Os sapatos de lã


Ontem eu peguei a linha 146 de ônibus.  Na minha rua passa de seis em seis minutos e nos deixa no centro. Há restrições de tráfego de carros por causa da poluição e muita dificuldade para estacionar. Transporte público em Madri é uma excelente (e confortável!) escolha. Desci na Praça de Cibele (“Plaza de Cibeles”, em espanhol), a que leva o nome de uma deusa grega, a mãe da Terra. Nessa praça também fica o edifício mais bonito de Madri, funciona nele a prefeitura, é o antigo prédio dos Correios.

Decidi ir caminhando até o Museu Rainha Sofia, apesar do frio polar que anda fazendo esses dias na cidade. Gosto de andar no frio, além do mais, o trajeto é agradável, um quilômetro cruzando o Passeio do Prado. Passei pelo Museu do Prado, o Museu Thyssen, também o da “La Caixa”, dá para ver também o belo edifício da Real Academia de Letras e ainda o Real Jardim Botânico. Tudo muito monárquico por aqui, vocês sabem.

Na altura do Palace Hotel, vi uma mulher pedindo esmola com um copo descartável na mão. Uma cigana romena, dessas típicas com traje negro e lenço na cabeça. Ela era idosa e baixinha, encurvada, o rosto como um leque de rugas bem marcadas. Calculei que tivesse oitenta e cinco para cima. Mas, o que me chamou a atenção não foi o seu rosto: foram os seus pés descalços e inchados. Passei pela mulher (eu não tinha moedas), segui meu caminho, mas aquela imagem ficou martelando na minha cabeça.

Sim, eu sei que gente como ela é pedinte profissional. Normalmente, eles chegam em grupos, trazidos por máfias para fazer esse “trabalho”.  Dormem na rua, comem muito mal, é uma exploração desumana e criminosa. Mas…e a idosa e seus pés descalços nesse frio congelante?! “Como ela está aguentando?!”, pensei.

No Passeio do Prado não há muitas lojas, algumas de souvenires, poucos restaurantes, mas encontrei uma única loja de sapatos. Alpargatas, para ser mais precisa. Havia um par de alpargatas confeccionadas em lã, fechadas e quentinhas. Ao mesmo tempo, maleáveis, assim entrariam e ficariam confortáveis nos seus pés inchados.

Escolhi uma colorida e alegre, pensei que ficariam bonitas nos pés da senhora, até imaginei ela arriscando uns passos da “manele”, uma dança cigana.

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A loja de alpargatas no Paseo del Prado.

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O sapato de lã colorido estava nesse balaio da esquerda, o mais quentinho que achei. Não é o da imagem do post, o real eu esqueci de fotografar.

Que boba eu sou. Levei os sapatos dentro da sacola da loja. Cheguei perto da senhora, sabia que ela não entenderia muito bem o espanhol, e disse: “Calce os sapatos, senão a senhora pode ficar doente com esse frio”. Ela abriu a sacola, olhou, fechou e gritou uma espécie de ladainha decorada: “dinheiro, comida, comida, fome!”.

Saí um pouco desiludida com o descaso da mulher com os sapatos de lã. Na volta, três horas mais tarde, passei pelo mesmo lugar, ela não estava mais.

Já em casa, meu marido me disse que é uma tática muito comum dos ciganos romenos, isso de andarem descalços no inverno para provocarem mais compaixão, e assim, ganharem mais moedas. Pensei até que a mulher poderia ter vendido os sapatos.

Mas, vejam… hoje passamos de carro em frente ao Palace. Gritei, surpresa: “Toni, ela está com os sapatos de lã!”. Lá estava a senhora em frente ao restaurante Vip´s com seus sapatos coloridos novos. “Eu disse que eram confortáveis!”

Nós dois… vocês também? Temos a mania de sacramentar as nossas verdades e de prejulgar. Somos cheios de preconceitos. Olhamos o outro como se fosse um pacote fechado, sujeito construído, segundo nossas crenças. Tivemos que refletir e repensar: e se ela não for cigana, não for romena (pode ser russa, croata, eslovaca, etc), e se não for explorada por uma máfia…for só uma mulher idosa, doente, sozinha, uma viúva sem filhos, sem parentes, sem amigos e que não teve muita sorte na vida?! Quem sabe a história dela? Eu perguntei? Não! Quem pergunta? Mas vejam, já “achei” de novo, já inventei uma nova história para a mulher.

Prefiro sempre acreditar nas pessoas, mesmo que me enganem mil vezes.

Há muitos moradores de rua em Madri. Dormem em marquises, em parques, em caixas eletrônicos, em bancos nas ruas. O frio está rigoroso.  Esse é um problema crônico e doído. A maioria é imigrante, aí sim, não é prejulgamento.  Penso sempre neles, essa gente que vem de longe com um sonho…

A felicidade pode ser simples: às vezes, custa só 9,90.

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Você sabe o que significa “serendipity”?


O termo “serendipidade” vem do inglês “serendipity”. A palavra foi inventada pelo escritor britânico Horace Walpole (século XVIII), ela apareceu em um dos seus contos.

O “serendipismo” acontece quando algo muito legal surge por acaso. Exemplo: um físico está estudando sobre a teoria de cordas e descobre um novo elemento químico, que não tem nada a ver com seu estudo inicial; você está procurando o fio do seu computador e encontra os seus óculos perdidos há meses; a moça cruzou a rua fugindo do ex- namorado e esbarra no seu novo amor. A história está cheia de casos de cientistas que estudavam uma coisa e encontraram outra.

“Serendipity” está relacionada com acontecimentos bons e agradáveis, então é uma palavra feliz. Em espanhol, “serendipia”. Esse post surgiu, serendipitosamente, quando eu procurava ontem um romance clássico na livraria e encontrei esse de poesia contemporânea espanhola:

 

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20376048_835630786592483_3204756588155701777_n.jpg“Descobrimento feliz e inesperado que acontece quando se está procurando outra coisa diferente”.

20374781_835630789925816_6829196623110258514_n“Eu me perdi./ No caminho/ descobri alguém.// Era eu.// Não tenhas/ medo de procurar respostas.// Porque, do contrário,/ terás uma vida/ cheia de perguntas.”

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David Sadness  (nome artístico de David Olivas) é um jovem fotógrafo e poeta de Albacete, Espanha.

Onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos


Em 2001, Ray Bradbury participou de um simpósio de escritores na PLNU (Universidade de Point Loma Nazarene- San Diego, Califórnia), deixando onze conselhos para escritores novatos.

20ventura600Ray Bradbury, aos 88 anos (junho 2009), para o NYT: “Eu não acredito em escolas e universidades. Eu acredito em livrarias”

Se você tem 15 ou 75 anos e sonha em ser escritor, dá uma olhada nesses excelentes conselhos para sonhadores de todas as idades:

1– Comece pelos contos curtos
Bradbury aconselha a não começar pelo romance. “O problema com os romances é que você  pode ficar um ano escrevendo um e pode não ficar bom, já que você ainda não aprendeu a escrever”. O ideal é escrever muitos contos curtos, mesmo que sejam ruins, servem para treinar. “Te desafio a escrever cinquenta e dois contos ruins. Não se pode”. E praticando… “certamente chegará uma história maravilhosa”.

2. Não tente imitar os seus autores favoritos
Procure o seu próprio estilo. Bradbury cita como um erro da sua juventude, quando tentava imitar os autores que ele admiraba, entre os quais, Julio Verne, Arthur Conan Doyle e H.G. Wells. “Você não pode ser nenhum deles” (…) “você pode amá- los, mas não pode vencê-los”.

3. Aprenda com os grandes contistas
Bradbury cita como mestres dos contos curtos: Roald Dahl, Guy de Maupassant, John Cheever, Nigel Kneale, Edith Wharton e John Collier, que o aspirante a escritor deve ler e estudar. Também aconselha afastar- se das histórias contemporâneas como as publicadas pela revista New Yorker, pois “carecem de metáforas”, só retratam a vida cotidiana.

4. Use muitas metáforas
“Metáfora” é uma figura retórica de pensamento e talvez seja o recurso mais utilizado pelos escritores, de um modo geral (quer um post sobre as metáforas? Se sim, escreva seu desejo nos comentários!).

Bradbury não se considera um romancista nato, mas um “colecionador de metáforas”. Por isso,  o escritor novato tem que “engolir” obras literárias clássicas, para ampliar os seus recursos, que serão depois utilizados para criar as suas próprias histórias.  O autor sugere a leitura, todas as noches, de um conto, um poema e um ensaio, especialmente os de George Bernard Shaw. Segundo Bradbury, com essa rotina você vai acabar  “cheio de ideias e metáforas” na cabeça,  que combinadas com sua perspectiva e experiências de vida irão gerar novas metáforas e ideias.

5. Afaste- se das pessoas que não acreditam em você
Está cercado de pessoas que não acreditam no seu sonho de ser escritor e até tiram sarro disto? Conselho de Bradbury: “Chame- os hoje mesmo e despeça- se deles. Serve para qualquer coisa.

6. Visite a biblioteca com frequência
Bradbury não tinha nível superior, não pode pagar seus estudos, foi autodidata, se formou na biblioteca. Ele ia três, quatro vezes por semana, durante dez anos. “Viva na biblioteca, não no seu computador”. Sim pessoal, ler um livro é muito mais confiável, estimulante e completo, que pegar textos mastigados, curtos e duvidosos da internet. Vá direto na fonte: os livros. E o mais legal: viciam.

7. O cinema como fonte de inspiração
Bradbury frequentou cinemas desde criança. Cinema é magia pura e uma incrível fonte de inspiração para novos escritores. Procure os filmes clássicos, principalmente.

8. Divirta- se criando e escrevendo
Escreva para divertir- se, não se leve tão a sério, relaxe. Se começar a escrever e a história transformar- se em “trabalho”, jogue no lixo e tente outra vez. “Se a mente ficar em branco no meio de uma história, é o seu subconsciente te dizendo que não gosta do que está fazendo”.

9. Esqueça o dinheiro
Bradbury  foi valente e recusou grandes quantidades de dinheiro, quando lhe ofereceram para escrever sob encomenda, sabia que isso lhe “destruiria”, porque iria escrever o que não desejava. “Minha esposa e eu tínhamos  trinta e sete anos quando pudemos comprar o nosso primeiro carro”. Quem te disse que seria fácil?

10. Escreva duas listas
O que você ama e o que você odeia? “Escreva uma lista com dez coisas que ama apaixonadamente e escreva sobre elas. Faça uma lista com dez coisas que você odeia e as mate”. Escreva sobre as personas que você odeia, sobre seus medos, pesadelos e os mate.

11. Escreva sobre a primeira coisa que vier na sua cabeça
“Quando começo a escrever nunca sei aonde vou, todos meus livros foram surpresas”. O autor recomenda começar associando palavras que venham na cabeça. “Com sorte, no final da segunda página, começarão a aparecer personagens” provenientes da sua “verdadeira essência”. Dessa forma, você irá descobrir coisas sobre si mesmo que não sabia.

Deixo aqui a conferência de Ray Bradbury na íntegra. Mesmo que você não entenda inglês, vale a pena dar uma olhada, pelo menos para conhecer a voz do autor, muito simpático por sinal. Espero que estes conselhos te ajudem. Se você colocar esses exercícios de escritura criativa em prática venha me contar se funcionaram.

Ah, e volte rapidinho aqui, pois a resenha de “Fahrenheit 451”, a obra- prima de Bradbury, está para sair!

 

 

 

 

 

 

Sim, nós falamos de amor: II Oficina Falando em Literatura


Falar de amor em tempos de cólera é necessidade. É antídoto para a desesperança, para a dor. É o único caminho. Amor- próprio, amor ao outro, amor à família, amor à natureza, à literatura, à música, às artes, ao belo. A tudo que faz bem.  Amor sincero, verdadeiro, genuíno. O amor puro seja qual for,  nunca é errado ou motivo para repressão e vergonha. Se ama, diga…Purifique- se, regenere- se, liberte- se.

Algumas cenas da oficina “O amor na poesia de Carlos Drummond de Andrade”:

simoneSimone recitando o seu poema.

rafaelO poeta Rafael.

turmaSherlen, Rafael, a pequena Helena, Simone e Deborah participaram na I Oficina e voltaram para a segunda.

Um abraço apertado para a querida Renata, que foi hospitalizada ontem e não tivemos o prazer de contar com a sua presença. Melhoras, querida. E obrigada a todos que participaram!

A próxima oficina será na quarta- feira, 16/11 e vamos falar sobre Antônio Torres, um dos meus escritores favoritos:

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Entre tantas nuances da vasta obra de Drummond escolhi o amor para a oficina de ontem (10/11), porque o amor é o caminho e a solução para tudo. Para os dramas pessoais e coletivos.  “Amar” de Drummond na voz da inesquecível Marília Pêra:

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.

(C.D.A.)


Que o amor seja a tua motivação, nada mais.

Resultado da enquete: “Quem vai ganhar o Nobel de Literatura 2016”


Votaram 126 vezes na enquete: “Quem ganhará o Nobel de Literatura 2016?”.

Parabéns aos sete que votaram em Bob Dylan! A pena é que não deixaram comentário no post, era obrigatório e a única forma de identificar a pessoa e seu voto.

Veja os números:

Resposta/ Votos/ Porcentagem
Lygia Fagundes Telles (brasileira) 56- 31%
António Lobo Antunes (português) 20- 11%
Haruki Murakami (japonês) 18- 10%
Milan Kundera (checo) 17- 9%
Mia Couto (moçambicano) 17- 9%
Philip Roth (americano) 10 5%
Ngugi Wa Thiong’o (queniano) 7- 4%
Bob Dylan (americano) 7- 4%
Joyce Carol Oates (americana) 5- 3%
Amos Oz (israelita) 4- 2%
Adonis (sírio) 4- 2%
Ismail Kadare (albanês) 4- 2%
Javier Marias (espanhol) 4- 2%
Jon Fosse (noruego) 2- 1%
Juan Goytisolo (espanhol) 1- 1%
Salman Rushdie (indiano) 1- 1%
Cormac McCathy (americano) 1- 1%
Don DeLillo (Americano) 1- 1%
Mircea Cartarescu (romeno) 1- 1%
Nawal El Saadawi (egípcia) 1- 1%
Margaret Atwood (canadense) 1- 1%
Enrique Vila-Matas (espanhol) 0- 0%
Joan Didion (americana) 0- 0%
Colm Tobin (irlandês) 0- 0%
Tom Stoppard (checo) 0- 0%
Charles Portis (americano) 0- 0%
Francisco Sioni José (filipino) 0- 0%
Ko Un (sul- coreano) 0- 0%
Gerald Murnane (australiano) 0- 0%
Jussi Adler-Olsen (dinamarquês) 0- 0%
David Malouf (australiano) 0- 0%
Yevgeny Yevtushenko (russo) 0- 0%
Jaan Kaplinski (estônio) 0- 0%

O box literário composto por caneca, post-its, canetas, caderno, coisinhas fofas e um livro que seria do ganhador do Nobel, ficará para outra oportunidade, mesmo porquê nem sei se Bob Dylan publicou algum livro. Que mancada da academia!

Como escrever? O processo de escritura criativa


Como escrever?

Por Rômulo Pessanha, colaborador

Fiz- me essa pergunta e imaginei- me caminhando numa rua de um lugar desconhecido, mas desconhecido porque ficcional. Escrever é como imaginar que uma vida nova está se tornando uma realidade.

A pergunta contém a resposta: como escrever? É o como escrever.

Percorri então a rua: era eu, único que ditava o ritmo de toda a situação. Assim supunha. Através de minha imaginação a rua ganhava mais e mais passantes, andarilhos e personagens desconhecidos, transeuntes e figurantes para uma vida que julgamos que somos, cada um de nós, protagonistas de uma longa história fictícia?, sem fim.

A rua ainda sem cor ganhava alguma tonalidade negra. Estava ficando boa e tudo estava ficando perfeito e quando percebi, reparei que outras vozes também queriam falar: eram outros personagens que surgiam no caminho.

Sendo eu quem dá as regras do jogo, cada um poderia ter sua existência confirmada ou negada. Os personagens precisamente deviam estar ali para serem cúmplices de um ato de existir e não meramente rebeldes sem causa e se rebeldes fossem, melhores ainda seriam tanto a história como os personagens.

Uma personagem surgiu de repente. Seus olhos negros, cabelos negros que continha algum fio ou outro de cabelo branco, pele branca, lábios pálidos, mas que me provocavam atração como o imã atrai o metal, ela era rebelde, eu queria ser seu súdito. Ainda seu corpo, magro, lembrava vela acesa e que a luz era calor transmitido a mim diretamente só pelo olhar que me endereçava. Andava até a mim, conversávamos um pouco e pelos gestos e palavras suas sempre dizia não, não ao que dizia eu com minhas atitudes de apaixonado, palavras que não são ditas nem escritas, mas que podem ser lidas no corpo, sem embargo, de tudo em mim dizer sim, ela era sempre o não.

Sim e não se atraem, porque se anulam. Não há resistência e tudo pode fluir perfeitamente como na imaginação daquele que vive um sonho bom, assim é viver um grande amor ainda que inventado pela imaginação devaneante, nada melhor do que viver imaginando do que imaginar viver um grande espetáculo.

Escrever deve ser algo que penso dizer ou que digo enquanto penso. Quando escrevo penso que estou a pensar o que estou a escrever, ou, que por já ter pensado me pus a escrever. Escrever é sempre o registro de algo passado e acontecido e que futuramente nos tornará realizado, pois esse fazer, de palavrear num papel é manter acesa nossa luz no mundo sem que ela esmaeça e se apague por ter tremeluzido. Luz forte como sol, a minha língua renasce sempre mais forte, cada dia, luminoso arrebol.

Queria então que a misteriosa moça passasse a escrever toda minha vida. Desejava mesmo que minha vida fosse reescrita por completo, mas ela parecia não aceitar a tarefa. Então desejei que essa personagem sumisse de meu pensamento, na minha história mando eu.

Ela não ia embora e entre uma esquina e outra, novamente surgia e também ao fim de uma estrada ou de uma rua sem saída ela, sempre ela, inominável desejo que insiste em fazer parte do que crio mesmo sem ter sido chamada.

Ela era a página para cada nova história que eu criava, meu desejo de possuí-la era para também registrá-la em meu corpo arenoso e evanescente de memória, cada grão de areia um acontecimento longínquo. Como pode a nossa criação tomar juízos e nos desobedecer? É porque ela não sabe que foi inventada por mim ou talvez ela tenha inventado o amor e colocou no meu coração. Eu, apaixonado, coloquei tudo no papel. A mesma coisa que fazê-la interpretar o papel que lhe dei, ela age assim personalíssima sempre contraditória ao que digo. Se eu falo sim, ela diz não. Outra página em branco e outra vez ela retorna, mas para quê? Talvez já não seja ela, a paixão de fato, mas a loucura insana da criação decadente e terrena que não vislumbra teor de vida no lugar que paira ideias. Assim é a vida, página em branco para preencher, num corpo vermelho de paixão, inspiração, oxigênio da alma, quando escreve, sangue, a alma falando ao corpo seu desejo.

Na minha filosofia, a minha razão. Na minha vida, e na falta dessa racionalidade, tudo que for sem razão deverá fazer parte de um raciocínio maior: acrescente um pouco mais de chocolate ao leite diante de uma tela impressa com texto, ou como uma tela, o texto, ou o livro, e dirá você meu leitor, que delícia é isto, pois eu também lhe digo que fazer você ler isso e fazer seu pensamento dizer o que digo e imaginar o que eu imagino, só que à sua maneira e modo é que é para mim, grande delícia, prazer saboroso.

Assim deve ser escrever, desejo selvagem e indomável, víbora venenosa essa a do escrever, cavalo que não se deixa montar e veloz e furioso corre e foge se transformando em altaneiro pássaro anunciando que o amor é livre expressão do que sonha a alma e do que deseja o corpo: ser aprisionado pelas palavras de amor quando se está amando livremente e a declaração de amor que ganho a cada página que escrevo, como nova possibilidade de amar.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2016.

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Portrait of diligent pupil sitting on pile of books and looking at camera