Entrevista com Edney Silvestre


Originalmente publicada na revista impressa BrazilcomZ (Espanha), nº93,  julho de 2015. Leia a revista online.


EDNEY SILVESTRE

Sou testemunha do sofrimento, do isolamento, da solidão, das dores e tristezas de quem foi obrigado, seja por que razão for, a viver fora de sua terra.

Entrevista exclusiva com o grande jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre (Valença, Rio de janeiro, 24/04/1950), que publicou sua primeira obra “Se eu fechar os olhos agora” (2010) depois dos 50 anos, “como Henry Miller e Cervantes”, livro premiado com o Jabuti. O autor revelou que está trabalhando em um novo livro de contos. Mostrou- se incômodo com a visão de alguns franceses sobre os brasileiros no Salão do Livro de Paris: Os franceses, muitos deles, ainda nos vêm – nós, os criadores de cultura no Brasil e na América Latina – como papagaios exóticos. Quanto mais coloridos e barulhentos formos, mais eles consideram que se trata de “autêntica literatura latino-americana”. E também comenta sobre a questão da imigração, da solidão, da leitura no Brasil e alguns temas polêmicos. Leia a entrevista completa:

ed

O escritor e jornalista Edney Silvestre de 65 anos, de origem humilde, forjou uma bela e sólida carreira no competitivo mercado de trabalho brasileiro. (foto: Leo Aversa)

(F.S.) No seu último livro, “Boa noite a todos”, a capa sugere um personagem suicida, o leitor já tem essa informação prévia. Com a leitura da obra, certamente vai perceber que Maggie não tem saída. O que você diria ao leitor que pode pensar que você foi excessivamente pessimista?

(E.S.) Maggie tentou todas as saídas que lhe eram possíveis. Desde o começo da sua vida, porém, o destino, ou que nome se dê aos acontecimentos que nos formam, foi cruel com ela. Sua mãe, prostrada pela depressão, a ignorava. Seu pai foi-se para outro país, onde se casou com uma mulher igualmente alheia às necessidades da menina Maggie. Harry poderia ter sido seu porto seguro. Entretanto ela, jovem demais para entender a complexidade do rapaz, afastou-se dele. E por aí foi, abraçando o mundo glamoroso e vazio das celebridades. Não fui pessimista. Ao final Maggie ganha o alívio na memória e na arte – no caso a música de Richard Strauss.

(F.S.) Além de ser um escritor que conseguiu o respeito da crítica especializada conquistando um lugar de destaque na literatura contemporânea, com vários prêmios, antes você já era jornalista de primeiro escalão. Atualmente, apresenta o Globo News Literatura e é repórter especial da TV Globo. Você pretende transformar algum dia a literatura na sua principal atividade?

(E.S.) Gosto de chegar à redação e estar com os colegas jornalistas, gosto de sair para fazer reportagens na rua, gosto de escrever reportagens, gosto de editar imagens e textos de reportagens. Quando penso no meu futuro – e penso pouco, minha preocupação é com o aqui e agora – não me vejo fora do jornalismo. Quando, finalmente, publiquei meu primeiro romance, “Se eu fechar os olhos agora”, eu era jornalista há mais de 3 décadas. Continuo. É uma profissão que me permite estar sempre em contato com o real, que vem me dando a chance de conhecer profundamente o meu país e os brasileiros, assim como me leva a entender melhor as contradições da história contemporânea ao me fazer testemunha de acontecimentos como os atentados terroristas em Nova York em 11 de setembro de 2001, o horror sofrido pelo povo no Iraque, a dor das vítimas de furacões em Honduras, o desencanto e a esperança na vida de Cuba.

ed2

No lançamento de “Boa noite a todos”, seu último romance. (Foto: Vera Donato)

(F.S.) Vender muitos livros é sinônimo de sucesso? O que é o sucesso pra você?

(E.S.) Gabriel García Márquez vendia muitos livros. Salinger vendeu muito, também. Jorge Amado foi um autor best-seller. Um colombiano, um americano, um brasileiro. São apenas três, dos muitos exemplos, de escritores de qualidade com obras acatadas por um grande público. Sucesso, sem dúvida. A permanência deste sucesso, no entanto, é outra história. A morte, em geral, apaga alguns escritores da lembrança dos leitores. Falo no sentido do grande público, aquele que transforma um romance como “Amor em tempo de cólera” em fenômeno de vendas. Ainda que este trio Amado-Salinger-Marques não se encontre hoje nas listas dos mais vendidos, continua sendo cânone, continua sendo referência, como continuam os menos lembrados e outrora escritores de enorme sucesso, como Rachel de Queiroz e João Ubaldo Ribeiro.

(F.S.) A pós- modernidade lançou diversos escritores midiáticos, que exercem profissões paralelas (atores, cantores, humoristas e padres), o que gera muita desconfiança na crítica, a maioria com fundamento, já que são obras inexpressivas e sem valor artístico- literário. Edney Silvestre, jornalista e um rosto conhecido no Brasil. Com a publicação do seu primeiro livro, como viveu esse período de prova? Sofreu algum estigma, mesmo sendo jornalista e tendo familiaridade com a escritura? Com expectativa, ansiedade ou não te afetou?

(E.S.) Eu não era uma celebridade quando lancei meu primeiro romance, nem o sou agora, portanto não me encaixaria na categoria “escritor midiático. Sempre escrevi textos de ficção, apenas publiquei meu primeiro romance depois dos 50 anos. Cervantes também publicou depois dos 50. Henry Miller foi outro. Sou, fui e serei meu crítico mais atento. Se, mesmo com os prêmios literários que ganhei, eu ainda tivesse dúvidas se me acolhiam porque eu era jornalista de televisão, essas dúvidas teriam se dirimido com a publicação de meus romances na França, na Grã-Bretanha, na Sérvia, na Holanda, em Portugal, na Itália e na Alemanha – onde ninguém tinha a menor ideia de quem eu era. E, aliás, continua não tendo. E ainda assim leem minha obra.

(F.S.) Você já entrevistou diversos escritores consagrados, como é estar do outro lado, ser o entrevistado? Sente- se confortável falando de si?

(E.S.) Eu tenho muito prazer em conversar – e ouvir – pessoas inteligentes, como José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Adélia Prado, Nardine Gordimer, Milton Hatoun. Aprendi e aprendo com essas pessoas. Quando estou do outro lado, e estou sendo entrevistado por alguém que se preparou, pesquisou, estudou, leu minha obra, tenho a chance de repensar e analisar o que fiz, porque fiz, como fiz. É um prazer, também, de outro tipo. Mesmo que eu não consiga responder a essas questões.

(F.S.) Em “Vidas provisórias”, você narra a vida de imigrantes brasileiros no exterior. Você também já esteve nesta situação. O que emprestou das suas experiências aos personagens do livro? É verdade que os seus personagens viveram situações pessoais extremas e difíceis, mas você acredita que exista um ponto de intersecção entre todos? Você também sentiu em algum momento a sensação de perda de identidade? De ter que se reinventar? E a solidão?

(E.S.) Sou testemunha do sofrimento, do isolamento, da solidão, das dores e tristezas de quem foi obrigado, seja por que razão for, a viver fora de sua terra. É muito, muito duro. É claro que não me refiro aos ricos empresários ou artistas que se divertem em temporadas passadas em suas belas e confortáveis casas e apartamentos em Paris ou Miami, indo a bons restaurantes e assistindo a espetáculos bacanas. Falo das pessoas que ralam, que trabalham duro, que se sentem discriminadas. Fui morar nos Estados Unidos com visto de trabalho, o que fazia de mim um privilegiado. Mas convivi com gente que temia ser pego pela imigração e deportado, aquelas pessoas que precisam trabalhar, seja no que for que aparecer, para não apenas se sustentarem, mas também mandarem dinheiro para suas famílias que ficaram no Brasil. Nunca senti que perdia a identidade pois creio que o brasileiro não a perde, de forma alguma. Quanto à solidão… Essa eu conheci desde muito cedo, com pouco mais de 15 anos, quando me mudei de minha cidade no interior para o Rio de Janeiro.

(F.S.) A crítica negativa incomoda? Você lê tudo o que escrevem sobre seus livros? Acompanha o retorno dos leitores? Lê as resenhas dos “blogueiros”?

(E.S.) Tem uma frase ótima que o dramaturgo Edward Albee me falou numa entrevista, quando eu comparei as boas críticas que tinha recebido na época da peça “Quem tem medo de Virginia Woolf”, das ruins que deram à sua peça mais recente (então), “A cabra”. Ele me disse mais ou menos assim: “Se elogia, eu considero (o crítico) inteligente por ter percebido minhas intenções; se fala mal, é porque trata-se de um tolo”.
aaaaa

O amor à literatura chegou muito cedo, ainda menino, quando sofria de anemia profunda e ficava na lendo na cama. O escritor em Paris com a tradução francesa de “A felicidade é fácil”.

(F.S.) Os seus livros ganharam traduções em vários idiomas. Como está sendo a recepção da sua obra pelo leitor estrangeiro?

Muito além do que eu jamais poderia imaginar. Na França o jornal Le Monde e a revista L’Express aplaudiram meus dois romances publicados ali, em Portugal e na Holanda idem, o inglês The Guardian e o alemão Stern me deram página inteira nas resenhas elogiosas a “Se eu fechar os olhos agora” e, no ano passado, “A felicidade é fácil” foi considerado um dos dez melhores romances policiais do ano na Inglaterra. Ano que vem “A felicidade é fácil” sai na Alemanha.

(F.S.) Você acha que já escreveu a sua obra- prima ou esta ainda está para ser escrita?

(E. S.) Será que um escritor com um mínimo de senso crítico, mesmo aquele com ego gigantesco, acha mesmo que escreveu, ou está escrevendo, ou acabará por escrever uma obra-prima? Nos estados unidos eles, os autores, sempre se referem à tentação de escrever “o grande romance americano” que estaria por vir. Isso os esmaga. Não acredito que Saramago pretendeu, jamais, escrever uma obra- prima. Entretanto deixou-nos seu Evangelho. Drummond deixou-nos várias obras- primas – e sempre se disse um aprendiz.

(F.S.) Está escrevendo algum livro? Já tem o título da sua próxima obra?

(E.S.) Estou construindo em um livro de contos onde tenho a chance de experimentar temas e linguagens. É possível que venha a publicar no ano que vem. Ainda não tenho um título definitivo, embora eu venha trabalhando desde o ano passado com um.

rrrrrr

O escritor na biblioteca do seu apartamento no Leblon, no Rio de Janeiro (foto: Revista Quem)

(F.S.) Edney leitor. Quais são os seus livros favoritos? Quais autores são essenciais na sua biblioteca?

(E.S.) Não tenho favoritos, Fernanda. Gosto de ler, ponto. Leio de tudo, inclusive quadrinhos, quadrinhos mesmo, tipo Tio Patinhas e Asterix. Se tomar como guia os livros que tenho em minhas estantes: toda a obra de Drummond, toda a obra de Graciliano Ramos, toda a obra de Guimarães Rosa, toda a obra de José Saramago, muita coisa de Eugene O’Neil e Tennessee Williams, muita coisa de Fernando Pessoa, a obra completa de Machado de Assis, todo Cervantes, quase tudo do teatro de Nelson Rodrigues, um tanto de Marguerite Duras, outro tanto de Camus, praticamente tudo o que se conhece de Shakespeare (nao lido na maior parte), Elizabeth Bishop, muitos livros de Patricia Highsmith, Georges Simenon e F. Scott Fitzgerald.

(F.S.) Edney escritor. A alteridade, viver outros “alguéns” provoca desconforto, angústia, alívio, salvação, redenção? Como é o seu processo criativo?

(E.S.) Um escritor é um canal para transmitir vozes, desejos, ânsias, frustrações, esperanças de seu tempo. E tenta ser o canal mais limpo e aberto possível. Eu tento.

(F.S.) Livro tradicional ou livro digital? Você aderiu aos e- books?

(E.S.) Livro, ponto. Leio em ambas as formas. Digital é mais prático, sem dúvida. Mas nem vale a pena comentar, pois está afundando no mundo inteiro.

(F.S.) Brasileiro ainda lê muito pouco, mesmo na era digital com muita literatura gratuita na rede (muitos ainda não têm acesso à Internet). Como formar leitores no nosso país que, infelizmente, ainda não tem como prioridade a Educação?

(E.S.) Os números mostram que o brasileiro lê cada vez mais. Basta ver as pesquisas da SNEL. De onde você tirou essa conclusão que lê pouco? Educação tem que ser política pública. De que adianta comentar aqui? É política pública, não pessoal.

ed5

No Salão do Livro de Paris (2015)

(F.S.) Como foi participar do Salão do Livro de Paris 2015 como autor convidado?

Os franceses, muitos deles, ainda nos vêm – nós, os criadores de cultura no Brasil e na América Latina – como papagaios exóticos. Quanto mais coloridos e barulhentos formos, mais eles consideram que se trata de “autêntica literatura latino-americana”. A culpa é do Gabriel Garcia Marques, que escrevia esplendidamente tramas que jamais poderiam se passar senão em selvas, cidades perdidas, verdejantes, habitadas por personagens peculiares, carregando amores ao longo de séculos. Ele era uma força original. Nada tinha de “papagaio exótico”. Mas aqueles que encaram superficialmente nossa cultura não entendem isso. E só querem reconhecer, no caso do Brasil, o “soft power” de samba, mulatas e futebol. Falei contra isso o tempo todo. Espero ter aberto a cabeça de alguns. Outros se irritaram. Incitei-os a lerem o que me parece a literatura mais original e diversificado do mundo neste momento, a brasileira, que reúne autores tão diversos quanto Milton Hatoun, Luiz Ruffatto, Alberto Mussa, Nélida Piñón, para citar apenas quatro contemporâneos.

(F.S.) Você ganhou o prêmio Jabuti em 2010 com “Se eu fechar os olhos agora”, sua obra de estreia, com os votos da crítica especializada e depois perdeu para Chico Buarque, que foi votado pelo público, mas continua sendo o ganhador moral. Existe algum constrangimento entre você e Chico por causa dessa história?

(E.S.) Não conheço Chico Buarque pessoalmente, não frequentamos os mesmos lugares, não temos amigos em comum. Ele é uma instituição, autor de clássicos da MPB como “A banda” e “Sabiá˜, vencedor de vários prêmios literários. Chico Buarque nunca disse uma palavra desabonadora a meu respeito, mesmo tendo perdido o Jabuti de Melhor Romance para mim, um autor estreante, mesmo depois de toda a campanha que reuniu mais de 15 mil assinaturas . Tem sido elegante, espero me comportar da mesma maneira.

eeeee

Edney foi correspondente internacional da Globo em Nova York, foi o primeiro repórter a chegar no local do atentado terrorista às Torres Gêmeas em 2001.

(F.S.) Você é muito ativo nas redes sociais, usa Facebook, Instagram, Twitter. O que essas redes trouxeram de bom e de ruim? Qual o saldo?

Gosto de conhecer pessoas, gosto de papear, nós do interior somos assim, colocamos a cadeira na calçada e falamos com quem passa. É como vejo as redes sociais. Saí do Messenger recentemente, por conta de assédio de quem só se aproximava porque queria ser entrevistado no programa de literatura da Globonews. Passei anos explicando cordialmente que aquela era uma página pessoal, que a página a procurar era a do Globonews Literatura. Porém, após algumas agressões gratuitas e exibições de vaidade, entendi que era melhor cair fora. Muito do aumento da leitura de livros, hoje, deve-se ao incentivo trazido pelas redes sociais. Particularmente para leitores com menos de 35 anos.

(F.S.) Sobre o Acordo Ortográfico entre os países lusófonos. Contra ou a favor? Já aderiu à nova ortografia?

(E.S.) Não fui chamado a opinar antes da decisão. Ninguém é consultado. A decisão fica numa esfera totalmente fora do alcance. Depois dela, os livros didáticos têm que ser impressos novamente, milhões deles. Todos os livros, enfim. A quem isso beneficia? Mas já foi, está feito. Não adianta nada comentar agora.

(F.S.) E qual a sua relação com a Espanha? Conhece bem o país? Quando vem nos visitar?!

(E.S.) Gostarei muito quando meus livros forem publicados na Espanha, o que ainda não aconteceu. Sinto uma grande identificação com a cultura iconoclasta que deu origem a Gaudi, a Buñuel, a Cervantes, a Garcia Lorca, a Picasso, a Almodóvar.

(F.S.) Dá para definir o que é a literatura na sua vida em três palavras?

(E.S.) Acho que não. (risos) Tem três palavras na frase, não é mesmo?        

                                                                                                        

Anúncios

Resenha: “Boa noite a todos”, de Edney Silvestre


Em “Boa noite a todos” (2014), o escritor, apresentador e jornalista Edney Silvestre (Valença, Rio de Janeiro, 27/04/1950) conseguiu encontrar um ponto de intersecção importante, onde todos somos iguais, sujeitos despidos de vestes (literalmente), convenções, dinheiro e poder. Nada material importa. O autor resgatou o Humanismo, colocou o ser humano sozinho no palco, na sua essência original, na hora inevitável: a morte,  motivada pela solidão e a enfermidade. O misticismo e a moral, que podem ser muito variáveis, deram lugar à ética. Edney opta pela dignidade do ser humano, empurrando Maggie em um precipício antes que ela se perdesse. Trágico? Sim, mas o personagem labiríntico não tem outra alternativa.


iedne-silvestre

Edney Silvestre em setembro do ano passado no lançamento do livro, que teve leitura dramatizada pela grande Fernanda Montenegro. A obra também foi protagonizada no teatro por Christiane Torloni (foto: Blog Lu Lacerda)


A leitura começa pelo título e a capa do livro (fantástica por sinal, de Leonardo Iaccarino), que não nos deixa dúvidas: alguém se despede, um sapato feminino elegante assomado no parapeito de um edifício e vários outros prédios entrelaçados abaixo, confusos, dando a impressão de vertigem.  O personagem é uma mulher suicida. As primeiras páginas deram- me uma impressão equivocada da obra, achei que era uma dondoca fútil que iria cometer suicídio por falência financeira. Não. Maggie (Margareth) divorciada três vezes, não teve filhos por infertilidade, foi deixada por um dos maridos que se apaixonou por outro homem, o último marido a deixou por uma jovenzinha, Maggie estava sim falida e sozinha, mas a motivação do suicídio foi a doença. Ela planeja a sua morte antes que perca totalmente a memória e a sanidade. Em nenhum momento o autor cita o Alzheimer, mas os sintomas de Maggie são parecidos, ela começa a esquecer fatos da sua vida, nome de pessoas, esquece que tem que pegar um avião, esquece até do nome do seu pai e sua mãe, começa a perder o controle das funções fisiológicas voluntárias do corpo.

A história toda acontece em poucas horas, começa no táxi durante o trajeto até o hotel que escolheu para morrer. O hotel foi escolhido porque ela acha que ali antes estava construída a casa da sua família. Ela vai tentando reconstruir a sua vida, já não sabe o que é real ou imaginação. Ela dialoga com uma voz, que pode ser o resto de lucidez que lhe sobra, que vai corrigindo os lapsos e dados incertos. A linguagem, muitas vezes repetitiva, acompanha o fluxo do pensamento da personagem, ela esquece o que acabou de dizer, então reitera. Muito fidedigno.

O livro é dividido em três partes: primeiro o romance, depois a peça teatral só em 1ª pessoa, há acréscimos de dados sobre a vida de Maggie e uma terceira parte onde Edney explica como surgiu Boa noite a todos.  muitas referências musicais, livros, poemas, filmes, citações de nomes de atrizes, tudo comentado pelo autor nessa última parte. Ednei explica que Maggie é uma conjunção de várias mulheres, concentra no personagem o drama de muitas pessoas. Geralmente ele leva pra ficção pessoas conhecidas, aconteceu em obras anteriores. Não se preocupe se não entender as citações em inglês e alemão, está tudo no final.

Uma música que acompanha Maggie durante a sua despedida é de Richard Strauss, “Quatro últimas canções”. Strauss  musicou um poema de Herman Hesse, “Ao dormir”:

Depois que o dia exausto me deixou,
amavelmente a noite constelada
há de acolher meu ardente desejo
como a uma criança fatigada.

Mãos, esquecei todos os afazeres!
Rosto, deixa o pensar ao abandono!
Agora todos os sentidos meus
querem afundar no sono.

A alma, sem ter quem tome conta dela,
em vôos libérrimos quer flutuar
e no circulo mágico da noite
a vida de mil formas esgotar.

Hermann Hesse


 É um livro que mexe com nossos medos, pelo menos os meus, um deles é o de perder a noção da realidade, a loucura ou o esquecimento. O medo de não ter o controle de si mesmo, alienar- se, no sentido original do termo. É o medo de Maggie, ela não tinha saída. Uma pessoa sem memória está morta. Maggie planejou a sua morte e estava tranquila. Maggie sofria alucinações e decidiu voar.

edney-2

Para conhecer um pouco mais sobre o autor, leia essa interessante entrevista, onde Edney revela fatos tristes e marcantes da sua vida, e mostra- se uma pessoa de gostos simples, que prescinde de luxos, o que o faz realmente feliz é escrever.

edney-1

Edney na biblioteca do seu apartamento no Leblon no Rio de janeiro. (Revista Quem)

Eu li “Vidas provisórias” e fiquei impressionada com a obra (leia a resenha). Em “Boa a noite a todos” o personagem principal também é uma imigrante, que trouxe na sua bagagem de vida (desculpem- me o clichê fácil) todas as experiências que viveu nos países que morou e escolheu morrer na cidade e local onde a viu crescer. A gente pertence mesmo ao lugar que nos viu nascer?

Ednei teve coragem de tocar em um tema tabu, o suicídio. Muitas vezes visto como sinal de fraqueza e condenado pelo lado místico, “é falta de Deus”. O suicídio vai muito além dessas análises superficiais e até cruéis ( motivadas pelas religiões). Sempre há muita dor de viver e sentimento de impotência, de fim de linha, motivados por doenças físicas ou psicológicas, quase sempre. Não quero falar muito sobre esse tema, porque daqui a pouco vai aparecer algum maluco achando que estou fazendo apologia ao suicídio. Ao contrário, gostaria que as pessoas prestassem mais atenção nas outras; se bem que, na maioria das vezes, a fatalidade é inevitável, se o sujeito realmente tem o firme propósito. A opção sempre deve ser a vida, no caso da Maggie, ela não tem escolha, é irreversível.

E para finalizar, quero acrescentar que Edney Silvestre está ganhando um posto importante na nossa literatura contemporânea. Seus romances urbanos, bem alinhavados, ricos em referências e cultura geral, com doses fortes de emoção, corajosos, cheios de humanidade, colocando um espelho diante das nossas faces, vieram para enriquecer a nossa biblioteca. Voilà! Perfeito!

jjjjjSilvestre, Edney. Boa noite a todos. Record, Rio de Janeiro, 2014. ePub, 168 páginas

Antônio Torres e Edney Silvestre em revista na Espanha


A nossa coluna “Falando em Literatura”, na revista impressa BrazilcomZ (Espanha) anda fazendo sucesso. Também, com as duas estrelas literárias escolhidas para a edição desse mês, não poderia ser diferente: Antônio Torres e Edney Silvestre. Veja o artigo:

li

Você pode ler online a edição impressa, aqui. E também pode ler a revista digital, são conteúdos diferentes, na digital fica o blog PalomitaZ, o nosso sobre cinema, que sai todas as sextas- feiras.

Literatura brasileira de qualidade chegando para os leitores de língua portuguesa do outro lado do Atlântico! O meu agradecimento especial vai para Renata Barbalho (diretora) e João Compasso (editor) pelo espaço nessa revista mensal de prestígio, a melhor da Europa para brasileiros, que já vai  pela 91ª edição.

Clube de Leitura, resenha 2: “Aqueles tempos”, Edney Silvestre- por Ludmila Aguiar


10701947_10152788106431995_2316315582775265402_n

O jornalista e escritor Edney Silvestre ( Facebook do autor, foto de Leo Aversa)

A resenha de Ludmila Aguiar é mais informativa e emocional que a anterior de Teorema dos Sonhos, que teve uma visão mais crítica e política dos fatos contados em Aqueles tempos- nos bastidores de Vidas Provisórias. São dois estilos diferentes: Veja:

Lançado gratuitamente em e-book, “Aqueles tempos – Nos bastidores de Vidas Provisórias”, o escritor Edney Silvestre explora as histórias que ajudaram a construir o universo ficcional dos personagens protagonistas, Paulo e Bárbara, de Vidas Provisórias. O autor expõe como relacionou a trama do seu romance, as situações vividas por ele (como a sua prisão durante a ditadura militar), situações ocorridas com terceiros, bem como as suas impressões e experiências sobre os países em que ele passou, os EUA e o Iraque, como jornalista correspondente internacional.                                                                           

A história de Paulo se passa durante os anos de repressão da ditadura militar no Brasil, em meados dos anos 1970, um preso político e torturado vivendo na Suécia e aqui conhecemos fatos verídicos e pessoais que ligam à ficção a realidade. Embora em época diferente, Bárbara, ao ir embora do Brasil em busca de melhores condições de vida nos EUA em 1991, tem em comum com Paulo, a fuga, a clandestinidade e o isolamento provocado pelo exílio. E para a construção desta personagem, a experiência jornalística de Edney ajudou a ambientar os sonhos e as agruras de uma imigrante nos EUA. Desta forma é possível conhecer o que inspirou o autor a escrever sobre estes dois personagens que estão distantes no tempo, mas que carregam em comum a marca da época, do processo histórico em que vivem.    

Antes de ler esse e-book, achei que estranharia ler um livro que de certa forma é uma espécie de bastidores de um romance. Pensei que não fosse entender a estória. É como se Aqueles tempos servisse como um aperitivo, para degustar e criar o interesse pelo que estar por vim em Vidas Provisórias. Achei interesse o autor mostrar um pouco aos seus leitores o seu processo de inspiração e construção narrativa. Fiquei com aquela sensação de que agora sempre vou me perguntar de onde tal autor tirou inspiração para o seu livro rs. A leitura tem esse papel de ajudar a elevar a imaginação com as descrições dos personagens, situações, cenários. E quando a gente gosta de uma estória, passa a imaginar tudo que está sendo descrito. E este livro de Edney meio que vem para comprimir a função de ilustrar o que é narrado. Por isso gostei também das fotos dos locais que servem de inspiração para contextualizar o romance. Se a intenção é despertar o interesse em “Vidas Provisórias”, em mim ele atingiu a sua finalidade.

Download-Aqueles-tempos-Edney-Silvestre-em-epub-mobi-e-pdf

Você pode baixar gratuitamente esse livro no iTunes, no site da Amazon e da Saraiva,

Clube de leitura, resenha 1: “Aqueles tempos”, de Edney Silvestre- por Teorema dos Sonhos


O nosso Clube de Leitura rendeu essa boa resenha crítica sobre o livro “Aqueles tempos- nos bastidores de Vidas Provisórias“, de Edney Silvestre, um livro curtinho, como se fosse uma reportagem. A resenha é do escritor do blog Teorema dos Sonhos, de Lotthar Vlozian:

Nos bastidores de vidas provisórias de Edney Silvestre 

Dois personagens saem do Brasil por motivos diferentes. Um porque teve a sorte de não ter sido morto e foge para a Europa e a outra personagem porque teve a opção de se retirar do pais por estar assustada com a onda de violência no país.

O que esses dois personagens possuem em comum? Não são livres no Brasil e por viverem no exterior as suas vidas estão suspensas e interpretam papeis perigosos porque ser ator na vida real pode custar a vida.

Experiências vividas, relatos e testemunhas do autor são misturados também com pesquisas em livros além de uma pitada de imaginação. O romance foi feito assim com fragmentos da história, testemunhos de pessoas reais e a imaginação para recriar esse cenário de uma época de violência num país pobre de liberdade, nessa obra os personagens reais viveram de fato e de fato morreram aqueles que lutaram pela liberdade e por suas próprias vidas.

Se não era fácil conseguir que os países apoiassem todos os que fugiam dos seus países na época da dita-cuja, aquela, que é violenta como um ato institucional de fazer sexo proibido em Oslo ou em Madagascar e seja no primeiro mundo ou no fim do mundo tudo o que se deseja é um sexo que faça a gente perder as esperanças de que iremos perder nossas vidas sem ter nenhuma explicação como se fosse um tipo de inquisição do século XX a merda é essa: quero explodir todos os quarteis generais do mundo e deixar apenas os bordéis e claro a estátua da liberdade seguraria um pênis, um pênis como a lembrar que só as mulheres são livres para segurar um pênis até mesmo em esculturas. A ditadura militar no Brasil por outro lado, num momento mais atual na linha do tempo da historia as mesmas cenas de violência se repetem com todos os seus horrores não é algo que ficou parado no passado mas no presente acontece de varias formas a violência a violência militante por uma justiça que deseja a liberdade de que as coisas sejam sempre de acordo com os interesses de quem possui o poder e o dinheiro para poder ir em bordeis .

Ela pode assumir varias formas, a violência ou se preferir pode chamá-la de liberdade ou arbitrariedade como uma ditadura militar, sanções de governos contra determinados países como no caso da região do Oriente-Médio sempre sendo arrasada pelos americanos, por eles, não por nós daqui da America do Sul ou no caso pode ser a prostituição de brasileiras em Nova Iorque e as vezes fugir de uma situação é trocar um problema por outro: a liberdade de ser morto ou desaparecer por causa da censura ou viver clandestinamente interpretando um papel de prostituta na terra da liberdade, só que a liberdade não é para estrangeiros na América. Não é para aqueles que vivem ilegalmente até mesmo nos países onde nasceram e a constituição vale menos do que os atos institucionais que instituíram que a vida de muitas pessoas seria um inferno em qualquer lugar do planeta.

E a violência nasce: como a Canção de Berço de Drummond a vida é tênue, tênue. Nascem os gêmeos se desfazendo em poeira e cheirando a carne humana queimada e se isso não indica o nascimento da fragilidade de um sistema de segurança dos americanos que começa a ruir, então, pelo menos é a constatação de que algo no mundo está errado porque muitas pessoas morreram no ataque aos irmãos e isso serviu para justificar a retaliação ao Afeganistão, se as nações são irmãs ninguém sabe, mas as torres eram gêmeas: ruíram do mesmo mal porque eram bens imóveis que não se mexiam e movimentavam um mundo de dinheiro.

Enquanto se observa a maravilha da liberdade segurando um pênis flamejante nas mãos, ela, a mulher libertina, fria em Estocolmo me faz gozar de horror por não saber falar a sua língua que me lambe enquanto gozo de prazer num quarto tão apertado como estar transando dentro da caçamba de um carro sabendo que se a porta abrir se vai morrer, mas não de prazer, mas de motivo nenhum, enquanto a canção nina os gêmeos que acabaram de nascer de forma suave como a morte rápida sem dor, ela mama como um bebê a minha teta masculina enquanto minhas mãos empurram a capital importância do meu prazer de dormir um sono tão bom como gozar do horror por não saber se é preciso sentir prazer com a minha verdadeira identidade ou se se pode dormir tranquilo como um estrangeiro verdadeiramente falsificado prestes a ser enganado enquanto dorme e a poeira sobe e o meu orgasmo me faz dormir um sono que não me faz dormir mas me deixa de sobressalto para o que  der e vier e tenho que viver como outra pessoa a minha vida e ela não existe e se ela existir tudo estará acabado e o retorno poderá ser sem volta tanto talvez para um pais distante quanto para própria vida original e de quebra a questão é tênue, tênue, como a falta de sentido de todas as formas de violência, tênue, tênue, como uma pergunta porque motivo ou porque somos tênues, tênues, como a vida, como a morte, como querer que ninguém descubra a nossa identidade, como o medo, tênue, como o sangue escorrendo como o gozo que deseja mais sangue, mais desejar mais sangue pelo o que não faz sentido como desejar viver em paz e isso também não nos dá nenhuma pista e nem a resposta para o sentido da vida e a resposta está no fato de que ela é tênue, tênue ilusão de liberdade.

Download-Aqueles-tempos-Edney-Silvestre-em-epub-mobi-e-pdf

Esse livro é um e-book gratuito, é ótimo como leitura prévia de “Vidas provisórias”, que é um livro fantástico!

Faça como Teorema dos Sonhos, participe do nosso Clube de Leitura que está em plena votação do próximo livro e terá sua resenha publicada aqui. Obrigada Lotthar, gostei muito das questões que levantou sobre a imigração e essa linha tênue que os colocou na corda- bamba, a prisão ou liberdade. E serve como reflexão e alerta para que “Aqueles tempos” não voltem jamais no Brasil.

Clube de Leitura: a ressurreição!


Oba, a “bronquinha” de ontem deu certo! Amanhã postarei duas resenhas que me enviaram. Fiquem de olho!

aleluia

Vamos combinar a nossa próxima leitura? Dessa vez será mais democrática a escolha do livro, irei deixar uma lista abaixo e o mais votado será a obra lida e resenhada. Para quem não sabe, moro em Madri, aqui há uma certa dificuldade em encontrar os mesmos títulos de literatura brasileira que vocês aí no Brasil. E como o blog é internacional (viva!) e destinado a todos os falantes de língua portuguesa (o pessoal de Portugal está firme e forte por aqui!), tenho que escolher títulos que sejam fáceis de encontrar em todos os lugares, em versão e-book.  Os escolhidos foram três de literatura brasileira e três de literatura estrangeira: romances, contos e poemas. Vote no seu preferido:

1. Essa terra, Antônio Torres ( romance, um dos meus livros preferidos)

2. Antes que eu morra, Luis Erlanger (romance, é o primeiro do autor, nunca li nada dele, mas parece bom)

3. Vidas provisórias, Edney Silvestre (romance, é o livro que alguns de vocês já leram os bastidores, o “Aqueles tempos”).

4. As flores do mal, Charles Baudelaire (poesia clássica francesa)

5. Ao Farol (ou “Rumo ao farol” em Portugal), Virgínia Woolf ( romance, literatura inglesa).

6. Dublinenses, James Joyce (contos do consagrado escritor irlandês)

A votação estará aberta até a próxima quarta- feira. Escolhido o livro, marcarei a data para a entrega das resenhas. Ânimo, pessoal!

Novo livro de Edney Silvestre em setembro


A nova obra de Edney Silvestre sairá à venda em setembro com um super lançamento: leitura do texto da grande atriz Fernanda Montenegro, no dia 2 de setembro no Teatro Leblon, Sala Fernanda Montenegro, Rio de Janeiro, com horário ainda indeterminado. Nas palavras de Edney: Boa noite a todos” é composto de uma novela, uma peça de teatro e um ensaio – todos com a mesma personagem. Fernanda Montenegro vai ler a peça.

A seguir a sinopse da Editora Record, a capa é de Leonardo Laccarino:

10505405_625952787503932_5282730658848585707_n

A grande literatura tem, entre seus atributos, a faculdade de criar personagens que, embora ficcionais, resultam tão reais e verdadeiros como se de carne e osso. Maggie, a protagonista da novela e da peça que compõem “Boa noite a todos”, é uma dessas personagens que ganham vida a partir das páginas do livro, algo cada vez mais raro na literatura brasileira contemporânea. A convivência com seu drama – o de uma mulher cuja memória começa rapidamente a se esfacelar – é um profundo e emocionante aprendizado sobre a alma humana e, exatamente por isso, também reafirmação, parágrafo a parágrafo, da própria vitalidade literária.

Maggie é uma brasileira de seu tempo, que, como muitos latino-americanos, conheceu na Europa dos anos 1960 e 70 a liberdade que os anos de chumbo tolhiam em seu país natal. Essa liberdade teve, no entanto, como revés, a ausência de uma terra firme à qual se prender. Marcada pelo destino dos expatriados, ela enfrenta agora a perda do pouco que lhe resta de identidade: a lembrança dos deleites e dos infortúnios de uma existência intensa. Londres, Nova York, Amsterdã e Berlim confundem-se, assim como se embaralham, à distância, os antigos amores, a família e os amigos. Sozinha e progressivamente incerta das próprias recordações, Maggie não se reconhece. Quem, afinal, realmente é?

Edney Silvestre – ficcionista de voz inconfundível – conduz com técnica impecável o ocaso de Maggie e sua luta por ancorar-se nos últimos resquícios da memória. E o faz recorrendo a uma estrutura engenhosa, que, se já surpreenderia ao costurar, em sequência, modalidades narrativas diversas, vai ainda além, somando à novela e à peça um ensaio que lhes investiga a gênese.

De alcance universal, “Boa noite a todos” representa mais um patamar no generoso e não menos complexo edifício literário em que Silvestre – desde sua estreia na ficção, com o já clássico “Se eu fechar os olhos agora” – abriga e situa a geração que se formou sob as grandes transformações políticas e sociais da segunda metade do século XX. Uma leitura inesquecível e incontornável, que reforça a literatura como o mais prazeroso meio de se apurar nossa história.