Resenha: “A última palavra”, de Hanif Kureishi


O filósofo e escritor Hanif Kureishi (Londres, 05/12/1954), de pai paquistanês e mãe inglesa, ainda não é um autor muito conhecido no Brasil, mas foi editado no país,  “A última palavra”, pela Companhia das Letras, além dos livros citados abaixo. Coloquem esse autor na lista, ele é MUITO BOM!

11156338_446205912201641_8415280381686851083_nEssa foto é minha (2015). O autor é de pouco sorrisos. Dei uma “googleada” e vi que ele quase sempre tem o semblante sério.

Hanif é romancista, contista e roteirista de televisão, teatro e cinema. O seu romance “o buda do subúrbio” virou série no Reino Unido pela BBC ; o autor escreveu quatorze roteiros, inclusive “Intimidade”, livro que gostei muito, leia a resenha aqui. Também escreveu uma espécie de autobiografia “Meu ouvido no seu coração”. E “minha adorável lavanderia”, por exemplo, que conta a história de uma família paquistanesa que imigra para Londres numa tentativa de melhorar de vida.

1610964_10153373690816885_5147794014020518013_nFoto do perfil de Hanif no Facebook. Sensualizando? 🙂

A família Kureishi. Os meninos maiores parecem gêmeos (foto do The Telegraph). E por causa dessa foto, vi uma reportagem de 2013 que o autor perdeu 120 mil libras de suas economias em um golpe que recebeu do seu contador. Duro, hein?!

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E do Facebook, as seguinte fotos de Kureishi com os filhos (sim, gêmeos), Sachin e Carlo:

10730928_10154727509965052_8613435098420266183_nHanif e Carlo em 2014 (Facebook de Carlo). “A última palavra” está dedicado a este filho. Ele atuou em um filme com roteiro do pai, “Recomeçar” (2003, original “The mother”).

1461668_10202864347473898_1053907125_n Hanif e Sachin em 2013 (Facebook de Sachin). Ele é casado com Electra Simon, uma londrina que mora em Madri (segundo seu Facebook).

Só não achei fotos mais atuais do filho caçula e nem da esposa. E agora que já conhecemos um pouquinho mais da vida pessoal do autor, vamos à obra, “A última palavra” (2014):

O indiano Mamoon Azam é um escritor consagrado, mas que deixou de vender livros. Ele é casado com uma italiana chamada Liana Luccioni, vivem numa bela casa de campo na Inglaterra chamada “Prospects House”. Como manter esse padrão de vida sem vender livros? O autor decide contratar um jovem biógrafo chamado Harry Johnson, muito culto, para escrever a sua história e tentar alavancar as vendas.

A história começa assim: Harry viajando de trem até a casa de Mamoon, autor que admira desde a adolescência; para ele, apaixonado por literatura, Azam é um deus. Harry, 30 anos, não só é apaixonado por literatura, estudou, preparou- se justamente para o momento que estava prestes a acontecer.

Rob Devereaux, um respeitado editor, acompanha Harry na viagem. O sujeito é alcoólatra, desbocado, descuidado com a aparência e asseio pessoal.

Rob considerava a escritura uma forma de combate extremo e a “salvação” da humanidade. Para ele, o escritor deveria transformar- se no próprio demônio, um perturbador de sonhos e destruidor de fátuas utopias, o portador da realidade e o rival de Deus no seu desejo de forjar mundos.” (p. 13)

O editor, que é mau caráter, tem um plano de marketing totalmente canalha. Deseja que Harry escreva uma biografia “louca e selvagem”, para agitar a vida de Mamoon com a intenção de que seja convidado para muitos eventos literários e divulgado na  imprensa. Resumindo: quer que o biógrafo consiga confissões escandalosas do escritor, todos os seus “podres”, aproveitando- se da fragilidade atual do autor e de seu passado de mulherengo, promíscuo, mesquinho, machista e biriteiro. Além das duas esposas, teve uma terceira, Marion.

Liana adverte que deseja uma biografia “gentil”, que não prejudique a reputação do marido. Mas quer que o marido vire uma “marca”, já que constatou que o autor não recebia tanto quanto pensava. Ter prestígio nem sempre traz dinheiro. A italiana pensa em mil formas de como pode rentabilizar a escrita do indiano.

A mulher também vai usar o biógrafo como empregado doméstico. Harry irá carregar compras e afins, buscar lenha, carregar caixas, além de reler toda a obra do prolixo escritor, os diários muito tristes da sua primeira mulher suicida, muito material armazenado num arquivo insalubre. O rapaz está preparado, vem de uma família com tradição acadêmica.

As pessoas mais cultas, infelizmente, e contraditoriamente ao que deveria ser, não têm bons trabalhos, muitas vezes, e precisam fazer coisas que não se orgulham para sobreviver. Harry irá obedecer o editor por dinheiro ou irá prevalecer o amor pela literatura e a admiração por um dos melhores escritores do mundo? E Mamoon, será que vai cair na armadilha ou será ele que irá armar a arapuca?

O homem mais valente se acovardará diante da perspectiva de ter que levantar o véu do passado, a menos que esse passado seja de uma pureza excepcional (p. 28)

É uma obra cheia de… humanidade! O que nos torna melhores ou piores são as nossas escolhas. Qual é a última palavra que você diria a alguém sabendo que jamais a veria de novo? Qual o seu legado?

Gosto muito da escrita de Hanif Kureishi, recomendo este livro, gostei bastante!

O meu exemplar autografado:

19274963_813315418824020_8094196274227269396_nMinha edição autografada em 2015, poucos meses depois da edição inglesa, quando o autor esteve em Madri na altura do Dia Internacional do Livro.

Essa é a edição espanhola que eu li:19225994_813315422157353_971265382701067722_nKureishi, Hanif. La última palabra. Anagrama, Barcelona, 2014. Páginas: 295

 

 

 

 

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Os Natais de Fernando Pessoa


A ceia de Natal em Portugal chama- se “consoada”, de “consolar”. O prato principal, normalmente, é o bacalhau com ovos e couves regado com muito azeite de oliva. De sobremesa, o bolo rei e as rabanadas.

Apesar dessa data ser feliz para muita gente por causa das reuniões familiares, dos comes e bebes, além da troca de presentes, outros tantos consideram a data triste.

Deixo alguns poemas de Fernando Pessoa sobre o Natal. Curiosa a visão nostálgica e pessimista do autor sobre esta data. Definitivamente, não parecia ser a preferida de Pessoa, veja:

Natal na Província

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Natal

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Natal

Nasce um deus. Outros morrem.
A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Espero que o seu Natal seja bem mais feliz do que foram para a voz poética do poema (que pode ser o alter ego de Fernando).

Resenha: “Os vestígios do dia”, do Nobel Kazuo Ishiguro


Kazuo Ishiguro (Nagasaki, 08/11/1954), japonês, mas oficialmente é britânico, já que o Japão não admite dupla cidadania. Foi morar com os pais na Inglaterra quanto tinha cinco anos. É doutor em Escrita Criativa e ganhou o Nobel de Literatura nesse ano, uma escolha muito mais unânime que o anterior Bob Dylan. Ishiguro estreou como escritor em 1982 com o livro “Pálida luz nas colinas”. É casado com  Lorna MacDougall.

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Os principais temas das suas obras são: o tempo, a memória e a esperança; e também, a amizade e o amor. Assuntos que me parecem fascinantes. Em sua obra também há algo de literatura fantástica.

O objeto dessa resenha é o livro “Os vestígios do dia” (“The remains of the day”, 1989), que virou filme protagonizado por Emma Thompson e Anthony Hopkins. Há traduções com nomes diferentes:  “Os restos do dia” e “Despojos do dia” (2009). O filme foi indicado ao Oscar e o livro ganhou o Man Book Prize, o prêmio mais importante da língua inglesa. Esse livro é considerado a obra- prima de Ishiguro.

Outro livro dele que foi para a telona: “Nunca me abandones” (2010), com a participação de uma atriz que adoro, Keira Knightley, está na Netflix, inclusive. Mas esse fica para uma outra resenha. 

Vamos à obra.

A história acontece na Inglaterra durante o mês de julho de 1956, há um prólogo explicando. A história acontece em seis dias. Stevens é o narrador- personagem, ele é mordomo há trinta e cinco anos na mansão  “Darlington Hall“. O antigo dono, Lord Darligton, faleceu e a mansão foi vendida ao “mister Farraday“, um estadunidense. Ele viaja para a sua terra por cinco semanas e sugere ao mordomo que faça uma viagem para conhecer a Inglaterra, seu país, durante alguns dias. Stevens conhecia sua terra através de um livro de sete volumes chamado “As maravilhas da Inglaterra”, de Jane Symons, da década de trinta. O protagonista cita a autora muitas vezes.

Na mansão chegaram a trabalhar vinte e oito criados; agora, apenas quatro: Stevens, as novatas Rosemary e Agnes, além de mistress Clements, essa, trabalhadora antiga. O mordomo é perfeccionista e serviçal, mas sente- se esgotado.

Depois de receber uma carta de uma ex- trabalhadora da mansão, miss Keaton, o mordomo aceita a proposta do patrão. Pretende ir de carro (do patrão e gasolina paga por ele) até o oeste do país, e no caminho, deseja encontrar com a mulher para ver se ela aceita voltar a trabalhar na mansão. Stevens começa a planejar a viagem.

O jeito muito “british” do mordomo, polido, formal, perfeccionista contrastando com o do patrão americano, brincalhão, irônico e informal ficam bem marcados na narrativa.

No primeiro capítulo: “Primeiro dia pela noite- Salisbury”, a mansão fica sozinha pela primeira vez em séculos. Todos os empregados saíram de férias, além do patrão, que foi para os Estados Unidos.

Stevens começa a ver o mundo, pela primeira vez, sem ser a trabalho. Hospeda- se numa pensão em Salisbury. O mordomo vê uma paisagem deslumbrante e faz uma declaração de amor ao país:

(…) o caráter único da beleza desta terra é consequência de uma falta evidente de grandes contrastes e de espetacularidade, no entanto se destaca, ao contrário, por sua serenidade e comedimento, como se o país tivesse uma íntima e profunda consciência de sua grandeza e sua beleza, e não necessitasse exibí- la.” (p.37)

O homem tenta ser o melhor na sua profissão. Stevens discorre longamente sobre “o que é ser um bom mordomo?” Em Londres, era (ou é?) um assunto muito importante, tanto, que havia até clubes privados e sociedades para mordomos, como a Hayes Society, dos anos vinte. Só entravam os de alta classe. Essa história de chamar de “gentleman” a um homem com modos refinados vem muito disso, desses clubes sociais ingleses, que exigiam bons modos e um refinamento muito superiores à maioria dos mortais. Uma conduta impecável. O seu pai também foi mordomo e demonstrou o nível de exigência pessoal que a profissão impõe, passo a relatar no trecho abaixo:

O filho mais velho do mordomo, Leonard, faleceu na guerra da África do Sul de uma maneira nada honrosa. Seu batalhão atacou civis, foi uma ação irresponsável comandada por um general incompetente, muitas mortes poderiam ter sido evitadas, inclusive a do seu filho. O pai de Stevens teve que atender esse general por quatro dias na casa onde trabalhava por causa de uma festa, servindo o homem que odiava como se fosse qualquer outro convidado, mas era o responsável pela morte de seu filho. O general deixou uma gorjeta importante ao mordomo e ele a doou à uma instituição de caridade.

O pai do protagonista, Stevens ( igual do filho) aparece como uma figura que desperta compaixão, pena e até um pouco de tristeza. A velhice que, se tivermos sorte aparece como algo limitante fisicamente, mas forte, que enfrenta sem medo as adversidades. Stevens pai é assim. Ele levou uma queda e desmaiou enquanto carregava uma bandeja. A partir disso, o patrão e outros empregados começaram a achar que ele não era mais válido, apesar de ter servido a mansão durante 54 anos. Os erros, tudo indica, são mais importantes que os acertos, mesmo que infinitamente menores que as benfeitorias. Stevens não se desesperou, mostrou- se absolutamente digno quando o próprio filho lhe comunicou que ele passaria a executar tarefas mais simples.

Uma coisa que me chamou muito a atenção é a escravidão branca. A negra, cruel e perversa, já conhecemos bem, mas a branca é pouco falada. Se essa obra tiver alguma verossimilhança com a realidade, que acho que tem, esses empregados domésticos ingleses eram praticamente escravos. Viviam em quartos minúsculos, uma pobreza franciscana, um nível de exigência altíssimo, horas infinitas de trabalho e a remuneração ínfima. Uma espécie de escravidão sim.

Stevens é testemunha de várias reuniões na mansão, que começaram em março de 1923, entre homens poderosos de vários países europeus. Eles tentavam chegar a um acordo de conciliação com a Alemanha no período pós- guerra.

Numa dessas reuniões, Stevens pai passou mal e teve que ser levado ao seu quarto. O filho continuou servindo os senhores, enquanto seu pai desfalecia. O filho só pode ver o pai dois dias depois estando na mesma casa. O pai quis saber se o serviço estava saindo perfeito, e depois, aconteceu esse breve diálogo, íntimo, em tom de despedida: (p.106)

— Espero ter sido um bom pai.
Sorri e lhe disse:
— Estou muito contente que se sinta melhor.
— Me sinto orgulhoso de você. É um bom filho. Desejaria ter sido um bom padre, ainda que temo que não tenha sido.
— Agora tenho muito trabalho, mas amanhã pela manhã falaremos de novo.

Horas mais tarde, Stevens foi avisado que seu pai estava muito mal. Mas, “a obrigação em primeiro lugar”. O seu pai estava morrendo enquanto ele, com um sorriso, servia o jantar. É ou não é uma escravidão?! Além disso, os filhos nunca acham que os pais irão morrer.

A atitude do filho, a aparente frieza, também é uma forma de auto- engano, de fuga, de querer barrar o inevitável, como se ignorar o fato do seu pai estar morrendo, impedisse que ele se fosse para sempre. Stevens filho, não era frio, inclusive teve que enxugar o rosto com um lenço durante o trabalho. De fato, seu pai faleceu quatro minutos depois dessa última cena (p. 114).

Stevens não tem coragem de subir para fechar os olhos do pai. Dá a desculpa de que o pai gostaria que ele continuasse a trabalhar. Fiquei com um nós na garganta. Pude sentir a dor e a desorientação de Stevens.

A dor e a morte ficam nos bastidores. Stevens desceu com uma garrafa de vinho do Porto para os senhores que estão na sala de fumar. Tudo contado com muita sutileza, um trabalho fino de escritura.

Monsieur Dupont exige do mordomo umas vendas para a dor dos seus pés, enquanto a sua própria dor não era sabida por ninguém.

Stevens recorda esse dia como um grande triunfo. Não deixou a sua dor pessoal atrapalhar seu serviço como mordomo. A “dignidade” que é exigida aos mordomos de alto nível.

No segundo dia da viagem, o Ford do patrão quebra e Stevens para em uma mansão e pede auxílio. É ajudado pelo empregado do casarão, que faz todas as funções na casa, que é de um coronel. A mansão está em desuso, o dono quer vendê- la. No Ford só falta água no radiador. Ele acaba conhecendo o lugar e pessoas que não falam muito bem do seu antigo patrão, lorde Darlington. Stevens o defende em nome dessa “dignidade” de mordomo que foi aprendida ao longo de trinta e cinco anos de serviço.

No terceiro dia de viagem, ele se hospeda em uma pousada chamada Coach and Horses, em Taunton, Somerset. Nós viajamos também com o protagonista. Esta pousada realmente existe, veja aqui.

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Pousada “Coach and Horses Inn”, citada no capítulo “Terceiro dia pela manhã”, p. 137

O dono da pousada chama Bob e ronca demais, segundo os frequentadores do bar. O mordomo tenta ser engraçado, igual faz com o patrão americano, que sempre espera que Stevens devolva com humor suas colocações. E diz que não tem importância que o homem ronque e o compara com um galo. Depois arrepende- se pensando que pode ter ofendido as pessoas, já que ninguém achou graça. E o mordomo reflete sobre como pode ser perigoso usar o humor.

O passeio pelo condado de Somerset é entremeado por lembranças da sua vida em Darlington Hall. E a ansiedade de rever miss Kenton vai aumentando. Agora só faltam quarenta e oito horas.

O quinto capítulo acontece no “Terceiro dia pela tarde”, em Moscombe, perto de Tavistock, Devon. (p.153)

Ele começa falando dos judeus e conta sobre um episódio desagradável, quando o patrão, Lorde Darlington, mandou despedir criados judeus, porque podiam ofender alguns convidados e comprometer a segurança, influenciado por mistress Carolyn Barnet. Havia duas moças judias que trabalhavam há seis anos na mansão. Para Stevens, o que falava o patrão era lei. Para miss Kenton não. Ela despediu as moças a contragosto e muito ofendida. A relação ficou difícil com o mordomo durante semanas, inclusive ela ameaçou abandonar a casa.

Tempos depois o patrão, arrependido e sem a influência de mistress Barnet, mandou localizar as moças de volta, Ruth e Sarah. Enquanto isso, tiveram que substitui- las por outras duas. Uma delas, Lisa, era muito bonita e o mordomo se opôs, sob a insistência de miss Kenton. Ela coloca em evidência que o mordomo não gosta de contratar mulheres bonitas para que ele mesmo não caia em tentação. O homem rebate o pensamento de todas as formas. Depois de um tempo, Lisa vai embora e fica comprovado que o mordomo tinha razão sobre a falta de competência da moça. Stevens renunciou totalmente a sua vida pessoal e amorosa para servir a outros.

A viagem continua e Stevens recorda sempre episódios vividos com miss Kenton. Claro que até aqui já estou convencida do seu amor por essa mulher, mas como ele é muito reservado e na obra inteira vai revelar esse fato. Ele fazer essa viagem só para vê- la, já é um grande indício. O que não é dito é muito importante nessa narrativa.

Há várias situações, com pretextos profissionais, que Stevens tenta se aproximar de miss Kenton. Há alguns arrependimentos. Ele imagina como teria sido se tivesse feito diferente. Mas agora ele está tentando ao menos. Está a um dia de encontrar Miss Kenton.

O último capítulo é “Sexto dia pela tarde- Weymouth” é de apertar o coração. Tempo, maldito tempo…

Stevens chega a essa cidade no litoral, já cansado de dirigir, depois de termos acompanhado todas as suas lembranças e sentimentos em relação à várias coisas e, principalmente, à senhorita Kenton. Claro que já estava esperando um encontro romântico, mas seria óbvio demais.

Ele conta como foi o encontro com miss Kenton dois dias depois. Ela chegou no hotel que ele estava hospedado de surpresa, o Rose Garden, em Little Compton. Esse não achei exatamente com o mesmo nome e nem no mesmo lugar.

O reencontro. Ela, envelhecida, com um olhar triste, só que mais calma, resignada. Continua casada, é ainda a senhora Been. Ficou separada apenas cinco dias, foi quando escreveu a carta a Stevens contando como se sentia desgraçada e enchendo o homem de esperanças. Tem uma filha e já vai ser avó.

Ela ainda se sente desgraçada, mas tem que fazer o que tem que fazer, como ele que precisou servir aos senhores enquanto o seu pai estava morrendo. A vida é assim, somos o resultado das nossas escolhas. A obrigação supera os sentimentos pessoais:

“(…) ‘Que fiz com a minha vida?’, e penso que teria preferido seguir outro caminho, que talvez tivesse me dado uma vida melhor. Por exemplo, penso que a vida teria sido melhor com o senhor, mister Stevens. (…) Depois de tudo, não se pode retroceder o tempo. Não podemos sempre estar pensando no que poderia ter sido.” (p. 247)

“A senhora tem toda razão, mistress Benn. Já é tarde demais para retroceder o tempo. Além do mais, não viveria tranquilo se por culpa destas ideias a senhora e seu marido fossem desgraçados. Como muito bem observou, todos devemos agradecer pelo que de verdade temos. (p. 247)

É uma história muito realista, que acontece com muita gente…o tempo e sua inexorável crueldade.

Esse é um livro com trechos brilhantes, e que no seu conjunto, consegue retratar bem um período e uma camada específica da sociedade inglesa, além de suas paisagens. A narrativa é limpa e clara, trabalhada cirurgicamente, nada falta, nada sobra. É uma obra também de silêncios que contam muito. Capta alguns sentimentos universais, principalmente o estrago do tempo e o  sacrifício pessoal absoluto em nome da honra e da dignidade.

O título da obra é um resumo perfeito da história. Depois de tudo, só ficaram vestígios, restos do que foram, do que queriam, do que um dia sonharam.


O meu exemplar de referência é uma edição espanhola (vocês já estão cansados de saber que eu moro na Espanha, não é?!), que ao pé da letra fica “Os restos do dia”. A tradução de Ángel Luis Hernández Francés, muito boa. Vocês podem encontrar essa edição brasileira aqui: “Os vestígios do dia”, da Companhia das Letras, ou aqui. 

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Ishiguro, Kazuo. “Los restos del día”, Anagrama, 9ª edição, Barcelona, 2017. Páginas: 255 #falandoemliteratura @falandoemliteratura

O nicaraguense Sergio Ramirez ganha importante prêmio literário na Espanha


Qual a primeira coisa que você lembra quando ouve “Nicarágua”? Guerra, fome, violência? Creio que para a maioria das pessoas, sim, infelizmente. A América Central, talvez, seja a mais complicada e desconhecida das Américas. Composta por sete países: a citada Nicarágua, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá, El Salvador e Belice, países com belezas naturais exuberantes, praias paradisíacas, mas governados por políticos inescrupulosos, muitas vezes, com falta de democracia e liberdade; também há guerrilhas e guerras civis. Ramirez foi vice- presidente da Nicarágua e lutou contra a ditadura no seu país. É um tema muito amplo e complicado, voltemos ao literário.

O escritor e político Sergio Ramirez (Masaya, 05/08/1942), ganhou ontem o prêmio Cervantes na Espanha, considerado o Nobel das letras hispanas, é um prêmio muito importante  (125 mil euros, além do prestígio) e Ramirez foi o primeiro escritor, não só do seu país, mas da América Central a ganhar o Cervantes.

O escritor Sergio Ramirez

O escritor Sérgio Ramirez (Facebook)

Ramirez é prosista e tem uma obra prolixa, veja aqui a sua bibliografia completa.  O jurado considerou que o autor tem a capacidade de “transformar a realidade em obra- de- arte”.

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Sérgio Ramirez em sua casa em Manágua, ontem (El País)

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Sergio Ramirez e Nélida Piñón (sentada). A foto está no Facebook da autora, que está na Espanha agora: “Nélida Piñon, em Madrid, está exultante. Seu amigo, escritor nicaraguense, Sérgio Ramirez é o vencedor do Prêmio Cervantes de 2017, considerado o Nobel das letras castellanas. Em 2015, Sérgio Ramirez dedicou seu livro Sara à Nélida Piñon.

Seu último livro, “Ya nadie llora por mí” (“Já ninguém chora por mim”) foi lançado o mês passado. Mais um autor para a lista!

Veja os finalistas do Prêmio Jabuti 2017


O Prêmio Jabuti já está na sua 59ª edição, é a mais importante premiação literária do Brasil. Dá prestígio, mas muito dinheiro não. O maior prêmio (bruto) é de 35 mil reais. Divulgaram os finalistas de 2017, são muitas categorias, vou listar abaixo só algumas,  mas você pode ler todas AQUI.

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Já temos listas de bons livros para colocar na nossa estante:

Romance

Título: A Tradutora – Autor(a): Cristovão Tezza – Editora: Record

Título: Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas – Autor(a): Elvira Vigna – Editora: Companhia das Letras

Título: Descobri que Estava Morto – Autor(a): J. P. Cuenca – Editora: Tusquets

Título: Machado – Autor(a): Silviano Santiago – Editora: Companhia das Letras

Título: O Marechal de Costas – Autor(a): José Luiz Passos – Editora: Companhia das Letras

Título: O Tribunal da Quinta-feira – Autor(a): Michel Laub – Editora: Companhia das Letras

Título: Outros Cantos – Autor(a): Maria Valéria Rezende – Editora: Companhia das Letras

Título: Simpatia Pelo Demônio – Autor(a): Bernardo Carvalho – Editora: Companhia das Letras

Título: Soy Loco Por Ti America – Autor(a): Javier Arancibia Contreras – Editora: Companhia das Letras

Título: Tristorosa – Autor(a): Eugen Weiss – Editora: @linkeditora


Contos e Crônicas

Título: Caixa Rubem Braga – Crônicas – Autor(a): Rubem Braga (autor), André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda, Carlos Didier (organização) – Editora: Autêntica

Título: Diário das Coincidências – Autor(a): João Anzanello Carrascoza – Editora: Companhia Das Letras

Título: O sucesso – Autor(a): Adriana Lisboa – Editora: Companhia das Letras

Título: Receita para se fazer um monstro – Autor(a): Mário Rodrigues – Editora: Record

Título: Rio em shamas – Autor(a): Anderson França – Editora: Companhia das Letras

Título: Se for pra chorar que seja de alegria – Autor(a): Ignácio de Loyola Brandão – Editora: Global

Título: Somos mais limpos pela manhã – Autor(a): Jorge Ialanji Filholini – Editora: Selo Demônio Negro

Título: Sul – Autor(a): Veronica Stigger – Editora: Editora 34

Título: Trinta e Poucos – Crônicas – Autor(a): Antonio Prata – Editora: Companhia das Letras

Título: Vossos velhos – Autor(a): Dayse Torres – Editora: Edição do Autor


Poesia

Título: A Palavra Algo – Autor(a): Luci Collin – Editora: Iluminuras

Título: Carcaça – Autor(a): Josoaldo Lima Rêgo – Editora: 7 Letras

Título: Dobres Sobre a Luz – Autor(a): Thiago Ponce de Moraes – Editora: Lumme Editor

Título: Identidade – Autor(a): Daniel Francoy – Editora: Urutau

Título: Livro das Postagens – Autor(a): Carlito Azevedo – Editora: 7letras

Título: Madrigaes Tragicomicos – Autor(a): Glauco Mattoso – Editora: Lumme Editor

Título: O Mar e o Búzio – Autor(a): Bruno Palma – Editora: Com-arte

Título: Quase Todas as Noites – Autor(a): Simone Brantes – Editora: 7letras

Título: Rol – Autor(a): Armando Freitas Filho – Editora: Companhia das Letras

Título: Tempo de Voltar – Autor(a): Mariana Ianelli – Editora: Edições Ardotempo


Teoria/Crítica Literária, Dicionários e Gramáticas

Título: Armas de Papel: Graciliano Ramos, as Memórias do Cárcere e o Partido Comunista Brasileiro – Autor(a): Fabio Cesar Alves – Editora: Editora 34

Título: Corpo no Outro Corpo. Homoerotismo na Narrativa Portuguesa Contemporânea – Autor(a): Jorge Vicente Valentim – Editora: EDUFSCAR

Título: De Volta ao Fim: O “Fim das Vanguardas” Como Questão da Poesia Contemporânea – Autor(a): Marcos Siscar – Editora: 7letras

Título: Graciliano Ramos e a Cultura Política: Mediação Editorial e Construção do Sentido – Autor(a): Thiago Mio Salla – Editora: Editora da Universidade de São Paulo / FAPESP

Título: Machado de Assis e o Cânone Ocidental: Itinerários de Leitura – Autor(a): Sonia Netto Salomão – Editora: EDUERJ

Título: Murilo Rubião e as Arquiteturas do Fantástico – Autor(a): Ricardo Iannace – Editora: Editora da Universidade de São Paulo / FAPESP

Título: Mutações da Literatura no Século XXI – Autor(a): Leyla Perrone-Moisés – Editora: Companhia das Letras

Título: O Mundo Sitiado: A Poesia Brasileira e a Segunda Guerra Mundial – Autor(a): Murilo Marcondes de Moura – Editora: Editora 34

Título: O Simbolismo: Uma Revolução Poética – Autor(a): Álvaro Cardoso Gomes – Editora: Editora da Universidade de São Paulo

Título: Sinuca de Malandro: Ficção e Autobiografia em João Antônio – Autor(a): Bruno Zeni – Editora: Editora da Universidade de São Paulo


Reportagem e Documentário

Título: A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih – Autor(a): Vicente Vilardaga – Editora: Record

Título: A Molécula Mágica – A Luta de Cientistas Brasileiros por um Medicamento Contra o Câncer – Autor(a): Carlos Henrique Fioravanti – Editora: Manole

Título: A Tortura como Arma de Guerra: da Argélia ao Brasil – Autor(a): Leneide Duarte-Plon – Editora: Civilização Brasileira

Título: Correspondente de Guerra – Autor(a): Diogo Schelp e André Liohn – Editora: Editora Contexto

Título: Era Um Garoto – O Soldado Brasileiro de Hitler – Autor(a): Tarcísio Badaró – Editora: Vestígio

Título: Ladrões de Bola – Autor(a): Rodrigo Mattos – Editora: Panda Books

Título: Nazistas entre nós: A trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra – Autor(a): Marcos Guterman – Editora: Editora Contexto

Título: O Livro dos Bichos – Autor(a): Roberto Kaz – Editora: Companhia das Letras

Título: Petrobras: Uma história de Orgulho e Vergonha – Autor(a): Roberta Paduan – Editora: Companhia das Letras

Título: Turno da Noite – Autor(a): Aguinaldo Silva – Editora: Companhia das Letras


E aí, quais as suas apostas? Boa sorte a todos!

Resenha: “Liberação”, de Luis Goytisolo


Começo contando uma historinha: na Feira do Livro de Madri de 2014, pensei encontrar uma fila quilométrica no estande de Luis Goytisolo Gay (Barcelona, 17/03/1935), afinal, é um dos expoentes da literatura na Espanha, membro da Real Academia Española, desde 1994, é o Proust espanhol. Goytisolo escreveu o prolixo “Antagonía”, são mais de 1000 páginas de luxuosa narrativa. Quando cheguei no seu estande, estranhei:  o autor estava sozinho. Contei sobre a minha surpresa e ele respondeu: “nunca vou ser um escritor popular”. Concordo. Literatura artística, bem elaborada, infelizmente, nunca será popular. Quase sessenta anos de excelente literatura e não havia ninguém na fila!

Já que estávamos sozinhos, aproveitei para pedir que autografasse vários livros , o que fez com toda a gentileza e simpatia:

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Luis Goytisolo, Feira do Livro de Madri, 2014. Foto: Fernanda Sampaio

Luis pertence à uma família literária. Seus dois irmãos também são escritores, José (poeta) e Juan (narrativa), este último, premiadíssimo, inclusive recebeu o Príncipe de Astúrias. Juan Goytisolo, infelizmente, faleceu em junho deste ano.

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Fernanda Sampaio e Luis Goytisolo na Feira do Livro 2014. Foto: Antonio Jiménez

A impressão que tive de Luis Goytisolo é que nunca vai envelhecer, tem o espírito jovem.

O meu exemplar com dedicatória:

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Saiba mais detalhes do meu encontro com Luis Goytisolo, aqui.

A obra

Como “Liberación” não está editado em português, uso “Liberação” (2014), ao pé da letra, mas poderia ser também “Libertação”. Este é o antepenúltimo livro de Luis Goytisolo, o mais recente é de 2016, “El atasco y demás fábulas ” (“O bloqueio e demais fábulas”). A sua primeira obra publicada é de 1958, “Las afueras”, ( “Os arredores”, algo como “A periferia”).

“Liberação” está dividido em nove capítulos numerados, com subcapítulos titulados. O primeiro capítulo possui nove histórias (aparentemente) independentes, a primeira: “Resumo do ano” (p.13), encontrei logo de cara umas linhas duras, lembrou- me o naturalismo de Aluísio de Azevedo. O protagonista chama- se Ricardo, é casado com Magda. A família tem uma casa de campo chamada “A Nogueira”. Ele fala da tosse incômoda dos pedestres exalando bacilos.

A  demolição de um edifício vai liberar o espaço, não só de uma edificação em ruínas, mas de tudo o que está implícito nele, “(…) eflúvios cuja carga de miséria, enfermidade, sofrimento e desgraça institui- se contagiosa, assim a inquietação do ser humano ante qualquer decidida revisão de seu passado individual ou coletivo que deixe descoberta a realidade mais profunda, mas irrevogável.” 

O narrador, em primeira pessoa, vai comparando esse edifício com uma tosse perniciosa, com a morte. Edifícios e móveis antigos, de antiquários, herdados, o provocam a mesma repulsa. De certa forma, o protagonista acredita que nestas coisas velhas ficam impregnadas energias dos donos. E ele pensa sobre pais e filhos:

Que sabem os filhos dos seus pais, de como eram antes de ser pais? E dos filhos, tanto mais desconhecidos quanto mais crescem? (p.15)

A segunda história é bem curtinha, “Vista da aldeia desde A Mola”. O ambiente do livro é a Espanha rural. “A Mola” é uma fazenda que fica em Vallfranca. O narrador faz uma crítica aos donos das fazendas, que são proprietários, mas não têm conhecimento sobre o campo, uma tendência pós- guerra.

Na terceira história, “Águas turvas”, Carlos sonha com águas turvas, fica com uma impressão ruim durante o dia todo. Começa a relacionar o sonho com a vida e suas recordações, principalmente com Áurea (falecida). Um capítulo embalado pela música de Strauss, “Marcha Radetzky”. É um texto sobre a dúvida, uma possível infidelidade ao estilo Capitu e Bentinho.

A quarta, “Nata“, é um apanhado de personagens e gírias grosseiras, são jovens violentos e marginais. Diferente dos anteriores, a narrativa acontece na cidade, parece um bairro popular e periférico.

“O monte da alegria” é a quinta história (p.27). Quando as pessoas estão muito agoniadas sobem ao monte e voltam de lá renovadas.

(…) Aos humanos nos acontece como as plantações, que degeneramos. A terra pode perder substância, mas deixe- a descansar e ela se recupera sozinha. As plantações, em troca, se não têm semente nova, degeneram. Pode ser boa terra, que você não vai colher nada. A planta perdeu perdeu sua capacidade de assimilar. Como nós.  (p.29)

“Desolação” é a sexta história, a de duas moças, Cati e Yolanda. Um texto realmente desolador, mas que para uma boa parte dos jovens, hoje, pode ser visto com naturalidade: a extrema falta de pudor, a liberação sexual que toca a perversão. A banalidade sexual.

Até “Desolação”, todos os textos parecem independentes, sem conexão entre as histórias e personagens. Em “A Marcha Radetzky” e “O interlocutor”, as últimas do primeiro capítulo, ressurgem personagens citados anteriormente e como a vida deles se cruzam. Neles, a colcha de retalhos é costurada e tudo faz sentido. O escritor optou pela escrita indutiva, partiu do particular para o geral. Goytisolo resume o capítulo falando da libertação de repressões. A Espanha ficou muitos anos submetida a um regime ditatorial, onde nada podia, e depois disso, veio o oposto.

O segundo capítulo é composto por seis histórias. A primeira, “Revistas”, acontece num aeroporto e quem a conta é Carlos, que aguarda para embarcar e observa um jovem ser revistado. O rapaz recorda a ele quando jovem e relembra uma experiência de sexo homossexual que nunca contou à Áurea.

Em “O obscuro e o transparente”, revela um lugar muito especial do povoado, que acontece um fenômeno estranho: no “Bosque do Pensamento”, as palavras surgem claras, como uma revelação.

Voltam os personagens jovens do subúrbio em “Mastuerzo” (é uma árvore). Eles têm uns nomes bem “estranhos”:”Cosca”, “Joderas” (apelidos escrachados). A linguagem volta vulgar, cheia de gírias, a língua das ruas dos subúrbios marginais. Os rapazes comportam- se com uma total falta de empatia e respeito ao outro.

E ainda “A terceira maravilha”, o narrador volta a contar sobre a fazenda “La Mola” e sobre quem eram os seus donos. “Primeiro do ano” é o encontro de dois casais que já apareceram antes: Carlos e Áurea, e Ricardo e Magda. Os homens foram colegas de colégio e o reencontro não foi agradável. O tempo transforma as relações em outra coisa nem sempre esperada e desejada. O trecho é contado sob a visão de Ricardo.

Já em “O bobo da vez”, sob o olhar de Carlos, ele vai contando os efeitos do tempo, não só no físico quanto na mente:

A pegajosa inércia das coisas, o mundo circundante, o próprio corpo, tudo como impondo resistência, colocando obstáculos, ou simplesmente aderindo ao modo de rêmora, como algas e moluscos que se instalam e proliferam no casco de uma nave até imobilizá- la. Uma análise de sangue e umas ecografias dentro da normalidade não anulam as fraturas da idade, a decadência física,  as manias (…) (p.58)

E Carlos fala sobre a “mania” de andar pelo meio da rua, para livrar- se da água dos vasos de plantas e também de uma coisa que me irrita muito, um costume forte na Península Ibérica:

(…) por temor que alguma dissimulada dona-de-casa sacudisse durante a sua passagem alguma toalha, algum lençol ou, o que é pior, algum tapete de quarto, com toda sua carga de germes patógenos”. (p.59)

Carlos comenta sobre a morte de Magda e Ricardo. Essa obra é cheia de enigmas, um quebra- cabeças.

O III Capítulo é formado por quatro histórias: “Latidos e dentes”, que fala sobre Vallfranca, o narrador compara o povoado antes e depois da guerra. A comodidade nem sempre traz felicidade. Durante a guerra (civil espanhola) as famílias eram mais unidas, dormiam num só quarto, e hoje, têm até banheiro com jacuzzi, mas sofrem de tédio. Será por falta de metas e objetivos? Há ainda  “Resignação”,O excêntrico” e “Projeto de ano- novo”.

Para evitar uma resenha infinita, decidi não contar mais capítulo por capítulo e já ir finalizando. A obra tem a estrutura original, são várias histórias paralelas, que discorrem aparentemente sem conexão, até que os personagens vão se entrecruzando. O personagem mais profundo é Carlos, seu final é surpreendente e triste.

A obra deixa uma sensação bastante verossímil do “jeito espanhol” de hoje e de ontem, várias gerações, há recuos históricos e personagens contemporâneos. Personagens de várias camadas sociais e diferentes idades, da zona urbana e rural, suas angústias e solidões. E a violência, que também há, infelizmente. O fim da guerra gerou liberdade, que, em grande parte, não soube ser bem aproveitada pelos cidadãos espanhóis. O que fazer com tanta liberdade? Parece que muitos ficaram perdidos e perderam a medida.

Este livro ainda não está editado em português. Quem sabe estou plantando uma sementinha. Se algum editor do Brasil ou qualquer país lusófono chegar por aqui, anote esse nome: Luis Goytisolo.

Se você está no Brasil, Portugal, Angola, Goa ou Moçambique e lê em espanhol, pode comprar “Liberación” em e-book aqui. E você que está na Espanha pode comprá- lo nas melhores livrarias do país.

goytisolo (1)  Goytisolo, Luis. Liberación, Siruela, Espanha, 2014. Páginas: 190

Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1


“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.