Livros para ler nas férias


Verão na Europa, muito sol, praia e piscina. Entre as atividades aquáticas, vou de livro em livro.

Trouxe comigo “A República dos Sonhos”, de Nélida Piñón, que eu tinha começado a ler no ano passado, deixei estacionado, porque acabei me envolvendo com outras coisas. Retomei e hoje finalizei as compactas 705 páginas. Esse é um livro/autora que tenho muito respeito; inclusive a entrevistei por todo o apreço que lhe tenho. Foi uma leitura minuciosa, até tensa, porque não quis perder nenhum detalhe. Vou ter que comprar outro exemplar, o meu ficou arrasado, cheio de anotações, areia e salitre. Possivelmente, Nélida virá para a Espanha em novembro, quero uma dedicatória (em um novo exemplar menos arrasado). Essa semana, finalmente, sairá a resenha.

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 O povo espanhol é um povo leitor. Em todos os lugares vejo gente com livros, isso me deixa feliz. Na praia (Calafell, Tarragona, Catalunha- Espanha) não é diferente. Esses dois senhores estavam ontem na minha frente, formamos um trio leitor! 🙂

13606683_758843134218046_2215343454115325717_nNão consegui ver o título, mas o livro é extenso e o senhor com seu charutão (apagado, ufa!) estava nas últimas páginas.

13627061_758843130884713_535231026912501067_nEsse outro senhor com um livro também extenso estava bastante concentrado enquanto o neto (ou filho) brincava na areia.

Veja a lista de livros que trouxe comigo. Não vai dar tempo de ler todos, mas quis ter opções. Escolhi livros que quero muito ler para já! Como terminei um nacional, agora virá um internacional, Woolf ou Dostoievski. Os dois começam interessantes, o prólogo de Virginia em “Orlando” é um agradecimento a autores que lhe inspiraram…

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…e Dostoievski, começa assim, primeiro parágrafo de “Noites Brancas”:

“Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites, amável leitor, que quiçá só exista em nossos anos jovens. O céu estava tão estrelado, tão iluminado, que olhando- o a pessoa não podia deixar de perguntar: mas é possível que baixo um céu como este possa viver tanta gente colérica e fútil?” (livre tradução)

E mais:  “O Buda dos Subúrbios”, de Hanif Kureishi, inglês de origem indiana. Esse não levarei para a praia, pois está autografado. Esse livro virou série, é bem famoso no Reino Unido.

“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, tenho muita curiosidade para conhecer essa história de ficção científica, literatura fantástica, futurista de um país, Montag, onde é proibido ler.

“Histórias da Artámila”, de Ana Maria Matute. Essa autora faleceu há dois anos, eu tive a oportunidade de conhecê- la na última Feira do Livro que participou em Madri. É uma das grandes escritoras espanholas. Falo no presente, porque a literatura tem o poder de imortalizar. Na minha opinião, é o maior benefício que traz a literatura para o indivíduo: nunca ser esquecido; ou pelo menos, nunca ser esquecido por algumas décadas, já que muitos não conseguem ultrapassar os séculos. Pensa que ser Shakespeare ou Cervantes é pra muitos?!

Essa é a listinha que trouxe para passar as férias comigo. Gostou,  já leu algum?

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Resenha: Uma criatura dócil, Fiódor Dostoiévski


…Enquanto ela estiver aqui, tudo vai bem: a cada instante chego perto para vê- la, mas que será de mim quando a levem amanhã e eu fique sozinho? (p. 15)

Esse livro começa com uma nota do próprio Dostoievski explicando um pouco sobre o gênero do relato, que ele classifica de “fantástico”, mas com um grande fundo realista. Eis aí uma grande contradição. Eu acho muito bacana essa conversa direta com o leitor, alguns escritores também fizeram isso, dirigiram- se diretamente ao leitor, como Saramago e Machado de Assis. O escritor diz que demorou quase um mês para escrever esse texto. A narrativa trata de uma jovem mulher que havia se jogado de uma janela há algumas horas e seu marido fica aturdido, dando voltas, sem saber o que fazer ou pensar. Ele chegou cinco minutos tarde. O homem quarentão, militar retirado, tem uma loja de penhores e é hipocondríaco. Fala consigo mesmo, não está bem psicologicamente e tem que lidar com essa situação, sua esposa morta. Ela, uma órfã com 16 anos incompletos, estendida em cima de duas mesas durante seis horas. Dostoiévski explica que é uma narrativa contraditória nos aspectos psicológico e sentimental, o pensamento debatendo- se até encontrar a verdade. O autor mesmo qualifica esse embate de “confuso”Por que a mulher suicidou- se? Quando temos a notícia de algum suicídio, não é sempre essa pergunta que nos passa pela cabeça?

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Fiódor Dostoiévski nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscovo, Rússia e  faleceu em 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, Rússia. Escritor existencialista, sua obra considera o homem como centro e todo o conjunto de suas emoções e pensamentos. Jean- Paul Sartre também seguia essa linha, ele disse: “A existência precede e governa a essência.
Dostoiévski nos mostra a intimidade de um casamento por conveniência, ela muito pobre, ele muito solitário. Ele, o poderoso; ela, a submissa. Conheceram- se quando ela o levava objetos de muito pouco valor para penhorar.

(…) as pessoas boas e submissas não resistem muito e, ainda que não sejam muito expansivas, não sabem esquivar uma conversa: respondem com sobriedade, mas respondem, e quanto mais avança o diálogo,  mais coisas dizem; basta não cansá- los, se você quer conseguir algo. (p. 19)

A moça vendia seus poucos pertences para colocar anúncios no jornal “A voz” oferecendo- se para trabalhar como institutriz, caseira, costureira, cuidadora de doentes… até desespero chegar e  pedir um trabalho por casa e comida. Ela queria sair da casa das tias que a maltratavam e que queriam vendê- la a um homem que já havia matado, à base de surras, suas duas esposas anteriores.

Durante o casamento era ele que ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo achava- se um tirano e a moça doce, mansa e angelical, mas ele não conseguia mudar de atitude, talvez essa seja uma das contradições que Dostoiévski comentou. O homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, instinto, ações. Mesmo sentindo- se culpado pela morte da esposa, tentava justificar- se e colocar a culpa na defunta.

A vida dos homens, em geral, está maldita! (p.43)

Até as pessoas mais calmas e mansas têm um limite. A esposa adolescente era empregada do marido na loja de empenhos. Ela fez um mal negócio para um viúva idosa e o marido reclamou. A moça esbravejou, perdeu a serenidade, ficou uma fera. Deixou de falar com o marido e sumiu por dois dias. Nesse tempo a moça mudou bastante aos olhos do marido. Ou ela sempre foi assim, espirituosa, violenta, agressiva?

Ler Dostoiévski é sempre uma incursão ao interior do ser humano, uma evocação do que existe de mais profundo, como a abertura de um porão abandonado e esquecido. Ele liberta o fluxo do pensamento antes da ação, mostra o plano mental e emocional do homem.

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Esse quadro de Gabriel Von Max, “O anatomista” (1869), retrata perfeitamente a cena do homem e da mulher morta que Dostoiévski narrou em “Uma criatura dócil”.

O amor às vezes chega tarde demais…e não há mais salvação, só resta a dúvida.

“O último dia de um condenado à morte”, de Victor Hugo. Livro citado por Dostoievski nessa obra,  já está na minha lista de desejos.

Edição brasileira à venda na livraria Cultura:

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A edição em espanhol que eu li:

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Dostoievski. Fiódor M., La mansa, Alba Brevis, Barcelona, 2012. 90 páginas

 

Resenha: Pobre gente, de Fiódor M. Dostoievski


Dostoievski (Moscou,11-11-1821/São Petesburgo, 09-02-1881) era engenheiro e militar, mas foi a literatura que o fez conhecido e o transformou em um dos maiores escritores mundiais. Foi preso, acusado por conspirar contra o governo russo, e na prisão, começou a desenvolver uma doença no cérebro, até hoje não confirmada, epilepsia ou uma doença histérica como afirmou Freud. Dostoievski morreu, tudo indica, por um acidente vascular cerebral aos 59 anos.dostoyevski

Esse é o tipo de livro que modifica algo na gente. “Pobre gente” foi o primeiro romance de Dostoievski, começou a escrever em 1844 e terminou no ano seguinte.  O personagem Makar Dévushkin, um auxiliar administrativo que leva trinta anos copiando documentos, mora numa pensão humilde, seu pequeno quarto fica ao lado da cozinha, é o que pode pagar com o seu salário também minúsculo. Vivendo dessa forma humilde sobrava dinheiro para o chá, “inclusive com açúcar”, um luxo que não renuncia. Escritores transportaram muitas vezes as suas próprias vidas à literatura, esse quadro de Carl Spitzgweg (que também era poeta, além de pintor), “O poeta pobre”, de 1839, mostra esse tipo de ambiente paupérrimo e insalubre que muitos escritores viveram, onde surgiram pequenas e grandes obras da literatura mundial. O guarda-chuva é o telhado, a cama enfermiça é a escrivaninha; dos livros, a sobrevivência e a salvação. Dostoievski disse que “a pobreza e a miséria formam o artista”, um pensamento que pode ser verdadeiro, já que a falta de recursos, de ócio, de prazeres, de viagens, de relações sociais, faz com que o escritor humilde centre- se mais em si mesmo, no seu mundo interior e seja mais engenhoso e criativo, afinal, a imaginação ainda é grátis.

A literatura é uma coisa magnífica, Várenka, uma coisa extraordinária; graças a essa gente, desde o primeiro dia deu para perceber. É algo profundo! Serve para fortalecer o coração das pessoas, para instruí- las… e para muitas coisas mais que eles escreveram um livro. (…) A literatura é um quadro, ou seja, a seu modo é um quadro e um espelho; é expressão de paixões, crítica sutil, instrução edificante e documento. Tudo isso aprendi com essa gente. (p. 93)

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          “Nós, homens, que vivemos sumidos na preocupação e desassossego, também deveríamos invejar a despreocupada e inocente felicidade dos pássaros celestiais.” (p. 13)

Essa é uma obra epistolar (narrativa escrita em forma de carta), onde Makar Dévushkin escreve para uma parente distante, a jovem Varvara, que mora perto dele, mas para não dar lugar às más línguas, eles não se visitam, comunicam- se através de cartas, viam- se quase que exclusivamente nos domingos de missa. Ela é órfã e também muito pobre, ganha a vida fazendo bordados. Eles são pobres, mas dignos, conseguem manter a auto- estima, não permitem que a falta de recursos os destruam como indivíduos “insignificantes” que são. Makar tem um amor paternal por ela, não é um amor romântico.

Makar sentia- se resignado e até feliz com a sua vida simples: Tenho para comer, para vestir, para calçar- me; para que agora vou complicar a minha vida? (p. 24). Ele vai descrevendo os moradores da pensão: a família de casal e três filhos que vivem num quartinho, uma família doente, triste e silenciosa, que chora na madrugada.

O que me impressionou dessa obra é o realismo que consegue comover sem ser dramático, a palavra justa, Dostoievski não é prolixo nem repetitivo. Ele conta uma só vez e marca, fica na memória, na emoção. Apesar de todo esse realismo impressionante, houve espaço para uma prosa poética na voz de Varvara ao recordar a morte de seu amor platônico, o pobre professor apaixonado por livros, Pokrosvski:

As recordações, sejam amargas ou felizes, sempre nos fazem sofrer. Ao menos é o que acontece comigo. Mas esse sentimento também é doce. Por isso, quando me deprimo, quando passo mal, quando estou angustiada, quando estou triste, as recordações me animam e refrescam, igual que depois de um dia sufocante as gotas vespertinas de orvalho reanimam e refrescam a pobre flor murcha, seca pelo calor do sol.

Os dois personagens, Varvara e Makar, trocam presentes com os escassos recursos que possuem, cuidam- se mutuamente, dividem dores, dissabores, recordações, tristezas, coisas do cotidiano, sentimentos, incertezas e também falam sobre literatura. É a verdadeira amizade, existe um real interesse pelo bem estar mútuo, existe uma necessidade de querer comovente.  Mas na ficção como vida, tudo tem um fim…a realidade é dura.

Triste, bela e poética a capa dessa edição espanhola:

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Dostoievski, M. Fiódor. Pobre gente. Alba, España, 2010.  220 páginas

A Minha Biblioteca Ampliada


Minhas últimas aquisições literárias: Dostoievski e Guy de Maupassant em edições em espanhol, livros comprados na Casa del Libro (Madri):

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“La mansa” de Fiódor M. Dostoievski ( “krotkaya”, título original em russo), nas traduções em português ficou como “Uma criatura gentil”, “Uma criatura dócil” ou “A dócil”, é um relato de literatura fantástica. Veja edição da Cosac Naif, na Livraria Saraiva:

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Esta obra é uma pequena obra-prima. O pêndulo da narrativa opera segundo a lógica das transações de uma caixa de penhores: na primeira parte, a heroína se entrega, penhora sua pureza e um ícone da Virgem. Na segunda, resgata a imagem, mas paga com a própria vida.

A segunda aquisição é também de Dostoievski, “Pobre gente”, o nome ficou igual em português, edição da Editora 34 vendida na Saraiva:do2Primeiro romance de Dostoiévski, gente pobre (1846) não é apenas um prenúncio do que o autor de Crime e castigo faria no futuro. Nele já se encontra um escritor com domínio pleno do seu ofício, a ponto de Bielínski, principal crítico da época, ver na obra “mistérios e caracteres da Rússia com os quais ninguém até então havia sequer sonhado” e “a primeira tentativa de se fazer um romance social” no país. 
Partindo das experiências de Púchkin, em “O chefe da estação”, e Gógol, em “O capote”, que deram ao homem comum uma nova roupagem literária, Dostoiévski criou uma narrativa epistolar que subverteu o gênero por completo e foi imediatamente aclamada pelo público, fazendo de seu autor, praticamente da noite para o dia, um escritor consagrado.
Pela troca de cartas entre Makar Diévuchkin, funcionário menor de uma repartição pública de Petersburgo, e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã injustiçada, o leitor acompanha de perto as pequenas alegrias e os constantes sofrimentos dos dois personagens. Com seu talento fora do comum, Dostoiévski explora a fundo as variações de tom e tratamento, de saltos e encadeamentos na ação, para dar voz a um universo comovente de afetos e valores, que a tradução de Fátima Bianchi soube tão bem captar.

E o último livro, é “Bel Ami- história de um sedutor”, de Guy de Maupassant, recentemente foi pras telas de cinema. A capa do livro é a foto do filme (tanto na minha edição espanhola da Alianza Editorial, quanto na brasileira da Landmark:

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Bel-Ami” é um romance realista escrito por Guy de Maupassant publicado em 1885 sob a forma de folhetim na revista literária “Gil Blas”. O romance explora a sociedade e as atitudes em relação à riqueza, ao poder e ao oportunismo, retratando a ascensão social de Georges Duroy, homem ambicioso e sedutor, além de arrivista e oportunista, lançado ao topo sociedade parisiense, graças à ajuda de suas amantes e do conluio entre a imprensa, as finanças e a política. Maupassant descreve as ligações existentes entre o capitalismo, a política e a imprensa, além da influência feminina, privadas da vida pública da época. A obra se apresenta como uma pequena monografia da imprensa parisiense, onde Maupassant retrata implicitamente a sua própria experiência como jornalista. Assim a ascensão de Georges Duroy, ou “Bel-Ami”, pode ser comparada à própria ascensão de Maupassant. De fato, “Bel-Ami” é a descrição perfeita e inversa da vida de Guy de Maupassant, onde Georges Duroy representa o contrário do autor, conforme pode ser visto ao longo do romance. Através do personagem, o autor nos faz descobrir o mundo do jornalismo e da alta sociedade, sob a ótica dos escândalos políticos e financeiros.

E você, o que anda comprando?

Memórias do Subsolo, Fiódor M. Dostoievski


“A melhor definição do homem seria: um sujeito mal- agradecido com um par de pernas.” (p. 94)

Eu acho que a escolha das nossas leituras não são por acaso, há algo de seleção intuitiva, cada livro cai na nossa mão na hora certa ( e quando não é, geralmente a leitura acaba sendo abandonada). Então vamos, “Memórias”…

Não existe derrota pessoal maior do que viver acreditando que o “normal” é o estado de constante dor (emocional, que às vezes passa a ser física também). É uma espécie de vida paralela na própria existência, a fronteira entre esses dois “mundos” ( o do bem- estar e o da dor) é muito sutil, qualquer um pode atravessá- la sem perceber. O subsolo é a consciência, é a camada mais recôndita do ser humano, uma área escondida, mas extremamente povoada e ativa, lá também pode ser um lugar sujo, cheio de bichos tenebrosos, lama, cupins e mofo. No subsolo não entra a mentira, a falsidade, a hipocrisia. Não dá pra enganar a própria consciência, ela sempre vai te contar a verdade (?), que às vezes pode ser muito dura. O excesso de consciência pode nos converter em pessoas doentes. Assim ficou o personagem de Dostoievski em “Memórias do subsolo”, incógnito, sem nome, de uns 40 anos (na primeira parte), magro e baixo, funcionário público e cheio de consciência de si mesmo. Ele sentia- se excluído pelos colegas de trabalho (aos vinte e quatro anos, na segunda parte do livro), sentia um olhar de repugnância vindo deles. Era extremamente tímido e embora fizesse esforços para integrar- se, não tinha êxito, sentia- se invisível, humilhado, derrotado, acreditava ser insignificante como uma “mosca” e odiava os seus opositores. Sua vida era “lúgubre, desordenada e ferozmente solitária”. (p. 109) A melancolia o corroía, ele sentia náuseas e febres.

Dostoievski (Moscovo, 11/11/1821 – São Petesburgo, 09/02/1881)

“Memórias do subsolo” é uma obra importante, porque é o primeiro livro existencialista do mundo (possivelmente). O autor passava por um momento pessoal muito complicado durante a escritura desse livro, a sua esposa estava muito doente e ele mantinha um romance tormentoso com uma jovem chamada “Apolinaria Súslova” (p. 9) o que lhe provocava problemas de consciência:

“(…) deixa- te levar por seu impulso cegamente, ou seja, sem raciocinar e sem procurar uma causa primária; espantando a consciência, ainda que só durante esse instante; tenta odiar o amar, só para não estar de braços cruzados e sem fazer nada. Passados dois dias como muito, começarás a desprezar- se por ter enganado a si mesmo.” (p. 83)

Dostoievski deu ao seu personagem uma noção pessimista da realidade. Era um homem desgraçado, queria vingar- se do mundo pelas suas infelicidades, já que residia no lugar mais escuro da vida, no subsolo. Pensem que isso foi escrito em 1864, ainda nem tinham inventado os antibióticos, mas é super atual:

“O que é que suazivou na gente a civilização? O único que nos acrescentou foi uma multidão de sensações…e decididamente, nada mais. (…) Vocês notaram que os mais sofisticados derramadores de sangue quase sempre foram uns cavalheiros dos mais civilizados (…) Dizem que Cleópatra (desculpem o exemplo escolhido da história romana) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das suas escravas e encontrava prazer nos seus gritos e convulsões. Dirão que isso ocorria em outros tempos, por dizer de alguma forma, bárbaros; mas também agora vivemos tempos bárbaros (também por dizer de alguma forma) ainda continuam espetando alfinetes; e o homem, ainda que tenha aprendido a ver algumas coisas com mais claridade que nos tempos da barbárie, encontra- se ainda muito longe de habituar- se a agir de acordo com a razão e a ciência.” (p.88)

O que destrói a razão é o sentimento, senão tudo poderia ser matematicamente estudado e planejado, a vida poderia ser prevista, mas “mudam- se os tempos, mudam- se as vontades”. Gente ama, desama, casa, descasa, e casa outra vez, cria e fecha sociedades, muda de casa, de bairro, de cidade, de país, de emprego. Ou não muda nada e permanece com a insatisfação de não ter tentado; e os que são empreendedores e arriscam, também se arrependem de não ter ficado. O ser humano é confuso porque sente:

“Bom, senhores. E por que não deitamos abaixo essa passividade, para todos os logaritmos irem ao inferno e finalmente podermos viver de acordo com a nossa vontade?” (p. 90)

Não temos liberdade para ser o que queremos ser ou o que somos, estamos sempre baixo regras alheias: do governo, da escola, dos nossos pais, esposas ou maridos, namorados e namoradas, chefes, condomínio, religião- tudo isso jogado pra nossa própria consciência. Quem dita o que é certo ou errado? Certeza que nem eu nem você. Não somos livres, mas ser livre também pode ser muito perigoso.

“De onde tiram todos esses sábios, que o homem precisa de uma vontade normal, uma vontade virtuosa? De onde tiram que o homem precisa indispensavelmente de uma vontade proveitosa? O homem precisa unicamente de uma vontade ‘autônoma’, custe a esta o que custe, e lhe traga as consequências que lhe traga.” (p. 90)

Quase sempre as nossas vontades estão mascaradas por conveniências, imposições ou falta de opção, por caminhos escolhidos por serem os mais fáceis, por comodismo, por preguiça, por medo, por dinheiro e status social, escolhemos os caminhos que, aparentemente, possam nos proporcionar mais vantagens. As nossas escolhas, muitas vezes, não são os nossos desejos reais. Assim surge um ser humano frustrado, infeliz, incompleto. Fazer “o correto” pode ser muito aborrecido e escolher “fazer o que quiser” pode ser uma faca de dois gumes: o seu bem- estar x a dor alheia ou a sua dor x o bem- estar alheio. Sacrificar ou sacrificar- se? O nosso livre- arbítrio só vai funcionar quando “criarmos algo parecido a uma tabuada”. (p. 92) O personagem acredita que isso não existe, nunca existirá.

Desse romance psicológico, concluo que na vida é mais feliz quem consegue ficar fora desse “subsolo”, quem não fica muito tempo preso aos problemas de consciência, quem consegue se soltar das amarras dos sentimentos mais profundos e das regras da falsa moral, porque, na verdade, no mundo não há moralidade, já que “ Todo homem honesto de nosso tempo é, e deve ser, servil e covarde. (…) Isto é assim, e assim é como está constituído.” (p. 111)

Os colegas de escola do personagem sem nome (de tão insignificante que era) estes sim, com nome e sobrenome, o desprezavam porque era um simples funcionário público mal vestido, feio e sem família importante. Nas sociedades de um modo geral, a pessoa vale o peso do que possui ( ou o que aparenta possuir).

 O ideal seria cada um ter o direito de desejar pra si mesmo o que quisesse, até as coisas mais estúpidas, que não nos trouxessem nenhum tipo de vantagem, porque isso pode ser mais vantajoso que outra coisa, depende do valor que você dá às coisas. E geralmente tais vantagens são medidas pelo que trará mais prosperidade e o personagem considera isso um equívoco, compara a prosperidade com um “Palácio de Cristal”, uma frágil e limitante prisão. Dostoievski cita a Heine, que dizia que toda autobiografia não é verídica, porque todo homem mente sobre si mesmo, inclusive cita a Rousseau, que mentiu ao falar de si mesmo nas suas confissões, por vaidade. Uma pessoa pode cometer crimes por vaidade. Levar o subsolo na alma não é fácil.

Todos os homens guardam entre suas recordações algumas coisas que não as revelam a qualquer pessoa, só aos amigos. Também há outro tipo de coisas que o homem não revela aos amigos, tão só para si mesmo e em segredo. Finalmente, há coisas que o homem teme revelar inclusive a si mesmo, e todo homem formal dispõe no seu interior de uma boa quantidade desse tipo de coisas.” (p. 103)

Qual o seu segredo?

Um livro que dá um tapa na cara da hipocrisia.

Dostoievski, Fiódor. Memorias del subsuelo. Madrid. Cátedra, 2011. 198 páginas