O nicaraguense Sergio Ramirez ganha importante prêmio literário na Espanha


Qual a primeira coisa que você lembra quando ouve “Nicarágua”? Guerra, fome, violência? Creio que para a maioria das pessoas, sim, infelizmente. A América Central, talvez, seja a mais complicada e desconhecida das Américas. Composta por sete países: a citada Nicarágua, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá, El Salvador e Belice, países com belezas naturais exuberantes, praias paradisíacas, mas governados por políticos inescrupulosos, muitas vezes, com falta de democracia e liberdade; também há guerrilhas e guerras civis. Ramirez foi vice- presidente da Nicarágua e lutou contra a ditadura no seu país. É um tema muito amplo e complicado, voltemos ao literário.

O escritor e político Sergio Ramirez (Masaya, 05/08/1942), ganhou ontem o prêmio Cervantes na Espanha, considerado o Nobel das letras hispanas, é um prêmio muito importante  (125 mil euros, além do prestígio) e Ramirez foi o primeiro escritor, não só do seu país, mas da América Central a ganhar o Cervantes.

O escritor Sergio Ramirez

O escritor Sérgio Ramirez (Facebook)

Ramirez é prosista e tem uma obra prolixa, veja aqui a sua bibliografia completa.  O jurado considerou que o autor tem a capacidade de “transformar a realidade em obra- de- arte”.

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Sérgio Ramirez em sua casa em Manágua, ontem (El País)

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Sergio Ramirez e Nélida Piñón (sentada). A foto está no Facebook da autora, que está na Espanha agora: “Nélida Piñon, em Madrid, está exultante. Seu amigo, escritor nicaraguense, Sérgio Ramirez é o vencedor do Prêmio Cervantes de 2017, considerado o Nobel das letras castellanas. Em 2015, Sérgio Ramirez dedicou seu livro Sara à Nélida Piñon.

Seu último livro, “Ya nadie llora por mí” (“Já ninguém chora por mim”) foi lançado o mês passado. Mais um autor para a lista!

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Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1


“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.

 

 

PDF grátis: “O Zen e a Arte da Escrita”, de Ray Bradbury


Esta semana será dedicada ao escritor americano Ray Bradbury.

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Ray Bradbury, autor de “Crônicas marcianas”.

Se você não leu o post de ontem: “Onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos”, dá uma olhada, vale a pena!

E vocês, leitores fiéis do Falando em Literatura, merecem um presentinho: PDF totalmente gratuito do livro “O Zen e a Arte da Escrita”, que reúne onze ensaios de Bradbury, onde o autor fala sobre o prazer de escrever. Ele desfruta do seu ofício e explica como e porquê. Clique no link abaixo e salve o arquivo no seu computador:

O Zen e a Arte da Escrita – Ray Bradbury

Ah, dê uma olhada na lista de e-books já postados aqui no blog para ver se algum te interessa.

Enjoy!

 

Dez livros que você deve ler antes de morrer


Para os amantes da literatura (ou não), recomendo esses dez grandes livros da nossa literatura brasileira, essenciais na biblioteca de todo bom leitor, veja quantos leu dessa lista, se tiraria ou acrescentaria algum deles:

  1. “Dom Casmurro”, de Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) foi o melhor escritor que o Brasil teve de todos os tempos. Recomendo a leitura de toda a sua obra, mas escolhi “Dom Casmurro” pela intriga, pela dúvida e mistério que Machado cria em torno dos personagens Capitu e Bentinho. Será que a esposa traiu o marido? Uma obra imperdível!

  1. “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa.

É uma saga sertaneja que impressiona pela inovação e riqueza da linguagem. Guimarães Rosa (1908- 1967) foi um escritor único, inimitável, muito original, que vai te deixar impressionado ou impressionada. É uma obra muito, muito complexa, que irá te fazer pensar em muitas coisas da vida. Garanto!

  1. “Essa Terra”, de Antônio Torres.

Uma obra emocionante, que certamente irá tocar o seu coração imigrante. Antônio Torres (1940) conta a história de uma família baiana humilde do interior. Um dos filhos vai para São Paulo, como é o destino de muitos nordestinos. Uma narrativa composta de tragédia, comédia, drama, que chacoalha sentimentos.

  1. “A hora da estrela”, de Clarice Lispector.

O último livro de Clarice Lispector (1920- 1977), “A Hora da estrela”, conta a triste vida de Macabéa, uma nordestina na grande cidade. A moça vive e come mal, é maltratada pelo namorado e pelo chefe, traída pela amiga, mas consegue manter a ingenuidade e a esperança. É de uma beleza e sensibilidade comoventes!

  1. “A república dos sonhos”, de Nélida Piñón.

Nélida Piñón (1937) é a melhor escritora brasileira de todos os tempos! Você pode comprovar lendo “A república dos sonhos”, um trabalho fino de arte literária. Os pais da autora eram espanhóis e Nélida tem uma relaçao íntima com a Espanha, fato refletido nessa obra. Esse romance conta a história de imigrantes galegos no Brasil. Vale a pena!

  1. “Compêndio para uso de pássaros- Poesia reunida de 1937- 2004”, de Manoel de Barros.

Esse é uma obra para ficar na sua cabeceira (e no seu coração) para sempre! Manoel de Barros (1916- 2014), poeta, escreveu a vida e a natureza com uma beleza infinita!

  1. “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.

Uma obra feita para o teatro, uma comédia, de Ariano Suassuna (1927- 2014). Os personagens João Grilo e Chicó são hilários e inesquecíveis, não deixe de ler!

  1. “Vidas secas”, de Graciliano Ramos.

Essa obra- prima de Graciliano Ramos (1892- 1953) é bastante marcante e forte. Conta o drama de uma família retirante nordestina e as agruras da terra seca, a luta pela sobrevivência. Os personagens mal falam, soltam sons guturais, e com isso, expressam muito. A cachorra Baleia é uma grande protagonista, quase humana. Ou são os humanos que estão à beira da desumanização devido ao sofrimento? Grande livro!

  1. “O sentimento do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.

Você tem que ler toda a obra de Drummond (1902- 1987), esse é um autor essencial. Sua obra poética é rica e bela. O autor era jornalista e escrevia crônicas também. Seus versos são de arrepiar!

  1. “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles

A grande escritora brasileira, Lygia Fagundes (1923), conta no seu primeiro romance “Ciranda de Pedra”, um drama familiar. É um romance psicológico que nos faz refletir sobre a nossa própria vida.

Publicado originalmente na Revista BrazilcomZ (Espanha), abril/2016, Fernanda Sampaio.

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Portrait of diligent pupil sitting on pile of books and looking at camera

Resenha II: Dom Quixote de La Mancha


A resenha era pra ser do capítulo I ao X, mas a edição de uma revista na Espanha arrebatou totalmente o meu tempo. Fica aqui um pouco da bio de Cervantes e a resenha até o capítulo II.

Um pouco da biografia de Miguel de Cervantes. 

Nascido em na cidade de Alcalá de Henares, na Comunidade de Madri, Espanha, provavelmente no dia 29 de setembro de 1547 (dia de São Miguel, por isso seu nome) Miguel de Cervantes Saavedra, filho de Rodrigo Cervantes, um “zurujano sangrador”, que era uma mistura entre médico e barbeiro, e filho de Leonor de Cortinas. O casal teve sete filhos, três meninas e quatro meninos, Miguel foi o quarto. Ele nasceu em casa, onde hoje funciona seu museu. Morou pouco tempo em Alcalá de Henares, a família mudou- se para Valladolid quando Miguel tinha 4 anos. A família alugou uma casa na rua Rastro (hoje funciona um museu de Cervantes), mas durou pouco também, apenas dois anos. Voltaram para Alcalá de Henares outra vez. Depois disso Cervantes mudou para Córdoba, Sevilha, Toledo e Madri, durante sua vida adulta não parou muito tempo em nenhum lugar. Os estudiosos dizem que seu pai fugia dos cobradores. Cervantes voltou adulto para Valladolid e foi nessa cidade que escreveu o prólogo de “Dom Quixote”, leia aqui a resenha.

No ano passado, historiadores, arqueólogos e geofísicos afirmaram (ainda que não seja possível afirmar 100%, já que o DNA está deteriorado depois de 400 anos) que os restos mortais de Cervantes estão na igreja das Trinitárias, em Madri. Aqui na Espanha, o evento foi transmitido ao vivo na TV, um grande rebuliço, cientistas e pesquisadores dando seus pareceres favoráveis ao achado. Então, até que provem o contrário, Miguel de Cervantes é meu vizinho, jaz na cidade de Madri junto a sua esposa Catalina Salazar Vozmediano. Não tiveram filhos. Cervantes, aos 37 anos, era apaixonado por Ana Franca de Rojas (uma mulher casada), com quem teve sua única filha, Isabel de Saavedra. Cervantes não acabou com o seu grande amor, ele estava comprometido com Catalina e Ana morreu cedo. Nas próximas resenhas irei contando mais.

Continuando a leitura de “Dom Quixote”.

O livro é dividido em duas partes, a primeira com 52 capítulos. E para introduzir a segunda parte, acontecem de novo todos os protocolos do início da primeira, a burocracia, pagamento de taxas, erratas, aprovação e também um novo prólogo, como se fosse um segundo livro.

1ª parte: os capítulos são  introduzidos com um título. O primeiro:

I. Que trata da condição e exercício do famoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha

O célebre início:

Em algum lugar de La Mancha, cujo nome não quero recordar, não faz muito tempo que vivia um fidalgo…(p.27)

A descrição de dom Quixote: 50 anos, magro, rosto fino, gosta de acordar cedo e de caçar. O sobrenome, “dizem”, Quijada ou Quesada.  Tudo indica que dom Quixote (antes Quijada)  tenha existido mesmo, é um personagem real, famoso antes desse livro, que foi sendo reconstruído à base de testemunhas, nem sempre concordantes entre si. Quijada era um grande leitor, tanto, que até esquecia de administrar a sua fazenda e de caçar. Vendeu terras para comprar coleções de livros de cavalaria, gostava do escritor Feliciano de Silva. Desses livros de Feliciano destacou essa frase (p. 29):

La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi corazón enflaquece, que con razón me quejo de vuestra fermosura. 

(Algo assim: “A razão da irracionalidade que faço a minha razão, dessa forma o meu coração  enfraquece, que com razão me queixo de sua beleza.”)

Quijada ia lendo essas coisas e perdendo o juízo. Ele tentava entendê- las, mas nem Aristoteles as entenderia, pensava. Por causa dessas leituras sentia também vontade de escrever. Há muitas referências bibliográficas, autores medievais de romances de cavalaria, caso você queira conhecer esse tipo de literatura fascinante e antiga, como Amadís de Gaula, Palmerín de Inglaterra, Belianís, por exemplo. E uma obra de referência, uma verdadeira enciclopédia sobre o assunto, é o livro de Ríquer, “Os trovadores”, depois mostro em outra ocasião.

Quijada varava as noites lendo, tantas sem dormir, que perdeu o juízo, já não diferenciava a realidade da ficção. E quis viver tudo o que lia nas histórias de cavalaria, decidiu sair pelo mundo. Assim surgiu “dom Quixote”, que saiu pelo mundo com a arma velha dos seus bisavós e com seu cavalo Rocinante, “um nome alto, sonoro e significativo” (p.32). Os fidalgos não recebiam o tratamento de “dom”, mas Quijana ao mudar seu status para “cavaleiro”, ganhou esse direito. Escolhidos o nome do cavalo e o seu próprio, “Quixote”, que é uma parte da armadura que protege a coxa, agora “só faltava encontrar a dama a quem apaixonar- se, porque o cavaleiro andante sem amores era árvore sem folhas e sem fruto e corpo sem alma” (p.33).

A moça escolhida foi uma lavradora chamada Aldonza Lorenzo, que Quixote achou melhor mudar para estar mais a sua altura, decidiu chamá- la”Dulcinea del Toboso”. Toboso fica atualmente na província de Toledo. “(…) nome, a seu parecer, músico e peregrino e significativo, como todos os demais que a ele e suas coisas havia posto”. (p.33)

Capítulo II: Que trata da primeira saída que da sua terra fez o engenhoso dom Quixote:

Os capítulos são curtos, cinco ou seis páginas mais ou menos. Nesse segundo, o narrador conta como o mais novo desbravador da velha Espanha saiu pela primeira vez do seu “pueblo” (povoado).

Uma curiosidade: saber português está ajudando na leitura de Cervantes sem a adaptação ao espanhol atual. Muitas notas explicam o que Cervantes quis dizer, colocam sinônimos, mas a maioria delas para os lusofalantes são desnecessárias (creio eu), pois nos são familiares.

Quixote, armado e vestido, sai montado em Rocinante de madrugada sem comunicar a ninguém sobre a aventura prestes a ser empreendida. Foi quando percebeu que estava cometendo um engano. Os cavaleiros não usavam arma de fogo, só “arma branca” (facas, espadas e afins) e que um digno cavaleiro como os dos romances que lia, usavam mesmo era um escudo e uma espada. . E dessa forma, temos o Dom Quixote vestido e paramentado, como no desenho abaixo:

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Dom Quixote, determinado, ingênuo e sonhador tinha a certeza que no futuro, um sábio escreveria as suas façanhas. O recém- nomeado cavaleiro antecipava os fatos: seu cavalo era famoso sem ser, Dulcinea, sua namorada, sem conhecê- la, o que o narrador classifica de “disparate” (p. 36), considera o recém- cavaleiro um desmiolado.

O narrador conta a história como se Quixote fosse real: “há autores que dizem que a primeira aventura que lhe aconteceu foi a de ‘Puerto Lápice’; outros dizem que foi a dos moinhos de vento.” (p.36)

A edição lida nesse post:

Cervantes, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición Conmemorativa VI centenario Cervantes. Alfaguara, 2015. Páginas: 1249

Crédito da imagem: clica.

Sorteio 10 mil fãs! Dez livros pra vocês!


Lá no nosso Facebook, passamos dos 6700 fãs. Ahhhhh…que pouquinho! Queremos atingir os 10.000, demorou! E quando atingirmos essa meta, vai ter sorteio de 10 super títulos, literatura brasileira, portuguesa, francesa e mais, veja:

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Desculpem a letra desgraçada, deu pra entender? 😀