Uma resenha e algo mais: “O mal- estar global”, de Noam Chomsky


Já ouviu falar do “efeito borboleta”? Esse efeito faz parte da “teoria do caos” do metereologista e filósofo americano Edward Lorenz. O mundo está ligado em todos os seus aspectos, é como se tivesse um fio elétrico invisível interligando tudo. Lorenz diz que, por exemplo, se uma borboleta bater as asas no Brasil, isso pode provocar um tufão no Japão. Ler Chomsky nos aproxima dessa teoria mostrando que somos responsáveis pelo mal- estar no mundo atual.

O americano Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) é o “pai da linguística moderna”, também é filósofo e ativista de esquerda. Esta obra, El malestar global, conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia, recém editada na Espanha, reúne doze entrevistas de Chomsky com suas preocupações da atualidade: o aquecimento global, o armamento nuclear, o ascenso do terrorismo islâmico, os conflitos no Oriente Médio, o mal- estar social provocado pelas políticas econômicas, a desigualdade social e Donald Trump. Também conta sobre a sua infância em Nova York e  a relevância de uma livraria de livros usados para a sua formação. David Barsamian é o radialista americano de origem armênia que o entrevistou.

A intenção de Chomsky com essas entrevistas é chamar a nossa atenção, pois precisamos fazer uma mudança radical no nosso modo de vida, na forma como nos relacionamos com o outro e mudar os nossos hábitos de consumo. Nós criamos problemas que não estamos conseguindo solucionar. Falo no plural, já que, em maior ou menor grau, todos nós temos a culpa.

Na entrevista número nove (p.127),  com o título de “À uma sociedade melhor” (Cambridge, Massachussets, 11/03/2016), Chomsky fala da América do Sul, da Venezuela e do seu fracasso, uma mistura de corrupção e incompetência, e especificamente do Brasil, foco desta resenha. No próximo domingo o Brasil terá, possivelmente, a sua eleição mais complicada, já que, tudo indica (salvo aconteça alguma surpresa), a maioria dos eleitores preferem um candidato com ideias fascistas e totalmente imorais. E por que eles preferem isso?

(…) Se não abordarmos as raízes do problema, surgirá algo pior que as mesmas causas. (p.115)

Corrupção e incompetência são problemas comuns em toda a América Latina de um modo geral. Veja como o autor compara o Brasil com os Estados Unidos. O primeiro estancou no subdesenvolvimento e o segundo é um dos mais ricos do mundo (p.129):

Trata- se de uma região muito rica, com países que deveriam ser prósperos e desenvolvidos. Faz um século considerava- se o Brasil “o colosso do sul”, em analogia com o colosso do norte.

Chomsky diz que o Brasil näo desenvolveu- se por causa de uma principal razão interna (p.129):

É comum tratar- se de países dominados por pequenas elites europeizadas, maioritariamente brancas, muito poderosas e vinculadas economicamente e culturalmente ao Ocidente. Ditas elites não assumem a responsabilide de seus próprios países, o que conduz a uma opressão e uma pobreza assustadoras. Aconteceram tentativas de romper esta pauta, mas foram esmagados.

E continua (p. 129/130):

No entanto, durante os últimos quinze anos vários países- Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai e Argentina, tentaram abordar o estes problemas em que se denominou “guinada à esquerda” (em espanhol, “marea rosa”), com resultados diferentes. Quando se alcança algo de poder, acontece uma enorme tentação de colocar  a mão na caixa e viver como as elites, algo que minou a esquerda várias vezes. A Venezuela é um exemplo que serve de paradigma. O Brasil, outro. O Partido do Trabalhadores teve uma excelente oportunidade de mudar não só o Brasil, como toda a América Latina. Conseguiu algumas coisas, mas perdeu outras.

No período do Lula (p. 130):

(…) o Brasil, em muitos aspectos, era um dos países mais respeitados do mundo. O próprio Lula era muito respeitado, também por mim, tenho que dizer. Creio que é um líder mundial muito honroso. Sorpreenderam- me as acusações de corrupção e desconfio um pouco delas. Desconheço até que ponto é um golpe de Estado da direita e até que ponto se trata de algo real. As acusações que se fizeram públicas não são muito convincentes. De modo que esperaremos para ver o que acontece. Não creio que por agora tenham esclarecido os fatos. Mas é certo que a corrupção era muito grave.

Tal como Chomsky, eu creio que a prisão de Lula foi bastante duvidosa. E já minha opinião: foi orquestada para tirá- lo dessas eleições, pois seria um claro vencedor. Se o Brasil fosse um país sério, Lula, possivelmente, estaria livre. Nunca vi a “Justiça” brasileira trabalhar tão rápido, alguém já?

Ninguém compactua com a corrupção do PT, somos conscientes que muitos membros do partido erraram. Mas, foram punidos, inclusive alguns até mais da conta.

Pense bem em quem você vai dar carta branca governar o nosso país, no domingo (21/10), eleição de segundo turno no Brasil. As duas opções são:

  • Fernando Haddad, um professor universitário socialista, advogado, já foi Ministro da Educação, prefeito de São Paulo e tem experiência suficiente para assumir a administraçäo do Brasil. Casado há trinta anos, ficha limpa, respeita todas as pessoas e quer proteger a parte mais frágil da sociedade. Com um excelente plano de governo (já determinado e que podemos cobrar depois), com foco na Educação e Trabalho, e ainda a extinçäo da pobreza, também com a isenção de impostos para quem ganha até cinco salários mínimos. Progressista e com uma vice  jovem e gente finíssima, Manuela D’ávila. Teve o seu curto tempo de campanha infestado de fake news,  notícias falsas comprovadas e proibidas pelo TSE. Quer manter as empresas e o funcionalismo público. É contra a legalização de porte de armas e quer delegar mais tarefas à Polícia Federal, pretende coordenar todas as polícias para combater as redes criminosas em todo o Brasil (como funciona na Europa), #Haddad13 ou…
  • …um ex- militar expulso do Exército por “indisciplina” (algo mais que isso), parlamentar há 29 anos, deputado irrelevante em uma das cidades mais violentas do Brasil, o Rio de Janeiro, mas nunca fez nada. Prega a “moral e bons costumes”, mas faz justamente o contrário. Escondeu patrimônio, trocou a esposa de quarenta por duas de vinte, as conheceu no seu ambiente de trabalho (uma delas fugiu para o exterior ameaçada, segundo declararam amigos da mesma na Europa). Pretende vender o Brasil ( por isso o mercado financeiro aquece quando ele sobe nas pesquisas, os especuladores doidos para comprar nosso patrimônio público a preço de banana). Quer liberar armas para a população, inclusive para crianças, disse que os filhos começaram a atirar com cinco anos. Foge de debates, justificando problemas de saúde, mas faz lives diárias na internet, por horas, sem nenhum problema. O seu “plano de governo” é inexistente, obscuro e indefinido. O pouco que sabemos, como dar aulas virtuais para crianças, ao invés de irem para escola, é, no mínimo, patético. Sem esquecer dos ataques fascistas às minorias, da incitação à violência e ainda o seu vice, que é um sujeito para lá de inadequado e incompetente como o próprio. Segundo este artigo (com documentos), o candidato da ultradireita (assim denominado por toda a comunidade internacional) planejou um ataque terrorista em 1986, na cidade do Rio de Janeiro, quando era capitäo do Exército:

Também planejou ações terroristas. Iria explodir bombas em quartéis do Exército e outros locais do Rio de Janeiro, como na principal adutora de água da capital fluminense, para demonstrar insatisfação sobre índice de reajuste salarial do Exército.

Surpreendementemente, foi absolvido. O motivo da ameaça terrorista foi pelos baixos salários do Exército. Parece que virou herói entre os seus. Esse, sujeito que idolatra torturadores.

Ah, e um mentiroso, disse que não gastava dinheiro com sua campanha, mas foi financiado por empresas, que desembolsaram DOZE milhões de reais para mandar mensagens falsas no WhatsApp: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml

Para mim parece bastante fácil a escolha, mas como o Brasil passa por uma profunda crise de valores, então os prognósticos são péssimos, fato que anda me provocando um profundo mal- estar.

Chomsky, Noan. Malestar global- conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia. Ensayo Sexto Piso, Madrid, 2018. Tradutora Magdalena Palmer. Páginas: 199


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Livros raros (e caros) para presente de Natal


Um presente bastante especial para o Natal que se aproxima, são os livros raros e antigos autografados por algum escritor de renome. Só que essas obras não para qualquer bolso, os preços são bastante elevados.

Por exemplo, “Odas elementales”, de Pablo Neruda, edição limitada de 1954, só saíram duzentas cópias numeradas e assinadas pelo autor, custa R$ 4.942,55 (ou 1.304, euros). Veja:

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Outra obra interessantíssima é essa edição do grande Gabo, Gabriel García Márquez, autor do maravilhoso “Cem anos de solidão”. O colombiano faleceu em 2014 e seus livros autografados já valem mais que ouro,  “Diatriba de amor contra un hombre sentado”, de 1994, custa quase seis mil reais! Reparem que Gabo desenhou uma flor junto com a dedicatória, lindo!

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Achou caro os dois anteriores? Então, prepare- se para o próximo: edição de 1942 de Jorge Luís Borges, “El jardín de senderos que se bifurcan”, custa quase 15 mil reais!

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Os três anteriores foram livros em espanhol, mas na nossa língua encontrei um muito especial, primeira edição de “Rampa” (1930), de Adolpho Rocha, pseudônimo do escritor português Miguel Torga. Essa joia, amigos, só vai levar quem dispuser de R$ 31.634,26!

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Agora, um dos livros que mais interessantes e que mais me emocionam, confesso, é esse exemplar do francês Guy de Maupassant. Primeira edição numerada (só 150 exemplares) de “Notre coeur” (“Nosso coração”), de 1890. Ele custa R$ 13.076,54. O livro tem 127 anos e está cheio de anotações do Guy. Não é o máximo?!

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Qual é o seu preferido? Aceito qualquer um de presente de Natal, tá? 😀

Resenha: “Liberação”, de Luis Goytisolo


Começo contando uma historinha: na Feira do Livro de Madri de 2014, pensei encontrar uma fila quilométrica no estande de Luis Goytisolo Gay (Barcelona, 17/03/1935), afinal, é um dos expoentes da literatura na Espanha, membro da Real Academia Española, desde 1994, é o Proust espanhol. Goytisolo escreveu o prolixo “Antagonía”, são mais de 1000 páginas de luxuosa narrativa. Quando cheguei no seu estande, estranhei:  o autor estava sozinho. Contei sobre a minha surpresa e ele respondeu: “nunca vou ser um escritor popular”. Concordo. Literatura artística, bem elaborada, infelizmente, nunca será popular. Quase sessenta anos de excelente literatura e não havia ninguém na fila!

Já que estávamos sozinhos, aproveitei para pedir que autografasse vários livros , o que fez com toda a gentileza e simpatia:

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Luis Goytisolo, Feira do Livro de Madri, 2014. Foto: Fernanda Sampaio

Luis pertence à uma família literária. Seus dois irmãos também são escritores, José (poeta) e Juan (narrativa), este último, premiadíssimo, inclusive recebeu o Príncipe de Astúrias. Juan Goytisolo, infelizmente, faleceu em junho deste ano.

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Fernanda Sampaio e Luis Goytisolo na Feira do Livro 2014. Foto: Antonio Jiménez

A impressão que tive de Luis Goytisolo é que nunca vai envelhecer, tem o espírito jovem.

O meu exemplar com dedicatória:

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Saiba mais detalhes do meu encontro com Luis Goytisolo, aqui.

A obra

Como “Liberación” não está editado em português, uso “Liberação” (2014), ao pé da letra, mas poderia ser também “Libertação”. Este é o antepenúltimo livro de Luis Goytisolo, o mais recente é de 2016, “El atasco y demás fábulas ” (“O bloqueio e demais fábulas”). A sua primeira obra publicada é de 1958, “Las afueras”, ( “Os arredores”, algo como “A periferia”).

“Liberação” está dividido em nove capítulos numerados, com subcapítulos titulados. O primeiro capítulo possui nove histórias (aparentemente) independentes, a primeira: “Resumo do ano” (p.13), encontrei logo de cara umas linhas duras, lembrou- me o naturalismo de Aluísio de Azevedo. O protagonista chama- se Ricardo, é casado com Magda. A família tem uma casa de campo chamada “A Nogueira”. Ele fala da tosse incômoda dos pedestres exalando bacilos.

A  demolição de um edifício vai liberar o espaço, não só de uma edificação em ruínas, mas de tudo o que está implícito nele, “(…) eflúvios cuja carga de miséria, enfermidade, sofrimento e desgraça institui- se contagiosa, assim a inquietação do ser humano ante qualquer decidida revisão de seu passado individual ou coletivo que deixe descoberta a realidade mais profunda, mas irrevogável.” 

O narrador, em primeira pessoa, vai comparando esse edifício com uma tosse perniciosa, com a morte. Edifícios e móveis antigos, de antiquários, herdados, o provocam a mesma repulsa. De certa forma, o protagonista acredita que nestas coisas velhas ficam impregnadas energias dos donos. E ele pensa sobre pais e filhos:

Que sabem os filhos dos seus pais, de como eram antes de ser pais? E dos filhos, tanto mais desconhecidos quanto mais crescem? (p.15)

A segunda história é bem curtinha, “Vista da aldeia desde A Mola”. O ambiente do livro é a Espanha rural. “A Mola” é uma fazenda que fica em Vallfranca. O narrador faz uma crítica aos donos das fazendas, que são proprietários, mas não têm conhecimento sobre o campo, uma tendência pós- guerra.

Na terceira história, “Águas turvas”, Carlos sonha com águas turvas, fica com uma impressão ruim durante o dia todo. Começa a relacionar o sonho com a vida e suas recordações, principalmente com Áurea (falecida). Um capítulo embalado pela música de Strauss, “Marcha Radetzky”. É um texto sobre a dúvida, uma possível infidelidade ao estilo Capitu e Bentinho.

A quarta, “Nata“, é um apanhado de personagens e gírias grosseiras, são jovens violentos e marginais. Diferente dos anteriores, a narrativa acontece na cidade, parece um bairro popular e periférico.

“O monte da alegria” é a quinta história (p.27). Quando as pessoas estão muito agoniadas sobem ao monte e voltam de lá renovadas.

(…) Aos humanos nos acontece como as plantações, que degeneramos. A terra pode perder substância, mas deixe- a descansar e ela se recupera sozinha. As plantações, em troca, se não têm semente nova, degeneram. Pode ser boa terra, que você não vai colher nada. A planta perdeu perdeu sua capacidade de assimilar. Como nós.  (p.29)

“Desolação” é a sexta história, a de duas moças, Cati e Yolanda. Um texto realmente desolador, mas que para uma boa parte dos jovens, hoje, pode ser visto com naturalidade: a extrema falta de pudor, a liberação sexual que toca a perversão. A banalidade sexual.

Até “Desolação”, todos os textos parecem independentes, sem conexão entre as histórias e personagens. Em “A Marcha Radetzky” e “O interlocutor”, as últimas do primeiro capítulo, ressurgem personagens citados anteriormente e como a vida deles se cruzam. Neles, a colcha de retalhos é costurada e tudo faz sentido. O escritor optou pela escrita indutiva, partiu do particular para o geral. Goytisolo resume o capítulo falando da libertação de repressões. A Espanha ficou muitos anos submetida a um regime ditatorial, onde nada podia, e depois disso, veio o oposto.

O segundo capítulo é composto por seis histórias. A primeira, “Revistas”, acontece num aeroporto e quem a conta é Carlos, que aguarda para embarcar e observa um jovem ser revistado. O rapaz recorda a ele quando jovem e relembra uma experiência de sexo homossexual que nunca contou à Áurea.

Em “O obscuro e o transparente”, revela um lugar muito especial do povoado, que acontece um fenômeno estranho: no “Bosque do Pensamento”, as palavras surgem claras, como uma revelação.

Voltam os personagens jovens do subúrbio em “Mastuerzo” (é uma árvore). Eles têm uns nomes bem “estranhos”:”Cosca”, “Joderas” (apelidos escrachados). A linguagem volta vulgar, cheia de gírias, a língua das ruas dos subúrbios marginais. Os rapazes comportam- se com uma total falta de empatia e respeito ao outro.

E ainda “A terceira maravilha”, o narrador volta a contar sobre a fazenda “La Mola” e sobre quem eram os seus donos. “Primeiro do ano” é o encontro de dois casais que já apareceram antes: Carlos e Áurea, e Ricardo e Magda. Os homens foram colegas de colégio e o reencontro não foi agradável. O tempo transforma as relações em outra coisa nem sempre esperada e desejada. O trecho é contado sob a visão de Ricardo.

Já em “O bobo da vez”, sob o olhar de Carlos, ele vai contando os efeitos do tempo, não só no físico quanto na mente:

A pegajosa inércia das coisas, o mundo circundante, o próprio corpo, tudo como impondo resistência, colocando obstáculos, ou simplesmente aderindo ao modo de rêmora, como algas e moluscos que se instalam e proliferam no casco de uma nave até imobilizá- la. Uma análise de sangue e umas ecografias dentro da normalidade não anulam as fraturas da idade, a decadência física,  as manias (…) (p.58)

E Carlos fala sobre a “mania” de andar pelo meio da rua, para livrar- se da água dos vasos de plantas e também de uma coisa que me irrita muito, um costume forte na Península Ibérica:

(…) por temor que alguma dissimulada dona-de-casa sacudisse durante a sua passagem alguma toalha, algum lençol ou, o que é pior, algum tapete de quarto, com toda sua carga de germes patógenos”. (p.59)

Carlos comenta sobre a morte de Magda e Ricardo. Essa obra é cheia de enigmas, um quebra- cabeças.

O III Capítulo é formado por quatro histórias: “Latidos e dentes”, que fala sobre Vallfranca, o narrador compara o povoado antes e depois da guerra. A comodidade nem sempre traz felicidade. Durante a guerra (civil espanhola) as famílias eram mais unidas, dormiam num só quarto, e hoje, têm até banheiro com jacuzzi, mas sofrem de tédio. Será por falta de metas e objetivos? Há ainda  “Resignação”,O excêntrico” e “Projeto de ano- novo”.

Para evitar uma resenha infinita, decidi não contar mais capítulo por capítulo e já ir finalizando. A obra tem a estrutura original, são várias histórias paralelas, que discorrem aparentemente sem conexão, até que os personagens vão se entrecruzando. O personagem mais profundo é Carlos, seu final é surpreendente e triste.

A obra deixa uma sensação bastante verossímil do “jeito espanhol” de hoje e de ontem, várias gerações, há recuos históricos e personagens contemporâneos. Personagens de várias camadas sociais e diferentes idades, da zona urbana e rural, suas angústias e solidões. E a violência, que também há, infelizmente. O fim da guerra gerou liberdade, que, em grande parte, não soube ser bem aproveitada pelos cidadãos espanhóis. O que fazer com tanta liberdade? Parece que muitos ficaram perdidos e perderam a medida.

Este livro ainda não está editado em português. Quem sabe estou plantando uma sementinha. Se algum editor do Brasil ou qualquer país lusófono chegar por aqui, anote esse nome: Luis Goytisolo.

Se você está no Brasil, Portugal, Angola, Goa ou Moçambique e lê em espanhol, pode comprar “Liberación” em e-book aqui. E você que está na Espanha pode comprá- lo nas melhores livrarias do país.

goytisolo (1)  Goytisolo, Luis. Liberación, Siruela, Espanha, 2014. Páginas: 190

A Real Academia Espanhola de Letras


A “Real Academia Española” fundada por Juan Manuel Fernández Pacheco y Zúñiga em 1713, fica num edifício bonito atrás do Museo del Prado em Madri. A Academia regula e edita o dicionário da língua espanhola. Hoje, inclusive, a comissão da Academia está em Burgos reunida para a  24ª edição do dicionário, que engloba todos os países hispano- falantes.

IMG_2782A Academia não é aberta às visitas, normalmente. É preciso marcar data, as visitas são guiadas e não é fácil conseguir. No ano passado só teve um dia de “portas abertas”, mas é uma multidão e é difícil conseguir entrar também.

IMG_2785.JPGA RAE é um órgão complexo que engloba várias instituições. É patrocinada pelo governo, por empresas privadas e também pessoas físicas.

IMG_2783O diretor atual é Darío Villanueva Prieto, veja seu perfil. Há 43 acadêmicos e só 8 mulheres, como sempre, desprestigiadas, igual que na brasileira. As academias de letras do mundo são extremamente machistas. Feitas e criadas por eles, quando as mulheres não tinham voz e nem vez, o que esperar? Eu sim espero que essa tendência mude. Estamos no século XXI!

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A estátua do fundador no jardim e objetos de construção atrás. A Academia está sofrendo alguma reforma.

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Veja aqui a lista de acadêmicos. O único que conheci pessoalmente é Luis Goytisolo, o “Proust espanhol”.

O dicionário online da Academia está disponível gratuitamente para consultas ortográficas.

Livros para ler nas férias


Verão na Europa, muito sol, praia e piscina. Entre as atividades aquáticas, vou de livro em livro.

Trouxe comigo “A República dos Sonhos”, de Nélida Piñón, que eu tinha começado a ler no ano passado, deixei estacionado, porque acabei me envolvendo com outras coisas. Retomei e hoje finalizei as compactas 705 páginas. Esse é um livro/autora que tenho muito respeito; inclusive a entrevistei por todo o apreço que lhe tenho. Foi uma leitura minuciosa, até tensa, porque não quis perder nenhum detalhe. Vou ter que comprar outro exemplar, o meu ficou arrasado, cheio de anotações, areia e salitre. Possivelmente, Nélida virá para a Espanha em novembro, quero uma dedicatória (em um novo exemplar menos arrasado). Essa semana, finalmente, sairá a resenha.

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 O povo espanhol é um povo leitor. Em todos os lugares vejo gente com livros, isso me deixa feliz. Na praia (Calafell, Tarragona, Catalunha- Espanha) não é diferente. Esses dois senhores estavam ontem na minha frente, formamos um trio leitor! 🙂

13606683_758843134218046_2215343454115325717_nNão consegui ver o título, mas o livro é extenso e o senhor com seu charutão (apagado, ufa!) estava nas últimas páginas.

13627061_758843130884713_535231026912501067_nEsse outro senhor com um livro também extenso estava bastante concentrado enquanto o neto (ou filho) brincava na areia.

Veja a lista de livros que trouxe comigo. Não vai dar tempo de ler todos, mas quis ter opções. Escolhi livros que quero muito ler para já! Como terminei um nacional, agora virá um internacional, Woolf ou Dostoievski. Os dois começam interessantes, o prólogo de Virginia em “Orlando” é um agradecimento a autores que lhe inspiraram…

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…e Dostoievski, começa assim, primeiro parágrafo de “Noites Brancas”:

“Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites, amável leitor, que quiçá só exista em nossos anos jovens. O céu estava tão estrelado, tão iluminado, que olhando- o a pessoa não podia deixar de perguntar: mas é possível que baixo um céu como este possa viver tanta gente colérica e fútil?” (livre tradução)

E mais:  “O Buda dos Subúrbios”, de Hanif Kureishi, inglês de origem indiana. Esse não levarei para a praia, pois está autografado. Esse livro virou série, é bem famoso no Reino Unido.

“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, tenho muita curiosidade para conhecer essa história de ficção científica, literatura fantástica, futurista de um país, Montag, onde é proibido ler.

“Histórias da Artámila”, de Ana Maria Matute. Essa autora faleceu há dois anos, eu tive a oportunidade de conhecê- la na última Feira do Livro que participou em Madri. É uma das grandes escritoras espanholas. Falo no presente, porque a literatura tem o poder de imortalizar. Na minha opinião, é o maior benefício que traz a literatura para o indivíduo: nunca ser esquecido; ou pelo menos, nunca ser esquecido por algumas décadas, já que muitos não conseguem ultrapassar os séculos. Pensa que ser Shakespeare ou Cervantes é pra muitos?!

Essa é a listinha que trouxe para passar as férias comigo. Gostou,  já leu algum?

Mario Vargas Llosa plagiou Euclides da Cunha? Crônica de Pablo del Barco


O escritor, tradutor, artista plástico e editor espanhol Pablo del Barco, no dia 11 de abril, escreveu uma crônica sobre o Panamá  Papers, intitulada (livre tradução): “O caminhão da limpeza- Somos um país ou festa de personalidades canalhas?”, onde critica a sociedade espanhola, hipócrita, que cria empresas em paraísos fiscais para a evasão de impostos. Desde a monarquia, a jogadores de futebol, artistas e escritores, como peruano nacionalizado espanhol, Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel da Literatura. Essa parte é a que irei destacar. O trecho abaixo nos faz desacreditar mais um pouco na vida e nas pessoas. Parece que nada nem ninguém escapa aos vários tipos de corrupção e desonestidade.

Vargas Llosa foi acusado de plágio por várias pessoas diferentes (procure no Google: “Vargas Llosa plágio”) e, uma dessas pessoas, foi Pablo del Barco, pessoa que entrevistei, que conheci pessoalmente e que confio. A denúncia de Pablo foi corroborada por José Saramago na época. Leia:

e97193b9-c398-453b-bc7f-3b4b12d2fc48_1024_512Mario Vargas Llosa

Na literatura, o Nobel Vargas Llosa, bom trapaceiro literário. Recordo que quando publicou “La guerra del fin del mundo” eu o denunciei por plágio do romance do escritor Euclides da Cunha, autor de Os sertões, epopeia básica na literatura de Brasil. Estava eu com José Saramago em um debate sobre Espanha e Portugal na “La Rábida de Huelva”. Saramago confirmou, aplaudiu e me acompanhou na denúncia. Aos poucos dias, o peruano tentou desmentir aproveitando suas boas relações com o El País. Isto eu sei por mim mesmo, sem entrar na parte dos ‘ghost writers’ que dizem que ele tem e que trabalham duro. Copio a informação: “Segundo as teses da acusação, Vargas Llosa parece ter na folha de pagamento  18 escritores que, periodicamente, lhe enviam rascunhos do que poderiam  ser diferentes obras que ele, quem sabe agora não tão genial romancista, daria carta branca, para depois ir dando forma ou inclusive fazendo correções à medida que os trabalhos fossem avançando”. Há cinco espanhóis na folha de pagamento. A Academia sueca anda atrás de retirar- lhe o prêmio Nobel pela sua evidente suposta desonestidade.

img_6149Pablo del Barco- pablodelbarco.blogspot.com  www.factoriadelbarco.com


Ficaram chocados? Eu também! Não dá pra confiar nem em um Nobel da Literatura! Eu estava alheia a esta história, inocente; inclusive comprei o último livro desse “suposto” plagiador.

Comprove você mesmo: se não leu “Os sertões”, veja a sinopse e faça igual com o livro de Llosa. Resultado? Idênticos! É uma vergonha, um escândalo! Coisa que odeio é copiadores descarados!

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Claro que esse Nobel fuleiro sairá da minha biblioteca!

Leia aqui o texto completo de Pablo del Barco (em espanhol).

400 anos da morte de Willian Shakespeare e Miguel de Cervantes


Dia 23 de abril será o Dia Internacional do Livro. Como estão os preparativos para esse grande evento literário no Brasil? Algum movimento? Na Espanha é a principal pauta do mês, já que Shakespeare e Cervantes completam 400 anos de falecidos em abril. Entendo que no Brasil, com a atual revolução política, poucos estão pensando em comemorar algo, ainda mais literatura. Mas, sigamos.

O jornal El Mundo (Espanha) preparou um especial muito bacana sobre esses dois gênios literários, que eu vou tentar repassar um pouco aqui em português. As jornalistas Virginia Hernández e Raquel Quílez traçaram o perfil dos escritores em paralelo, como era a vida de um e do outro, “Inglês rico; espanhol, pobre”.

14609144865963Cervantes, por Ricardo, e Shakespeare, por Raúl Arias.

O inglês morreu rico e com passagem direto para a posteridade. O espanhol acabou em uma fossa comum, sem herança e sem glória. Shakespeare e Cervantes foram tratados de formas diferentes pela História. Eles são os maiores escritores da literatura universal, mas, ainda hoje, são tratados de formas diferentes nos seus países de origem. No Reino Unido estão há anos com os preparativos, inclusive o primeiro ministro David Cameron; na Espanha, parece que não há orçamento destinado para homenagens. Essa é a crítica das jornalistas do El Mundo; mas eu, brasileira, ouço falar de Cervantes em todos os lugares o tempo todo, muito mais do que ouvi falar de qualquer escritor brasileiro no Brasil. Há símbolos de Cervantes, principalmente dos seus personagens, Quixote e Sancho Pança em todas as partes. Inclusive vai começar uma leitura coletiva da obra de Cervantes. Uma beleza, não?! Fora que têm um Instituto, o Cervantes, que vejam na sua página principal, todas as matérias são sobre Cervantes. Duas casas de Cervantes viraram museus, há uma placa em outra que não resistiu ao tempo no Barrio de las Letras. Enfim, elas acham que ainda é pouco.

Fora que Cervantes virou sinônimo do próprio idioma espanhol, “A língua de Cervantes”, frase normalmente usada para o idioma hispano.

 Darío Villanueva, diretor da Real Academia Española reivindica que os aniversários de Cervantes sejam comemorações de Estado. “Ele é o inventor do romance moderno e um escritor que tornou- se clássico pela maneira que continua conectando com os leitores de hoje.”

Shakespeare e Cervantes nasceram em meio à clase média baixa, ainda que o pai do dramaturgo britânico, do campo, chegou a ser prefeito da sua cidade, Statford-on-Avon. A família de Cervantes, no entanto, não conseguiu a prosperidade. Há coincidências também nos mistérios que lhes rodeavam, muitos deles propiciados porque naquela época eram documentados o trabalho de reis e nobres, não o dos autores, que eram considerados cidadãos de terceira categoria. “Shakespeare ficou rico com suas obras e acabou sendo um bom burguês na sua terra natal”, assegura o hispanista Edwin Williamson, da Universidade de Oxford. Teve na sua velhice a segunda casa mais importante de Stratford. No entanto, “Cervantes teve uma vida muito mais agitada e desgraçada, sofreu um monte de dificuldades e frustrações que nem sequer o enorme êxito de Quixote pode remediar”.

Se quiser ler o texto completo (em espanhol) clique aqui.

No próximo dia 22, em comemoração ao Dia Internacional do Livro, vai acontecer em Madri um dia inteiro de festa literária, “La noche de los libros”, evento promovido pela prefeitura de Madri e que participam bibliotecas, livrarias, instituições, escolas, museus, muita gente envolvida para fomentar a leitura e comemorar esse dia. Os livros são vendidos com descontos, há palestras, autógrafos de livros, leituras, enfim, tudo que envolve o mundo dos livros.

E no dia 23, acontece a festa de “Sant Jordi” em toda a Espanha, tradição catalana. Foi a Catalunha que começou a comemorar o dia do livro e espalhou- se pela mundo. A UNESCO fixou essa data, 23 de abril, como o Dia Internacional do Livro justamente pela coincidência das mortes de Cervantes e Shakespeare. É uma forma de comemoração bem bonita, existe uma troca de presentes, flores e livros.

Leia, leia mais! Feliz Dia do Livro!