O fim das bancas de jornais?


A era digital acabou com 50% das tradicionais bancas de jornais e revistas nos últimos 20 anos na Espanha. A tendência é mundial, assim também aconteceu no Brasil.

Bairro de San Pascual, Madri. As bancas são chamadas de “quiosco”.

A realidade parece pior que a estatística citada. Depois de ver a notícia no telejornal espanhol, comecei a observar as bancas nas ruas.

A solução aí e aqui é reinventar- se para não morrer. As bancas vendem água, refrigerantes, doces, badulaques, carregadores de celular, livros, brinquedos…e revistas e jornais. As bancas viraram bazares, mercadinhos, perderam a sua principal função.

É verdade. Deixamos de comprar jornais e revistas. Ou compramos muito de vez em quando. Primeiro, porque de tudo há versão digital ao alcance de um clique; segundo, porque não nos interessa mais gastar dinheiro com algo que não acompanha a velocidade desses tempos pós- modernos. Uma notícia impressa de madrugada, de manhã já é velha, todo mundo já sabe ao acordar e conectar o celular sem precisar nem levantar- se da cama.

Jornal era imprescindível, quase todo mundo procurava emprego nos Classificados. O mesmo para alugar e vender imóveis. Sem anunciantes e patrocinadores, de quê vive um jornal? Só de boa vontade.

Banca fechada em Madri

Contudo, o papel é documento. O mundo virtual e a tecnologia falham. Quem já não perdeu algo importante num computador irrecuperável, um cartão de memória ou um celular defeituoso? Papel pode durar séculos, se bem conservado. Ainda assim, o papel está perdendo as batalhas.

Penso nos donos e donas de bancas tradicionais com muito pesar. O que foi e o que será deles? É uma profissão em vias de extinção?

Recordo quando era menina e ia com muita ansiedade comprar os álbuns de figurinhas. Os álbuns estavam feitos para não serem completados, nunca consegui completar nenhum, e acumulava aquele bolo de figurinhas repetidas. Era um “ troca troca de figurinhas” (virou expressão popular) ou apostavámos “no bafo”, que consistia em colocar no chão o bolo de figurinhas, bater em cima delas com a mão em forma de concha, a levantando em seguida. As figurinhas do adversário viradas na ação ficavam com o participante. Era mais questão de jeito, que de força.

E adolescente, a revista Capricho era o máximo, tratava de assuntos que interessavam o mundo juvenil. Veja essa capa com a belíssima Ana Paula Arósio, de 1988. A moeda era o cruzado e o presidente , José Sarney:

Revista era momento de socialização, de troca e partilha com as amigas. Ah, sem esquecer dos signos. Os astros tinham uma importância crucial nas relações.

Eu não quero dizer que antes era melhor que agora, tudo tem seu lado bom e ruim. Antes tudo era mais difícil, a tecnologia facilitou a nossa vida, estudos, nos permitiu conectar com o mundo. A internet é genial, mas também prejudicial em excesso, como tudo na vida. Internet nos tornou mais solitários, a sina do nosso tempo.

O fato é que as bancas estão fechando. O tempo muda tudo, e nós aqui, observando as páginas virarem.

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Adeus, Carlos Heitor Cony


Faleceu na noite de ontem no Rio de Janeiro, o cronista e imortal Carlos Heitor Cony, aos 91 anos. Ele passou por uma cirurgia no intestino e faleceu por causa de uma infecção generalizada. A notícia foi divulgada hoje pela Academia Brasileira de Letras:

O Acadêmico, jornalista e escritor Carlos Heitor Cony morreu, vítima de falência múltipla de órgãos, ontem, dia 5 de janeiro, sexta-feira, às 23 horas, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Samaritano, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde estava internado.

Assim que foi informado do falecimento de Carlos Heitor Cony, Marco Lucchesi determinou o cumprimento de luto de três dias e que a bandeira da Academia fosse hasteada a meio mastro. E complementou: “Carlos Heitor Cony integra a família dos grandes escritores do século XX. Criou um continente literário fascinante, sagaz, imprevisível. Homem de vasta cultura, jamais se desligou do presente, do Brasil e do mundo. Quase memória é um de seus livros mais visitados e redesenha a figura do pai na literatura brasileira”.

Quinto ocupante da Cadeira nº 3, eleito em 23 de março de 2000, na sucessão de Herberto Sales e recebido em 31 de maio de 2000 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony foi redator da Rádio Jornal do Brasil. De 1958 a 1960, tornou-se um dos jovens escritores que colaboram no SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil), com contos, ensaios, traduções. Em 1961, começou a trabalhar no Correio da Manhã, do qual foi redator, cronista, editorialista e editor.

Colaborou por mais de 30 anos na revista Manchete e dirigiu Fatos & Fotos, Desfile, Ele Ela. De 1985 a 1990, foi diretor de Teledramaturgia da Rede Manchete, produzindo e escrevendo sinopses das novelas A Marquesa de Santos, D. Beja, Kananga do Japão. Em 1993, substituiu Otto Lara Resende na crônica diária do jornal Folha de S. Paulo, da qual era membro do Conselho Editorial. Foi comentarista diário da CBN, participando do Grande Jornal com o programa “Liberdade de Expressão”.

Entre seus prêmios estão: o Prêmio Manuel Antônio de Almeida, com os romances A Verdade de Cada Dia, em 1957, e Tijolo de Segurança, em 1958; Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1996; Prêmio Jabuti de 1996, da Câmara Brasileira do Livro, pelo romance Quase Memória; Prêmio Nacional Nestlé de Literatura, de 1997, pelo romance O Piano e a Orquestra; Prêmio Jabuti de 1997, pelo romance A Casa do Poeta Trágico; Prêmio Jabuti 2000, concedido ao Romance sem Palavras; Os romances Quase Memória e A Casa do Poeta Trágico ganharam o Prêmio “Livro do Ano”, em 1996 e 1997, conferido pela Câmara Brasileira do Livro.

Carlos Heitor Cony (Foto: Folha de São Paulo)

Carlos Heitor Cony (Foto: Folha de São Paulo)

O escritor Antônio Torres lamentou a morte do amigo no Facebook:

Ah, a falta que o Cony já me faz. Grande escritor, grande amigo, grande companheiro de viagens e palestras (Paris, Natal, Guadalajara, Rio), sempre levantando as plateias com tiradas como esta: “O otimista é um mal-informado”. Em tudo que escreveu, deu um fino trato à última flor do Lácio, de que é exemplo a crônica abaixo, extraída do livro “Os anos mais antigos do passado”, publicado pela Record.


Abaixo, a última crônica de Cony no jornal Folha de São Paulo (31/12/2017). Bela e triste, parece mesmo uma despedida.

Uma carta e o Natal

Este será o primeiro Natal que enfrentaremos, pródigos e lúcidos. Até o ano passado conseguimos manter o mistério —e eu amava o brilho de teus olhos quando, manhã ainda, vinhas cambaleando de sono em busca da árvore que durante a noite brotara embrulhos e coisas. Havia um rito complicado e que começava na véspera, quando eu te mostrava a estrela onde Papai Noel viria, com seu trenó e suas renas, abarrotado de brinquedos e presentes.

Tu ias dormir e eu velava para que dormisses bem e profundamente. Tua irmã, embora menor, creio que ela me embromava: na realidade, ela já devia pressentir que Papai Noel era um mito que nós fazíamos força para manter em nós mesmos. Ela não fazia força para isso, e desde que a árvore amanhecesse florida de pacotes e coisas, tudo dava na mesma. Contigo era diferente. Tu realmente acreditavas em mim e em Papai Noel.

Na escola te corromperam. Disseram que Papai Noel era eu —e eu nem posso repelir a infâmia e o falso testemunho. De qualquer forma, pediste um acordeão e uma caneta— e fomos juntos, de mãos dadas, escolher o acordeão.

O acordeão veio logo, e hoje, quando o encontrar na árvore, já vai saber o preço, o prazo de garantia, o fabricante. Não será o mágico brinquedo de outros Natais.

Quanto à caneta, também a compramos juntos. Escolheste a cor e o modelo, e abasteceste de tinta, para “já estar pronta” no dia de Natal. Sim, a caneta estava pronta. Arrumamos juntos os presentes em volta da árvore. Foste dormir, eu quedei sozinho e desesperado.

E apanhei a caneta. Escrevi isto. Não sei, ainda, se deixarei esta carta junto com os demais brinquedos. Porque nisso tudo o mais roubado fui eu. Meu Natal acabou e é triste a gente não poder mais dar água a um velhinho cansado das chaminés e tetos do mundo.

 

Biblioterapia: a cura pela literatura


A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos. (Manoel de Barros in Compêndio para uso dos pássaros)

Todo mundo já sabe que a leitura salva da ignorância e da exclusão. No entanto, a utilização de livros como instrumento terapêutico, coadjuvantes ao tratamento de problemas físicos e psicológicos, pode ser novidade para muita gente. E não tem nada a ver com literatura de auto- ajuda.

A biblioterapia (do grego: biblíon, livro, e therapeía, assistência) é uma disciplina que vem ganhando força em muitos países, não entre bibliotecários, mas profissionais de saúde mental. O “National Institute for Health and Care Excellence”, na Inglaterra (www.nice.org )indica a terapia com livros para transtornos de ansiedade e depressões leves.

As leituras mantem o cérebro ativo, ajudando a aumentar a memória e a combater várias espécies de demência, como o Alzheimer. A americana Jean Carper escreveu um livro sobre o assunto: “100 dicas simples para prevenir o Alzheimer- E a perda de memória” (editora Sextante). As pessoas com mais leituras e bagagem cultural apresentam menos sintomas dessas doenças, segundo a jornalista.

A psicóloga espanhola Celia Luz Fernandez, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Salamanca e chefe do hospital clínico na mesma cidade, utiliza a biblioterapia para a cura da depressão, ansiedade, estresse e transtornos alimentares. Para doenças mais graves, a biblioterapia também pode ser usada como auxiliar. A médica cita bons resultados em crianças com câncer e pessoas com esquizofrenia. A doutora observa mudanças profundas de conduta e pensamento, provocando uma melhora na qualidade de vida de seus pacientes (ouça o podcast na web “Universo aberto”, blog da biblioteca de Tradução e Documentação da Universidade de Salamanca, 29/10/2014).

Celia Luz não recomenda aos seus pacientes livros sobre os seus problemas, é contra- indicado, pois a leitura de sintomas e consequências pode agravar ao invés de ajudar. Por exemplo, se você tem depressão, não leia livros sobre “como curar a depressão”.

A biblioterapia, claro, não é só indicada para pessoas doentes, ela serve para todos que desejam um desenvolvimento e melhora pessoal, já que a leitura modifica as camadas mais profundas do ser humano.

As escritoras Ella Berthoud e Susan Elderkin, duas inglesas que acreditam piamente no poder curativo dos livros, lançaram este ano o “Farmácia Literária” (editora Verus no Brasil, e na Espanha, “Manual de remedios literarios”, Siruela, edição de referência). Um livro sem contra- indicações, que de uma forma bem-humorada, nos dá receitas literárias (quatrocentos e oito livros indicados) para espantar diversos males, tanto físicos, quanto psicológicos ou sociais, até para a TPM! Veja a minha seleção de obras fáceis de serem encontradas, com propriedades curativas, lúdicas e ricas:

Medo à violência. Você sente impulsos violentos, trava uma batalha interior consigo mesmo, tem ataques de ira? Este é o seu livro: O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do escocês Robert Louis Stevenson.

Indecisão. Sente dificuldades para tomar decisões? Considera a opinião de todos, menos a sua? Importa- se demais com o que os outros pensam? Permite que os outros decidam por você? Sua obra é essa: Indecisão, do americano Benjamin Kunkel.

Desemprego. Vive com medo de perder o trabalho ou ser repreendido(a)? Sacrifica- se demais? Ser um pouco Bartebly, às vezes é necessário, inverter a ordem natural das coisas pode ser um exercício interessante. Para você: Bartebly, o escriturário, do americano Herman Melville.

Gripe masculina.  É…existe livro até para curar medo de gripe, especificamente para os homens. Há quem diga que são um pouco dramáticos quando doentes, não é? Depois desse livro ficarão mais corajosos: Os miseráveis, do francês Victor Hugo. A tuberculose assolava a França no final do século XVIII e, mesmo assim, o povo lutava bravamente.

Correr riscos demais. Obra para pessoas imprudentes, que arriscam a vida e vivem intensamente sem nenhuma noção de auto- preservação. Essa história é de um sujeito que não faz nada da sua vida, o autor mostra o absurdo da existência niilista. Existe um meio-termo para ambas condutas. Essa obra é fantástica, umas das minhas preferidas: Memórias do subsolo, do russo Fiódor Dostoiévski.

Não importa a motivação, se pessoal, escolar, profissional, incorporar o hábito leitor no cotidiano é ganhar um espaço só nosso, é ganhar felicidade e sabedoria, é ter acesso a mundos muito diferentes do nosso. Que tal visitar uma livraria ou biblioteca hoje mesmo?


Texto publicado no Tribuna Feirense (Tribuna Cultural), Feira de Santana, 20/10/2017.

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Hoje é Dia dos Professores na Espanha/Día del Maestro en España


Hoje, 27 de novembro, é o Dia dos Professores na Espanha. O Google Espanha comemora a data com um doodle muito fofo.

dddOs jornais reproduziram e o ABC publicou um decálogo da poetisa chilena (que morou na Espanha), Gabriela Mistral (1889-1957), professora também e prêmio Nobel de Literatura em 1945.

gabriela-mistral

Leia o seu decálogo, “os dez mandamentos” do professor. Para Mistral, o ofício era similar ao sacerdócio, uma missão superior:

1. Ama. Si no puedes amar mucho, no enseñes a niños.

2. Simplifica. Saber es simplificar sin quitar esencia.

3. Insiste. Repite como la naturaleza repite las especies hasta alcanzar la perfección.

4. Enseña con intención de hermosura, porque la hermosura es madre.

5. Maestro, sé fervoroso. Para encender lámparas basta llevar fuego en el corazón.

6. Vivifica tu clase. Cada lección ha de ser viva como un ser.

7. Acuérdate de que tu oficio no es mercancía sino oficio divino.

8. Acuérdate. Para dar hay que tener mucho.

9. Antes de dictar tu lección cotidiana mira a tu corazón y ve si está puro.

10. Piensa en que Dios se ha puesto a crear el mundo de mañana.


Agora em português:

  1. Ama. Se não podes amar muito, não ensine às crianças.
  2. Simplifica. Saber simplificar sem tirar a essência.
  3. Repete. Repete como a natureza repete as espécies até alcançar a perfeição.
  4. Ensina com a intenção da beleza, porque a beleza é mãe.
  5. Professor, seja fervoroso. Para acender lâmpadas basta levar fogo no coração.
  6. Vivifica a tua classe. Cada lição tem que ser vivida como um ser.
  7. Lembra- se que o teu ofício não é mercadoria, senão um ofício divino.
  8. Lembra- se. Para dar há que ter muito.
  9. Antes de ditar a sua lição cotidiana olha o seu coração e veja se está puro.
  10. Pensa que Deus começou a criar o mundo de manhã.

Uns bons conselhos, não é? Eu concordo com ela. Um feliz dia a todos os professores! Feliz Día del Maestro!

Resenha: A poesia da notícia, de Thiago David


Quem planta violência/ não colhe cidadão. (Thiago David)

Um pouco de literatura brasileira contemporânea. Thiago David estreia com “A poesia da notícia”. Ele é um jovem poeta e compositor carioca nascido em 1987. É publicitário, mas não exerce, sonha em poder viver só de literatura.

Esse livro foi uma grata surpresa, principalmente por se tratar de poesia. Estamos carentes de bons poetas na pós- modernidade (desculpe a quem ofender possa). Thiago conseguiu algo que eu desejava há tempos: um reflexo do nosso tempo, a nossa cara, – mais que isso- , a representação de um pensamento coletivo, é algo mais profundo ( e nem sempre agradável de se constatar). Acho que ele conseguiu de uma forma bem interessante com versos simples e eficazes. Parece que tudo está no lugar, não sobra nem falta.

Thiago resgata o que há de humano em nós. O problema do outro… é do outro?

thiagoFoto: Facebook do autor

Notícia pode virar poesia? Claro! O consagrado modernista Manuel Bandeira fez isto, veja o “Poema tirado de uma notícia de jornal”.

O cotidiano está cheio de poesia, mas as notícias são descartáveis, amanhã terá uma nova e a de hoje estará na cesta de lixo. A poesia é uma boa tentativa de imortalizar o “banal”. A repetição torna as pessoas insensíveis, o comovente não comove mais ninguém, exceto quando o fato acontece com elas ou alguém próximo. A poesia é uma forma de reeducação sentimental.

Vamos à obra:

“A poesia da notícia” está dividida em 13 temas: Cotidiano e Sociedade, Policial, Política, Eleições, Internacional, Esporte, Cultura, LGBT, Racismo, Mulher, Saúde, Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia, ou seja, abarca uma boa parte dos fatos sociais.

Os títulos dos poemas são manchetes de jornais. No poema abaixo, uma notícia tão repetida, mas interpretada com um olho poético, veja como muda. Essa manchete carrega um verdadeiro drama. Veja (p.10):

PREÇOS DE IMÓVEIS EM SP NÃO VÃO PARAR DE SUBIR, DIZ ESPECIALISTA

Olhando os classificados,
pensando de onde tirar tanto dinheiro
(em comparação com meu salário),
torço imensamente pra que essa alta de preços,
não afete o mercado 
que vende papelão.
É bom ter a certeza de que algo cobrirá o chão.

Muita gente passou por isso. Perder um objeto é muito mais que uma questão financeira. Nisso mora a diferença entre o preço e o apreço, o valor real das coisas. Outro ponto que chama a atenção no título é o “circula livremente”. Como se livro e biblioteca não precisassem de atenção, cuidado e vigilância (p.12):

BANDIDO INVADE BIBLIOTECA NACIONAL NA MADRUGADA, CIRCULA LIVREMENTE E ROUBA COMPUTADOR E MONITOR

Roubaram um laptop
e um monitor de madrugada.
Mas não sabem como foi difícil encontrar a versão original
de Macunaíma e Na estrada.
A antologia poética de Drummond era pesada
a do Pessoa, impossível de ser carregada.
Coube no laptop todas as obras
oficiais, traduzidas e raras
para serem levadas 
digitalizadas

No poema acima, vejo a preocupação do poeta com a musicalidade, as rimas, a cadência do poema. As palavras foram escolhidas e estudadas para ficarem no lugar correto, não é aleatório, nota- se o trabalho.


O próximo poema parte de uma notícia que chocou muita gente. Vocês devem lembrar do adolescente que foi amarrado em um poste no Rio de Janeiro, não? Alguns festejaram o ato de barbárie. O castigo foi inválido, o menor voltou a roubar. Leia a sábia conclusão do poeta:

MENOR PRESO AO POSTE É FLAGRADO EM NOVO ROUBO

Suponho, observando aqui,
que esses tais "justiceiros"
imaginaram ter dado uma grande lição.
Mas pelo que eu entendo,
chicote deixa marca,
mas a marca mais a raiva
do que qualquer instrução.
Quem planta violência
não colhe cidadão.

E o absurdo do nosso tempo, todo mundo colado nas redes sociais, na internet, até numa situação extrema (p.129):

FACEBOOK CRIA BOTÃO PARA SOBREVIVENTES DE DESASTRES

De baixo da lama
da terra, da lava,
da bomba, da água,
da chuva, da pedra,
do fogo, na queda,
no susto, no escuro,
no meio do medo,
uma reza em silêncio
insiste:
– Que ainda haja internet! –


Eu gostei muito desse livro, uma leitura agradável, corre fácil, ao mesmo tempo que te faz pensar. É dos poucos que tenho lido onde a literatura é genuinamente nacional. Alguns escritores brasileiros escrevem como europeus. E eu não vejo nenhum europeu escrevendo como brasileiro. Ainda se faz literatura europeia no Brasil. Isso era para ter acabado no Romantismo.

“A poesia da notícia” é também um documento histórico do nosso tempo (por causa dos títulos), mas, por causa da poesia, atemporal. Vou arriscar com essa afirmação: daqui a 20, 30, 50 anos, vai continuar atual. Thiago acertou com esse livro.

Quem é brasileiro vai se identificar e quem é estrangeiro vai aprender como é o Brasil.

Habemus poeta!

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David, Thiago. A poesia da notícia. Editora Oito e Meio, Rio de Janeiro, 2016. Páginas: 148