Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

29571360_965128723642688_6404595740615182933_n       Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. Presença, Lisboa, 2008. 204 páginas

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Resenha: “Gente feliz com lágrimas”, do português João de Melo


A primeira resenha do ano! Essa obra eu comecei a ler em dezembro, pensei que conseguiria postar no ano passado, mas a resenha saiu agora. Por isso, este livro não está na minha Lista de vinte e quatro livros para 2018. Serão, pois, vinte e cinco resenhas (espero e no mínimo),  neste ano.

Este é o título de livro mais incrível que já vi: “Gente feliz com lágrimas”… que beleza, carregado de significados! Como uma frase tão pequena pode dizer tanto?!  Não só diz, comove e acerta direto no coração. Um autor com essa inteligência e sensibilidade para resumir a sua história desta maneira já lhe outorga, de antemão, muita credibilidade. Decretado o título mais bonito de todos os livros do mundo, vamos ao autor e à obra:

João de Melo, 68 anos, nasceu em Achadinha, Ilha de São Miguel, Açores (Portugal). É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e foi professor nos ensinos secundário e superior. Já morou em Madri (inclusive tem um livro chamado “Mar de Madri”), trabalhou na Embaixada de Portugal como conselheiro de cultura, mas agora vive em Lisboa. Publicou mais de vinte livros.

Joao de Melo novembro 2017João de Melo e seus olhos azuis, tal como seu personagem Nuno. (foto: Facebook do autor)

Li em algum lugar no seu Facebook, que “Gente feliz com lágrimas”(1998) mudou a sua vida. Eu creio nisso, nesse poder transformador da literatura em vários âmbitos, tanto pessoal, quanto coletivo. A obra vai completar 30 anos em 2018. Na Espanha, o livro foi apresentado em 1992 e o autor estava acompanhado adivinha por quem? José Saramago. 

Na terra do autor. (foto: Paulo Nóbrega- Facebook)

A obra está organizado assim em cinco “livros” e com um epílogo, o “Livro Zero” chamado “A felicidade sábia”.

O enredo: saem de barco dos Açores até Lisboa, Nuno Miguel, de dez anos, e Amélia, de dezesseis. O menino vai para um seminário estudar para padre por ordem do pai e a moça com o sonho de  cursar enfermagem, ela vai para um convento. Eles são da zona rural, um lugar chamado Rozário.

O mal estar da viagem e as impressões ao chegar em Lisboa pela primeira vez, é uma bela descrição fotográfica. O menino, deslumbrado com a cidade, desperta ao lembrar que “meu destino não era Lisboa, e sim, o seminário”. (p.18) O menino ia num táxi do porto ao seminário sofrendo, o seminário fica a três horas de Lisboa. :

“Deus pode certamente expulsar- nos da infância.” (p.21)

Para Amélia, foi a maior alegria da sua vida chegar em Lisboa, mas esse bom sentimento não a acompanha ao entrar no convento:

“Nunca mais a minha vida ia ser fechada nessa redoma invisível, de onde apenas se viam o mar, as nuvens paradas e a distância infinita.”(p. 21)

Ambos, Nuno e Amélia, têm a sensação de serem estrangeiros no próprio país. A distância geográfica, o sotaque e o léxico insular são diferentes do continente.

A sensação de Nuno no continente pode ser similar a de um português no Brasil ou vice- versa. A mesma língua, mas há dificuldade de entendimento. A sensação é de estranhamento e desorientação. Nossa vasta língua e suas variantes.

Sobre as palavras “imigrar” ou “emigrar” há diferenças: o imigrante sai da sua terra com caráter definitivo e o emigrante sai da terra com caráter provisório (Priberam). Mas, como saber quando é um ou quando é outro? A vida é muito surpreendente e imprevisível para saber. Há outro tipo definição, que eu gosto mais: o imigrante sai do seu país, e o emigrante move- se dentro do seu próprio país. Uma coisa é certa: sair da zona de conforto transforma, modifica. Nuno, (p. 26):

Para não ter de continuar a responder- lhes e não ser compreendido, decidiu agarrar na almofada e comprimi- la à volta dos ouvidos. A sua vida ia assim mergulhar num subterrâneo sem fundo nem altura. Nunca mais ele voltaria a ser igual a si mesmo. (…)

“Gente feliz com lágrimas” é literatura emocional, interior, psicológica. A maior parte do romance acontece no mundo interior dos personagens, por isso é universal. Tanto faz a nacionalidade do autor ou dos personagens. Mas, também é um retrato de uma boa parte da sociedade portuguesa, que sai das ilhas ou do interior, e imigra para fugir das dores e conseguir melhores condições de vida.

Nuno, já adulto, não tem boas recordações dos pais. Ele recorda o pai com ressentimento, a sua indiferença, frieza, o seu esquecimento quando partiu para Lisboa. A mãe era uma figura ausente, cumpria as ordens do marido. Ia tendo os filhos e o mais velho cuidava do mais novo. A família morava numa casa pequena, apertada, os filhos ouviam os pais terem relações sexuais e Nuno ouvia o irmão deitado ao seu lado, masturbando- se. Nuno sabia tudo que ia acontecer, passo a passo, no quarto dos pais. Como pode influenciar na vida de um filho, presenciar a sexualidade dos pais? Nuno casou- se com Marta, o romance não deu certo e  teve que procurar um psicólogo.

No segundo capítulo, “Nuno Miguel”, o próprio nos faz um convite (p.60):

Fui pai de mim mesmo, sabe? E pai de filhos só meus. Sei que viver não é diferente de criar. E penso, em última análise, que ninguém resite à sabedoria do Bem dos escritores: são anjos e os demônios da pequena vida. Por isso aqui estou. Para lhe dar conta, como diria o poeta O´Neill, da minha santa e ternurenta vidinha…Topa?

Topamos, Nuno, aqui estamos.

O terceiro capítulo, “Maria Amélia”. Ela recorda a casa que viviam quando era pequena, “com chão de terra batida e escura como breu”(p.61). A vida dos pais na roça não era nada fácil cuidando das vacas esquálidas. Amélia dormia num quarto de madeira no alto da casa, muito baixo, tinha que entrar de cócoras, “naquele barraco escuro e desprotegido”, havia ratos e ferrugem. Ela dormia com a cabeça tapada, pelo medo e para esquentar. Coisa que nunca deixou de fazer,  adulta e casada. A infância realmente marca condutas do futuro (p.63):

(…) Now, after all this time, a minha vida parece continuar assim, rasteira e aflita sob o peso e o escuro dessas multidões de nuvens, eternamente levada pelo vento.

Havia escassez de comida para ela e os quatro irmãos. Mas ela recorda com carinho do pão de trigo ou milho, com açúcar ou mel, e a manteiga, que tinha “um sabor delicioso”.

O texto de Amélia é cheio de frases em inglês. Ela imigrou para o Canadá e recorda como apanhou, com quatro anos e meio, por abrir a porta à prima Manuela, brincar de casinha e esquecer de cuidar dos irmãos menores. A mãe deu- lhe uma surra, passou a tarde toda levando beliscões, puxões de cabelo e bofetões. Teve que parar de chorar, porque o pai estava para chegar. Pais violentos em palavras e ações (p.67):

– Tal excomungada! Berrona do inferno: se te ponho as mãos em cima, deixo- te negra de pancadaria.

A criança desacostumou de brincar, cresceu rápido demais. Ela descreve os gêmeos, Nuno e Carlos. Escolheu cuidar de Nuno, porque parecia mais frágil, e Domingas, cuidou do outro pequeno, que apesar da aparência robusta, faleceu quatro semanas depois, ambos estavam com tosse. A mãe havia pedido que Deus levasse uma das crianças, porque o dinheiro com remédios os estava arruinando. Chocante, não? Mas, quando não se tem o básico para sobreviver, há que ser prático. Mas Amélia já amava a Nuno e daria sua vida pela dele.

Amélia ficava entre o ódio e o amor pelo pai. Odiava a sua frieza, mas o admirava pela sua fortaleza. Ele escolhia as madeiras e pregos para fazer os caixõezinhos dos filhos mortos, Carlos, Vítor Primeiro e Vítor Segundo. Nunca viu o pai chorar, mas ele não comia quando sabia da morte dos filhos. A mãe e as vizinhas agradeciam a morte dos anjinhos, porque morriam sem pecado.

Luís Miguel, um dos filhos, também tem voz. O livro inteiro é uma obra- prima , eu o destacaria inteiro, pura arte literária (p.73):

Nascíamos em segredo. De partos apenas um pouco queixosos, como murmúrios de gente soterrada.

O rapaz também não tem boas recordações da infância (p. 76):

A minha e a infância dos meus irmãos ficou apagada no tempo e do luxo dos retratos. Nunca fomos de anjo nas procissões, e nunca os meus pais se comoveram com a voz suplicante dos retratistas de fora da terra que garantiam a perfeição humana e a arte de emprestar à vida um pouco de sabor e saudade.

Luís tinha estrabismo e  dentes tortos, que o próprio pai tratava de arrumar arrancando- lhe sangue. Também imigrou para o Canadá. Considera- se “O palhaço pobre da família”. O personagem conta sobre a sua única foto de família tirada por um tio, que reuniu os dezessete sobrinhos. Ele descreve- se e conta sobre o seu olho preguiçoso.

Espiando entre as fotos dos familiares do autor, descobri uma muito interessante, antiga, com uma menino usando um tampão no olho. O dono da foto é Jorge de Melo, reproduzo aqui, porque a foto é pública:

Seria Jorge de Melo, irmão do autor,  o alter- ego de Luís Miguel no romance? Não sei se o menino com o tampão no olho é o dono da foto ou é um irmão… ou seria o próprio autor? João de Melo, “magro de olhos azuis”, o alter- ego de Nuno? Tal como o personagem, João de Melo entrou para um seminário aos 11 anos. Possivelmente, um romance com tintas autobiográficas. É preciso sentir para saber, não é?

Jorge, tal como Luís (o personagem) mora no Canadá. Na foto, o primeiro da direita deve ser o autor de “Gente feliz com lágrimas”. São coisas que nós, leitores, pensamos e especulamos, mas nada disto importa. Nunca devemos confundir autor com os personagens, mesmo que haja coincidências. É ficção.

As vozes dos três narradores vão se intercalando: Nuno Miguel, Luis Miguel e Maria Amélia.

Nuno recorda (p.87) que nunca houve festa alguma na sua casa de infância, nada de presentes de Natal, nem os aniversário eram lembrados. Os brinquedos eram feitos por eles mesmos com cascas de frutas, galhos de árvores e afins. Andavam descalços, sapatos só aos domingos. O pai cortava os cabelos das crianças com um “tesourão enferrujado”. Os pais não eram tremendamente pobres, mas sim, muito avarentos.

Os pais morreram precocemente e Maria Amélia acredita que só o tempo fará com que as memórias de infância sejam vistas com mais claridade. Ela começa a narrar como foi mudar para uma casa nova. Amélia recorda dos gritos do pai quando ela precisou usar óculos, como se fosse culpa dela. Para o pai, “óculos eram um luxo” e quis tirá- la da escola para não ter essa despesa. Apesar das dores, a filha consegue enxergar o lado humano dos pais e suas preocupações. Sob a sua visão, o pai era extremamente trabalhador e a família era o mais importante para ele, que era carpinteiro.

Os filhos começavam a trabalhar muito cedo, mas frequentavam a escola. Apanhavam muito, trabalhavam muito, estudavam e não brincavam. Maria Amélia, Domingas, Nuno, Luís Miguel, Linda, Flor e Jorge.

Não sei dizer como nem quando os sonos da infância se converteram  na insônia da minha vida. (Nuno Miguel, p.115)

O pai morreu em Vancouver devido a um câncer e orgulhoso por ter deixado “duas terras a cada filho e um montinho de ‘dolas’ nos bancos canadianos. Não têm de se queixar de mim…”. O valor que cada um dá as coisas, não é? O material sobrevalorizado.

O professor de Nuno e Amélia chama- se “Quental”. Pode ser uma referência e/ou homenagem ao grande poeta açoriano Antero de Quental (1811-1876), um escritor para colocar já na sua lista!

Nuno levou uma bofetada por não querer escrever uma carta para a tia. O analfabetismo na zona rural, os homens que viajavam para o Brasil ou a América, a necessidade e a saudade. No coração de quem vai sempre há algo de “vontade arrependida”, adorei este termo. A complicação de ser imigrante:

“Quem me dera a mim”, diziam, “poder voltar atrás no tempo, regressar a esse borralhinho*. Comer pão de milho amarelo com inhame ou toucinho, sem dúvida, mas não ter que chorar estas lágrimas nem estar tao longe desse mar e duma terra onde toda a gente se conhece…” Arrependidos como cães por terem atravessado tanto mar, do qual continuavam enjoados e em agonia- e nós a pensar que eles se riam de nós à distância, gordod, luzidios, finando- se tão só num riso de lágrimas trocistas… (p.111-112)

Mais algumas coincidências do autor com o personagem Nuno: ambos são professores e escritores, formados em Letras.

Nuno sentiu uma necessidade imperiosa de escrever. Escrever exige solidão e esquecimento do mundo. Os melhores escritores são e foram um pouco (ou muito) misantropos. É meio inconciliável ter família, trabalhar oito horas e ainda conseguir ser um escritor de primeira linha. Não dá pra fazer tudo bem. É bem assim mesmo, pelo menos provisoriamente, a pessoa tem que se afastar:

– Tenho um livro aberto dentro de mim. Se não puder escrevê- lo agora, corro o risco de naufragar. Asseguras sozinha as despesas da casa, ou decidimos pôr- nos de acordo quanto ao divórcio? (Nuno para Marta, p.116)

Curiosidade lexical: “vavó” é um jeito açoriano de falar “vovó”. A “vavó” da família chama- se “Olinda”, era coxa e morreu dormindo aos noventa e nove anos (p.226); e o “vavô”, Botelho, meio brigado com o filho.

Tem até um biscoito da ilha chamado “Biscoitos da Vavó Sol Nascente”. Os Açores são um arquipélago formado por quinze ilhas. Clique aqui e veja se não dá vontade de ir conhecer!

Um das recordações mais tristes foi uma surra homérica que Nuno recebeu do pai em meio à chuva. O menino chegou em casa semi- morto, desmaiou, ficou com febre, quase morreu. Ressuscitou quando o pai, talvez pelo remorso, foi carinhoso:

– Papá quer ver- te comer aluma coisa, meu filho. Quando não, vais morrer de fraqueza, sem ação nos ossos. Vá lá, Nuno. Anda, meu homem. Há- de um pai deixar o filho morrer à fome, com tanto que há para se comer na casa? (p. 231)

E Nuno Miguel comeu.

“E os olhos dele, rasando- se de lágrimas, eram afinal olhos felizes com lágrimas (…)

Quando Nuno voltou aos Açores, foi recebido pelos muitos tios, já idosos: Sônia, Esperança, Urânia, Horácia, Jaime, Mercês, Olímpia, menos tio Zacarias, em paradeiro desconhecido e as outras tias que imigraram para o Brasil, esses da parte do pai; da parte da mãe, imigraram para “Toronto, Vancouver e Boston”. A tia dos afetos é a Olímpia, a que o faz sentir que ainda vale a pena voltar para casa:

– Descansa, que eu ainda cá estou para tomar conta de ti, sobrinho- diz. E, depois de lhe envolver o rosto com as mãos, estuda- lhe o olhar, abana a cabeça e acrescenta: – O que tu tens é uma grande ferida nesses olhos, filho da minha alma. (p.517)

Já contei demais, não é? Não vou contar qual é o destino dos personagens. Agora é com você!

Melo, João de. Gente feliz com lágrimas. Dom Quixote- Booket, Lisboa, 2008. Páginas: 524

A edição lida acima foi abocanhada pelo Lolo, o meu cachorrinho. Ficou sem capa, mas é a edição comemorativa da Booket (2008) dos 25 anos do romance.

Deixo aqui o link da melhor livraria online portuguesa, caso você queira comprar uma das várias edições de “Gente feliz com lágrimas”; também há e-books para quem estiver fora da União Europeia e quiser ler esta obra magistral sem pagar o frete.

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É um desejo meu que “Gente feliz com lágrimas” seja conhecido e lido no Brasil. Alô, editores!

Obra recomendadíssima, coloque aí na sua lista!

*sinônimo de “lar”.

Dez livros que você deve ler antes de morrer


Para os amantes da literatura (ou não), recomendo esses dez grandes livros da nossa literatura brasileira, essenciais na biblioteca de todo bom leitor, veja quantos leu dessa lista, se tiraria ou acrescentaria algum deles:

  1. “Dom Casmurro”, de Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) foi o melhor escritor que o Brasil teve de todos os tempos. Recomendo a leitura de toda a sua obra, mas escolhi “Dom Casmurro” pela intriga, pela dúvida e mistério que Machado cria em torno dos personagens Capitu e Bentinho. Será que a esposa traiu o marido? Uma obra imperdível!

  1. “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa.

É uma saga sertaneja que impressiona pela inovação e riqueza da linguagem. Guimarães Rosa (1908- 1967) foi um escritor único, inimitável, muito original, que vai te deixar impressionado ou impressionada. É uma obra muito, muito complexa, que irá te fazer pensar em muitas coisas da vida. Garanto!

  1. “Essa Terra”, de Antônio Torres.

Uma obra emocionante, que certamente irá tocar o seu coração imigrante. Antônio Torres (1940) conta a história de uma família baiana humilde do interior. Um dos filhos vai para São Paulo, como é o destino de muitos nordestinos. Uma narrativa composta de tragédia, comédia, drama, que chacoalha sentimentos.

  1. “A hora da estrela”, de Clarice Lispector.

O último livro de Clarice Lispector (1920- 1977), “A Hora da estrela”, conta a triste vida de Macabéa, uma nordestina na grande cidade. A moça vive e come mal, é maltratada pelo namorado e pelo chefe, traída pela amiga, mas consegue manter a ingenuidade e a esperança. É de uma beleza e sensibilidade comoventes!

  1. “A república dos sonhos”, de Nélida Piñón.

Nélida Piñón (1937) é a melhor escritora brasileira de todos os tempos! Você pode comprovar lendo “A república dos sonhos”, um trabalho fino de arte literária. Os pais da autora eram espanhóis e Nélida tem uma relaçao íntima com a Espanha, fato refletido nessa obra. Esse romance conta a história de imigrantes galegos no Brasil. Vale a pena!

  1. “Compêndio para uso de pássaros- Poesia reunida de 1937- 2004”, de Manoel de Barros.

Esse é uma obra para ficar na sua cabeceira (e no seu coração) para sempre! Manoel de Barros (1916- 2014), poeta, escreveu a vida e a natureza com uma beleza infinita!

  1. “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.

Uma obra feita para o teatro, uma comédia, de Ariano Suassuna (1927- 2014). Os personagens João Grilo e Chicó são hilários e inesquecíveis, não deixe de ler!

  1. “Vidas secas”, de Graciliano Ramos.

Essa obra- prima de Graciliano Ramos (1892- 1953) é bastante marcante e forte. Conta o drama de uma família retirante nordestina e as agruras da terra seca, a luta pela sobrevivência. Os personagens mal falam, soltam sons guturais, e com isso, expressam muito. A cachorra Baleia é uma grande protagonista, quase humana. Ou são os humanos que estão à beira da desumanização devido ao sofrimento? Grande livro!

  1. “O sentimento do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.

Você tem que ler toda a obra de Drummond (1902- 1987), esse é um autor essencial. Sua obra poética é rica e bela. O autor era jornalista e escrevia crônicas também. Seus versos são de arrepiar!

  1. “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles

A grande escritora brasileira, Lygia Fagundes (1923), conta no seu primeiro romance “Ciranda de Pedra”, um drama familiar. É um romance psicológico que nos faz refletir sobre a nossa própria vida.

Publicado originalmente na Revista BrazilcomZ (Espanha), abril/2016, Fernanda Sampaio.

Resenha: “A República dos Sonhos”, de Nélida Piñón


– Cuidado, Eulália, desconfie das palavras. Elas tanto afirmam quanto desdizem. E isto por conta da nossa vaidade. ( p.14)

Ler “A república dos sonhos” é ler uma vida inteira. É ler a saga de uma família, três gerações. É ler a história do Brasil, sua política, usos e costumes. É desvendar o sentimento imigrante não importando a nacionalidade, há um sentimento comum a todos. É ler a história da Galiza, suas gentes, lendas e superstições. É descobrir que a família pode ser amor e ódio.

Ler esse livro mostrou- me que o Brasil já está errando há tempo demais. A leitura do Brasil nação é atual e acaba sendo triste. Não evoluímos, o tempo não jogou a nosso favor. Ainda falta muito pra melhorar em todos os setores e temo que esteja muito distante.

De que me vale a riqueza de ter duas pátrias, se as duas me querem dividir, ambas me fazem sentir que não pertenço a lugar nenhum. (p. 182)

A memória, as vozes do passado, raízes, família, pátria, amor e ódio dão o tom da narrativa.

Com esse livro, Nélida Piñon alcançou o nível máximo na excelência da arte literária. Não se pode escrever melhor! Eu havia lido seus contos e “A casa da paixão”, mas essa narrativa prolixa e excepcional, me conquistou completamente! Posso compará- la e colocá- la no mesmo patamar de Marcel Proust, Machado de Assis ou Dostoiévski, nível A. Nélida Piñón é a Proust brasileira! Fiquei muito impressionada com essa obra.  Ah, também lembra “Cem anos de solidão”, de Gabo. Nélida Piñón tem uma escritura fina, rica e elegante. Veja como começa:

Eulália começou a morrer na terça- feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. (…) (p.7)

O primeiro capítulo serve como apresentação do casal protagonista, já idoso, que prepara- se para o final de Eulália, que pressente a morte e prepara- se para tal. Essa obra trata da história dessa família de imigrantes galegos que foram para o Brasil em busca de um sonho. O povo da Galiza tem essa vocação imigrante, na própria Espanha são conhecidos assim. Essas terras galegas não oferecem (até hoje) as melhores condições de vida e trabalho, o tempo inclemente, muita gente vive do mar e da terra, ofícios duros e sem boas  expectativas de futuro, o que os empurra a sair da sua terra. A neta Breta tenta reconstruir a saga da sua família.

– O mar é a minha memória, Venâncio. (…) (Madruga, p. 11)

Alguns personagens:

Eulália: imigrante galega (espanhola), casada com Madruga. Muito religiosa, mãe dedicada, submissa ao marido, resignada, misteriosa. Forte e frágil ao mesmo tempo. Preparou caixinhas com recordações para cada um dos filhos.

Madruga: imigrante galego (espanhol), casado com Eulália. Imigrou adolescente para  Rio de Janeiro com muita força e ganância. Teve sorte, começou a trabalhar em um hotel de um espanhol e logo passou a ser sócio do negócio. Assim começou o seu império. Machista, frio com os filhos e a esposa, os filhos o consideram um déspota.

Venâncio: velho amigo de Madruga e Eulália, chegaram juntos no Brasil em um navio inglês, no ano de 1913. Ao contrário de Madruga, não teve êxito financeiro, era seu empregado. Seus valores e sentimentos eram muito diferentes, mas mantiveram- se unidos até o final. Escreveu um diário, dessa forma podemos conhecer quem é e o que pensa.

Dom Miguel: pai de Eulália

Odete: a servente de Eulália. Apesar da abolição da escravatura em meados do século XIX, a escravidão no Brasil continuou no século XX. Até hoje vemos e sentimos as consequências.

Breta: neta de Eulália e Madruga, filha de Esperança, que morre (“spoilerzinho”!)

Xan: avô de Madruga, distante, mas sempre presente

Urcesina: mãe de Madruga

Ceferino: pai de Madruga

Antônia: filha de Madruga e Eulália

Tobias: o filho mais velho de Madruga e Eulália.

Amália: esposa de Tobias

Esperança: filha de Madruga e Eulália

Bento: filho de Madruga e Eulália

Miguel: filho de Madruga e Eulália

Luís Filho: genro de Madruga e Eulália, casado com Antônia

Tio Justo: irmão de Madruga

Dona Aquilina: a bruxa, uma “meiga” da Galiza

Maria e Viriato, imigrantes portugueses, pais de Cláudio, soldado brasileiro na Itália na II Guerra Mundial. Ele volta, mas sofre problemas mentais provocados pela guerra.


O segundo capítulo começa com a história da família contada em 1º pessoa por Madruga, que nasceu em Sobreira, Pontevedra (Espanha). Com 13 anos, planeja a viagem ao Brasil, a América é o seu sonho, acha que não tem o que fazer naquele povoado, mata virtualmente os pais, tenta retirar todo o vínculo emocional, só assim poderia sobreviver na nova terra. Quem vai e fica emocionalmente dependente dos que ficam, não consegue enfrentar a dor da separação. Ele pede ajuda financeira (a passagem de navio) ao tio Justo, um sujeito solitário e irascível, que migrou para o Brasil, mas retornou, não deu certo.

O livro inteiro é destacável, são 705 páginas magistrais, por motivos óbvios, não vou poder destacar tudo o que eu gostaria. O trecho abaixo, tão atual (a obra foi escrita em 1984, mas poderia ser hoje) dito pelo filho de Madruga, é advogado e está muito insatisfeito com a falta de valores nobres que rege o país:

“– As nossas franquias institucionais sempre representaram uma farsa, padrinho. Começando pelo aparato jurídico que é capenga, amolece diante dos regimes fortes. Por isso nos tornamos todos tiranos. Da estirpe de Getúlio, Médici e outros mais. Oferecemos cafezinho às visitas, que mal nos chegam na soleira da porta, com a chibata na mão. Não temos feito outra coisa que dilapidar um patrimônio que uns chamam de nação, outros de país, ou de pátria. O Brasil vem mentindo para si mesmo a cada hora. E não existe pior elite que a nossa. Ela condena os fracos e os miseráveis ao extermínio ou ao exílio. O exílio do silêncio e da não participação social. Da privação dos direitos humanos.”
(Tobias ao padrinho Venâncio, p. 36)

O advogado Tobias defende as pessoas sem recursos contra a ditadura. Tem muitos problemas econômicos, enfrenta a mulher, pede empréstimos bancários, vai contra o pai, com quem não se dá bem, não gosta do seu autoritarismo, o considera um déspota. Tobias ia na contra- mão dos seus irmãos que acatavam as ordens do pai, que trabalhavam nos negócios dele junto com o genro puxa- saco Luís Filho. Madruga fez fortuna no Brasil.

No entanto, ser imigrante não é nada fácil, uma verdade transportada à ficção de Nélida:

Ganhar a vida, em um país estrangeiro, equivalia no início a dolorosas amputações. A perda da alma e da língua ao mesmo tempo. (p.67)

Essa obra nos conta costumes brasileiros e espanhóis, sob a ótica dos galegos (nascidos na Galiza). O sentimento imigrante é muito parecido, não importa a nacionalidade. Em muitos momentos identifiquei- me, infelizmente, com algumas coisas que não são muito agradáveis de sentir na própria pele, trechos da página 173:

O peso:

“(…) Parecia, então, estar arrastando Espanha às costas, como se fosse uma mochila de couro. Enquanto o Brasil, a despeito do seu conteúdo jovem e falsamente lírico, igualava- se em peso a uma pedra que devesse deslocar sozinho do chão.”

Só o esquecimento salva do mal- estar diário:

“– Não se pode conviver intensamente com dois países mortíferos como o Brasil e a Espanha. Você terá que abrandar um deles dentro da alma. De outro jeito, eles terminam por mata- lo (…)

A sensação de ser um forasteiro, ainda que morando há muitos anos fora:

“(…) Pondo os pés num país que, em movimentos díspares, retinha- o e expulsava- o seguidamente. Somos e não pudesse esquecer que o Brasil não fora a sua primeira manjedoura.”

Venâncio imigrou junto com Madruga. Ele era empregado deste, que enriqueceu com um hotel. Sorte de um e falta da mesma para outro. Venâncio é melancólico, não acaba de arraigar- se no Brasil e sofre. Não tem família, não tem riqueza, parece viver sem esperança. Madruga tem o consolo do dinheiro, do êxito, do sonho cumprido e a ainda família numerosa para completar.

A história acontece na década de 30, períodos políticos complicados, tanto no Brasil quanto na Espanha. No Brasil, o suicida e ditador Getúlio Vargas teve quatro mandatos como presidente que duraram 15 anos. Um golpe militar depôs o então presidente Washington Luiz para entrar Getúlio. Anos de revoltas e assassinatos da oposição, uma história confusa e complexa; na Espanha, também acontecia uma guerra civil (1936- 1939). Ganhou a pior parte, o ditador Francisco Franco, que governou o país durante 36 anos, até a sua morte em 1975. Um longo período em que a Espanha não teve liberdade de expressão, não teve imigração, também não existiam homossexuais e nenhum opositor, já que esses eram eliminados. O mundo estava em pé- de- guerra, em 1939, também explodiu a II Guerra Mundial. Veja (p.176):

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Quem quiser conhecer melhor a história de Olga Benário leia “Olga”, de Fernando Morais. Esse é um livro que ainda quero fazer uma resenha. A história trágica dessa mulher (e de muitos outros) foi promovida por Getúlio Vargas.

A diferença entre o Brasil e a Espanha? O brasileiro parece desconhecer a história do próprio país. Uma das principais ruas da cidade que eu morava em Feira de Santana, adivinha? “Avenida Getúlio Vargas”. Tenho certeza que a população pensa que foi algum herói. Já na Espanha, os símbolos franquistas da ditadura foram retirados das ruas, praças, cidades.

Os personagens estão inseridos nesse contexto político- social e suas vidas, medos, condutas são influenciados por esses fatos. Venâncio temia que a ditadura brasileira o expulsasse para a ditadura espanhola.

Passado e presente vão intercalando- se entre os cenário do Rio de Janeiro e de Sobreira, na Galiza.

Merece destaque a relação da galega Eulália com a sua fiel empregada Odete, negra, órfã, pobre e totalmente serviçal, sem vida própria. Vivia entregada a servir a patroa sem horários e direitos, muito menos comer à mesa com os patrões. Em 2016, continua igual em muitos lares do Brasil. Na realidade baiana que conheço mais, afirmo sem medo de errar, que muitas faxineiras, cozinheiras, babás, lavadeiras e passadeiras são tratadas praticamente como se não fossem seres humanos. O lugar delas é na cozinha, a relação não é como a de outro profissional qualquer, são tratadas de cima pra baixo, como era a relação do senhor da Casa Grande e do escravo da senzala, de Brasil Colônia. Eu vi, presenciei, ninguém me contou. Espero que algum com essa doença psicológica/social/moral leia isto e caia a cara de vergonha.

Outra coisa: “pegar pra criar” alguma criança pobre, como se fosse um favor, para usá- la como escrava na sua casa, para fazer todas as tarefas domésticas não é ser “irmão ou irmã de criação”, isso tem outro nome: ESCRAVIDÃO! Pois é, na Bahia isso ainda acontece. Irmão é irmão, não é escravo.

Eulália mantinha- se alheia aos acontecimentos políticos brasileiros e do mundo, centrava- se nos afazeres domésticos: “(…) Nada escraviza mais que a devoção integral às panelas, à roda de fiar, aos utensílios, que põem uma tela escura à vista.” (p.376)

A relação entre Madruga, a esposa Eulália e o amigo Venâncio era estranha. Fiquei desconfiada que Venâncio era apaixonado por Eulália e vice- versa, e que o filho mais velho de Eulália era dele, não de Madruga. Venâncio não casou, era muito reservado, solitário e muito preocupado com a situação política da Espanha, não conseguia esquecer da terra natal. Madruga o recriminava o tempo todo,  achava que isso o impedia de ser feliz no Brasil, queria que arranjasse uma mulher, tivesse família, mas Eulália desculpava o amigo e colocava panos quentes. Madruga acabou descobrindo que o amigo adoeceu. Quando o sonho se transforma em pesadelo, Venâncio (p. 183):

– Será que não existe na terra um só lugar que acalme um homem ferido?

Nem todo mundo tem estrutura emocional para ser imigrante. Já vi brasileiros na Espanha perderem a paz, a saúde, o juízo diante do fracasso, seja qual for. Muitos ficam prisioneiros das próprias decisões, não podem ir e nem ficar, mesmo porquê, muitos já nem têm para onde ir. Conheci brasileiros que ficaram com depressão, que se auto- mutilavam, que tiveram derrame, que entristeceram tanto afundando na depressão, que já nem sabiam quem eram. O lado B da imigração que ninguém conta. Se olhar nas redes sociais, parece que todos são ricos e felizes, enquanto carregam uma mochila de fracassos. E presta atenção: nem sempre é questão de dinheiro. Vi gente enlouquecer com a conta bancária recheada. Imigração é assunto complexo que mexe com perdas, como a convivência com a família. Uma ruptura com o passado e todo o conhecido, entre muitas outras coisas, que as pessoas mais sensíveis podem não suportar. Venâncio internou- se na Beneficência Espanhola (p. 185):

– Não estou louco, Eulália. Só preciso adaptar- me à realidade feita por homens como Madruga.

Esse livro fez- me pensar sobre a minha própria condição. A conclusão foi muito positiva. Eu venho de uma tradição imigrante, pais e avós, não somos de criar limo; aliás, a hera, o musgo me remete sempre à sujeira, parasitas, grude, feiúra. Eu deixo o musgo para as pedras, que acumulam taturanas, escorpiões, aranhas e lacraias. Descobri- me uma imigrante orgulhosa. A única coisa que me arrependo é de não ter mudado mais. Além das mudanças interiores, que devem ser constantes, como a de escolher quem deve estar ao meu lado.  A vida é movimento desde que o mundo é mundo; o contrário é a morte.

A história pula para 1969, o golpe militar no Brasil. Breta era militante e teve que exilar- se na Europa. Primeiro na Espanha com o avô, depois foi para a França.

A obra é contada sob várias perspectivas, em primeira e terceira pessoa. “É preciso sentir para saber”. O outro que vê de fora, julga e vê sem conhecimento de causa. Pode mudar a história inteira! As verdades mudam, depende de quem conta.

Há muitos trechos que desvendam a conduta sexual dos personagens, que tem relação direta com suas condutas sociais, psicológicas. Inclusive, daria uma tese interessante “A sexualidade na obra de Nélida Piñón”. Nesse livro e em “A casa da paixão”, já dá um bom material. Deixo como sugestão para quem tiver interesse na área.

A relação entre os irmãos é complicadíssima, amor e ódio. A relação entre os filhos e Madruga, idem. Não é uma história alegre, é triste e complexa. O que me fez chegar à conclusão: a família pode ser a pior inimiga.

O que senti falta nesse livro é uma mais descrição física mais detalhada dos personagens, houve pinceladas, mas tive dificuldade em imaginar a maioria deles. Venâncio magro e de nariz adunco; Madruga, encorpado, de olhos azuis, bonito, o mais bonito da família. Miguel, o mais bonito dos filhos, e pouco mais, não há muitos detalhes para ajudar na visualização dos personagens.

A dificuldade com a nossa língua, do diário de Venâncio, que serve como reflexão (p. 376):

A conquista desta língua portuguesa me é penosa. Trava- me a língua, quando falo. Ela é tirânica e traiçoeira, e não basta conhecê- la. sobretudo devo vencer aqueles sentimentos subalternos, disciplinares e canónicos, de que ela se reveste. Esta língua lusa, como todas as outras, organizou- se de forma a impedir que o povo tome a si e rompa- lhe os grilhões. Os senhores da língua sempre temeram que o povo convivesse com aquela camada subjacente da língua, capaz de conduzi-lo à apostasia do imaginário. À liberdade.

O Brasil tem um “karma”, uma sorte, destino ruim, não pelo seu início, mas porque ainda não se redimiu dos seus pecados. Estagnou. Os ricos de sempre, as famílias tradicionais, conquistaram a sua riqueza com sangue e exploração dos escravizados, mais frágeis e desvalidos; os novos ricos, idem, exploram a riqueza e mão-de-obra barata. Sempre desconfio dos que fazem fortuna, porque essa sempre depende da pobreza alheia. Infelizmente, isso está instituído. O Brasil não é um país justo. O abismo social e financeiro, o apartheid  continua no ano 2016. Tais diferenças são mais notórias ainda no norte- nordeste do país.

Tobias considera Venâncio o seu pai, na verdade, o seu padrinho. Ele não gosta, tal como Venâncio, de como Madruga fez a sua fortuna. Eles têm consciência dos problemas do Brasil e de como foi construído.

(…) O Brasil era todos nós. Desgarrados e melancólicos. Seríamos, em conjunto, as falências e aspirações desta nação. (p.385)

 Temos a sensação de que o brasileiro estende tapete vermelho para os estrangeiros, mas não é bem assim. Depende. Depende do bolso do estrangeiro. Se for recheado é bem aceito. Vemos a imigração pobre que chega da América do Sul e os haitianos, depois do terremoto, serem desprezados, mal recebidos. O mito do brasileiro “acolhedor e gente boa”, é isso, só um mito, já que é seletiva. Venâncio (p. 574):

– Quando desembarquei no Rio de Janeiro, lá pelos idos de 1913, fui recebido com suspeitas. Como se fosse um salteador, um assassino. O Brasil tinha vergonha da própria origem. E demonstrava um sentimento de oposição ao estrangeiro.

Esse livro me fez pensar sobre a história do nosso país. Quem somos? De quantas nacionalidades somos feitos? O Brasil composto de imigrantes de todas as raças, privilegiando umas mais que outras. O resultado não está sendo bom. O Brasil está em dívida, uma dívida muito alta e difícil de saldar. Viramos o século, mas parece que certas coisas nunca mudam.

A obra também vai te levar até a Galiza. Para quem se interessa por essa região da Espanha (ou não) é muito interessante.

A sina do imigrante, sair de onde saiu, mas não saber aonde irá terminar:

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Parece que a república dos nossos sonhos, de estrangeiros e nacionais, ainda é um projeto para as futuras gerações.


Nélida Piñón (Rio de Janeiro, 03/05/1937) é filha de Lino Piñon Muiños e Olivia Carmen Cuiñas Piñon, galegos. A sua origem foi o motivo da escritura dessa obra. Nélida entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1989 e foi a primeira mulher a presidi- la. Ganhou prêmios importantes como o Jabuti no Brasil e o Príncipe de Astúrias na Espanha.

Veja aqui a resenha de “O calor das coisas”, contos de Nélida e “A casa da paixão”.

A autora com sua cadelinha Susi (ela tem outro chamado “Gravetinho”. A escritora é solteira e não tem filhos, optou pela liberdade (inteligente e esperta!). As fotos foram tiradas na sua casa no Rio de Janeiro com vistas à Lagoa.

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img-645729-nelida-pinon20141125151416937558Fotos de Cadu Pilotto para a revista Caras


Nélida é uma das escritoras brasileiras mais lidas na Espanha. Aqui é possível encontrar sua obra em português e espanhol. Veja aqui nessa livraria em Madri seus livros na estante.

Eu tive o privilégio e  orgulho de entrevistar a autora para a Revista BrazilcomZ, no último mês de março. Linda entrevista, Nélida deu uma aula de literatura, de vida e humildade, realmente uma pessoa e escritora muito especial! Você pode ler online a revista (páginas 13-17):

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Eu sempre me sinto realizada depois de ler um livro assim, uma obra “master blaster”. A edição lida foi essa, da editora portuguesa Círculo de Leitores, que precisa ser revisada, há erros, não da autora, mas de quem diagramou o livro. Há palavras separadas inadequadamente, deslizes de revisão.

pinonPiñón, Nélida. A república dos sonhos. Círculo de Leitores, Lisboa, 2014. 705 páginas

Ps: Estou de férias e escrevi esse post do celular. De antemão, peço desculpas pelos eventuais erros no texto. Quando chegar em casa irei revisar.

Resenha: “O estrangeiro”, de Albert Camus


Essa é uma das leituras mais complicadas que já fiz. A análise não está completa, talvez nunca esteja, ainda estou pensando.

Depois de ter lido “A queda” e ter adorado, emendei com “O estrangeiro”, que é uma das obras mais conhecidas de Albert Camus. História complexa. Confesso que me faltam recursos “técnicos” em Psicologia para descrever a profundidade do personagem Meursault.

O livro é dividido em duas partes: a primeira nos conta quem é o personagem principal, suas relações, sentimentos e modo de vida; a segunda, as consequências do assassinato que cometeu.

Esse romance transcende tudo o que eu já li até agora, vai mais além do que eu conheço e entendo.  É uma parábola da condição do homem. Uma alegoria da fatalidade que resulta viver como se vive.

A história acontece na Argélia (terra natal do autor). Começa com a notícia do falecimento da mãe de Meursault comunicada através de um telegrama. Ele mora em Argel e a mãe em Marengo, distante duas horas. Ela morreu num asilo. Parece que a relação entre eles não era muito fluida, não se falavam todos os dias, ele não sabe ao certo o dia de sua morte. Assim começa o livro (p.11):

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe falecida. Enterro amanhã. Sentido pêsames”. Nada quer dizer. Talvez foi ontem.

Parece frieza, mas quem era sua mãe? Cuidou dele ou o abandonou? Em um brevíssimo momento cita o seu pai, nunca o conheceu. Ele pagava o asilo para a mãe, não a deixou desamparada. Mas, dependendo da sua visão do mundo, se tem a sua mãe em um pedestal e a considera um ser santificado, vai julgar e condenar Meursault como a maioria faz. Asilo virou sinônimo de coisa ruim, abandono, descaso, mesmo que a pessoa esteja sendo muito bem tratada, cuidada e amada. Camus era inteligentíssimo. “Brincou” com muitos dos pré- conceitos das pessoas.

Mersault é um ser racional, que aceita sem dramas as coisas ruins da vida. As boas, tampouco lhe emocionam. Um ser que parece carecer de sangue nas veias, mas isso tudo tem a ver com a verdade. Ele não teatraliza a sua existência.

No dia do velório da mãe, ele pensa em coisas triviais, a hora que vai pegar o ônibus, pensa no chefe que o dispensou do trabalho com má vontade e nem sequer deu os pêsames. Ele resolve essas coisas, viaja, almoça, com uma sensação de não acreditar ainda na morte de sua mãe. Pode ser um mecanismo de defesa, a negação. Quando você não pensa em algo, ela não existe.

A mãe estava há três anos no asilo. A relação entre eles era incômoda, não tinham assunto. Ela gostava de ficar no asilo, estava adaptada e tinha até um namorado.

Durante o processo judicial Meursault sofreu um julgamento paralelo mais forte em relação a sua mãe, do que o do assassinato do árabe. O crime não foi premeditado, foi em legítima defesa. Meursault foi ofuscado pelo sol na praia e disparou mais tiros do que os necessários. Mas ele já estava condenado antes de ser julgado.

Muitas resenhas por aí dizem que o protagonista é frio e que não ligou para a morte da mãe. Isso é ter lido O estrangeiro muito superficialmente, não leu as entrelinhas, não interpretou e isso é o mais importante de uma obra literária. Ler ao pé- da- letra não é ler.  Nem sei se vou conseguir me fazer entender aqui, mas sei que não foi simplesmente frieza.

Pensei em muitas coisas, até em sociopatia e psicopatia, no final, mas ainda refletindo, creio que Meursault é o mais equilibrado dos personagens, pelo menos age de acordo com o que pensa e sente, não como a maioria das pessoas na vida mesmo. Ser verdadeiro é coisa muito mal vista, todos estão para as aparências e para agradar os demais, não? Meursault é um símbolo de algo maior. A liberdade? A clareza, a sinceridade?

Não tenho capacidade para adivinhar o que quis dizer Camus com esse personagem, mas vou dar a minha opinião: todos somos Meursault. Quantas vezes você sorriu sem vontade? Fez muitas coisas sem vontade, porque era o estabelecido, você não tem liberdade de ser quem quer, quem é, por causa de regras sociais de conduta. Quantas vezes esteve com pessoas e lugares que não queria estar? Muitas, não? A diferença é que  Meursault não faz isso, ele nos revela atos e verdades incômodas, consegue ser livre dentro da prisão que é o viver. Isso fica bem claro no final. Na prisão, mas livre.

A linha entre ser “uma pessoa normal” e um assassino é muito sutil. Se você tem uma arma na mão e uma pessoa quer te machucar, porque já te machucou antes…se ela viesse na sua direção com uma faca, o que você faria? Esperaria ser esfaqueado ou atiraria na pessoa?

Não o condenaram pelo ato de matar alguém, mas por quem ele aparentava ser durante a sua vida. Foi julgado até por ter tomado um café- com- leite no velório da sua mãe e por não ter chorado. Por ter ido à praia e ao cinema com a sua namorada no dia seguinte. Tudo isso o condenou.

Tudo o que você pensa é bom? Você, leitor, também julgou Mersault.

Analise os seus pensamentos e ações e veja o quanto de Meursault existe em você. Ainda bem que o pensamento é livre, senão estaríamos todos, eu digo todos, condenados.

Quando você não demonstrar algo que a sociedade espera, será esmagado. Continue fingindo. Meursault é inocente. Ou somos todos culpados?

Leia  e coloque o personagem no banco dos réus. Brinque de juiz.

A edição espanhola lida:

13418727_619713974850833_7974081358851172287_nCamus, Albert. El extranjero. Alianza Editorial, Madrid, 2015. Páginas: 122

É nosso aniversário: oito anos falando sobre boa literatura!


Quem me avisou hoje foi o WordPress:

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Nesse mundo virtual tão volátil, onde tudo dura pouco, orgulho- me em celebrar 8 anos no ar! E sem apelação, sem best- sellers, sem mentiras, aqui realmente os livros são lidos, não lemos apenas sinopses ou Wikipédia. Infelizmente, nem todo mundo leva a literatura a sério nesse meio virtual, tanto em blogs, no YouTube e nas redes sociais, muitos estão apenas para conquistar seguidores e faturar com isso. Contudo, até isso eu vejo positivamente. Melhor falar de livros, mesmo que superficialmente, sem propriedade nenhuma, do que de outras coisas ruins, não?

Fico feliz sim, quando um post tem muitas visualizações, comentários, curtidas, compartilhamentos, mas a opinião alheia não é o que me motiva. No fundo, eu faço por mim mesma. Esse é o meu diário de leituras, a minha memória. Eu amo os livros, a literatura. Além disso, é a minha profissão. Eu tenho que viver no mundo das Letras para ser feliz. É um estilo de vida, independe de números, dinheiro, muito menos fama. É só amor. Amor não se explica.

Eu vou “comemorar” dividindo minha última leitura poética, que me rompeu por dentro, Drummond me faz chorar de beleza.

Essa semana achei umas coisas bacanas em um sebo ao lado da minha casa. Um dos livros é uma coletânea de Carlos Drummond de Andrade com seus mais lindos poemas. É uma edição argentina de 1978, bilingue espanhol- português. Chama assim “Amar- amargo y otros poemas”, com o “Soneto da esperança perdida” (belíssimo, primeiro verso “Perdi o bonde e a esperança”), “Mãos dadas” ( Adoro: “Não serei poeta de um mundo caduco”), “O lutador” (“Lutar com palavras/É a luta mais vã”), enfim, a mais bela coletânea que achei até agora.

Vou deixar aqui um fragmento de “Nosso tempo”, que é do livro “A rosa do povo” de 1945, mas que poderia ter sido escrito hoje para a atual situação política do Brasil, cai como uma luva:

I

Este é tempo de partido
Tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha- se em pó numa rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve- se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor do meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar- me
a cidade dos homens completos

Calo- me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam sentido, apenas querem explodir.

IV
É tempo de meio silêncio
de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele e a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

Agradeço a todos vocês que nos acompanham há tantos anos e também aos novos leitores/blogueiros que estão conhecendo o Falando agora. Fico feliz em conhecer tanta gente na mesma onda.

Muita coisa aconteceu nesses anos todos, nem dá pra contar tudo. Mas o saldo é muito positivo. E continuamos…

Um abraço a todos!

Fernanda Sampaio

Você sabe o que é “Borderline”?


“Borderline” é uma doença mental que muitas vezes é confundida com depressão ou síndrome bipolar.  A doença deixa a pessoa sempre no limite para o bem ou mal.  Acho interessante esse assunto e deixo aqui um release com uma dica de livro (ficção) que aborda o assunto:

Nas fronteiras de Alice, livro escrito por Marcelo Siqueira, discute como é possível reencontrar o amor, transcendendo questões como idade, doenças mentais e ética

Com mais de 80 mil fãs no Facebook, o livro Nas fronteiras de Alice do autor Marcelo Nogueira já é um sucesso. A obra aborda os complexos temas do transtorno de personalidade e do adultério entre um professor e uma aluna, porém mantendo a narrativa repleta de amor e suspense.

Nas Fronteiras de Alice é um romance contemporâneo, narrado como um flashback da vida do protagonista Yuri – um renomado professor de História de 40 anos de idade e filho de um desaparecido político durante a ditadura militar brasileira.

Casado e passando por um momento de reflexão na vida, Yuri conhece Alice durante um Simpósio em Porto Alegre. A jovem estudante de Literatura, possui uma personalidade plural e inconstante, além de uma beleza única.

“Não existia mais nada naquele instante, não havia cenário, personagens, contexto. Existia apenas aquela menina, aquela menina de saia xadrez que me deixou sólido, sem ar e suspenso da realidade que me rodeava. […] Era ela. Pequena, magra, de pele alva e de andar flutuante. Seus olhos levemente puxados, as maçãs do rosto elevadas que se harmonizavam com seu pequeno nariz um pouco adunco. Tinha uma boca desenhada com lábios vermelhos convi­dativos. Emoldurando esse exótico rosto de princesa de revista em quadrinhos, cabelos negros, lisos, mas com algumas ondula­ções, que cobriam sua nuca e mal chegavam a seus ombros.” (p. 33)

Com um jeito sincero, divertido e irônico, e também com um certo ar de mistério e tristeza no olhar, Alice conquista Yuri e os dois iniciam um romance inesperado de intensa entrega. Nesse relacionamento, cada um será exposto às suas fraquezas e desejos mais íntimos, provocando comentários e incompreensões de pessoas próximas, principalmente na questão das múltiplas personalidades.

“– Mas você não precisa ter medo de mim – disse quase triste.
– Eu não tenho medo de você – falei firmemente. – Conte-me mais.
– A Síndrome de Borderline afeta muito a vida social das pessoas, pois as dificulta em seus relacionamentos. Temos oscila­ções de humor e somos muito impulsivas, às vezes, tornamo-nos agressivas. Nós nos irritamos facilmente e perdemos o interesse rapidamente, por isso que não conseguimos manter amizades e relacionamentos por muito tempo e até mesmo” (p. 222)

Por ser um relacionamento proibido, ambos sofrerão as consequências das decisões tomadas. Nas Fronteiras de Alice é uma história de encontros, escolhas e descobertas. Divertida em alguns momentos e intensa em outros. A narrativa transmite para o leitor sensações de nostalgia, erotismo, paixão e cumplicidade, sendo a primeira parte de uma trilogia.

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Sobre o autor: Marcelo N. Siqueira é professor, arquivista, historiador e paleógrafo. Possui diversas publicações acadêmicas, mas este é seu romance de estreia, fruto de suas observações e vivências ao longo dos últimos anos. Sua paixão por literatura e música, sobretudo o jazz, é percebida ao longo de suas narrativas. Nas redes sociais, possui mais de cem mil seguidores, principalmente na fanpage de Nas fronteiras de Alice, que, em menos de seis meses, já atingiu a marca de dez milhões de visualizações. Marcelo é carioca, casado, tem dois filhos e mora no Rio de Janeiro.

(Texto fornecido pela editora)