O dia em que eu encontrei Nélida Piñón


Os hablo como una escritora al servicio de la memoria brasileña (…) (Nélida Piñón, in “La épica del corazón”)

A minha vida é comum, mas, de vez em quando, acontece algo surpreendente. Há cinco dias recebi um convite pra lá de especial, um encontro em Madri com a grande Nélida Piñón!

Sinceramente, achei que nem iria acontecer. Uma escritora com muitos compromissos importantes, consagrada (a melhor do Brasil, na minha opinião), imortal da Academia Brasileira de Letras, prêmio Príncipe de Astúrias na Espanha, entre muitos outros, pessoa acostumada a conviver com artistas, outros grandes escritores, jornalistas do mundo todo e de grandes meios de comunicação, outras gentes poderosas, inclusive da realeza… que interesse a Nélida poderia ter em conhecer- me? “Por isso mesmo”, pensei. Justamente por eu ser uma pessoa comum. Nélida é uma grande escritora, as pessoas são o seu objeto de trabalho, ela precisa estar com gente de todas as classes e feitios. Além do mais, os escritores conseguem enxergar além, fazem leituras mais profundas das pessoas.

Nélida, assim como outros bons autores, recolhem os testemunhos da nossa era. Aprisionam nessa cápsula do tempo chamada “literatura” o que somos e repassarão as nossas vozes ao futuro, principalmente quando não estivermos mais aqui. Eis o sentido real da imortalidade.

O encontro aconteceu sim. Nélida, além de ter palavra, é muito pontual.

É bem verdade que já tive um contato anterior com a autora há dois anos, quando fui editora da Revista BrazilcomZ (cessada temporariamente, no ano que vem voltará com tudo). A entrevista (escrita) foi belíssima, uma aula magistral de literatura. Vou postá- la aqui no blog nos próximos dias. 

Enfim, o encontro aconteceu no Palace Hotel de Madri,  pertinho do Museu do Prado e do Museu Thyssen, o quarteirão de ouro das Artes em Madri, na quarta passada, 22 de novembro.

Eu sou atrapalhada, constantemente acontecem situações que constrangeriam a maioria, mas como são tão comuns comigo, simplesmente as ignoro ou as trato com humor. Nélida enviou- me uma mensagem no WhatsApp, que me “esperaria sentada na ‘rotonda’ do Hotel às 16:30h”. Em frente ao Palace há uma ‘rotonda’ (rótula, como se fala em muitos lugares do Brasil) de frente à fachada do hotel; nela, está a Fonte de Netuno, onde acontecem as comemorações dos torcedores do Atlético de Madri, quando o time vence algum jogo.

Cheguei às 15:55h e fiquei diante do hotel esperando o horário combinado. “Muito estranho”, pensei. Andei pra lá e pra cá, nervosa. “Banco, que banco?”. Não havia. “Será que é do outro lado?”. No lado oposto do Palace fica o Ritz, lá sim tem alguns bancos. Quando deu 16:20h, escrevi para Nélida: “Eu estou esperando na ‘rotonda’, mas não vejo nenhum banco”. E Nélida (eu pude sentir o seu sorriso), “não, querida, a ‘rotonda’ fica dentro do hotel, já estou aqui”. Fernanda sendo Fernanda. Primeiro fora da tarde, será que viriam outros?

Subo para o hotel. Na recepção, aquela típica figura clássica de hotéis de luxo, um senhor uniformizado, aquele que recebe clientes, carrega suas malas e atende os mais variados e exóticos pedidos. Na Espanha é chamado de “conserje”. O conserje me indicou onde ficava a “rotonda”. Nesse momento, nem prestei atenção em quem estava no local e como era o ambiente. Passei o olho na enorme sala circular, com um belíssimo vitral no teto, observado só mais tarde, e vi Nélida Piñón sozinha numa mesa.

Amigos, “Rotonda” é um restaurante que fica dentro do Palace. Até então, eu não sabia que estaria a sós com Nélida, a escritora que admiro desde sempre. “A república dos sonhos” é um dos meus livros favoritos, é uma obra- prima, um livro difícil de ser escrito, um trabalho precioso de arte literária. Aqui tem a resenha, leia.

Na noite anterior, mal havia dormido imaginando que tipo de encontro seria.  Achei que seria algo coletivo com outros bloggers, jornalistas, leitores, admiradores, não sei. Mas não, eu tive praticamente uma tarde inteira de Nélida Piñón só para mim. Lembrando que as tardes na Espanha duram até às 20h. 

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Nélida Piñón no Hotel Palace em Madri, 22/11/2017 (Foto: Fernanda Sampaio Carneiro)

A dama Nélida Piñón levantou- se para me receber. Já nos primeiros minutos, todo o meu nervosismo desapareceu, ela deixou- me completamente à vontade. Convidou- me para um café e falamos de assuntos muito variados. Deixei- me conduzir, costumo ser tagarela, mas dessa vez queria só ouvir, aprender.

Nélida é elegante, alegre, falante, vital. Uma mulher rica de experiências e  ideias. É um ser que inspira, que nos enriquece. Confesso que, por duas vezes, caíram lágrimas. O outro fora da tarde? Senti- me acolhida, como se já a conhecesse há anos. Perguntou- me muitas coisas, interessou- se por minha vida.

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Selfie: Fernanda Sampaio e Nélida Piñón no Palace em Madri, 22/11/2017

Nélida irá à Lisboa para uma temporada no ano que vem. Pretende escrever um novo livro. Será uma espécie de “República dos sonhos” ao contrário? Neste, ela conta a história de galegos que imigraram ao Brasil, fato que aconteceu com sua própria família. Nélida é filha de espanhóis da Galiza. Essa nova obra será a história do êxodo brasileiro à Europa? Não tenho ideia, é só um palpite, vamos aguardar!

Sobre escritores e escritoras no Brasil, Nélida considera o trato desigual. O protagonismo feminino é bem menor, como se o que escrevessem tivesse menos importância. Essa última consideração, já minha. Temos que lutar pela igualdade de condições também nesse âmbito; aliás, em todos, editorial, acadêmico, trabalhista. Há muito machismo na área de Letras. Nos cursos universitários os homens são a minoria, mas sempre têm vagas, praticamente garantidas, no ensino superior. Ninguém repara nisto?! 

Voltando ao encontro. Também demos um pequeno passeio caminhando por Madri. Surreal. Que honra, que prazer!

Eu tenho quase a obra toda da autora, mas só levei dois livros para serem autografados, com medo de abusar de sua boa vontade. Serão mostrados na altura que postar as resenhas.

Na Espanha, saiu o mês passado pela editora Alfaguara o“La épica del corazón” você pode ver também outros títulos da autora aqui. É o “Filhos da América” editado no Brasil pela Record, quem quiser comprar, clica aqui. Na Espanha, o nome ficou bem diferente. É um livro interessantíssimo, estou louca para terminar e contar aqui para vocês!

Bem, pessoal, esse dia foi marcante e muito feliz! Cada um com sua emoção, não é? Cada qual com os seus ídolos. Essa experiência tão intensa pra mim, possivelmente tenha mudado algo muito importante no meu interior. Sinto- me com mais coragem para fazer coisas que antes não tinha. Esse é o alcance que um ser humano pode ter em outro: o de modificar vidas só com a palavra, a atenção, o afeto e a amizade. Cultivemos, pois!

À Nélida, gratidão! 

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Resenha: “A República dos Sonhos”, de Nélida Piñón


– Cuidado, Eulália, desconfie das palavras. Elas tanto afirmam quanto desdizem. E isto por conta da nossa vaidade. ( p.14)

Ler “A república dos sonhos” é ler uma vida inteira. É ler a saga de uma família, três gerações. É ler a história do Brasil, sua política, usos e costumes. É desvendar o sentimento imigrante não importando a nacionalidade, há um sentimento comum a todos. É ler a história da Galiza, suas gentes, lendas e superstições. É descobrir que a família pode ser amor e ódio.

Ler esse livro mostrou- me que o Brasil já está errando há tempo demais. A leitura do Brasil nação é atual e acaba sendo triste. Não evoluímos, o tempo não jogou a nosso favor. Ainda falta muito pra melhorar em todos os setores e temo que esteja muito distante.

De que me vale a riqueza de ter duas pátrias, se as duas me querem dividir, ambas me fazem sentir que não pertenço a lugar nenhum. (p. 182)

A memória, as vozes do passado, raízes, família, pátria, amor e ódio dão o tom da narrativa.

Com esse livro, Nélida Piñon alcançou o nível máximo na excelência da arte literária. Não se pode escrever melhor! Eu havia lido seus contos e “A casa da paixão”, mas essa narrativa prolixa e excepcional, me conquistou completamente! Posso compará- la e colocá- la no mesmo patamar de Marcel Proust, Machado de Assis ou Dostoiévski, nível A. Nélida Piñón é a Proust brasileira! Fiquei muito impressionada com essa obra.  Ah, também lembra “Cem anos de solidão”, de Gabo. Nélida Piñón tem uma escritura fina, rica e elegante. Veja como começa:

Eulália começou a morrer na terça- feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. (…) (p.7)

O primeiro capítulo serve como apresentação do casal protagonista, já idoso, que prepara- se para o final de Eulália, que pressente a morte e prepara- se para tal. Essa obra trata da história dessa família de imigrantes galegos que foram para o Brasil em busca de um sonho. O povo da Galiza tem essa vocação imigrante, na própria Espanha são conhecidos assim. Essas terras galegas não oferecem (até hoje) as melhores condições de vida e trabalho, o tempo inclemente, muita gente vive do mar e da terra, ofícios duros e sem boas  expectativas de futuro, o que os empurra a sair da sua terra. A neta Breta tenta reconstruir a saga da sua família.

– O mar é a minha memória, Venâncio. (…) (Madruga, p. 11)

Alguns personagens:

Eulália: imigrante galega (espanhola), casada com Madruga. Muito religiosa, mãe dedicada, submissa ao marido, resignada, misteriosa. Forte e frágil ao mesmo tempo. Preparou caixinhas com recordações para cada um dos filhos.

Madruga: imigrante galego (espanhol), casado com Eulália. Imigrou adolescente para  Rio de Janeiro com muita força e ganância. Teve sorte, começou a trabalhar em um hotel de um espanhol e logo passou a ser sócio do negócio. Assim começou o seu império. Machista, frio com os filhos e a esposa, os filhos o consideram um déspota.

Venâncio: velho amigo de Madruga e Eulália, chegaram juntos no Brasil em um navio inglês, no ano de 1913. Ao contrário de Madruga, não teve êxito financeiro, era seu empregado. Seus valores e sentimentos eram muito diferentes, mas mantiveram- se unidos até o final. Escreveu um diário, dessa forma podemos conhecer quem é e o que pensa.

Dom Miguel: pai de Eulália

Odete: a servente de Eulália. Apesar da abolição da escravatura em meados do século XIX, a escravidão no Brasil continuou no século XX. Até hoje vemos e sentimos as consequências.

Breta: neta de Eulália e Madruga, filha de Esperança, que morre (“spoilerzinho”!)

Xan: avô de Madruga, distante, mas sempre presente

Urcesina: mãe de Madruga

Ceferino: pai de Madruga

Antônia: filha de Madruga e Eulália

Tobias: o filho mais velho de Madruga e Eulália.

Amália: esposa de Tobias

Esperança: filha de Madruga e Eulália

Bento: filho de Madruga e Eulália

Miguel: filho de Madruga e Eulália

Luís Filho: genro de Madruga e Eulália, casado com Antônia

Tio Justo: irmão de Madruga

Dona Aquilina: a bruxa, uma “meiga” da Galiza

Maria e Viriato, imigrantes portugueses, pais de Cláudio, soldado brasileiro na Itália na II Guerra Mundial. Ele volta, mas sofre problemas mentais provocados pela guerra.


O segundo capítulo começa com a história da família contada em 1º pessoa por Madruga, que nasceu em Sobreira, Pontevedra (Espanha). Com 13 anos, planeja a viagem ao Brasil, a América é o seu sonho, acha que não tem o que fazer naquele povoado, mata virtualmente os pais, tenta retirar todo o vínculo emocional, só assim poderia sobreviver na nova terra. Quem vai e fica emocionalmente dependente dos que ficam, não consegue enfrentar a dor da separação. Ele pede ajuda financeira (a passagem de navio) ao tio Justo, um sujeito solitário e irascível, que migrou para o Brasil, mas retornou, não deu certo.

O livro inteiro é destacável, são 705 páginas magistrais, por motivos óbvios, não vou poder destacar tudo o que eu gostaria. O trecho abaixo, tão atual (a obra foi escrita em 1984, mas poderia ser hoje) dito pelo filho de Madruga, é advogado e está muito insatisfeito com a falta de valores nobres que rege o país:

“– As nossas franquias institucionais sempre representaram uma farsa, padrinho. Começando pelo aparato jurídico que é capenga, amolece diante dos regimes fortes. Por isso nos tornamos todos tiranos. Da estirpe de Getúlio, Médici e outros mais. Oferecemos cafezinho às visitas, que mal nos chegam na soleira da porta, com a chibata na mão. Não temos feito outra coisa que dilapidar um patrimônio que uns chamam de nação, outros de país, ou de pátria. O Brasil vem mentindo para si mesmo a cada hora. E não existe pior elite que a nossa. Ela condena os fracos e os miseráveis ao extermínio ou ao exílio. O exílio do silêncio e da não participação social. Da privação dos direitos humanos.”
(Tobias ao padrinho Venâncio, p. 36)

O advogado Tobias defende as pessoas sem recursos contra a ditadura. Tem muitos problemas econômicos, enfrenta a mulher, pede empréstimos bancários, vai contra o pai, com quem não se dá bem, não gosta do seu autoritarismo, o considera um déspota. Tobias ia na contra- mão dos seus irmãos que acatavam as ordens do pai, que trabalhavam nos negócios dele junto com o genro puxa- saco Luís Filho. Madruga fez fortuna no Brasil.

No entanto, ser imigrante não é nada fácil, uma verdade transportada à ficção de Nélida:

Ganhar a vida, em um país estrangeiro, equivalia no início a dolorosas amputações. A perda da alma e da língua ao mesmo tempo. (p.67)

Essa obra nos conta costumes brasileiros e espanhóis, sob a ótica dos galegos (nascidos na Galiza). O sentimento imigrante é muito parecido, não importa a nacionalidade. Em muitos momentos identifiquei- me, infelizmente, com algumas coisas que não são muito agradáveis de sentir na própria pele, trechos da página 173:

O peso:

“(…) Parecia, então, estar arrastando Espanha às costas, como se fosse uma mochila de couro. Enquanto o Brasil, a despeito do seu conteúdo jovem e falsamente lírico, igualava- se em peso a uma pedra que devesse deslocar sozinho do chão.”

Só o esquecimento salva do mal- estar diário:

“– Não se pode conviver intensamente com dois países mortíferos como o Brasil e a Espanha. Você terá que abrandar um deles dentro da alma. De outro jeito, eles terminam por mata- lo (…)

A sensação de ser um forasteiro, ainda que morando há muitos anos fora:

“(…) Pondo os pés num país que, em movimentos díspares, retinha- o e expulsava- o seguidamente. Somos e não pudesse esquecer que o Brasil não fora a sua primeira manjedoura.”

Venâncio imigrou junto com Madruga. Ele era empregado deste, que enriqueceu com um hotel. Sorte de um e falta da mesma para outro. Venâncio é melancólico, não acaba de arraigar- se no Brasil e sofre. Não tem família, não tem riqueza, parece viver sem esperança. Madruga tem o consolo do dinheiro, do êxito, do sonho cumprido e a ainda família numerosa para completar.

A história acontece na década de 30, períodos políticos complicados, tanto no Brasil quanto na Espanha. No Brasil, o suicida e ditador Getúlio Vargas teve quatro mandatos como presidente que duraram 15 anos. Um golpe militar depôs o então presidente Washington Luiz para entrar Getúlio. Anos de revoltas e assassinatos da oposição, uma história confusa e complexa; na Espanha, também acontecia uma guerra civil (1936- 1939). Ganhou a pior parte, o ditador Francisco Franco, que governou o país durante 36 anos, até a sua morte em 1975. Um longo período em que a Espanha não teve liberdade de expressão, não teve imigração, também não existiam homossexuais e nenhum opositor, já que esses eram eliminados. O mundo estava em pé- de- guerra, em 1939, também explodiu a II Guerra Mundial. Veja (p.176):

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Quem quiser conhecer melhor a história de Olga Benário leia “Olga”, de Fernando Morais. Esse é um livro que ainda quero fazer uma resenha. A história trágica dessa mulher (e de muitos outros) foi promovida por Getúlio Vargas.

A diferença entre o Brasil e a Espanha? O brasileiro parece desconhecer a história do próprio país. Uma das principais ruas da cidade que eu morava em Feira de Santana, adivinha? “Avenida Getúlio Vargas”. Tenho certeza que a população pensa que foi algum herói. Já na Espanha, os símbolos franquistas da ditadura foram retirados das ruas, praças, cidades.

Os personagens estão inseridos nesse contexto político- social e suas vidas, medos, condutas são influenciados por esses fatos. Venâncio temia que a ditadura brasileira o expulsasse para a ditadura espanhola.

Passado e presente vão intercalando- se entre os cenário do Rio de Janeiro e de Sobreira, na Galiza.

Merece destaque a relação da galega Eulália com a sua fiel empregada Odete, negra, órfã, pobre e totalmente serviçal, sem vida própria. Vivia entregada a servir a patroa sem horários e direitos, muito menos comer à mesa com os patrões. Em 2016, continua igual em muitos lares do Brasil. Na realidade baiana que conheço mais, afirmo sem medo de errar, que muitas faxineiras, cozinheiras, babás, lavadeiras e passadeiras são tratadas praticamente como se não fossem seres humanos. O lugar delas é na cozinha, a relação não é como a de outro profissional qualquer, são tratadas de cima pra baixo, como era a relação do senhor da Casa Grande e do escravo da senzala, de Brasil Colônia. Eu vi, presenciei, ninguém me contou. Espero que algum com essa doença psicológica/social/moral leia isto e caia a cara de vergonha.

Outra coisa: “pegar pra criar” alguma criança pobre, como se fosse um favor, para usá- la como escrava na sua casa, para fazer todas as tarefas domésticas não é ser “irmão ou irmã de criação”, isso tem outro nome: ESCRAVIDÃO! Pois é, na Bahia isso ainda acontece. Irmão é irmão, não é escravo.

Eulália mantinha- se alheia aos acontecimentos políticos brasileiros e do mundo, centrava- se nos afazeres domésticos: “(…) Nada escraviza mais que a devoção integral às panelas, à roda de fiar, aos utensílios, que põem uma tela escura à vista.” (p.376)

A relação entre Madruga, a esposa Eulália e o amigo Venâncio era estranha. Fiquei desconfiada que Venâncio era apaixonado por Eulália e vice- versa, e que o filho mais velho de Eulália era dele, não de Madruga. Venâncio não casou, era muito reservado, solitário e muito preocupado com a situação política da Espanha, não conseguia esquecer da terra natal. Madruga o recriminava o tempo todo,  achava que isso o impedia de ser feliz no Brasil, queria que arranjasse uma mulher, tivesse família, mas Eulália desculpava o amigo e colocava panos quentes. Madruga acabou descobrindo que o amigo adoeceu. Quando o sonho se transforma em pesadelo, Venâncio (p. 183):

– Será que não existe na terra um só lugar que acalme um homem ferido?

Nem todo mundo tem estrutura emocional para ser imigrante. Já vi brasileiros na Espanha perderem a paz, a saúde, o juízo diante do fracasso, seja qual for. Muitos ficam prisioneiros das próprias decisões, não podem ir e nem ficar, mesmo porquê, muitos já nem têm para onde ir. Conheci brasileiros que ficaram com depressão, que se auto- mutilavam, que tiveram derrame, que entristeceram tanto afundando na depressão, que já nem sabiam quem eram. O lado B da imigração que ninguém conta. Se olhar nas redes sociais, parece que todos são ricos e felizes, enquanto carregam uma mochila de fracassos. E presta atenção: nem sempre é questão de dinheiro. Vi gente enlouquecer com a conta bancária recheada. Imigração é assunto complexo que mexe com perdas, como a convivência com a família. Uma ruptura com o passado e todo o conhecido, entre muitas outras coisas, que as pessoas mais sensíveis podem não suportar. Venâncio internou- se na Beneficência Espanhola (p. 185):

– Não estou louco, Eulália. Só preciso adaptar- me à realidade feita por homens como Madruga.

Esse livro fez- me pensar sobre a minha própria condição. A conclusão foi muito positiva. Eu venho de uma tradição imigrante, pais e avós, não somos de criar limo; aliás, a hera, o musgo me remete sempre à sujeira, parasitas, grude, feiúra. Eu deixo o musgo para as pedras, que acumulam taturanas, escorpiões, aranhas e lacraias. Descobri- me uma imigrante orgulhosa. A única coisa que me arrependo é de não ter mudado mais. Além das mudanças interiores, que devem ser constantes, como a de escolher quem deve estar ao meu lado.  A vida é movimento desde que o mundo é mundo; o contrário é a morte.

A história pula para 1969, o golpe militar no Brasil. Breta era militante e teve que exilar- se na Europa. Primeiro na Espanha com o avô, depois foi para a França.

A obra é contada sob várias perspectivas, em primeira e terceira pessoa. “É preciso sentir para saber”. O outro que vê de fora, julga e vê sem conhecimento de causa. Pode mudar a história inteira! As verdades mudam, depende de quem conta.

Há muitos trechos que desvendam a conduta sexual dos personagens, que tem relação direta com suas condutas sociais, psicológicas. Inclusive, daria uma tese interessante “A sexualidade na obra de Nélida Piñón”. Nesse livro e em “A casa da paixão”, já dá um bom material. Deixo como sugestão para quem tiver interesse na área.

A relação entre os irmãos é complicadíssima, amor e ódio. A relação entre os filhos e Madruga, idem. Não é uma história alegre, é triste e complexa. O que me fez chegar à conclusão: a família pode ser a pior inimiga.

O que senti falta nesse livro é uma mais descrição física mais detalhada dos personagens, houve pinceladas, mas tive dificuldade em imaginar a maioria deles. Venâncio magro e de nariz adunco; Madruga, encorpado, de olhos azuis, bonito, o mais bonito da família. Miguel, o mais bonito dos filhos, e pouco mais, não há muitos detalhes para ajudar na visualização dos personagens.

A dificuldade com a nossa língua, do diário de Venâncio, que serve como reflexão (p. 376):

A conquista desta língua portuguesa me é penosa. Trava- me a língua, quando falo. Ela é tirânica e traiçoeira, e não basta conhecê- la. sobretudo devo vencer aqueles sentimentos subalternos, disciplinares e canónicos, de que ela se reveste. Esta língua lusa, como todas as outras, organizou- se de forma a impedir que o povo tome a si e rompa- lhe os grilhões. Os senhores da língua sempre temeram que o povo convivesse com aquela camada subjacente da língua, capaz de conduzi-lo à apostasia do imaginário. À liberdade.

O Brasil tem um “karma”, uma sorte, destino ruim, não pelo seu início, mas porque ainda não se redimiu dos seus pecados. Estagnou. Os ricos de sempre, as famílias tradicionais, conquistaram a sua riqueza com sangue e exploração dos escravizados, mais frágeis e desvalidos; os novos ricos, idem, exploram a riqueza e mão-de-obra barata. Sempre desconfio dos que fazem fortuna, porque essa sempre depende da pobreza alheia. Infelizmente, isso está instituído. O Brasil não é um país justo. O abismo social e financeiro, o apartheid  continua no ano 2016. Tais diferenças são mais notórias ainda no norte- nordeste do país.

Tobias considera Venâncio o seu pai, na verdade, o seu padrinho. Ele não gosta, tal como Venâncio, de como Madruga fez a sua fortuna. Eles têm consciência dos problemas do Brasil e de como foi construído.

(…) O Brasil era todos nós. Desgarrados e melancólicos. Seríamos, em conjunto, as falências e aspirações desta nação. (p.385)

 Temos a sensação de que o brasileiro estende tapete vermelho para os estrangeiros, mas não é bem assim. Depende. Depende do bolso do estrangeiro. Se for recheado é bem aceito. Vemos a imigração pobre que chega da América do Sul e os haitianos, depois do terremoto, serem desprezados, mal recebidos. O mito do brasileiro “acolhedor e gente boa”, é isso, só um mito, já que é seletiva. Venâncio (p. 574):

– Quando desembarquei no Rio de Janeiro, lá pelos idos de 1913, fui recebido com suspeitas. Como se fosse um salteador, um assassino. O Brasil tinha vergonha da própria origem. E demonstrava um sentimento de oposição ao estrangeiro.

Esse livro me fez pensar sobre a história do nosso país. Quem somos? De quantas nacionalidades somos feitos? O Brasil composto de imigrantes de todas as raças, privilegiando umas mais que outras. O resultado não está sendo bom. O Brasil está em dívida, uma dívida muito alta e difícil de saldar. Viramos o século, mas parece que certas coisas nunca mudam.

A obra também vai te levar até a Galiza. Para quem se interessa por essa região da Espanha (ou não) é muito interessante.

A sina do imigrante, sair de onde saiu, mas não saber aonde irá terminar:

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Parece que a república dos nossos sonhos, de estrangeiros e nacionais, ainda é um projeto para as futuras gerações.


Nélida Piñón (Rio de Janeiro, 03/05/1937) é filha de Lino Piñon Muiños e Olivia Carmen Cuiñas Piñon, galegos. A sua origem foi o motivo da escritura dessa obra. Nélida entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1989 e foi a primeira mulher a presidi- la. Ganhou prêmios importantes como o Jabuti no Brasil e o Príncipe de Astúrias na Espanha.

Veja aqui a resenha de “O calor das coisas”, contos de Nélida e “A casa da paixão”.

A autora com sua cadelinha Susi (ela tem outro chamado “Gravetinho”. A escritora é solteira e não tem filhos, optou pela liberdade (inteligente e esperta!). As fotos foram tiradas na sua casa no Rio de Janeiro com vistas à Lagoa.

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img-645729-nelida-pinon20141125151416937558Fotos de Cadu Pilotto para a revista Caras


Nélida é uma das escritoras brasileiras mais lidas na Espanha. Aqui é possível encontrar sua obra em português e espanhol. Veja aqui nessa livraria em Madri seus livros na estante.

Eu tive o privilégio e  orgulho de entrevistar a autora para a Revista BrazilcomZ, no último mês de março. Linda entrevista, Nélida deu uma aula de literatura, de vida e humildade, realmente uma pessoa e escritora muito especial! Você pode ler online a revista (páginas 13-17):

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Eu sempre me sinto realizada depois de ler um livro assim, uma obra “master blaster”. A edição lida foi essa, da editora portuguesa Círculo de Leitores, que precisa ser revisada, há erros, não da autora, mas de quem diagramou o livro. Há palavras separadas inadequadamente, deslizes de revisão.

pinonPiñón, Nélida. A república dos sonhos. Círculo de Leitores, Lisboa, 2014. 705 páginas

Ps: Estou de férias e escrevi esse post do celular. De antemão, peço desculpas pelos eventuais erros no texto. Quando chegar em casa irei revisar.

Resenha: “A casa da paixão”, de Nélida Piñón


Eu me sacrificarei ao sol. Meu corpo está impregnado de musgos, ervas antigas, fizeram mazelas e chá do meu suor, todos da minha casa. (p. 49)

Esse é um trabalho fino de escritura. A obra “A casa da paixão” fala sobre sexualidade e erotismo, mas contada figurativamente (longe da pornografia) e até um certo hermetismo, um livro que faz o leitor pensar e imaginar o que é que o texto quer dizer, é muito metafórico, cheio de imagens poéticas e silêncios. A intimidade contada por imagens escritas, cinematográficas.

As primeiras páginas deixaram- me a impressão de que se tratava de um incesto entre pai e filha, depois vi que não, que era uma moça se masturbando (e o pai fingia que não via). Marta, o seu nome. A mãe faleceu no seu parto. Marta cresceu cuidada pelo pai, que sente uma estranha atração pela filha (quando adulta) e vice- versa.

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Nélida Piñón é solteira e sem filhos, uma vida dedicada à literatura (foto: Facebook da autora)

Marta vê o mundo com seu órgão sexual. O dela e o dos outros. Ela vê sexo em tudo e em todas as partes. Freud explicaria com propriedade (eu não!) (p.22):

Pela manhã, Antônia recolhia o leite. Tocava o ubre da vaca como se o amasse, fazia uma espécie de amor naquela carne caída, lembrando a máquina do homem. Marta ruborizava- se com a comparação. Que o modo de Antônia extrair leite mais parecesse uma formosa ejaculação.

A estrutura, o bom trabalho linguístico é incontestável, mas o enredo em si provocou-me aversão em muitos momentos. Essa oba lembrou- me o estilo é de Clarice Lispector, seu livro “A paixão segundo G.H.” foi publicado em 1964, “A casa da paixão” em 1972. Não sei se serviu de inspiração ou influência. Em “G.H” há uma barata, em “A Casa”, há uma galinha ou uma mulher galinha, a criada, descrita quase como um animal imundo e mal cheiroso, mas que ainda assim provoca uma atração na pervertida Marta. Também lembre de Clarice em “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1969.

Nélida colocou Marta observando a velha criada Antônia recolhendo ovos do galinheiro, mais que isso, Antônia queria ser a própria galinha (p.28):

Ela contemplava o feno quente, justamente onde o bicho encostara a parte mais vil do seu corpo, para Marta a mais grata, ardente, a ponto de querer enfiar o dedo pelo mesmo caminho que o ovo conheceu, não para sentir o calor que a coisa fechada e silenciosa conservava, mas reconstruir de algum modo a aprendizagem da galinha, que Antônia talvez esclarecesse o domínio do seu amor. (…)

Antônia agarrava o ovo trazendo- o ao nível do rosto, cheirava a coisa entumecida, recém- abandonada na terra e, além de cheirar, beijou o ovo com sacrifício (…). Sem suportar, no entanto, o amor que desprendia daquela coisa quente, úmida, que uma galinha entre tantas ali manufaturara (…)

Antônia foi escorregando para o centro da terra, onde a galinha também nascia, todos da sua espécie (…) Antônia absorvera e agora vivia em sua pele. Ali ela ficava muito tempo, severa, até que as pernas sobre o feno se escancararam e imitaram uma galinha na postura do ovo.

Esse livro está com o título errado, deveria ser “A casa da perversão”, pois ver erotismo em coisas opostas a isso, é  perversão. Qual o limite do desejo? Existe limite? Existe dentro da nossa cultura ocidental, socialmente; individualmente, na solidão (ou não) já é outra história. Quem pode dizer o contrário?

“A casa da paixão” é considerada por muitos a obra- prima de Nélida Piñón. Não sei, porque ainda me falta muito por ler.

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Nélida Piñón na sua casa no Rio de Janeiro com a sua cachorrinha Suzy Piñón (foto: Facebook da autora)

Marta estabelece uma batalha silenciosa com o pai. O provoca sexualmente, fica nua e ele percebe que é de propósito. Que estranho triângulo esse de Marta, o pai e Antônia, que é tratada como bicho. O pai toma uma resolução (p.40):

Quase extinguindo- se a consciência jurou vingar- se. Perdão ainda preciso, resmungava. Recordou o homen da igreja, mão de árvore, ele o julgara então severamente.

–Se é de macho que ela precisa, eu lhe darei.

Entra em cena Jerônimo, trazido pelo pai, futuro pretendente de Marta. Pai e filha não mantém nenhum tipo de contato físico, temem, judiam- se, vingam- se. A filha quer ser livre e o pai tenta contê- la, sem sucesso, ela detesta Jerônimo porque foi o pai que o trouxe. Uma moça virgem que só pensa em sexo e se acha a mais desejada de todas, nem o seu pai escapa. Essa parte é  irritante. Tanta malícia pode existir em uma moça jovem e que nunca transou? Parece que sim, ela mesma se autodenomina “selvagem” (p.55).

O corpo nessa obra é o centro do mundo. Marta ama o corpo masculino como objeto de prazer, nada mais, pois detesta o que pensam, o que são (p.53):

(…) Odeio os homens desta terra, amo os corpos dos homens desta terra, cada membro que eles possuem e me mostram, para que eu me abra em esplendor, mas só me terão quando eu ordenar.

Há uma reiteração das palavras “sol”, “virgem” e “nudez”, que vão e voltam, vão e voltam, insistentemente, entre o “abrir de pernas”, que mudam de ordem na sentença, mas dizem sempre a mesma coisa. O narrador- personagem, a 1ª pessoa fez o personagem soar com muita prepotência. Marta cai antipática, com um excesso de confiança para a sua condição (a inexperiência e a juventude), pensamentos laboriosos demais (que soam estranhos), que beiram à inverosimilhança. O ritual prévio ao acasalamento é quase o livro inteiro.

Que acontecerá com o casal Jerônimo e Marta? E Antônia e o pai? Já contei demais, agora é contigo!


Nélida Piñón é carioca, descendente de espanhóis da Galiza. Possivelmente, a escritora brasileira mais premiada e internacional que o Brasil tem. Foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. Aqui na Espanha, toda (ou quase toda) a sua obra está traduzida ao espanhol.

Essa é a edição portuguesa lida. O romance é curto, pouco mais de 100 páginas, nessa edição tem um posfácio de Sônia Régis, escritora de alguns estudos literários, não achei muita coisa sobre ela, nem sua biografia na Internet,  o próprio livro não informa.

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Piñón, Nélida. A casa da paixão. Bertrand Editores, Lisboa, 2007. 136 páginas

ESTAMOS DE FÉRIAS!


Pois é, férias! Um recesso até o dia 19 de julho, quando o site vai voltar com novidades e um ritmo mais forte, muitas resenhas, sorteios e novidades sobre literatura e cinema. Por enquanto, fica o nosso arquivo com muito material para quem quiser consultar. Deixo abaixo um dos poemas que mais amo de Antonio Machado (poeta espanhol). Até mais!

Playa-de-Aguas-Santas-Las-Catedrales

Caminhante

Tudo passa e tudo fica

Mas o nosso é passar,

Passar fazendo caminhos,

Caminhos sobre o mar.

(Antonio Machado)

O original:

Caminante

Todo pasa y todo queda,

pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.

Nunca persequí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse…

Nunca perseguí la gloria.

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar…

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.

O que é Saudade


“Saudade non ten tradución a ningunha língua. Compartida por galegos e portugueses, ten unha diferenza entre ambos. Para os portugueses é ausencia de calquera cousa; para os galegos só da terra, de Galiza, presenza que, aínda estando nela, non é completa. Dicía Rafael Dieste que unha vez nela (Galiza) a terra pide máis, algo que un non sabe o que mís é.”

“Saudade não tem tradução à nenhuma língua. Compartida por galegos e portugueses, tem uma diferença entre ambos. Para os portugueses é ausência de qualquer coisa; para os galegos só da terra, presença que, ainda estando nela, não é completa. Dizia Rafael Dieste que uma vez nela (Galiza) a terra pede mais, algo que a pessoa não sabe o que mais é.”

No encarte do cd “Saudade”, do grupo de música celta galego “Luar na Lubre”, da Galiza, Espanha.

Grupo de música celta: Luar na Lubre


“Luar na lubre” é um grupo musical da Galícia (Espanha, onde fala- se galego- português) que toca um estilo raro, antigo, culto e belo, a música celta. A voz é de Sara Louraço Vidal, mas nesse vídeo canta Rosa Cedrón, sua predecessora. “Chove en Santiago”:

Os celtas viveram na Galícia, em outras províncias da Espanha e chegaram até Coimbra em Portugal no ano VI a. C.

Mais música celta: Carlos Nuñez, Milladoiro e a francesa Gwendal.

“Luar na lubre” foi- me apresentada por Alessandra Mattos que é Flickrer, ilustradora, designer e apaixonada pela banda:

Veja o trabalho dela aqui.

Update: O Fraguella deixou nos comentários uma lista de cantores e bandas de música celta galega: Fía na Roca, Fuxan os ventos, Mercedes Peón, Pancho Alvarez, Aquenlla, Os Cempés, Doa, Rodrigo Romaní, Berrogüetto, Sondeseu.

Ele também fez uma correção (obrigada!) em relação à banda Gwendal, que eu atribui nacionalidade galega, mas é francesa.

Além do Minho


Maravilhoso blog que fala sobre a cultura e língua galega: “Além do Minho”

Poema em galego de Federico Garcia Lorca:

MADRIGAL A CIBDA DE SANTIAGO

“Chove en Santiago
meu doce amor.
Camelia branca do ar
brila entebrecida ô sol.

Chove en Santiago
na noite escrura.
Herbas de prata e de sono
cobren a valeira lúa.

Olla a choiva pola rúa,
laio de pedra e cristal.
Olla o vento esvaído
soma e cinza do teu mar.

Soma e cinza do teu mar
Santiago, lonxe do sol.
Agoa da mañán anterga
trema no meu corazón.”

Que tal? Fácil de entender, não?!