Resenha: “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón


Este é um dos melhores livros escritos em português. “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón é comparável ao “Livro do desassossego”, de Fernando Pessoa.

Narrar é prova de amor. O amor cobra declarações, testemunho do que sente. Fala da desesperada medida humana. Como amar sem os vizinhos saberem? Sem tornar pública a paixão que alberga os corpos na penumbra do quarto? (“Prova de amor, p.71)

Nélida Piñón passou um ano em Lisboa e acabou de voltar ao Rio de Janeiro neste mês de março de 2019. Nélida publicou este livro em terras lusas. Uma obra emotiva e transparente. Ela tem outros livros com teor biográfico, mas este é o mais íntimo e revelador.

A antologia consta de 146 textos (se não contei mal), com temáticas bastante diversas. Nélida narra em primeira pessoa, “Falar em primeira pessoa requer audácia” (“Sou múltipla”, p.197). E generosidade, completo. Nélida contou- se nesse livro. E contou a história dos seus ancestrais. Acredito nisto também, que somos multidão, carregamos na memória dos nossos gens, todos os que nos antecederam, além de carregar todas as leituras que fizemos. Ela mesma nos convida a vê- la sem véus, “vejam- me como sou” (“Eternidade”, p.97).

Nélida fala da sua infância no Rio de Janeiro, sua terra natal citada muitas vezes, dos passeios que fazia com a tia Teresa pelo centro do Rio. Teatro, cinema, o lanche na Americana. O sabor de um Rio de Janeiro mágico (em “A primeira vida”, p. 63).

“Uma furtiva lágrima” é uma aula magna sobre literatura. Nélida conta- nos sobre a sua profissão. Leia “Meu ofício” (p.18).

“Não há poesia na Morte” (p.19).

Concordo, a morte é dor. Nélida, no final de 2015, recebeu uma sentença de morte, “de seis meses a um ano”. O oncologista a sentenciou antes mesmo dos exames definitivos. Nélida pensou em escrever um diário, um resumo do seu final. Dá para entender o motivo da força deste livro, a autora acreditava que estava nos seus últimos dias, despedia- se da vida. Ela recebeu consolo dos seus dois cachorrinhos, Suzy e o falecido Gravetinho, sua paixão, seu “amuleto” (p.71), citado várias vezes. Esta obra é dedicada a ele. Nélida “contava os dias”, os que acreditava últimos. E pouca gente soube. Graças a Deus, o médico estava errado.

Viajamos com Nélida. Viagens “reais” a países e cidades; e viagens até os mitos gregos. O rastro de todas as suas leituras nos deixa uma rica bibliografia a ser anotada. “A imaginação é razão de viver.” (p.22)

A família é um assunto importante neste livro. E foi justamente um texto sobre este tema que me fez desmanchar, literalmente, em lágrimas. Eu li, reli, li de novo, e se ler agora outra vez, será pranto. É lindo, verdadeiro, mexeu com as minhas mais profundas emoções. Esta beleza chama- se “Estatuto do amor” (p.25).

Nélida é descendente de espanhóis. Em “Minhas quimeras (p.80), a autora declara o seu amor ao Brasil e reivindica suas raízes “recentes”, como qualificou no seu discurso da Academia Brasileira de Letras. No entanto, aqui meio que arrependida, talvez, finca seu pé no Brasil, terra de seus plenos direitos:

(…) Brasil agora é meu naufrágio, minha salvação, meu amor. E as raízes que brotam de qualquer rincão do país aninham- se igualmente no meu peito. E falo dele agora sem sanções, adquiri todos os direitos. Sou tão arcaica quanto quem aqui esteve no albor desta terra. (“A civilização do mundo”, p.92)

Por certo: Clarice e Nélida eram amigas. Clarice é citada nesta obra também, ela gostava de se olhar no espelho, tal como Lygia Fagundes, outra amiga de Nélida. (p.78).

Nélida fala sobre muitos outros autores. Machado de Assis, autores estrangeiros, e de João Cabral de Melo Neto (que morou na Espanha), disse que o autor de “Morte e vida severina”(clica), era “peculiar, que odiava música” (p.58); conta sobre a confissão de Carlos Heitor Cony (clica), que jamais havia amado tanto alguém como a sua cachorra Mila e ela a ele (p.60).

“Uma furtiva lágrima” será publicado no Brasil em abril pela Record:

A mais recente obra de Nélida Piñón (2019) publicada em Portugal.

Nélida fala da Bíblia, que a “deleita”. Fala no seu sentido narrativo e como ela inspira o escritor moderno (p.86). Cita Eclesiastes e Machado, que dominava estes textos. Sobre religião, Nélida declara- se “às vezes panteísta” (p.88). Eu também, só que sempre. Acho que é a definição perfeita de como sinto a vida.

Nossa melhor escritora brasileira perdeu bastante visão. Isso eu já sabia por ela mesma, mas agora contou em “Olhos” (p.167). A autora teme não poder ler nem escrever, que são a sua vida. Deus queira que isto não chegue a acontecer.

Nélida Piñón em Madri (Palace Hotel), no dia 25/11/2017. (foto: Fernanda Sampaio)

Depois de ler esta obra, estou com um livro sobre mitos gregos na cabeceira para reavivar a memória; esta, que também é mito representado pela deusa Mnemósine. A memória prodigiosa de Nélida Piñón a caracteriza, embora ela tenha dito num texto que “a memória é frágil”. (p.126). Que seria dos humanos, sobretudo se são autores, sem a memória?

A arte narrativa, além de avaliar o que foi pretérito e hoje é presente, perpetua a fala da alma, restaura a crença no que há por trás da harmonia e da discórdia. (p.71)

A obra pode ser lida sem ordem, os textos são independentes. Eu me apaixonei por muitos, li e reli, porque me seduziram completamente. Fazia tempo que eu não sentia pena ao acabar um livro.

Não esqueça que esta obra será lançada no Brasil no próximo mês de abril. Anota na sua lista, este você precisa ter, garanto que você vai gostar.

Nesta obra há muitos outros tesouros, alguns eu quero guardar só para mim. Encontre os seus também. Boa leitura!


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O dia em que eu encontrei Nélida Piñón


Os hablo como una escritora al servicio de la memoria brasileña (…) (Nélida Piñón, in “La épica del corazón”)

A minha vida é comum, mas, de vez em quando, acontece algo surpreendente. Há cinco dias recebi um convite pra lá de especial, um encontro em Madri com a grande Nélida Piñón!

Sinceramente, achei que nem iria acontecer. Uma escritora com muitos compromissos importantes, consagrada (a melhor do Brasil, na minha opinião), imortal da Academia Brasileira de Letras, prêmio Príncipe de Astúrias na Espanha, entre muitos outros, pessoa acostumada a conviver com artistas, outros grandes escritores, jornalistas do mundo todo e de grandes meios de comunicação, outras gentes poderosas, inclusive da realeza… que interesse a Nélida poderia ter em conhecer- me? “Por isso mesmo”, pensei. Justamente por eu ser uma pessoa comum. Nélida é uma grande escritora, as pessoas são o seu objeto de trabalho, ela precisa estar com gente de todas as classes e feitios. Além do mais, os escritores conseguem enxergar além, fazem leituras mais profundas das pessoas.

Nélida, assim como outros bons autores, recolhem os testemunhos da nossa era. Aprisionam nessa cápsula do tempo chamada “literatura” o que somos e repassarão as nossas vozes ao futuro, principalmente quando não estivermos mais aqui. Eis o sentido real da imortalidade.

O encontro aconteceu sim. Nélida, além de ter palavra, é muito pontual.

É bem verdade que já tive um contato anterior com a autora há dois anos, quando fui editora da Revista BrazilcomZ (cessada temporariamente, no ano que vem voltará com tudo). A entrevista (escrita) foi belíssima, uma aula magistral de literatura. Vou postá- la aqui no blog nos próximos dias. 

Enfim, o encontro aconteceu no Palace Hotel de Madri,  pertinho do Museu do Prado e do Museu Thyssen, o quarteirão de ouro das Artes em Madri, na quarta passada, 22 de novembro.

Eu sou atrapalhada, constantemente acontecem situações que constrangeriam a maioria, mas como são tão comuns comigo, simplesmente as ignoro ou as trato com humor. Nélida enviou- me uma mensagem no WhatsApp, que me “esperaria sentada na ‘rotonda’ do Hotel às 16:30h”. Em frente ao Palace há uma ‘rotonda’ (rótula, como se fala em muitos lugares do Brasil) de frente à fachada do hotel; nela, está a Fonte de Netuno, onde acontecem as comemorações dos torcedores do Atlético de Madri, quando o time vence algum jogo.

Cheguei às 15:55h e fiquei diante do hotel esperando o horário combinado. “Muito estranho”, pensei. Andei pra lá e pra cá, nervosa. “Banco, que banco?”. Não havia. “Será que é do outro lado?”. No lado oposto do Palace fica o Ritz, lá sim tem alguns bancos. Quando deu 16:20h, escrevi para Nélida: “Eu estou esperando na ‘rotonda’, mas não vejo nenhum banco”. E Nélida (eu pude sentir o seu sorriso), “não, querida, a ‘rotonda’ fica dentro do hotel, já estou aqui”. Fernanda sendo Fernanda. Primeiro fora da tarde, será que viriam outros?

Subo para o hotel. Na recepção, aquela típica figura clássica de hotéis de luxo, um senhor uniformizado, aquele que recebe clientes, carrega suas malas e atende os mais variados e exóticos pedidos. Na Espanha é chamado de “conserje”. O conserje me indicou onde ficava a “rotonda”. Nesse momento, nem prestei atenção em quem estava no local e como era o ambiente. Passei o olho na enorme sala circular, com um belíssimo vitral no teto, observado só mais tarde, e vi Nélida Piñón sozinha numa mesa.

Amigos, “Rotonda” é um restaurante que fica dentro do Palace. Até então, eu não sabia que estaria a sós com Nélida, a escritora que admiro desde sempre. “A república dos sonhos” é um dos meus livros favoritos, é uma obra- prima, um livro difícil de ser escrito, um trabalho precioso de arte literária. Aqui tem a resenha, leia.

Na noite anterior, mal havia dormido imaginando que tipo de encontro seria.  Achei que seria algo coletivo com outros bloggers, jornalistas, leitores, admiradores, não sei. Mas não, eu tive praticamente uma tarde inteira de Nélida Piñón só para mim. Lembrando que as tardes na Espanha duram até às 20h. 

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Nélida Piñón no Hotel Palace em Madri, 22/11/2017 (Foto: Fernanda Sampaio Carneiro)

A dama Nélida Piñón levantou- se para me receber. Já nos primeiros minutos, todo o meu nervosismo desapareceu, ela deixou- me completamente à vontade. Convidou- me para um café e falamos de assuntos muito variados. Deixei- me conduzir, costumo ser tagarela, mas dessa vez queria só ouvir, aprender.

Nélida é elegante, alegre, falante, vital. Uma mulher rica de experiências e  ideias. É um ser que inspira, que nos enriquece. Confesso que, por duas vezes, caíram lágrimas. O outro fora da tarde? Senti- me acolhida, como se já a conhecesse há anos. Perguntou- me muitas coisas, interessou- se por minha vida.

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Selfie: Fernanda Sampaio e Nélida Piñón no Palace em Madri, 22/11/2017

Nélida irá à Lisboa para uma temporada no ano que vem. Pretende escrever um novo livro. Será uma espécie de “República dos sonhos” ao contrário? Neste, ela conta a história de galegos que imigraram ao Brasil, fato que aconteceu com sua própria família. Nélida é filha de espanhóis da Galiza. Essa nova obra será a história do êxodo brasileiro à Europa? Não tenho ideia, é só um palpite, vamos aguardar!

Sobre escritores e escritoras no Brasil, Nélida considera o trato desigual. O protagonismo feminino é bem menor, como se o que escrevessem tivesse menos importância. Essa última consideração, já minha. Temos que lutar pela igualdade de condições também nesse âmbito; aliás, em todos, editorial, acadêmico, trabalhista. Há muito machismo na área de Letras. Nos cursos universitários os homens são a minoria, mas sempre têm vagas, praticamente garantidas, no ensino superior. Ninguém repara nisto?! 

Voltando ao encontro. Também demos um pequeno passeio caminhando por Madri. Surreal. Que honra, que prazer!

Eu tenho quase a obra toda da autora, mas só levei dois livros para serem autografados, com medo de abusar de sua boa vontade. Serão mostrados na altura que postar as resenhas.

Na Espanha, saiu o mês passado pela editora Alfaguara o“La épica del corazón” você pode ver também outros títulos da autora aqui. É o “Filhos da América” editado no Brasil pela Record, quem quiser comprar, clica aqui. Na Espanha, o nome ficou bem diferente. É um livro interessantíssimo, estou louca para terminar e contar aqui para vocês!

Bem, pessoal, esse dia foi marcante e muito feliz! Cada um com sua emoção, não é? Cada qual com os seus ídolos. Essa experiência tão intensa pra mim, possivelmente tenha mudado algo muito importante no meu interior. Sinto- me com mais coragem para fazer coisas que antes não tinha. Esse é o alcance que um ser humano pode ter em outro: o de modificar vidas só com a palavra, a atenção, o afeto e a amizade. Cultivemos, pois!

À Nélida, gratidão! 

Veja como foi a “III Oficina Falando em Literatura” em Madri


No último dia 16 de novembro, aconteceu a oficina literária sobre a obra do escritor baiano Antônio Torres. A turma foi animada e participativa. Contei aos participantes sobre a maravilhosa trilogia do sertão: “Essa terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo fundo da agulha”, além da bibliografia urbana- histórica- carioca, do autor imortal da ABL, passamos também pela literatura infanto- juvenil.

A intenção dessas oficinas, além de estimular a leitura de grandes obras e autores, é também a de despertar ideias, a criatividade. Que encontrem seus próprios caminhos para desenvolver a escritura artística.

Veja algumas fotos do nosso último encontro:

img_2286“Lola” (Maria Dolores) e Deborah.

img_2293Márcio e Simone.

img_2300Márcio em “ação”.

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Mãe e filha.  Dona Suely e Renata. Houve depoimentos que nos deixaram emocionados.

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Dona Suely, recém chegada de Recife.

img_2313Escritura criativa.

img_2289Simone.

img_2305Renata.

img_2303Deborah.

img_2302Lola.

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15073307_862185890550436_8351533164920597600_n Saiu uma nota sobre as oficinas na coluna de Ancelmo Gois do jornal “O Globo” (16/11):

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img_2308A turma na Casa do Brasil no último dia 16 de novembro de 2016.

E amanhã tem Nélida Piñón! Se você está em Madri e quer participar , escreva para o e-mail: falandoemliteratura@gmail.com. As oficinas são patrocinadas pelo Itamaraty com o apoio do Consulado do Brasil em Madri e são gratuitas para os participantes.

Dez livros que você deve ler antes de morrer


Para os amantes da literatura (ou não), recomendo esses dez grandes livros da nossa literatura brasileira, essenciais na biblioteca de todo bom leitor, veja quantos leu dessa lista, se tiraria ou acrescentaria algum deles:

  1. “Dom Casmurro”, de Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) foi o melhor escritor que o Brasil teve de todos os tempos. Recomendo a leitura de toda a sua obra, mas escolhi “Dom Casmurro” pela intriga, pela dúvida e mistério que Machado cria em torno dos personagens Capitu e Bentinho. Será que a esposa traiu o marido? Uma obra imperdível!

  1. “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa.

É uma saga sertaneja que impressiona pela inovação e riqueza da linguagem. Guimarães Rosa (1908- 1967) foi um escritor único, inimitável, muito original, que vai te deixar impressionado ou impressionada. É uma obra muito, muito complexa, que irá te fazer pensar em muitas coisas da vida. Garanto!

  1. “Essa Terra”, de Antônio Torres.

Uma obra emocionante, que certamente irá tocar o seu coração imigrante. Antônio Torres (1940) conta a história de uma família baiana humilde do interior. Um dos filhos vai para São Paulo, como é o destino de muitos nordestinos. Uma narrativa composta de tragédia, comédia, drama, que chacoalha sentimentos.

  1. “A hora da estrela”, de Clarice Lispector.

O último livro de Clarice Lispector (1920- 1977), “A Hora da estrela”, conta a triste vida de Macabéa, uma nordestina na grande cidade. A moça vive e come mal, é maltratada pelo namorado e pelo chefe, traída pela amiga, mas consegue manter a ingenuidade e a esperança. É de uma beleza e sensibilidade comoventes!

  1. “A república dos sonhos”, de Nélida Piñón.

Nélida Piñón (1937) é a melhor escritora brasileira de todos os tempos! Você pode comprovar lendo “A república dos sonhos”, um trabalho fino de arte literária. Os pais da autora eram espanhóis e Nélida tem uma relaçao íntima com a Espanha, fato refletido nessa obra. Esse romance conta a história de imigrantes galegos no Brasil. Vale a pena!

  1. “Compêndio para uso de pássaros- Poesia reunida de 1937- 2004”, de Manoel de Barros.

Esse é uma obra para ficar na sua cabeceira (e no seu coração) para sempre! Manoel de Barros (1916- 2014), poeta, escreveu a vida e a natureza com uma beleza infinita!

  1. “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.

Uma obra feita para o teatro, uma comédia, de Ariano Suassuna (1927- 2014). Os personagens João Grilo e Chicó são hilários e inesquecíveis, não deixe de ler!

  1. “Vidas secas”, de Graciliano Ramos.

Essa obra- prima de Graciliano Ramos (1892- 1953) é bastante marcante e forte. Conta o drama de uma família retirante nordestina e as agruras da terra seca, a luta pela sobrevivência. Os personagens mal falam, soltam sons guturais, e com isso, expressam muito. A cachorra Baleia é uma grande protagonista, quase humana. Ou são os humanos que estão à beira da desumanização devido ao sofrimento? Grande livro!

  1. “O sentimento do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.

Você tem que ler toda a obra de Drummond (1902- 1987), esse é um autor essencial. Sua obra poética é rica e bela. O autor era jornalista e escrevia crônicas também. Seus versos são de arrepiar!

  1. “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles

A grande escritora brasileira, Lygia Fagundes (1923), conta no seu primeiro romance “Ciranda de Pedra”, um drama familiar. É um romance psicológico que nos faz refletir sobre a nossa própria vida.

Publicado originalmente na Revista BrazilcomZ (Espanha), abril/2016, Fernanda Sampaio.

Primeiro vídeo no Canal Falando em Literatura!


O poeta Alejandro Panés e sua máquina de escrever na Feira do Livro de Madri 2016. Ele escreveu um poema para o Falando em Literatura em apenas 3 minutos. Eu dei o tema: “Falando em literatura…literatura salva?”.

O vídeo está sem editar. Falar a verdade, não tenho muita paciência, minhas tentativas de edição não ficaram legais, fora os problemas técnicos. No próximo, tentarei algo mais bacaninha. Mas chega de desculpas, não é? Assim ou nunca começo.

Se vocês quiserem que eu continue postando vídeos, eu continuo, senão ficaremos só aqui no blog mesmo.  Dá muito trabalho fazer pra ninguém ver.

Veja como o poeta pensa rápido no meio de muita gente e barulho.

Leonardo pertence ao grupo Momento Verso de Madrid. Você dá o tema e eles o poema.

O poema saiu muito bom! Ativem as legendas. Espero que gostem!

Resenha: “Olhai os lírios do campo”, de Érico Veríssimo


De que serve construir arranha- céus se não há mais almas humanas para morar neles? (…) E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu. (Trecho da carta de Olívia para Eugênio)

 A literatura imita a vida. Essa é uma história de amor e desamor, de conflitos interiores e familiares, que muitos irão se identificar.

Quando o interesse, o medo, a baixa auto- estima, a ganância, a covardia tomam decisões ao invés do coração, da alma, da intuição e do amor– o fracasso é certeiro. Isso é o que aconteceu com Eugênio, o protagonista dessa história– o “Genoca”, na infância.

“Olhai os lírios do campo” é um clássico da literatura brasileira modernista com um título poético, que recorda um trecho da Bíblia (Mateus 6,24-34), que é um resumo perfeito para a história de um materialista que estragou o presente por medo do futuro:

Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? Não vos preocupeis, dizendo: ‘Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?

Érico Veríssimo (Cruz Alta, 17/12/1905 – Porto Alegre, 28/11/1975) publicou “Olhai os lírios do campo”, seu quinto romance, em 1938. O primeiro, “Clarissa” (1933), eu quero reler em breve. “O tempo e o vento” (em três partes, escritos entre 1949 e 1962), “O resto é silêncio” (1943) e também “Incidente em Antares” (1971), foram obras que viraram minisséries na tv (algumas para o cinema também), talvez as mais conhecidas. No Brasil, os autores ficam “populares” quando suas obras vão para a televisão, literatura não é popular, o brasileiro está muito distante de ser um povo leitor.

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Memorial Erico Verissimo - Fotos do Érico Veríssimo FOTO: Leonid Streliaev

(Memorial Erico Veríssimo. Fotos: Leonid Streliaev)

Vamos à história:

Eugênio menino no internato. Eu gênio rapaz na universidade. Eugênio adulto no táxi. Três narrativas intercaladas no tempo vão tecendo a história e revelando, aos poucos, o porquê do protagonista estar num táxi ao encontro de Olívia, que está morrendo no hospital.

O doutor Eugênio escolheu uma mulher que lhe convinha de acordo com seus medos e interesses, ele precisava de segurança. As suas más escolhas são justificadas pela infância pobre e o seu rancor em relação ao pai, que ele não conseguia admirar nem amar, sentia- se envergonhado, apesar de todos os esforços do homem, alfaiate, por dar- lhe a melhor educação em um internato privado, um colégio inglês cristão só para rapazes, o Columbia College.

A recordação da humilhação na infância é o motor da vida de Eugênio, é para fugir desse sentimento que estão baseadas todas as ações na sua vida adulta. Eugênio quer ser respeitado socialmente, custe o que custar. Cego.

Eunice, rica, foi a aposta segura. Eugênio formou- se em Medicina, mas não queria ser médico de subúrbio. Gostava de luxo, de fama e queria fugir da pobreza, o legado da sua família simples e honesta. Fingia amar Eunice, mas pensava em Olívia. O tempo todo estava ciente do erro, vivia angustiado e infeliz.

O personagem tem uma visão deformada da vida. Posso citar o caso brasileiro sem pestanejar. O valor está no ter. As pessoas envergonham- se de serem simples, há uma necessidade de ostentar, ainda que não tenham nada. Esse livro é espelho. Esta pode ser uma das funções úteis da literatura.

Apesar que essa é uma tendência já ficando ultrapassada, a da “segurança”. Universidade, concurso público, propriedades, casamento… A nova geração, a turma dos 20, já demonstra uma mudança de comportamento aqui e aí. Os jovens querem comprar experiências e não uma prestação de apartamento por 30 anos. Alugam, não compram; viajam, não criam limo; juntam- se, não casam. São mais honestos e espontâneos. A opinião alheia já não influi. São mais livres, sem hipocrisia. Estão apostando muito mais pelo amor.

Ufa! Evolução do ser. Movimento, conhecimento de outros mundos, do outro e de si mesmo. O material não é a prioridade. Que vingue essa tendência. Que desfaçam [um pouco] os estragos do capitalismo, da moral falida (e hipócrita) das sociedades controladoras, dos casamentos de conveniência e das religiões duvidosas, que promovem mais guerras do que a paz (a história passada e presente como respaldo).

Eu cheguei a sentir raiva de Eugênio. É o tipo de pessoa, digo, personagem, que me provoca repulsa. Um covarde materialista, agarrado, pequeno, que não sabe ver a beleza da vida, nem das pessoas (quantos Eugênios!).

O seu pai é o máximo e ele sente vergonha do velho. A palavra mais repetida desse livro é “humilhação”. Eugênio não acredita em Deus, mas entrega- se ao todo poderoso. Ele quis ser médico para salvar o pai que sofria de tosses intermináveis, asmático, e porque admirava o Dr. Seixas, que atendia os pobres sem nada cobrar. Mas ele, formado, não conseguia fazer o mesmo, odiava atender gente miserável. Eugênio, um ser desprezível, estava com dois amigos “ilustres”, cursava o 2º ano de Medicina e aconteceu isto, veja:

Eugênio viu um vulto familiar surgir a uma esquina e sentiu um desfalecimento. Reconheceria aquela figura de longe, no meio de mil… Um homem magro e encurvado, mal vestido, com um pacote no braço, o pai, o pobre Ângelo. Lá vinha ele subindo a rua. Eugênio sentiu no corpo um formigamento quente de mal- estar. Desejou– com que ardor, com que desespero!– que o velho atravessasse a rua, mudasse de rumo. Seria embaraçosos, constrangedor se Ângelo o visse, parasse e lhe dirigisse a palavra. (p. 68)

É ou não é desprezível?!

Eugênio considerava- se superior. Mas ele tinha consciência dos seus sentimentos, sentia remorço. Uma luta interior que não durava muito, é verdade. Logo comparava as realidades da sua vida e dos amigos ricos, dos livros e da linguagem do seu pai, e o desprezo voltava. “Odiava a pobreza. Odiava a humildade.” (p. 73) O pai era bom demais. Sentia pena e raiva ao mesmo tempo.

Olívia era a única mulher da turma de Medicina de Eugênio. Ela também era pobre, formou- se com sacrifício, trabalhando e estudando ao mesmo tempo. Começaram um idílio no dia da formatura. Um amor puro. Mas, cada um foi para o seu lado.

 O arrependimento veio tarde demais. Olívia está morrendo. Eugênio no táxi indo despedir- se de Olívia é o ponto central da obra na primeira parte (o livro é dividido em duas partes). Uma viagem amarga. Uma analogia da dor, do peso do erro. A sensação de inferioridade destruiu a vida de Eugênio.

O trecho célebre dessa obra, a parte que ficou mais conhecida , talvez o motivo da popularidade, é a carta que a falecida Olívia deixou para Eugênio. Não é spoiler, porque é bem fácil de adivinhar” desde o princípio que Olívia vai morrer, o autor deixou bastante evidente. Só um trechinho pra vocês identificarem, coloquei também na abertura da resenha  (p.198):

(…) Estive pensando muito na fúria cega com que os homens atiram- se à caça ao dinheiro”

Olívia e Eugênio começaram um relacionamento, mas não colocaram rótulo, curtiam ficar juntos, sentiam- se bem. Ela decidiu ir para outra cidade trabalhar e Eugênio ficou centrado no seu projeto de vida: enriquecer e ser respeitado. Enriqueceu casando com a filha de um industrial, mas continuou sentindo- se inferior. Pensava o tempo todo em Olívia. Tinha também uma amante, mas o vazio não acabava, Olívia é que ocupava o seu coração. Essa, por sua vez, foi embora grávida, mas não disse nada, pensava que Eugênio era feliz. Esse é o tipo de amor maior que existe, aquele que renuncia pela felicidade do outro.

Duas semanas depois da morte de Olívia, Eugênio contou a verdade, contou sobre a filha Anamaria de 3 anos e do amor que tinha pela sua mãe. Foi embora da casa de Eunice.

Depois da morte de Olívia o romance decai junto com a nossa esperança e o ânimo de começar a leitura. Poderia ter sido o fim, não importou muito o que veio depois. Mas há mais 200 páginas. Calma nessa hora para não desistir. À essas alturas a gente já deseja mesmo que Eugênio se dane. Precisou Olívia morrer para começar uma vida nova, a que deveria ter sido sempre, a redenção. “Antes eu estava cego.” (Eugênio).

A edição lida foi essa abaixo, portuguesa, com posfácio do próprio Érico. Ele disse que este livro modificou a sua vida por causa do enorme sucesso. Foi depois de “Olhai os lírios do campo” que pensou em levar a literatura como profissão. Confessou que não gosta da obra, a considerava sentimental demais, o que lhe provocou até constrangimento devido ao seu sucesso. Ele também comenta sobre a Revolução de 30, “pano de fundo” desse romance.

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Veríssimo, Érico. Olhai os lírios do campo. Clube do Autor, Lisboa, 2014. Páginas: 376

“A vida começa todos os dias”. (Olívia)