“A expulsão do diferente”, do filósofo Byung- Chul Han


O filósofo sul-coreano Byung- Chul Han (Seul, 1959), foi um grato descobrimento. O autor fala sobre problemas dos nossos dias e eu acabei fazendo uma reflexão sobre alguns deles. Ele começa dizendo em “La expulsión de lo distinto” (“A expulsão do diferente”), que “o corpo social” está doente.

A padronização de condutas e comportamentos está orquestrada para eliminar os diferentes, porque o diferente não convém ao sistema. A proliferação do igual está provocando patologias, porque a essência humana é heterogênea.

A doença social é gerada por um excesso de informação e um excesso de permissividade, curiosamente.  Mas não é o que vem de fora o nosso principal algoz. Segundo o autor, não é a proibição ou a repressão o motivo da depressão nos tempos atuais: a pressão não vem do outro, vem do interior. Ou seja, o pior inimigo do sujeito é ele próprio:

A depressão como pressão interna desenvolve traços autoagressivos. O sujeito que, sentindo- se obrigado a mostrar rendimento, torna- se depressivo em certa maneira e se mói a pauladas ou se asfixia a si mesmo. (p.10)

Vou mostrar algo mais prático: existe uma expressão em inglês para o fato de assistir séries sem parar, “binge watching”. É o consumo de vídeos e filmes sem limite temporal. Há pessoas que assistem uma série inteira em um fim de semana. É como se a pessoa entrasse “em coma”, segundo o filósofo. A pessoa fica indefesa.  Isso é o “excesso do igual”. Todo mundo faz, parece legal, então você faz também.

Outro exemplo que o autor dá: as viagens. A maioria das pessoas viaja só para subir fotos nas redes sociais e para contabilizar países visitados. É como se viajasse sem viajar, porque a maioria não adquire nenhum conhecimento.

E ele fala das redes sociais, que é o meio mais anti- social que existe. Engraçado que eu comentei recentemente exatamente este fato com três amigas. O autor diz que “os meios sociais representam um grau nulo do social”.

No Brasil, poucos se expõem no Facebook, por exemplo, por medo de serem julgadas, por medo de que algo dito seja usado contra elas, por medo de serem prejudicadas profissionalmente, por medo de discussões…resumindo: por medo. Por medo de serem quem são e desagradar. “O que eu ganho com isso?!”, ainda que percam a si mesmos, porque agradar o outro é mais importante. É um padrão comportamental nas redes e na vida. Há algo de superstição também, pode “dar azar” ou atrair inveja, olho gordo, essas coisas. Negar o diferente é essencial. Fazer parte da corrente e encaixar é o que importa, ainda que o pé seja 38 e o sapato um 35.

As pessoas se reprimem e ficam doentes. A expressão é uma das funções básicas e primárias do ser humano. Ser humano baú fica pesado e sufocado. O que o outro pensa importa tanto assim? Claro. A aprovação alheia, a popularidade, o sentir- se querido, a imagem projetada, ainda que irreal (e surreal muitas vezes) é o que motiva as pessoas à padronização. Essas pessoas negam o diferente, e a essência disto é a dor (leia na página 12).

Vivemos na era da contradição. Com tanta informação e redes sociais, mas estamos cada vez mais mudos e sozinhos. Falar virou tabu. O silêncio está sobrevalorizado.

A qualidade da informação que nos é fornecida também é questionada pelo autor. Não há causa e efeito, “é assim e pronto”. As pessoas estão saturadas, nem se dão o trabalho de averiguar a causa e efeito das coisas, por isso é tão fácil eleger um presidente inepto através de redes sociais, porque os algoritmos estão feitos para encontrar pessoas que pensam igual, com os mesmos interesses, uma espécie de auto- doutrinação, já que só chega até a pessoa “notícias” que lhes são afins, como se fossem verdades únicas e incontestáveis. Os macro- dados correlacionam tudo e fazem supérfluo o pensamento.

Eu amo a Filosofia, porque é o ramo que melhor nos explica.

O pensamento tem acesso ao completamente diferente. Pode interromper o igual (p.13).

Por isso, pense, por favor. Não seja só leitor de manchetes. Abra os links, leia a notícia, preste atenção no autor, para quem ele trabalha e na intencionalidade do texto. Observe o outro e o porquê dele pensar como pensa. Se forem pensamentos destrutivos a si mesmo e aos demais, só a palavra pode salvar. A omissão vem destruindo e matando. Nós podemos romper essa cadeia de pensamento vicioso, circular, destrutivo, de que o outro é inimigo. Não é. Essa semente do mal foi plantada e vem sendo cultivada para dividir. O outro é projeção do que você tem dentro.

O autor cita Heiddeger, o filósofo alemão, que diria hoje sobre esse barulho todo das redes sociais, que “nos converte em surdos diante da verdade e para o seu silencioso poder violento (p.14). Surdos e mudos, digo eu.

Ele fala do hiperconsumo, da hipercomunicação, da hipervisibilidade, da hiperprodução do corpo como objeto funcional e culpa o neoliberalismo, as pessoas têm que render, são só números para este sistema econômico feito para hiperfaturar.

Esse universo neoliberal, que pode ser um pesadelo, foi retratado no filme “Anomalisa”, dica do autor. O neoliberalismo padroniza, nos quer transformar a todos em iguais. O protagonista, Michael Stone, dá palestras de motivação empresarial com muito sucesso, escreveu um livro, mas deprime- se, deixa de ver sentido em tudo. Ele ouve vozes iguais e rostos iguais. Não consegue distinguir adultos de crianças. É como se fosse uma sociedade de clones. Ele viaja para uma palestra e encontra uma mulher diferente, Lisa. Ele é a única que tem a voz diferente, considera- se feia, está acima do peso e tem uma cicatriz no rosto. Está fora dos padrões. Ele apaixona- se por ela. É a única diferente. Esse filme é interessantíssimo. Em japonês, “anomalisa” significa a “deusa do céu”. Ela, que parecia “anormal”, foi a salvação do palestrante, que antes era um fantoche controlado à distância.

Creio que se não formos nós mesmos, seja na vida diária ou nas redes sociais, não somos nada. Quando deixamos de pensar e de nos expressar por medo do que pensem sobre nós e para atender os esquemas pré- determinados, que beneficiam só aos próprios, estamos mortos e enterrados em vida. Perfeito para o poder: uma legião de zumbis.

O filósofo aponta coisas interessantíssimas sobre as consequências negativas que o neoliberalismo provoca nas pessoas. Esse sistema incita a que as pessoas sejam autênticas e criativas. A princípio isso parece muito bom, não é? E deveria ser, mas o que fazem com isso é que é ruim. Nos “ensinam” que devemos ser criativos, inovadores, empreendedores, sermos livres dos esquemas e criarmos a nós mesmos.

Você estudou, virou adulto, e só pensa em si, no seu umbigo, questionando- se e vigiando- se o tempo todo, tornou- se um narcisista, nunca foi programado para pensar na coletividade. Isso é que o neoliberalismo no Brasil fez com gerações e gerações: obrigou que cada brasileiro fosse produtor de si mesmo. Isso gerou uma pressão interior tremenda e as patologias psicológicas que meio Brasil sente. “Eu sou mercadoria, sou autêntico, preparado, e se ninguém me compra? Não valho nada!”.

Entendeu?

Para entender mais, porque tem MUITO mais, leia esta brilhante obra. O autor correlaciona padrões sociais super- destrutivos dissimulados no tecido social e que explicam comportamentos suicidas, depressivos e terroristas.

Não se engane: nada é por acaso. Tudo, absolutamente tudo na vida, é causa e efeito.

 

 

Esta foi a edição lida
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A cultura dos macacos


Quanto mais eu vejo os resultados do que fizeram conosco, mais acho necessária a literatura, que descortina e faz pensar.

Digo “eles”, esses poucos que detém o grande volume de dinheiro e que manipulam “a massa” como bem entendem. “Massa” é uma expressão detestável. Massa não tem forma, é homogênea, sem vontade, sem importância, inanimada, tal como o poder pensa mesmo da sociedade. Massa serve para ser moldada. Nós temos que ter consciência de que somos parte desse processo “invisível”, cruel e imperceptível para uma grande parte da população mundial.

Li recentemente um livro sobre gestão de conhecimento de um cubano radicado nos Estados Unidos, um manual de como os empresários devem proceder para ter êxito no uso e organização do Conhecimento. Até isso (ou principalmente) os capitalistas selvagens conseguiram colocar preço. Eles decidem que tipo de Conhecimento interessa  e o que não. Mas veja: muitos usam a Filosofia para sustentar suas teorias, até o capital precisa das Ciências Humanas muitas vezes ridicularizadas e desvalorizadas por eles mesmos.

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Empresários em suas escolas de negócios caríssimas, exclusivas para poucos, são programados para a desumanização. Pessoas são números ou siglas,  e são utilizadas para gerar  lucros. “Útil” é a palavra essencial. Um clássico. Desumanizam- se para que nada atrapalhe a sua escalada profissional. Se a mãe ligar: ignore; se o filho cair doente, outra pessoa deve resolver esse “percalço”. Responder amigos? Nem pensar. A história do “time is money” é levada a sério. Você pensa que o mundo é como é, tão violento e desigual, por acaso? Não, isso é trabalhado diariamente.

Este é um assunto complexo. Eu só vim para acender uma faísca, comece a pesquisar sobre o assunto: como o Conhecimento é gerido pelo poder.

Vou deixar um texto retirado deste mesmo livro e que ensina o valor do (mau) hábito. O autor foca como algo negativo, mas no sentido de que tal comportamento empresarial pode barrar a criatividade. Mas eu observei sobre outro ângulo: o do empregado e da passividade da população diante das injustiças. É um texto que serve para a vida de um modo geral:

“Um grupo de cientistas colocou cinco chimpanzés em uma jaula e no centro foi colocada uma escada e, sobre esta, uma penca de bananas.

Quando pela primeira vez um chimpanzé subiu a escada para pegar as bananas, os cientistas jogaram um jorro de água gelada sobre os macacos que ficaram no chão.

Passado algum tempo, quando um chimpanzé subia as escadas, os outros bateram nele.

Depois, nenhum macaco tentou mais subir a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos macacos.

A primeira coisa que o novo chimpanzé fez foi subir a escada, mas foi rapidamente retirado na base de murros pelos outros.

Depois de mais algumas porradas, o novo macaco não tentou subir mais as escadas.

Um segundo macaco foi substituído e ocorreu a mesma coisa. O primeiro macaco substituído participou com entusiasmo da surra ao novato.

Um terceiro chimpanzé foi substituído e os fatos se repetiram.

Os cientistas chegaram a ter cinco chimpanzés que, ainda que nunca receberam o jato de água fria, continuaram batendo em quem tentasse pegar as bananas. No final, nenhum macaco daquele grupo tentou comer as bananas.

Se fosse possível perguntar aos macacos o porquê de baterem em quem tentasse subir a escada, certamente a resposta seria:

Não sei! Aqui as coisas sempre foram assim!”

Esses macaquinhos fazem coisas mecânicas, repetitivas sem saber o motivo,  porque foram manipulados a fazer isso.

Não seja como esses macacos em nenhuma circunstância da sua vida, porque é perder- se de si mesmo, é não ter personalidade, isso sim é não ser ninguém.

Se te jogarem um balde de água fria para evitar que você suba em algum lugar, não desista, procure outro caminho, não se deixe intimidar. Eles são experts em bloquear o caminho dos macacos ou moldá- los de acordo às suas necessidades, por isso eles têm o poder. Macaco amestrado não pensa e obedece.

Sim, nós podemos fazer diferente e nadar contra a corrente.

 

A coisificação do homem e a humanização do animal


Quando eu vi a insólita imagem de uma mulher amamentando um cachorro, e que, inclusive, Maja Smrekar (eslovaca) ganhou um prêmio de arte digital por isso, além do choque, vieram uma série de reflexões que quero dividir com vocês.

Vejo conhecidos e famosos nas redes sociais tratarem seus gatos e cachorros melhor que seus filhos, parceiros ou amigos. Um amor incondicional, profundo e real, que os fazem agarrar, beijar na boca, dormir com os animais e gastar muito dinheiro para mantê- los providos de todo tipo de cuidados,  inclusive, gastos com boutiques, viagens e restaurantes.

Isso o que significa? Que o homem, devido às suas ações, mazelas, decepções que provocam, vêm perdendo seu status de objeto primeiro de afeto na cadeia humana. As pessoas precisam amar, é algo inerente, e acabam substituindo o amor humano pelo animal. Os animais amam e não pedem nada em troca, não cobram, não julgam, não mentem, nem maldizem, não traem e nem guardam rancor. Os animais sempre correm ao encontro do dono com todas as suas mazelas, mau humor e vícios, nunca o rejeita, o aceita tal como é. E sempre vão estar junto, nunca abandonam, não importa a circunstância.

E por que vem acontecendo essa humanização animal? Pela coisificação do homem. Ao passo que os animais são cheios de carinho e amor gratuitos, o homem só “ama”, se receber benefícios, algo em troca. Quase sempre não é uma relação altruísta, é por interesse: por status social, por medo da solidão, por dinheiro, fama, convenções sociais, moral religiosa, poder, por conseguir um ascenso no trabalho ou qualquer outro tipo de benefício. A maioria dessas relações podem terminar muito mal. Além do mais, as pessoas que esperam afeto alheio, cuidado, carinho, compreensão, acabam quase sempre decepcionadas. O ser humano é uma fábrica de dor, vêm decepcionando, individual e coletivamente. O homem tem que ser produtivo e racional, não afetivo na sociedade atual. Tornou- se coisa, evita a emoção para atender às demandas diárias.

Quando eu vi a foto da artista eslovaca que amamentou um cachorrinho por três meses, pensei que era algo isolado, mas…surpresa! Dei uma googleada e descobri que não, que essa troca inter- espécies é muito mais comum do que eu pensava. Há mulheres que amamentam porcos, bezerros, macacos e são do mundo todo, inclusive do Brasil.

Não é instinto materno, embora algumas digam isso. Pessoalmente, provoca- me repulsa, é anti- higiênico e incompatível. Tal como as pessoas que tratam animais como seres humanos. Creio que são condutas patológicas de um mundo que sofre a doença coletiva do desamor, da descrença no outro e de carência afetiva extrema. O animal é a representação da pureza, da bondade, da lealdade, da ingenuidade, tudo o que o homem perdeu. Talvez, essas mulheres que amamentam animais, inconscientemente (ou não) prefiram mudar de espécie que assemelhar- se com a barbárie humana.

O nosso mundo está doente. O que podemos fazer? Descarregar nossas mochilas de preconceitos, receios e rancores, e fazer um mundo melhor e mais humano para todos. Começando pelos que estão ao nosso redor, mesmo que não mereçam, mesmo que nos tenham dilacerado alguma vez. Perdoar é perdoar- se. Pagar a dor com rancor não é um bom preço. A amor (humano) tem que retornar pelo bem do presente e do futuro, pelos que virão. Mude o seu olhar em relação ao outro, não o olhe como um rival ou inimigo. O nosso trabalho coletivo até agora não foi bem feito, precisamos reconstruir.

E cada mãe com sua espécie.

 

Uma reflexão sobre o tempo


Quem conseguir responder o que é o tempo, terá conseguido solucionar um dos grandes enigmas da humanidade. Parece fácil se pensarmos no tempo cronológico, nas horas, mas eu falo do tempo baixo uma perspectiva filosófica/antropológica/sociológica/psicológica/histórica e até científica. E sem citar a questão mitológica do tempo. É muito pensar…

Nós passamos, o universo não. Somos provisórios, o tempo não. O nosso entendimento sobre o perene é muito limitado. O nosso alcance também. Só entendemos do tempo sobre o que vemos no nosso mundo. Descartamos outros espaços, universos, atmosferas, dimensões, essas coisas nem são consideradas. Não temos como comparar, nem como entender melhor o que é o tempo. O homem é um bicho muito limitado.

O tempo na natureza parece ter uma ordem. Amanhece, anoitece, as quatro estações se sucedem, o ciclo das plantas e animais, inclusive o nosso, mas isso tudo não tem muita precisão. Há países em que o sol nunca se põe e nesses mesmos países polares, a noite dura mais de 24 horas. Há pessoas que vivem quase o dobro da média. O tempo, vejam só, foge às suas próprias regras.

Quanto tempo vamos estar por aqui é uma preocupação comum, conscientemente ou não. Organizamos o nosso tempo em horas, dias, meses, anos, colocamos nomes e obrigações para cada dia do ano. Há o tempo certo para batizar, entrar na escola, trabalhar, namorar, casar, ter filhos, netos, o nosso tempo todo compartimentalizado, numa tentativa de organizar todo o  ciclo de vida e aproveitá- lo da melhor forma, segundo convenções, religiões, governos, diferentes tipos de poder. O tempo também é uma forma de prisão e controle.

O tempo tem muitas subdivisões, o tempo do universo, o pessoal, o  social, o psicológico, o objetivo, o místico e o biológico. A crítica é feroz quando não se cumpre o especificado para cada questão.

Existe até o tempo certo para as roupas, digo, a idade certa para vestir cada tipo de peça. As pessoas vestem- se, normalmente, de acordo à idade que têm. Pura bobagem.

Existe a hora específica para comer e o quê comer. Outra bobagem.

A idade influencia na percepção do tempo: para as crianças e  jovens, o tempo passa devagar; para adultos e idosos, o tempo passa mais rápido. Talvez a biologia tenha a ver com essa mudança de percepção, que é real.

Quando vivemos situações desagradáveis, o tempo parece não passar; quando vivemos momentos de felicidade, êxtase, prazer, parece que o tempo voa, ou seja, as emoções mudam a nossa percepção sobre o tempo.

E a crença sobre as reencarnações? A alma sempre viva em todas as eras rompendo com a finitude do tempo físico dos corpos.

Quem nunca ouviu falar nessa frase: “pra tudo tem o tempo certo” ou “tudo só acontece na hora certa” ou “tudo acontece no tempo de Deus”. Como se existisse uma força controladora do tempo e das pessoas. O que se pode chamar também de destino, algo fixo, estipulado, que foge ao controle do sujeito.

O tempo também é médico, curandeiro: “o tempo cura tudo”, “não há mal que dure para sempre”. Eu acho frases bem cretinas.

Todos os povos e religiões têm teorias sobre o tempo e seus deuses que criaram o mesmo. A maioria delas solucionou a questão da mortalidade dando a imortalidade à alma.

E a tentativa de viajar no tempo é um desejo de muitos cientistas. Viajar ao passado é possível através da memória. Ao futuro, só com o sonho e a imaginação.

Na literatura, a questão do tempo é assunto primordial, mas essa coletânea fica para outro post, só vou deixar um fragmento do mítico “Retrato” , de Cecília Meireles:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Na música  também, o tempo é tema recorrente:

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final  (“Sobre o tempo”, Pato Fu)

XXX

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo (“Tempo perdido”, Legião Urbana)

XXX

Vi o tempo passar
O inverno chegar
Outra vez mas desta vez
Todo pranto sumiu
Um encanto surgiu
Meu amor (“Você”, Tim Maia)

XXX

Mais um ano que se passa
Mais um ano sem você
Já não tenho a mesma idade
Envelheço na cidade (“Feliz aniversário”, Ira)


Do tempo, quem há de fugir?

Esse é um texto aberto, infinito, mesmo quando não estivermos mais aqui.

PDF grátis: “O ente e a essência”, de São Tomás de Aquino


O opúsculo* “O ente e a essência” (PDF GRÁTIS AQUI), provavelmente escrito entre 1252 e 1256, é como se fosse um panfleto, só tem 48 páginas.  E como o próprio nome diz, a obra trata da essência das coisas, a metafísica. Incrível poder ler o que pensava esse senhor há quase 800 anos e ver que tentava racionalizar o misticismo.

A natureza da espécie é indeterminada em relação ao que é o indivíduo, tal como a natureza do género, em relação à espécie. (T.A.)

Tomás de Aquino nasceu na Itália em 1225, faleceu aos 49 anos e foi canonizado 50 anos após a sua morte. Era de família nobre, nasceu num castelo. Nessa época e nesse tipo de família era normal mandar os filhos servirem à Igreja. Possivelmente, Tomás não devia ter vocação para a guerra e nem as conquistas.

Significar a essência como um todo e como uma parte. (T.A.)tomas-de-aquino

                                                      Possível imagem de Tomás de Aquino.

O livrinho é muito explicativo e didático. Nota- se que o autor era um frade professor. Ele explica tudo muito bem, como os termos do título “ente” e “ser”. Tomás foi o maior representante da escolástica, a filosofia ensinada nas escolas medievais, que comparava a fé, a religião católica, a Bíblia, com a filosofia; e quando era a filosofia de Aristóteles, tinha um nome engraçado: peripatética. Tomás ensinava a filosofia peripatética. Nessa obra ele também fala de Sócrates.

Deus possui todas as perfeições no seu próprio ser.

Os acidentes individuais derivados da matéria  diferenciamos indivíduos de uma mesma espécie.

Fica aqui essa mini- resenha, pequena, senão eu conto o livro todo. Leiam, nem que for por curiosidade.


*o·pús·cu·lo

1. Livro pequeno sobre artes, ciência, etc. (Priberam)

 

Completa 25 anos a obra “O mundo de Sofia”


Quem disse que o leitor comum não gosta de filosofia?! O que prova o contrário é o sucesso que “O mundo de Sofia” vem fazendo há 25 anos. O escritor norueguês, Jostein Gaarder (Oslo, 08/08/19529, ficou conhecido no mundo todo por causa dessa obra.

O romance conta a história de Sofia Amundsen, que ao completar 15 anos, começa a receber cartões e bilhetes misteriosos e sem remetente. A história serve como pretexto (não vejo como pejorativo), acho que a intenção foi mesmo dar uma aula sobre a história da filosofia de forma amena, para que todos entendessem. E funcionou. O livro é leve e divertido, aconselhado para jovens (de todas as idades). A obra aliou entretenimento com aprendizagem, uma boa fórmula.

Eu tive o prazer de conhecer  o autor na Feira do Livro de Madri em 2010 (veja). Simpaticíssimo! Eu comprei o livro que ele havia acabado de lançar “O Castelo dos Pirineus”, mas levei o meu exemplar de “O mundo de Sofia”, em português (2005), que estava todo rasurado, rabiscado, sublinhado, para ele autografar. Não pense que ele ficou triste ao ver a sua obra mastigada, ao contrário, ficou feliz. Disse que foi em São Paulo lançar justamente a edição que levei:

 IMG_7483Madri, Junho de 2010

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