vai comparando esse edifício com uma tosse perniciosa, com a morte. Edifícios e móveis antigos, de antiquários, herdados, o provocam a mesma repulsa. De certa forma, o protagonista acredita que nestas coisas velhas ficam impregnadas energias dos donos. E ele pensa sobre pais e filhos:

Que sabem os filhos dos seus pais, de como eram antes de ser pais? E dos filhos, tanto mais desconhecidos quanto mais crescem? (p.15)

A segunda história é bem curtinha, “Vista da aldeia desde A Mola”. O ambiente do livro é a Espanha rural. “A Mola” é uma fazenda que fica em Vallfranca. O narrador faz uma crítica aos donos das fazendas, que são proprietários, mas não têm conhecimento sobre o campo, uma tendência pós- guerra.

Na terceira história, “Águas turvas”, Carlos sonha com águas turvas, fica com uma impressão ruim durante o dia todo. Começa a relacionar o sonho com a vida e suas recordações, principalmente com Áurea (falecida). Um capítulo embalado pela música de Strauss, “Marcha Radetzky”. É um texto sobre a dúvida, uma possível infidelidade ao estilo Capitu e Bentinho.

A quarta, “Nata“, é um apanhado de personagens e gírias grosseiras, são jovens violentos e marginais. Diferente dos anteriores, a narrativa acontece na cidade, parece um bairro popular e periférico.

“O monte da alegria” é a quinta história (p.27). Quando as pessoas estão muito agoniadas sobem ao monte e voltam de lá renovadas.

(…) Aos humanos nos acontece como as plantações, que degeneramos. A terra pode perder substância, mas deixe- a descansar e ela se recupera sozinha. As plantações, em troca, se não têm semente nova, degeneram. Pode ser boa terra, que você não vai colher nada. A planta perdeu perdeu sua capacidade de assimilar. Como nós.  (p.29)

“Desolação” é a sexta história, a de duas moças, Cati e Yolanda. Um texto realmente desolador, mas que para uma boa parte dos jovens, hoje, pode ser visto com naturalidade: a extrema falta de pudor, a liberação sexual que toca a perversão. A banalidade sexual.

Até “Desolação”, todos os textos parecem independentes, sem conexão entre as histórias e personagens. Em “A Marcha Radetzky” e “O interlocutor”, as últimas do primeiro capítulo, ressurgem personagens citados anteriormente e como a vida deles se cruzam. Neles, a colcha de retalhos é costurada e tudo faz sentido. O escritor optou pela escrita indutiva, partiu do particular para o geral. Goytisolo resume o capítulo falando da libertação de repressões. A Espanha ficou muitos anos submetida a um regime ditatorial, onde nada podia, e depois disso, veio o oposto.

O segundo capítulo é composto por seis histórias. A primeira, “Revistas”, acontece num aeroporto e quem a conta é Carlos, que aguarda para embarcar e observa um jovem ser revistado. O rapaz recorda a ele quando jovem e relembra uma experiência de sexo homossexual que nunca contou à Áurea.

Em “O obscuro e o transparente”, revela um lugar muito especial do povoado, que acontece um fenômeno estranho: no “Bosque do Pensamento”, as palavras surgem claras, como uma revelação.

Voltam os personagens jovens do subúrbio em “Mastuerzo” (é uma árvore). Eles têm uns nomes bem “estranhos”:”Cosca”, “Joderas” (apelidos escrachados). A linguagem volta vulgar, cheia de gírias, a língua das ruas dos subúrbios marginais. Os rapazes comportam- se com uma total falta de empatia e respeito ao outro.

E ainda “A terceira maravilha”, o narrador volta a contar sobre a fazenda “La Mola” e sobre quem eram os seus donos. “Primeiro do ano” é o encontro de dois casais que já apareceram antes: Carlos e Áurea, e Ricardo e Magda. Os homens foram colegas de colégio e o reencontro não foi agradável. O tempo transforma as relações em outra coisa nem sempre esperada e desejada. O trecho é contado sob a visão de Ricardo.

Já em “O bobo da vez”, sob o olhar de Carlos, ele vai contando os efeitos do tempo, não só no físico quanto na mente:

A pegajosa inércia das coisas, o mundo circundante, o próprio corpo, tudo como impondo resistência, colocando obstáculos, ou simplesmente aderindo ao modo de rêmora, como algas e moluscos que se instalam e proliferam no casco de uma nave até imobilizá- la. Uma análise de sangue e umas ecografias dentro da normalidade não anulam as fraturas da idade, a decadência física,  as manias (…) (p.58)

E Carlos fala sobre a “mania” de andar pelo meio da rua, para livrar- se da água dos vasos de plantas e também de uma coisa que me irrita muito, um costume forte na Península Ibérica:

(…) por temor que alguma dissimulada dona-de-casa sacudisse durante a sua passagem alguma toalha, algum lençol ou, o que é pior, algum tapete de quarto, com toda sua carga de germes patógenos”. (p.59)

Carlos comenta sobre a morte de Magda e Ricardo. Essa obra é cheia de enigmas, um quebra- cabeças.

O III Capítulo é formado por quatro histórias: “Latidos e dentes”, que fala sobre Vallfranca, o narrador compara o povoado antes e depois da guerra. A comodidade nem sempre traz felicidade. Durante a guerra (civil espanhola) as famílias eram mais unidas, dormiam num só quarto, e hoje, têm até banheiro com jacuzzi, mas sofrem de tédio. Será por falta de metas e objetivos? Há ainda  “Resignação”,O excêntrico” e “Projeto de ano- novo”.

Para evitar uma resenha infinita, decidi não contar mais capítulo por capítulo e já ir finalizando. A obra tem a estrutura original, são várias histórias paralelas, que discorrem aparentemente sem conexão, até que os personagens vão se entrecruzando. O personagem mais profundo é Carlos, seu final é surpreendente e triste.

A obra deixa uma sensação bastante verossímil do “jeito espanhol” de hoje e de ontem, várias gerações, há recuos históricos e personagens contemporâneos. Personagens de várias camadas sociais e diferentes idades, da zona urbana e rural, suas angústias e solidões. E a violência, que também há, infelizmente. O fim da guerra gerou liberdade, que, em grande parte, não soube ser bem aproveitada pelos cidadãos espanhóis. O que fazer com tanta liberdade? Parece que muitos ficaram perdidos e perderam a medida.

Este livro ainda não está editado em português. Quem sabe estou plantando uma sementinha. Se algum editor do Brasil ou qualquer país lusófono chegar por aqui, anote esse nome: Luis Goytisolo.

Se você está no Brasil, Portugal, Angola, Goa ou Moçambique e lê em espanhol, pode comprar “Liberación” em e-book aqui. E você que está na Espanha pode comprá- lo nas melhores livrarias do país.

goytisolo (1)  Goytisolo, Luis. Liberación, Siruela, Espanha, 2014. Páginas: 190

Um dos maiores escritores espanhóis na prisão


O poeta e dramaturgo madrilenho Lope de Vega (Madri, 25/11/ de 1562 – Madri, 27/08/1635) de origem humilde, com uma vocação muito forte para as Letras, ainda com cinco anos já lia em espanhol e latim. Na adolescência, com 15 anos, tentou vender joias e prata na cidade de Segóvia junto com uns amigos. Surgiu a desconfiança de que eram peças roubadas. Não ficou claro se eram ou não. Não encontrei muitos detalhes, mas é sabido que ficou preso alguns dias na prisão da ” Calle Juan Bravo” esquina com Calle de la Herrería “, conhecida como “Prisão Real” ou “Prisão velha”, edifício do século XVI, que pertence à prefeitura. Hoje funciona como casa de leitura “Lope de Vega”. Quem diria, não?

Neste edifício, antiga cárcere da cidade, hoje destinado à biblioteca, esteve preso o poeta e dramaturgo Lope de Vega.

O edifício mantem as características originais, as grades nas janelas.

Segóvia é uma cidade que fica na província de Castela e Leão (“Castilla y León”), a 90 Km de Madri,  com 52 mil habitantes, população que deve triplicar com o turismo diário. A cidade tem um aqueduto construído pelos romanos no século II d.C., foi construído sem nenhum tipo de argamassa, é pedra sobre pedra. Uma edificação muito engenhosa e que está intacta há 1800 anos. O aqueduto transporta a água das montanhas para abastecer a cidade. Foi tombado patrimônio da humanidade pela UNESCO. Minha reverência e respeito aos nossos antepassados, ao povo romano, sem eles, sem dúvida, os avanços para o progresso da humanidade teriam sido muito mais lentos.

Além do aqueduto, há o Castelo de Alcázar, que é aquele típico castelo de contos de fadas. Inclusive o  da Disney foi inspirado nele.

Uma das vistas do castelo, ontem, 12 de março.

A cidade inteira é um cenário de filme medieval. Há um bairro judeu com comidas típicas, as casas , praças, igrejas, tudo muito bem conservado. O povo espanhol sabe preservar a sua memória histórica. Também há que se provar a gastronomia local, um prato tradicional de feijão branco gigante, os “judiones” e seus doces típicos, como o “ponche”, um bolo de amêndoas com creme, simplesmente delicioso! Então, fica a dica de uma cidade que você não pode deixar de visitar na Espanha, Segóvia. 

Proibida cópia e reprodução de texto e fotos sem autorização prévia.

Resenha: “Bartleby e companhia”, de Enrique Vila- Matas


O prolixo Enrique Vila- Matas (Barcelona, 1948), publicou o seu primeiro livro em 1973, “Mulher no espelho contemplando a paisagem”; a última obra recém- publicada (2017), “Mac e seu contratempo”, é o 29º romance. Também é ensaísta, possui  treze livros publicados nesse estilo, além de outros textos em coletâneas. É um dos escritores mais premiados da atualidade, cerca de 24 prêmios pelo mundo, mas ainda não ganhou os dois mais importantes: o Cervantes  e o Nobel.

Enrique é formado em Direito e Jornalismo. Morou em Paris dois anos em um apartamento alugado de Marguerite Duras. Sua obra foi traduzida para 27 idiomas.

paratybrasilEnrique em 2012 em Paraty, onde participou da FLIP. Será que ele gostou do cafezinho brasileiro?!

No Brasil, ficou mais conhecido, quando a finada Cosac & Naify publicou alguns dos seus livros, entre eles, esse: “Bartleby e companhia”(2000), motivo dessa resenha. A minha edição é espanhola (vocês sabem que eu moro na Espanha), de bolso, da Penguin Randon House, bem modesta, nada a ver com as lindas edições que a Cosac costumava fazer.

Vamos ao texto…

Começo esclarecendo quem é “Bartleby”: Herman Melville escreveu um conto chamado “Bartleby, o escrivão” (1853). O personagem, um jovem escrivão, ávido trabalhador, de repente, deixou de sê- lo. Perdeu o interesse, o tesão, a inspiração. Quando era exigido, dizia: “Prefiro não fazer”. Só pelo título já temos a pista do que pode nos contar a obra, reforçada pelo pensamento da epígrafe:

A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever. (Jean  de La Bruyère)

O próprio Herman Melville considerava- se um bartleby, por isso escreveu o conto. Em 1853, com 34 anos e depressivo, concluiu que havia fracassado. O escritor de “Moby Dick” não suportou as críticas (injustas) sobre a sua obra. Morreu em 1891, esquecido.

O personagem começa a escrever um diário no dia 8 de julho de 1999. Exceto pelo trabalho desgraçado, a falta de sorte com as mulheres e a solidão, considera- se um sujeito feliz. Há vinte e cinco anos, ele havia escrito um livro sobre a impossibilidade do amor e nunca mais escreveu nada. Tamanho o trauma, tornou- se um “bartleby”. Ele usa o termo como adjetivo. Começou a “caçar” bartlebys, escritores que abandonaram a escrita. Será que ele achou Raduan Nassar? O recente ganhador do prêmio Camões não escreve há trinta anos? Não, o distinguido escritor não é citado na obra de Vila- Matas.

O narrador deixou de escrever por causa do seu pai que o obrigou a escrever  em seu nome, uma dedicatória que ele não queria. Parece um motivo meio bobo, não é? Mas pra ele foi motivo suficiente. Isso foi usado como pretexto para contar as histórias (reais) de escritores da literatura mundial.

E foi assim, que o narrador começou a pesquisar autores que entraram no “labirinto do não”, da não- escrita.  Cita alguns nomes e explica o caso de cada um deles, como o de Robert Walser, o escritor suíço, que ganhou a admiração de Kafka e Musil, ficou deprimido, abandonou a sociedade, isolou- se para escrever. Terminou mal, morreu no Natal de 1956,  perto da clínica psiquiátrica que estava internado, deitado na neve.

Vila- Matas diz sobre “Burtleby e Companhia”, que as pessoas deixam de escrever, porque deixam de existir (vai sem tradução, assim você treina espanhol):

Contrariamente a lo que se cree, no hablo exactamente en este libro de escritores que dejaron de escribir sino de personas que viven y luego dejan de hacerlo.  De fondo, eso sí, el gran enigma de la escritura que parece estar diciéndonos que en la literatura  una voz dice que la vida no tiene sentido, pero su timbre profundo es el eco de ese sentido.*

É mais normal do que se pensa isso de deixar de existir, deixar de viver, ainda estando vivo. E o autor dá exemplo de outros copistas, dos mexicanos Juan Rulfo e Augusto Monterroso, que trabalharam em repartições horríveis e que também se comportaram como bartlebys. Outro bartleby muito famoso: Arthur Rimbaud.

Contou também a história do catalão Felipe Alfau, depois de dois livros publicados, o seu silêncio durou 51 anos. Imigrante nos Estados Unidos, a sua desculpa: estava ocupado aprendendo inglês.

Outros escritores que deixaram o ofício por longos períodos: Salinger, Fernando Pessoa e até Cervantes.

O livro é muito interessante, uma biografia de autores que tiveram condutas parecidas; no entanto, o gênero não concorda com a sua forma, que adapta- se melhor à biografia ou ensaio. Não é um romance. Achei desnecessário usar um personagem para contar o livro, poderia ser a voz do próprio autor. Inclusive em forma de tópicos, um guia de autores bartlebys, muito mais fácil para consultas. O narrador praticamente não aparece. De todas as formas, recomendadíssimo! Para quem ama a literatura é um prato muito bem servido.

O ofício do escritor é um dos mais complicados, porque é mente, emoção, (des)equilíbrio. Tudo isso está no cérebro, esse indomável.

  enrique-vila-matas-bartleby-y-compan%cc%83iaVila- Matas, Enrique. Bartleby y Compañía. Debolsillo, Penguin Randon House, Barcelona, 2016. Páginas: 173

5 de junho: aniversário de 118 anos de Federico García Lorca


Um dos maiores escritores da língua espanhola, Federico García Lorca (Fuentevaqueros, 05/06/1898 – Víznar, 19/08/1936), poeta e dramaturgo, completa hoje 118 anos de nascimento. Formado em Letras e Direito, mudou de Granada para Madri onde conheceu inúmeros intelectuais.

Viajou para Nova York e Cuba, voltou em 1936 para a sua cidade natal, onde foi preso e fuzilado, dizem, pelos seus ideais liberais. 

Lorca era homossexual. A Espanha vivia uma ditadura, os gays não “existiam”. O escritor era um insulto à moral e aos bons costumes, fora seus ideais políticos. Foi eliminado.

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Na foto acima, Lorca aos 18 anos com Salvador Dalí que tinha 24. Eles eram muito mais que amigos, mas comenta- se que não foi um amor consumado. (Será?! Eu acho que foi sim). Tudo indica que Dalí era homossexual, mas nunca assumiu publicamente, então, oficialmente, o romance nunca foi assumido. A foto desprende intimidade, não?

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No livro “Querido Salvador, Querido Lorquito”, do jornalista Víctor Fernández, reúne cartas de Dalí a Lorca com conteúdo apaixonado, beirando o erótico. Ambos tinham relacionamento com outras mulheres para dissimular.

A opção sexual dos artistas influenciou nas suas obras? Sim, por isso comento.

Leia os poemas de García Lorca (em espanhol). E- book grátis!

Deixo a dica de um filme que conta a história dos artistas com protagonista famoso, Robert Pattinson:

Antonio Colinas ganha o Prêmio Rainha Sofía de Poesia Iberoamericana


O Prémio Reina Sofía de Poesia Iberoamericana é o maior prêmio de poesia de língua espanhola, mas que inclui também poetas que escrevem em língua portuguesa, inclusive foram premiados João Cabral, Nuno Júdice e Sophia de Mello.

Esse ano levou o poeta espanhol Antonio Colinas (León, 1946). Além de escrever poesia, ele também é narrador, ensaísta, tradutor e crítico literário. É casado, tem dois filhos e mora em Salamanca.

Quanto à poesia, ele fusiona lugares, experiência, sensações. Estão marcados nos seus versos os lugares que viveu.

Veja a lista de vencedores do Prêmio Rainha Sofia (do El País):

1992 Gonzalo Rojas (Chile)

1993 Claudio Rodríguez (España)

1994 João Cabral de Melo Neto (Brasil)

1995 José Hierro (España)

1996 Ángel González (España)

1997 Álvaro Mutis (Colombia)

1998 José Ángel Valente (España)

1999 Mario Benedetti (Uruguay)

2000 Pere Gimferrer (España)

2001 Nicanor Parra (Chile)

2002 José Antonio Muñoz Rojas (España)

2003 Sophia de Mello Breyner (Portugal)

2004 José Manuel Caballero Bonald (España)

2005 Juan Gelman (Argentina)

2006 Antonio Gamoneda (España)

2007 Blanca Varela (Perú)

2008 Pablo García Baena (España)

2009 José Emilio Pacheco (México)

2010 Francisco Brines (España)

2011 Fina García Marruz (Cuba)

2012 Ernesto Cardenal (Nicaragua)

2013 Nuno Júdice (Portugal)

2014 María Victoria Atencia (España)

2015 Ida Vitale (Uruguay)

2016 Antonio Colinas (España)

Eu conheci Antonio Colinas pessoalmente em 2014. Muito simpático, conversamos sobre literatura, “o que você está esperando para começar a escrever?”- disse. Foi o conselho que trouxe comigo e que preciso executar.

A sua obra é extensa, a última foi “Canciones para una música silente”, o meu livro com dedicatória:

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Um dos seus poemas (primeiro o original, depois a minha livre tradução), p. 218:

XVII

Mejor así: lejos, muy lejos,
pero con las almas
tan cerca.
Los dos inalcanzables
como las laminillas de oro
de las alas de los jilgueros que huyen
del ciprés,
como el monte negro
que no se deja ascender
bajo una tormenta de lobos,
como la estrella distante
que sin embargo es
como una lágrima nuestra.

Mejor así, como hablan
las almas
con las almas,
tan lejos,
tan cerca.

Traduzido não é tão bonito, porque a sonoridade muda. O som e o ritmo no poema são essenciais, mas vamos lá:

XVII

Melhor assim, muito longe,
mas com as almas
tão perto.
Os dois inalcançáveis
como as lâminas de ouro
das asas dos pintassilgos que fogem
do cipreste,
como o monte negro
que não se deixa ascender
baixo uma tempestade de lobos,
como a estrela distante
que no entanto é
como uma lágrima nossa.

Melhor assim, como falam
as almas,
com as almas,
tão longe,
tão perto.

O poeta ganhou 42 mil euros com esse prêmio.  Abaixo, na Feira do Livro de Madri 2014:

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Parabéns, poeta!

25 de setembro, aniversariantes ilustres: Carlos Ruiz Zafón e Valter Hugo Mãe


A literatura contemporânea está bem representada por esses dois escritores, um espanhol e outro angolano: Carlos Ruiz Zafón (Barcelona,1964) e Valter Hugo Mãe (Henrique de Carvalho, 1971), nasceram no mesmo dia.

Carlos Ruiz Zafón

10012599_811092592253672_1841899_nfoto: Facebook do escritor

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O romancista Carlos Ruiz Zafón é um dos escritores espanhóis mais populares hoje no mundo, com traduções nos cinco continentes, premiado, conquistou o respeito da crítica e dos leitores. Campeão de vendas, mas com grande qualidade. Suas obras mais conhecidas “A sombra do vento” e “O jogo do anjo” são presentes para quem ama a boa literatura. Veja toda a sua bibliografia aqui.

Valter Hugo Mãe

10550969_680316412043964_5637800761998822976_n Valter com o nosso querido e saudoso Ariano Suassuna (Facebook do escritor)10609633_689470561128549_5251035529217480711_nValter Hugo Mãe, um dos proeminentes escritores da atualidade. (Facebook do autor)

Valter Hugo Mãe é poeta, romancista, escritor de literatura infantil, cronista, compositor e cantor, e ainda artista plástico. Artista completo. Um dos seus livros mais conhecidos é “O  remorso de baltazar serapião”. Veja toda sua bibliografia aqui.

Dois escritores para colocar na sua lista de leituras. Felicidades aos dois, feliz aniversário, feliz cumpleaños!