Onze livros para sorteio!


Na véspera da Páscoa, vamos animar o coreto?! Sorteio de 11 livros, já que só faltam 10 pessoas para atingirmos 11 mil curtidas no Facebook.

Escolhi 11 livros da minha biblioteca para o sorteio:

  1. “O desejo de Kianda”, do angolano Pepetela, comprado em Lisboa.
  2. “Amar se aprende amando”, do brasileiro Mário de Andrade.
  3. “A poesia da notícia”, do brasileiro Thiago David.
  4. “Pedro”, do brasileiro Luis Taques.
  5. “Olhares”, do português Rui Chafes, edição bilingue inglês- português, comprado na Universidade de Coimbra.
  6. “Ensino da língua materna”, da portuguesa Maria José Ferraz, muito bom para professores.
  7. “Navegando”, do brasileiro Rubem Alves.
  8. “Em busca do tempo perdido- Sodoma e Gomorra”, do francês Marcel Proust.
  9. “O alienista”, do insuperável brasileiro Machado de Assis.
  10. “Meio ambiente e formação de professores”, da brasileira Heloísa Dupas Penteado, também excelente para professores.
  11. “Só”, do português Antônio Nobre, também comprado em terras lusas.

Agora, atento(a) para as regras do sorteio:

  1. Curtir a página do Falando em Literatura no Facebook.
  2. Marcar três amigos no post do sorteio (esse) que vai estar no Facebook.
  3. Pode participar gente de qualquer lugar do mundo.
  4. Uma pessoa não pode ganhar dois livros. Ganhando um, automaticamente sairá do sorteio dos demais.

Não é obrigatório, mas seria gentil que compartilhassem o post também.

E atenção! Este sorteio só será realizado se, no mínimo, 50 pessoas marcarem seus amigos lá no Facebook.

Detalhe: os livros já foram lidos por mim, alguns estão como novos, mas há alguns que estão sublinhados e com anotações (antes eu fazia isso, agora não mais).

O sorteio será realizado no dia 15 de maio de 2017.

Anúncios

Resenha: “A casa da paixão”, de Nélida Piñón


Eu me sacrificarei ao sol. Meu corpo está impregnado de musgos, ervas antigas, fizeram mazelas e chá do meu suor, todos da minha casa. (p. 49)

Esse é um trabalho fino de escritura. A obra “A casa da paixão” fala sobre sexualidade e erotismo, mas contada figurativamente (longe da pornografia) e até um certo hermetismo, um livro que faz o leitor pensar e imaginar o que é que o texto quer dizer, é muito metafórico, cheio de imagens poéticas e silêncios. A intimidade contada por imagens escritas, cinematográficas.

As primeiras páginas deixaram- me a impressão de que se tratava de um incesto entre pai e filha, depois vi que não, que era uma moça se masturbando (e o pai fingia que não via). Marta, o seu nome. A mãe faleceu no seu parto. Marta cresceu cuidada pelo pai, que sente uma estranha atração pela filha (quando adulta) e vice- versa.

10351475_1551538731749972_7570446985103865527_n

Nélida Piñón é solteira e sem filhos, uma vida dedicada à literatura (foto: Facebook da autora)

Marta vê o mundo com seu órgão sexual. O dela e o dos outros. Ela vê sexo em tudo e em todas as partes. Freud explicaria com propriedade (eu não!) (p.22):

Pela manhã, Antônia recolhia o leite. Tocava o ubre da vaca como se o amasse, fazia uma espécie de amor naquela carne caída, lembrando a máquina do homem. Marta ruborizava- se com a comparação. Que o modo de Antônia extrair leite mais parecesse uma formosa ejaculação.

A estrutura, o bom trabalho linguístico é incontestável, mas o enredo em si provocou-me aversão em muitos momentos. Essa oba lembrou- me o estilo é de Clarice Lispector, seu livro “A paixão segundo G.H.” foi publicado em 1964, “A casa da paixão” em 1972. Não sei se serviu de inspiração ou influência. Em “G.H” há uma barata, em “A Casa”, há uma galinha ou uma mulher galinha, a criada, descrita quase como um animal imundo e mal cheiroso, mas que ainda assim provoca uma atração na pervertida Marta. Também lembre de Clarice em “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1969.

Nélida colocou Marta observando a velha criada Antônia recolhendo ovos do galinheiro, mais que isso, Antônia queria ser a própria galinha (p.28):

Ela contemplava o feno quente, justamente onde o bicho encostara a parte mais vil do seu corpo, para Marta a mais grata, ardente, a ponto de querer enfiar o dedo pelo mesmo caminho que o ovo conheceu, não para sentir o calor que a coisa fechada e silenciosa conservava, mas reconstruir de algum modo a aprendizagem da galinha, que Antônia talvez esclarecesse o domínio do seu amor. (…)

Antônia agarrava o ovo trazendo- o ao nível do rosto, cheirava a coisa entumecida, recém- abandonada na terra e, além de cheirar, beijou o ovo com sacrifício (…). Sem suportar, no entanto, o amor que desprendia daquela coisa quente, úmida, que uma galinha entre tantas ali manufaturara (…)

Antônia foi escorregando para o centro da terra, onde a galinha também nascia, todos da sua espécie (…) Antônia absorvera e agora vivia em sua pele. Ali ela ficava muito tempo, severa, até que as pernas sobre o feno se escancararam e imitaram uma galinha na postura do ovo.

Esse livro está com o título errado, deveria ser “A casa da perversão”, pois ver erotismo em coisas opostas a isso, é  perversão. Qual o limite do desejo? Existe limite? Existe dentro da nossa cultura ocidental, socialmente; individualmente, na solidão (ou não) já é outra história. Quem pode dizer o contrário?

“A casa da paixão” é considerada por muitos a obra- prima de Nélida Piñón. Não sei, porque ainda me falta muito por ler.

11755926_1650293398541171_2384628400206981503_n

Nélida Piñón na sua casa no Rio de Janeiro com a sua cachorrinha Suzy Piñón (foto: Facebook da autora)

Marta estabelece uma batalha silenciosa com o pai. O provoca sexualmente, fica nua e ele percebe que é de propósito. Que estranho triângulo esse de Marta, o pai e Antônia, que é tratada como bicho. O pai toma uma resolução (p.40):

Quase extinguindo- se a consciência jurou vingar- se. Perdão ainda preciso, resmungava. Recordou o homen da igreja, mão de árvore, ele o julgara então severamente.

–Se é de macho que ela precisa, eu lhe darei.

Entra em cena Jerônimo, trazido pelo pai, futuro pretendente de Marta. Pai e filha não mantém nenhum tipo de contato físico, temem, judiam- se, vingam- se. A filha quer ser livre e o pai tenta contê- la, sem sucesso, ela detesta Jerônimo porque foi o pai que o trouxe. Uma moça virgem que só pensa em sexo e se acha a mais desejada de todas, nem o seu pai escapa. Essa parte é  irritante. Tanta malícia pode existir em uma moça jovem e que nunca transou? Parece que sim, ela mesma se autodenomina “selvagem” (p.55).

O corpo nessa obra é o centro do mundo. Marta ama o corpo masculino como objeto de prazer, nada mais, pois detesta o que pensam, o que são (p.53):

(…) Odeio os homens desta terra, amo os corpos dos homens desta terra, cada membro que eles possuem e me mostram, para que eu me abra em esplendor, mas só me terão quando eu ordenar.

Há uma reiteração das palavras “sol”, “virgem” e “nudez”, que vão e voltam, vão e voltam, insistentemente, entre o “abrir de pernas”, que mudam de ordem na sentença, mas dizem sempre a mesma coisa. O narrador- personagem, a 1ª pessoa fez o personagem soar com muita prepotência. Marta cai antipática, com um excesso de confiança para a sua condição (a inexperiência e a juventude), pensamentos laboriosos demais (que soam estranhos), que beiram à inverosimilhança. O ritual prévio ao acasalamento é quase o livro inteiro.

Que acontecerá com o casal Jerônimo e Marta? E Antônia e o pai? Já contei demais, agora é contigo!


Nélida Piñón é carioca, descendente de espanhóis da Galiza. Possivelmente, a escritora brasileira mais premiada e internacional que o Brasil tem. Foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. Aqui na Espanha, toda (ou quase toda) a sua obra está traduzida ao espanhol.

Essa é a edição portuguesa lida. O romance é curto, pouco mais de 100 páginas, nessa edição tem um posfácio de Sônia Régis, escritora de alguns estudos literários, não achei muita coisa sobre ela, nem sua biografia na Internet,  o próprio livro não informa.

12105869_528070260681872_5263911977318743739_n

Piñón, Nélida. A casa da paixão. Bertrand Editores, Lisboa, 2007. 136 páginas

Resenha: “Sagarana”, de João Guimarães Rosa


Esse livro é essencial na biblioteca de todo bom leitor. É simplesmente um LIVRAÇO! Uma celebração à literatura, essa arte maior, que podia ser apreciada por muitos, mas poucos ainda entram para esse mundo mágico. Por isso o Falando em Literatura existe: para puxar a sua orelha. Que tal começar?! Larga aí esse vídeo- game, o celular, sai do Facebook, do Instagram, Snapchat, Twitter, deixa esses best- sellers bobos e pega um livro de verdade! Quando o professor da escola pedir, você já vai ter lido e não vai precisa usar o Mr. Google para fazer um trabalhinho superficial. As resenhas servem como guias, mas você precisa ter a sua própria opinião sobre as obras. #atitudeinteligente

E para os maiorzinhos que estejam procurando uma excelente leitura: anotem esse.

O doutor João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27/06/1908 – Río de Janeiro, 19/11/1967) foi um dos grandes, um escritor sui generis, único, difícil de aparecer outro similar. Atordoou e atordoa ainda com a sua genial literatura, dá “coisa” por dentro (será Síndrome de Stendhal?). A escritura de Rosa contem elementos raros na literatura: originalidade, criatividade e inovação, desses, quem sabe, o primeiro seja o mais difícil.

guimaraesrosa

João Guimarães Rosa era estiloso, sempre com essa gravata borboleta

No âmbito familiar, Rosa foi casado duas vezes, a primeira com Lygia (de apenas 16 anos), tiveram duas filhas, Vilma e Agnes. Vilma, a mais velha,  diz que era muito carinhoso, brincalhão e atencioso com as filhas.

Também foi casado com uma mulher incrível, Aracy Rosa, que conheceu quando foi vice-cônsul em Hamburgo (Alemanha) entre 1938-1942. Ambos ajudaram alguns judeus a escaparem da morte certa. Aracy é considerada uma heroína contra o antissemitismo.

Para entender um pouco como é a escritura de Guimarães Rosa: ele era um cara super culto, diplomata, médico, um poliglota, erudito, aprendeu muitos idiomas sozinho, um autodidata. Ele misturou essa erudição, seu conhecimento amplo de vários idiomas, usou isso tudo misturado com o português oral, reproduziu o falar do sertanejo, arquitetou enredos fantásticos e foi assim que produziu a magia. O que Rosa conseguiu foi espetacular, o colocou no patamar dos clássicos, dos imortais.

Existe um dicionário do léxico de Rosa, de Nilce Sant’Anna Martins, para ajudar a entender muitos vocábulos da obra, mas notei que o conhecimento de outros idiomas ajuda na compreensão do texto, por exemplo, “volva” ( do verbo “volver”, “voltar”, p.16), que consta no nosso dicionário, mas pouco usado no Brasil,  é muito utilizado em espanhol; portanto, um outro idioma ajuda na compreensão da nossa própria língua materna. Estudem idiomas, o nosso em primeiro lugar.

Segundo Vilma Rosa nessa entrevista, seu pai nunca havia estado no sertão quando escreveu seus primeiros livros. Quem o ajudava com dicas era o pai do autor. Ou seja, ele reproduziu o sertão mineiro sem nunca ter estado. A imaginação é a solução. Eu não acho que para escrever seja necessário viajar (viajar enriquece muito, mas para a literatura, seu instrumento é a imaginação e a memória, a criatividade e a capacidade de criação). Ainda segundo Vilma, os personagens dessa obra existiram realmente, são antepassados de personalidades da cidade de Itaguara, cidade natal do seu avô que era caçador, coronel, dono de uma venda, vereador e juiz de paz, ou seja, alguém muito importante na época. Rosa teve uma boa fonte de inspiração.

A escritura de Rosa tem o poder de mostrar o desconhecimento que temos sobre o nosso próprio idioma, o leque de opções é imenso, mas a opção, normalmente, é caminho batido. Abrir o dicionário é coisa de sábios. 

“Sagarana” é a junção de duas palavras, um neologismo, “saga”, que é uma palavra envolta em misticismo, pertence à mitologia escandinava, pode ser bruxa ou feiticeira, também o traje do guerreiro, e que usamos normalmente para designar narrativas lendárias ; e  “rana”, que no livro “O léxico de Guimarães Rosa”, de Nilce Martins, diz que é de origem tupi, mas a origem é mais antiga, vem do Latim, “ragire”, uma onomatopeia, não só referente ao coaxar das rãs, mas de outros animais como frangos e tigres (tem onça , sapo- bezerro e sapo em Sagarana, no primeiro conto que abre o livro), também é o nome de uma planta rasteira que cobre lugares pantanosos (veja aqui). O nome do livro e o seu significado dão o tom, condensam bem a essência dessa obra.

O seu único romance é uma obra- prima “O grande sertão: veredas” (leia resenha), mas os contos, não ficam atrás não, Rosa era um contista de primeira grandeza. “Sagarana” (1946) foi a sua primeira obra publicada quando tinha 38 anos, consta de nove contos.

“Sagarana” foi escrito antes do ano de 1938, nesse, ele participou de um concurso de contos, Guima usou o pseudônimo de “Viator” e o livro “Contos”, ficou em segundo lugar. Luis Jardim ficou em primeiro com “Maria Perigosa”, foi um escritor de muita relevância, mas já não é muito citado. Anotado na minha lista.

Vamos pincelar os contos, cada um deles dá uma tese de doutorado, são muitos os aspectos interessantes:

1. O burrinho pedrês

Lendo esse conto de umas 60 páginas, dá vontade de incorporar algumas expressões do “rosês”: “Manhã noiteira” (p.13), não é lindo isso? Aquelas manhãs que custam a clarear. Literatura- arte é isso:  trabalhar a linguagem e tornar o comum muito mais bonito, interessante.

Rosa deu voz, sentimento, coração a um burrinho chamado “Sete-de-ouros”, de estimação,  já está muito velho e quase cego, mas foi convocado para “tocar boiada”, motivo de chacota entre as mulheres da casa. O burrinho é o narrador em alguns momentos. Como ver os homens da perspectiva de um animal?

Major Saulo (o dono da boiada), Sinoca, Zé Grande, Tote, João Manico, Francolim, Benevides, Sebastião dos Lados, Leofredo, Raymundão, Juca Bananeira, Cata-Brasa, Silvino, Badu (Balduíno), Sebastião, que toca o berrante e evoca cantigas sertanejas, iniciando a marcha para trazer a boiada, 460 bois. João Manico vai montado em Sete-de-Ouros, o burrinho. No final do conto, montado por Badu. Ninguém queria montar o burrinho, dava vergonha, ele só era a opção quando não havia escolha.

Os vaqueiros vão contando seus “causos”: “Eu estou quase não creditando mais, Raymundão…”(p.37)

E essa sabedoria mística do homem do sertão (Rosa também acreditava): “(…) A lua não é boa…Ano acabando em seis…” (p.37).

Esse conto narra o difícil trabalho dos boiadeiros que cruzam o gado por rios, sol, chuva, frio, lama, condições adversas, profissão tão sacrificada e pouco reconhecida, ainda muito presente no sertão brasileiro.

–Escuta uma pergunta séria, meu compadre João Manico: você acha que burro é burro?(p.40)

E o touro bravo, assassino, o Calundu, amansado com simpatia e morto por um espírito ruim. E o pretinho chorão com sua cantiga bonita que emocionou os peões , “Aquilo parecia: que a vaqueirada toda virando mulher” (p.64). O menino, parece, lançou um feitiço que botou o gado todo a perder, “Causos” da roça contados com muita graça, apesar de serem trágicos.

O burrinho, que vive de teimoso, entre a “morrência” (essa não está no dicionário formal e nem no de Guimarães Rosa) e a vontade de querer viver, emociona. Sete-de- Ouros no tarot é representada por um jardineiro que está parado observando as suas plantas. Misticamente, significa uma análise do passado e seus resultado no futuro, o que vivemos é o resultado das nossas escolhas.  Esse naipe pode significar doçura, inocência, purificação. O lado negativo é a lentidão, a inatividade, a falência. Como em Guimarães Rosa nada é por acaso, esse nome também não é.

2. Traços biográficos de Lalino Salathiel ou A volta do marido pródigo:

Esse conto também começa com um burrinho. O cenário é rural,  trabalhadores extraem amianto de uma jazida nas terras de “Seo” Remígio. Constroem uma estrada. Brasileiros e espanhóis, negros e brancos, “seo” Marra (“Marrinha”) é o chefe. Os trabalhadores: Pintão, Laio, Lalino (Eulálio de Souza Satãthiel, Laio), Correia, Generoso, Tercino, Sidu, Waldemar, o espanhol Ramiro. Comem em marmitas e as esquentam em um foguinho improvisado. “Lalino trouxe apenas um pão-com-linguiça.”(p.82)

Laio é um sonhador. Ele quer montar uma peça de teatro na roça. “Ou então, seo Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher…Fica até bom…” (p.86)

E o sonhador Laio também quer comprar umas terrinhas e conta tudo o que vai plantar nelas.Quem sonha e luta, pode realizar, independente do ambiente em que se encontre. O sonho modifica tudo. Quem tem a cabeça povoada de bons propósitos, contagia:

–Mulatinho levado! Entendo um assim, por ser divertido. E não é adulador, mais sei que não é covarde. Agrada a gente, porque é alegre e quer ver todo-o-mundo alegre, perto de si. Isso, que remoça. Isso é reger o viver. (p.87)

O capítulo encerra como se fosse tudo tivesse sido uma peça de teatro, isso dá uma remexida, uma reviravolta em tudo o que havia pensado antes. Um parágrafo de duas linhas quebrou o esquema todo, fantástico!

É um conto cheio de referências raciais, de cor. Hoje, quem sabe, Rosa não teria a mesma liberdade de escrever esse conto na era do politicamente correto. Ou sim? Não sei. Os tempos andam estranhos, há gente radical com poder que mistura ficção com realidade, e devia cuidar é da vida (real) para que a literatura não reflita realidades ruins.

Voltando ao conto, eu dei umas boas risadas com esse.

3. Sarapalha

“Sarapalha” é um lugar perto do cenário desse conto.

A história começa em “Tapera do Arraial”, uma povoado no Pará que está abandonado por causa de uma epidemia de malária. O povo debandou com medo da doença que dava uma “tremedeira que não desmontava” (p.127). Mosquito tinhoso, são as fêmeas as portadoras da doença.

Esse conto é uma aula de botânica, da flora e da fauna paraense. Que beleza. A descrição da paisagem é uma aula prática do que deve ser uma excelente descrição. Prestem atenção, meninos e meninas.

Perto de Sarapalha tem uma fazenda com alguns habitantes remanescentes: “uma negra” e “dois homens”, dois velhos, que não são velhos. A preta que passa um bom tempo sem nome e os primos Argemiro e Ribeiro. A empregada é “Ceição”. Os dois estão com malária, o médico deu um ano de vida. Eles vão vivendo entre as lembranças, a esperançada cura e a resignação da morte anunciada. E o sonho, o amor:

(…) Se ela chegasse, até a febre sumia… (p.136).

Ela o abandonou por outro, com ele já doente. Ele era obrigado a matar os dois, mas com a doença não poderia mesmo ficar com ela, então a deixou partir ilesa.

É um dos melhores contos escritos em língua portuguesa! É também uma história de desamor e de um amor impossível.

4. Duelo

Turíbio Todo, nascido em Borrachudo e seleiro de profissão. Um sujeito ruim, “mas no início dessa história ele estava com a razão”. (p.151)

Turíbio foi pescar, voltou antes do tempo e encontrou a sua mulher fisgada, dona Silivana (“a com belos olhos grandes, de cabra tonta”), por um cabo do Exército, Cassiano Gomes de 28 anos. Foi embora em silêncio para matutar uma vingança. Só que a vingança saiu mal executada. Xiiii….esse era o tempo em que vingança era feita com sangue.

O caçador virou o caçado. Só que o caçado, Turíbio, inventou uma estratégia para matar sem matar. Deu certo? Pensa que vou contar é? Leia!

5. Minha gente

José Malvino chega de trem a um arraial para empreender, a cavalo, o resto da viagem até a fazenda do tio Emílio do Nascimento. Ia passando Santana, inspetor escolar, que percorre povoados a trabalho. Decidiram ir juntos para Tucanos, 4 horas de viagem. Santana é viciado em xadrez e leva consigo um tabuleiro e muita literatura sobre o jogo. Os dois, um montado em um cavalo e o outro em um burro, vão jogando xadrez pelo caminho.

O tom e o léxico desse conto é totalmente diferente dos anteriores. É mais erudito, o narrador é Malvino, que é um “capiau” letrado, e Santana, seu interlocutor, fala “corretamente”. A paisagem é rural, mas os homens são sertanejos escolarizados, estudaram, Santana mais que o outro. Malvino sabe dos perigos do mato, do que pode ou não pode fazer ou comer, mas aprendeu o jeito da cidade.

O aprendizado do “capiau” vem da observação da natureza ou de casa, dos pais e mais velhos. Disse o pescador Bento:

– Ai, que mundo triste é este, que a gente está mesmo nele só p’ra mor de errar!…E quando a gente quer concertar*, ainda erra mais…” (p.205, “concertar” com “c” mesmo).

Esse é o conto mais enigmático. Não dá pra prever nada do que vai acontecer. A vida mansa dá uma reviravolta e um acontecimiento inusitado abala a paz da fazenda, mas a história segue ainda cheia de elementos inesperados.

O amor sempre andando e desandando tudo. Esse texto, nas últimas páginas, principalmente, tem um lirismo romântico, trechos de prosa poética, doces.  A vida e o amor, vistos como um jogo de xadrez.

6. São Marcos

É um dos contos que mais gosto, ri muito e li em voz alta. Tente sempre fazer isso, a literatura quando ganha voz acontece uma aura mágica. Começa engraçado, depois fica sério.

O narrador- personagem dessa história é o José (“Zé”) e é uma das mais engraçadas. Fala das superstições do povo da roça, Zé acredita, mas diz não acreditar. Existe uma série de palavras proibidas, porque atraem maus sortilégios e lugares também proibidos, passar depois da meia- noite nem pensar!

Você tem que ler esse conto, o livro todo na verdade, com calma, se pular um trecho faz falta, tudo é essencial.

E se você ficasse cego no meio do mato, sozinho, e não pudesse esquivar- se dos perigos? A causa e a solução? Só lendo! Fantástico!

7. Corpo fechado

Esse conto começa com um fato trágico, mas contado de forma tão engraçada que não dá pra evitar a gargalhada. Rosa era muito brincalhão e divertido (segundo Vilma Rosa) e isso está sim refletido na sua obra. Ele tinha bom humor, um sujeito divertido.

Pra você aí, o sujeito que coça a cabeça… é piolho ou sinal de indecisão? Morro com o Guima! hahaha

Manuel Fulô foi contando sobre os valentões, os que bebiam cachaça, aprontavam, matavam e que morreram de forma trágica, todos castigados, lá no povoado de Laginha, onde mora. Lugar “monótono” (como?!), olha essa sinestesia que engraçada:

–Mas, gente, que é que vocês fazem de noite?

–De noite, a gente lava os pés, come leite e dorme. (p.271)

Mané Fulô também gostava de cachaça, de mulheres, de conversa fiada e de não trabalhar. O narrador- personagem, a voz que trava os diálogos com Fulô é o doutor do povoado. Mané Fulô, dona da égua Beija- Flor ou Beija- Fulô, vivia de aparências, “tira onda” montado na sua mula e diz que é filho do maior comerciante do local. Um trambiqueiro. Trabalhou para os ciganos, que eram mais trambiqueiros que ele, depois quis se vingar. Algumas partes hilárias, ele contratou dois homens e foi até o dentista deles, modificando seus dentes para que se parecessem ciganos, para enganá- los vendendo cavalos ruins. E enganou. Ninguém queria mais fazer negócio com Fulô, pois ele “enganava até cigano”.

Targino, o valentão local, se engraçou com a das Dor, a moça que Fulô estava de casamento marcado. Fulô amarelou, mas usou uma estratégia para vencer o adversário poderoso. Magia!

8. Conversa de bois

Manuel Timborna, das Porteirinhas, afirma que os bichos falam com os humanos. E ele toca a contar “um caso que se deu”. Quem frequenta ou frequentou alguma roça no interior do Brasil, sabe: as rodas de “causos” são bem comuns.

Para os bois, o bicho é o homem:

– O homem é um bicho esmochado, que não devia de haver. Não convém espiar muito para o homem. É o único vulto que faz ficar zonzo, de se olhar muito. é comprido demais, para cima, e cabe todo de uma vez, dentro dos olhos da gente. (p.312)

Eu nunca ouvi um boi falar, mas que eles falam, falam.

9. A hora e a vez de Augusto Matraga

O tom desse conto é um pouco mais sério, com passagens emotivas.

Matraga não é Matraga, não é nada. Matagra é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonso de Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto (…) (p.335)

Casado com dona Dionóra, pai de Mimita de 10 anos. Um homem poderoso, com muitos capangas, anda entre as fazendas e com outras mulheres, não dá atenção à esposa e filha. A esposa teme o marido.

Levaram duas mulheres para serem leiloadas para a igreja. Como?! hahaha…sim. Augusto ficou com a capenga e foi assim que tratou a pobrezinha:

(…) Você tem perna de manuel- fonseca, uma fina e outra seca! E está que é só osso, peixe cozido sem tempero…Capim p’ra mim, com uma assombração dessas!… Vá- se embora, frango- d’água! Some daqui! (p. 339)

Disse o tio de Dionóra:

–Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos…Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio- dia… (p.341)

Ovídio Moura levou embora as duas pra viver com ele e mandou Quim Recadeiro avisar Augusto, que está endividado, prestes à falência e os capangas correram, não quiseram “justiçar” o patrão, foram todos com Major Consilva. Antes de matar Ovídio e Dionóra, ele tem que matar primeiro o Major e os capangas. Mas foi executado pelos mesmos- isto é- foi o que pensaram. Pensa que vou contar o resto? Não! 🙂

-Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria…Cada um tem sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. (p.350)

Esse é um conto que trata de honra, da redenção pelo arrependimento e pela fé.

11402998_619363471499347_2017071032095490125_nRosa, J. Guimarães, Sagarana, Nova Fronteira, 28ª edição. Rio de Janeiro, 1984. 380 páginas

Na verdade, eu já tinha lido essa obra na época de estudante universitária. Quando você pega um livro que leu há muito tempo e relê, você é outra pessoa e o livro também, é como se fosse a primeira vez. Livros como esse são fontes inesgotáveis, sempre há algo novo.

Esse livro exige esforço. E isso é bom. Pela minha experiência, ler livros ruins, “fáceis”, não é melhor do que não ler nada. Literatura ruim não proporciona benefícios, nem mesmo os cognitivos, pois não desafiam o cérebro. Você vai desperdiçar dinheiro e tempo, que é a coisa mais preciosa que temos na nossa vida. Repense suas escolhas! E não venham me dizer o contrário, “que ler qualquer coisa é melhor que não ler nada”, já tem gente demais defendendo isso. A nossa praia aqui do Falando em Literatura é outra. Nossa defesa é em prol da literatura- arte.

Eu não sei, só sei que Guima deve estar feliz, aonde estiver, sentindo as vibrações que provoca a sua literatura nas pessoas. Fazer sorrir, fazer gargalhar em literatura é muito difícil. Passei dias divertidos  e emocionantes lendo esses contos.

“Sagarana” está sempre em movimento, as pessoas sempre de passagem nas suas paisagens sacramentadas, incorruptíveis, perenes. Uma metáfora para a própria vida. O homem, só de passagem, vira história.

Resenha: “Casa de bonecas”, de Henrik Ibsen, baixe a obra grátis


Vamos agilizar nossas leituras? Acumulou tudo, não é? Então vamos, falta pouco para terminar o ano!

tumblr_lsuk49E7Dl1qbuxk3o1_500

Quem ama literatura não vai deixar de se emocionar com esse tesouro: o manuscrito original de “Casa de bonecas” (1879), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (Skien, 20/03/1828 – Oslo, 23/05/1906). Ibsen é o dramaturgo mais importante da Noruega, influenciou o teatro mundial, considerado o “pai do drama realista moderno”.

ibsen

Veja aqui o manuscrito de Ibsen, que era super organizado, caligrafia bonita, muito bom de apreciar (ainda que não saibamos norueguês)!

Vamos à resenha:

“Casa de Bonecas” é uma obra dramática escrita em três atos. Ibsen levou a realidade ao teatro, mostrando o cotidiano de uma família burguesa da época. A estreia dessa peça gerou muita polêmica, muita gente não gostou do espelho diante dos seus olhos. Ibsen foi crítico, corajoso e transgressor levando em conta a época em que foi escrita a obra.

Torvald Helmer, advogado

Nora, sua esposa,

Rank, médico

Senhora Linde

Krogstad, advogado

Os três filhos pequenos de Helmer

Anna- Maria, a babá

Helena, a criada

O Entregador

A ação no primeiro ato acontece na casa de Helmer, confortável, mas sem luxo. Helmer e Nora, casal que passa por problemas econômicos, mas tenta manter as aparências. Ela é uma mulher que vive para a casa e o marido; ele por sua vez, tenta recompensá- la com mimos e presentes. Nora é submissa e serviçal, impregnada no seu papel de dona-de-casa exemplar, sua conduta vai de acordo com a forma que a sociedade acha que deve ser. O marido a mantém confinada, sua vida social é totalmente controlada pelo marido e o dinheiro também. Nora não faz nada que desagrade ao marido, ele é a peça mais importante da família, todos são satélites que giram ao redor do homem, seus desejos são ordens. Acontece que Nora não é tão angelical como pode pensar o seu marido. Ela tem uma vida obscura, mentirosa e até delitiva, já que cometeu estelionato falsificando a assinatura do pai moribundo. Coisa inadmissível ao moralista Helmer Torvald, advogado e diretor de um banco, que inclusive culpa às mães pelos crimes futuros dos filhos. Fala com a mentirosa esposa, sem ter consciência de fato:

Helmer- Como advogado já vi isso muitas vezes, querida. Quase todos os jovens que se voltaram para o crime tiveram mães mentirosas. (p. 44)

A falta de liberdade, a opressão familiar e social geram a hipocrisia, a mentira…assim vivia Nora, mais vítima que carrasca numa sociedade completamente machista, assim encenou o polêmico Ibsen. A trama está centrada nisso, nos bastidores da vida, a verdadeira, o que há por trás das vidas aparentemente perfeitas.

A história continua excelente. Nora se rebela depois de um acontecimento importante. Ela descobre ser uma boneca, um objeto inanimado, primeiro na casa do pai, depois na casa do marido. Decide não brincar mais de casinha e descobre- se pessoa. Esse pensamento é libertador. Transporte o pensamento abaixo para o século XIX, em uma sociedade machista (p. 98):

Helmer– Antes de mais nada você é esposa e mãe.

Nora– Já não creio nisso. Creio que antes de mais nada sou um ser humano, tanto quanto você…ou pelo menos, devo tentar vir a sê- lo. Sei que a maioria lhe dará razão, Torvald, e que essas ideias também estão impressas nos livros. Eu porém já não posso pensar pelo que diz a maioria nem pelo que se imprime nos livros. Prefiro refletir sobre as coisas por mim mesma e tentar compreendê- las.

Em todos os tempos, e ainda hoje, existe imensa quantidade de mulheres que sacrificam- se diariamente muito mais que os homens. Renunciam mais, anulam- se, cumprem seus deveres de mãe, esposa, trabalhadora, dona-de-casa e o machismo impede de compartilhar tudo isso, de dividir o peso com o outro. A união de Torvald e Nora ainda tão corrente…quantos deles ainda entre nós? Quantos casais vivem em uniões de aparência e não em verdadeiros casamentos? Gente que não fala sobre coisas importantes, porque não poderiam suportar o peso das verdades. Casais que preferem levar o cotidiano só na base das superficialidades pelo nome de tudo: religião, filhos, sociedade, comodidade, mas esquecem do amor. Tenho certeza que você conhece algum casal assim, que mal pode conviver, mas por conveniências financeiras e sociais continuam amargando- se juntos. Nora não, Nora foi muito valente. Nora foi embora, deixou casa, marido e filhos. Possivelmente, Ibsen tenha sido o primeiro feminista da história!

Eu gostei muito dessa obra, porque o autor conseguiu ir de menos a mais, a tensão foi subindo, subindo e o final foi um BUM! A casa caiu!

Encene essa obra na sua escola, no centro social do seu bairro, na sua rua. Recomendo!

bonecas

Faça o download do livro “A casa de bonecas” grátis em PORTUGUÊS, em ESPANHOL, ou INGLÊS.