Você sabe qual foi a primeira gramática da língua portuguesa? (PDF grátis!)


Para os amantes “da última flor do Lácio”, deixo aqui o PDF da primeira gramática da língua portuguesa, uma joia escrita há 482 anos por Fernão de Oliveira (1507-1581), nascido em Aveiro, terra dos meus ancestrais. Viveu muito para o padrão da época e ainda mais com uma vida tão aventureira. Sobre o local da sua morte há incertezas. Pode ter sido em Aveiro, Lisboa ou na França.

O aveirense foi “gramático, historiador, cartógrafo, piloto e teórico de guerra e de construção naval”, Fernão foi clérigo, espião, soldado, diplomata, revisor/corretor e professor de retórica na Universidade de Coimbra. Morou na Espanha, Itália, França, Inglaterra e na África. Foi acusado pela Santa Inquisição portuguesa por heresia várias vezes e preso por isso. Uma figura interessantíssima, que teve uma vida agitada e nada convencional. Veja mais detalhes.

E Fernão ainda teve tempo para escrever! Escreveu não só a primeira gramática da nossa língua, Grammatica da lingoagem portuguesa”, também livros náuticos muito importantes.

E já que estamos falando em gramática, quero comentar uma curiosidade: historicamente, o nosso idioma foi classificado em “português antigo” (até o séc. XIV), “português médio” (durante o séc. XV), “português clássico” (meados do séc. XVIII) e “português moderno” do séc. XVIII até hoje. Um aspecto interessante sobre a nossa língua oral é que as vogais no português brasileiro e africano soam muito mais parecidas com o português antigo, médio e clássico, que o português de Portugal. Curioso, não? * 

Eu fiquei emocionada “folheando” a  “Grammatica da lingoagem portuguesa”, dá para entender tudo o que ele escreveu há quase 500 anos, mesmo com muitas direferenças ortográficas. O idioma tinha algumas semelhanças com o espanhol e achei curioso que naquele tempo ele colocou a cedilha no “c” antes de e:

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Quem é professor de português sabe que um erro recorrente é a cedilha antes de “e” e “i”. Tá vendo? Deve ter ficado no DNA… 🙂

Vale muito a pena ter esse exemplar na sua biblioteca virtual pelo imenso valor histórico e o prazer de dar essa volta no tempo. Clica aqui.

*Gramática da língua portuguesa, vários autores, (nove!), da Editora Caminho, Portugal, 2004.

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Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em “Cidade de Deus”, por Ísis Moraes


Você sabe o porquê do Brasil ser tão violento? O colonizador saiu do Brasil, mas a mentalidade da colônia permanece. Leia o irretocável e esclarecedor texto de Ísis Moraes:


 

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em Cidade de Deus

As margens da sociedade sempre reservaram aos seus inquilinos uma ampla galeria de privações. Da miséria mais sofrível à mais abjeta ausência de cidadania, despossuídos de toda sorte viram-se, no largo curso da História da humanidade, animalizar e coisificar em favor das elites. Subjugados por um poder que esteve quase sempre além de uma compreensão por vezes tolhida pela fome, pela jornada exaustiva de trabalho, pela inacessibilidade ao sistema educacional, pela dor física e moral, pelo medo e outras formas de coerção, esses condenados à marginalidade viveram quase sempre em função de um único mediador: a violência. Da mais cordial à mais dolosa, é a voz dela que os embala desde o berço até as valas onde depositam seus corpos anônimos e espoliados.

Não é de se estranhar, então, que a linguagem que lhes soa mais familiar seja aquela que ajusta a palavra “defesa” à lâmina afiada que se insurge contra a garganta do opressor. Assim, se por um lado é a voz da violência que os conduz ferozmente à servidão silenciosa, é a sua força que os liberta e os põe de novo frente a frente com a humanidade perdida. Como assinala Jean-Paul Sartre, no prefácio do livro Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, “na falta de outras armas, a perseverança da faca será suficiente” para resgatar aquilo que nunca deveria ter sido usurpado:

Encontramos a nossa humanidade do lado de cá da morte e do desespero, ele a encontra do lado de lá dos suplícios e da morte. Fomos os semeadores de ventos; ele é a tempestade. Filho da violência, extrai dela a cada instante a sua humanidade; fomos homens à custa dele; ele se faz homem à nossa custa. Um outro homem, de melhor qualidade. (SARTRE, Jean-Paul. In: FANON, 1979, p.16)

Na visão de Sartre, o temor que os explorados experimentam diante dos inesgotáveis meios de repressão do dominador surge como o responsável direto pelo furor que os inspira a reclamar o que lhes é de direito. Encurralados entre as armas que apontam contra eles e os “desejos de carnificina” que lhes tomam, acabam por explodir veementemente contra o seu antagonista, devolvendo-lhe a sua própria crueldade, que se avoluma e os dilacera. A imagem que se vê, então, assemelha-se a de mendigos “lutando, em sua miséria, contra ricos poderosamente armados”, na tentativa desesperada de fazer a violência “cicatrizar as feridas que ela mesma fez”.

No vermelho do sangue opressor que se derrama – produto de duas violências que se chocam e se equiparam – nasce a consciência de que os pobres nem sempre precisam ser “desamparados” e “dóceis”. É através da arma que muitos descobrem que também podem ser terríveis. E que a “liberdade”, forjada a quente no seio do embate, é um privilégio que também lhes cabe. A partir disso, o dominador jamais deixa de ser o oponente. Mais que isso. Frantz Fanon o coloca na alça de mira da “coisa colonizada, oprimida, espoliada”: será sempre “o homem a abater”. Isto porque o explorado é um perseguido que acalenta constantemente o sonho de comandar a caçada. E não se trata de competir com o inimigo: quer o lugar dele. As disparidades entre os dois universos não permitem, em hipótese alguma, a coexistência. Em sendo assim, não hesitará um segundo em matá-lo, sobretudo porque desde muito cedo percebe claramente que o mundo estreito e semeado de interdições que o aflige não pode ser reformulado senão pela violência absoluta, afinal, como constata Fanon, “o colonialismo só larga a presa ao sentir a faca na goela”. É, pois, uma violência em estado bruto, que só se curva frente a uma violência ainda maior. Trata-se de tomar tudo aquilo que sempre foi negado pelo poder:

A cidade do colono é uma cidade sólida, (…) iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. A cidade do colono é uma cidade saciada, indolente, cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. (…) é uma cidade de brancos, de estrangeiros./ A cidade do colonizado (…) é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. (…) é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. (…) O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se à mesa do colono, com a mulher deste, se possível. O colonizado é um invejoso. O colono sabe disto; surpreendendo-lhes o olhar, constata amargamente, mas sempre alerta: ‘Eles querem o nosso lugar’. É verdade, não há um colonizado que não sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar no lugar do colono. (FANON, 1979. pp. 28-29)

Mas só há um meio de se conseguir isso: assumir a identidade forjada pelo opressor. Esse título, porém, trará sempre consigo a marca da ambigüidade. Isto porque se por um lado o bandido é visto como nada mais que um criminoso comum pelos olhos da lei que protege os ricos, por outro será encarado como o herói de uma gente pobre e humilhada, que vê na sua insubordinação o seu próprio triunfo. Inimigo do senhor e do Estado, o bandoleiro torna-se, pois, o campeão e o vingador dos desprovidos. E uma vez figurando no imaginário coletivo popular como símbolo de protesto e rebelião social, este líder da “libertação” será amplamente admirado, ajudado e sustentado por sua gente, sobretudo porque a sua revolta – salvo nos casos de delação – não costuma atingir seus iguais, apenas os que se encontram do lado oposto da miséria:

O indivíduo que sucumbe numa peleja depois de ter abatido quatro ou cinco policiais, o que se suicida para não denunciar seus cúmplices, constituem para o povo guias, esquemas de ações, ‘heróis’. E é inútil, evidentemente, dizer que tal herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o ato pelo qual este homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é (…) dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, (…) O processo de identificação é imediato. (FANON, 1979, p. 53)

Legítimos representantes de um mundo em dissolução, os bandidos sociais não são apenas homens fisicamente aptos que, a passar fome, preferem tomar pelas armas aquilo de que necessitam. Surgem como sintomas de uma grave crise, imbuídos da missão de desagravar as injustiças. Sonhando com um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, onde a submissão não mais seja imposta como norma da vida humana – o que dificilmente sairá do plano da idealização –, quase sempre ajudam a gente humilde que os acolhe e admira. Roubando dos ricos para dar aos pobres, muitos bandidos acabam por encarnar o mito do Robin Hood, o ladrão nobre. Mas, de acordo com Eric Hobsbawm, em sendo a realidade como é, poucos deles possuirão a abnegação, o idealismo ou a consciência social para exercer esse papel. Assim, tirar dos ricos é uma certeza; dar aos pobres, nem sempre. De toda sorte, representam o produto da contrapartida da passividade geral dos necessitados e, portanto, afirmam-se como seus “legítimos” defensores.

Fenômeno universal, nascido das entranhas de todas as épocas de pauperismo e cerceamento, o banditismo social não encontrou, no entanto, seu lugar na contemporaneidade. É, pois, no dizer de Eric Hobsbawm, um fenômeno do passado: “O mundo moderno o matou, substituindo-o por suas próprias formas de rebelião e de crime” (HOBSBAWM, 1975, p. 18), diz ele, como que a reiterar que, num tempo regido pela voracidade de um capitalismo que nega em absoluto toda uma legião de miseráveis, colocando-a sob suspeição e vigilância constantes e empurrando-a cada vez mais contra as suas margens, até o sufocamento completo, não há mais espaço para delito algum que conserve o menor resíduo de nobreza.

No encalacrado mundo das grandes metrópoles, despossuídos, subnutridos, e também negros e mestiços, são as vítimas preferenciais de uma violenta política de saneamento social que visa unicamente a sobrevivência da dita sociedade “sã”: endinheirada, poderosa e branca. Os que não se encaixam neste perfil devem permanecer isolados, acuados nos becos das neofavelas, que nada mais são do que depósitos de gente, uma gente enquadrada pelo sistema como portadora de uma “identidade social maléfica” (ZALUAR, 1987). Para esses suspeitos em potencial, cruzar a fronteira que leva à “cidade ideal” significa quase sempre ser eliminado: ou será preso, ou será morto.

Essa nova forma de “colonização” acende o estopim de uma violência ainda mais apta a passar por cima de todas as barreiras interiores. Mais uma vez é ela a mediadora do conflito. E é exatamente sobre esse novo estágio de rebelião – e por que não dizer descolonização? – que a narrativa de Paulo Lins se debruça. Intitulado Cidade de Deus, o romance desnuda os conflitos existentes no tecido social do país e aponta uma arma para a cara da sociedade brasileira. Encurralada, esta já não tem outra alternativa senão enfrentar os fantasmas que ela mesma criou. Afinal, o tempo da indiferença foi “passado” e o crime nos diz, altissonante, que não há mais conciliação possível. Decretando a morte do malandro, o livro indica que o que nos identifica hoje é tão somente uma rasura e esclarece que a explosão da violência não mais nos permite pensar o país pelos moldes da “cordialidade” e da “harmonia”. O tempo presente refuta idealizações desta ordem, insurgindo-se veementemente contra a pseudotranqüilidade de uma identidade nacional forjada ao longo da história.

Nascido da truculência colonialista, o Brasil revelado por Paulo Lins parece não mais aceitar refletir imagens distorcidas pela conveniência. O seu retrato de agora é nítido e estampa sorrisos caídos de bocas sem dentes, que tramam a morte nos conchavos de becos. Nesse sentido, Cidade de Deus ilumina os labirintos de um conjunto habitacional do Rio de Janeiro criado parra “conter” não seres humanos dotados, cada um deles, de identidades individuais, mas uma massa de miseráveis forjada pelo Estado e homogeneamente marcada pelo signo da “delinqüência”. O que se vê, então, e de dentro, é um “retrato hediondo” de um Brasil que, acossado pela pobreza, pela discriminação e pela indigência, mata, assalta, estupra, trafica e se vê obrigado a fugir constantemente de uma polícia igualmente violenta e quase sempre corrupta. Mais do que nunca, viver, em Cidade de Deus, é não morrer, mesmo para aqueles que não abraçam a carreira do crime. Sim, sempre haverá os “otários”, que trabalham honestamente mesmo sabendo que jamais irão a lugar algum com a “merreca” que lhes pagam. Já os “bichos-soltos” optarão sempre por cobrar na bala o que julgam que a sociedade lhes deve:

Lembrou-se (…) daquela safadeza do incêndio, quando aqueles homens chegaram com saco de estopa ensopado de querosene botando fogo nos barracos (…). Fora nesse dia que sua vovó rezadeira, a velha Benedita, morrera queimada. (…) ‘Se eu não fosse molequinho ainda’, pensava Inferninho, ‘eu tirava ela lá de dentro a tempo e, quem sabe, ela tava aqui comigo hoje, quem sabe eu era otário de marmita e o caralho, mas ela não tá, morou? Tô aí pra matar e pra morrer.’ Um dia após o incêndio, Inferninho foi levado para a casa da patroa de sua tia. (…) Ficava entre o tanque e a pia o tempo todo e foi dali que viu, pela porta entreaberta, o homem do televisor dizer que o incêndio fora acidental. Sentiu vontade de matar toda aquela gente branca, que tinha telefone, carro, geladeira, comia boa comida, não morava em barraco sem água e sem privada. (…) Pensou em levar tudo da brancalhada, até o televisor mentiroso e o liquidificador colorido. (CD, p.23)

Como se pode notar, o “favelado” também lança sobre a cidade dos ricos aquele mesmo olhar invejoso que deseja arrancar dela tudo o que ele nunca teve, e sobre os seus donos aquele mesmo ódio que ambiciona exterminá-lo. Se o bandido social não mais existe nas modernas sociedades, os resquícios de seu levante ainda permeiam o cotidiano daqueles que se revoltam frente às injustiças. A sua carabina pode ter mudado de mãos, mas o alvo ainda é o mesmo. Desse modo, a bala freqüentemente vem a substituir a palavra que o “bicho-solto” é obrigado a engolir a seco: Falha a fala. Fala a bala. (CD, p. 21)

Mas o caminho trilhado por essa neodescolonização é ainda mais sangrento, sobretudo porque tem de lidar com um esquema muito bem montado de alienação, que, por vezes, desvia o foco da violência do explorado, fazendo-a recair sobre ele próprio. Trata-se de um jogo, que leva o oprimido a incidir numa sangrenta guerra contra os seus. Retomando Fanon, exposto a tentativas diárias de morte, à fome, à expulsão do quarto não pago, à falta de oportunidade de trabalho digno, à bala perdida que cruza os becos em busca de um corpo, o espoliado chega a ver seu semelhante como um inimigo implacável. E nessas circunstâncias o assassinato é só mais um passo. O próximo, talvez. Além disso, no mundo do crime urbano, diferentemente do que ocorre no universo rural do banditismo social, proteger os inocentes já não é mais um requisito moral. Se os “bichos-soltos” o fazem, é puramente por interesse. E num ambiente em que “é mais seguro atirar primeiro e fazer perguntas depois”, este costuma ser altamente volúvel. Por isso, entre a arma e a sina que ela terá de cumprir, o inocente é quase sempre um obstáculo a ser derrubado em favor da demanda individual.

Em Cidade de Deus, Paulo Lins evidencia o horror de um campo de batalha onde não apenas traficantes se entrematam e espalham o terror entre os seus irmãos “favelados”, transformando-os em vítimas e cúmplices do seu ódio, mas onde homens simples também se revelam capazes de assassinar cruelmente, e por motivos muitas vezes tomados como banais. Contudo, alerta Sartre, que ninguém se iluda: “não se creia que um sangue demasiado ardente ou desventuras da infância lhe tenham dado para a violência não sei que gosto singular: ele se faz o intérprete da situação, nada mais”. E não se trata de defender o crime, mas apenas de não submetê-lo às leis sumárias da conivente justiça das elites. É preciso entender que, em um contexto miserável, ser bandido quase nunca é uma opção. É, antes, uma estratégia de sobrevivência. Por isso, em Cidade de Deus, não há “bandidos” nem “heróis”, há homens, mulheres e crianças lutando para resgatar a humanidade usurpada.

De qualquer modo, é este cenário caótico, movimentado pela antiética do lucro que rege as sociedades capitalistas, que vai minando vorazmente os poucos resíduos do banditismo nobre. Se num primeiro momento Inferninho reparte o butim igualitariamente entre o bando, posteriormente Zé Miúdo não hesitará em matar um comparsa para ficar com a sua parte do roubo. Se em dado momento um “bicho-solto” pede aos seus comandados para só matar para não morrer, mais adiante assassinato será a palavra de ordem para ganhar prestígio. Se um marginal-malandro como Pardalzinho pede pela vida de inocentes e pela não violação das mulheres em certa fase do romance, depois da sua morte Zé Miúdo não pensará duas vezes em matar o avô e estuprar a noiva de Zé Bonito, um “otário” que, frente à injustiça cometida, abraçará a carreira do crime ressuscitando e encarnando, embora não por muito tempo, um dos tipos mais significativos que se inserem na linhagem dos bandidos sociais: o vingador.

Para se transformar no pesadelo de um dos mais cruéis criminosos de Cidade de Deus, Zé Bonito – até então trabalhador honesto, homem pacato, de boa família e conduta – se alia a Sandro Cenoura, traficante da região que disputa com Miúdo a liderança das bocas-de-fumo. Revoltado, irá firmar seu direito de ser respeitado pela luta declarada e se insurgirá para constituir a exceção numa comunidade em que os senhores do tráfico substituem o Estado.

Bonito manuseou a pistola 45 com a agilidade que adquirira no tempo em que servira na brigada de pára-quedistas do exército. (…)/ O volume da arma alertou os amigos:/ – Vai aonde?/ – Vou matar aquele desgraçado!/ – Meu irmão, tu não pode ir lá sozinho não, rapá! O cara é matador! Esquece isso! (…) Tu é um cara pintoso, tem tudo pra se dar bem, não entra numa de bandidagem, não…/ Bonito não dava ouvidos. Percorreu toda a rua do Meio, (…) entrou por duas vielas a passos largos, na terceira diminuiu as passadas, tirou a arma da cintura, engatilhou-a e entrou na viela (…) onde Miúdo costumava ficar. Avistou seu inimigo e mais três quadrilheiros, apontou a arma e atirou seguidamente./ Miúdo riu fino, estridente e rápido e devolveu os tiros (…), os outros dois também atiraram e acompanharam o estuprador, o terceiro tentou trocar tiros com o vingador e foi atingido fatalmente na testa./ Bonito aproximou-se do cadáver (…) colocou o pé esquerdo em cima da cabeça, o direito em cima da barriga e gritou:/ – Esse é o primeiro! Quem quiser seguir esse desgraçado vai ter o mesmo fim desse aqui! (CD, pp. 313-315)

Como todo bandido social, o destemido rival do traficante Zé Miúdo (que também não deve ser condenado nem olhado de esguelha pelo leitor, já que é tão “vítima” da situação quanto seu adversário) ganha o apoio inequívoco de sua comunidade: ferido em combate, será acolhido, tratado e amparado pelo povo do lugar, que o respeita e reverencia não só pela bravura, mas também por se configurar como um restaurador da moralidade que o tráfico apagou. Contudo, esse mesmo justiceiro não demorará a perceber que “Onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”. (HOBSBAWM, 1975, p. 56)

Isto porque, ao pôr em curso o programa de sua “descolonização”, Zé Bonito desencadeou uma verdadeira guerra em Cidade de Deus. Só não imaginava que o desagravo de sua injustiça solaparia os últimos sinais de um banditismo que inicialmente mostrara-se nobre, mas que logo se perderia nas trincheiras do crime. Por várias vezes, Bonito tentará honrar seus princípios, que em vários aspectos se igualam aos que regem a carreira do vingador nobre. Nunca matar, a não ser em legítima defesa ou por vingança justa, será o principal deles. E também o primeiro a tropeçar nas valas abertas pelo tráfico.

A partir daí, o Zé Bonito que, num primeiro instante, estranha as gírias dos marginais, que não usa drogas, que se recusa a concordar com a arregimentação de crianças para o tráfico por acreditar que o lugar delas é na escola, que proíbe a violação de mulheres e que não se esconde da polícia por não se achar um delinqüente se verá obrigado a liberar os estupros e assaltos na área do inimigo e a permitir que crianças tenham seus crânios estourados pelos fuzis dos traficantes que se arriscam a enfrentar. E como se isso não bastasse, consumirá desesperadamente a cocaína que tanto renegou. Entretanto, este bandido social pós-moderno, assim como seus “antepassados”, jamais deixará de lamentar o destino que o levou a compactuar com a instauração daquela “febre de morte” entre os homens.

Sentado num banco, as lágrimas se destroçavam no chão de cimento cru. (…) Era um bandido, um matador, um formador de quadrilha, um desencaminhador de menores. E não fora para isso que aprendera a orar quando criança, não fora para isso que sempre tinha sido o melhor aluno na escola, não fora para isso que se resguardara das amizades de rua. O curso superior em educação física havia ido para a casa do caralho, assim como a lua-de-mel com sua amada, depois de testemunhar o pênis de Miúdo na vagina dela feito retroescavadeira, o corpo do avô ensangüentado, a casa cheia de buracos de balas, a mãe de Filé com Fritas recolhendo os pedaços da cabeça destroçada do filho no asfalto quente. As lágrimas avolumaram-se. (…) A noite foi em claro. (CD, pp. 346-347)

Na reflexão de Bonito, a constatação de que um bandido, mesmo determinado a não dobrar a cerviz, não consegue fugir tão facilmente à lógica da vida numa sociedade minada pela exploração se desnuda violentamente. Depois disso, tendo cumprido, ainda que atropelado pelos percalços do crime, quase toda a sina do vingador clássico, só lhe restava o único fim destinado aos emissários do banditismo social: a morte por traição; já que, a exemplo do que afirma Hobsbawm, nenhum membro decente da comunidade auxiliaria as autoridades – sejam as do tráfico, sejam as do Estado – contra bandoleiros de sua estirpe.

O viciado olhou para trás, para os lados; não vendo ninguém, disparou três vezes nas costas de Bonito, que ainda se virou, apontou o revolver na tentativa de matá-lo. O viciado deu-lhe mais um tiro. Zé Bonito caiu. (CD, p. 375)

Mas a morte de Zé Bonito não legará aos moradores de Cidade de Deus um exemplo de coragem e honra a ser seguido. O tempo do banditismo social que inspira a admiração das massas passou. As páginas nada conciliatórias do romance de Paulo Lins não farão sucessores para este vingador. Elas vieram pelo crime. Para dizer que do ventre dele só nascem “anjos”, aqueles que cada vez mais cedo virão para cobrar da sociedade sua impagável conta.

** Este artigo está publicado em: BOTELHO, Marcos (org). Seis Passeios por Cidade de Deus. Feira de Santana: UEFS, 2007.


Ísis Moraes Ramos é jornalista e editora do Jornal Tribuna Feirense. isis.m.ramos@bol.com.br

Passeando pelo “The British Museum” em Londres


Um dos melhores e maiores museus do mundo, o The British Museum em Londres, é gratuito. É impossível ver tudo em uma visita, é um museu para voltar várias vezes. Há coleções de todos os continentes e épocas.

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Vou contar um pouco sobre o que vi por lá:

Antes de entrar há guardas revistando as bolsas. O hall de entrada é circular e muito alto, há várias portas para as coleções.

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Em todos os andares têm lanchonetes com sanduíches, cookies, bolos, chás, cafés, sucos, refrigerantes e mesas coletivas.

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No térreo também fica a livraria. Eu trouxe um livro lindo, depois vou mostrar aqui.

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 Logo à esquerda no térreo, fica a coleção do antigo Egito. E do lado direito, romanos e gregos. Há coleções desde a pré- história. Toda a história da humanidade contada através de objetos, estátuas, restos de templos e até pessoas. Há múmias como de uma das Cleópatras (foram sete).

Uma peça que chama muito a atenção é a que fica logo na entrada: a pedra Roseta de 196 a.C.. Essa pedra com hieróglifos do antigo Egito desvendada foi crucial para entender o homem daquele tempo e sua escritura, trouxe muitos conhecimentos à era moderna.

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Estátuas dos filósofos gregos:

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As esculturas gregas são em mármore e são chamadas ” Esculturas de Elgin” ou “Esculturas do Partenon”. O Paternon foi construído em 447 a.C. e essas esculturas ficaram no templo. A Grécia está brigando para reaver essas peças, mas o Museu Britânico parece que não vai devolver. Foi um antepassado inglês, Thomas Bruce Elgin, arqueólogo e militar, que levou as peças para a Inglaterra em 1801. Ele era oficial, servia na Grécia.

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“Discóbolo” de Miron, uma das estátuas mais conhecidas do mundo.

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A parte egípcia é muito interessante. A múmia mais interessante é uma que está completamente exposta. A de um rapaz que viveu há 2500 anos. Ele morreu apunhalado no peito. Só de ver um cadáver já é chocante, ainda mais sabendo que viveu numa época tão remota. Ele tem cabelos ruivos e encaracolados (no vídeo dá pra ver melhor):

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Essa é uma múmia de uma criança de oito anos. O tamanho é que quatro.

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Essa é uma visita essencial na cidade de Londres, reserve um dia inteiro ou então divida em dois dias, pois é impossível ver tudo em uma única visita. Visite e o site e veja as coleções.

Uma reflexão sobre o tempo


Quem conseguir responder o que é o tempo, terá conseguido solucionar um dos grandes enigmas da humanidade. Parece fácil se pensarmos no tempo cronológico, nas horas, mas eu falo do tempo baixo uma perspectiva filosófica/antropológica/sociológica/psicológica/histórica e até científica. E sem citar a questão mitológica do tempo. É muito pensar…

Nós passamos, o universo não. Somos provisórios, o tempo não. O nosso entendimento sobre o perene é muito limitado. O nosso alcance também. Só entendemos do tempo sobre o que vemos no nosso mundo. Descartamos outros espaços, universos, atmosferas, dimensões, essas coisas nem são consideradas. Não temos como comparar, nem como entender melhor o que é o tempo. O homem é um bicho muito limitado.

O tempo na natureza parece ter uma ordem. Amanhece, anoitece, as quatro estações se sucedem, o ciclo das plantas e animais, inclusive o nosso, mas isso tudo não tem muita precisão. Há países em que o sol nunca se põe e nesses mesmos países polares, a noite dura mais de 24 horas. Há pessoas que vivem quase o dobro da média. O tempo, vejam só, foge às suas próprias regras.

Quanto tempo vamos estar por aqui é uma preocupação comum, conscientemente ou não. Organizamos o nosso tempo em horas, dias, meses, anos, colocamos nomes e obrigações para cada dia do ano. Há o tempo certo para batizar, entrar na escola, trabalhar, namorar, casar, ter filhos, netos, o nosso tempo todo compartimentalizado, numa tentativa de organizar todo o  ciclo de vida e aproveitá- lo da melhor forma, segundo convenções, religiões, governos, diferentes tipos de poder. O tempo também é uma forma de prisão e controle.

O tempo tem muitas subdivisões, o tempo do universo, o pessoal, o  social, o psicológico, o objetivo, o místico e o biológico. A crítica é feroz quando não se cumpre o especificado para cada questão.

Existe até o tempo certo para as roupas, digo, a idade certa para vestir cada tipo de peça. As pessoas vestem- se, normalmente, de acordo à idade que têm. Pura bobagem.

Existe a hora específica para comer e o quê comer. Outra bobagem.

A idade influencia na percepção do tempo: para as crianças e  jovens, o tempo passa devagar; para adultos e idosos, o tempo passa mais rápido. Talvez a biologia tenha a ver com essa mudança de percepção, que é real.

Quando vivemos situações desagradáveis, o tempo parece não passar; quando vivemos momentos de felicidade, êxtase, prazer, parece que o tempo voa, ou seja, as emoções mudam a nossa percepção sobre o tempo.

E a crença sobre as reencarnações? A alma sempre viva em todas as eras rompendo com a finitude do tempo físico dos corpos.

Quem nunca ouviu falar nessa frase: “pra tudo tem o tempo certo” ou “tudo só acontece na hora certa” ou “tudo acontece no tempo de Deus”. Como se existisse uma força controladora do tempo e das pessoas. O que se pode chamar também de destino, algo fixo, estipulado, que foge ao controle do sujeito.

O tempo também é médico, curandeiro: “o tempo cura tudo”, “não há mal que dure para sempre”. Eu acho frases bem cretinas.

Todos os povos e religiões têm teorias sobre o tempo e seus deuses que criaram o mesmo. A maioria delas solucionou a questão da mortalidade dando a imortalidade à alma.

E a tentativa de viajar no tempo é um desejo de muitos cientistas. Viajar ao passado é possível através da memória. Ao futuro, só com o sonho e a imaginação.

Na literatura, a questão do tempo é assunto primordial, mas essa coletânea fica para outro post, só vou deixar um fragmento do mítico “Retrato” , de Cecília Meireles:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Na música  também, o tempo é tema recorrente:

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final  (“Sobre o tempo”, Pato Fu)

XXX

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo (“Tempo perdido”, Legião Urbana)

XXX

Vi o tempo passar
O inverno chegar
Outra vez mas desta vez
Todo pranto sumiu
Um encanto surgiu
Meu amor (“Você”, Tim Maia)

XXX

Mais um ano que se passa
Mais um ano sem você
Já não tenho a mesma idade
Envelheço na cidade (“Feliz aniversário”, Ira)


Do tempo, quem há de fugir?

Esse é um texto aberto, infinito, mesmo quando não estivermos mais aqui.

O rosto é o espelho da alma?


Há algumas teorias históricas que dizem que sim, que o rosto não só é o “espelho da alma”, como também pode medir a inteligência da pessoa. Uma dessas teorias, espécie de pseudociência, era chamada de “fisiognomia”, definida dessa forma*: “ciência auxiliar da psicologia que pretende determinar o caráter do indivíduo através das feições do seu rosto.

Essa teoria (falida hoje em dia) dizia das sobrancelhas, por exemplo: “as sobrancelhas espessas são símbolo de sabedoria, de força, de ânimo, de critério e talento”.

Na Antiguidade, acreditava- se que o rosto era reflexo da alma e um dos grandes difusores desse pensamento foi um italiano chamado Giambattista Della Porta. Ele era físico e parece que a ele é atribuída a descoberta do telescópio.

Segundo a fisiognomia, podia- se adivinhar o caráter das pessoas e qualidade ética comparando suas particularidades físicas com as de animais.

Mais adiante, um sujeito chamado Franz Joseph Gall, médico alemão nascido em 1758 e falecido em 1828, observou que os mais brilhantes colegas da universidade tinham os olhos esbugalhados (devia ser hipertiroidismo…hahaha). O médico, que era neurologista, achava que pelo tamanho do cérebro e o formato da cabeça era possível descobrir a capacidade intelectual do sujeito, a “frenologia”. Gall foi uma celebridade na sua época. Viajou bastante dando conferências.

Um aluno de Gall ampliou essa teoria  à área da criminologia e a polícia o levou a sério. Segundo Johann Cristoph Spurzheim, era possível saber se alguém era criminoso pela feição do seu rosto.

Outro italiano seguiu essa linha, Cesare Lombroso (1835- 1909). Ele afirmou que era possível descobrir quais eram as características dos criminosos. Ele usou a teoria da evolução de  Darwin e comparou homens e animais. Disse que os assassinos e roedores têm um afundamento da fossa occipital que faz com que o homem regresse à “animalidade”. O cientista concluiu que o comportamento criminoso não é consequência do mundo exterior e sim uma predisposição natural (por evolução) de alguns sujeitos, ou seja, que ser criminoso é característica inata de alguns seres humanos.

Lombroso estudou durante dez anos essa teoria. Juízes utilizaram seu trabalho com fim de avaliar sentenças duvidosas.

A antropologia física é estudada até hoje com objetivo de saber a história da evolução do homem. Os antropólogos tentam reconstruir o curso da evolução humana, mas não só: procuram estudar os processos biológicos e sociais e seus efeitos sobre os seres humanos.

A aparência, portanto, não é uma questão menor. Ainda existe entre nós, no inconsciente coletivo, muito da teoria dos nossos antepassados. Até bem pouco tempo pedia- se pessoas com “boa aparência” nos anúncios de emprego. E parece que persiste o estereótipo de pessoas com “cara de bandido”. Em países violentos, há pessoas que atravessam a rua quando, em sua direção, surge alguém com “aparência ameaçadora”. As pessoas sim são julgadas pela aparência.

Mas…as aparências enganam, não é?

* Gravura e informações retiradas do livro “Como medir o QI”, de Maria Díaz- Alonzo.

 

 

A biblioteca dos Templários, Ponferrada, Espanha


Há lugares no mundo que parecem mágicos, acabados de sair dos livros de contos de fadas ou dos filmes, mas que são reais, eles existem. Um desses lugares é o Castelo dos Templários em Ponferrada, Espanha.

IMG_7109  O castelo é uma fortaleza construída no século XV por D. Pedro Álvarez de Osório, Conde de Lemos. Há um castelo anterior em ruínas, do século XI, no mesmo terreno. A cidade era dominada pela “Ordem do Templo”, quando a Igreja tinha muito, mas muito poder. Ao redor do castelo formou- se uma vila romana.

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Dentro do Castelo há uma biblioteca muito especial com uma exposição chamada “Templum Libri” (“Templo do Livro” em latim) com alguns dos livros mais belos da história, que até pouco tempo estavam ocultos, pertenciam à coleções privadas, estavam em monastérios, universidades e museus. Primeiramente, tais livros só podiam ser apreciados pela igreja e realeza, a nobreza e a burguesia, quem os tinha, detinha o poder, o conhecimento.

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A maioria deles são códices e manuscritos com temáticas religiosas, ciências físicas e humanas, livros impressos ilustrados com grande valor artístico. A exposição é composta por fac-símiles (cópias idênticas às originais, costuma- se fazer quando são livros muito importantes, raros e de valor histórico) de livros, principalmente bíblias, de todo o território europeu.
IMG_7153O térreo da biblioteca:

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A coleção de bíblias é imensa, preciso de um post só para falar delas:

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A paixão pelo livro: o livro como portador de conhecimentos e obra de arte constitui uma das contribuições mais notáveis criadas pelo ser humano, o melhor da nossa herança cultural e intelectual.IMG_7292

Esses fac- símiles colocam diante dos nossos olhos um passado longínquo, que nos faz conhecer mais sobre nós mesmos como humanidade.11873484_504999292988969_4228809097412228199_n“O livro das horas”, de Medici Rothschild. Final do século XV, Inglaterra.IMG_7397

Os Cavaleiros Templários faziam parte de uma ordem militar religiosa medieval muito poderosa. Lutavam para defender e ganhar territórios.

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Libri nostri sunt. (“Os livros são nossos”). Vamos desfrutá- los!


Endereço:

 Avda. del Castillo s/n – 24400 Ponferrada- Espanha

http://www.ponferrada.org

Resenha: “O centro das nossas desatenções”, de Antônio Torres.


(…) Com sua numerosa Corte traz a Biblioteca Nacional, com mais de 14 mil livros, além de documentos, salvos do terremoto de Lisboa, em 1795. (p.68)

Por que as pessoas nascidas na cidade do Rio de Janeiro são chamadas de cariocas? Por que o Rio de Janeiro recebeu esse nome? Quando e como aconteceu o primeiro grande baile na cidade? Como se deu a colonização carioca? Aonde começou a cidade? Por que os “almofadinhas” são chamados assim, qual a origem do termo? Quer conhecer essas e outras curiosidades sobre a cidade do Rio de Janeiro colonial, imperial e republicano? Leia essa obra!

Já começa interessante pelo título, boa sacada: “O centro das nossas desatenções”. Normalmente, os centros da cidades brasileiras parecem que não recebem a atenção merecida, nem por parte das autoridades, dos comerciantes e empresas em geral, nem pelos pedestres, que passam diariamente sem ver as suas mudanças paulatinas e constantes durante o tempo.  O centro fica lá, um monumento carregado de histórias e esquecimento. Quer dizer, ficava. Antônio Torres (Sátiro Dias, 13/09/1940) com o seu olhar atento de turista (que nunca se deve perder, mesmo sendo nativo, mesmo morando num lugar há muito tempo) desfaz essa injustiça em relação ao centro da Cidade Maravilhosa. Mas não só: aponta também as suas mazelas, a parte perigosa e desagradável da cidade; também as invenções arquitetônicas que não deram certo. No Rio tem de tudo. Tudo mesmo!

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Este livro é uma crônica de memórias, autobiografia, um pequeno tratado da história do Rio de Janeiro em todas as suas fases, desde a sua dominação até a contemporaneidade.  Esse livro resgata a história da colonização e cita Cunhambebe, personagem de “Meu querido canibal”, livro espetacular do mestre Antônio, traduzido na Espanha. Um passeio pela arquitetura da cidade, suas ruas, bares, pontos-de- encontro, seus personagens e muita informação, tudo isso entremeado com fotografias reais dos lugares descritos. Antônio Torres conhece o Rio de Janeiro “como a palma de sua mão”. E aposto: mais que muitos nativos e até os mendigos, residentes fixos no centro da cidade.

Eu sou uma apaixonada pelos centros das cidades de um modo geral; no centro mora o caos sim, mas também mora toda a história e as “aves raras”, as mais interessantes; ali está a arte em todas as suas vertentes, todos os ritmos e sabores; é no centro que mora a boemia. Gente de subúrbio, de condomínios, de bairros nobres…é tão…tão…padronizada. Passear pelo centro é uma aventura sim,  é onde tudo pode acontecer. O mestre Antônio Torres cita Érico Veríssimo:

Amar é conhecer.

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 Torres, Antônio. O centro das nossas desatenções. Record, Rio de Janeiro, 2015. 79 páginas