Crítica: O fundo do poço ou a mediocridade do mercado editorial


Por Gerson de Almeida, colaborador

Já queria ter escrito este comentário há mais tempo, hoje ele pode soar deslocado de sua cronologia, mas, se analisarmos o presente e pensarmos no futuro prometido, estará calcado na trilha fulcrada pelos passos que damos agora. Vou escapar do tom amedrontador e escatológico, porém não tem como fugir à face real do drama.

Tinha visto uma reportagem sobre a Bienal do Livro de São Paulo deste ano, que terminou no inicio do mês, a qual sempre quis comparecer pelos mais variados motivos, além da paixão por livros e literatura, e caí num desânimo estarrecedor. Na mesa principal falaria sobre literatura a youtuber Tatiana Feltrin e, em outras, Kéfera e Jout Jout. De início achei que fosse piada, ainda que estas duas últimas falassem ao público adolescente, ou seja: bando de desmiolados – não excluo o fato de que fui adolescente, mas na minha época eu idolatrava Cérebro, o rato mais inteligente do mundo.

Dirão que sou preconceituoso, fico com a resposta-pergunta de mestre Badu: quem não é (e creia: não há ninguém mais preconceituoso do que o não-preconceituoso)? O negócio é reconhecer e impor-se limites, no entanto até as cotias em fuga têm seu instante de perdigueiro, não dá pra se calar o tempo todo. Como, numa bienal que tem lugar na maior capital do país e noticiada no mundo inteiro, tendo nomes como Lygia Fagundes Telles, indicada ao Nobel, que tem Rubem Fonseca ativo, Ignácio de Loyola Brandão em plena atividade, Tatiana Feltrin venha falar de/sobre literatura e, além de ter crédito, o que já é uma catástrofe, venha se impor com autoridade no assunto (o que nos mostra o fundo do poço)? Dirão também que ela fala sobre os clássicos numa linguagem acessível, tá bem. E quando o ouvinte chegar à leitura de fato, não vai se defrontar com o trunco do clássico? Não se deve medir sua dificuldade com a régua alheia, o resultado é…?

Digamos que na leitura de um clássico ela diga que tal história caberia em 150 páginas e que as 600 do original são desperdício, essa afirmação se calca como verdadeira? Deixar que simples atores do Youtube fale da produção artística de um país, e de outros num palco à vista de tantas figuras de peso, deveria ser visto com assombro – e não assistido como progresso das artes e das letras em linguagem rastaquera. É como se em plena final da Copa, tendo Pelé a plenos pulmões, confiássemos os canarinhos a um palhaço cego com pernas de pau.

Vejo vídeos e entrevistas de literatos e teóricos da literatura, estes, embora todo teórico brasileiro tenha queda pela comicidade de Marx (e não é o Groucho), são bem mais interessantes. Os vídeos da Feltrin não chegam nem a serem forçados, são comentários de alguém que se impressiona, ou não, com determinada leitura, e nisso não vai nada de novo ou inusitado. Acontece a qualquer um. Tem um vlogger que é mil e uma vezes mais interessante do que ela, mas não tem apelo, não tem aquela coisa “fofa”, não inspira comentários bonitinhos. Este sim, apesar dos lugares-comuns aos quais ninguém está escapo, faz análises mais contundentes, com profundidade, atado à obra e autor: O Lugar do Livro. Vi alguns vídeos dele e o cara aparece pela obrigação de dar a cara à tapa. Feltrin faz meme o tempo todo e quando se mete a comentar o nível dos originais para a tradução em português é um desastre. Como professora, de sabe-Deus-o-quê, e tradutora não deveria esquecer a máxima: traduttore, traditore.

Quanto a Jout Jout e Kéfera, que dizer? Eis o motivo destas linhas. Come on!

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No único dia em que fui à Feira de Jaraguá vi, na maioria dos estandes, livros destas duas bestas anunciantes do Apocalipse, na estante principal! Não foi o pior: livros lançados pela Cia das Letras. Que porra é essa?! E nesse exato momento tem algum escritor em algum canto sentado com meu grito abafado e sua obra bem-feita engavetada. Já estamos no fundo do poço, tem muita gente aqui e agora querem que bebamos a água. Uma gota para cada e mais da metade morrerá de sede.

Jout Jout é caso diagnosticado de esquisitice+traumas+qualquercoisa, e isso foge à minha pobre alçada. E o adolescente que lê Kéfera, vai produzir o quê, mental e cotidianamente? A resposta tem cinco letras, isso mesmo: merda.

Assim teóricos e literatos de todas as castas e cores, leitores de todos os nichos, chiqueiros, classes, redutos e botequins, escritores consagrados e engavetados – uni-vos! Toda vossa existência depende do passo que dás agora.

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Youtubers: primeira, segunda e geração zero


Comecei a assistir vídeos aleatórios no YouTube e caí em alguns de humor. Do humor passei a ver os “vloggers” (que têm muito de humor também).

Lembrei que via o PC Siqueira antes dele passar para a finada MTV. Ele faz o MasPoxaVida, está (ou estava) meio deprimido, coitado, é difícil administrar a fama sem pirar, muita gente que fica famosa passa por esse tipo de problema, principalmente quando o “boom” passa. Força PC!

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PC e Rafinha, mais conhecido como Arroz de Festa, está em todas.

PC e Rafinha Bastos (que morre de medo de AIDS e é fã da Wanessa Camargo), O Pequeno Nerd e Felipe Neto (que eu nunca achei graça), fazem parte de uma leva de vogglers que viraram celebridades, alguns passaram para a TV, começaram a fazer várias coisas, a ser muito requisitados. Agora são chamados de “a primera geração”, que mistura- se com a segunda geração.

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Castanhari, Japa e Rafinha

A segunda geração, possivelmente, pouco conhecida pela maioria das pessoas com mais de 30 anos, arrasa na Internet com milhares de visualizações. Alguns passaram do Youtube às participações em programas de TV, revistas, lançaram livros, e- commerce, entre outros. Dos que mais gostei, vou citar alguns; normalmente, eles têm um canal profissional e outro pessoal que chamam de “daily vlog”, onde contam seu cotidiano:

Pyong Lee, de São Paulo, descendente de coreanos, faz mágicas, seus vídeos são muito engraçados e criativos. Ele é formado (ou está para se formar) em Direito, antes do Youtube passou pelo SBT, apareceu em programas como o da Eliana. Adorei os vídeos da sua viagem à Coreia. Manda um beijo pra fofa da sua avó, Jaime (ou Jairo?)!

O “Japa” do Rio de Janeiro, que não é dos mais constantes, mas faz vídeos engraçados. Ele é filho do empresário Mauro Morizono (era ou é dono da Davene) casado com a Nani Venâncio, aquela que quase morreu por causa de um AVC. O Japa tem o mesmo nome do pai.

A Kéfera é um fenômeno, ela tem quase 6 milhões de inscritos no seu canal “5incominutos”, já tem livro e peça de teatro.

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Kéfera

O Gustavo Stockler é (ou era, não sei) namorado da Kéfera, ele é dono do canal “No me gusta”. O menino é de Osasco e fotografava shows antes de virar vloggler.

Patrícia dos Reis, era atriz do canal de humor Galo Frito, ficou muito conhecida por causa de um vídeo viral, onde ela tenta entrar em uma calça 34. Paty tem um canal, já escreveu livro também.

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Castanhari e Paty

Paty é a namorada de Felipe Castanhari, do canal Nostalgia. Os dois são de São Paulo. O Fê faz vídeos legais das “antrolas”, veja esse que legal sobre os Mamonas, fiquei até com saudade daquela alegria toda.

Christian Figueiredo, do “Eu fico loko”, já lançou dois livros, dá palestras (até em uma universidade), viajou pelo Brasil para  lançamento dos seus livros. É um dos mais populares e simpáticos, ele expõe sua vida pessoal junto à namorada Aline. Recebe presentes do Brasil todo, mora sozinho em São Paulo.

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Christian, o “Loukão”

Esses vogglers são amigos entre si, encontram- se e fazem vídeos para o canal um do outro, descobriram que isso aumenta as visualizações.

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Pyong e Gustavo

Assistindo esse pessoal da segunda geração cheguei à algumas conclusões:

  • A geração 2000 é muito mais livre em todos os sentidos do que a minha foi na adolescência, ser adolescente agora no sentido das liberdades pessoais é muito melhor, menos repressão e caretice. Falam muito mais abertamente sobre sexualidade, os meninos não têm pudores em beijar e abraçar meninos, não temem ser chamados de gays ( e se forem, tudo bem também), inclusive brincam com isso, o que demonstra que o machismo também está ficando fora de moda, ufa!
  • As meninas mostram- se como os meninos, muito mais liberadas sexualmente, não existe uma preocupação em esconder ou fingir que são virgens. O feminismo gerou boas crias, aleluia!
  • O Youtube parece, mas não é brincadeira, pode gerar bons lucros e oportunidades. Essa turma encara como um trabalho e é mesmo.
  • Podemos aprender muito com os jovens.
  • Uma preocupação: como ficará essa turma quando essa onda passar? Porque vai passar. O tipo de humor que fazem só é engraçado durante um tempo, daqui a pouco vai perder a graça.  O humor é tão volátil quanto a juventude.
  • Como ponto negativo: a falta de estudo e conteúdo mais sólido é bem visível em muitos deles, tudo muito repetido, tudo muito parecido, faltam recursos. Estudar é a solução, o público vai crescer e os youtubers devem crescer também, reinventar- se; outro ponto, há um excesso de palavrões e escatologia, a linha entre a graça e o mau gosto é bem sutil e muitas vezes ultrapassam, parece que vale tudo para que o vídeo seja muito visto e isso é perigoso.
  • Essa ultra- exposição, esses reality shows, esses Shows de Trumman consentidos, podem ser alguma espécie de síndrome narcisista? Psicólogos de plantão, opinem.
  • Vendo os daily vlogs dessa turma, o tempo todo temi ( tê tê tê) pela integridade física das crianças, que mostram casas, endereços, viagens, festas. O Japa mesmo, classe média alta ou alta, já que seu pai é industrial…um país tão perigoso. Enfim, devem saber o que fazem e os riscos implicados.
  • Crianças que estão crescendo na era digital são uma safra sui generis, só mais pra frente saberemos as consequências disso tudo.

A primeira geração, a segunda geração e eu sou da Geração Zero, aquela que já trazia o bolo feito, enquanto essa turma ainda nem tinha plantado o trigo. Eu vi tudo acontecer desde o princípio. A minha geração criou o Youtube (Steve Chen, Chad Hurley e Jawed Karim, todos nasceram na década de 70), o Google ( o Sundar Pichai, o CEO, também dos anos 70) e Paul Buchheit, criador do Gmail e do Adsense, programa que faz a galera ganhar uma graninha nas redes sociais, só para citar alguns. A minha geração é a criatividade e inovação total. Se liguem nos 70. Agora é a época do pega e cola, triste.

Eu fiz vídeos de livros quando ainda não estava na moda, fiz uns quatro vídeos e por falta de tempo para gravar e editar na época, acabei deixando pra lá. Mas vou retomar, o canal Falando em Literatura TV já está criado há algum tempo, quando subir algum vídeo eu conto pra vocês.

E você, o que vê no Youtube? Já pensou em criar vídeos? Hoje em dia muito fácil com os smartphones ou câmaras baratas e com muito boa qualidade. As action cam Go Pro ou da Sony, as mais usadas para fazer cenas de ação na rua, pois são muito pequenas, discretas, fáceis de usar, aguentam impacto, são submergíveis e as câmaras digitais; as réflex têm qualidade profissional e são muito acessíveis. Enfim, que tal experimentar o cineasta que mora em você?

Quem já leu o livro desses vloggers? Conta!


UPDATE setembro/2016:

  • Eu ainda não ativei devidamente o canal Falando em Literatura, só tem uma chamadinha de poucos segundos e um vídeo da Feira do Livro de Madri.  Mas penso em criar um canal de generalidades e a vida na Espanha.
  • Christian, que está gravando um filme sobre a sua vida,  não namora mais Aline.
  • Patrícia não namora mais o Castanhari.
  • O maior youtuber brasileiro é Whindersson Nunes, com 10 milhões de inscritos.
  • Eu substituí a TV pelo YouTube, é muito mais gostoso fazer a própria programação.