Resenha: “Os pilares da terra”, do inglês Ken Follett


Eu tenho formação acadêmica em Letras, o que ajuda a olhar a literatura de uma forma  profissional e crítica, observando elementos artísticos, técnicos e de estilo, que podem passar despercebidos para muitos leitores; mas minha aversão aos best- sellers não vem disso, surgiu muito antes: se é popular não presta, é literatura fácil. Eu já tinha essa percepção desde cedo, na adolescência. É só senso comum. Simplesmente, não perdia meu tempo, preferia (e ainda prefiro) os clássicos de qualquer época ou idioma, porque a vida é muito curta e a boa literatura muito ampla para perder tempo com livros ruins. Mas, será esse um best- seller diferente? Despi- me dos meus preconceitos e fui de mente aberta. Veja o resultado.


O inglês Ken Follett (Cardiff, País de Gales, 05/06/1949), quando publicou “Os pilares da terra” (1989), já era um escritor de êxito, vendia muito, principalmente livros de suspense. Começou a publicar com vinte e cinco anos, mas com vinte, já escrevia e foi quando ele começou a visitar catedrais. Sua família participava de uma espécie de seita religiosa, que o proibia de entrar em templos religiosos. Saía pouco durante a infância e juventude, e foi assim que mergulhou no mundo da literatura.Ken Follett in Berlin, 2014Ken Follett em Berlim, 2014. O autor é casado, tem dois filhos e mora no Reino Unido.

Follett viajava pela Inglaterra só para visitar catedrais, suas visitas duravam até dois dias. Ele anotava tudo, seu principal interesse era a arquitetura dos templos, como e quem os construía. E começou a investigar. Descobriu que a maioria das catedrais eram construídas por gente muito pobre, com um sacrifício impressionante, gente que não tinha onde morar nem o que comer. Ficou fascinado. Foi nessa época que teve a ideia de escrever um livro sobre a construção de uma catedral. Só que sentiu que não tinha capacidade para desenvolver esta história, necessitava de recursos que ainda não possuía. “Os pilares da terra” foi publicado doze anos depois, foram mais de três anos de trabalho, de domingo a domingo. Quem conta tudo é o próprio autor no prólogo do livro, o que pareceu interessante. Dei um voto de confiança. Seguimos.

“Os pilares da terra” (1989) é o primeiro de uma trilogia. A saga continua com “Um mundo sem fim” (2007) e o recém- lançado, “O círculo de fogo” (2017).


A obra

A primeira parte do livro data de 1135- 1136 (século XII). A história começa com a execução por enforcamento, em uma praça pública, de um jovem ruivo, bem ruivo, “cabelos cor de cenoura”, de olhos verdes. O rapaz roubou um cálice valioso em uma igreja e foi enforcado diante de sua mulher grávida. Ela lançou uma maldição ao padre, ao monge e ao cavaleiro que mataram o seu amor.

O personagem principal é Tom Builder, um pedreiro dos bons. Ele foi dispensado da uma construção de uma catedral em Exeter (capital do condado de Devon, uma das cidades mais antigas da Grã Bretanha). Isso ele não engoliu. Ficou ruminando durante anos, o orgulho ferido, pois sabia que era capaz. Com essa história ele aprendeu que para a construção de uma catedral, não basta ser bom, a construção tem que ser perfeita:

Isso porque a catedral era construída para Deus, e também porque a estrutura era tão grande que a mais leve inclinação nas paredes, a mais ínfima variação naquilo que deveria ser reto e nivelado, poderia enfraquecer fatalmente o conjunto. O ressentimento de Tom havia se transformado em fascínio. ” (p.55)

Então, amigos e amigas, essa obra trata disso: de contar a história de um pedreiro ambicioso e ressentido, que decidiu construir uma catedral na Inglaterra. O ódio, o orgulho, quando bem administrados, também podem ser um bom motor para construir grandes coisas.

Tom é casado com Agnes, a considera sua alma- gêmea. O casal tem dois filhos, Alfred de quatorze anos e Martha, de sete. Veja a “moral” da época. O pai dava cerveja à menina. Será que há pais que ainda fazem isso?! O almoço da família: um pedaço grande de toucinho fervido, pão e cebola. Nesse almoço, Agnes comunica que está grávida mais uma vez. Tom nem sabia a idade da mulher. Na Idade Média, a natalidade era alta, já que não havia métodos anticonceptivos, mas também havia uma alta mortalidade infantil. Falta de vacinas, de antibióticos, de higiene… no medievo acreditava- se que o banho fazia mal à saúde.

Tom estava construindo uma casa para Lorde Percy Hamleigh, um homem muito rico, pai de William, noivo de Aliena, filha do Conde Shiring. A moça rompe o noivado e a casa que seria para ambos, já não é mais necessária. Tom havia posto todo seu dinheiro nela. O rapaz chega à cavalo quase atropelando a pequena Martha, dispensa os trabalhadores, mas Tom teve que segurar as rédeas para que William o pagasse.

Tom e sua família começou a andar sem destino certo. Não tinham cavalos, carroças, nada. Pareciam retirantes nordestinos fugindo da seca. Eles buscavam um local para a construção da catedral. A mulher grávida, a menina pequena e o inverno chegando. Martha, cansada, demorava para acompanhar os demais, ficava para trás. Ela e o porco. A menina foi atacada por um ladrão, levou uma porrada na cabeça. O ladrão levou o porco. A menina desmaiada, sangrando, e a mãe, fria, disse que a menina iria sobreviver e que o pai fosse atrás do porco. As pessoas tinham que ser duras para sobreviver. Tom e Albert foram atrás “dos ladrões”, eram quatro. Houve luta, mas um dos ladrões levou o porco embora. Eles haviam comprado o porco na primavera para engordá- lo e vendê- lo no inverno. Com o dinheiro daria para alimentar a família durante meses.

Entram em cena Ellen, uns dez anos mais jovem que Tom, e seu filho adolescente, Jack. A mulher ajudou Agnes a cuidar de Martha ainda desmaiada. Ellen e Jack moram na floresta, porque a mulher é “fora da lei”. Seu crime? Ter xingado um padre. Lembra da execução do início? A jovem grávida, mulher do enforcado? Ela reaparece mais tarde com o filho que estava na sua barriga. (p.94)

Ellen conta a sua história a Tom; este sente uma atração pela mulher.

Cheguei na página 100, já irritada e arrependida por ter começado a leitura desse livro, mas segui.  Raramente largo a leitura de um livro. Continuei esse extenso, pobre e decepcionante “Os pilares da terra”. Umas fórmulas mais que mastigadas e muitos clichês, muito pouco criativo. Básico, simples, bobo. As primeiras páginas foram até interessantes, consegui visualizar um ambiente medieval, sujo e violento, mas depois a narrativa perdeu essa característica de época. Fiquei na dúvida também, se foi a tradução brasileira que prejudicou a obra. A linguagem pareceu- me muito contemporânea. Veja como o autor é “criativo”:

“A fome é o melhor tempero”. (p.139)

A família passa fome, frio e enfrenta muitas dificuldades. Uma boa parte do livro, que é bem monótono e aborrecido para o meu gosto, é falando sobre isso.

Agnes deu a luz ao quinto filho  (dois já haviam morrido) no relento e no inverno. Nasceu um menino. A parte escatológica do nascimento é bem desagradável, o marido descreveu e falou sobre os odores da placenta, depois a queimou. A mulher morreu, sofreu uma hemorragia e foi enterrada numa cova funda por causa dos lobos, para que seus “ossos se conservassem até o dia do Juízo Final”. O autor conta, tudo, tudo com os mínimos detalhes, até os mais sórdidos e desagradáveis. O pai, quer dizer, o monstro, abandonou o bebê perto da cova da mãe, porque não tinha como alimentá- lo.

Claro que o autor matou Agnes para entrar Ellen na parada. Tom transa com um anjo imaginário, um delírio, mas era a mulher em carne e osso. E foi ela, obviamente, que tinha encontrado o bebê que Tom voltou, arrependido, para recuperar.

Pessoal, não vou contar mais, porque não vale a pena. Não vale a pena perder tempo com esse livro.

Follett sabia que não era um autor especial, que seus livros eram entretidos, o grande público gostava, mas tinha consciência, a auto- crítica suficiente para perceber que não eram livros importantes artisticamente falando. Acha que este é especial, sua grande obra. Não é. Grande obra em extensão, mas em qualidade não. Follet é uma baita de um sortudo. Ficar milionário, viver num castelo, por causa de obras assim, tão primárias, com uma linguagem tão plana e pobre, caramba…tem gente esperta no mundo. Enquanto isso, os autores de verdade… o mundo invertido.

22406233_875949182560643_8850533865946442572_nFollett, Ken. Os pilares da terra. Arqueiro, São Paulo, 2016. Epub. Páginas: 2655*

*Não esqueça: a quantidade de páginas em livros digitais pode variar de acordo com seu e- reader e tamanho da fonte.

 

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Resenha: “Sobre a seleção natural”, de Charles Darwin


Sempre leia o original. Claro que você pode e deve ler ensaios, resenhas e estudos sobre, mas são opiniões, textos que já foram mastigados por outros. Você tem que mastigar também o texto original. A leitura influenciada pela opinião alheia pode nos direcionar a caminhos que nem sempre nos convêm. Por isso a importância da fonte primária, aquela obra que originou todas as outras, essas são as mais interessantes, porque é o astro literário ou gênio científico, como nesse caso, em sua própria voz.

E assim fala Charles Darwin em “Sobre a seleção natural”, em primeira pessoa, em uma linguagem surpreendentemente simples, qualquer leigo em Ciências pode entender. Não é um livro “difícil”, nem é só para estudantes (aliás, nenhum professor recomendou a leitura desse livro na minha época de estudante, uma pena!), ele é para qualquer pessoa interessada na humanidade e suas origens.

Sem querer julgar a fé ou crença alheia, a alegoria bíblica em Gênesis é uma representação literária da criação do homem, é fisicamente impossível (eu já sei que “para Deus nada é impossível”. Estamos falando de Física e Ciência, ok?). Os escritores da época tinham que explicar de uma forma que as pessoas entendessem, de acordo com seus interesses e limitado entendimento. O ruim é que muita gente acredita ainda hoje, literalmente. Enfim, a fé é livre. Eu não sei de muita coisa, só sei que não fui criada da costela de Adão.

Quem foi Charles Darwin

O cientista inglês Charles Robert Darwin (Shrewsbury, 12/02/1809- Downe,  19/04/1882) foi um revolucionário que abalou as crenças vitorianas, e que, ainda hoje, sofre ataques dos criacionistas religiosos por causa de suas teorias sobre a criação do homem e evolução das espécies.

Darwin começa o livro falando sobre a cadeia alimentar, os animais que matam para sobreviver, “a luta pela existência”. Ele explica o termo: “(…) inclui não só  a vida do indivíduo, mas o êxito ao deixar descendência”. A natureza está programada para alimentar- se sem destruir-se– quer dizer– até chegar no homem, o maior depredador da natureza. Ainda assim, a Natureza resiste (por quanto tempo, não sei…).

Esse é um livro que mexe com as emoções mais profundas, porque nós– eu, pelo menos– enxerguei o homem como num quadro: somos parte de um processo inexorável, uma mecânica perfeita. Fazemos parte de uma cadeia natural, mas vivemos sem pensar muito nisso, mas creio que seja bom pensar. Acredito que a aproximação com a nossa essência primordial, a forma como estamos inseridos na natureza, pode nos ajudar a parar de gastar energias inutilmente para centrá- las em outras mais importantes. Sofrer antecipadamente com medo da morte, por exemplo, é uma delas. A morte na natureza é mais que necessária, o universo não suportaria a progressão geométrica (chamada “doutrina de Malthus”) se as espécies, inclusive o homem, se reproduzissem sem uma ordem: início, meio e fim. Veja:

Inclusive o homem, que é lento em reproduzir- se, duplicou- se em vinte de cinco anos e, segundo essa progressão, em menos de mil anos sua progênie não teria, literalmente, lugar para ficar de pé. 

Linneo calculou que se uma planta anual produz só duas sementes– e não existe nenhuma planta que seja tão pouco produtiva–, e suas plantinhas produzem outras duas no ano seguinte, e assim sucessivamente, aos trinta anos haveria um milhão de plantas.  (p. 9-10)

Esses cálculos, essas progressões, fizeram com que eu calculasse os membros da minha própria família: só a partir dos meus bisavós maternos, eles “produziram” gente demais! Faça essa “brincadeira” e conte os membros da sua família a partir dos seus bisavós e verá que mundo de gente!

Terminei a leitura encantada com o Mr. Darwin, que não só modificou a história da humanidade, como também foi um excelente escritor, fantástico comunicador, talvez isso o tenha ajudado a transmitir a importância das suas conclusões e ter- se feito ouvir. A linguagem a favor da Ciência. O autor toca a prosa poética para falar sobre a natureza. É um texto belíssimo!

Charles Darwin fala de algo que todos (alguns mais que outros) fazemos diariamente: lutar pela vida. Alguns ganham, outros perdem.

O livro resenhado é um extrato, um capítulo da obra maior de Darwin, “A origem das espécies”.

IMG_0622Darwin, Charles. Sobre la selección natural. Taurus- Santillana Ediciones Generales, España, 2012. Páginas: 157

Essa resenha eu tinha preparado para o Falando em Literatura, mas acabei publicando na Revista BrazilcomZ (março, com algumas adaptações), mas publico aqui também. Obra deliciosa, vale muito a pena!

The Consciousness Effect: Representation of Subjectivity in Virginia Woolf’s To the Lighthouse and James Joyce’s Ulysses


Falando em Literatura in english? Yes! Elton Uliana‘s article, he’s Brazilian, bachelor of English Literature from University Birkbeck College, University of London. Enjoy!


The Consciousness Effect: Representation of Subjectivity in Virginia Woolf’s To the Lighthouse and James Joyce’s Ulysses 

A sudden light transfigures a trivial thing, a weathervane, a windmill, a winnowing flail, the dust in the barn door; a moment – and the thing has vanished, because it was pure effect.

   (Walter Pater)[1]

 

The house of fiction has many windows, but only two or three doors.

     (James Wood)[2]

The works of Virginia Woolf and James Joyce are a landmark in aesthetic history. In the early twentieth century, a moment of rupture and breakdown in cultural order, both writers responded to the changing conditions of the period by proposing a radical overturn of the objective mimetic impulses characteristic of conventional literary representation. In their own idiosyncratic way, each writer indulged freely in communicating a more relativistic, subjectivist version of reality. Woolf’s and Joyce’s linguistic experimentation epitomizes the ‘high modernist’ aesthetic system with its emphasis on consciousness rather then character (realism) or temperament (naturalism); its neglect of plot coherence, unity and closure; and its retreat from omniscient narrative strategy.[3] This pivotal misrule of literary form notoriously involved a multitude of other innovations like the debunking of syntax, the dislocation of cohesive point of view, and the disinheriting of linear time. If this break with tradition allowed for an ironic, if fictitious detachment between object and subject, it also represented a radical shift in the whole category of the subject, which became tantalizingly elusive and self-evident at the same time. These innovations of the modernist project remain remarkably enduring.

     Even though the writings of Woolf and Joyce may be regarded as diametrically opposites in terms of stylistic and thematic psychology, underlying that there is a preoccupation which inevitably unites them: the recasting of human consciousness, perception and memory beyond realistic conventions. This study will analyze the relationship between consciousness and literary representation as structured in Woolf’s To the Lighthouse (1927) on the one hand and in Joyce’s Ulysses (1922) on the other. I shall argue that both Woolf’s and Joyce’s narrative technique produce, in strikingly distinctive manner, an expansion of subjective boundaries, one which destabilizes the self and makes it permeable by the other and impregnated by elusive, ephemeral impressions of external worldly events. I will focus both on the effects produced by free indirect style on the representation of consciousness and on the implications that genre, mode and form have on subjectivity.

     Both Woolf and Joyce use modulations in genre to shape and reproduce the effects of reality on consciousness. Each chapter in Ulysses is constructed in distinctive style, from epic to journalistic, from the dramatic to the catechetic form. In episode seventeen (Ithaca), when Joyce abruptly converts the genre of the preceding chapter from a long-winded prose (which emulates medieval morality tales and Christian parables) to a highly stylized parody of the Catholic catechism, Joyce’s narrator with all its verbal incontinence reveals a consciousness ceremoniously invaded by (low and high-brown) textual paraphernalia:

Similarly?

The trajectory of their, first sequent, then simultaneous, urinations were dissimilar : Bloom’s longer, less irruent, in the incomplete form of the bifurcated penultimate alphabetical letter who in his ultimate year at High School (1880) had been capable of attaining the point of greatest altitude against the whole concurrent strength of the institution, 210 scholars : Stephen’s higher, more sibilant, who in the ultimate hours of the previous day had augmented by diuretic consumption an insistent vescical pressure.

(Ulysses, p. 655)[4]

ulysses

Here (and elsewhere in the novel), there is a collision between the apparent psychological scantiness of the subjects and the verbal opulence with which they are treated. Suitably enough, the experiences of Bloom and Stephen are focalized through Joyce’s avatar in the text according to the conventions of the cathetic form, or in Joyce’s own words, ‘mathematical catechism’.[5] By categorizing the verbal details of the text and attempting to render the human within this ‘cosmic physical’ frame, Joyce’s writing not only tests the boundaries of genre but also produces a convulsion of subjectivities and data, making the distinction of voices virtually impossible. If the language in the passage with its doctrinal, pedantic (and clichéd) quality does not belong to Bloom (‘irruent’) or Stephen (‘sibilant’), it may not be characteristic of the narrator either.[6] In fact, this current of changing impressions goes so far as to produce a sense in which there seems to be no viewpoint at all outside the text from which the characters and events are observed, anymore then there seems to remain no objective reality apart from the one produced in the narrator’s consciousness.

   In an illuminating study of Joyce, Steven Connor argued that the chapters of the novel seem to form a pattern of stylistic rivalry.[7] The scholar suggests that this stylistic competition amongst the chapters often functions not to give expression to a consciousness, but rather, it represents ‘alien threats to or potential distortion of, that consciousness’.[8] If Joyce’s provoking stylistic design represents a discontinuity of consciousness, a debunking of a coherently expressible, obviously organized and consistently established structure of feelings and thoughts, as Connor suggests, it does so by continuously and self-consciously asserting an overarching unifying sensibility, one which authoritatively interpolates the purposelessness, seemingly pointlessness argument and the supreme autonomy of the work: that of the author, of James Joyce himself. In this way, the more the text disseminates this discontinuity of consciousness by its continuous change in style, mode, tone and diction, the more it establishes the (narcissistic) consciousness of its own author, one which is not only asserted, but in my view also performed in the text.

   Extending this point, ‘personality’ is always in tension with ‘impersonality’ in Ulysses.[9] According to Joyce, the aesthetic emotion is static and clinical, it arrests the mind and raises it ‘above desire and loathing’.[10] T.S. Eliot’s declared in ‘Tradition and the Individual Talent’ (1919) that a literary work is ‘not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; it is not an expression of personality, but an escape from it’.[11] Expanding on Eliot’s argument, it becomes plausible to suggest that Joyce’s attempt to evade expressions of a particular consciousness (being it of the characters or of the writer himself) by constantly incorporating new genres in the textual fabric of the novel is, in fact, an assertion of Joyce’s own literary ambition and distinct artistic personality.

     This critical instance has another nuance. In a cold, ruthless manner the text manages to implement an ironic detachment between itself and the content it presents. Characteristically, to codify even more the semiotic situation in Ulysses, the narrator plunges into libelous subjects (‘the problem of irritability, tumescence, rigidity, reactivity, dimension, sanitariness, pelosity.’, p. 665) and reflects dispassionately on the shabbiness of ordinary life (‘both contemplate each other in both mirror of the reciprocal flesh theirhisnothis fellowfaces.’,p. 664) but offers no comment on the material related. It is plausible to suggest though that the narrator retains, nevertheless, some of Joyce’s own systematic inclination to scholastic, scientific and even theological thought.[12] Indeed, the author’s almost prurient captivation by ordinariness is established in the text rather magnificently. Joyce manages to combine the cult of the prosaic with wholehearted affinity with it.

     Form and content in To The Lighthouse have a similar vexed relation. However, the narrator’s deliberate (but not always ironic) detachment in Woolf’s text is never in the depraving, corrupting, unpalatable Joycean sense. The perception of inner processes in the novel, that is, the interior movement of characters’ and narrator’s consciousness, is systematically described (represented) by association, exposition or allusion to exterior reality. Nevertheless, these agents are not necessarily involved in the external occurrences. If the minds of the characters in the novel are momentarily anchored in the reality of the body or of real life, it is never in the same bluntly grocer context as in the passage from Ulysses above; instead, it is more likely to be because it leads to an excursion to some subjective, ethereal realm:

“And even if it isn’t fine to-morrow,” said Mrs. Ramsey, raising her eyes to glance at William Bankes and Lily Briscoe as they passed, “it will be another day. And now,” she said, thinking that Lily’s charm was her Chinese eyes, aslant in her white, puckered little face, but it would take a clever man to see it, “and now stand up, and let me measure your leg,” for they might go to the Lighthouse after all, and she must see if the stocking did not need to be an inch or two longer in the leg.

       (TTL, p. 24)[13]

The balance of this extract shifts from apprehensions of interior worlds (Mrs. Ramsey’s and the narrator’s) to presentations of penetrable objects and impenetrable substances. If the scene reveals a ‘myriad of impressions’ in Mrs. Ramsey’s mind, it also suggests at least two distinct layers of voices.[14] Through free indirect speech, Woolf simultaneously opens and bridges a subjective and linguistic gap between character and narrator. This technique enables the reader to see, hear and imagine things through Mrs. Ramsey’s physical eyes (‘and now stand up’), through her mind’s eyes (‘it would take a clever man to see it’) and through the narratorial function (‘for they might go to the Lighthouse after all’); but also through the language of both. In this sense, the novel relegates not only consciousness but also language to relative, temporary state. Thus, the characters’ consciousness in the novel blurs into everything which surrounds them.

     This strategy implies a ‘double flexibility’.[15] The narrative operates in a multitude of simultaneous time dimensions (Mrs. Ramsey’s moment with James, the unspecified time of her conjecture on Lily’s attractiveness, the moments of authorial flagging – e.g. ‘she said’) and promenades itself elastically in space; sometimes observing Mrs. Ramsey, sometimes calling on William or on the Lighthouse. In his anthological study of the brown stocking episode in To the Lighthouse, Erich Auerback stresses that the narrative’s elasticity is constructed around interruptions. Indeed, the novel spatial-temporal expansions and contractions are woven in and utilized as frames for inner processes, both of characters present in the scene and for the perspective of characters that are physically absent. In the passage above, Mrs. Ramsey initial comment is continually interrupted by external occurrences and thoughts: first by the image of Bankes and Lily, then by the impressions these two characters have left in her mind. By the time Mrs. Ramsey finishes her sentence (‘and now let me measure your leg’), the reader is allowed a detailed intrusion in her memory, private thoughts and physical actions. Auerbach suggests that Mrs. Ramsey’s action of measuring the brown stocking against James’ legs dramatizes multiple works of consciousness, but in my view, it also connects the character with subliminal appearances and vibrations and establishes the (fragmented) continuity of the section. The novel embroiders the details at which Mrs. Ramsey is gazing at or focusing on into the activity of her own thoughts. In this way, the text of To the Lighthouse both structures the subjects within these dynamics and is structured by them.

     Time is a subjective process in both novels. The reader is embedded in it and experiences it in different ways. As both novels are concerned with the representation of states of mind, time is also embedded in the consciousness of the characters.[16] For Mrs. Ramsey in To the Lighthouse, the ephemeral moments, if they are saturated with significance, they are as important as if they were ten years for a character in a realist novel:

For she knew that he had turned his head as she turned; he was watching her. She knew that he was thinking, You are more beautiful than ever. And she felt herself very beautiful.

         (TL, p. 115)

Virginia Woolf To the Lighthouse 1927

In this passage and elsewhere in the novel, there are many things occurring in any moment simultaneously. Mrs. Ramsey’s words, feelings and thoughts are filtered through the third person narration. This instance of reported or indirect speech allows the narrator to let the reader know what Mrs. Ramsey is thinking; arguably in her own inflection, without the conventional authorial flagging (‘she though’ or ‘she said to herself’). It also facilitates the encompassing of unredeemed fragments of time. There is a sense throughout the novel that something meaningful, stable and eternal is at the core of personal experiences, of which we are only able to grasp a fleeting glimpse. Mrs. Ramsey represents one way of approaching experience. Her subjectivity is textually set against Mr. Ramsey objectivity.[17] Although they each have their moment of vision, Mrs. Ramsey seems to be always trying to make from the moment something permanent. Woolf continuously deploys different modes of indirect speech, most frequently free indirect style to slip in and out the character’s consciousness and incidentally give the reader a sense of multiple time frames; lapses of time which can be chronological, cyclical, mythical, subjective and so on.[18] The novel’s capacity to depict speech, consciousness and span of time is both mimetic and generative.[19] In this way, the characters’ stream of thoughts and their subjective apprehension of time, although seemingly organic and flowing, are actually affects of a meticulously studied narrative technique, one in which Woolf (and Joyce) is a prolific master.

     There is a remarkable artistry in the very act of perception in both novels. I have argued that Woolf and Joyce emphasized not only in To the Lighthouse and Ulysses but throughout their careers the urgency of reformulating language and literary representation by diverging radically from modes of realistic aesthetic. In their deliberate effort to produce a different kind of fiction, and extend its franchise, both writers developed a revolutionary and seminal mode for rendering the flux of experience and its impressions on the mind. The apprehension of the elusive relationship between the mind and reality in To the Lighthouse and Ulysses produces a fictional world which is nevertheless exuberantly embedded in the very elusiveness of the reality they wish to represent. The subjective flow of mental processes is in continuous dialectic with external objective events. If the world in both novels is vivid, radiant and mysteriously meaningful (in Joyce’s case usually profane), it is also somehow dependent on the mind, on the consciousness of both characters and narrators. Both novels powerfully undercut the idea of a stable, non-fragmented, realistically representable human subject. By deploying a constant interplay between modes of speech and generic conventions and performing continuous shifts in perspective both temporal and spatial, both writers become a kind of cchroniclers of the aesthetic and ontological anxieties of the early twentieth century. Each created an extravagant atmosphere of thought in their works and an unprecedented form of representing states of mind.

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[1] Quoted in Harold Bloom, Novelists and Novels: A Collection of Critical Essays (New York: Checkmark Books, 2007),

[2] James Wood, How Fiction Works (New York: Picador, 2008), p. 3.

[3] Peter Brooker (ed.), Modernism/Postmodernism (Harlow: Pearson Education Limited, 1922), p. xi.

 

[4] All quotes from Ulysses will be taken from James Joyce, Ulysses, ed. by Jeri

Johnson (Oxford: Oxford University Press, 1998).

[5] Richard Ellman, Ulysses on the Liffey (London: Faber and Faber, 1974), p. 156.

[6] Derek Artridge, Joyce Effects: On Langrage, Theory, and History (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), p. 94.

[7] Steve Connor, Writers and their Work: James Joyce (Plymouth: Northcote House, 1996), p. 61.

[8] Ibid.,p. 61.

[9] For the quest for ‘impersonality’ in literary Modernism see Peter Childs, Modernism (London: Routledge, 2000), p. 7.

[10] Joseph Brooker, Joyce’s Critics: Transitions in Reading and Culture (London: University of Wisconsin Press, 2004), p. 21.

[11] Tim Armstrong, Themes in 20th Century Literature and Culture: Modernism (Cambridge: Polity, 2005), p. 91.

[12] Terry Eagleton, The English Novel: An Introduction (Oxford: Blackwell, 2005), p. 284.

[13] Virginia Woolf, To the Lighthouse (London: Vintage, 1990), p. 24. All quotes from the novel will be taken from this edition and abbreviated as above.

[14] Virginia Woolf, ‘Modern Fiction’, in Woolf, The Essays of Virginia Woolf, 4 vols., ed. Andrew McNeillie (London: Hogarth Press, 1988),vol. IV, p. 160.

[15] Suzanne Raitt, Virginia Woolf’s To the Lighthouse (London: Harvester Wheatsheaf, 1990), p. 68.

[16] Interestingly, Derek Attridge asserts that the function of the term character is that it crystalizes and enforces a number of assumptions about the human subject. See Derek Attridge, Joyce Effects: On Language, Theory, and History (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), p.52.

[17] Gay, Peter, ‘On not Psychoanalyzing Virginia Woolf’, in The American Scholar, Vol. 71, No. 2 (Spring 2002), pp.71-75, [Stable URL: http://www.jstor.org/stable/41213293], accessed on 26 April 2015.

[18] Lyn Pykett, Engendering Fictions ( London: Edward Arnold, 1995), p. 9.

[19] Angela Frattorola, ‘Developing an Ear for the Modernist Novel: Virginia Woolf, Dorothy Richardson and James Joyce’, in Journal of Modern Literature, Vol. 31, No. 1 (Fall 2009), p. 137.

Escrita com estilo: Mont Blanc, edição escritores


A famosa empresa Mont Blanc, fundada há 106 anos por dois alemães, criou uma linha de canetas e penas homenageando os escritores Honoré de Balzac (Tours, 20/05/1799 – Paris, 18/08/1850) e Daniel Defoe (Londres, 10 de outubre de 1660 – Londres; 24/04/1731), três versões para cada escritor. A mais barata custa EUR 670, 00 e a mais cara EUR 890,00.  Todo detalhe dourado é ouro. Qual a sua preferida?

Linha Balzac

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Linha Defoe

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Claro que é um luxo para poucos. E não é a caneta que faz o escritor, quantos dos bons devem ter rabiscado suas obras com a boa e velha Bic?!

Lá no site da Mont Blanc fizeram uma breve descrição dos escritores (em espanhol). Daqui não me permitem acessar o site brasileiro. Aí também saiu essa linha?

Ah, meu aniversário é no dia 4 de agosto. 😀

Lewis Carroll sob suspeita, as duas Alices


Hoje é a data da morte do escritor, matemático e fotógrafo inglês Lewis Carroll. Seu nome de batismo era Charles Lutwidge Dodgson, nasceu em Daresbury em 27 de janeiro de 1832 e faleceu de uma pneumonia em Guildford no dia 14 de Janeiro de 1898. Filho de um reverendo da igreja anglicana, estudou Matemática em Oxford, trabalhou na universidade como professor.

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A polêmica e desconfiança rondam o nome do escritor, porque ele andava sempre rodeado de crianças e as fotografava nuas. Ele adorava fazer truques de magia, contar histórias para elas, daí a aparição do livro “Alice no País das Maravilhas”, inspirado na filha do reverendo e escritor Henry George Liddell, a menina Alice Liddell, que foi fotografada por Carroll durante sua infância até os 16 anos. A menina fingindo- se de mendiga:

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Carrol fotografava crianças nuas com o consentimento dos pais, fazia piqueniques, tornou- se uma espécie de “tio” para os filhos dos amigos. A foto abaixo é numa dessas ocasiões, com Louisa MacDonald e as quatro crianças MacDonald:

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O comportamento de Carroll é mal visto, sua sexualidade questionada e muitos pensam que a sua relação com Alice era sexual. Desde 1930, três biografias publicadas por Donald Thomas, Michael Bakewell e Morton Cohen sugerem que era pedófilo. Em 1967, Laurence Irving, cenógrafo, filho de um dos amigos de Carroll, disse, respondendo ante todas essas especulações que corriam em Oxford, que Carroll era “uma sátira obscura em pele de cordeiro”, insinuando sua culpa.

En 1999, Karoline Leach publicou outra biografia sobre Carroll, In the Shadow of the Dreamchild, na qual menciona a falta de informação e de argumentos de seus predecessores, citando a incompreensão no seu tempo e sociedade, a qual criou- se o mito de Carroll acerca de sua sexualidade. Mas como dizem, amigos, “onde há fumaça há fogo.” Carroll beijando a menina Alice. Isso o que ele fazia diante de uma câmara e por detrás dela?

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“Alice no País das Maravilhas”, publicado em 1865, é uma obra cheia de enigmas matemáticos e trechos incompreensíveis para os dias atuais, já que conta coisas referentes ao momento da sua escritura e que só fazem sentido na língua inglesa. O livro teve bastante sucesso na sua época e influenciou Walt Disney e Salvador Dalí.
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Quase 150 anos depois de sua publicação, “Alice no país das maravilhas” continua vivo, teve várias versões cinematográficas e para a televisão, as crianças continuam lendo a história da Alice, que toca num coelho e é transportada para um mundo mágico, de seres absurdos, numa atmosfera onírica. A história é cheia de ironia e indiretas para pessoas do convívio de Carroll, portanto, na obra há duas interpretações possíveis: uma para as crianças e outra para os adultos. A Alice lúdica, inocente e a Alice que foi maculada, uma Lolita de Nabokov, a Alice que beijava na boca do filho do padre, que posava sensual diante da lente do fotógrafo. Carrol sob suspeita: um anglicano ultra-conservador do século XIX, que tirava fotos de meninas nuas em poses sensuais contrariando religião e sociedade supõe uma força maior…desejo sexual ou arte?
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Retrato de Evelyn Hatch, 1878 por Lewis Carroll
Certeza que você não lerá “Alice” com os mesmos olhos, certo?!
Fontes: http://www.smithsonianmag.com/ e http://molhoingles.com/