Resenha: “O estrangeiro”, de Albert Camus


Essa é uma das leituras mais complicadas que já fiz. A análise não está completa, talvez nunca esteja, ainda estou pensando.

Depois de ter lido “A queda” e ter adorado, emendei com “O estrangeiro”, que é uma das obras mais conhecidas de Albert Camus. História complexa. Confesso que me faltam recursos “técnicos” em Psicologia para descrever a profundidade do personagem Meursault.

O livro é dividido em duas partes: a primeira nos conta quem é o personagem principal, suas relações, sentimentos e modo de vida; a segunda, as consequências do assassinato que cometeu.

Esse romance transcende tudo o que eu já li até agora, vai mais além do que eu conheço e entendo.  É uma parábola da condição do homem. Uma alegoria da fatalidade que resulta viver como se vive.

A história acontece na Argélia (terra natal do autor). Começa com a notícia do falecimento da mãe de Meursault comunicada através de um telegrama. Ele mora em Argel e a mãe em Marengo, distante duas horas. Ela morreu num asilo. Parece que a relação entre eles não era muito fluida, não se falavam todos os dias, ele não sabe ao certo o dia de sua morte. Assim começa o livro (p.11):

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe falecida. Enterro amanhã. Sentido pêsames”. Nada quer dizer. Talvez foi ontem.

Parece frieza, mas quem era sua mãe? Cuidou dele ou o abandonou? Em um brevíssimo momento cita o seu pai, nunca o conheceu. Ele pagava o asilo para a mãe, não a deixou desamparada. Mas, dependendo da sua visão do mundo, se tem a sua mãe em um pedestal e a considera um ser santificado, vai julgar e condenar Meursault como a maioria faz. Asilo virou sinônimo de coisa ruim, abandono, descaso, mesmo que a pessoa esteja sendo muito bem tratada, cuidada e amada. Camus era inteligentíssimo. “Brincou” com muitos dos pré- conceitos das pessoas.

Mersault é um ser racional, que aceita sem dramas as coisas ruins da vida. As boas, tampouco lhe emocionam. Um ser que parece carecer de sangue nas veias, mas isso tudo tem a ver com a verdade. Ele não teatraliza a sua existência.

No dia do velório da mãe, ele pensa em coisas triviais, a hora que vai pegar o ônibus, pensa no chefe que o dispensou do trabalho com má vontade e nem sequer deu os pêsames. Ele resolve essas coisas, viaja, almoça, com uma sensação de não acreditar ainda na morte de sua mãe. Pode ser um mecanismo de defesa, a negação. Quando você não pensa em algo, ela não existe.

A mãe estava há três anos no asilo. A relação entre eles era incômoda, não tinham assunto. Ela gostava de ficar no asilo, estava adaptada e tinha até um namorado.

Durante o processo judicial Meursault sofreu um julgamento paralelo mais forte em relação a sua mãe, do que o do assassinato do árabe. O crime não foi premeditado, foi em legítima defesa. Meursault foi ofuscado pelo sol na praia e disparou mais tiros do que os necessários. Mas ele já estava condenado antes de ser julgado.

Muitas resenhas por aí dizem que o protagonista é frio e que não ligou para a morte da mãe. Isso é ter lido O estrangeiro muito superficialmente, não leu as entrelinhas, não interpretou e isso é o mais importante de uma obra literária. Ler ao pé- da- letra não é ler.  Nem sei se vou conseguir me fazer entender aqui, mas sei que não foi simplesmente frieza.

Pensei em muitas coisas, até em sociopatia e psicopatia, no final, mas ainda refletindo, creio que Meursault é o mais equilibrado dos personagens, pelo menos age de acordo com o que pensa e sente, não como a maioria das pessoas na vida mesmo. Ser verdadeiro é coisa muito mal vista, todos estão para as aparências e para agradar os demais, não? Meursault é um símbolo de algo maior. A liberdade? A clareza, a sinceridade?

Não tenho capacidade para adivinhar o que quis dizer Camus com esse personagem, mas vou dar a minha opinião: todos somos Meursault. Quantas vezes você sorriu sem vontade? Fez muitas coisas sem vontade, porque era o estabelecido, você não tem liberdade de ser quem quer, quem é, por causa de regras sociais de conduta. Quantas vezes esteve com pessoas e lugares que não queria estar? Muitas, não? A diferença é que  Meursault não faz isso, ele nos revela atos e verdades incômodas, consegue ser livre dentro da prisão que é o viver. Isso fica bem claro no final. Na prisão, mas livre.

A linha entre ser “uma pessoa normal” e um assassino é muito sutil. Se você tem uma arma na mão e uma pessoa quer te machucar, porque já te machucou antes…se ela viesse na sua direção com uma faca, o que você faria? Esperaria ser esfaqueado ou atiraria na pessoa?

Não o condenaram pelo ato de matar alguém, mas por quem ele aparentava ser durante a sua vida. Foi julgado até por ter tomado um café- com- leite no velório da sua mãe e por não ter chorado. Por ter ido à praia e ao cinema com a sua namorada no dia seguinte. Tudo isso o condenou.

Tudo o que você pensa é bom? Você, leitor, também julgou Mersault.

Analise os seus pensamentos e ações e veja o quanto de Meursault existe em você. Ainda bem que o pensamento é livre, senão estaríamos todos, eu digo todos, condenados.

Quando você não demonstrar algo que a sociedade espera, será esmagado. Continue fingindo. Meursault é inocente. Ou somos todos culpados?

Leia  e coloque o personagem no banco dos réus. Brinque de juiz.

A edição espanhola lida:

13418727_619713974850833_7974081358851172287_nCamus, Albert. El extranjero. Alianza Editorial, Madrid, 2015. Páginas: 122

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A literatura no cinema


Assisti três filmes muito bacanas nos últimos dias e vi que eles tinham algo em comum: todos falam sobre literatura e filosofia em algum momento. Um deles não pude anotar as frases, porque foi no cinema,  “Irrational Man” (2015), de Woody Allen.

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Esse filme deixou- me surpresa, ele não é o que parece. O trailer parece a história de um professor depressivo que se apaixona por uma aluna e renasce. Não, longe disso, não vou dar o spoiler, claro. A história vai muito além, só digo que ele não se apaixona pela aluna, é outro fato que o faz sair da depressão. A história está baseada no Existencialismo de Jean- Paul Sartre (eu adoro Sartre, lá no meu blog Falando em Literatura há algumas resenhas sobre seus livros) e no livro de William Barrett chamado, adivinhe? “Irrational Man”. Barret foi professor de filosofia na Universidade de Nova York, faleceu em 1992, foi contemporâneo de Sartre. Allen parece que compôs o personagem baseado em “A Náusea” de Sartre (veja resenha).

Quer saber quais são os outros dois filmes? Continue lendo lá no PalomitaZ, meu blog de cinema na Revista BrazilcomZ.

Resenha: Uma criatura dócil, Fiódor Dostoiévski


…Enquanto ela estiver aqui, tudo vai bem: a cada instante chego perto para vê- la, mas que será de mim quando a levem amanhã e eu fique sozinho? (p. 15)

Esse livro começa com uma nota do próprio Dostoievski explicando um pouco sobre o gênero do relato, que ele classifica de “fantástico”, mas com um grande fundo realista. Eis aí uma grande contradição. Eu acho muito bacana essa conversa direta com o leitor, alguns escritores também fizeram isso, dirigiram- se diretamente ao leitor, como Saramago e Machado de Assis. O escritor diz que demorou quase um mês para escrever esse texto. A narrativa trata de uma jovem mulher que havia se jogado de uma janela há algumas horas e seu marido fica aturdido, dando voltas, sem saber o que fazer ou pensar. Ele chegou cinco minutos tarde. O homem quarentão, militar retirado, tem uma loja de penhores e é hipocondríaco. Fala consigo mesmo, não está bem psicologicamente e tem que lidar com essa situação, sua esposa morta. Ela, uma órfã com 16 anos incompletos, estendida em cima de duas mesas durante seis horas. Dostoiévski explica que é uma narrativa contraditória nos aspectos psicológico e sentimental, o pensamento debatendo- se até encontrar a verdade. O autor mesmo qualifica esse embate de “confuso”Por que a mulher suicidou- se? Quando temos a notícia de algum suicídio, não é sempre essa pergunta que nos passa pela cabeça?

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Fiódor Dostoiévski nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscovo, Rússia e  faleceu em 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, Rússia. Escritor existencialista, sua obra considera o homem como centro e todo o conjunto de suas emoções e pensamentos. Jean- Paul Sartre também seguia essa linha, ele disse: “A existência precede e governa a essência.
Dostoiévski nos mostra a intimidade de um casamento por conveniência, ela muito pobre, ele muito solitário. Ele, o poderoso; ela, a submissa. Conheceram- se quando ela o levava objetos de muito pouco valor para penhorar.

(…) as pessoas boas e submissas não resistem muito e, ainda que não sejam muito expansivas, não sabem esquivar uma conversa: respondem com sobriedade, mas respondem, e quanto mais avança o diálogo,  mais coisas dizem; basta não cansá- los, se você quer conseguir algo. (p. 19)

A moça vendia seus poucos pertences para colocar anúncios no jornal “A voz” oferecendo- se para trabalhar como institutriz, caseira, costureira, cuidadora de doentes… até desespero chegar e  pedir um trabalho por casa e comida. Ela queria sair da casa das tias que a maltratavam e que queriam vendê- la a um homem que já havia matado, à base de surras, suas duas esposas anteriores.

Durante o casamento era ele que ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo achava- se um tirano e a moça doce, mansa e angelical, mas ele não conseguia mudar de atitude, talvez essa seja uma das contradições que Dostoiévski comentou. O homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, instinto, ações. Mesmo sentindo- se culpado pela morte da esposa, tentava justificar- se e colocar a culpa na defunta.

A vida dos homens, em geral, está maldita! (p.43)

Até as pessoas mais calmas e mansas têm um limite. A esposa adolescente era empregada do marido na loja de empenhos. Ela fez um mal negócio para um viúva idosa e o marido reclamou. A moça esbravejou, perdeu a serenidade, ficou uma fera. Deixou de falar com o marido e sumiu por dois dias. Nesse tempo a moça mudou bastante aos olhos do marido. Ou ela sempre foi assim, espirituosa, violenta, agressiva?

Ler Dostoiévski é sempre uma incursão ao interior do ser humano, uma evocação do que existe de mais profundo, como a abertura de um porão abandonado e esquecido. Ele liberta o fluxo do pensamento antes da ação, mostra o plano mental e emocional do homem.

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Esse quadro de Gabriel Von Max, “O anatomista” (1869), retrata perfeitamente a cena do homem e da mulher morta que Dostoiévski narrou em “Uma criatura dócil”.

O amor às vezes chega tarde demais…e não há mais salvação, só resta a dúvida.

“O último dia de um condenado à morte”, de Victor Hugo. Livro citado por Dostoievski nessa obra,  já está na minha lista de desejos.

Edição brasileira à venda na livraria Cultura:

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A edição em espanhol que eu li:

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Dostoievski. Fiódor M., La mansa, Alba Brevis, Barcelona, 2012. 90 páginas

 

Resenha: Crime e Castigo, de Fiódor M. Dostoiévski


(…) a compaixão, em nossos tempos, está proibida pela Ciência. (p. 23)

Começo dando um conselho: não perca tempo. Não temos tempo para ler tudo o que gostaríamos durante a nossa vida, então comece pelos melhores, os clássicos como “Crime e Castigo”, por exemplo. Segundo conselho: não desista nas 100 primeiras páginas, porque é a partir daí que o livro fica irresistível e você não vai conseguir desgrudar os olhos. Esse livro é considerado pela crítica a primeira obra- prima de Dostoiévski. O autor analisa profundamente o psicológico do personagem principal, o jovem ex- estudante Rodion Raskólnikov, pobre, teve que abandonar os estudos universitários por falta de recursos, vivia sozinho num quarto de pensão esquálido e minúsculo. Ideias começaram a surgir e num dia baixo um estado febril e delirante, ele assassinou uma agiota, a idosa Alíona Ivánovna, justificando ser por fins humanitários. Também matou a irmã de Alíona,  Lizabeta, pois ela chegou na hora errada, viu o cadáver da irmã estendido no chão da sala, enquanto o assassino roubava jóias e dinheiro no quarto, objetos que nunca chegou a utilizar em benefício próprio.  Raskólnikov crê que “os fins justificam os meios”. Justificam? A motivação:

Eu, a essa velha esganada a mataria e lhe roubaria, e te juro que sem o menor remorço (…). Mas veja: por um lado, uma velha estúpida, imbecil, inútil, má, doente, que a ninguém serve de proveito, senão ao contrário, a todos prejudica; ela mesma não sabe para que vive e qual manhã morrerá sozinha. (…) De outro lado, energias juvenis, frescas. que se rendem em vão, sem apoio, milhares, e esto em todos os lugares. Mil obras e iniciativas boas que poderiam ser feitas com o dinheiro que essa velha dá ao monastério. Centenas, milhares talvez, de existências acarreadas ao bom caminho; dezenas de famílias salvas da miséria, da ruína, da corrupção, dos hospitais venéreos. E tudo isso com seu dinheiro. Matá- la, tire seus dinheiros para com eles consagrar- le depois ao serviço da Humanidade toda e ao bem geral. (p. 86)

Quando a inteligência falha, o diabo a substitui(p. 95)

Raskólnikov também tem uma outra teoria, “une théorie comme une autre”, que diz que os homens são divididos em seres materialistas e seres especiais; os especiais são os que nunca são submetidos às leis, por sua alta posição,  são eles mesmos que as criam, e aos materialistas nada, só o pó. O estudante assassino é fã de Napoleão Bonaparte por considerá- lo um indivíduo genial, já que cometeu crimes “necessários” sem pensar neles, sem problemas de consciência.

Dostoievski conseguiu desvendar uma parte importante da mente humana. Ele conseguiu decifrar o que, possivelmente, todo mundo pensa, sente, aquelas coisas secretas que guardamos para nós mesmos na maioria das vezes. A moral, a religião, as leis e as regras sociais podem barrar certas ações, mas não podem impedir o pensamento. Todo mundo pensa “o que não deve”, principalmente se a situação é muito adversa, limite. O escritor destrincha a alma humana e suas mazelas, a pobreza, a decadência, entra numa área desconfortável, que todo mundo prefere evitar.

(…) felizes dias pretéritos. (p.25)

Feodor Dostoyevsky

O russo Fiódor Mikhailovich Dostoiévsk ( Moscovo, 11 de Novembro de 1821 — São Petersburgo,  9 de Fevereiro de 1881) foi um dos maiores romancistas do universo e de todos os tempos. Pai do Existencialismo, sua obra Memórias do subsolo, já resenhada aqui no blog, uma obra existencialista de tirar o fôlego. O escritor morou em muitas casas diferentes, nunca mais de 4 anos em cada uma, as fotos abaixo são da sua última morada. Dostoievski tinha um apartamento alugado nesse edifício na rua Kuznechny Pereulok 5/2, que hoje funciona o Museu Memorial de Dostoievski em São Petesburgo. Foi nesse local que ele escreveu sua última obra, Os Irmãos Karamazov. Dostoievski viveu de 1978 até 1881 nessa casa, ano da sua morte por hemorragia pulmonar, ele tinha enfisema e ataques epiléticos.

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 O que passa na cabeça de um assassino antes, durante e depois de um assassinato? Uma machadada na cabeça “da velha” foi o que resultado de tais pensamentos e sensações desprovidadas de qualquer regra moral ou racional, uma espécie de transe. Entramos na cabeça de um homicida. O que o jovem Raskólnikov não contava é que seu crime “perfeito” teria uma delatora terrível e impiedosa: sua própria consciência, seu pior castigo. Os dois crimes acontecem logo nas páginas 99 e 100,  a maior parte da narrativa conta sobre os seus problemas de consciência e todas as suas consequências. É de tirar o fôlego, impossível parar de ler!

Dostoievski é um dos grandes escritores mundiais e isso não significa que sua escritura seja um quebra- cabeças, é uma leitura apta para leitores inexperientes, essa obra é bastante inteligível. Você vai entender muito bem a história, entrar com facilidade, será um leitor ativo, sentirá toda a angústia de Raskólnikov, a sua taquicardia, o tremor de suas mãos, a febre, o delírio e toda a sua luta interior, uma espécie de doença que precedeu o seu crime. O conteúdo vai te envolver e as 686 páginas irão deslizar leves. Sobre o perfeito título da obra, ele condensa tudo muito bem, “Crime e castigo”.

     (…) Temo no meu coração que tenhas te contagiado com a incredulidade que agora está na moda. (p. 54)

A miséria e a privação de tudo o que é básico e digno para um ser humano é uma doença que pode provocar loucura temporária ou permanente. Uma pessoa saber- se inteligente e capaz de realizar coisas extraordinárias e não ter meios financeiros para viabilizar seus sonhos e projetos, e/ou nem ter ao menos capacidade para a própria sobrevivência, pode ser um fator importante para uma propensão à delinquência, porque a fome, a humilhação, a depressão, a exclusão social, a solidão, o abandono, a desesperança desumaniza (alguns). Ingressar na prisão, acreditem, pode ter um leve sabor a paraíso. O final é supreendente e comovente, Dostoievski nos deixou uma mensagem positiva de que o Amor pode ser a forma de salvação e renascimento, a única, talvez.

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Dostoievski, F.M., Crimen y castigo. Debolsillo, Barcelona, 2010. 686 páginas

Memórias do Subsolo, Fiódor M. Dostoievski


“A melhor definição do homem seria: um sujeito mal- agradecido com um par de pernas.” (p. 94)

Eu acho que a escolha das nossas leituras não são por acaso, há algo de seleção intuitiva, cada livro cai na nossa mão na hora certa ( e quando não é, geralmente a leitura acaba sendo abandonada). Então vamos, “Memórias”…

Não existe derrota pessoal maior do que viver acreditando que o “normal” é o estado de constante dor (emocional, que às vezes passa a ser física também). É uma espécie de vida paralela na própria existência, a fronteira entre esses dois “mundos” ( o do bem- estar e o da dor) é muito sutil, qualquer um pode atravessá- la sem perceber. O subsolo é a consciência, é a camada mais recôndita do ser humano, uma área escondida, mas extremamente povoada e ativa, lá também pode ser um lugar sujo, cheio de bichos tenebrosos, lama, cupins e mofo. No subsolo não entra a mentira, a falsidade, a hipocrisia. Não dá pra enganar a própria consciência, ela sempre vai te contar a verdade (?), que às vezes pode ser muito dura. O excesso de consciência pode nos converter em pessoas doentes. Assim ficou o personagem de Dostoievski em “Memórias do subsolo”, incógnito, sem nome, de uns 40 anos (na primeira parte), magro e baixo, funcionário público e cheio de consciência de si mesmo. Ele sentia- se excluído pelos colegas de trabalho (aos vinte e quatro anos, na segunda parte do livro), sentia um olhar de repugnância vindo deles. Era extremamente tímido e embora fizesse esforços para integrar- se, não tinha êxito, sentia- se invisível, humilhado, derrotado, acreditava ser insignificante como uma “mosca” e odiava os seus opositores. Sua vida era “lúgubre, desordenada e ferozmente solitária”. (p. 109) A melancolia o corroía, ele sentia náuseas e febres.

Dostoievski (Moscovo, 11/11/1821 – São Petesburgo, 09/02/1881)

“Memórias do subsolo” é uma obra importante, porque é o primeiro livro existencialista do mundo (possivelmente). O autor passava por um momento pessoal muito complicado durante a escritura desse livro, a sua esposa estava muito doente e ele mantinha um romance tormentoso com uma jovem chamada “Apolinaria Súslova” (p. 9) o que lhe provocava problemas de consciência:

“(…) deixa- te levar por seu impulso cegamente, ou seja, sem raciocinar e sem procurar uma causa primária; espantando a consciência, ainda que só durante esse instante; tenta odiar o amar, só para não estar de braços cruzados e sem fazer nada. Passados dois dias como muito, começarás a desprezar- se por ter enganado a si mesmo.” (p. 83)

Dostoievski deu ao seu personagem uma noção pessimista da realidade. Era um homem desgraçado, queria vingar- se do mundo pelas suas infelicidades, já que residia no lugar mais escuro da vida, no subsolo. Pensem que isso foi escrito em 1864, ainda nem tinham inventado os antibióticos, mas é super atual:

“O que é que suazivou na gente a civilização? O único que nos acrescentou foi uma multidão de sensações…e decididamente, nada mais. (…) Vocês notaram que os mais sofisticados derramadores de sangue quase sempre foram uns cavalheiros dos mais civilizados (…) Dizem que Cleópatra (desculpem o exemplo escolhido da história romana) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das suas escravas e encontrava prazer nos seus gritos e convulsões. Dirão que isso ocorria em outros tempos, por dizer de alguma forma, bárbaros; mas também agora vivemos tempos bárbaros (também por dizer de alguma forma) ainda continuam espetando alfinetes; e o homem, ainda que tenha aprendido a ver algumas coisas com mais claridade que nos tempos da barbárie, encontra- se ainda muito longe de habituar- se a agir de acordo com a razão e a ciência.” (p.88)

O que destrói a razão é o sentimento, senão tudo poderia ser matematicamente estudado e planejado, a vida poderia ser prevista, mas “mudam- se os tempos, mudam- se as vontades”. Gente ama, desama, casa, descasa, e casa outra vez, cria e fecha sociedades, muda de casa, de bairro, de cidade, de país, de emprego. Ou não muda nada e permanece com a insatisfação de não ter tentado; e os que são empreendedores e arriscam, também se arrependem de não ter ficado. O ser humano é confuso porque sente:

“Bom, senhores. E por que não deitamos abaixo essa passividade, para todos os logaritmos irem ao inferno e finalmente podermos viver de acordo com a nossa vontade?” (p. 90)

Não temos liberdade para ser o que queremos ser ou o que somos, estamos sempre baixo regras alheias: do governo, da escola, dos nossos pais, esposas ou maridos, namorados e namoradas, chefes, condomínio, religião- tudo isso jogado pra nossa própria consciência. Quem dita o que é certo ou errado? Certeza que nem eu nem você. Não somos livres, mas ser livre também pode ser muito perigoso.

“De onde tiram todos esses sábios, que o homem precisa de uma vontade normal, uma vontade virtuosa? De onde tiram que o homem precisa indispensavelmente de uma vontade proveitosa? O homem precisa unicamente de uma vontade ‘autônoma’, custe a esta o que custe, e lhe traga as consequências que lhe traga.” (p. 90)

Quase sempre as nossas vontades estão mascaradas por conveniências, imposições ou falta de opção, por caminhos escolhidos por serem os mais fáceis, por comodismo, por preguiça, por medo, por dinheiro e status social, escolhemos os caminhos que, aparentemente, possam nos proporcionar mais vantagens. As nossas escolhas, muitas vezes, não são os nossos desejos reais. Assim surge um ser humano frustrado, infeliz, incompleto. Fazer “o correto” pode ser muito aborrecido e escolher “fazer o que quiser” pode ser uma faca de dois gumes: o seu bem- estar x a dor alheia ou a sua dor x o bem- estar alheio. Sacrificar ou sacrificar- se? O nosso livre- arbítrio só vai funcionar quando “criarmos algo parecido a uma tabuada”. (p. 92) O personagem acredita que isso não existe, nunca existirá.

Desse romance psicológico, concluo que na vida é mais feliz quem consegue ficar fora desse “subsolo”, quem não fica muito tempo preso aos problemas de consciência, quem consegue se soltar das amarras dos sentimentos mais profundos e das regras da falsa moral, porque, na verdade, no mundo não há moralidade, já que “ Todo homem honesto de nosso tempo é, e deve ser, servil e covarde. (…) Isto é assim, e assim é como está constituído.” (p. 111)

Os colegas de escola do personagem sem nome (de tão insignificante que era) estes sim, com nome e sobrenome, o desprezavam porque era um simples funcionário público mal vestido, feio e sem família importante. Nas sociedades de um modo geral, a pessoa vale o peso do que possui ( ou o que aparenta possuir).

 O ideal seria cada um ter o direito de desejar pra si mesmo o que quisesse, até as coisas mais estúpidas, que não nos trouxessem nenhum tipo de vantagem, porque isso pode ser mais vantajoso que outra coisa, depende do valor que você dá às coisas. E geralmente tais vantagens são medidas pelo que trará mais prosperidade e o personagem considera isso um equívoco, compara a prosperidade com um “Palácio de Cristal”, uma frágil e limitante prisão. Dostoievski cita a Heine, que dizia que toda autobiografia não é verídica, porque todo homem mente sobre si mesmo, inclusive cita a Rousseau, que mentiu ao falar de si mesmo nas suas confissões, por vaidade. Uma pessoa pode cometer crimes por vaidade. Levar o subsolo na alma não é fácil.

Todos os homens guardam entre suas recordações algumas coisas que não as revelam a qualquer pessoa, só aos amigos. Também há outro tipo de coisas que o homem não revela aos amigos, tão só para si mesmo e em segredo. Finalmente, há coisas que o homem teme revelar inclusive a si mesmo, e todo homem formal dispõe no seu interior de uma boa quantidade desse tipo de coisas.” (p. 103)

Qual o seu segredo?

Um livro que dá um tapa na cara da hipocrisia.

Dostoievski, Fiódor. Memorias del subsuelo. Madrid. Cátedra, 2011. 198 páginas

 

“A náusea”, Jean- Paul Sartre


Algo me aconteceu, não posso continuar duvidando. Veio como uma doença, não como uma certeza ordinária nem como uma evidência. Instalou- se pouco a pouco, eu me senti estranho, algo incomodado, nada mais (…). E agora cresce. (“A náusea”, p. 17)

Jean- Paul Sartre ( Paris, 21/06/1905 – Paris, 15/ 04/ 1980) existencialista e marxista- humanista (correntes de pensamento que também sou simpatizante) marido da filósofa Simone de Beauvoir.

Fumava cachimbo, o que produziu o escurecimento dos seus dentes. Sartre fumava, mas não só: também experimentou uma droga extraída de uma espécie de cactus chamada “mescalina”; aconteceu em 1929, mesmo ano em que conheceu a sua futura esposa Simone. A mescalina é um alucinógeno, causa efeitos como a sinestesia, é estimulante, provoca gargalhadas, potencializa os sentimentos, a introspecção, mas também tem efeitos negativos muito ruins como a depressão, paranóias, insônia, náuseas, alucinações, pânico, entre muitos outros. “A náusea”! Sartre contou numa entrevista, que ao consumir essa droga, viu caranguejos e que eles o perseguiam. Em “A Náusea”, ele fala dos tais caranguejos e outros seres (não usem drogas, crianças!):

Deixei cair meu braço ao largo das costas da zeladora e logo vi um jardim com árvores baixas e largas dos quais se penduravam imensas folhas cobertas de pelos. Formigas, centopéias e larvas corriam por todas partes. Havia animais mais horríveis ainda: seus corpos eram uma fatia de pão de forma tostada colocadas debaixo de pombas; caminhavam de costas com patas de caranguejo. (p. 101)

As drogas foram consumidas também por outro escritor que defendia seu uso para fins de “expansão da mente”, Aldous Huxley, contemporâneo de Sartre, além de ser viciado, era defensor do consumo de LSD (não foi boa ideia, morreu por causa dela).

Para estimular a sua imaginação, use o amor, a literatura, a música…o próprio Sartre cita Ella Fitzgerald, sugerindo o poder de cura que a música pode exercer sobre as pessoas. Enquanto tocava no bar “Some of these days”, Roquentin sentiu- se melhor, a Náusea o abandonou:

Não sabemos se Sartre escreveu “A náusea” baixo o efeito de algum alucinógeno, mas o fato é que o livro é impressionante. Impressiona por causa das perfeitas descrições do personagem Antoine Roquentin passando mal, são vertiginosas. Roquentin, um escritor de 30 anos, depois de viajar muito pelo mundo, decide morar na cidade (imaginária) de Bouville, de repente começa a sentir- se estranho e começa a agir, a mudar de hábitos e pensamentos por causa do que sente. Enxerga as pessoas deformadas, tem vertigens, a sua percepção da realidade e das pessoas muda. É um homem solitário, seus únicos interlocutores são Anny, sua ex- namorada, uma zeladora a qual mantêm relações sexuais e o Autodidata, que é um personagem sem nome próprio, mas sabemos que é um leitor ávido, ele lê pela ordem alfabética dos autores na biblioteca da cidade; homossexual e pederasta; Roquentin o vê tocando meninos na biblioteca, acabou aí a amizade e o Autodidata foi expulso da biblioteca.

Com os sentimentos à flor- da- pele, Roquentin passa a vivenciar sensações físicas que mudarão o sentido da sua vida. É o Existencialismo de Sartre gritando, pedindo a liberdade do “ser”. O homem só é homem com o seu conjunto de emoções, com suas idiossincrasias, a vida só tem sentido assim.

Nunca senti como hoje a impressão de carecer de dimensões secretas, de estar limitado no meu corpo, aos pensamentos leves que sobem como bolhas. Construo minhas recordações com o presente. Em vão trato de alcançar o passado: não posso escapar. (p. 62)

Sartre fala sobre uma verdade curiosa: a vida é menos interessante que a ficção. O dia a dia mata a aventura, além de tudo ser muito parecido, sem novidades. Quando a pessoa vive, não acontece nada. A decoração muda, o povo entra e sai, e isso é tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias sem tom nem som, numa soma interminável e monótona. Mas ao contar a vida é diferente, tudo muda; (p. 71) Todas as dificuldades dos personagens “parecem ser mais preciosas que as nossas, estão douradas pela luz das paixões futuras.” (p. 72) E pelo fim. Sabemos qual será o fim da história, controlamos o futuro.

“A Náusea”, que primeiro foi chamado de “Melancolia”, foi o primeiro romance filosófico de Sartre, começou a escrevê- lo em 1931 com 26 anos, a versão definitiva saiu em 1938.

Sou livre: não me resta nenhuma razão para viver, todas as que provei soltaram- se já e eu não posso imaginar outras. (p. 248)

Sartre, Jean- Paul. La Náusea, Madrid, Alianza Editorial, 2011.