Escritores e o fascismo: quando pensar mata


Para os desavisados: literatura tem TUDO a ver com política! Já se fala até em proibição de livros.

Escritores, jornalistas, estudantes e artistas sempre foram vítimas diretas da ditadura no Brasil e nos governos fascistas pelo mundo, ao contrário do que declarou o candidato à República brasileira que, “nas ditaduras só desapareceram bandidos”. Mesmo os criminosos num Estado de direito e democracia, têm que ter um julgamente justo, o contrário disto é a barbárie.

Ah, sem esquecer dos blogueiros, esses estão na mira de governos totalitários, como a cubana Yoani Sánchez, que denuncia as arbitrariedades do seu país, já teve o acesso ao seu blog bloqueado em Cuba, foi sequestrada e espancada pela polícia do seu país e está constantemente vigiada.

Não esqueça que o Brasil foi governado durante O MAIOR TEMPO NA SUA HISTÓRIA por militares, governantes de direita e foi NEFASTO: pobreza, violência, inflação, corrupção, falta de infra- estruturas, saúde e desemprego galopantes. Vamos ser sérios e justos! O Brasil já sofreu demais golpes à sua democracia! Há gente que não se recuperou da última ainda, há famílias destruídas e feridas até hoje.

Procure artigos de jornais, como por exemplo, esta notícia de 1999 falando sobre a inflação no governo de General Figueiredo

… e este artigo sobre a violência urbana na época da ditadura, que atingiu níveis de “epidemia”. 

Veja esse vídeo (clique no link abaixo) sobre o pensamento do candidato fascista que temos que combater, pois será um retrocesso de 40 anos e um golpe à nossa liberdade e dignidade:

https://youtu.be/-fMdCwlwg8E


Muitos escritores foram exilados, torturados, assassinados e desapareceram por conta do que pensavam em países com governos ditatoriais. São tantos, que a lista ficaria muito extensa, vou dar só alguns tristes exemplos:

BRASIL

1-2. Jorge Amado e Zélia Gattai exilados na França de 1947 a 1950, porque o autor era comunista. Este foi um dos períodos militares do Brasil.

3. O professor ioguslavo, filósofo e jornalista da TV Cultura, Vladimir Herzog,  fugiu da Europa por causa do nazismo alemão e acabou morrendo na mão da ditadura brasileira.  Ele tinha só 38 anos quando foi assassinado (1975) pelos militares brasileiros num porão de uma delegacia em São Paulo. Existe uma foto do seu corpo, não clique se não quiser ver. Na época, a desculpa dos fascistas para as mortes frequentes dos seus prisioneiros torturados era o “suicídio”. Vladimir era comunista e judeu.

4. Rubens Paiva não era escritor, mas era pai do escritor Marcelo Rubens Paiva, do livro “Feliz ano velho”. O pai começou na política no movimento estudantil e depois doi eleito deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Rubens foi torturado até a morte e jogado num morro do Rio de Janeiro (1971). Os militares que participaram do seu assassinato confessaram em 2014. Leia toda a história aqui.

5. Depois de ver este caso, entre lágrimas, desisti de continuar a lista do Brasil. Alexandre Vannucchi Leme, tinha só 22 anos e era estudante da USP. Seu crime? Tentar reabrir o DCE (Diretório Central dos Estudantes, que era ilegal na época. Ele foi preso e torturado pelos militares até a morte, em 1973 e foi enterrado como indigente no Cemitério de Perus. Os seus pais o encontraram dois dias depois coberto de cal, artimanha dos militares para esconder as sessões de tortura.

Pais, mães…têm certeza que vocês votarão num candidato fascista? Ainda dá tempo de corrigir…

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6. ESPANHA: o poeta Federico García Lorca foi fuzilado pelo fascista Francisco Franco, porque era republicano e homossexual.

7. RÚSSIA: o escritor e professor de Direito Vladmir Nabokov, pai do escritor com mesmo nome (o que escreveu a famosa obra “Lolita”) foi executado sumariamente na rua a tiros, porque era um dos membros fundadores de um partido democrático.

8. CHILE: a ditadura de Pinochet matou, torturou e exilou muitos artistas. Um dos escritores mais conhecidos, Pablo Neruda (Nobel de Literatura, 1971), teve seu corpo exumado em 2017, pois havia suspeitas sobre a causa de sua morte (1973). No atestado de óbito diz que faleceu de câncer, mas já foi comprovado que não. Tudo indica que Neruda foi envenenado doze dias depois do golpe de Estado que sofreu o presidente Salvador Allende. Neruda tinha ideias comunistas e libertárias.

9. PORTUGAL: o ditador Salazar não teve coragem de mandar prender o único futuro Nobel de Literatura na língua de Camões, José Saramago, que era comunista filiado ao partido, em plena ditadura portuguesa, e crítico feroz da mesma. Ao contrário do lisboeta Saramago, o escritor Álvaro Cunhal não teve tanta sorte e ficou QUINZE anos preso por causa de seus ideais comunistas! Esse era o modus operandi do ditador português: prender os intelectuais contrários ao seu regime.

10. ARGENTINA: Rodolfo Walsh era um escritor consagrado no seu país, quando caiu a ditadura na Argentina. Ele foi combatente ativo contra o fascismo (através dos seus textos), em um grupo organizado. Walsh sofreu uma emboscada, foi fuzilado e desapareceram com o seu corpo. Sua família nunca pode lhe sepultar. Tal como o argentino, na Espanha ainda há quase 50 mil pessoas desaparecidas vítimas da ditadura de Franco.


Há que se aprender com o passado! E para continuarmos a ter voz e sem ameaças à nossa integridade física, vote pela democracia, já basta de dor! Há caminhos mais racionais e civilizados para salvar o nosso Brasil de tudo o que nos aflige.

Deixo aqui um poema de Neruda, enquanto também me é permitido falar:

Eu não me calo

Perdoe o cidadão esperançado
Minha lembrança de ações miseráveis,
Que levantam os homens do passado.
Eu preconizo um amor inexorável.
E não me importa pessoa nem cão:
Só o povo me é considerável,
Só a pátria é minha condição.
Povo e pátria manejam meu cuidado,
Pátria e povo destinam meus deveres
E se logram matar o revoltado
Pelo povo, é minha Pátria quem morre.
É esse meu temor e minha agonia.
Por isso no combate ninguém espere
Que fique sem voz minha poesia.

Eu não me calo, não me calarei…

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Uma resenha e algo mais: “O mal- estar global”, de Noam Chomsky


Já ouviu falar do “efeito borboleta”? Esse efeito faz parte da “teoria do caos” do metereologista e filósofo americano Edward Lorenz. O mundo está ligado em todos os seus aspectos, é como se tivesse um fio elétrico invisível interligando tudo. Lorenz diz que, por exemplo, se uma borboleta bater as asas no Brasil, isso pode provocar um tufão no Japão. Ler Chomsky nos aproxima dessa teoria mostrando que somos responsáveis pelo mal- estar no mundo atual.

O americano Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) é o “pai da linguística moderna”, também é filósofo e ativista de esquerda. Esta obra, El malestar global, conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia, recém editada na Espanha, reúne doze entrevistas de Chomsky com suas preocupações da atualidade: o aquecimento global, o armamento nuclear, o ascenso do terrorismo islâmico, os conflitos no Oriente Médio, o mal- estar social provocado pelas políticas econômicas, a desigualdade social e Donald Trump. Também conta sobre a sua infância em Nova York e  a relevância de uma livraria de livros usados para a sua formação. David Barsamian é o radialista americano de origem armênia que o entrevistou.

A intenção de Chomsky com essas entrevistas é chamar a nossa atenção, pois precisamos fazer uma mudança radical no nosso modo de vida, na forma como nos relacionamos com o outro e mudar os nossos hábitos de consumo. Nós criamos problemas que não estamos conseguindo solucionar. Falo no plural, já que, em maior ou menor grau, todos nós temos a culpa.

Na entrevista número nove (p.127),  com o título de “À uma sociedade melhor” (Cambridge, Massachussets, 11/03/2016), Chomsky fala da América do Sul, da Venezuela e do seu fracasso, uma mistura de corrupção e incompetência, e especificamente do Brasil, foco desta resenha. No próximo domingo o Brasil terá, possivelmente, a sua eleição mais complicada, já que, tudo indica (salvo aconteça alguma surpresa), a maioria dos eleitores preferem um candidato com ideias fascistas e totalmente imorais. E por que eles preferem isso?

(…) Se não abordarmos as raízes do problema, surgirá algo pior que as mesmas causas. (p.115)

Corrupção e incompetência são problemas comuns em toda a América Latina de um modo geral. Veja como o autor compara o Brasil com os Estados Unidos. O primeiro estancou no subdesenvolvimento e o segundo é um dos mais ricos do mundo (p.129):

Trata- se de uma região muito rica, com países que deveriam ser prósperos e desenvolvidos. Faz um século considerava- se o Brasil “o colosso do sul”, em analogia com o colosso do norte.

Chomsky diz que o Brasil näo desenvolveu- se por causa de uma principal razão interna (p.129):

É comum tratar- se de países dominados por pequenas elites europeizadas, maioritariamente brancas, muito poderosas e vinculadas economicamente e culturalmente ao Ocidente. Ditas elites não assumem a responsabilide de seus próprios países, o que conduz a uma opressão e uma pobreza assustadoras. Aconteceram tentativas de romper esta pauta, mas foram esmagados.

E continua (p. 129/130):

No entanto, durante os últimos quinze anos vários países- Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai e Argentina, tentaram abordar o estes problemas em que se denominou “guinada à esquerda” (em espanhol, “marea rosa”), com resultados diferentes. Quando se alcança algo de poder, acontece uma enorme tentação de colocar  a mão na caixa e viver como as elites, algo que minou a esquerda várias vezes. A Venezuela é um exemplo que serve de paradigma. O Brasil, outro. O Partido do Trabalhadores teve uma excelente oportunidade de mudar não só o Brasil, como toda a América Latina. Conseguiu algumas coisas, mas perdeu outras.

No período do Lula (p. 130):

(…) o Brasil, em muitos aspectos, era um dos países mais respeitados do mundo. O próprio Lula era muito respeitado, também por mim, tenho que dizer. Creio que é um líder mundial muito honroso. Sorpreenderam- me as acusações de corrupção e desconfio um pouco delas. Desconheço até que ponto é um golpe de Estado da direita e até que ponto se trata de algo real. As acusações que se fizeram públicas não são muito convincentes. De modo que esperaremos para ver o que acontece. Não creio que por agora tenham esclarecido os fatos. Mas é certo que a corrupção era muito grave.

Tal como Chomsky, eu creio que a prisão de Lula foi bastante duvidosa. E já minha opinião: foi orquestada para tirá- lo dessas eleições, pois seria um claro vencedor. Se o Brasil fosse um país sério, Lula, possivelmente, estaria livre. Nunca vi a “Justiça” brasileira trabalhar tão rápido, alguém já?

Ninguém compactua com a corrupção do PT, somos conscientes que muitos membros do partido erraram. Mas, foram punidos, inclusive alguns até mais da conta.

Pense bem em quem você vai dar carta branca governar o nosso país, no domingo (21/10), eleição de segundo turno no Brasil. As duas opções são:

  • Fernando Haddad, um professor universitário socialista, advogado, já foi Ministro da Educação, prefeito de São Paulo e tem experiência suficiente para assumir a administraçäo do Brasil. Casado há trinta anos, ficha limpa, respeita todas as pessoas e quer proteger a parte mais frágil da sociedade. Com um excelente plano de governo (já determinado e que podemos cobrar depois), com foco na Educação e Trabalho, e ainda a extinçäo da pobreza, também com a isenção de impostos para quem ganha até cinco salários mínimos. Progressista e com uma vice  jovem e gente finíssima, Manuela D’ávila. Teve o seu curto tempo de campanha infestado de fake news,  notícias falsas comprovadas e proibidas pelo TSE. Quer manter as empresas e o funcionalismo público. É contra a legalização de porte de armas e quer delegar mais tarefas à Polícia Federal, pretende coordenar todas as polícias para combater as redes criminosas em todo o Brasil (como funciona na Europa), #Haddad13 ou…
  • …um ex- militar expulso do Exército por “indisciplina” (algo mais que isso), parlamentar há 29 anos, deputado irrelevante em uma das cidades mais violentas do Brasil, o Rio de Janeiro, mas nunca fez nada. Prega a “moral e bons costumes”, mas faz justamente o contrário. Escondeu patrimônio, trocou a esposa de quarenta por duas de vinte, as conheceu no seu ambiente de trabalho (uma delas fugiu para o exterior ameaçada, segundo declararam amigos da mesma na Europa). Pretende vender o Brasil ( por isso o mercado financeiro aquece quando ele sobe nas pesquisas, os especuladores doidos para comprar nosso patrimônio público a preço de banana). Quer liberar armas para a população, inclusive para crianças, disse que os filhos começaram a atirar com cinco anos. Foge de debates, justificando problemas de saúde, mas faz lives diárias na internet, por horas, sem nenhum problema. O seu “plano de governo” é inexistente, obscuro e indefinido. O pouco que sabemos, como dar aulas virtuais para crianças, ao invés de irem para escola, é, no mínimo, patético. Sem esquecer dos ataques fascistas às minorias, da incitação à violência e ainda o seu vice, que é um sujeito para lá de inadequado e incompetente como o próprio. Segundo este artigo (com documentos), o candidato da ultradireita (assim denominado por toda a comunidade internacional) planejou um ataque terrorista em 1986, na cidade do Rio de Janeiro, quando era capitäo do Exército:

Também planejou ações terroristas. Iria explodir bombas em quartéis do Exército e outros locais do Rio de Janeiro, como na principal adutora de água da capital fluminense, para demonstrar insatisfação sobre índice de reajuste salarial do Exército.

Surpreendementemente, foi absolvido. O motivo da ameaça terrorista foi pelos baixos salários do Exército. Parece que virou herói entre os seus. Esse, sujeito que idolatra torturadores.

Ah, e um mentiroso, disse que não gastava dinheiro com sua campanha, mas foi financiado por empresas, que desembolsaram DOZE milhões de reais para mandar mensagens falsas no WhatsApp: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml

Para mim parece bastante fácil a escolha, mas como o Brasil passa por uma profunda crise de valores, então os prognósticos são péssimos, fato que anda me provocando um profundo mal- estar.

Chomsky, Noan. Malestar global- conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia. Ensayo Sexto Piso, Madrid, 2018. Tradutora Magdalena Palmer. Páginas: 199


O nicaraguense Sergio Ramirez ganha importante prêmio literário na Espanha


Qual a primeira coisa que você lembra quando ouve “Nicarágua”? Guerra, fome, violência? Creio que para a maioria das pessoas, sim, infelizmente. A América Central, talvez, seja a mais complicada e desconhecida das Américas. Composta por sete países: a citada Nicarágua, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá, El Salvador e Belice, países com belezas naturais exuberantes, praias paradisíacas, mas governados por políticos inescrupulosos, muitas vezes, com falta de democracia e liberdade; também há guerrilhas e guerras civis. Ramirez foi vice- presidente da Nicarágua e lutou contra a ditadura no seu país. É um tema muito amplo e complicado, voltemos ao literário.

O escritor e político Sergio Ramirez (Masaya, 05/08/1942), ganhou ontem o prêmio Cervantes na Espanha, considerado o Nobel das letras hispanas, é um prêmio muito importante  (125 mil euros, além do prestígio) e Ramirez foi o primeiro escritor, não só do seu país, mas da América Central a ganhar o Cervantes.

O escritor Sergio Ramirez

O escritor Sérgio Ramirez (Facebook)

Ramirez é prosista e tem uma obra prolixa, veja aqui a sua bibliografia completa.  O jurado considerou que o autor tem a capacidade de “transformar a realidade em obra- de- arte”.

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Sérgio Ramirez em sua casa em Manágua, ontem (El País)

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Sergio Ramirez e Nélida Piñón (sentada). A foto está no Facebook da autora, que está na Espanha agora: “Nélida Piñon, em Madrid, está exultante. Seu amigo, escritor nicaraguense, Sérgio Ramirez é o vencedor do Prêmio Cervantes de 2017, considerado o Nobel das letras castellanas. Em 2015, Sérgio Ramirez dedicou seu livro Sara à Nélida Piñon.

Seu último livro, “Ya nadie llora por mí” (“Já ninguém chora por mim”) foi lançado o mês passado. Mais um autor para a lista!

Resenha: Balada da infância perdida, de Antônio Torres


O meu pai não veio e não virá jamais. Odeia todas as cidades, sem distinção de tamanho, situação geográfica, renda ‘per capita’ ou densidade populacional. Diz que são invenções do diabo. Elas roubaram todos os seus filhos. (p.7)

Ler Antônio Torres é ler o insondável. Encontrei alguns elementos surpreendentes nessa narrativa do grande mestre Antônio Torres, imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Baiana de Letras.

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Antônio Torres no Corcovado, Rio de Janeiro (foto de André Correa)

Balada da infância perdida (1986) é o sétimo livro da carreira de Antônio Torres (Sátiro Dias, 13/09/1940), que sabe escolher título de livro, não é?! Lindo esse! Tem um quê de nostalgia, lirismo, um título poético. Esse é um dos livros que mais gostei do autor, tem uma variedade de elementos incríveis: prosa poética, alguns poemas, imagens bem construídas, algo de tragicomédia, família, o rural e a cidade, política, o sobrenatural, o onírico que faz o personagem entrar numa festa do “The great Gatsby”, sonhar reiteradamente com caixões, com sua mãe, sua tia e com o primo Calunga, todos falecidos. A magia de uma narrativa escrita há quase 30 anos, mas que continua atual. No que se refere às tecnologias, aquela época era diferente, mas não parece, só faltou citar o Facebook. Os fatos, os problemas sociais e existenciais, parecem que não mudaram muito, aliás, certas coisas nunca mudam. Por isso Antônio Torres é um clássico, porque seus livros são  atemporais, chegaram até aqui sem perder seu valor e podem tocar gente muito diferente, independente de classe social e de qualquer nacionalidade, tanto que já foi traduzido em vários países.

Falando em tradução, saiu a versão francesa de “Meu querido canibal”(“Mon cher cannibale”), traduzido por Dominique Stoenesco, com prefácio de Rita- Olivieri Godet. O lançamento acontecerá durante o Salon du Livre de Paris que começa hoje até o dia 23 de março, com a presença do autor, que já está em Paris. Voilà!

Como o nosso país vive tempos convulsos, escândalos de corrupção, o país dividido, cortado em duas bandas em pé de guerra, sempre é bom recordar que a ditadura deve ficar no passado, só na história e na ficção Independente do que aconteça, a democracia jamais deve ser tocada. Como disse Cervantes, “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens deram aos céus.”. Não percamos o bom senso e nem entremos em estado de histeria coletiva, radicais de ambas tribos. Equilíbrio é a palavra. Ninguém está tão certo, nem tão errado. Abaixo, o protagonista recordando tempos amargos:

Quarenta anos.

Aos vinte, me enfiaram uma ditadura pela garganta.

Agora que chego à idade madura, tenho de aguentar o peso do meu cansaço. Qual é a graça?

Em “Balada da infância perdida” há muitas citações e referências literárias, o espanhol Garcia Lorca, Charles Baudelaire, Scott Fitzgerald, o cineasta Carlos Saura, Gregório de Matos, Marcel Proust, Jacques Brel, Christiane Rochefort (“O repouso do guerreiro”, anotei na minha lista) e também Castro Alves, justo o poema que o menino Antônio Torres recitou em plena praça pública lá no Junco (hoje Sátiro Dias), ele sempre conta este “causo” nas suas entrevistas, dá uma olhada na web do escritor. Mas nesse caso, Calunga, Luis Carlos Luna, seu primo beberrão, que poderia ter um futuro “lindo”, mas não teve,  foi que quem recitou o poema, nervoso, diante da ovação dos presentes.

Torres encontrou uma forma muito criativa de separar os capítulos, de arquitetar a obra: o primeiro capítulo é introduzido com uma canção de ninar, que depois a gente vai entender o motivo, os próximos quatro são numerados, o sexto: Primeira hipótese: MAMÃE; o sétimo, Segunda hipótese: TIA MADALENA, A MÃE DE CALUNGA.

A mãe falecida bate altos papos com o filho vivo. Isto é, o narrador acredita nisso, parecem alucinações. As histórias da família começam a ser desenhadas: Zé, o pai manco e sua mãe foram capazes de gerar vinte e quatro filhos! A origem e as memórias rurais do autor acabam presentes em vários dos seus livros, dando um ar nostálgico, um memorial de sensações sofridas e alegres, contraditórias, nesse também. Antônio Torres é a memória de muitos imigrantes que abandonaram suas terras natais para tentar encontrar o seu lugar no mundo. As obras de Antônio Torres sempre estão em movimento.

Doce família baiana. Adora ser visitada. Principalmente pelos que moram longe e podem chegar de uma hora para outra, cheios de novidades. A porta estará sempre aberta e a mesa já vai estar posta. Hoje é dia de feijoada, caruru, vatapá, sarapatel ou o quê? (p.88)

E a tia Madalena defunta, “uma sargentona nata” (p.78) aparece nos sonhos do narrador, que ressuscita a tia através da descrição tão real que faz dela. Papo bem terrenal, a tia defunta protesta com o sobrinho por ainda não tê- la levado ao Mc Donald’s. Achei a cara do Modernismo! Eu classificaria essa obra de Antônio Torres como patafísica. É isso, é uma narrativa cheia de elementos patafísicos, surrealismo em estado puro. Transcende a narrativa linear, o espaço é um terreno inóspito, desconhecido, o da memória, talvez. Esse livro daria uma fantástica adaptação teatral. Veja o trecho abaixo (p.159), Che Guevara repousava no quarto do narrador, se a imprensa descobrisse, ele seria homenageado aonde? Na Academia Brasileira de Letras, entre outros lugares. Antônio Torres visionário? Aguentou firme os “quarenta discursos”, mestre?! 

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Em A terceira hipótese, (p.86) pode ser o capítulo que explique o porquê de tantos sonhos e caixões. A notícia sobre o primo Calunga morto prematuramente aos quarenta anos por causa da bebida. Até então os diálogos (ou monólogos?) com os defuntos pareciam acontecer no plano onírico, mas a história muda de dimensão. A conversa começa a acontecer com o narrador acordado. A realidade do absurdo.

 Um livro imprevisível, o que vem depois?! Talvez venha a saudade:

Você, em cima da carga, ia deixando o seu velho mundo para trás. Aqui e ali umas vaquinhas, umas ovelhas, uns cavalos. Pastos. Roças de mandioca. Uma casa com varanda. Uma casinha caiada, com uma árvore na porta. Quintais de bananeira. E o sol, morrendo no poente, dourando tudo. Era um pôr-do-sol amarelo com riscas vermelhas: uma pintura. Linda. Bateu uma coisa estranha dentro de você. O que era aquilo? Uma dor? Uma saudade? A partida. Você estava indo embora. Para sempre. (p.95)

O narrador- personagem não tem nome, só sabemos que é redator e casado com Cris, ele é o alter-ego de Antônio Torres, possivelmente, já que muitos trechos são autobiográficos (inclusive a profissão). A cidade venceu Calunga, que mergulhou no álcool para amortecer a vida que não queria ter. Muita gente imigra, sofre e sente- se só. Que aconteceu com Calunga? Foi vencido. Como ele, muitos. Para Calunga os versos de Alexandre O’Neill (p. 155). O último capítulo, Boi, boi, boi/boi da cara preta. Começa assim: Vai ver a minha tia é quem tem razão: – A culpa é dos comunistas. Calunga foi empregado por um comunista. Tudo é culpa dos comunistas, a mãe os culpou pelo deterioro e morte precoce do filho. O narrador faz uma defesa do Comunismo (p.178) lista uma série de dados e estatísticas que os comunistas denunciam sobre tudo de errado que acontecia no Brasil.

Contexto histórico: pós- ditadura, 1986. Um dos dados: “Que só existe um médico para cada 1700 pessoas?”, argumenta com a tia Madalena, que detesta comunistas. E “Que, no ano da graça de 1986, temos 38 milhões de pessoas na mais completa miséria?”. E segundo dados do IPEA de 2014, 0 Brasil ainda tem 26,24 milhões de pessoas que vivem em extrema pobreza. Outro dado: “Que 40% da população está desempregada?”.

E infelizmente, tenho que dizer, que quase 30 anos depois e 12 anos do governo do Partido dos Trabalhadores, com tendência comunista, esses dados melhoraram, mas não o suficiente, ainda existe no país muita gente abaixo da linha da pobreza. Segundo os dados do IBGE (2014), no Brasil existe 1,95 médicos por mil habitantes, mesmo com o programa “Mais Médicos”, um dos maiores absurdos da história brasileira, a “importação” de médicos cubanos, a modo reféns no país. Metade do dinheiro fica em Cuba e os médicos só receberão a outra parte, se e quando, regressarem ao país, que vive uma ditadura. O governo brasileiro amicíssimo dos Castro e fazendo pactos com a ditadura e troca de favores estranhíssimos. No Maranhão, só existe meio médico para cada 1000 habitantes, 0,68%. Sobre o desemprego, o dado oficial, que agora é de 6,8% é uma número mascarado, já que as pessoas que não procuram emprego e estão desempregadas não entram para essas estatísticas e nem as pessoas que exercem ofícios informais (que são muitas!). Segundo o economista Ricardo Amorim, o número real de desempregados no Brasil é quase a metade da população em idade para trabalhar:

Pelos dados oficiais do IBGE, de cada 100 brasileiros em idade de trabalho, 53 trabalham, três procuram emprego e não encontram e 44 não trabalham nem procuram emprego. É considerado desempregado quem procura emprego e não encontra (3%) sobre o total dos que procuraram emprego (56%): 3% / 56% = 5%. Quem não procura (44%) tecnicamente não está desempregado. Esta não é uma manipulação estatística feita pelo governo brasileiro. O mesmo conceito vale no mundo inteiro. Porém, se a estatística não é manipulada, sua interpretação é. Baseado na estatística de desemprego, o governo sugere que quase todos os brasileiros têm emprego. Na realidade, quase metade (47%) não tem.

Falta transparência e honestidade. Essencial é ajudar as pessoas que estão na miséria no país, o que se faz ainda é insuficiente e da forma equivocada. Provoca- me repulsa que cobrem 25% dos aposentados que moram no exterior, fora o imposto “normal” que todos pagam. E mais, agora cortaram 50% da pensão por viuvez. Além de perderem marido ou esposa, ainda levam uma cacetada destas! Por que mexer com esse coletivo tão frágil? A maioria dos aposentados e pensionistas no Brasil não recebe o suficiente para a própria sobrevivência, justamente na fase que pode precisar de mais de cuidados e tratamentos médicos. Isso não é fazer socialismo, tirar de pobre, aonde já se viu?! Karl Marx deve estar se revirando na tumba! Os fins não justificam os meios, as coisas podem e devem ser feitas de outra maneira. Afinal, O SHOW TEM QUE CONTINUAR (título do último capítulo, pg. 172).

Eu quero um novo partido socialista no Brasil, que não prejudique aos pobres, aos remediados e nem aos ricos, bom senso! Eu quero um governo socialista que promova ações de integração e de eliminação da miséria reais e duradouras, que não classifique as pessoas pela sua cor  e que una o país por um objetivo comum e não fragmente uma nação gigante como a nossa! A esquerda “endireitou”, estão todos iguais, inclusive no quesito corrupção. O comunismo se perdeu, anda perdido. Com esse a parte, seguimos…

Antônio Torres escreveu obras, pelo menos as que li até agora, que podem encaixar- se na tradição modernista (o regionalismo, o surrealismo, por exemplo), principalmente de terceira geração, mas Balada da Infância Perdida também tem elementos muito pós- modernos. Essa obra me deixou confusa (no bom sentido). Talvez a pós- modernidade seja isso, confusão. Mas… como seria uma obra de Antônio Torres escrita hoje? Já existe uma literatura pós- moderna com características comuns a todas as obras ou paramos no Modernismo? Já dá para definir a literatura de hoje? Ou a literatura contemporânea ainda é a de antes? A crítica deu fim ao Modernismo lá pela década de 70 (serve como marco, mas isso não é exato, cada crítico dá uma data diferente). Mas será que vivemos um Modernismo tardio? As vanguardas persistem e resistem? Por que não conseguimos definir e nomear o que anda acontecendo? Ainda continuamos na fase da “literatura de permanência” de Antônio Cândido? Por que é tão difícil ver com clareza o que acontece agora? Já sei, é a “era da modernidade líquida”, uma época de crise de identidade das Letras, Artes, Ciências Humanas e Sociais, em resumo: da espécie humana. Se eu achei essa obra “atual”, e esse é um livro modernista (escrito 16 anos depois do fim dessa escola, “oficialmente”), não saímos do Modernismo, então? Eu fico tentando procurar diferenças entre as duas “escolas”. A Literatura Contemporânea ainda é coisa para se definir, inclusive o próprio termo é inexato e inadequado. Vamos pensar nisso?

Anota esse na sua lista, livraço!

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Torres, Antônio. Balada da infância perdida. Record, Rio de Janeiro, 2011. ePub. 178 páginas (edição não corrigida segundo com o novo acordo ortográfico).

O poeta louco e maldito: Leopoldo Maria Panero


Faleceu nesse mês de março o poeta Leopoldo Maria Panero  (Madri,16 de junho de 1948 – Ilhas Canárias, 5 de março de 2014). Seus pais, Leopoldo Panero e Felicidad Blanc, também eram poetas, assim como seu irmão Juan Luis Panero. Panero formou- sem em Letras na Universidade Complutense de Madri e Filologia francesa na Universidade Central de Barcelona. Foi nessa época que o escritor provou várias drogas, entre elas a heroína, que foi fonte de inspiração para vários de seus poemas. A heroína é uma das drogas mais viciantes e prejudiciais ao organismo, não provem crianças! Com duas ou três vezes a pessoa já se vicia e há quem diga que é quase impossível deixá- la. Panero viveu a maior parte da sua vida internado em hospitais psiquiátricos, entrou a primeira vez com 19 anos,  morreu na mais absoluta solidão num deles, já não tinha mais ninguém da sua família. Ele foi apaixonado pela escritora Ana María Moix, que faleceu uma semana antes do Leopoldo.

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Leopoldo María Panero, sentado num bar na ‘Plaza de las Palomas’ na cidade de León em maio de 2011. (foto: José Ramón Vega González)

Panero era da esquerda radical, anti- franquista (Francisco Franco, ditador da Espanha), ao contrário do seu pai, foi um rebelde nos anos 60 e 70, sua obra poética é singular, ele foi marginado e marginalizado, escritor (e pessoa) tabu na sua geração.

DEDICATORIA

Más allá de donde
aún se esconde la vida, queda
un reino, queda cultivar
como un rey su agonía,
hacer florecer como un reino
la sucia flor de la agonía:
yo que todo lo prostituí, aún puedo
prostituir mi muerte y hacer
de mi cadáver el último poema.

DEDICATÓRIA

Mais além do onde
ainda se esconde a vida, fica
um reino, falta cultivar
como um rei sua agonia,
fazer florescer como um reino
a suja flor da agonia:
eu que tudo prostituí, ainda posso
prostituir a minha morte e fazer
do meu cadáver o meu último poema.
 

Abaixo, dois documentários  (em espanhol): “Depois de tantos anos” (1994, de Ricardo Franco), que fala sobre a família Panero, e em seguida, “O desencanto” (1976, de Jaime Chávarri) , sobre a vida de Leopoldo Panero, pai de Leopoldo Maria, que era “falangista” ( a favor da ditadura):

 
http://www.youtube.com/watch?v=MfJ2l_dVliQ

Leopoldo Panero: a loucura que se fez poesia ou a poesia que fez a loucura? O certo é que seu pai era alcoólatra e uma tia era esquizofrênica, a sua loucura podia ter origem genética.

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Mas, o importante mesmo, é que esse poeta louco nos deixou uma obra importante e visceral, das mais profundas. A bibliografia (em espanhol) do autor:

Por el camino de Swan (1968)

Así se fundó Carnaby Street (Ocnos, 1970).

Teoría (Lumen, 1973)

Narciso en el acorde último de las flautas (1979)

Last River Together (1980)

El que no ve (1980)

Dioscuros (1982)

El último hombre (1984)

Antología (1985)

Poesía 1970–1985 (1986)

Contra España y otros poema de no amor (1990)

Agujero llamado Nevermore (Selección poética, 1968–1992) (1992)

Heroína y otros poemas (1992)

Piedra negra o del temblar (1992)

Orfebre (1994)

Tensó (1996).

El tarot del inconsciente anónimo (1997)

Guarida de un animal que no existe (1998)

Abismo (1999)

Teoría lautreamontiana del plagio (1999)

Poemas del manicomio de Mondragón (1987)

Suplicio en la cruz de la boca (2000)

Teoría del miedo (2000)

Poesía completa (1970–2000) (2001)

Águila contra el hombre: poemas para un suicidamiento (2001)

Me amarás cuando esté muerto (2001).

¿Quién soy yo?: apuntes para una poesía sin autor (2002).

Buena nueva del desastre (2002)

Poemas del manicomio del Dr. Rafael Inglot (2002)

Conversación (2003).

Esquizofrénicas o la balada de la lámpara azul (2004)

Erección del labio sobre la página (2004)

Danza de la muerte (2004)

CD-Libro Moviedisco (2004)

Poemas de la locura seguido por El hombre elefante (2005)

Presentación del superhombre (2005)

Visión (2006)

Outsider, un arte interior (2007)

Páginas de excremento o dolor sin dolor (2008)

Sombra (2008)

Escribir como escupir (2008)

«Conjuros contra la vida» (2008)

Voces en el desierto (2008)

Esphera (2009)

Tango (2009)

La tempesta di mare (2009)

Reflexión (2010)

Locos de altar (2010)

La flor en llamas (2011)

Traducciones / Perversiones  (2011)

Territorio del miedo / Territoire de la peur  (2011)

Cantos del frío (2011).

Poesía completa. 2000-2010 (2013).

Sua obra narrativa:

El lugar del hijo (1976)

Dos relatos y una perversión (1984)

Y la luz no es nuestra (1993)

Palabras de un asesino (1999)

Los héroes inútiles (2005)

Papá, dame la mano que tengo miedo (2007)

Cuentos completos (2007)

Ensaio:

Mi cerebro es una rosa (1998)

Prueba de vida. Autobiografía de la muerte (2002)

Pablo Neruda será exumado depois de 40 anos da sua morte


O corpo do poeta Chileno Pablo Neruda será exumado após 40 anos da sua morte. Neruda era comunista e faleceu 12 dias depois do golpe de Estado de Augusto Pinochet. Existe uma desconfiança de que o poeta possa ter sido assassinado e que não tenha morrido de câncer de próstata como se pensava. O juíz Mario Carroza tomou essa decisão, confirmada na página da Fundação Pablo Neruda, depois que o motorista e guarda- costas de Pablo Neruda, Manuel Araya, que o acompanhou na sua tentativa de fuga de Santiago ao México, afirmara que o poeta recebeu uma injeção letal no estômago no dia 23 de setembro de 1973. Ele também foi preso e, quem sabe por medo, calou durante quase 40 anos.

pablo_nerudaTerá sido o poeta Prêmio Nobel de Literatura de 1971 assassinado pela ditadura de Pinochet? Em breve saberemos.

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

Pablo Neruda