PDF grátis: “Paisagens sígnicas: uma reflexão sobre as artes visuais contemporâneas”


Um bom livro que reflete sobre as artes contemporâneas sob várias perspectivas: histórica, semiótica, filosófica, que serve como introdução às artes. Possui uma boa bibliografia para ajudar na sua pesquisa. A publicação é da Universidade Federal da Bahia.

Então segue o PDF grátis de “Paisagens sígnicas: uma reflexão sobre as artes visuais contemporâneas”, da professora Maria Celeste de Almeida Wanner, clica aqui.

O meu em papel:

Boa leitura!

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Resenha: “Convivência”, de Carola Saavedra


Carola Saavedra (Santiago, 1973), imigrou para o Brasil aos três anos, sotaque carioca, é uma das representantes da Literatura Contemporânea brasileira. Está agora na Salão do Livro de Paris selecionada pelo Ministério da Cultura do Brasil.

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(foto: GNT)

Fiz o download do livro, quer dizer, livro não, um conto de oito páginas no iTunes, acho que não chegou a custar 2 euros. E não vale.

Primeiro, o texto começa com um diálogo, a autora dispensou o narrador, a impressão que fica é que o conto iniciou pelo meio. Detesto narrativas que começam com travessão. Parece fora do lugar. Para começar assim o texto tem que ser muito bom.

Segundo, o texto curto é um punhado de clichês que me provocaram bocejos. Nada novo. Vou resumir: escritora-álcool-fumaça-penumbra. Moda. Parece redação de colégio, verde. Taça de vinho na capa. O vinho nunca esteve tão desprestigiado. A personagem, uma escritora que dialoga com o personagem que criou, ele ganha autonomia. E o pior é que ela explica isso, como se não tivesse ficado claro:

– Além do que, todos sabemos que a partir de um certo ponto da trama, os personagens adquirem vida própria. Todo autor diz isso as entrevistas. (p.6)

Um conto de oito páginas que me custou ler. Não é dos piores contos que já li, mas não é bom. O que eu peço dos escritores é um mínimo, um mínimo de originalidade, não gosto de ler e ter a impressão que já li o texto mil vezes antes. Se a ideia não é das mais inovadoras, que a forma, a estrutura ofereça alguma novidade pelo menos. O texto falta. Não sei se esse projeto que a Carola participou é algum desses de contos curtos, que há dezenas na internet, que veio suprir o sonho de todos os que querem virar escritores, mas não têm um mínimo de bagagem, trabalho, leituras necessárias, técnica, a prolixidade necessária para escrever (e às vezes nem talento). Essa é a era do texto rápido, ligeiro, porque falta tempo para ler (e para escrever). Parece que descartou também o fazer narrativo bem escrito, bem elaborado, surgiu a literatura de guardanapo (cadê, já foi?). Literatura melhor ou pior escrita, mas com temas muito parecidos, um copiando do outro. Falta personalidade, estilo próprio. Literatura “fast” e uniformizada é o que temos. Você engole isso? Eu não. Por isso acabo voltando aos clássicos, porque dá muito desânimo “perder tempo” com a literatura produzida agora.

Curiosamente, depois de escrever o parágrafo acima, encontrei no livro de Antônio Cândido (PDF grátis aqui), “A educação pela noite e outros ensaios”, o crítico literário que mais admiro, que vem corroborar exatamente com o meu pensamento em relação ao conto de Carola Saavedra. Ai, Literatura Contemporânea, qual é mesmo a sua cara? Na mosca, veja (p.213):

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Na resenha sobre “Balada da infância perdida”, de Antônio Torres, no final, eu coloco também essa questão da literatura contemporânea inconsistente. Veja lá.

Não vou descartar a autora por causa desse conto, se ela anda fazendo sucesso no Brasil, não deve ser por causa desse texto. Qual é o bom, quem indica? Alguém que tenha lido “de verdade”, por favor.

A Carola parece simpática e deve ser um amor de menina. Mas não posso ser crítica (e sincera) se pensar na sensibilidade do escritor, tenho que dizer o que penso, eu vou no texto. Vá lá, pegue o conto, leia e venha me dizer o que achou, quero saber a sua opinião. Falando em Literatura a gente se entende.

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 Saavedra, Carola. Convivência (conto). Formas breves. E-Galáxia. Epub, 2014. 14 páginas

Resenha: O Rinoceronte, de Eugène Ionesco (PDF grátis)


Psicose coletiva, senhor Dudard, psicose coletiva é o que isso é! É como a religião que é o ópio dos povos! (p. 42)

Você sabe o que é o gênero dramático?

34 - O RINOCERONTE

Encenação de “O rinoceronte” no Teatro de Bolso, Portugal, com estreia em 12 de novembro de 1960.

É um dos gêneros literários mais antigos, sua origem remonta à Grécia antiga. É um tipo de escritura feita para ser encenada por atores em um teatro. O texto é disposto de forma dialógica entre os personagens ou o personagem (no caso dos monólogos). Os acontecimentos são desenvolvidos dentro de um tempo e espaço determinados. O conflito humano é a base da obra teatral, que pode ser comédia, tragédia, drama ou tragicomédia ( híbrido, tragédia e comédia). O texto pode ser escrito em prosa ou verso. Os nomes dos personagens sempre antecedem as suas falas, veja um exemplo da obra “O rinoceronte”, de E. Ionesco, objeto dessa resenha. A obra se encaixa no gênero comédia, pois faz parte do “Teatro do Absurdo”, um conjunto de obras que foram escritas ao longo de 30 anos, entre as décadas de 40 e 60 na Europa e nos Estados Unidos.

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Eugène Ionesco (Slatina, Romênia, 26/11/1909 – Paris, 28/03/1994) foi um dos maiores patafísicos e dramaturgos do teatro do absurdo. A patafísica foi um movimento cultural francês da metade do século XX, uma pseudociência das “soluções imaginárias”, criada pelo excêntrico dramaturgo francês Alfred Jarry (Laval, 08/09/1873 – Paris, 01/011/1907). A patafísica é absurda e de difícil compreensão, quebra com todos os nossos esquemas mentais lógicos e nosso costumeiro raciocínio lineal. O teatro do absurdo é incoerente por natureza. O humor sempre está presente nesse tipo de texto.

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Eugène Ionesco, 1960, foto exposta no National Portrait Gallery, Londres

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Alfred Jarry, o inventor da patafísica

A obra “O rinoceronte” (origina “Rhinocéros”, 1960) é uma das mais conhecidas do dramaturgo Ionesco. O texto é muito divertido e muito visual, como se estivéssemos sentados na poltrona de um teatro. Ambientado numa pequena cidade do interior, numa praça, os personagens são:

A Dona da casa, A Merceeira, Jean, Bérenger, A Garçonnette, O Merceeiro, O Senhor Idoso, O Lógico, O Patrão, Daisy, Senhor Papillon, Dudard, Botard, Madame Coeuf, Um Bombeiro, Senhor Jean, A Mulher do Senhor Jean, Várias Cabeças de Rinocerontes.

A peça é dividida em três atos. A movimentação normal da cidade, dois amigos conversando e ouvem um ruído ensurdecedor, mas não sabem de que se trata. O barulho vai ficando mais forte e… passa correndo um rinoceronte! O rinoceronte esmaga o gato da Dona de Casa que fica inconsolável. E a discussão continua absurda, a preocupação dos moradores é se o rinoceronte tem um ou dois chifres, se é da Ásia ou da África. Entra o Lógico para tentar colocar um pouco de ordem em tudo, mas a lógica também é ininteligível às vezes. O tema racial aparece na conversa.

O segundo ato acontece num escritório, uma editora, onde Daisy, Dudard e Botard continuam com a conversa sobre o paquiderme e o gato esmagado. Uma das falas de Botard refere- se à raça do gato morto. Mais atual do que nunca no nosso século (p. 38):

Peço, desculpas, chefe, mas o senhor não pode negar que o racismo é um dos grandes erros deste século.

A discussão continua com patrão e empregados discutindo sobre a veracidade do caso. Passou ou não passou um rinoceronte? Teria sido uma alucinação coletiva? É possível ver o que não existe ou fazer com que não exista o que se vê? Parece que sim. Depende do interesse e da retórica do implicado em distorcer e levar “a verdade” para o seu campo. Os políticos sabem fazer bem isso, não? Talvez alguém que você conheça também seja assim. A “verdade”, parece, pode ser muito variada.

A história começa a ficar surreal, absurda e engraçada. Certeza que você vai dar umas boas risadas.

Muda o cenário novamente, agora na casa de Jean. Bérenger foi desculpar- se com o amigo por causa da discussão acalorada que tiveram sobre os chifres dos rinocerontes. Jean parece adoentado e a história sofre uma metamorfose bem kafkaniana.

É preciso restituir a base da nossa vida. Precisamos voltar à integridade primordial! (p.66)

O texto transforma- se num diálogo filosófico entre Bérenger e Jean e passa a ser uma grande crítica à sociedade da época, mas que cai como uma luva para a atual também. Parece que as boas virtudes falham em todas as épocas. A manada de rinocerontes começou a aparecer em todas as partes, gente que se rebelou com a ordem estabelecida, a metamorfose é uma mudança política. Um não à submissão e ao conformismo. Em muitas ocasiões só a metamorfose nos salva de certos absolutismos e imposições. Não é fácil ser diferente, os obstáculos são muitos, o desprezo também, mas às vezes é a única forma de redenção e encontro consigo mesmo e as nossas ideias e verdades.

Bérenger sofre uma crise existencial em seu monólogo final, quem está certo, afinal? Os homens ou os rinocerontes? O último homem tenta defender a raça humana. Está difícil!

Você pode baixar o PDF grátis no maravilhoso site Desvendando o Teatro, a biblioteca virtual deles é excelente. Não deixe de ver!