Era bruxa Clarice Lispector?


Um livro curioso me chamou bastante atenção e quero compartilhar com vocês: O segredo de Clarice Lispector, de Marcus Deminco.

Sinopse:

A verdade sobre Clarice Lispector que ninguém jamais contou.

Mas afinal, por que a autora era conhecida como A Grande Bruxa da Literatura Brasileira? Que espécie de vínculo Clarice teria estabelecido com o universo mágico da feitiçaria? Por que seu próprio amigo Otto Lara Resende advertia aos leitores para tomarem cuidado com Clarice, afirmando não se tratar apenas de literatura, mas de bruxaria? “O 7 era meu número secreto e cabalístico. Há 7 notas com as quais podem ser compostas todas as músicas que existem e que existirão, e há uma recorrência de adições teosóficas que podem ser somados para revelar uma quantia mágica […] Eu vos afianço que 1978 será o verdadeiro ano cabalístico. Portanto, mandei lustrar os instantes do tempo, rebrilhar as estrelas, lavar a lua com leite, e o sol com ouro líquido. Cada ano que se inicia, começo eu a viver outra vida”. E apesar de ter morrido algumas semanas antes de iniciar o então ano cabalístico, decerto todos esses seus hábitos ritualísticos, esclareçam porque Clarice teria aceitado com presteza e entusiasmo o inusitado convite do ocultista colombiano Bruxo Simón, para participar como palestrante do 1º Congresso Mundial de Bruxaria.


Para quem quer conhecer o lado místico da autora, parece que esse livro (apesar do tom sensacionalista) pode ajudar.

Você pode comprar baratinho, com desconto, aqui no Falando em Literatura (EUR 4,21, cerca de 16 reais), “O segredo de Clarice Lispector”, de qualquer lugar do mundo, já que está em formato digital. Você pode ler através do Kindle, iBooks ou qualquer e-reader, no celular, tablet, computador ou iPad. É só clicar no link abaixo:

O Segredo de Clarice Lispector (Portuguese Edition)

Depois me diz o que achou. Boa leitura!

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Resenha: “Os pilares da terra”, do inglês Ken Follett


Eu tenho formação acadêmica em Letras, o que ajuda a olhar a literatura de uma forma  profissional e crítica, observando elementos artísticos, técnicos e de estilo, que podem passar despercebidos para muitos leitores; mas minha aversão aos best- sellers não vem disso, surgiu muito antes: se é popular não presta, é literatura fácil. Eu já tinha essa percepção desde cedo, na adolescência. É só senso comum. Simplesmente, não perdia meu tempo, preferia (e ainda prefiro) os clássicos de qualquer época ou idioma, porque a vida é muito curta e a boa literatura muito ampla para perder tempo com livros ruins. Mas, será esse um best- seller diferente? Despi- me dos meus preconceitos e fui de mente aberta. Veja o resultado.


O inglês Ken Follett (Cardiff, País de Gales, 05/06/1949), quando publicou “Os pilares da terra” (1989), já era um escritor de êxito, vendia muito, principalmente livros de suspense. Começou a publicar com vinte e cinco anos, mas com vinte, já escrevia e foi quando ele começou a visitar catedrais. Sua família participava de uma espécie de seita religiosa, que o proibia de entrar em templos religiosos. Saía pouco durante a infância e juventude, e foi assim que mergulhou no mundo da literatura.Ken Follett in Berlin, 2014Ken Follett em Berlim, 2014. O autor é casado, tem dois filhos e mora no Reino Unido.

Follett viajava pela Inglaterra só para visitar catedrais, suas visitas duravam até dois dias. Ele anotava tudo, seu principal interesse era a arquitetura dos templos, como e quem os construía. E começou a investigar. Descobriu que a maioria das catedrais eram construídas por gente muito pobre, com um sacrifício impressionante, gente que não tinha onde morar nem o que comer. Ficou fascinado. Foi nessa época que teve a ideia de escrever um livro sobre a construção de uma catedral. Só que sentiu que não tinha capacidade para desenvolver esta história, necessitava de recursos que ainda não possuía. “Os pilares da terra” foi publicado doze anos depois, foram mais de três anos de trabalho, de domingo a domingo. Quem conta tudo é o próprio autor no prólogo do livro, o que pareceu interessante. Dei um voto de confiança. Seguimos.

“Os pilares da terra” (1989) é o primeiro de uma trilogia. A saga continua com “Um mundo sem fim” (2007) e o recém- lançado, “O círculo de fogo” (2017).


A obra

A primeira parte do livro data de 1135- 1136 (século XII). A história começa com a execução por enforcamento, em uma praça pública, de um jovem ruivo, bem ruivo, “cabelos cor de cenoura”, de olhos verdes. O rapaz roubou um cálice valioso em uma igreja e foi enforcado diante de sua mulher grávida. Ela lançou uma maldição ao padre, ao monge e ao cavaleiro que mataram o seu amor.

O personagem principal é Tom Builder, um pedreiro dos bons. Ele foi dispensado da uma construção de uma catedral em Exeter (capital do condado de Devon, uma das cidades mais antigas da Grã Bretanha). Isso ele não engoliu. Ficou ruminando durante anos, o orgulho ferido, pois sabia que era capaz. Com essa história ele aprendeu que para a construção de uma catedral, não basta ser bom, a construção tem que ser perfeita:

Isso porque a catedral era construída para Deus, e também porque a estrutura era tão grande que a mais leve inclinação nas paredes, a mais ínfima variação naquilo que deveria ser reto e nivelado, poderia enfraquecer fatalmente o conjunto. O ressentimento de Tom havia se transformado em fascínio. ” (p.55)

Então, amigos e amigas, essa obra trata disso: de contar a história de um pedreiro ambicioso e ressentido, que decidiu construir uma catedral na Inglaterra. O ódio, o orgulho, quando bem administrados, também podem ser um bom motor para construir grandes coisas.

Tom é casado com Agnes, a considera sua alma- gêmea. O casal tem dois filhos, Alfred de quatorze anos e Martha, de sete. Veja a “moral” da época. O pai dava cerveja à menina. Será que há pais que ainda fazem isso?! O almoço da família: um pedaço grande de toucinho fervido, pão e cebola. Nesse almoço, Agnes comunica que está grávida mais uma vez. Tom nem sabia a idade da mulher. Na Idade Média, a natalidade era alta, já que não havia métodos anticonceptivos, mas também havia uma alta mortalidade infantil. Falta de vacinas, de antibióticos, de higiene… no medievo acreditava- se que o banho fazia mal à saúde.

Tom estava construindo uma casa para Lorde Percy Hamleigh, um homem muito rico, pai de William, noivo de Aliena, filha do Conde Shiring. A moça rompe o noivado e a casa que seria para ambos, já não é mais necessária. Tom havia posto todo seu dinheiro nela. O rapaz chega à cavalo quase atropelando a pequena Martha, dispensa os trabalhadores, mas Tom teve que segurar as rédeas para que William o pagasse.

Tom e sua família começou a andar sem destino certo. Não tinham cavalos, carroças, nada. Pareciam retirantes nordestinos fugindo da seca. Eles buscavam um local para a construção da catedral. A mulher grávida, a menina pequena e o inverno chegando. Martha, cansada, demorava para acompanhar os demais, ficava para trás. Ela e o porco. A menina foi atacada por um ladrão, levou uma porrada na cabeça. O ladrão levou o porco. A menina desmaiada, sangrando, e a mãe, fria, disse que a menina iria sobreviver e que o pai fosse atrás do porco. As pessoas tinham que ser duras para sobreviver. Tom e Albert foram atrás “dos ladrões”, eram quatro. Houve luta, mas um dos ladrões levou o porco embora. Eles haviam comprado o porco na primavera para engordá- lo e vendê- lo no inverno. Com o dinheiro daria para alimentar a família durante meses.

Entram em cena Ellen, uns dez anos mais jovem que Tom, e seu filho adolescente, Jack. A mulher ajudou Agnes a cuidar de Martha ainda desmaiada. Ellen e Jack moram na floresta, porque a mulher é “fora da lei”. Seu crime? Ter xingado um padre. Lembra da execução do início? A jovem grávida, mulher do enforcado? Ela reaparece mais tarde com o filho que estava na sua barriga. (p.94)

Ellen conta a sua história a Tom; este sente uma atração pela mulher.

Cheguei na página 100, já irritada e arrependida por ter começado a leitura desse livro, mas segui.  Raramente largo a leitura de um livro. Continuei esse extenso, pobre e decepcionante “Os pilares da terra”. Umas fórmulas mais que mastigadas e muitos clichês, muito pouco criativo. Básico, simples, bobo. As primeiras páginas foram até interessantes, consegui visualizar um ambiente medieval, sujo e violento, mas depois a narrativa perdeu essa característica de época. Fiquei na dúvida também, se foi a tradução brasileira que prejudicou a obra. A linguagem pareceu- me muito contemporânea. Veja como o autor é “criativo”:

“A fome é o melhor tempero”. (p.139)

A família passa fome, frio e enfrenta muitas dificuldades. Uma boa parte do livro, que é bem monótono e aborrecido para o meu gosto, é falando sobre isso.

Agnes deu a luz ao quinto filho  (dois já haviam morrido) no relento e no inverno. Nasceu um menino. A parte escatológica do nascimento é bem desagradável, o marido descreveu e falou sobre os odores da placenta, depois a queimou. A mulher morreu, sofreu uma hemorragia e foi enterrada numa cova funda por causa dos lobos, para que seus “ossos se conservassem até o dia do Juízo Final”. O autor conta, tudo, tudo com os mínimos detalhes, até os mais sórdidos e desagradáveis. O pai, quer dizer, o monstro, abandonou o bebê perto da cova da mãe, porque não tinha como alimentá- lo.

Claro que o autor matou Agnes para entrar Ellen na parada. Tom transa com um anjo imaginário, um delírio, mas era a mulher em carne e osso. E foi ela, obviamente, que tinha encontrado o bebê que Tom voltou, arrependido, para recuperar.

Pessoal, não vou contar mais, porque não vale a pena. Não vale a pena perder tempo com esse livro.

Follett sabia que não era um autor especial, que seus livros eram entretidos, o grande público gostava, mas tinha consciência, a auto- crítica suficiente para perceber que não eram livros importantes artisticamente falando. Acha que este é especial, sua grande obra. Não é. Grande obra em extensão, mas em qualidade não. Follet é uma baita de um sortudo. Ficar milionário, viver num castelo, por causa de obras assim, tão primárias, com uma linguagem tão plana e pobre, caramba…tem gente esperta no mundo. Enquanto isso, os autores de verdade… o mundo invertido.

22406233_875949182560643_8850533865946442572_nFollett, Ken. Os pilares da terra. Arqueiro, São Paulo, 2016. Epub. Páginas: 2655*

*Não esqueça: a quantidade de páginas em livros digitais pode variar de acordo com seu e- reader e tamanho da fonte.

 

Sorteio de Livro. Promoção: “Gente que lê Antônio Torres no Instagram!


Falando em Literatura e a fanpage de Antônio Torres promovem um sorteio de um e-book (livro digital) à sua escola. Siga as instruções que devem ser feitas lá na fanpage do escritor, clica aqui: 

 Se você também usa o Instagram e lê o mestre Antônio, siga as instruções:

1. Faça um post com um livro de Antônio Torres e use a TAG ‪#‎AntonioTorres‬ 2. Curta a Fan Page (esta). 3. Compartilhe esse post. 4. Marque três amigos nos comentários.

O sorteio de um e-book (livro digital) será feito no dia 30 de maio. Detalhe: o livro você pode escolher (entre os títulos do autor)! Observe as fotos e veja gente que lê Antônio Torres no Instagram.

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Participe e conte aos amigos! Sorte!

Resenha: “Convivência”, de Carola Saavedra


Carola Saavedra (Santiago, 1973), imigrou para o Brasil aos três anos, sotaque carioca, é uma das representantes da Literatura Contemporânea brasileira. Está agora na Salão do Livro de Paris selecionada pelo Ministério da Cultura do Brasil.

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(foto: GNT)

Fiz o download do livro, quer dizer, livro não, um conto de oito páginas no iTunes, acho que não chegou a custar 2 euros. E não vale.

Primeiro, o texto começa com um diálogo, a autora dispensou o narrador, a impressão que fica é que o conto iniciou pelo meio. Detesto narrativas que começam com travessão. Parece fora do lugar. Para começar assim o texto tem que ser muito bom.

Segundo, o texto curto é um punhado de clichês que me provocaram bocejos. Nada novo. Vou resumir: escritora-álcool-fumaça-penumbra. Moda. Parece redação de colégio, verde. Taça de vinho na capa. O vinho nunca esteve tão desprestigiado. A personagem, uma escritora que dialoga com o personagem que criou, ele ganha autonomia. E o pior é que ela explica isso, como se não tivesse ficado claro:

– Além do que, todos sabemos que a partir de um certo ponto da trama, os personagens adquirem vida própria. Todo autor diz isso as entrevistas. (p.6)

Um conto de oito páginas que me custou ler. Não é dos piores contos que já li, mas não é bom. O que eu peço dos escritores é um mínimo, um mínimo de originalidade, não gosto de ler e ter a impressão que já li o texto mil vezes antes. Se a ideia não é das mais inovadoras, que a forma, a estrutura ofereça alguma novidade pelo menos. O texto falta. Não sei se esse projeto que a Carola participou é algum desses de contos curtos, que há dezenas na internet, que veio suprir o sonho de todos os que querem virar escritores, mas não têm um mínimo de bagagem, trabalho, leituras necessárias, técnica, a prolixidade necessária para escrever (e às vezes nem talento). Essa é a era do texto rápido, ligeiro, porque falta tempo para ler (e para escrever). Parece que descartou também o fazer narrativo bem escrito, bem elaborado, surgiu a literatura de guardanapo (cadê, já foi?). Literatura melhor ou pior escrita, mas com temas muito parecidos, um copiando do outro. Falta personalidade, estilo próprio. Literatura “fast” e uniformizada é o que temos. Você engole isso? Eu não. Por isso acabo voltando aos clássicos, porque dá muito desânimo “perder tempo” com a literatura produzida agora.

Curiosamente, depois de escrever o parágrafo acima, encontrei no livro de Antônio Cândido (PDF grátis aqui), “A educação pela noite e outros ensaios”, o crítico literário que mais admiro, que vem corroborar exatamente com o meu pensamento em relação ao conto de Carola Saavedra. Ai, Literatura Contemporânea, qual é mesmo a sua cara? Na mosca, veja (p.213):

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Na resenha sobre “Balada da infância perdida”, de Antônio Torres, no final, eu coloco também essa questão da literatura contemporânea inconsistente. Veja lá.

Não vou descartar a autora por causa desse conto, se ela anda fazendo sucesso no Brasil, não deve ser por causa desse texto. Qual é o bom, quem indica? Alguém que tenha lido “de verdade”, por favor.

A Carola parece simpática e deve ser um amor de menina. Mas não posso ser crítica (e sincera) se pensar na sensibilidade do escritor, tenho que dizer o que penso, eu vou no texto. Vá lá, pegue o conto, leia e venha me dizer o que achou, quero saber a sua opinião. Falando em Literatura a gente se entende.

Unknown

 Saavedra, Carola. Convivência (conto). Formas breves. E-Galáxia. Epub, 2014. 14 páginas

PDF grátis de Antônio Cândido (corre!)


Antônio Cândido é a minha bíblia. Quando tenho alguma dúvida teórica ou preciso de algum esclarecimento é o primeiro a quem recorro, depois parto para Massaud Moisés, normalmente. Encontrei um livro grátis BACANA para a turma de Letras ou qualquer leitor interessado em teoria da literatura. Esses textos não se diferenciam muito das resenhas (dou esse nome aqui, mas na verdade são ensaios) que costumo escrever aqui no Falando em Literatura, no que se refere à forma de direcionar as questões literárias.

14032013Prof_antoniocandidofotomarcosfoto005Antônio Cândido (Rio de Janeiro, 24/06/ 1918),  96 anos, é o maior crítico brasileiro da atualidade. Professor, poeta e ensaísta.

A obra A educação pela noite & Outros ensaios reúne textos de palestras e artigos diversos, que estão organizados em três partes e “não há ordem necessária de leitura”. A primeira parte analisa o teatro e obra de Álvares de Azevedo; a segunda parte fala sobre a obra do italiano Giraldi Cintio e ainda  sobre os críticos Sílvio Romero e Sérgio Milliet; na terceira parte, ele fala sobre o subdesenvolvimento  e sua relação direta com a falta de leitura, a baixa produção literária e cultural da América Latina e encerra com a “nova narrativa”, a literatura contemporânea.

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Antônio Cândido lê “Maíra”, romance de Darcy Ribeiro, citado nessa obra, “A educação pela noite & outros ensaios”

Corra e salve no seu computador.

UPDATE: o link acima já não está funcionando (eu avisei que tinha que ser rápido, esse livro custa quase 50 reais). Enquanto a literatura não for democrática e para todos, continuarei divulgando esses links. Existe outra forma de “pegar” o livro: vá no Google e digite “Antônio Cândido PDF A Educação pela noite”, vai aparecer na lista e por aí você consegue entrar e voilà! 

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Resenha: Balada da infância perdida, de Antônio Torres


O meu pai não veio e não virá jamais. Odeia todas as cidades, sem distinção de tamanho, situação geográfica, renda ‘per capita’ ou densidade populacional. Diz que são invenções do diabo. Elas roubaram todos os seus filhos. (p.7)

Ler Antônio Torres é ler o insondável. Encontrei alguns elementos surpreendentes nessa narrativa do grande mestre Antônio Torres, imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Baiana de Letras.

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Antônio Torres no Corcovado, Rio de Janeiro (foto de André Correa)

Balada da infância perdida (1986) é o sétimo livro da carreira de Antônio Torres (Sátiro Dias, 13/09/1940), que sabe escolher título de livro, não é?! Lindo esse! Tem um quê de nostalgia, lirismo, um título poético. Esse é um dos livros que mais gostei do autor, tem uma variedade de elementos incríveis: prosa poética, alguns poemas, imagens bem construídas, algo de tragicomédia, família, o rural e a cidade, política, o sobrenatural, o onírico que faz o personagem entrar numa festa do “The great Gatsby”, sonhar reiteradamente com caixões, com sua mãe, sua tia e com o primo Calunga, todos falecidos. A magia de uma narrativa escrita há quase 30 anos, mas que continua atual. No que se refere às tecnologias, aquela época era diferente, mas não parece, só faltou citar o Facebook. Os fatos, os problemas sociais e existenciais, parecem que não mudaram muito, aliás, certas coisas nunca mudam. Por isso Antônio Torres é um clássico, porque seus livros são  atemporais, chegaram até aqui sem perder seu valor e podem tocar gente muito diferente, independente de classe social e de qualquer nacionalidade, tanto que já foi traduzido em vários países.

Falando em tradução, saiu a versão francesa de “Meu querido canibal”(“Mon cher cannibale”), traduzido por Dominique Stoenesco, com prefácio de Rita- Olivieri Godet. O lançamento acontecerá durante o Salon du Livre de Paris que começa hoje até o dia 23 de março, com a presença do autor, que já está em Paris. Voilà!

Como o nosso país vive tempos convulsos, escândalos de corrupção, o país dividido, cortado em duas bandas em pé de guerra, sempre é bom recordar que a ditadura deve ficar no passado, só na história e na ficção Independente do que aconteça, a democracia jamais deve ser tocada. Como disse Cervantes, “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens deram aos céus.”. Não percamos o bom senso e nem entremos em estado de histeria coletiva, radicais de ambas tribos. Equilíbrio é a palavra. Ninguém está tão certo, nem tão errado. Abaixo, o protagonista recordando tempos amargos:

Quarenta anos.

Aos vinte, me enfiaram uma ditadura pela garganta.

Agora que chego à idade madura, tenho de aguentar o peso do meu cansaço. Qual é a graça?

Em “Balada da infância perdida” há muitas citações e referências literárias, o espanhol Garcia Lorca, Charles Baudelaire, Scott Fitzgerald, o cineasta Carlos Saura, Gregório de Matos, Marcel Proust, Jacques Brel, Christiane Rochefort (“O repouso do guerreiro”, anotei na minha lista) e também Castro Alves, justo o poema que o menino Antônio Torres recitou em plena praça pública lá no Junco (hoje Sátiro Dias), ele sempre conta este “causo” nas suas entrevistas, dá uma olhada na web do escritor. Mas nesse caso, Calunga, Luis Carlos Luna, seu primo beberrão, que poderia ter um futuro “lindo”, mas não teve,  foi que quem recitou o poema, nervoso, diante da ovação dos presentes.

Torres encontrou uma forma muito criativa de separar os capítulos, de arquitetar a obra: o primeiro capítulo é introduzido com uma canção de ninar, que depois a gente vai entender o motivo, os próximos quatro são numerados, o sexto: Primeira hipótese: MAMÃE; o sétimo, Segunda hipótese: TIA MADALENA, A MÃE DE CALUNGA.

A mãe falecida bate altos papos com o filho vivo. Isto é, o narrador acredita nisso, parecem alucinações. As histórias da família começam a ser desenhadas: Zé, o pai manco e sua mãe foram capazes de gerar vinte e quatro filhos! A origem e as memórias rurais do autor acabam presentes em vários dos seus livros, dando um ar nostálgico, um memorial de sensações sofridas e alegres, contraditórias, nesse também. Antônio Torres é a memória de muitos imigrantes que abandonaram suas terras natais para tentar encontrar o seu lugar no mundo. As obras de Antônio Torres sempre estão em movimento.

Doce família baiana. Adora ser visitada. Principalmente pelos que moram longe e podem chegar de uma hora para outra, cheios de novidades. A porta estará sempre aberta e a mesa já vai estar posta. Hoje é dia de feijoada, caruru, vatapá, sarapatel ou o quê? (p.88)

E a tia Madalena defunta, “uma sargentona nata” (p.78) aparece nos sonhos do narrador, que ressuscita a tia através da descrição tão real que faz dela. Papo bem terrenal, a tia defunta protesta com o sobrinho por ainda não tê- la levado ao Mc Donald’s. Achei a cara do Modernismo! Eu classificaria essa obra de Antônio Torres como patafísica. É isso, é uma narrativa cheia de elementos patafísicos, surrealismo em estado puro. Transcende a narrativa linear, o espaço é um terreno inóspito, desconhecido, o da memória, talvez. Esse livro daria uma fantástica adaptação teatral. Veja o trecho abaixo (p.159), Che Guevara repousava no quarto do narrador, se a imprensa descobrisse, ele seria homenageado aonde? Na Academia Brasileira de Letras, entre outros lugares. Antônio Torres visionário? Aguentou firme os “quarenta discursos”, mestre?! 

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Em A terceira hipótese, (p.86) pode ser o capítulo que explique o porquê de tantos sonhos e caixões. A notícia sobre o primo Calunga morto prematuramente aos quarenta anos por causa da bebida. Até então os diálogos (ou monólogos?) com os defuntos pareciam acontecer no plano onírico, mas a história muda de dimensão. A conversa começa a acontecer com o narrador acordado. A realidade do absurdo.

 Um livro imprevisível, o que vem depois?! Talvez venha a saudade:

Você, em cima da carga, ia deixando o seu velho mundo para trás. Aqui e ali umas vaquinhas, umas ovelhas, uns cavalos. Pastos. Roças de mandioca. Uma casa com varanda. Uma casinha caiada, com uma árvore na porta. Quintais de bananeira. E o sol, morrendo no poente, dourando tudo. Era um pôr-do-sol amarelo com riscas vermelhas: uma pintura. Linda. Bateu uma coisa estranha dentro de você. O que era aquilo? Uma dor? Uma saudade? A partida. Você estava indo embora. Para sempre. (p.95)

O narrador- personagem não tem nome, só sabemos que é redator e casado com Cris, ele é o alter-ego de Antônio Torres, possivelmente, já que muitos trechos são autobiográficos (inclusive a profissão). A cidade venceu Calunga, que mergulhou no álcool para amortecer a vida que não queria ter. Muita gente imigra, sofre e sente- se só. Que aconteceu com Calunga? Foi vencido. Como ele, muitos. Para Calunga os versos de Alexandre O’Neill (p. 155). O último capítulo, Boi, boi, boi/boi da cara preta. Começa assim: Vai ver a minha tia é quem tem razão: – A culpa é dos comunistas. Calunga foi empregado por um comunista. Tudo é culpa dos comunistas, a mãe os culpou pelo deterioro e morte precoce do filho. O narrador faz uma defesa do Comunismo (p.178) lista uma série de dados e estatísticas que os comunistas denunciam sobre tudo de errado que acontecia no Brasil.

Contexto histórico: pós- ditadura, 1986. Um dos dados: “Que só existe um médico para cada 1700 pessoas?”, argumenta com a tia Madalena, que detesta comunistas. E “Que, no ano da graça de 1986, temos 38 milhões de pessoas na mais completa miséria?”. E segundo dados do IPEA de 2014, 0 Brasil ainda tem 26,24 milhões de pessoas que vivem em extrema pobreza. Outro dado: “Que 40% da população está desempregada?”.

E infelizmente, tenho que dizer, que quase 30 anos depois e 12 anos do governo do Partido dos Trabalhadores, com tendência comunista, esses dados melhoraram, mas não o suficiente, ainda existe no país muita gente abaixo da linha da pobreza. Segundo os dados do IBGE (2014), no Brasil existe 1,95 médicos por mil habitantes, mesmo com o programa “Mais Médicos”, um dos maiores absurdos da história brasileira, a “importação” de médicos cubanos, a modo reféns no país. Metade do dinheiro fica em Cuba e os médicos só receberão a outra parte, se e quando, regressarem ao país, que vive uma ditadura. O governo brasileiro amicíssimo dos Castro e fazendo pactos com a ditadura e troca de favores estranhíssimos. No Maranhão, só existe meio médico para cada 1000 habitantes, 0,68%. Sobre o desemprego, o dado oficial, que agora é de 6,8% é uma número mascarado, já que as pessoas que não procuram emprego e estão desempregadas não entram para essas estatísticas e nem as pessoas que exercem ofícios informais (que são muitas!). Segundo o economista Ricardo Amorim, o número real de desempregados no Brasil é quase a metade da população em idade para trabalhar:

Pelos dados oficiais do IBGE, de cada 100 brasileiros em idade de trabalho, 53 trabalham, três procuram emprego e não encontram e 44 não trabalham nem procuram emprego. É considerado desempregado quem procura emprego e não encontra (3%) sobre o total dos que procuraram emprego (56%): 3% / 56% = 5%. Quem não procura (44%) tecnicamente não está desempregado. Esta não é uma manipulação estatística feita pelo governo brasileiro. O mesmo conceito vale no mundo inteiro. Porém, se a estatística não é manipulada, sua interpretação é. Baseado na estatística de desemprego, o governo sugere que quase todos os brasileiros têm emprego. Na realidade, quase metade (47%) não tem.

Falta transparência e honestidade. Essencial é ajudar as pessoas que estão na miséria no país, o que se faz ainda é insuficiente e da forma equivocada. Provoca- me repulsa que cobrem 25% dos aposentados que moram no exterior, fora o imposto “normal” que todos pagam. E mais, agora cortaram 50% da pensão por viuvez. Além de perderem marido ou esposa, ainda levam uma cacetada destas! Por que mexer com esse coletivo tão frágil? A maioria dos aposentados e pensionistas no Brasil não recebe o suficiente para a própria sobrevivência, justamente na fase que pode precisar de mais de cuidados e tratamentos médicos. Isso não é fazer socialismo, tirar de pobre, aonde já se viu?! Karl Marx deve estar se revirando na tumba! Os fins não justificam os meios, as coisas podem e devem ser feitas de outra maneira. Afinal, O SHOW TEM QUE CONTINUAR (título do último capítulo, pg. 172).

Eu quero um novo partido socialista no Brasil, que não prejudique aos pobres, aos remediados e nem aos ricos, bom senso! Eu quero um governo socialista que promova ações de integração e de eliminação da miséria reais e duradouras, que não classifique as pessoas pela sua cor  e que una o país por um objetivo comum e não fragmente uma nação gigante como a nossa! A esquerda “endireitou”, estão todos iguais, inclusive no quesito corrupção. O comunismo se perdeu, anda perdido. Com esse a parte, seguimos…

Antônio Torres escreveu obras, pelo menos as que li até agora, que podem encaixar- se na tradição modernista (o regionalismo, o surrealismo, por exemplo), principalmente de terceira geração, mas Balada da Infância Perdida também tem elementos muito pós- modernos. Essa obra me deixou confusa (no bom sentido). Talvez a pós- modernidade seja isso, confusão. Mas… como seria uma obra de Antônio Torres escrita hoje? Já existe uma literatura pós- moderna com características comuns a todas as obras ou paramos no Modernismo? Já dá para definir a literatura de hoje? Ou a literatura contemporânea ainda é a de antes? A crítica deu fim ao Modernismo lá pela década de 70 (serve como marco, mas isso não é exato, cada crítico dá uma data diferente). Mas será que vivemos um Modernismo tardio? As vanguardas persistem e resistem? Por que não conseguimos definir e nomear o que anda acontecendo? Ainda continuamos na fase da “literatura de permanência” de Antônio Cândido? Por que é tão difícil ver com clareza o que acontece agora? Já sei, é a “era da modernidade líquida”, uma época de crise de identidade das Letras, Artes, Ciências Humanas e Sociais, em resumo: da espécie humana. Se eu achei essa obra “atual”, e esse é um livro modernista (escrito 16 anos depois do fim dessa escola, “oficialmente”), não saímos do Modernismo, então? Eu fico tentando procurar diferenças entre as duas “escolas”. A Literatura Contemporânea ainda é coisa para se definir, inclusive o próprio termo é inexato e inadequado. Vamos pensar nisso?

Anota esse na sua lista, livraço!

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Torres, Antônio. Balada da infância perdida. Record, Rio de Janeiro, 2011. ePub. 178 páginas (edição não corrigida segundo com o novo acordo ortográfico).

Resenha: “Dublinenses”, de James Joyce


– Como diz o poeta: ‘as grandes mentes beiram a loucura’ (p.91)

Esse livro foi resenhado por alguns participantes do nosso Clube do Livro (que voltará!) e eis aqui a minha, conto por conto.

Dublinenses, como o próprio nome diz, é uma obra que fala do povo de Dublin, seus usos e costumes, a geografia da cidade, mas é universal, porque fala de sentimentos inerentes a todos e uma forma de narrar magistral. É um livro composto por 15 contos escritos no princípio do século XX pelo escritor irlandês James Joyce ( Dublin, 02/02/1882 – Zurique, 13/01/1941).

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Eu li uma vez cada conto e voltei em cada um depois para reler, intrigada. Há um enigma em vários deles. Alguns acabam como se não fossem acabar, sem conclusão, essa, nós que decidimos.

1. As irmãs

O conto é narrado em 1ª pessoa por um menino (que não gosta de ser chamado assim), e trata da morte do seu amigo, o reverendo James Flynn. A história é cheia de insinuações e reticências em relação à conduta do padre e do menino nos diálogos do tio, da tia e do sr. Cotter, que foi o mensageiro da notícia da morte. O menino divaga sobre tudo o que o padre o ensinou, visita o velório com a tia e aí aparecem “as irmãs” do finado, Nannie, uma “velhinha” e Eliza, sentada na poltrona do difunto padre. O diálogo entre as três mulheres continua enigmático, um verdadeiro quebra- cabeças. No conto nada é por acaso, até a data da morte do padre.

2. Um encontro

Outra história com um narrador- personagem infantil. O menino conta que foi Joe Dillon que havia apresentado aos alunos da escola eclesiástica as histórias em quadrinhos, histórias do Velho Oeste, que foram desprezadas e condenadas imediatamente pelo padre Butler. A rotina aborrecida da escola e o desejo de aventuras reais, fez com que o narrador, Dillon e Mahony cabulassem um dia de aula com a intenção de pegar um ferry e passear pela cidade. Dillon não apareceu ao encontro marcado e os outros dois empreenderam a aventura juntos. Essa espécie de fuga em busca da liberdade ensinou ao narrador uma lição inesperada ao encontrar um velho num parque.

3. Arábia

Arábia é um bazar e esse é um conto de amor e suas dificuldades. Outro narrador menino (agora confirmo que é a mesma voz dos anteriores), possivelmente o alter- ego infantil de Joyce. Aparece de novo o menino- adolescente que mora com os tios e se apaixona por uma vizinha, a irmã de Mangan. O narrador descreve as casas antigas da vizinhança e cita o cheiro de mofo da própria casa, antes propriedade de um padre que faleceu na saleta do fundo da casa. O inverno frio, o ambiente lúgubre numa época em que a eletricidade ainda não era popular e nem chegava para todas as famílias, tudo iluminado por lamparinas. Depois de uma longa espera pelo tio que lhe daria dinheiro, o rapaz desceu a Buckingham Street rumo à estação, toda as ruas iluminadas a gás. Todo o esforço do menino para chegar nesse bazar era para comprar um presente para o seu amor (platônico) e assim poder aproximar- se mais dela, ter um pretexto de conversa. Quando finalmente conseguiu chegar, as luzes já estavam se apagando.

4. Eveline

Um conto com uma atmosfera melancólica. “Tudo passa”. O narrador-observador conta a história de Eveline, uma moça de dezenove anos, órfã de mãe, que vê a sua infância passar pela vidraça de uma janela. Tem que deixar tudo para trás e mudar de país, irá fugir  num barco noturno com Frank para Buenos Aires, onde se casará com ele. Irá fugir do pai ameaçador e que tomava todo o seu salário. Eveline trabalha fora, cuida da casa e de mais duas crianças que deixaram a seu cargo. A lembrança da mãe doente, o pai que não era tão ruim assim. A aventura ou a obrigação? Que vai decidir Eveline?

5. Depois da Corrida

Depois de uma corrida, cinco jovens estudantes de nacionalidades diferentes e classes sociais também diferentes apaixonados por carros e a vida boêmia. Jogam cartas num barco até o dia amanhecer. Esse conto, confesso, não encontrei nada de extraordinário, aí mora o problema. Tem que ter algo mais que não notei. Tenho que reler mais algumas vezes.

6. Dois galanteadores

Dois jovens amigos, Lenehan pobre e Corley rico. Enquanto Corley sai com prostitutas e gasta muito dinheiro com elas, Lenehan mal tem dinheiro para comer. Pede  um prato de ervilhas num restaurante vulgar depois de um dia inteiro sem comer. Tem 21 anos e já está cansado da vida, quer uma casa e emprego decentes. Outro texto muito enigmático, não revela explicitamente nada. O leitor deduz e eu deduzi que Corley encontrou- se com a prostituta não para usar seus serviços sexuais, mas para oferecer os seus, já que voltou com uma moeda na mão.

7. A casa de pensão

A srª Mooney é a dona da pensão que foi aberta ao separar- se do marido violento e alcoólatra. É mãe de Poly de dezenove anos. Ela perdeu a virgindade com um homem de 35 anos morador da pensão, o sr. Doran. O rapaz está decidindo se foge ou se casa. Ele trabalhava para um senhor muito católico, em Dublin seria um falatório, mas sua mãe chorou e disse que se mataria se ele se casasse. A moça é um tanto vulgar, fala “menos” e “quando eu ir”. E a moça espera que decidam a sua vida.

8. Uma pequena nuvem

Os amigos não se viam há oitos anos. O Pequeno Chandler, pequeno mesmo e muito refinado, casado com uma mulher rica, pai de um bebê e o amigo Ignatius Gallaher, que mudou- se para Dublin para Londres, viajou pelo mundo e se deu bem.  Gallaher é um aventureiro, todo mundo gosta dele, é talentoso e adorável, mesmo quando saía pedindo dinheiro emprestado para todos. Chandler trabalha numa redação, tem 32 anos, muito tímido, se ruboriza por tudo, sonha em ser poeta. O encontro com Gallaher mexe com o baixinho, que volta para sonhando em escrever e publicar, quer se livre. A esposa sai e o deixa cuidando do bebê. Trava uma luta entre o querer e o não poder.

9. Partes complementares

O ambiente hostil é do escritório Crosbie & Alleyne. Farrington é o empregado e sr. Alleyne é o chefe, que o chama só para enchê- lo de broncas e ameaças. Farrington precisa terminar um contrato com urgência, escreve à mão com pena e tinteiro à luz do candeeiro (mas já existia a máquina-de-escrever). O empregado não é mesmo muito centrado no trabalho, sai para beber no meio do expediente, é um sujeito distraído, descomprometido e impertinente. Detesta seu trabalho e detesta voltar pra casa. Sente vontade de surrar alguém e surra da forma mais covarde.

10. Terra

Maria é uma pessoa humilde, pequena, serviçal, amiga e que todos gostam, quem sabe, porque não dá problemas e ajuda a todos. Trabalha numa lavanderia e em sua noite de folga pega o bonde, compra bolos para visitar a família do rapaz que ela criou, foi babá. É um conto enigmático que conta a história de uma mulher invisível, pois não descobrimos quem é Maria, o que pensa, só o que ela faz e como os outros a veem. Esse texto é cheio de sutilezas, precisa ser relido algumas vezes. O segredo está sempre nos títulos,  tente relacioná- los com a narrativa.

11. Um caso doloroso

Uma das coisas que me chama a atenção em todos os contos é a descrição física dos personagens. Um retrato perfeito, você consegue imaginar o personagem com muita nitidez, como se estivesse na nossa frente. Assim também é com o sr. James Duffy, um homem que mora no subúrbio da cidade, porque detesta confusão. Não gosta de gente, não tem amigos, não gosta das convenções sociais, é um sujeito metódico, sempre faz as mesmas coisas do mesmo jeito. Um fato quebra a sua rotina, conhece uma mulher casada numa ópera e depois de três encontros ao acaso  convida a Srª Sinico para sair. A mulher é casada com um capitão de barco, que nem pensa que alguém possa vir a se interessar por ela. Sr. Duffy e Srª Sinico trocam livros, músicas, compartilham suas vidas intelectuais, tornaram- se confidentes. Esse é um dos melhores contos do livro.

12. Dia de Hera na sala do comitê

É noite, faz muito frio (como na maioria dos contos) e uma lareira está acesa. Um comitê eleitoral. Richard J. Tierney é o político. Sr. O’Connor é o cabo eleitoral, junto com o velho Jack que tem um filho de 19 anos alcoolatra e Hynes, que estão reunidos à espera de receber dinheiro do político. O trabalho deles é conseguir votos, mas estão bebendo e falam sobre o discurso que têm que escrever para as boas vindas ao rei da Inglaterra. A vinda do rei à Dublin vai gerar muito dinheiro. Mostra como tudo é fabricado nos bastidores da política.

13. Uma mãe

O Sr. Holohan trabalha como secretário- assistente uma casa de espetáculos, é coxo. A srª Kearney é casada com um fabricante de botas mais velho que ela, são pais de duas moças, uma delas, Kathleen, é pianista. O secretário e a mãe organizaram quatro concertos para a jovem pianista em quatro dias consecutivos. Os dois primeiros foram um fisco de público e o terceiro foi cancelado, mas o quarto, o “grande” concerto de sábado foi mantido. Um sábado chuvoso e melancólico. A sala encheu e agora quem ameaça não tocar é a pianista, porque sua mãe exige o pagamento antes que termine o concerto. Agora os bastidores do mundo artístico.

14. Graça

Sr. Kernan, “Tom”, um caixeiro viajante, cai de uma escada em um bar e fica desacordado, sangrando pela boca. O povo o socorre, mas quem o ajuda mesmo é o sr. Power, um amigo que o ajuda a levantar e a pegar um coche. Sr. Kernan mal consegue falar, perdeu um pedaço da língua. Power é mais jovem e trabalha no Castelo de Dublin, está num escalão mais alto socialmente que o amigo acidentado, mas conversa a amizade pelos velhos tempos, ainda que o amigo esteja em decadência, afundado na bebida. Os amigos sr. M’Coy, sr. Power, sr. Fogarty e sr. Cunninghan (repare que Joyce usa sempre essa formalidade de “sr.” e “srª”) reuniram- se com o convalescente para tentar ajudar a transformar a sua vida. Kernan está casado há 25 anos, quatro filhos e uma esposa insatisfeita, mas esperançosa. A conversa ganha tom religioso, um debate sobre a Igreja Católica, sobre os papas e seus hábitos mundanos e também dizem em tom de zombaria que irão converter- se em católicos praticantes, isso em meio a doses de whisky. Mas foram sim, frequentar uma igreja lhes daria distinção e algo mais.

15. Os mortos

Esse é o conto mais extenso. Uma família burguesa com criada e zeladora, uma casa grande e o grande baile anual das senhoras Morkan. Gabriel Conroy é casado com Gretta. Ela guarda um segredo. O final é surpreendente.

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A maior atração dessa obra não são as histórias em si, mas a forma como James Joyce as conta. A palavra exata, a construção dos ambientes e descrições dos personagens fazem desse livro uma grande obra, por isso ele é tão idolatrado e copiado, pela exatidão da sua narrativa, nada falta, nada sobra e isso é muito difícil de conseguir na arte literária É um escritor muito atento aos detalhes, posso dizer que conseguiu nessa obra…a perfeição. Os nomes de ruas, lugares, edifícios, são reais. Para os que querem iniciar- se em James Joyce não comecem por “Ulisses” e sim por esse livro.

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Joyce, James. Dublinenses, L&PM Editores, Porto Alegre, 2013. 224 páginas