Resenha: Flores tardias (Late bloomers), de Brendan Gill


Livro é uma coisa que me deixa muito feliz. Vou mostrar uma joinha que encontrei perdida “no tempo”.

Nunca é tarde para tentar, recomeçar, ir atrás do que você deseja, e digo sem hipocrisia, eu acredito mesmo nisto. Não existe uma idade determinada para as coisas acontecerem, cada sujeito é único e tem seu tempo próprio de acordo com as suas circunstâncias. Quer começar uma faculdade com 50 anos? Comece! Quer casar de véu e grinalda com 65? Case! Quer se divorciar com 70? Pois, faça! Quem leva em consideração tudo o que pensam os demais e não ouve a si mesmo, não consegue ser feliz.

Na literatura, há inúmeros autores que publicaram tarde e que encontraram tarde o amor. Exemplo: Mario Vargas Llosa terminou um casamento de cinquenta anos para recomeçar com um novo amor aos 79 anos. Está com quase 82 anos agora e feliz da vida. A vida é muito veloz… nosso único objetivo deveria ser a felicidade e não as convenções sociais e religiosas, que mudam com o tempo e são discutíveis. A felicidade não, ela é preciosa sempre.

Quero te deixar exemplos de grandes personalidades que não tiveram medo, não se conformaram por causa do tempo.

Encontrei um livro muito gostoso, “Late bloomers” (1996), escrito pelo jornalista e crítico de cinema e teatro, Brendan Gill (1914- 1997). Ele escreveu para a revista “The New Yorker” por mais de sessenta anos.

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“Late Bloomers”- “Flores tardias” (livre tradução, infelizmente, essa obra não foi traduzida ao português), reúne setenta e oito personalidades das Artes, Ciências e Letras que começaram tarde nos seus ofícios. Os textos vêm acompanhados de fotos.

O autor explica o termo. Existe uma metáfora estadunidense utilizada na botânica, “late bloomer”, para as flores que nascem no final da estação; o termo também é usado na Educação para alunos com problemas de aprendizagem, ou simplesmente, “alunos que não fizeram o que deveriam ter feito” (p.10). Gill aplicou o termo para grandes personalidades que, por motivos diversos, não tiveram a oportunidade de começar cedo. Vou listar alguns nomes de “late bloomers”, que já servem também como dica de leitura:

Miguel de Cervantes

Dispensa apresentações, não é? É o maior representante da literatura em espanhol.  Cervantes publicou tarde, porque sua vida foi uma verdadeira aventura, um milagre ter saído vivo. Era soldado, lutou na Batalha de Lepanto, foi ferido e preso na Argélia. Publicou a primeira parte de “Dom Quixote” em 1605, e a segunda, em 1615, quando tinha cinquenta e oito anos. Faleceu um ano depois.

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Daniel Defoe

Curiosa vida do escritor inglês Daniel Defoe (1660- 1731). Gill conta que o escritor de Robinson Crusoé vivia entre fracassos e sucessos, que era comerciante, vivia correndo dos cobradores e das ameaças de prisão. Era casado e teve sete filhos. Foi agente secreto e jornalista. Com essa profissão começou a publicar artigos. Mais tarde, perto dos sessenta, que descobriu uma forma diferente de escrever, o romance.

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Jonathan Swift 

Foi só com cinquenta e nove anos que o autor de “As viagens de Gulliver” ficou famoso. O irlandês Jonathan Swift (1667- 1745) era filho bastardo e viveu na infância com um tio bastante pobre. Foi padre, mas não celibatário, teve relacionamentos com duas mulheres. Morreu por causa do Alzheimer.

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Edith Wharton

A rica americana Edith Wharton (1862- 1937) nasceu Edith Newbold Jones, o Wharton era do marido, proprietário do Banco de Boston, Edward Wharton. O casamento acabou, porque o marido não lhe satisfazia sexualmente, além de ser infiel. Aos quarenta, Edith divorciou- se e foi para Londres, onde recuperou os anos perdidos, a sua vida amorosa parece ter sido bastante animada. Uma mulher livre, um grande feito naquele tempo.  Edith tinha uma mansão em Massachussetts e outra na França. A vocação como novelista apareceu tarde, mas antes era uma leitora voraz. Está enterrada em Paris.

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São muitos “late bloomers”, cito mais alguns: André kertész, um fotógrafo fantástico, já falei sobre ele aqui, clica; Paul Cézanne, pintor francês; o suiço Jean- Jacques Rosseau, escritor, filósofo, botânico, entre outros; a estilista francesa Coco ChanelIsaac Bashevis Singer, escritor polaco que ganhou o Nobel em 1978; o escritor polaco Joseph Conrad, considerado um dos maiores escritores da língua inglesa…

O incrível é que encontrei este livro em um sebo online por acaso, enquanto procurava outro livro. Inclusive deixo aqui o link do Iberlibros, que reúne várias livrarias de livros usados da Europa. “Late Bloomer” veio de uma livraria inglesa, “Better World Books”, e eu paguei só oitenta e cinco céntimos de euro! O livro veio novo, impecável, como se nunca tivesse sido lido e chegou rapidíssimo.

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Gill, Brendan, Late Bloomers, Artisan, New York, 1996.

Infelizmente, “Late bloomers” está esgotado, mas é possível encontrar alguns exemplares usados. Eu tive muita, mas muita sorte, vi na Amazon uma edição anterior com menos personalidades e sem capa dura por 799 euros! Mas eu achei uma edição igualzinha a minha por 15, 26 euros, corre que só tem um! Clica aqui.

“Late bloomers” foi publicada um ano antes da morte do autor. É uma obra inspiradora, Gill nos deixou um belo legado. Livros assim não podem morrer.

 

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Nove anos Falando em Literatura!


Nove anos.

Eu nunca fiz e acho que nunca vou conseguir fazer o blog “dos meus sonhos”, que seria com atualizações diárias. Não dá. Ler exige tempo.

Ler do jeito que eu leio, sem pular páginas, criticamente, pensando sobre a obra para tentar resumir depois em uma resenha, não é coisa ligeira. Fora que nem tudo o que leio eu coloco aqui. Decidi que não escrevo mais sobre livros ruins por compaixão ao autor. E por responsabilidade. Eu não sei até que ponto a minha opinião pode afetar os autores. E eu decidi que não quero estar nessa posição.

Constantemente, tenho uma dúvida incômoda: “ajudo ou atrapalho?”. O blog ajuda alguém? As resenhas pra quê servem? E a resposta nem sempre me agrada: ajudo os copistas a simplificarem seus trabalhos; ajudo estudantes preguiçosos que não querem ler os livros; ajudo outros blogs e sites com informações, fotos, ideias, raramente citam a fonte.

Se eu pensasse só nisso, já teria acabado com esse espaço. Mas, por que não acabo? Por mim, necessidade própria. Gosto de compartilhar o que leio, gosto de ter esse diário de leituras. Gosto de deixar um testemunho para o futuro. Como assim? Gosto de pensar que um neto daqui a 20 anos possa saber o que a vovó gostava de ler. Parece besteira, provavelmente é, mas serve como estímulo.

Esse é um espaço também de treinamento. Eu sou expatriada há anos demais, aqui eu treino a escrita em português, o pensamento em português, já que o espanhol invadiu a minha vida, estou imersa nesse idioma. Eu mesma já me noto estrangeira no meu próprio idioma, algumas vezes me estranho, duvido, vacilo.

A maioria dos imigrantes que conheço, e com menos tempo de Espanha que eu, já não falam bem o português. Será que eles têm a mesma percepção sobre mim? É um pensamento desagradável.

Eu escolhi Letras Vernáculas, porque amo o nosso idioma, suas literaturas, sua gramática, seus mistérios e complicações. Foi com a língua e seu emaranhado de construções que forjei o meu futuro. Não quero perder a minha matéria de trabalho e amor. Sou resistente, insistente. Sempre procurei trabalhos na Espanha que tivessem relação com a nossa língua. Tenho conseguido, seja dando aulas, escrevendo para revistas, revisando ou traduzindo.

Fico feliz quando alguém vê algum evento literário, poema, livro e lembra de mim. As pessoas sempre me relacionam com a literatura, acho que é uma boa forma de ser lembrada.

Foi através do blog que aconteceram coisas muito bacanas: conheci autores fantásticos, nacionais e internacionais, que jamais pensei, como Joistein Gaader, Isabel Allende, Zygmunt Bauman, Boris Unspenski, Amy Tan, Hanif Kureishi, e muitos outros, alguns nem estão mais entre nós, como Lêdo Ivo, Omar Calabrese (semiólogo) e Eduardo Galeano, por exemplo.

img_5661Bauman, Madri 2012.

DSC_0025Antonio Colinas e eu

IMG_4928Mario Vargas Llosa

Alberto Vázquez FigueroaAlberto Vázquez- Figueroa e eu

DSC_0010Luis Goytisolo e eu.

IMG_1623Minha Laura, Lêdo Ivo e eu em 2011 (Madri), alguns meses antes do falecimento do autor.

18921798_803764753112420_4938323402990426604_nEssa é recente, desse mês: Enrique Vila- Matas e eu.

São muitas histórias e recordações, um verdadeiro relicário, um tesouro. Muitas bibliotecas e livrarias incríveis que visitei, vi obras clássicas originais, eventos interessantes. Ah, e as oficinas literárias, oito, que aconteceram no ano passado. O Falando em Literatura saiu do virtual patrocinado pelo Consulado do Brasil em Madri e o Itamaraty, foi uma experiência incrível e enriquecedora.

Muita coisa, literariamente falando, aconteceu antes desse blog e acabou perdendo- se no tempo, no limbo da memória. Aqui fica tudo guardadinho.

Por tudo isso, veja você…eu preciso desse blog. E preciso, principalmente, das Letras na minha vida.

Espero, de coração, que esse blog tenha inspirado alguém a amar a boa Literatura como eu amo. Essa é a motivação mais bonita.

E vamos para o ano 10!

Resenha: “Boa noite a todos”, de Edney Silvestre


Em “Boa noite a todos” (2014), o escritor, apresentador e jornalista Edney Silvestre (Valença, Rio de Janeiro, 27/04/1950) conseguiu encontrar um ponto de intersecção importante, onde todos somos iguais, sujeitos despidos de vestes (literalmente), convenções, dinheiro e poder. Nada material importa. O autor resgatou o Humanismo, colocou o ser humano sozinho no palco, na sua essência original, na hora inevitável: a morte,  motivada pela solidão e a enfermidade. O misticismo e a moral, que podem ser muito variáveis, deram lugar à ética. Edney opta pela dignidade do ser humano, empurrando Maggie em um precipício antes que ela se perdesse. Trágico? Sim, mas o personagem labiríntico não tem outra alternativa.


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Edney Silvestre em setembro do ano passado no lançamento do livro, que teve leitura dramatizada pela grande Fernanda Montenegro. A obra também foi protagonizada no teatro por Christiane Torloni (foto: Blog Lu Lacerda)


A leitura começa pelo título e a capa do livro (fantástica por sinal, de Leonardo Iaccarino), que não nos deixa dúvidas: alguém se despede, um sapato feminino elegante assomado no parapeito de um edifício e vários outros prédios entrelaçados abaixo, confusos, dando a impressão de vertigem.  O personagem é uma mulher suicida. As primeiras páginas deram- me uma impressão equivocada da obra, achei que era uma dondoca fútil que iria cometer suicídio por falência financeira. Não. Maggie (Margareth) divorciada três vezes, não teve filhos por infertilidade, foi deixada por um dos maridos que se apaixonou por outro homem, o último marido a deixou por uma jovenzinha, Maggie estava sim falida e sozinha, mas a motivação do suicídio foi a doença. Ela planeja a sua morte antes que perca totalmente a memória e a sanidade. Em nenhum momento o autor cita o Alzheimer, mas os sintomas de Maggie são parecidos, ela começa a esquecer fatos da sua vida, nome de pessoas, esquece que tem que pegar um avião, esquece até do nome do seu pai e sua mãe, começa a perder o controle das funções fisiológicas voluntárias do corpo.

A história toda acontece em poucas horas, começa no táxi durante o trajeto até o hotel que escolheu para morrer. O hotel foi escolhido porque ela acha que ali antes estava construída a casa da sua família. Ela vai tentando reconstruir a sua vida, já não sabe o que é real ou imaginação. Ela dialoga com uma voz, que pode ser o resto de lucidez que lhe sobra, que vai corrigindo os lapsos e dados incertos. A linguagem, muitas vezes repetitiva, acompanha o fluxo do pensamento da personagem, ela esquece o que acabou de dizer, então reitera. Muito fidedigno.

O livro é dividido em três partes: primeiro o romance, depois a peça teatral só em 1ª pessoa, há acréscimos de dados sobre a vida de Maggie e uma terceira parte onde Edney explica como surgiu Boa noite a todos.  muitas referências musicais, livros, poemas, filmes, citações de nomes de atrizes, tudo comentado pelo autor nessa última parte. Ednei explica que Maggie é uma conjunção de várias mulheres, concentra no personagem o drama de muitas pessoas. Geralmente ele leva pra ficção pessoas conhecidas, aconteceu em obras anteriores. Não se preocupe se não entender as citações em inglês e alemão, está tudo no final.

Uma música que acompanha Maggie durante a sua despedida é de Richard Strauss, “Quatro últimas canções”. Strauss  musicou um poema de Herman Hesse, “Ao dormir”:

Depois que o dia exausto me deixou,
amavelmente a noite constelada
há de acolher meu ardente desejo
como a uma criança fatigada.

Mãos, esquecei todos os afazeres!
Rosto, deixa o pensar ao abandono!
Agora todos os sentidos meus
querem afundar no sono.

A alma, sem ter quem tome conta dela,
em vôos libérrimos quer flutuar
e no circulo mágico da noite
a vida de mil formas esgotar.

Hermann Hesse


 É um livro que mexe com nossos medos, pelo menos os meus, um deles é o de perder a noção da realidade, a loucura ou o esquecimento. O medo de não ter o controle de si mesmo, alienar- se, no sentido original do termo. É o medo de Maggie, ela não tinha saída. Uma pessoa sem memória está morta. Maggie planejou a sua morte e estava tranquila. Maggie sofria alucinações e decidiu voar.

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Para conhecer um pouco mais sobre o autor, leia essa interessante entrevista, onde Edney revela fatos tristes e marcantes da sua vida, e mostra- se uma pessoa de gostos simples, que prescinde de luxos, o que o faz realmente feliz é escrever.

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Edney na biblioteca do seu apartamento no Leblon no Rio de janeiro. (Revista Quem)

Eu li “Vidas provisórias” e fiquei impressionada com a obra (leia a resenha). Em “Boa a noite a todos” o personagem principal também é uma imigrante, que trouxe na sua bagagem de vida (desculpem- me o clichê fácil) todas as experiências que viveu nos países que morou e escolheu morrer na cidade e local onde a viu crescer. A gente pertence mesmo ao lugar que nos viu nascer?

Ednei teve coragem de tocar em um tema tabu, o suicídio. Muitas vezes visto como sinal de fraqueza e condenado pelo lado místico, “é falta de Deus”. O suicídio vai muito além dessas análises superficiais e até cruéis ( motivadas pelas religiões). Sempre há muita dor de viver e sentimento de impotência, de fim de linha, motivados por doenças físicas ou psicológicas, quase sempre. Não quero falar muito sobre esse tema, porque daqui a pouco vai aparecer algum maluco achando que estou fazendo apologia ao suicídio. Ao contrário, gostaria que as pessoas prestassem mais atenção nas outras; se bem que, na maioria das vezes, a fatalidade é inevitável, se o sujeito realmente tem o firme propósito. A opção sempre deve ser a vida, no caso da Maggie, ela não tem escolha, é irreversível.

E para finalizar, quero acrescentar que Edney Silvestre está ganhando um posto importante na nossa literatura contemporânea. Seus romances urbanos, bem alinhavados, ricos em referências e cultura geral, com doses fortes de emoção, corajosos, cheios de humanidade, colocando um espelho diante das nossas faces, vieram para enriquecer a nossa biblioteca. Voilà! Perfeito!

jjjjjSilvestre, Edney. Boa noite a todos. Record, Rio de Janeiro, 2014. ePub, 168 páginas

Resenha: “Pedro”, Luiz Taques


Luiz Taques(Corumbá, Mato Grosso do Sul, 1958) é um jornalista e escritor que vive em Londrina (Paraná). Sua obra consta de dois livros de contos, um infantojuvenil e o último, “Pedro”(2013), romance.

tn_620_600_taquesEu não costumo aceitar livros de escritores desconhecidos, porque as experiências anteriores foram 99% negativas. A maioria nem cheguei a colocar no blog para não prejudicar os autores, mas “Pedro” achei que valia a pena. Apesar de alguns problemas técnicos, pensei que Taques seria um escritor de futuro. Espero, sinceramente, que essa crítica, para mim, construtiva não irrite muito o autor e seja encarada como positiva. A editora Kan (de Londrina) pela voz de Regina Utsumi enviou- me dois exemplares, um deles autografado. Agradeço a ambos pela gentileza. A leitura e a resenha andam juntas, vou anotando as minhas impressões. E essa leitura não acabou bem. A princípio achei que a obra teria salvação, mas a leitura acabou no capítulo 8 e com muita indignação.

O livro começa com um erro de extensão, 79 páginas, o que entraria para a categoria “conto”. Narrativa para ser considerada romance de acordo com o cânone literário, deve estar entre 300 a 1200 páginas. No Brasil isso não é respeitado, desde José de Alencar e Machado de Assis. Coisa diferente acontece na Europa, os autores antigos, modernos e pós- modernos levam isso muito mais a sério. A escassez de páginas incomoda um pouco, porque dificilmente pode- se desenvolver todas as fases do romance em tão poucas páginas, fica a sensação de incompletude, de fases essenciais que foram queimadas. Muita gente vendendo conto como romance, acho importante a categorizarão correta e pelo menos atender o mínimo aceitável no padrão brasileiro, 100- 200 páginas. Um conto não pode ser nomeado romance na marra, só porque você quer. Dito isso, vamos ao texto em si:

“Pedro” está ambientado na zona rural, em uma cidade fictícia chamada “Buraco quente” (nome também de um sanduíche), calorosa como o próprio nome diz. O texto nos transporta ao pantanal mato-grossense e com uma chamada de atenção à pesca predatória, os peixes pescados antes do tempo. O narrador- personagem (texto narrado em primeira pessoa, o protagonista conta e vive a história ao mesmo tempo) é Pedro, que narra a história da sua numerosa família que vive condicionada pelo rio, pela morte do pai pescador, a tristeza da mãe e as lembranças amargas pela falta de recursos. Essa é uma narrativa construída em cima das memórias do narrador, a princípio; no quarto capítulo o protagonista introduz a questão do adultério da mãe totalmente sem sentido e porquê. O narrador emplaca um diálogo mental com o irmão ausente, falando sobre prostituição e outros temas. O diálogo continua com períodos super extensos, repetição de palavras, que essa generosa resenha comparou com um fluxo de rio– justamente, o ponto mais negativo da obra: a forma (até então pensei assim). Entendo que o autor quis reproduzir a fala oral do filho do pescador, mas os períodos compridos demais e o excesso de vírgulas, poluiu o texto. Escrever parágrafos tão extensos é arriscado e difícil, o leitor pode ficar confuso como eu fiquei logo na primeira página:

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Prestem atenção no trecho sublinhado e no verbo “cometa”. Eu parei a leitura aí, voltei três vezes a frase para entender o que essa palavra significava. “Cometa Halley” e até pensei que fosse erro de impressão, “será ‘comenta’?” O trecho é assim:

(…) é que toda a gente de Buraco Quente resolva imitar o que a gente aqui de casa fez com o próprio quintal, e então, toda a gente de Buraco Quente, cometa (…)

Ficaria melhor assim:

(…) é que toda a gente de Buraco Quente resolva imitar o que a gente aqui de casa fez com o próprio quintal e cometa (…)

O estilo não pode comprometer o entendimento do texto. Se a pretensão foi a fluidez de um rio, nesse caso funcionou como um estanque ou pesque- pague.

Também não gostei dessa metáfora pobre:

(…) o vazio é como uma página de papel sulfite em branco. (p.33)

Existem coisas que jamais deveriam estar na página de nenhum livro, em nenhuma boca de personagem, porque além de não fazerem sentido, são altamente ofensivas, além de inverossímeis. Provocam preconceitos, por isso não vou reproduzir aqui. Para mim é inadmissível qualquer escritura que compare mulheres na menopausa com frutas murchas e afins. Parei de ler no 8º capítulo, para mim detonou a obra o autor ter colocado na fala do seu personagem a invalidez das mulheres na menopausa da pior maneira possível. Não só como mulher, mas como ser humano, não apoio nenhum tipo de estigma ou preconceito que denigra a nossa feminilidade. A ficção tem muito mais força muitas vezes que a própria realidade. Há que se ter cuidado com afirmações machistas e destrutivas que as mulheres lutam há tantos anos para desfazer.

No começo dessa resenha senti uma espécie de remorso pela crítica ruim que viria, mas termino com a certeza que é o tipo de livro que não precisa existir. Sinto muito a quem possa ferir, pior fiquei eu. Luiz, continue como jornalista, que é o que você faz bem, parece. Deixe a literatura para quem sabe, ou mude a sua direção, você errou tanto na forma quanto no conteúdo.

Eu iria sortear esse livro entre os leitores do blog, mas vai ficar na gaveta.

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Taques, Luiz. Pedro. Kan, Londrina, 2013. 79 páginas

Resenha: Vidas provisórias, Edney Silvestre


Sabe aquele cara competente e bonitão da Globo, voz linda, jornalista consagrado e conhecido por todos? Sim, esse mesmo, Edney Silvestre ou Edney Célio Oliveira Silvestre (Valença, Rio de Janeiro, 27 de abril de 1950). Edney também é um baita escritor de ficção, talvez a melhor faceta de Edney entre tantas geniais! O talento para a escritura começou quando ele era muito jovem, tentou publicar seu primeiro conto aos 12 anos. Edney apresenta o Globo News Literatura (veja a entrevista com a antropóloga Françoise Héritier, que lançou seu livro “O sal da vida”). O escritor foi correspondente internacional da Rede Globo em Nova York durante muitos anos, fez reportagens incríveis, participou ativamente da cobertura do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, em Nova York. Edney tem um currículo extenso e intenso, vamos falando aos poucos. É um escritor acessível, participa das redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, muito atencioso e gentil com seus leitores, o que o torna uma estrela completa, na forma e conteúdo. Como é o meu post de iniciação em Edney Silvestre, além da resenha de “Vidas provisórias”, também conto um pouco sobre seus outros livros.

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Edney Silvestre, foto de Leo Aversa no Instagram do autor.

A bibliografia do autor é recente, começou a publicar em 2009 com grande aceitação da crítica e leitores. Veja:

1. “Se eu fechar os olhos agora” (2009), primeiro livro, ganhou o Prêmio Jabuti como melhor romance, ficou na frente de Chico Buarque e Luís Fernando Veríssimo. A obra foi editada em vários países, inglês, francês, italiano, alemão, veja algumas:

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Edição portuguesa, editora Planeta

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Edição em inglês

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A edição brasileira pela Record

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Edição francesa pela Belfond

2. Felicidade fácil (2011), o segundo romance do autor, também foi traduzido para o inglês e francês:

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Veja o vídeo do lançamento do livro onde Edney explica um pouco a obra:

3. “Outros tempos” é uma reunião de crônicas e memórias do tempo em que Edney foi correspondente internacional em Cuba e no Oriente Médio:edn

4. “Vidas provisórias” (2013), objeto dessa resenha. Vamos lá:

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Silvestre, Edney. Vidas provisórias. Intrínseca, Rio de Janeiro, 2013. Em papel ou e-book. 367 páginas

Parece um livro de contos, mas não é. A obra é dividida em capítulos curtos, histórias paralelas de personagens que tiveram que emigrar à força. Paulo Roberto Antunes, um jovem universitário, irmão de um militar que o desprezava, foi sequestrado no seu apartamento no Rio de Janeiro e brutalmente torturado na década de 70. Essa história confunde- se com a própria história do autor que teve o seu apartamento invadido em Copacabana, preso como subversivo. As “cenas” (porque tudo é muito visual, como num filme) são fortes, chegam a doer, nos transformamos em Paulo e também em Bárbara. Ela, uma adolescente de 17 anos que foge do país e imigra para os Estados Unidos com passaporte falso fugindo da violência, seu pai foi assassinado, a narrativa começa quando Bárbara pega um vôo com passaporte falso nos anos 90.

Essa viagem ao desconhecido, a incerteza, o medo, talvez seja um sentimento experimentado pela maioria dos imigrantes, independente do motivo do exílio (claro que muito pior para os que imigram por causa da violência). Identifiquei- me muito com Bárbara, nessa “vida provisória”, essa sensação de estar só de passagem, como se a expatriação fosse uma doença passageira, doença, porque é incômoda, dói, é um transe indesejado (que às vezes demora demais). Isso quando a imigração não é voluntária, quando não se tem escolha, obviamente. A história de Bárbara começa a misturar- se com a minha própria, passei a ser Bárbara, apesar dos perfis muito diferentes, há algo que nos une:

(…) Esta é uma vida provisória, ela acredita. Tem que ser uma vida provisória, precisa acreditar. (p.39)

Certas sutilezas desses sentimentos (palavra repetida muitas vezes aqui) de imigrante só encontrei no livro de Edney. O escritor também foi imigrante, ele deve ter conhecido muitas ou algumas “Bárbaras”. Imigrante ilegal que faz faxina para sobreviver, e os muitos “Paulos” que fugiram da violência, da tortura da ditadura no Brasil. Quase todo mundo conhece alguém que viveu situações limites no Brasil dos anos tristes, onde a censura amordaçou a palavra, feriu e matou quem pensasse diferente. Ainda hoje o Exército nega que houve tortura no Brasil. Quer prova maior que o depoimento dos próprios torturados?! Meu tio, Normando Leão Sampaio foi preso e torturado na Bahia. Ele era estudante e só tinha 18 anos! Uma das cenas de tortura.

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Edney  conseguiu capturar no papel o que sinto/sentimos ao morar em outro país. As fases do estranhamento, da (in)adaptação, da autopreservação, da saudade, do distanciamento emocional do passado em prol da sobrevivência e do constante pensamento do retorno, a eterna sensação de estar de passagem, de falta de raízes. A sensação de não ser bem vindo. Os imigrantes acabam se unindo no exterior, senão acabam sozinhos mesmo. Vamos pelo geral, certo? Claro que há exceções.

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O sofrimento cansa também, Bárbara decidiu sair do quarto alugado na casa de uma família latina e decidiu conhecer Nova York. Começou a passear, conheceu uma patroa que a ajudou a aprender o idioma. Bárbara depois de 10 anos morando nos Estados Unidos ainda não sabia inglês. Isso é mais comum do que se pensa. Acontece o mesmo na Espanha, vejo muitos brasileiros que falam “portunhol” e que desaprenderam o português. Além de não aprenderem o idioma local perdem o próprio. Há que se olhar para os lados, aprender, estudar. Perdem também a família, muitos ficam sós, Bárbara não tem ninguém, mas ela acostumou- se a perder. Perdeu o passado, o presente…mas, e o futuro?

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Bárbara começou a ler em inglês e começou a perder o medo. Perder às vezes também é bom, vê?! O exercício da leitura, a prática a fez aprender o idioma. A patroa, Sonia, queria ajudá- la também a legalizar a sua situação no país. O verso da foto acima é da poetisa Elizabeth Bishop, falecida em 1979, ela morou 15 anos no Brasil (Santos- SP), onde recebeu o Prêmio Pulitzer. Ela traduziu ao inglês Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. A imigrante Elizabeth também aprendeu a perder:

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério; 
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. 
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Depois perca mais rápido, com mais critério: 
Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita. 
Nada disso é sério. 
Perdi o relógio de mamãe. 
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Perdi duas cidades lindas. 
E um império que era meu, dois rios, e mais um continente. 
Tenho saudade deles. 
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. 
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério

Não posso deixar de citar o personagem Sílvio, também imigrante nos Estados Unidos, um carioca lindo, bissexual (mas preferia os homens) que teve um triste final.

Fiquei intrigada para chegar no final e descobrir que desfecho Edney encontrou para essa história. E digo que foi surpreendente. Ele optou pela esperança. Espero que “a minha vida provisória” tenha um final feliz. Essa obra também é uma confissão de amor ao nossos sabores e aromas brasileiros, e  algo invisível, talvez ainda sem nome (cultura, idioma? não sei), que é a nossa essência e que nos faz ser como somos. Além de relembrar esse tema espinhoso da ditadura, que espero, jamais volte a acontecer.


Toda a obra de Edney Silvestre você pode encontrar em papel ou em e-books nas melhores livrarias físicas e online.

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