O encantador de pássaros


A observação de pássaros remonta à Idade da Pedra. Os homens pré- históricos desenhavam aves nas cavernas demonstrando assim, o seu interesse e fascínio por esses animais deixando gravados seus dados empíricos. Aristóteles, 350 a.C., possivelmente, tenha sido o primeiro ornitólogo da humanidade. Os ornitólogos e os poetas, veja Manoel de Barros, encarregam- se de estudar o comportamento dos pássaros. Mas hoje, um homem é que foi observado.

Madri é uma cidade encantadora no outono. A estação começa em meados de setembro, mas é só em novembro que as folhas começam a cair formando um tapete amarelinho, amarelinho. E essa paisagem convida- me a dar longos passeios pelo Parque do Retiro, que fica no centro da cidade. O parque é um remanso de paz, é como cruzar para outra dimensão, esqueço dos barulhos da cidade.

Costumo ir de ônibus, a linha 146, e desço na Calle Alcalá. Frequento a biblioteca que fica dentro do Retiro. Tenho que cruzar metade do parque até chegar ao meu destino.

No caminho, encontrei um senhor carregando uma sacola de supermercado cheia de migalhas de pão. Ele andava rápido, ia jogando o pão e uma revoada de pássaros o seguia; vez por outra, parava e alguns pássaros comiam diretamente da palma de sua mão.

Pintassilgos, alvéolas- brancas e estorninhos, muito comuns na Europa, periquitos, pardais e pombas, esses todo mundo conhece no Brasil, todos sob a batuta do homem. Os pássaros dançavam, o homem e sua orquestra de pássaros. Era um tal de piu, piu, gru gru, crá crá, aquela algazarra.

Eu fui andando atrás, incrédula, tentando não fazer ruído para não espantar a orquestra. Os pássaros seguiam o homem, sem medo, pareciam íntimos, um diálogo muito fluido interespécies.  Os que não voavam, caminhavam atrás do homem, tal como o Flautista de Hamelin faz com os ratos, só que com finalidades bem diferentes. Tive a certeza que, enquanto aquele senhor viver, os pássaros têm em quem confiar.

O mundo é mágico sim, Rosa. Só que, perdoe- me um adendo: algumas pessoas ficam encantadas enquanto vivas também. Hoje eu conheci o Encantador de Pássaros e eu tenho a prova:

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O Dia Mundial do Livro em Madri


Claro que o Falando em Literatura não iria deixar de contar como vão as comemorações por aqui.

Mas antes disso, todos os anos eu conto a mesma história: A UNESCO estipulou o 23 de abril, como o Dia Internacional do Livro, por causa da coincidência das mortes de Shakespeare e Cervantes, mas não só; vários outros escritores importantes nasceram ou morreram em abril, como Vladimir Nabokov, por exemplo, então a data serve para homenagear, relembrar e divulgar a grande literatura desses autores.

Este dia começou a ser comemorado na Catalunha (Espanha) para celebrar o Dia de São Jorge (Sant Jordi em catalão), padroeiro do lugar. É uma festa romântica, onde os casais trocam presentes, o homem recebe um livro e a mulher uma rosa. São Jorge na Catalunha é uma espécie de santo do amor. Enfim, juntando essa tradição centenária de presentear livros e rosas, com o nascimento ou morte de grandes escritores, o resultado é a festa que conhecemos hoje. Quer dizer, no Brasil ainda não é tão forte a tradição, não? Vários outros países, inclusive o Japão, festejam como os espanhóis.

13055392_599827823506115_8862765800608429156_nEssa é a minha filha saindo feliz da livraria com os livros que escolheu e suas rosinhas, presentes da Casa del Libro.

Eu comprei um da Clarice, “Água Viva”,  quero ler nos próximos dias e vou colocar aqui a resenha em breve. Foi da livraria La Central, em português-, uma edição portuguesa:

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Na Espanha é uma delícia. As ruas viram livrarias a céu aberto e há rosas vermelhas espalhadas pelas cidades. Fica tudo alegre e festivo. Muitos eventos literários e descontos nas livrarias. Pena que está caindo uma chuva exatamente agora na cidade de Madri (aqui o mês das chuvas é abril) e algumas livrarias tiveram que recolher as bancas, outras mais prevenidas colocaram toldos. Antes da chuva eu estive por lá, veja algumas fotos:

13062246_599827866839444_3948531027573277996_nBanca da livraria do El Corte Inglés, Preciados (um calçadão para pedestres no centro de Madri).

13076536_599827970172767_8495056239372609971_nA livraria Casa del Libro instalou- se no prédio onde viveu um famoso escritor espanhol, Pio Baroja.

13012646_599827940172770_4156474652833114751_nEsse é o prédio. Morava bem o Pio Baroja. O céu azul antes da chuva.

13000130_599827863506111_463020552310951826_nEssa é a livraria do El Corte Inglés. Estava cheia. Ouvi brasileiros conservando no meio do povo.

13043346_599828030172761_2640659179696406110_nBanca na principal avenida, a Gran Vía, com livros em miniatura. São legais para decorar.

13076693_599828060172758_1598453992728844378_nEssa banca na Gran Vía estava prevendo a chuva.

13094139_599828063506091_923210465445160180_nMetros e metros de livros!

Eu não esqueci de William Shakespeare, o grande protagonista dessa festa junto com Cervantes. Amanhã terá post sobre ele.

Conta como está sendo o seu dia, como está a festa na sua cidade?

Feliz Dia Mundial do Livro!

Entrevista com Edney Silvestre


Originalmente publicada na revista impressa BrazilcomZ (Espanha), nº93,  julho de 2015. Leia a revista online.


EDNEY SILVESTRE

Sou testemunha do sofrimento, do isolamento, da solidão, das dores e tristezas de quem foi obrigado, seja por que razão for, a viver fora de sua terra.

Entrevista exclusiva com o grande jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre (Valença, Rio de janeiro, 24/04/1950), que publicou sua primeira obra “Se eu fechar os olhos agora” (2010) depois dos 50 anos, “como Henry Miller e Cervantes”, livro premiado com o Jabuti. O autor revelou que está trabalhando em um novo livro de contos. Mostrou- se incômodo com a visão de alguns franceses sobre os brasileiros no Salão do Livro de Paris: Os franceses, muitos deles, ainda nos vêm – nós, os criadores de cultura no Brasil e na América Latina – como papagaios exóticos. Quanto mais coloridos e barulhentos formos, mais eles consideram que se trata de “autêntica literatura latino-americana”. E também comenta sobre a questão da imigração, da solidão, da leitura no Brasil e alguns temas polêmicos. Leia a entrevista completa:

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O escritor e jornalista Edney Silvestre de 65 anos, de origem humilde, forjou uma bela e sólida carreira no competitivo mercado de trabalho brasileiro. (foto: Leo Aversa)

(F.S.) No seu último livro, “Boa noite a todos”, a capa sugere um personagem suicida, o leitor já tem essa informação prévia. Com a leitura da obra, certamente vai perceber que Maggie não tem saída. O que você diria ao leitor que pode pensar que você foi excessivamente pessimista?

(E.S.) Maggie tentou todas as saídas que lhe eram possíveis. Desde o começo da sua vida, porém, o destino, ou que nome se dê aos acontecimentos que nos formam, foi cruel com ela. Sua mãe, prostrada pela depressão, a ignorava. Seu pai foi-se para outro país, onde se casou com uma mulher igualmente alheia às necessidades da menina Maggie. Harry poderia ter sido seu porto seguro. Entretanto ela, jovem demais para entender a complexidade do rapaz, afastou-se dele. E por aí foi, abraçando o mundo glamoroso e vazio das celebridades. Não fui pessimista. Ao final Maggie ganha o alívio na memória e na arte – no caso a música de Richard Strauss.

(F.S.) Além de ser um escritor que conseguiu o respeito da crítica especializada conquistando um lugar de destaque na literatura contemporânea, com vários prêmios, antes você já era jornalista de primeiro escalão. Atualmente, apresenta o Globo News Literatura e é repórter especial da TV Globo. Você pretende transformar algum dia a literatura na sua principal atividade?

(E.S.) Gosto de chegar à redação e estar com os colegas jornalistas, gosto de sair para fazer reportagens na rua, gosto de escrever reportagens, gosto de editar imagens e textos de reportagens. Quando penso no meu futuro – e penso pouco, minha preocupação é com o aqui e agora – não me vejo fora do jornalismo. Quando, finalmente, publiquei meu primeiro romance, “Se eu fechar os olhos agora”, eu era jornalista há mais de 3 décadas. Continuo. É uma profissão que me permite estar sempre em contato com o real, que vem me dando a chance de conhecer profundamente o meu país e os brasileiros, assim como me leva a entender melhor as contradições da história contemporânea ao me fazer testemunha de acontecimentos como os atentados terroristas em Nova York em 11 de setembro de 2001, o horror sofrido pelo povo no Iraque, a dor das vítimas de furacões em Honduras, o desencanto e a esperança na vida de Cuba.

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No lançamento de “Boa noite a todos”, seu último romance. (Foto: Vera Donato)

(F.S.) Vender muitos livros é sinônimo de sucesso? O que é o sucesso pra você?

(E.S.) Gabriel García Márquez vendia muitos livros. Salinger vendeu muito, também. Jorge Amado foi um autor best-seller. Um colombiano, um americano, um brasileiro. São apenas três, dos muitos exemplos, de escritores de qualidade com obras acatadas por um grande público. Sucesso, sem dúvida. A permanência deste sucesso, no entanto, é outra história. A morte, em geral, apaga alguns escritores da lembrança dos leitores. Falo no sentido do grande público, aquele que transforma um romance como “Amor em tempo de cólera” em fenômeno de vendas. Ainda que este trio Amado-Salinger-Marques não se encontre hoje nas listas dos mais vendidos, continua sendo cânone, continua sendo referência, como continuam os menos lembrados e outrora escritores de enorme sucesso, como Rachel de Queiroz e João Ubaldo Ribeiro.

(F.S.) A pós- modernidade lançou diversos escritores midiáticos, que exercem profissões paralelas (atores, cantores, humoristas e padres), o que gera muita desconfiança na crítica, a maioria com fundamento, já que são obras inexpressivas e sem valor artístico- literário. Edney Silvestre, jornalista e um rosto conhecido no Brasil. Com a publicação do seu primeiro livro, como viveu esse período de prova? Sofreu algum estigma, mesmo sendo jornalista e tendo familiaridade com a escritura? Com expectativa, ansiedade ou não te afetou?

(E.S.) Eu não era uma celebridade quando lancei meu primeiro romance, nem o sou agora, portanto não me encaixaria na categoria “escritor midiático. Sempre escrevi textos de ficção, apenas publiquei meu primeiro romance depois dos 50 anos. Cervantes também publicou depois dos 50. Henry Miller foi outro. Sou, fui e serei meu crítico mais atento. Se, mesmo com os prêmios literários que ganhei, eu ainda tivesse dúvidas se me acolhiam porque eu era jornalista de televisão, essas dúvidas teriam se dirimido com a publicação de meus romances na França, na Grã-Bretanha, na Sérvia, na Holanda, em Portugal, na Itália e na Alemanha – onde ninguém tinha a menor ideia de quem eu era. E, aliás, continua não tendo. E ainda assim leem minha obra.

(F.S.) Você já entrevistou diversos escritores consagrados, como é estar do outro lado, ser o entrevistado? Sente- se confortável falando de si?

(E.S.) Eu tenho muito prazer em conversar – e ouvir – pessoas inteligentes, como José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Adélia Prado, Nardine Gordimer, Milton Hatoun. Aprendi e aprendo com essas pessoas. Quando estou do outro lado, e estou sendo entrevistado por alguém que se preparou, pesquisou, estudou, leu minha obra, tenho a chance de repensar e analisar o que fiz, porque fiz, como fiz. É um prazer, também, de outro tipo. Mesmo que eu não consiga responder a essas questões.

(F.S.) Em “Vidas provisórias”, você narra a vida de imigrantes brasileiros no exterior. Você também já esteve nesta situação. O que emprestou das suas experiências aos personagens do livro? É verdade que os seus personagens viveram situações pessoais extremas e difíceis, mas você acredita que exista um ponto de intersecção entre todos? Você também sentiu em algum momento a sensação de perda de identidade? De ter que se reinventar? E a solidão?

(E.S.) Sou testemunha do sofrimento, do isolamento, da solidão, das dores e tristezas de quem foi obrigado, seja por que razão for, a viver fora de sua terra. É muito, muito duro. É claro que não me refiro aos ricos empresários ou artistas que se divertem em temporadas passadas em suas belas e confortáveis casas e apartamentos em Paris ou Miami, indo a bons restaurantes e assistindo a espetáculos bacanas. Falo das pessoas que ralam, que trabalham duro, que se sentem discriminadas. Fui morar nos Estados Unidos com visto de trabalho, o que fazia de mim um privilegiado. Mas convivi com gente que temia ser pego pela imigração e deportado, aquelas pessoas que precisam trabalhar, seja no que for que aparecer, para não apenas se sustentarem, mas também mandarem dinheiro para suas famílias que ficaram no Brasil. Nunca senti que perdia a identidade pois creio que o brasileiro não a perde, de forma alguma. Quanto à solidão… Essa eu conheci desde muito cedo, com pouco mais de 15 anos, quando me mudei de minha cidade no interior para o Rio de Janeiro.

(F.S.) A crítica negativa incomoda? Você lê tudo o que escrevem sobre seus livros? Acompanha o retorno dos leitores? Lê as resenhas dos “blogueiros”?

(E.S.) Tem uma frase ótima que o dramaturgo Edward Albee me falou numa entrevista, quando eu comparei as boas críticas que tinha recebido na época da peça “Quem tem medo de Virginia Woolf”, das ruins que deram à sua peça mais recente (então), “A cabra”. Ele me disse mais ou menos assim: “Se elogia, eu considero (o crítico) inteligente por ter percebido minhas intenções; se fala mal, é porque trata-se de um tolo”.
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O amor à literatura chegou muito cedo, ainda menino, quando sofria de anemia profunda e ficava na lendo na cama. O escritor em Paris com a tradução francesa de “A felicidade é fácil”.

(F.S.) Os seus livros ganharam traduções em vários idiomas. Como está sendo a recepção da sua obra pelo leitor estrangeiro?

Muito além do que eu jamais poderia imaginar. Na França o jornal Le Monde e a revista L’Express aplaudiram meus dois romances publicados ali, em Portugal e na Holanda idem, o inglês The Guardian e o alemão Stern me deram página inteira nas resenhas elogiosas a “Se eu fechar os olhos agora” e, no ano passado, “A felicidade é fácil” foi considerado um dos dez melhores romances policiais do ano na Inglaterra. Ano que vem “A felicidade é fácil” sai na Alemanha.

(F.S.) Você acha que já escreveu a sua obra- prima ou esta ainda está para ser escrita?

(E. S.) Será que um escritor com um mínimo de senso crítico, mesmo aquele com ego gigantesco, acha mesmo que escreveu, ou está escrevendo, ou acabará por escrever uma obra-prima? Nos estados unidos eles, os autores, sempre se referem à tentação de escrever “o grande romance americano” que estaria por vir. Isso os esmaga. Não acredito que Saramago pretendeu, jamais, escrever uma obra- prima. Entretanto deixou-nos seu Evangelho. Drummond deixou-nos várias obras- primas – e sempre se disse um aprendiz.

(F.S.) Está escrevendo algum livro? Já tem o título da sua próxima obra?

(E.S.) Estou construindo em um livro de contos onde tenho a chance de experimentar temas e linguagens. É possível que venha a publicar no ano que vem. Ainda não tenho um título definitivo, embora eu venha trabalhando desde o ano passado com um.

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O escritor na biblioteca do seu apartamento no Leblon, no Rio de Janeiro (foto: Revista Quem)

(F.S.) Edney leitor. Quais são os seus livros favoritos? Quais autores são essenciais na sua biblioteca?

(E.S.) Não tenho favoritos, Fernanda. Gosto de ler, ponto. Leio de tudo, inclusive quadrinhos, quadrinhos mesmo, tipo Tio Patinhas e Asterix. Se tomar como guia os livros que tenho em minhas estantes: toda a obra de Drummond, toda a obra de Graciliano Ramos, toda a obra de Guimarães Rosa, toda a obra de José Saramago, muita coisa de Eugene O’Neil e Tennessee Williams, muita coisa de Fernando Pessoa, a obra completa de Machado de Assis, todo Cervantes, quase tudo do teatro de Nelson Rodrigues, um tanto de Marguerite Duras, outro tanto de Camus, praticamente tudo o que se conhece de Shakespeare (nao lido na maior parte), Elizabeth Bishop, muitos livros de Patricia Highsmith, Georges Simenon e F. Scott Fitzgerald.

(F.S.) Edney escritor. A alteridade, viver outros “alguéns” provoca desconforto, angústia, alívio, salvação, redenção? Como é o seu processo criativo?

(E.S.) Um escritor é um canal para transmitir vozes, desejos, ânsias, frustrações, esperanças de seu tempo. E tenta ser o canal mais limpo e aberto possível. Eu tento.

(F.S.) Livro tradicional ou livro digital? Você aderiu aos e- books?

(E.S.) Livro, ponto. Leio em ambas as formas. Digital é mais prático, sem dúvida. Mas nem vale a pena comentar, pois está afundando no mundo inteiro.

(F.S.) Brasileiro ainda lê muito pouco, mesmo na era digital com muita literatura gratuita na rede (muitos ainda não têm acesso à Internet). Como formar leitores no nosso país que, infelizmente, ainda não tem como prioridade a Educação?

(E.S.) Os números mostram que o brasileiro lê cada vez mais. Basta ver as pesquisas da SNEL. De onde você tirou essa conclusão que lê pouco? Educação tem que ser política pública. De que adianta comentar aqui? É política pública, não pessoal.

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No Salão do Livro de Paris (2015)

(F.S.) Como foi participar do Salão do Livro de Paris 2015 como autor convidado?

Os franceses, muitos deles, ainda nos vêm – nós, os criadores de cultura no Brasil e na América Latina – como papagaios exóticos. Quanto mais coloridos e barulhentos formos, mais eles consideram que se trata de “autêntica literatura latino-americana”. A culpa é do Gabriel Garcia Marques, que escrevia esplendidamente tramas que jamais poderiam se passar senão em selvas, cidades perdidas, verdejantes, habitadas por personagens peculiares, carregando amores ao longo de séculos. Ele era uma força original. Nada tinha de “papagaio exótico”. Mas aqueles que encaram superficialmente nossa cultura não entendem isso. E só querem reconhecer, no caso do Brasil, o “soft power” de samba, mulatas e futebol. Falei contra isso o tempo todo. Espero ter aberto a cabeça de alguns. Outros se irritaram. Incitei-os a lerem o que me parece a literatura mais original e diversificado do mundo neste momento, a brasileira, que reúne autores tão diversos quanto Milton Hatoun, Luiz Ruffatto, Alberto Mussa, Nélida Piñón, para citar apenas quatro contemporâneos.

(F.S.) Você ganhou o prêmio Jabuti em 2010 com “Se eu fechar os olhos agora”, sua obra de estreia, com os votos da crítica especializada e depois perdeu para Chico Buarque, que foi votado pelo público, mas continua sendo o ganhador moral. Existe algum constrangimento entre você e Chico por causa dessa história?

(E.S.) Não conheço Chico Buarque pessoalmente, não frequentamos os mesmos lugares, não temos amigos em comum. Ele é uma instituição, autor de clássicos da MPB como “A banda” e “Sabiá˜, vencedor de vários prêmios literários. Chico Buarque nunca disse uma palavra desabonadora a meu respeito, mesmo tendo perdido o Jabuti de Melhor Romance para mim, um autor estreante, mesmo depois de toda a campanha que reuniu mais de 15 mil assinaturas . Tem sido elegante, espero me comportar da mesma maneira.

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Edney foi correspondente internacional da Globo em Nova York, foi o primeiro repórter a chegar no local do atentado terrorista às Torres Gêmeas em 2001.

(F.S.) Você é muito ativo nas redes sociais, usa Facebook, Instagram, Twitter. O que essas redes trouxeram de bom e de ruim? Qual o saldo?

Gosto de conhecer pessoas, gosto de papear, nós do interior somos assim, colocamos a cadeira na calçada e falamos com quem passa. É como vejo as redes sociais. Saí do Messenger recentemente, por conta de assédio de quem só se aproximava porque queria ser entrevistado no programa de literatura da Globonews. Passei anos explicando cordialmente que aquela era uma página pessoal, que a página a procurar era a do Globonews Literatura. Porém, após algumas agressões gratuitas e exibições de vaidade, entendi que era melhor cair fora. Muito do aumento da leitura de livros, hoje, deve-se ao incentivo trazido pelas redes sociais. Particularmente para leitores com menos de 35 anos.

(F.S.) Sobre o Acordo Ortográfico entre os países lusófonos. Contra ou a favor? Já aderiu à nova ortografia?

(E.S.) Não fui chamado a opinar antes da decisão. Ninguém é consultado. A decisão fica numa esfera totalmente fora do alcance. Depois dela, os livros didáticos têm que ser impressos novamente, milhões deles. Todos os livros, enfim. A quem isso beneficia? Mas já foi, está feito. Não adianta nada comentar agora.

(F.S.) E qual a sua relação com a Espanha? Conhece bem o país? Quando vem nos visitar?!

(E.S.) Gostarei muito quando meus livros forem publicados na Espanha, o que ainda não aconteceu. Sinto uma grande identificação com a cultura iconoclasta que deu origem a Gaudi, a Buñuel, a Cervantes, a Garcia Lorca, a Picasso, a Almodóvar.

(F.S.) Dá para definir o que é a literatura na sua vida em três palavras?

(E.S.) Acho que não. (risos) Tem três palavras na frase, não é mesmo?        

                                                                                                        

O FOTÓGRAFO SEBASTIÃO SALGADO RETRATADO EM “O SAL DA TERRA”


Sebastião Salgado (Aymorés, Minas Gerais, 08/02/1944) formado em Economia, é o maior fotógrafo brasileiro da atualidade e de toda a história do Brasil, consagrado entre os melhores do mundo. Em 1969, exilou- se em Paris por causa da ditadura no Brasil. Ganhou o “Príncipe de Astúrias” na Espanha. O fotógrafo lançou o livro Genesis,  Como o próprio nome diz, é sobre a natureza mais selvagem e primitiva, que o fotógrafo registrou durante 8 anos em suas andanças pelo mundo. Seu filho criou o documentário “Sal da Terra”….

Continue lendo o texto original postado lá no PalomitaZ, na Revista BrazilcomZ (Espanha).

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Livrarias de Madri: La Casa del Libro


Começando a série “Livrarias de Madri”, onde pretendo apresentar e avaliar as livrarias da cidade onde é a minha casa. Madri é a capital do reino da Espanha, para quem não sabe, o país fica na Península Ibérica (Europa) e vive sob o regime de monarquia parlamentária. Não é conto de fadas: temos rei, rainha e princesas.

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A primeira livraria da série pertence a uma rede com 34 lojas, sendo que 10 estão em Madri, La Casa del Libro, fundada por Alejando Grassy em 1923, um relojoeiro de luxo, dono também do Edifício Grassy, um dos mais lindos da Gran Vía, onde funciona hoje a loja da Rolex. La Casa del Libro pertence ao poderoso Grupo Planeta.

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O catálogo da livraria conta com mais de 1 milhão de títulos com livros de todas as épocas, gêneros e em vários idiomas. Na Casa del Libro da avenida mais central e importante da cidade, La Gran Vía (A Grande Avenida), é a maior do grupo.

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Gran Vía de Madri

Há anos mantinha uma estante de livros em português, que infelizmente, foi retirada. Agora em português, só livros de aprendizagem do nosso idioma e dicionários. Com isso, perdeu pontos.

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Um dos andares superiores (são cinco, mais térreo e subterrâneo). Essa loja é a mais antiga do grupo, com 92 anos, que também funciona como centro cultural, com lançamentos de livros, cursos de literatura e vários eventos relacionados com o mundo dos livros, tanto para crianças quanto para adultos.

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Essa parte fica no térreo, é a mais bonita e o local onde moram todos os clássicos e edições de luxo. Minha preferida! Vista do térreo e mezanino.

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A Casa del Libro possui uma loja virtual com um excelente serviço e ainda você pode vender na web deles os livros que já não quer mais. Um mensageiro busca o livro na nossa casa e o envia ao comprador. O dinheiro entra na conta religiosamente. Compro e vendo livros com eles há muitos anos e estou 100% satisfeita.

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A propaganda de Paulo Coelho é massiva, o escritor está em todos os lugares e sempre muito visível, até em postos de gasolina, excelente plano de marketing, acho que as pessoas acabam comprando por cansaço. Nesse caso, toda a obra de Habbit (copiei de você, Gerson!) agrupada num só lugar.

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Em todos os andares existem cantinhos agradáveis para sentar e tranquilamente folhear os livros. Na loja da Calle Alcalá, há um cantinho desses com máquina de café expresso grátis para os clientes.

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Literatura pra cachorro! Enquanto seu dono lê tranquilamente, o seu bichón maltês (a mesma raça do meu Luigi) tira um cochilo completamente alheio ao movimento. Mais educado que muitos humanos!

Quando vier pela cidade, não deixe de visitar essa loja. Essa é uma, que quando entro, sofro Síndrome de Sthendal. Só não dou nota 10, porque faltam livros originais em português.


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Gran Vía, 29- Madrid- España

Site da Casa del Libro

Dez bibliotecas incríveis


Antigas, cheias de história e são guardiãs de verdadeiros tesouros literários. Tive o privilégio de conhecer seis (Espanha e Portugal) dessa lista de dez. Veja:

1. Biblioteca Nacional da França (Paris)

img_01_l(foto: Nikon)


2. Biblioteca Nacional da Espanha (Madrid)

Una-imagen-de-la-sala-de-lecturas-de-la-Biblioteca-Nacional-- (1)(foto: BNE)


3. Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (completou 500 anos em 2013). (Portugal)

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(Foto: figaro.fis.uc.pt)


4. Biblioteca do Palácio de Mafra (Portugal)

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(foto: aguiaturista.blogspot.com)


5. Real Gabinete Português de Leitura (Rio de Janeiro)

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6. Biblioteca Pública de Nova York (EUA)

Main reading room of New York Public Library after NYPL announced partnership with Google(foto: Diario Vasco)


7. Biblioteca da Universidade de Salamanca (Espanha)

bibliotecas_para_no_estudiar_93393815_1200x797(foto: traveler)


8. Biblioteca Girolamini de Nápoles (Itália)

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(foto: ABC)


9. Real Biblioteca do Monastério do El Escorial (Espanha)

EscorialBiblioteca(foto: blog Universidade de Zaragoza)


10. Biblioteca do Ateneo de Madrid (Espanha)

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Resenha- Marcel Proust: la memoria recobrada, de Patrícia Mante- Proust


A sobrinha de Marcel Proust, Patrícia Mante- Proust, lançou em 2012 (edição espanhola) um livro- álbum belíssimo com fotos inéditas de toda a sua família, amigos, amores, lugares, mas claro, com especial ênfase ao tio famoso. No livro podemos ver vários documentos pessoais e até os boletins escolares, por certo, muito bom estudante, só tirava A e B. Todos os personagens de “Em busca do tempo perdido”, “Sobre a leitura” e de “Os prazeres e os dias” podem ser vistos nessa obra. A encadernação luxuosa, um presente aos nossos sentidos. Veja:

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A capa

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Patrícia Mante- Proust sentada na poltrona “Proust geométrica”, desenhada por Alessandro Mendini.

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Nathé Weil, o avô materno de Proust em 21 de dezembro de 1892.
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As escadas da casa da tia Lèonie em Combray, muito citada em “Do lado de Swann”.
10270332_316081531880747_7382182862230675673_nO quarto de Combray onde Proust dormia cedo ou passava as suas noites de insônia.
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Ernestine Galou, que cuidou da avó de Proust, pessoa que inspirou o personagem de Francine, que cuidou da tia Léonie na obra “Em busca do tempo perdido”.10449506_316087945213439_6680349147712552594_nMarie de Bénardaky, amiga de infância, que na obra “Do lado de Swann” foi Gilberte Swann. Eles brincavam muito nos Campos Elísios e na obra, Proust era apaixonado por ela.
10342749_316081625214071_3784942566384730209_nElisabeth Proust, a “tia Léonie”.
10415593_316081831880717_5085458218373598005_n “A verdadeira vida, a vida por mim descoberta e evidente, a única vida, por conseguinte, plenamente vivida, é a literatura: essa vida que em certo sentido vive a cada instante todos os homens tanto como no artista, mas não a vê, porque não tentam aclarar- la.”10415596_316081545214079_764814225450487672_n Assim escrevia Proust em seu punho e letra.

10440233_316081661880734_5417366050639286322_n Nathé Weil (nome de casada), Adèle Berncastel (nome de casada), a querídissima avó materna de Proust. Como mudavam os nomes de acordo com o estado civil, não?!10453314_316081801880720_7987929549656296432_n

A bela edição.

10481871_316081721880728_4001819985615015480_n Proust adolescente.10487367_316081565214077_2942886804760485391_n Reynaldo Hahn em 1895, ele foi namorado de Proust por dois anos e mesmo depois do fim do romance continuaram amigos e mantiveram uma cumplicidade indiscutível.10494774_316081761880724_6536581393606670984_n Pai, mãe e o irmão de Proust, além do próprio.10502229_316081695214064_915533592843055295_nEssa mulher “mundana”, Laure Hayman,  foi amante do tio de Proust, Louis Weil.
essa

Marcel Proust em 1892 nos jardins de uma casa de verão em Cour brulèe, que a família Straus alugou.

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A morte é tabu. Eu fiquei em dúvida se publicava essa foto o não, e por que não?! Se a família não teve problemas, por que eu hei de ter?! Parece que está dormindo. Morreu extenuado depois de terminar(?) a imensa obra “Em busca do tempo perdido”. A foto é considerada uma obra de arte. Um medalhão com uma mecha de cabelo do autor está exposto no Museu de Illiers- Combray. Foto de Man Ray.

O livro- álbum é riquíssimo, com o tempo vou publicando novas fotos, a obra é cara e não está editada no Brasil ainda. Acho que todos os amantes da obra de Proust merecem conhecer o seu conteúdo.

Mante- Proust, Patrícia. Marcel Proust: la memoria recobrada. Plataforma, Barcelona, 2012. 192 páginas