Hoje: um texto por hora e aniversário de Antônio Torres!


Hoje, lá no nosso Facebook, haverá postagens de hora em hora. Como o nosso fuso é espanhol, já começou! Curta nossa página e nossos posts, isso é importante para motivar e saber se estamos pelo caminho certo ou não. Clarice vai estar por lá.

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Espero que os trechos de livros te inspirem e alguns deles entrem para a sua lista de leitura.

Hoje o dia é especial, pois é aniversário do grande escritor Antônio Torres, ele completa 76 anos. Imortal da ABL, com livros traduzidos em vários idiomas e uma obra narrativa interessantíssima, é um dos escritores brasileiros que mais amo.

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Resenha: “Pelo fundo da agulha” de Antônio Torres


Pelo fundo da agulha (1ª edição em 2006, 4ª edição em 2014) é o terceiro livro da trilogia junto com Essa Terra e O cachorro e o lobo. A saga de Totonhim continua, o nordestino que foi embora para São Paulo aos 20 anos. Antes de ir embora ele viu o suicídio do irmão Nelo na terra natal de ambos. Foi um dos motivos que o fez ir embora. A mãe enlouqueceu e foi internada num hospício em Alagoinhas; o pai em Feira de Santana, cada um para um lado. Totonhim rumo a São Paulo.

– O juízo da gente é assim como aquela linha fininha, que as costureiras enfiam no fundo da agulha. Quando se rompe, fica difícil de fazer remendo. (p.99)

O protagonista de Pelo fundo da agulha é casado, trabalha no Banco do Brasil e é pai de Rodrigo e Marcelinho, ele conta histórias aos filhos antes de dormir, viaja à Paris “em suaves prestações”, foi assaltado em Barbesse. Visita o túmulo de Oscar Wilde e vira flâneur pelas ruas onde pisava Charles Baudelaire. Conversa com o taxista filho de imigrantes armênios, francês, mas considerado cidadão de segunda categoria. Nosso viajante fala francês, portanto. Faz “turismo fúnebre”, interessa- lhe os epitáfios, visita o túmulo de Balzac no Père- Lachaise. E na despedida, o taxista lamenta por seus pais não terem imigrado ao Brasil, aonde os filhos de armênios tornam- se cidadãos de êxito. E agora vem a genialidade narrativa do autor, que arremata com essa frase que condensa todo um sentimento universal e inerente na maioria dos seres humanos: – Aonde quer que você for, vai encontrar alguém com um lugar de sonhos. (p. 30)

Totonhim viaja. A menininha moradora no extremo norte do país estuda na Guiana Francesa para aprender francês e um dia ir morar em Paris.

O desejo era o seu passaporte, ele pensaria. Não, não teria coragem de cortar- lhe as asas, com advertências inúteis: “Assim como os rios, as mais sedutoras cidades do mundo têm suas margens. Você pode estar destinada a cair na pior delas.” (p. 33)

(…) Corre menina, corre. O mundo ficou tão pequeno quanto o fundo de uma agulha. Grande é o teu sonho de criança. (p. 34)

Na página 88 existe uma descrição perfeita do motivo que fazia (e ainda faz) muitos brasileiros do interior escaparem para as grandes cidades do Brasil ou do exterior. Não vou contar, leia. 🙂

A linguagem é contemporânea e o tempo não é lineal, a narrativa acontece em épocas diferentes e em lugares diferentes.  Totonhim jovem empreendendo sua grande aventura na cidade grande e maduro, já na época das memórias. O narrador é onisciente seletivo, vê tudo, sabe de tudo, sabe o que sente o personagem, opina. Essa obra é menos descritiva que as duas primeiras da trilogia, o mundo psicológico é mais intenso, há mais divagações sobre temas variados, como pequenas histórias dentro da história. Viagens, leituras, cinema, música. O tempo vai e volta, o protagonista agora é viúvo e está só. Os filhos crescidos estão pelo mundo. O narrador joga magistralmente com a forma trágica da morte da esposa do protagonista, baleada aos 50 anos pelas costas quando fugia de um assalto. “Mais parece uma colagem de alguma matéria de jornal” (p.62) e o narrador revela o pensamento mentiroso do protagonista que aumentou a idade da mulher e revela, que na verdade, está separado, a mulher não está morta. Criativa essa forma de narrar! O narrador refere- se a “Totonhim” (de Antão, não Antônio como eu pensava) como “senhor”. Filho de Antão.

O tema da terceira idade é tocado sem panos- quentes. É ruim envelhecer pelo lado biológico, a perda de vitalidade e cabelos, as marcas do tempo, as constantes idas ao médico, os exames. A aposentadoria que mata. O taxista da Praça da Sé com 70 anos. Aposentado há 25 anos, o táxi o livrou de uma depressão. – Aposentadoria mata, meu chefe. (p. 62)

E a narrativa volta ao Junco, cidadezinha na Bahia onde Nelo, o primogênito, se enforcou. A mãe enlouqueceu, mas recuperou a sanidade e passa a linha pelo fundo da agulha sem óculos. Totonhim a reencontrou com 75 anos (em O cachorro e o lobo), mas e agora? Os pais estariam vivos?

A viagem de ônibus pau-de-arara da Bahia à cidade de São Paulo é dura, interminável, cheia de incomodidades e dormências, mas também cheia de esperanças e saudades. O espanto da chegada, o formigueiro humano que é a estação de ônibus em São Paulo. A solidão. Todos estão sozinhos. Essa parte emotiva da narrativa rumo ao desconhecido começa na página 91. Eu já fiz essa viagem algumas vezes na minha infância e revivi tudo com a narrativa do mestre Antônio. É assim mesmo, tudo verdade.

Lembra quando “antigamente” existia o vendedor de enciclopédias que ia de porta em porta? E as portas se abriam, sem medo?! Sim, essa profissão existiu no Brasil e foi a primeira (e efêmera) profissão de Totonhim em São Paulo. A narrativa da chegada quebra o estereótipo de uma cidade de São Paulo fria e impessoal.

Já leu “Paulicéia desvairada”, de Mário de Andrade? Um dos autores que Totonhim anotou mentalmente quando passou na biblioteca pública municipal Mário de Andrade. Quer ler grátis? Clica aqui.

Há o preconceito no sudeste contra o nordestino? O Brasil é um país racista ( sempre e ainda)? Basta ler os jornais ou acompanhar as redes sociais que você vai encontrar a resposta, embora os casos rotineiros não saiam nas notícias, são dolorosos igualmente. Esse tipo de obra deve servir como reflexão, auto- análise. O preconceito surge por causa do desconhecimento. De todas as formas,  Totonhim teve uma melhor sorte que Nelo.

A trilogia fecha com chave- de- ouro, “Pelo fundo da agulha” termina  a colcha de retalhos, o quebra- cabeça. Nesse livro são citados quatro suicídios, é um tema recorrente na trilogia. As sagas e dores familiares, essas, as que mais açoitam (na ficção ou na vida).

– Não se mate pelo que acha que deixou de fazer por sua mãe, seu pai, seus irmãos, mulher, filhos, o país, tudo. E, principalmente, por você mesmo. Ou pelo menos que deixaram de lhe fazer. Nem por isso o mundo acabou. Abrace- se sem rancor. Depois, durma. E quando despertar, cante. Por ainda estar vivo. (p.218)

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A minha admiração e homenagem a todos os nordestinos e nortistas que tiveram a coragem de sair das suas cidades/povoados para tentar uma “vida melhor”, normalmente em condições adversas e sem dinheiro. A minha raiz materna, migrante, baiana, nordestina, em especial.

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Abaixo a obra autografada de um dos maiores (senão o maior!) romancista brasileiro da atualidade: Antônio Torres, membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia Baiana de Letras, premiado e reconhecido no Brasil e no exterior, além de ser uma pessoa gentil e atenciosa com seus leitores.

1925134_479942558795858_1072622277_nAntônio Torres passeando em Curitiba (março, 2014- Facebook do escritor)

A obra:1459657_390445414444358_858928499870928319_n Anoitecia. Lá se fora a Ladeira Grande. Adeus, Junco. Junco: assim se divulgava o nome daquele lugar, que o ônibus ia deixando para trás. Cada vez mais. (p.109)1975018_390445474444352_2332868841897949283_n

(…) e assim adormece, com o coração mais leve, se sentirá um camelo capaz de passar pelo fundo de uma agulha. (p.218)10888948_390445454444354_2860213318269584587_nTorres, Antônio. Pelo fundo da agulha, Record, São Paulo, 2014. 220 páginas

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Está quase no fim do ano, mas espero voltar aqui ainda com mais uma resenha. Até a próxima!

Resenha: “Um cão uivando para a lua”, de Antônio Torres


Até antes de ler “Um cão uivando para a lua”, o livro “Essa terra” era o meu preferido. Agora estão empatados, outro “livraço”* de Antônio Torres! O autor escolheu para a epígrafe do livro uma frase genial de William Faulkner: Entre a dor e o nada eu escolho a dor. E você?

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Antônio Torres e seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, 2014.

“Um cão uivando para a lua” é o primeiro romance de Antônio Torres, escrito aos 32 anos (1972), mas com uma linguagem bastante atual e assim continuará sendo daqui a 100 anos, umas das características das boas obras essa atemporalidade. O prólogo é fantástico, o próprio autor nos conta um pouco da sua biografia, de como nasceu essa história e como ela foi publicada, com muitas dificuldades e a ajuda dos amigos. Leia aqui (clique no ícone “resenhas”). No final da obra estão algumas resenhas escritas por gente importante, que você também pode ler na web oficial do escritor.

A ideia do livro apareceu quando o mestre Antônio Torres foi visitar um amigo em recuperação por problemas de dependência de drogas em um manicômio do Rio de Janeiro, no tempo em que os problemas mentais no Brasil eram tratados com eletrochoque. O título surgiu quando ele ouvia Miles Davis sem parar, num quarto de hotel barato em São Paulo, na alameda Barão de Limeira. O protagonista é a pessoa internada, um repórter (como o autor) que conta a história em primeira pessoa, ele tem 28 anos. O texto começa com a visita de T. (de Torres, será?!). E o diálogo entre o doente (o narrador) e “T.” acontece assim: o doente percebendo o incômodo do visitante por estar naquele ambiente que o assustava. O protagonista conversa com “vozes” e sonha muito, sonhos com enredo bem definido, mas não perdeu a consciência das coisas e a percepção sobre as pessoas e sobre quem ele é (um ser confuso e cheio de mágoas da infância). Esse é um romance psicológico, trata do mundo interior de uma pessoa que acaba num manicômio para “descansar” das loucuras do mundo. Imagino que não tenha sido nada fácil o autor ter que “encarnar”, entrar no pensamento/sentimentos de um personagem tão conturbado. Abaixo, Fitzgerald e Godard citados pelo autor e Torres visionário, falando sobre o futuro dos computadores. E aí, mestre, foi mesmo “a glória”? (p. 51)

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O ambiente é o dos anos 70 das estradas empoeiradas, das condições sanitárias precárias, a época do Fusca que quebrava e o próprio dono podia consertar pela simplicidade da sua mecânica. Picada de mosquito se curava com cachaça. A época da construção da Transamazônica, obra gigantesca construída pelos militares e que custou a vida de muitos brasileiros pelas péssimas condições de trabalho no meio da selva, fora a matança dos índios da região, cerca de oito mil, uma verdadeira barbárie. Você que viaja por essa rodovia entre a Paraíba e o Amazonas, saiba que está sobre um vale de suor e de sangue inocente. Alto demais o preço do “progresso”, não?

Começamos a conhecer a história do doente, esse personagem sem nome, que parece ficar incógnito nas suas dores de cidadão comum, como a maioria das pessoas. Alguns personagens têm nome, outros não. O homem empreende uma viagem de Fusca com Floriano, um ex- seminarista e que agora trabalha vendendo gasolina e depois recolhendo dinheiro. Ele anda com uma peixeira no carro, profissão perigosa a dele.

O homem (começo a chamá- lo assim por questões práticas) faz muitas referências ao Junco, na Bahia, terra natal do escritor (hoje, Sátiro Dias). Tem muito do escritor, da sua experiência pessoal, na história.

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Pág. 57

Muitos trechos são autobiográficos, arrisco- me na afirmação. Esse menino de 8 anos chegando da roça…

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O protagonista fica desempregado por ser sincero com o chefe, por não ter “puxado o saco”. Ele vai para São Paulo procurar emprego, fica num hotel barato, sai com uma prostituta, mas é casado com Lila, que é meio doidona e ele a adora. O relacionamento não vai bem, ele teme perdê- la.

O estigma do preconceito, do nordestino sofredor na cidade grande, onde as próprias autoridades não cumprem o papel de defesa dos cidadãos: “Os retirantes andam meio por baixo aqui, o prefeito está expulsando todos eles, a cacetada, na base do ‘mate um retirante por dia, para manter a cidade limpa’ (…)”. (p. 91) O Brasil (parece) já foi muito pior, não?

O autor cita Fitzgerald e o narrador diz saber de memória os textos do americano (p. 92):

Numa noite escura da alma, são sempre três horas da manhã.

O progresso é o desencanto contínuo.

Muito do livro é o fluxo de pensamento do homem quando está sozinho, aquelas coisas que todos pensamos, mas que quase ninguém passa para o papel. Fértil, intenso, dolorido, criativo, emotivo, reflexivo. Assim é o pensamento do narrador. O sono e o sonho também são suas formas de transporte, além das reais viagens pelo Brasil devido à sua profissão de repórter. Não sei se esse livro serviu de terapia a Antônio Torres, parece ter expurgado mágoas da infância (p.155):

Sim, eu fazia uma porção de coisas, desde pequeno, mas a impressão que me deixavam era a de que eu não sabia fazer nada. Então, menino ainda, passei a declamar Castro Alves em praça pública, em dia de festa o povo dizia:
- Menino danado. Foi assim, doutor, que descobri que queria ser jornalista.

Um livro para colocar na sua lista de leituras!Print

Torres, Antônio. Um cão uivando para a lua. Record, 2011. ePUB. 180 páginas

*Crianças, a palavra “livraço” ainda não está regulamentada (não está no dicionário), mas deveria, não? Por isso a “campanha” a modo de brincadeira (séria!) que surgiu por causa de “Um cão uivando para a lua”, será que esse uiva? #livraço

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Resenha: Meninos, eu conto, de Antônio Torres


“Meninos, eu conto” está “classificado” como literatura infanto- juvenil, mas é adequado para todas as idades. E atenção, professores: altamente recomendado para ler na escola!

Antônio Torres (Sátiro Dias, antigo Junco, Bahia, 13-09-1940)  é um mestre do romance, mas aventurou- se também pelo conto e saiu com essas três histórias: Segundo Nego de Roseno, Por um Pé de Feijão e O Dia de São Nunca. É como se fosse um livro de memórias sobre a infância do escritor, daquelas coisas que marcam quando somos crianças, mas que podem ser as histórias de qualquer um, principalmente os que moraram nas cidades pequenas. Então, conta Antônio…

Segundo Nego de Roseno

Essa é a história de um menino que mora no Junco, quando ainda era um povoado e que trabalha na roça junto ao pai. As missas esporádicas eram a única diversão, no tempo em que ainda não havia chegado o progresso, nem os carros, quer dizer, só havia a fubica do Nego de Roseno, um carrinho desses da Ford fabricado nas décadas de 30 e 40:

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Esse era um tempo em que se sabia o valor real das coisas.

Por um pé de feijão

Aqui outra vez o menino, alter- ego de Antônio Torres nos contando a vida simples do Junco. E de como a alegria pode virar tragédia em um segundo, e que por sua vez, transformar- se em resignação e luta.

O dia de São Nunca

A chegada de três forasteiros mudam a rotina de um menino doente e sozinho. Órfão do pai alcoólatra, a mãe trabalha na roça e é rezadeira. Quem nasceu/morou na Bahia, com certeza ainda hoje, ouve ladainhas assim, com suas diferentes versões (alô, Tia Nio, saudades!) :

Com dois te botaram
com três eu te tiro
com pernas de grilo
que vem do retiro.
É de metetéia
é de manenanha
que esse menino fique bom
de hoje pra manhã. (p- 46-47)

 

Esse conto mostra personagens que debocham da crença alheia, da inocência, a soberba que torna o humano tão feio. Gente que rouba de quem não tem o que ser roubado. A falta de qualquer escrúpulo.

Terminei o livro com um suspiro profundo. Belo!

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Torres, Antônio. Meninos , eu conto. Record, Rio de Janeiro, 2011.  67 páginas. ePud

 

 

Homenagens a Antônio Torres na sua terra natal


O clima festivo e cheio de emoções marcaram as homenagens ao escritor Antônio Torres no último sábado (26/04/2014) na sua terra natal Sátiro Dias (o antigo Junco, na Bahia). O escritor retornou ao Junco como imortal da Academia Brasileira de Letras. As fotos abaixo foram retiradas do Facebook do irmão do escritor, Tom Torres, do primo, Marcelo Torres, de Cristiana Alves, Doriane Doria e do Departamento de Cultura de Sátiro Dias:

A sequência de fotos de Tom Torres, Antônio Torres reencontrando amigos e familiares, deitado na rede na varanda, rodeado pela família e ao som de uma viola.

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Uma das fotos mais bonitas e emocionantes: Antônio Torres com sua professora primária. Foto e texto de Marcelo Torres: 1496690_701103866598277_1269823349385569393_n

As homenagens que o velho Junco (atual município de Sátiro Dias-BA) fez ao romancista Antônio Torresquase "mataram" o imortal de emoção.
Na sexta, à noite, os conterrâneos foram recebê-lo ainda na estrada, no Arraial Santana. Lá, os foguetes estouravam nos céus e o povo o abraçava, feliz da vida.
De lá, cerca de 100 veículos seguiram em carreata até a praça, e os moradores apareciam às janelas ecalçadas para saudar a chegada do conterrâneo ilustre. No dia seguinte, teve missa, visita à biblioteca, aula magna, sessão solene, declamação de poesia, apresentação de grupos de pífanos e de flautistas mirins.  A cidade amanheceu cheia de faixas e painéis saudando o escritor. O jornal A Tarde estampou uma foto na primeira página. No antigo imóvel da prefeitura, uma faixa informava que ali será construída a sede própria da biblioteca.  Na igreja, onde ele foi coroinha, a missa em ação de graças foi celebrada pelo padres Arnaldo Silvestre Silva e Elias (filho da terra, padre da Paróquia de Cícero Dantas-BA). Foram fortes emoções na igreja, e em vários momentos ele chorou ao ver as representações de sua vida, sua infância, sua família.  A sua primeira professora, Serafina Gonçalves, de 98 anos, estava lá homenageando e sendo homenageada. O irmão João e a tia Nilda fizeram dois depoimentos emocionados. Lá fora, o grupo de pífanos tocava músicas que o velho Irineu, falecido pai do escritor, gostava de cantar. No pátio da biblioteca, crianças flautistas fizeram um show com músicas da infância de Torres. O menino Daniel, vestido igual ao menino Antonio Torres, recitou versos que o escritor recitava em praça pública. Ao final, Daniel falou: "Ele quando era pequeno dizia que queria ser Antônio Torres. E hoje eu digo: quando eu crescer, quero ser Antônio Torres". No almoço, oferecido pelo amigo Luiz Eudes em seu sítio,o poeta Carlos Silva fez um belo show. Ainda houve um bate papo com alunos e professores no Colégio Edgard Santos.  Depois houve sessão solene na Câmara Municipal. Ali, já exausto com a maratona, ele chegou a dizer "o imortal está mais para morto que vivo".  Enfim, no conjunto, foi uma belíssima festa.  Parabéns a Sátiro Dias, equipe da Prefeitura e prefeito Pedrito; à Câmara de Vereadores; equipes da Biblioteca, secretarias e escolas. O lugar, com certeza, está dando passos para tornar-se uma cidade de leitores - e autores!  Foi bonito e emocionante.  Parabéns às autoridades e à comunidade.

A foto de Tom Torres capta um momento de emoção do irmão ilustre com os olhos marejados na igreja:
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O outdoor na cidade de Sátiro Dias (foto: Marcelo Torres):

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Parte da família Torres (foto: Cristiana Alves):10322805_794486453895166_8669370778570339051_n

A parte institucional e solene, homenagem na Câmara dos Vereadores (fotos: Doriane Dória):

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Muito bom ver uma terra agradecida pelo filho ilustre! Parabéns, mestre Antônio Torres!

Resenha: “O cachorro e o lobo”, Antônio Torres


E assim se passaram vinte anos, pensarei, ao chegar lá. Assim se passaram vinte anos sem eu ver estes rostos , sem ouvir estas vozes, sem sentir o cheiro do alecrim e das flores do mês de maio. (p. 17)

O cachorro e o lobo  é o segundo livro da trilogia da saga de uma família baiana, o primeiro é o Essa terra e o terceiro é Pelo fundo da agulha. Em “Essa Terra“,  um dos livros mais belos e emotivos que já li, acontece o suicídio de Nelo, o filho pródigo. Em “O Cachorro e o Lobo” o personagem principal é o irmão dele, Antão Filho, o Totonhim, que vai embora do Junco, interior da Bahia e não volta à cidade durante vinte anos. Ele vai para São Paulo justamente depois do suicídio do irmão, que morre quatro semanas depois de regressar sentindo- se um fracassado. Totonhim, talvez, tenha sentido a necessidade de completar o ciclo que o seu irmão fora incapaz. O rapaz fala com a irmã Noêmia por telefone, depois de longos vinte anos. E Noêmia começa a contar como o progresso havia chegado à cidade, como tudo estava diferente, inclusive as pessoas. “La distancia es el olvido” (“a distância é o esquecimento”), como diz a canção espanhola de Antonio Orozco: depois do telefonema da sua irmã, Totonhim já não podia manter-se impassível, agora tinha que retornar e ver a sua família…e com urgência. Totonhim é a voz da narrativa, é o narrador- personagem:

Foi só dizer que ia embora para ouvir poucas e boas. Papai se enfureceu. Disse que eu não tinha amor àquela terra, nem eu nem meus irmãos, e por isso a terra nos amaldiçoaria, por todo o sempre. (p. 10)

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O escritor e a sua obra. Antônio Torres é membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 2013.

A alegria do reencontro e o pai idoso que não recorda o filho. Sensação de murro no estômago. Um dos meus medos (e talvez de outros imigrantes) é ser esquecida, apagada do coração e da memória das pessoas. Virar uma vaga recordação ou…nada. Totonhim perdoou o velho, afinal eram tantos filhos e netos. E a surpresa de ver o pai…feliz. Nada de dramas, bebedeira e decadência. A vida anda, muda, “nada nem ninguém é insubstituível”, como diz a sabedoria popular. E Totonhim até se arrependeu de ter ido, pensou que ia salvar o pai da sua vida miserável. E a mãe? A mãe também está ótima. Ambos vivem com muito pouco, mas vivem bem.

“O cachorro e o lobo” invoca as memórias de infância, a casa velha e as marcas do tempo, de todas as gerações, os cheiros, as festas, as alegrias, desavenças e até um suicídio. E o quadro do avô transporta Totonhim à infância:

Bom mesmo é ter avó e avô! Pai e mãe são muito chatos. Batem, reprimem. Avô e avó botam o neto pra quebrar. (p. 33)

(…) Por quem minha madrinha tanto reza? Espero que não seja por mim, já que isso poderia significar que eu não passaria de um desventurado, diante dos seus olhos- e do seu coração. (p. 34)

É como descobrir que não é só na morte que a paz existe. (p.34)

Se viro o pescoço às esquerda, vejo o prédio onde funcionava a escola em que estudei. Ali, através de um atlas geográfico, descobri que o mundo era grande. E que a Terra é redonda como a bola que a gente batia na hora do recreio. Quantos sonhos, quantos sonhos. (p. 46)

Agora atenção para este trecho e a importância do uso do chapéu, segundo o pai de Totonhim (p.38):

– Não ande com a cabeça no tempo. Bote o chapéu. Quem anda com a cabeça no tempo perde o juízo. Porque os chapéus foram inventados nos tempos de Deus Nosso Senhor para cobrir a cabeça dos homens. E todo homem tem de usar o seu chapéu. 

Antônio, Totonhim… Antônio e sua coleção de chapéus (fotos pescadas do perfil do escritor no Facebook):

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O livro também é permeado de misticismo, um realismo místico, de presenças de outro mundo, dos familiares que rondam por ali, que não estão fisicamente, mas estão. Nelo pode ser o morcego pendurado no telhado, a sombra estranha em plena luz do dia. Totonhim está convencido de que a casa está cheia de fantasmas. Não consegue esquecer a cena do irmão enforcado. As vozes de Nelo e do avô fazem- se presentes, dialogam com o protagonista. Totonhim tem pânico da noite, porque é nela que se manifestam todos os seus medos.

Totonhim não foi recebido com festa, o povo não foi vê- lo como fez com seu irmão Nelo antigamente. Viajar, ir e vir já não era novidade nem acontecimento. Ou era o povo do seu tempo que não estava mais? Ninguém perguntou qual era seu trabalho, se era casado, se tinha filhos, se voltou para ficar.

Como todo mundo pode ter esquecido de que aqui joguei bola, queimei a sola dos meus pés, vivi minhas utopias, sonhei muito e o verde era a cor dos meus sonhos? (p. 78)

Começa a reencontrar os colegas de escola no bar, encontra a tia Anita, que virou mendiga pelas ruas do Junco, sem casa, sem nada, além de Inesita, a primeira namorada, ainda enxuta e bem conservada. Inesita perdeu a virgindade com Totonhim debaixo de um umbuzeiro. Ela casou e foi “devolvida” porque o marido descobriu que ela não era mais virgem. Inês é a diretora do colégio.

Não sei. É mais feliz (ou infeliz) quem vai ou quem fica? Como disse Mia Couto:

O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda
Basta o tempo.

Sempre, sempre é bom ter para onde voltar…

Essa obra é perfeita para matar a nossa vontade de “quero mais” depois de “Essa Terra“. Nos livros “Essa Terra” e “O cachorro e o lobo” concentram- se todas as sensações dos expatriados, numa familiaridade desconcertante, como se a história também fosse um pouco a de cada um. E agora, vamos ao terceiro: “Pelo fundo da agulha”!

Você pode comprar esse livro no Submarino:

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Torres, Antônio. O cachorro e o lobo, Record, Rio de Janeiro, 1996. 219 páginas

Anotações sobre o livro “Essa terra”, de Antônio Torres


Foi então que comecei a me sentir perdido, desamparado, sozinho. Tudo o que me restava era um imenso absurdo. Mamãe Absurdo. Papai Absurdo. Eu Absurdo. ‘Vives por um fio de puro acaso’. E te sentes filho desse acaso. A revolta, outra vez e como sempre, mas agora maior e mais perigosa. Não morrerás de susto, bala ou vício. Morrerás atolado em problemas, a doce herança que te legaram. (p. 168)

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Juracy Dórea, “Histórias do Sertão III” – carvão e PVA s. placa, 1983

Essas anotações são de um dos meus livros favoritos, porque ele me faz rir e chorar: “Essa terra”, do baiano Antônio Torres, publicado pela primeira vez no ano de 1976.

Antônio Torres (Sátiro Dias, Bahia, Brasil, 13-09-1940) escritor e jornalista, é um dos melhores autores da nossa língua portuguesa na atualidade. O amável escritor tem até um perfil no Facebook. O escritor tem uma publicação na Espanha, você pode comprar o livro “Mi querido canibal” na Casa del Libro, por exemplo. Os meus exemplares em português foram comprados em Portugal pessoalmente e também na Wook, uma livraria online muito confiável. No Brasil, você pode consultar na web de Antônio Torres todas as livrarias que vendem sua obra, inclusive e-books.

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                                                       Adeus.
                                                      Desatem a corda.
                                                      Danem- se sozinhos. (p.43)
 

O cenário de “Essa terra” é uma pequena população na Bahia, o “Junco” (hoje, Sátiro Dias). Junco entrou no mapa pelas mãos do “deputado federal dr. Dantas Junior”, “Junco agora era uma cidade, leal e hospitaleira.” (p. 10) São Paulo, Alagoinhas e Feira de Santana são cidades coadjuvantes. Antônio Torres narra a história de uma família humilde do Junco, casal com doze filhos, que tinha uma roça, mas perdeu tudo. Um dos filhos, Nelo, foi viver em São Paulo, voltou anos depois e suicidou- se pendurado numa corda. O irmão de Nelo num mau presságio:

A alpercata esmaga minha sombra, enquanto avanço num tempo parado e calado, como se não existisse mais vento no mundo. Talvez fosse um agouro. Alguma coisa ruim, muito ruim, podia estar acontecendo. (p. 12)

Pronto. Eu nunca mais iria querer subir por uma corda até Deus. (p.13)

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Sátiro Dias, Bahia

A narrativa é cheia de imagens belas e tristes, que nos transportam às paragens baianas, de sol tórrido e de gente sofrida, engraçada e “desbocada”. A narrativa recolhe a linguagem oral do povo do Junco, que é sui generis. Esse povo baiano no livro é trabalhador, cheio de arte, humor, mas também encontramos a traição, o racismo, o preconceito, o machismo, a violência doméstica, o alcoolismo, a loucura, a intolerância política e religiosa no desenrolar da história. Como dizia André Gide, “não se pode fazer boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.” Concorda? Uma das traições:

IMG_7921O mestre Antônio Torres toca em sentimentos comuns a todos: a dor, a perda, a luta pela sobrevivência diária, os dramas pessoais e psicológicos. Gostei muito de ter tido a possibilidade de entrar no pensamento dos personagens, pois todos eles têm espaço para contar as suas mazelas em “Essa terra”.

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É um livro que corre fácil e que dá muita pena quando acaba. Uma obra indispensável para os amantes da literatura brasileira (e para quem não, também). Antônio Torres, como o mestre da linguagem que é, conseguiu captar a alma das pessoas, não digo do povo baiano, porque a própria Bahia “são muitas”. Antônio Torres ultrapassa a fronteira das naturalidades, qualquer um pode se identificar e empatizar com os personagens de “Essa terra”. Um dos trechos mais emocionantes, que sempre me escapam umas lágrimas, é quando Nelo apanha da polícia em São Paulo, porque corre atrás do ônibus que leva a esposa e filhos. Foi confundido com um ladrão, espancado e humilhado. Enquanto apanha vê imagens do Junco, do pai…

Uma narrativa que toca na dor do migrante, que sai do conforto de tudo o que é conhecido em busca de utopias, quase sempre. E das famílias que vão se desmanchando, desmoronando… as despedidas, que levam a dor e a esperança consigo: “Olhar para trás era perder tempo.” (p.100)

Mundo Novo adeus
adeus minha amada.
Eu vou pra Feira de Santana
Eu vou vender minha boiada.
 

No capítulo “Essa terra me enlouquece” (da p. 103 a 109) é de puro lirismo, uma obra- de arte de uma beleza ímpar (recomendo prestar atenção). E o doido, o doido Alcino, o doido de todas as praças a dizer verdades…

 “O que eu acho é que os parentes são nossos primeiros inimigos (…)” (p.113)

Será que a capa foi inspirada em Pedro Infante, o dono do bar, que só andava de guarda- chuva para proteger- se do sol?

6780154g1Torres, Antônio. Essa Terra. 16ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2004. 188 páginas

E aí, vai ler?

Tudo tem um fim. Nascemos, crescemos e nos acabamos. O que restou? A saudade. Assim nos vemos. Quietos, calmos, encobertos por milhões de mandamentos que nos impedem de dizer o que somos.” (p.105)