PDF grátis: “Paisagens sígnicas: uma reflexão sobre as artes visuais contemporâneas”


Um bom livro que reflete sobre as artes contemporâneas sob várias perspectivas: histórica, semiótica, filosófica, que serve como introdução às artes. Possui uma boa bibliografia para ajudar na sua pesquisa. A publicação é da Universidade Federal da Bahia.

Então segue o PDF grátis de “Paisagens sígnicas: uma reflexão sobre as artes visuais contemporâneas”, da professora Maria Celeste de Almeida Wanner, clica aqui.

O meu em papel:

Boa leitura!

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“A expulsão do diferente”, do filósofo Byung- Chul Han


O filósofo sul-coreano Byung- Chul Han (Seul, 1959), foi um grato descobrimento. O autor fala sobre problemas dos nossos dias e eu acabei fazendo uma reflexão sobre alguns deles. Ele começa dizendo em “La expulsión de lo distinto” (“A expulsão do diferente”), que “o corpo social” está doente.

A padronização de condutas e comportamentos está orquestrada para eliminar os diferentes, porque o diferente não convém ao sistema. A proliferação do igual está provocando patologias, porque a essência humana é heterogênea.

A doença social é gerada por um excesso de informação e um excesso de permissividade, curiosamente.  Mas não é o que vem de fora o nosso principal algoz. Segundo o autor, não é a proibição ou a repressão o motivo da depressão nos tempos atuais: a pressão não vem do outro, vem do interior. Ou seja, o pior inimigo do sujeito é ele próprio:

A depressão como pressão interna desenvolve traços autoagressivos. O sujeito que, sentindo- se obrigado a mostrar rendimento, torna- se depressivo em certa maneira e se mói a pauladas ou se asfixia a si mesmo. (p.10)

Vou mostrar algo mais prático: existe uma expressão em inglês para o fato de assistir séries sem parar, “binge watching”. É o consumo de vídeos e filmes sem limite temporal. Há pessoas que assistem uma série inteira em um fim de semana. É como se a pessoa entrasse “em coma”, segundo o filósofo. A pessoa fica indefesa.  Isso é o “excesso do igual”. Todo mundo faz, parece legal, então você faz também.

Outro exemplo que o autor dá: as viagens. A maioria das pessoas viaja só para subir fotos nas redes sociais e para contabilizar países visitados. É como se viajasse sem viajar, porque a maioria não adquire nenhum conhecimento.

E ele fala das redes sociais, que é o meio mais anti- social que existe. Engraçado que eu comentei recentemente exatamente este fato com três amigas. O autor diz que “os meios sociais representam um grau nulo do social”.

No Brasil, poucos se expõem no Facebook, por exemplo, por medo de serem julgadas, por medo de que algo dito seja usado contra elas, por medo de serem prejudicadas profissionalmente, por medo de discussões…resumindo: por medo. Por medo de serem quem são e desagradar. “O que eu ganho com isso?!”, ainda que percam a si mesmos, porque agradar o outro é mais importante. É um padrão comportamental nas redes e na vida. Há algo de superstição também, pode “dar azar” ou atrair inveja, olho gordo, essas coisas. Negar o diferente é essencial. Fazer parte da corrente e encaixar é o que importa, ainda que o pé seja 38 e o sapato um 35.

As pessoas se reprimem e ficam doentes. A expressão é uma das funções básicas e primárias do ser humano. Ser humano baú fica pesado e sufocado. O que o outro pensa importa tanto assim? Claro. A aprovação alheia, a popularidade, o sentir- se querido, a imagem projetada, ainda que irreal (e surreal muitas vezes) é o que motiva as pessoas à padronização. Essas pessoas negam o diferente, e a essência disto é a dor (leia na página 12).

Vivemos na era da contradição. Com tanta informação e redes sociais, mas estamos cada vez mais mudos e sozinhos. Falar virou tabu. O silêncio está sobrevalorizado.

A qualidade da informação que nos é fornecida também é questionada pelo autor. Não há causa e efeito, “é assim e pronto”. As pessoas estão saturadas, nem se dão o trabalho de averiguar a causa e efeito das coisas, por isso é tão fácil eleger um presidente inepto através de redes sociais, porque os algoritmos estão feitos para encontrar pessoas que pensam igual, com os mesmos interesses, uma espécie de auto- doutrinação, já que só chega até a pessoa “notícias” que lhes são afins, como se fossem verdades únicas e incontestáveis. Os macro- dados correlacionam tudo e fazem supérfluo o pensamento.

Eu amo a Filosofia, porque é o ramo que melhor nos explica.

O pensamento tem acesso ao completamente diferente. Pode interromper o igual (p.13).

Por isso, pense, por favor. Não seja só leitor de manchetes. Abra os links, leia a notícia, preste atenção no autor, para quem ele trabalha e na intencionalidade do texto. Observe o outro e o porquê dele pensar como pensa. Se forem pensamentos destrutivos a si mesmo e aos demais, só a palavra pode salvar. A omissão vem destruindo e matando. Nós podemos romper essa cadeia de pensamento vicioso, circular, destrutivo, de que o outro é inimigo. Não é. Essa semente do mal foi plantada e vem sendo cultivada para dividir. O outro é projeção do que você tem dentro.

O autor cita Heiddeger, o filósofo alemão, que diria hoje sobre esse barulho todo das redes sociais, que “nos converte em surdos diante da verdade e para o seu silencioso poder violento (p.14). Surdos e mudos, digo eu.

Ele fala do hiperconsumo, da hipercomunicação, da hipervisibilidade, da hiperprodução do corpo como objeto funcional e culpa o neoliberalismo, as pessoas têm que render, são só números para este sistema econômico feito para hiperfaturar.

Esse universo neoliberal, que pode ser um pesadelo, foi retratado no filme “Anomalisa”, dica do autor. O neoliberalismo padroniza, nos quer transformar a todos em iguais. O protagonista, Michael Stone, dá palestras de motivação empresarial com muito sucesso, escreveu um livro, mas deprime- se, deixa de ver sentido em tudo. Ele ouve vozes iguais e rostos iguais. Não consegue distinguir adultos de crianças. É como se fosse uma sociedade de clones. Ele viaja para uma palestra e encontra uma mulher diferente, Lisa. Ele é a única que tem a voz diferente, considera- se feia, está acima do peso e tem uma cicatriz no rosto. Está fora dos padrões. Ele apaixona- se por ela. É a única diferente. Esse filme é interessantíssimo. Em japonês, “anomalisa” significa a “deusa do céu”. Ela, que parecia “anormal”, foi a salvação do palestrante, que antes era um fantoche controlado à distância.

Creio que se não formos nós mesmos, seja na vida diária ou nas redes sociais, não somos nada. Quando deixamos de pensar e de nos expressar por medo do que pensem sobre nós e para atender os esquemas pré- determinados, que beneficiam só aos próprios, estamos mortos e enterrados em vida. Perfeito para o poder: uma legião de zumbis.

O filósofo aponta coisas interessantíssimas sobre as consequências negativas que o neoliberalismo provoca nas pessoas. Esse sistema incita a que as pessoas sejam autênticas e criativas. A princípio isso parece muito bom, não é? E deveria ser, mas o que fazem com isso é que é ruim. Nos “ensinam” que devemos ser criativos, inovadores, empreendedores, sermos livres dos esquemas e criarmos a nós mesmos.

Você estudou, virou adulto, e só pensa em si, no seu umbigo, questionando- se e vigiando- se o tempo todo, tornou- se um narcisista, nunca foi programado para pensar na coletividade. Isso é que o neoliberalismo no Brasil fez com gerações e gerações: obrigou que cada brasileiro fosse produtor de si mesmo. Isso gerou uma pressão interior tremenda e as patologias psicológicas que meio Brasil sente. “Eu sou mercadoria, sou autêntico, preparado, e se ninguém me compra? Não valho nada!”.

Entendeu?

Para entender mais, porque tem MUITO mais, leia esta brilhante obra. O autor correlaciona padrões sociais super- destrutivos dissimulados no tecido social e que explicam comportamentos suicidas, depressivos e terroristas.

Não se engane: nada é por acaso. Tudo, absolutamente tudo na vida, é causa e efeito.

 

 

Esta foi a edição lida

Você sabe qual foi a primeira gramática da língua portuguesa? (PDF grátis!)


Para os amantes “da última flor do Lácio”, deixo aqui o PDF da primeira gramática da língua portuguesa, uma joia escrita há 482 anos por Fernão de Oliveira (1507-1581), nascido em Aveiro, terra dos meus ancestrais. Viveu muito para o padrão da época e ainda mais com uma vida tão aventureira. Sobre o local da sua morte há incertezas. Pode ter sido em Aveiro, Lisboa ou na França.

O aveirense foi “gramático, historiador, cartógrafo, piloto e teórico de guerra e de construção naval”, Fernão foi clérigo, espião, soldado, diplomata, revisor/corretor e professor de retórica na Universidade de Coimbra. Morou na Espanha, Itália, França, Inglaterra e na África. Foi acusado pela Santa Inquisição portuguesa por heresia várias vezes e preso por isso. Uma figura interessantíssima, que teve uma vida agitada e nada convencional. Veja mais detalhes.

E Fernão ainda teve tempo para escrever! Escreveu não só a primeira gramática da nossa língua, Grammatica da lingoagem portuguesa”, também livros náuticos muito importantes.

E já que estamos falando em gramática, quero comentar uma curiosidade: historicamente, o nosso idioma foi classificado em “português antigo” (até o séc. XIV), “português médio” (durante o séc. XV), “português clássico” (meados do séc. XVIII) e “português moderno” do séc. XVIII até hoje. Um aspecto interessante sobre a nossa língua oral é que as vogais no português brasileiro e africano soam muito mais parecidas com o português antigo, médio e clássico, que o português de Portugal. Curioso, não? * 

Eu fiquei emocionada “folheando” a  “Grammatica da lingoagem portuguesa”, dá para entender tudo o que ele escreveu há quase 500 anos, mesmo com muitas direferenças ortográficas. O idioma tinha algumas semelhanças com o espanhol e achei curioso que naquele tempo ele colocou a cedilha no “c” antes de e:

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Quem é professor de português sabe que um erro recorrente é a cedilha antes de “e” e “i”. Tá vendo? Deve ter ficado no DNA… 🙂

Vale muito a pena ter esse exemplar na sua biblioteca virtual pelo imenso valor histórico e o prazer de dar essa volta no tempo. Clica aqui.

*Gramática da língua portuguesa, vários autores, (nove!), da Editora Caminho, Portugal, 2004.

Era bruxa Clarice Lispector?


Um livro curioso me chamou bastante atenção e quero compartilhar com vocês: O segredo de Clarice Lispector, de Marcus Deminco.

Sinopse:

A verdade sobre Clarice Lispector que ninguém jamais contou.

Mas afinal, por que a autora era conhecida como A Grande Bruxa da Literatura Brasileira? Que espécie de vínculo Clarice teria estabelecido com o universo mágico da feitiçaria? Por que seu próprio amigo Otto Lara Resende advertia aos leitores para tomarem cuidado com Clarice, afirmando não se tratar apenas de literatura, mas de bruxaria? “O 7 era meu número secreto e cabalístico. Há 7 notas com as quais podem ser compostas todas as músicas que existem e que existirão, e há uma recorrência de adições teosóficas que podem ser somados para revelar uma quantia mágica […] Eu vos afianço que 1978 será o verdadeiro ano cabalístico. Portanto, mandei lustrar os instantes do tempo, rebrilhar as estrelas, lavar a lua com leite, e o sol com ouro líquido. Cada ano que se inicia, começo eu a viver outra vida”. E apesar de ter morrido algumas semanas antes de iniciar o então ano cabalístico, decerto todos esses seus hábitos ritualísticos, esclareçam porque Clarice teria aceitado com presteza e entusiasmo o inusitado convite do ocultista colombiano Bruxo Simón, para participar como palestrante do 1º Congresso Mundial de Bruxaria.


Para quem quer conhecer o lado místico da autora, parece que esse livro (apesar do tom sensacionalista) pode ajudar.

Você pode comprar baratinho, com desconto, aqui no Falando em Literatura (EUR 4,21, cerca de 16 reais), “O segredo de Clarice Lispector”, de qualquer lugar do mundo, já que está em formato digital. Você pode ler através do Kindle, iBooks ou qualquer e-reader, no celular, tablet, computador ou iPad. É só clicar no link abaixo:

O Segredo de Clarice Lispector (Portuguese Edition)

Depois me diz o que achou. Boa leitura!

Os Natais de Fernando Pessoa


A ceia de Natal em Portugal chama- se “consoada”, de “consolar”. O prato principal, normalmente, é o bacalhau com ovos e couves regado com muito azeite de oliva. De sobremesa, o bolo rei e as rabanadas.

Apesar dessa data ser feliz para muita gente por causa das reuniões familiares, dos comes e bebes, além da troca de presentes, outros tantos consideram a data triste.

Deixo alguns poemas de Fernando Pessoa sobre o Natal. Curiosa a visão nostálgica e pessimista do autor sobre esta data. Definitivamente, não parecia ser a preferida de Pessoa, veja:

Natal na Província

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Natal

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Natal

Nasce um deus. Outros morrem.
A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Espero que o seu Natal seja bem mais feliz do que foram para a voz poética do poema (que pode ser o alter ego de Fernando).

Curso prático de português de Portugal


Nasci no Brasil, mas também com a nacionalidade portuguesa por ser filha do meu pai. No entanto, só recentemente, fui fazer o passaporte luso. Aquele negócio brasileiro de deixar tudo para última hora.

Vamos ao passaporte. Você pode fazer a marcação pela Internet no agendamento online. Tinha lá a opção “levantamento de passaporte eletrônico”. “Deve ser essa”, cliquei e marquei o dia. E no dia marcado, é só o requerente apresentar o Bilhete de Identidade ou o Cartão do Cidadão para que consultem a respetiva base de dados.

Lá vou eu de Madri até Lisboa levantar meu passaporte. Estacionei fácil na frente da conservatória e achei estranho. Conseguir lugar assim de primeira, no Chiado, bairro histórico…hum, algo errado. Fui olhar e tinha uma placa: “Zona condicionada- dístico de residente”. Ou seja, o lado que eu estava só podiam estacionar residentes. Tudo bem, estacionei a viatura no parking subterrâneo na mesma rua.

Cheguei muito antes no Instituto de Registos e Notariado da rua Nova Almada, pertinho da livraria Ferin , a segunda mais antiga de Lisboa. Decidi tomar uma meia de leite até a hora do levantamento.

As confeitarias portuguesas, já sabem, são uma perdição, difícil escolher entre tantas opções deliciosas: pastéis de nata, tortas de azeitão, queijadas, guardanapos, bolas de Berlim. Acabei pedindo um croissant, que em Portugal é feito com massa de brioche, meu favorito. Fiquei com vontade de comer umas tripas e uns ovos moles, mas decidi deixar esses doces para depois, em Aveiro, na terra da minha avó e bisavós, na belíssima Sever do Vouga. Ah, sem esquecer das bolachas americanas, que também são deliciosas.

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A rapariga do caixa perguntou-me se eu queria “contribuinte”. Eles sempre perguntam isso em todas as compras. É para saber se a pessoa quer fatura. Ticket e fatura são coisas diferentes. Pedindo a fatura a pessoa pode descontar o IVA, um imposto sobre as mercadorias, que pode ser abatido depois no imposto de renda.  Eu disse que não e segui para a conservatória.

Esperei um pouco e logo chamaram-me pelo nome. Lembram do agendamento? E do “levantamento”? Pois é. A portuguesa de primeira viagem pediu para recolher, buscar o passaporte e não para fazer o documento. A senhora do guichê, muito amavelmente, fez o meu passaporte da mesma forma.

Vejam só, caros amigos, não basta ser portuguesa, há que se fazer um curso. Nosso vasto idioma e seus muito falares.

PDF grátis : “O livro do desassossego”, de Fernando Pessoa


“O livro do desassossego” , do lisboeta Fernando Pessoa (1888- 1935) é uma das obras mais fascinantes da nossa língua portuguesa. Pessoa utilizou um heterônimo, Bernardo Soares, para assinar a obra. Pessoa era tão rico, vasto e intenso, que um só era pouco, teve que criar personagens para poder expressar toda a sua arte.

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A obra é uma espécie de diário, pensamentos, reflexões, tudo muito profundo, existencial. Talvez seja o livro que mais tenha mostrado o escritor pessoalmente.  Inclusive, Bernardo trabalha num escritório na Baixa de Lisboa,  onde Fernando também trabalhava. Há uma série de similitudes do personagem com o autor, o que nos faz pensar que é um ortônimo, ou seja, ele mesmo. Podemos sentir toda a sua solidão, temores, o que ele achava da vida, da morte, do amor e vários outros temas sobre o homem e a sua existência. Uma alma realmente intranquila, desassossegada, angustiada e, por vezes, pessimista (ele diz que é triste). No prólogo da edição de referência que deixo no final do post, conta que Bernardo é a máscara que Fernando utilizou para fazer confissões pessoais. A visão que Fernando tinha de si mesmo era dura, parece que não era feliz mesmo, mas… como ser feliz sabendo e sentindo tanto?! A felicidade é só para os inocentes e/ou ignorantes.

Fernando escreveu um prefácio dizendo que passou a observar Bernardo, um homem que frequentava o mesmo restaurante que ele. Descreveu suas impressões sobre o rapaz (p.8):

Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo,
curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido
com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem
interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era
difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava — parecia indicar
vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que
provém de ter sofrido muito

É um livro póstumo. Reuniram textos dispersos encontrados no espólio do autor e o livro foi publicado quase cinquenta anos depois da morte de Pessoa.

O livro inteiro é destacável. Esse é para ter na cabeceira, vale a pena ler e reler. Separei algumas frases que gosto:

“Tudo me interessa e nada me prende.”

“Tenho fome da extensão do tempo e quero ser eu sem condições.”

“Há em olhos humanos, ainda que litográficos, uma coisa terrível: o aviso inevitável da consciência, o grito clandestino de haver alma.”

“Não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.”

“Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa- não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas para aquele respeito alheio a nós mesmos, a que propriamente chamamos de asseio.”

“A solidão desola- me; a companhia oprime- me. A presença de outra pessoa descaminha- me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distração especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.”

” Cada um tem a sua vaidade, e a minha vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas…”

“Nunca vou para onde há risco. Tenho medo a tédio dos perigos.”

“Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não posso lhe tocar.”

“A minha vida é como se me batessem com ela.”

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!”

“A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar.”

“A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”.

“Somos todos míopes, exceto para dentro. Só o sonho se vê com o olhar.”

“Eu não sou pessimista, sou triste.”

“Omnia fui, nihil expedit- fui tudo, nada vale a pena.”


O livro já é de domínio público e pode ser encontrado facilmente na Internet (Domínio Público, iBooks…). Vou deixar uma edição para quem quiser fazer o download. É um PDF que está correto e a capa é bem bonita, uma foto de da extensão do tempoFernando no Chiado, bairro no centro de Lisboa que o autor costumava frequentar. Clica no link:

Livro do Desassossego-Fernando Pessoa- www.falandoemliteratura.com

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