Resenha: “O cérebro e a linguagem”, de Benjamin Bergen


O estudioso americano Benjamin K. Bergen é especialista em linguística e ciência cognitiva. Fez um doutorado na Universidade da Califórnia, onde é professor e diretor do laboratório de Linguagem e Cognição (segundo a biografia nesta obra, 2013).

Benjamin Berger

Veja um vídeo do pesquisador abordando uma questão curiosa: por que há palavras consideradas profanas em certas culturas? Por que há palavras ofensivas, tabus, no mundo “civilizado”? Ele fala sobre seu livro “What the F: What Swearing Reveals About Our Language, Our Brains, and Ourselves”, sobre como os palavrões revelam sobre a nossa linguagem, nosso cérebro e sobre nós mesmos (em inglês): https://youtu.be/rQws2yRfJ7c

Em “O cérebro e a linguagem- Das palavras aos feitos” (“El cerebro y el lenguaje- De las palabras a los hechos”, minha edição), Bergen escreveu onze capítulos sobre como o leitor compreende a linguagem. Ele vai analisando o processo leitor minuciosamente e com exemplos.

Ler é algo complexo, exige muito da nossa cognição, que é a faculdade de processar informações e transformá- las em conhecimento.

Esta obra é fruto de dez anos de investigação que resultou num trabalho interdisciplinar entre a linguística, a psicologia e a neurociência. A pergunta- chave é: quais são os mecanismos, o processo, que a mente cria significados a partir das palavras? Como a gramática nos molda a percepção?

O autor fez vários experimentos e vai nos contando de forma amena, não é um livro pesado, no entanto, creio que é um livro mais interessante para os especialistas das áreas implicadas: a turma de Letras, da Psicologia, Pedagogia e Neurociências.

Bergen comenta situações do cotidiano em que nosso cérebro fica prejudicado, como o uso do telefone celular ao volante. O estado que a pessoa fica é comparável ao uso do entorpecentes, alienada.

Quando mastigamos um chiclete e andamos, o nosso cérebro fica diferente? Fazer duas coisas ao mesmo tempo prejudica a atenção?

O autor comenta sobre coisas interessantes: como o estado mental influi nas ações motoras e também sobre a nossa enorme capacidade para o pensamento abstrato, tanto para o bem quanto para o mal, pode construir e destruir grandes coisas. Imaginar, sonhar e depois realizar, executar, é um feito cotidiano, mas espetacular e muito complexo mentalmente falando.

Você pode comprar este livro em espanhol igual ao meu exemplar clicando aqui .

A imaginação é útil e iluminadora. Mas ao mesmo tempo é uma capacidade cognitiva muito especializada. É intencional; se queremos, podemos ativá- la nós mesmos. É consciente, diferente da maior parte do que faz o nosso cérebro. ( p.66/67)

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Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

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Resenha: Os melhores contos de Lima Barreto


Affonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13/05/1881- Rio de Janeiro, 01/11/1922) foi um grande escritor, da altura de Machado de Assis, por exemplo, só que de uma forma mais moderna, sua linguagem é mais próxima à realidade do povo. Ele falou dos pobres e seus subúrbios, deu voz à essa gente; falou das classes sociais, políticos e a maneira pouco honesta de conquistarem o poder. Isso deve ter incomodado muita gente da recente república brasileira (decretada em 1889 com Marechal Deodoro). Affonso foi excluído das rodas literárias mais seletas, da Academia Brasileira de Letras, por exemplo. Candidatou- se três vezes.

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Além de tudo, era mulato. Raros eram os escritores mestiços no seu tempo, a abolição da escravatura era coisa recente. Teve uma vida difícil, de ascendência humilde, nasceu na rua Ipiranga, nº 18, em uma casa que já não existe mais no Rio de Janeiro. A mãe, dona Amália, era professora de escola pública. Ela faleceu quando Lima tinha 7 anos; e o pai, João, era tipógrafo e depois administrou uma colônia de “alienados” na Ilha do Governador.

Lima teve um padrinho rico que lhe custeou os estudos, o Visconde de Ouro Preto, um advogado, político abolicionista e senador do Império. Lima recebeu uma boa educação, estudou em bons colégios. Em 1903, seu pai enlouqueceu. Terá sido influenciado pelo ambiente do seu trabalho? Nessa época, com 22 anos, Lima teve que parar de estudar engenharia em uma escola técnica e foi trabalhar para sustentar a família numerosa. Trabalhou como professor particular e funcionário público, mas não foi feliz. Ele era um artista e não se adaptou ao ambiente nada criativo de uma repartição pública. No começo, foi um bom trabalhador, mas com o tempo, ficou difícil suportar, faltava, até que deixou o trabalho e entregou- se à vida boêmia entre botequins. Sua vida particular destruiu o escritor, que morreu muito cedo, aos 40 anos. O pai doente mental, a carga familiar, o mulato Lima Barreto sentia- se discriminado, o alcoolismo, a depressão, a tristeza, que o fazia sofrer alucinações. Lima foi internado algumas vezes em um hospício. Possivelmente, também devia ter alguma predisposição genética herdada do pai, que faleceu dois dias depois do escritor de “O triste fim de Policarpo Quaresma”.

Publicou contos em pequenas revistas e o seu primeiro romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1907)  começou a ser publicado na revista “Floreal”, mas só apareceu em livro dois anos depois, editado em Portugal. É considerado um autor pré-modernista (ele faleceu no ano da famosa “Semana de Arte Moderna”, que tem como marco o início do Modernismo no Brasil).

Lima critica bastante a sociedade carioca nos seus textos, foi pioneiro no Brasil em escrever  literatura de crítica social em uma linguagem mais acessível, menos portuguesa e mais brasileira, o que provocou, tudo indica, a repulsa dos literatos da época. Infelizmente, a crítica que ele fazia ainda continua muito atual na sociedade brasileira. A trambicagem e falta de honestidade é coisa enraizada. O dinheiro gera influência e poder, o que faz deixar pra trás quem tem competência e mérito.

Faleceu na casa que morou por vinte anos, na rua Major Mascarenhas nº 26, subúrbio carioca de Todos os Santos.

Vamos ao livro. A obra consta de dezenove contos:

  1. Numa e a Ninfa

De origem modesta, Numa Pompílio de Castro, ascende a cargos públicos e políticos por amizade e indicação, nunca por mérito. Casou- se com Gilberta por interesse financeiro e social. Com o casamento e o prestígio que consegue com a união, elege- se deputado. Sua mulher é muito mais preparada que o marido e escreve os seus discursos, que são um sucesso. Numa descobriu- se corno, mas deixou para lá, não queria escândalos e nem perder a sua “ghost- writer” (que não ficou muito claro se é a mulher ou o amante dessa, que é poeta). Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência? Será que Lima quis mandar uma indireta para alguém da época? Eu acho que sim! Um conto fantástico e muito atual!

  1. O único assassinato de Cazuza

Hildegardo Brandão (Cazuza), cinquenta e três anos, não conseguiu ter êxito na vida, apesar de muitos esforços. Solitário, sem família, doutor Ponciano era um dos poucos amigos. Ambos reuniam- se na casa do médico aos domingos para ler os jornais. Vou destacar um trecho, parece que foi escrito hoje:

­- Mata- se à toa por dá cá aquela palha. As paixões, mesquinhas paixões políticas, exaltam o ânimo de tal modo, que uma facção não teme eliminar o adversário por meio de assassinato, às vezes o revestindo da forma mais cruel. O predomínio, a chefia política local é o único fim visado nesses homicídios, quando não são questões de família, de herança, de terras, e às vezes, de causas menores. Não leio os jornais que não me apavore com tais notícias. Não é aqui nem ali; é em todo o Brasil, mesmo às portas do Rio de Janeiro. É um horror! Além desses assassinatos, praticados por capangas – que nome horrível! -, há os praticados pelos policiais e semelhantes nas pessoas dos adversários dos governos locais, adversários ou tidos como adversários. Basta um boquejo, para chegar uma escolta, varejar fazendas, talar plantações, arrebanhar gado, encarcerar ou surrar gente que, pelo seu trabalho, devia merecer mais respeito. Penso, de mim para mim, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na câmara, no senado, nos ministérios, até na presidência da república se alicerça no crime, no assassinato. Que acha você? (Hildegardo para Ponciano, p.21)

Imagino a cara dos políticos da época lendo esse texto na Revista Souza Cruz (1922). Lima era muito corajoso!

  1. O homem que sabia javanês

Um texto irônico, engraçado e que critica, também, a sociedade carioca (publicado na Gazeta da Tarde em 1911). O charlatão Castelo encontra seu amigo Castro em uma confeitaria e começa a contar uma de suas peripécias. Tinha sido adivinho em Manaus e depois professor de javanês. Castelo estava na pindaíba, não tinha emprego nem dinheiro para pagar a pensão onde estava hospedado. Vê um anúncio no jornal pedindo “professor de javanês”. Quem sabe javanês a não ser os de Java? Isso ele pensou. E foi atrás do emprego. Fingindo saber falar javanês chegou a ser diplomata. A crítica? Quanta gente finge ser o que não é consegue chegar mais longe, muitas vezes, do que quem realmente entende da matéria…. Quem disse que a vida é justa? Lima cita “Gil Blas”, uma obra para colocar na lista. Trata- se do romance satírico do francês Alain-René Lesage (1668-1747) que conta uma história sobre um sujeito parecido com Castelo.  Depois de muitas agruras na sua vida consegue vencer pela astúcia, enganando quem era muito poderoso e que se achava muito inteligente.

Esse conto virou filme em 2004, com Carlos Alberto Riccelli como Castelo e Sérgio Mamberti no papel de Castro.

4. O jornalista

Este conto foi dedicado ao escritor sergipano Ranulfo Prata, que anda esquecido. O autor já está na minha lista para pesquisa e leitura (anota na sua também!).

Essa é a história de Salomão Nabor de Azevedo, um jornalista muito popular da cidade de Sant’Ana dos Pescadores. O jornalista provoca um incêndio no prédio mais importante da cidade para ter notícia de um grande acontecimento no seu jornal. Foi preso. (Publicado em julho de 1921)

5. Um músico extraordinário

O narrador Mascarenhas conta a história de Ezequiel Beiriz, um colega de internato da adolescência. O rapazinho era franzino, triste, retraído, adorava as histórias de Jules Verne e sonhava viajar pelo mundo. Adultos, 30 anos maios ou menos, encontraram- se no bonde em uma situação inusitada: Ezequiel não tinha dinheiro para pagar a passagem e travou uma discussão com o “recebedor”. Foi Mascarenhas que pagou a passagem. Ezequiel contou todas as peripécias que viveu até então, todas as profissões e lugares que andou. A impressão que fica é que é tudo mentira, como toda a ficção que lia quando menino ou ao contrário, que ele conseguiu materializar de alguma forma os sonhos de criança. Foi tudo sem nunca ter sido, tal como o título do conto.

Lima também frequentou um internato. Pode ser alguma memória da adolescência.

6. Porque não se matava

A vida continuava sem esmorecimentos, indiferente que houvesse tristes e alegres, felizes e desgraçados, aproveitando a todos eles para o seu drama e a sua complexidade. (p.48)

O narrador conta a história de um amigo muito enigmático e muito contraditório. Esse amigo acha que não tem motivos para viver, mas não tem coragem de suicidar- se. A conversa acontece no bar do Adolfo, entre chopes, que pode ser mesmo um bar que existiu no centro do Rio, chamado Bar Adolph em 1915. Hoje ainda existe, chama- se Bar Luiz e tem 120 anos, vai ser tombado como patrimônio histórico da cidade.

Pode ser que Lima tenha tomado uns chopes nesse boteco com Olavo Bilac (falecido no final do ano de 1918, membro da ABL). Tal como o “amigo” do conto, Bilac, nosso poeta parnasiano, faleceu solteiro aos 53 anos. Era boêmio e gostava de um chopinho. Ele bateu seu carro numa árvore, foi o primeiro caso de acidente automobilístico no Brasil.

7. O cemitério (sem data)

Passeando entre túmulos de um cemitério da Rua do Ouvidor, o narrador (parece alter ego do autor) depara- se com o retrato de uma linda mulher enterrada ali:

Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo , e fugaz.

8.  A biblioteca

Dedicado a Pereira da Silva. Suponho que tenha sido o poeta e jornalista Antônio Joaquim Pereira da Silva, falecido em 1944 (membro da ABL).

Comum em quase todos os contos, é a descrição das ruas do Rio de Janeiro, bondes, casas, casarões, comércio. Um rico material histórico nos deixou Lima Barreto sobre a cidade carioca. Nesse, o narrador, Fausto Carregal, descreve um casarão na Tijuca, recordação de infância, a casa onde morou e todos os seus objetos. E a biblioteca.

A biblioteca do seu pai, o Conselheiro Carregal, era muito rica, cheia de tesouros literários antigos. Esse conto serve para anotar referências bibliográficas.

Fausto guardou a biblioteca do pai, ele não dera para as letras, não entendia os livros, para repassá- la a um dos quatro filhos. Os três mais velhos também não deram para as letras e a sua última esperança era Jaime, o caçula. Mas o menino não conseguia aprender a ler. O que fez então com a biblioteca?

O final desse conto é inusitado.

9. O feiticeiro e o deputado

De “seu Ernesto” o povo dizia que era feiticeiro e que tinha um passado de criminoso. Cultivava uma horta, cortava lenha e era muito misterioso. Não havia sido bandido, mas sim, entendia de “mandingas”. As pessoas iam pedir- lhe ajuda. Seu Ernesto “curou” até um alcoólatra. Era um “feiticeiro” do bem.

O deputado Braga foi visitar o feiticeiro achando que iria encontrar algum degenerado. Saiu de lá encantado também.

10. A doença do Antunes

O médico clínico dr. Gedeão era uma verdadeira celebridade, saía mais nos jornais que o próprio presidente. A consulta com o médico era caríssima, mas valia a pena uma consulta com o milagroso médico.

José Antunes Bulhões, dono de um armazém de secos e molhados, sofria uma dor de estômago incurável, já havia consultado vários, médicos, curandeiros e afins, mas não tinha dado resultado, a dor persistia. Consultou o milagroso doutor Gedeão. Mas para saber qual é a doença de Antunes…leia! 🙂

11. A nova Califórnia (10/11/1910)

Um conto muito criativo. O misterioso Raimundo Flamel encomendou ao pedreiro Fabrício a construção de um forno dentro da sua sala. O trabalhador viu na casa muitos livros e recipientes para experimentos químicos. O povo da pequena vila de Tubiacanga entrou em polvorosa tentando adivinhar o que faria o forasteiro.

O boticário Bastos acalmou o povo dizendo que devia ser algum sábio. Era um alquimista. Três cidadãos ilustres da cidade foram convidados por Raimundo Flamel para serem testemunhas de uma descoberta que havia conseguido.

Algumas tumbas da pacata cidade de três mil habitantes foram violadas. O alquimista transformava ossos em ouro. Quando a população descobriu foi uma verdadeira loucura. Começou uma caça aos ossos. Todo mundo queria o ouro fácil. E isso acabou trazendo a desgraça para Tubiacanga.

O único que sobrou foi o bêbado Belmiro.

12. O falso Dom Henrique V- Episódio da História de Bruzundanga

Lima era muito criativo e hilário na escolha dos nomes dos seus personagens e cidades fictícias. Essa é uma história que acontece na República de Bruzundanga (lembra o Brasil, óbvio).

A história acontece em um reino e a sua transição à monarquia através de um golpe.

No país monárquico, havia paz e os camponeses viviam bem, não passavam fome. O imperador Dom Sajon não gostava de luxos, usava carros antigos e obrigava que os nobres não explorassem os camponeses, tinha um bom coração. O único filho, o príncipe Dom Henrique, que nem queria ser rei, foi assassinado. E o neto de Sajon de 8 anos, sequestrado. Passou a governar Trétreth, da dinastia mais próxima à família. O povo empobreceu, adoeceu, andava quase nu, ficou miserável e os ricos, cada vez mais ricos exportando cana-de-açúcar.

Qualquer semelhança com a realidade não foi mera coincidência. Por isso Barreto não era muito popular entre a classe privilegiada do seu tempo.

13. Um e outro (1913)

Dedicado a Deodoro Leught, achei com a grafia “Leucht”. Não descobri quem foi, se alguém souber deixe nos comentários, por favor.

Esse conta a história da prostituta Lola de 50 anos, amante de Freitas, que a sustentava junto com a filha. Mas ela saía com outro, um “chauffeur” de carro de luxo.

É o primeiro conto do livro com um narrador- personagem feminino. O ambiente, como sempre, é o Rio de Janeiro, o bonde, suas ruas e o cais.

Freitas usava a mulher como um troféu. Ter uma amante dava um certo prestígio. E Lola o usava para dar- lhe boa vida, mas estava apaixonada pelo motorista…ou pelo seu carro? É um conto engraçado, embora um pouco machista. Aquele clichê que as mulheres só amam homens com bons carros (no caso de Lola sim). Comprovo que esse pensamento vem de longas datas.

14. Miss Edith e o seu tio (1914)

Um conto engraçado. A história acontece na pensão familiar “Boa Vista”, no bairro do Flamengo, dirigida por Madame Barbosa, uma mulher de 50 anos, “gorda e atochada”. Teve vários filhos e tinha uma ainda solteira “Dona Irene”, que vez por outra ficava noiva de um dos hóspedes. O casarão é feio e lúgubre.

A moça já tinha sido noiva de um estudante de Direito, um de Medicina, outro de Engenharia e também um dentista. Sem sucesso, então a moça voltou- se para os funcionários públicos. Irene sonhava em casar. “A preta” Angélica era o braço direito direito e confidente da Madame Barbosa.

Chegou um casal de ingleses, tio e sobrinha, Edith. Causaram reboliço  entre os hóspedes e a dona da pensão encantada com os gringos ricos. Cada hóspede criou uma história imaginária a respeito dos “ilustres” hóspedes. Tio e sobrinha? Será? Imagina aí…

15. O pecado (1924)

Esse conto é uma porrada. Curto e forte. Acontece no céu com São Pedro que faz a seleção de almas: as que vão para o purgatório e as que ficarão “à direita do altíssimo”. Um homem é julgado. Ele tem um expediente perfeito, é bom, humilde e honesto. Mas vai para o purgatório, porque é preto.

É como um protesto, um grito de dor. Ser preto era um pecado. 😦

16. Uma noite no lírico

Acontece no Teatro Pedro II. O narrador, Frederico Bastos, sente um certo incômodo em estar em um ambiente que não é o seu. O seu colega Cardoso o introduziu “nesse mundo” (da alta sociedade) frequentado por fidalgos, desembargadores, comandantes  e dos poderosos novos ricos.

Ao entrar na sala encontra um amigo rico, Alfredo Costa, mas que detesta esse mundo e os dois começam a zombar de todos os presentes. Com muito desdém, Alfredo vai contando como cada um alcançou a riqueza, revelando seus “podres” e toda a hipocrisia da sociedade carioca. Quantos deles se identificaram, colocaram a carapuça? Não me estranha que Lima tenha sido persona non grata entre eles, por revelar essas verdades.

17. Como o “Homem” chegou.

Esse conto vem com esse prólogo de Nietzsche:

Deus esta morto; a sua piedade pelos homens matou- o.

Começa elogiando a polícia da república, no seu trato igualitário entre pobres e ricos, o que soa bastante irônico. Acho que quis dizer exatamente o contrário. E também é uma crítica ácida em relação à imprensa, que publica só o que pode beneficiar certos setores.

Uma cidadezinha pacata, onde não havia roubos nem violência. O delegado só aparecia de mês em mês e chamava- se “Cunsono” (sacou, né?). Ele recebeu ordens de prender um louco, que era empregado da delegacia fiscal. A partir daí começa uma verdadeira saga para ir prender o homem em Manaus.

18. Um especialista

Conto dedicado a Bastos Tigre, que foi um homem das letras, escritor, humorista, bibliotecário e publicitário de sucesso. Lembra do slogan: “Se é Bayer é bom”? É dele.

A história começa num bar no largo da Carioca entre “cafés e licores”, charutos e o bilhar. O Comendador, casado, 50 anos, e o coronel Carvalho, viúvo, ambos portugueses, são os protagonistas. Os compadres batiam ponto no boteco todas as tardes para conversar sobre tudo. O casado adorava as mulatas; o viúvo, ao contrário, adorava as estrangeiras. Ambos burgueses.

Uma das mulatas, Alice, vida muito sofrida, “comeu o pão que o diabo amassou”, por acaso, encontrou o seu pai: um dos portugueses.

19. O filho da Gabriela

Dedicado a Antônio Noronha dos Santos, escritor e melhor amigo de Lima Barreto. Conheceram- se na época da Escola Politécnica (que Lima abandonou, pois teve que trabalhar). Há semelhanças com a história da infância de Lima, como a perda da mãe muito cedo e os padrinhos ricos.

A narrativa começa com um discussão entre a “ama”, dona Laura, e a criada Gabriela. O filho desta está doente e ela precisa levá- lo ao médico no dia seguinte, mas patroa nega, não permite que a criada se ausente.

Gabriela pediu demissão e durante um mês ficou procurando trabalho. Enquanto isso, o filho estava de favor na casa de uma amiga, um quarto tão úmido que parecia uma “masmorra” e sendo maltratado pela dona da casa. O menino sentia muito medo, ficava calado e sofria todos os tipos de privações, sede e fome. O que modificou o caráter do menino.

No final, Gabriela aceitou voltar para a casa da antiga ama como cozinheira. Dona Laura e o Conselheiro Calaça pediram para batizar o menino, Horácio (4 anos), pois sentiram piedade do menino que estava pedindo esmola na rua. O casal não teve filhos e dona Laura tinha amantes.

A mãe de Horácio faleceu quando ele tinha 6 anos, o menino fechou- se ainda mais e perdeu toda a alegria. Sentia falta dos carinhos da mãe. O ambiente escolar hostil, o padrinho severo e distante. Tudo foi contribuindo para a tristeza de Horácio. O autor descreve o seu processo de depressão. Horácio delira, tem alucinações. As mesmas vividas pelo escritor. 😦


A novela da Globo “Fera Ferida” (1993) foi baseada na obra de Lima Barreto, em contos citados nessa resenha como “A nova Califórnia”, “Numa e a Ninfa”, “O homem que sabia javanês”, e os romances “Clara dos Anjos”, “Memórias do escrivão Isaías Caminha”, “Triste fim de Policarpo Quaresma” e”Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá”. A princípio, a novela iria chamar- se “A nova Califórnia”. A novela completa está disponível no YouTube.

Os dados biográficos citados a princípio  constam nessa edição lida. Altamente recomendada para estudantes, pois é bastante didática, vem com biografia, bibliografia, inclusive possui um questionário de sondagem no final do livro e o custo é baixo. Fiquem de olho na editora Martin Claret e nessa coleção “Obra-prima de cada autor”, mas não esperem uma encadernação bonita, pois é a mais simples possível, edição de bolso.

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Barreto, Lima. Os melhores contos de Lima Barreto. Martin Claret, São Paulo, 2005. Páginas: 159

A obra de Lima Barreto, assim como a de Machado de Assis, Joaquim Nabuco e Fernando Pessoa, por exemplo, já estão livres de direitos autorais e estão disponíveis em www.dominiopublico.gov.br . Portanto, só gasta dinheiro quem preferir os livros em papel;  mas só fica sem ler grandes obras quem quiser, já que o investimento é zero. Os arquivos estão em PDF e podem ser lidos em computadores, notebooks, tablets ou smartphones.

Veja como foi a “III Oficina Falando em Literatura” em Madri


No último dia 16 de novembro, aconteceu a oficina literária sobre a obra do escritor baiano Antônio Torres. A turma foi animada e participativa. Contei aos participantes sobre a maravilhosa trilogia do sertão: “Essa terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo fundo da agulha”, além da bibliografia urbana- histórica- carioca, do autor imortal da ABL, passamos também pela literatura infanto- juvenil.

A intenção dessas oficinas, além de estimular a leitura de grandes obras e autores, é também a de despertar ideias, a criatividade. Que encontrem seus próprios caminhos para desenvolver a escritura artística.

Veja algumas fotos do nosso último encontro:

img_2286“Lola” (Maria Dolores) e Deborah.

img_2293Márcio e Simone.

img_2300Márcio em “ação”.

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Mãe e filha.  Dona Suely e Renata. Houve depoimentos que nos deixaram emocionados.

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Dona Suely, recém chegada de Recife.

img_2313Escritura criativa.

img_2289Simone.

img_2305Renata.

img_2303Deborah.

img_2302Lola.

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15073307_862185890550436_8351533164920597600_n Saiu uma nota sobre as oficinas na coluna de Ancelmo Gois do jornal “O Globo” (16/11):

ancelmo-gois

img_2308A turma na Casa do Brasil no último dia 16 de novembro de 2016.

E amanhã tem Nélida Piñón! Se você está em Madri e quer participar , escreva para o e-mail: falandoemliteratura@gmail.com. As oficinas são patrocinadas pelo Itamaraty com o apoio do Consulado do Brasil em Madri e são gratuitas para os participantes.

O que você sabe sobre Antônio Torres? Quiz!


O baiano e imortal das academias baiana e brasileira de Letras, Antônio Torres, é o tema do quiz dessa semana.

pocos-de-caldasAntônio Torres Flipoços 2013.

Teste seus conhecimentos, divirta- se! Clique aqui!

Foi você quem disse, Drummond?! Quiz!


O que você sabe sobre um dos maiores escritores modernistas do Brasil? O mineiro Carlos Drummond de Andrade nos deixou uma obra preciosa e que vale a pena ser lida e relida. Preparei um quiz rápido, sete perguntas para você testar os seus conhecimentos sobre o autor. Vamos brincar?!

Segue o link. clica aqui.

estátua ItabiraEstátua de Drummond na sua cidade natal, Itabira- Minas Gerais

No próximo post irei explicar cada uma das questões.

 

PDF grátis: “História do negro brasileiro”, de Clóvis Moura


Um livro que serve como introdução para os estudos sobre os africanos no nosso país, da escravidão no Brasil até a sua “emancipação”.  A edição é essa:

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O piauiense Clóvis Moura, foi historiador, sociólogo, jornalista e professor, faleceu em 2003. Era comunista marxista e dedicou seus estudos ao negro no Brasil.

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Clica aqui e salva o PDF no seu computador.